Tenho, no meu escritório, um soberbo quadro com um circo. Olhando para a pintura vejo uma tenda realista, enquadrada por bandeiras de diversos países, muito rasgadas. Um pouco atrás, pastam um dromedário miúdo e um boi pouco boi, com uns chifres anormalmente longos.
Esperem um instante. É um quadro com efeitos sonoros? Oiço uma voz metalizada que chama a petizada para o circo? Alegria, alegria, alegria, vêm aí os palhaços? Mas não me lembro de uma tal pintura...!
Não, é a janela. Uma pequena janela, aliás, quase uma vigia: através dela, observo o «magnífico» e «internacional» circo de Montreal, que foi erguido mesmo defronte de minha casa, num descampado com muita erva. O meu filho está extasiado. «Um circo mesmo à porta de casa. Uau! Vamos, não vamos, pai? Vamos, não vamos?»
Os tempos não correm de feição para os circos. E mesmo na televisão, a concentração das mais estranhas e caducas vedetas e ex-vedetas candidatas a vedetas novamente (no mesmo sentido em que Soares foi um ex-Presidente candidato a Presidente novamente), a concentração dessas vedetas, escrevia eu, num «Circo das Celebridades», que deveria ter como efeito o redespertar da magia circense, acabou por ter o efeito contrário: convocou os descontentes, os amigos dos animais, fez reunir manifestações de pessoas que chamam a atenção para o facto de que os animais são maltratados e nenhum ser pode ser feliz na exiguidade e no desrespeito.
É politicamente incorrecto gostar-se de circo. E eu, que trago nos olhos ainda maravilhados da minha infância a experiência dos circos a que assisti e dos circos que eu próprio reproduzi, sentando amigos e familiares no meu quarto para lhes oferecer palhaçadas e magias, hesito sobre o que deverei ensinar ao meu filho. Posso deixá-lo amar qualquer coisa do circo? Ou treino-lhe os olhos para as malvadezas que o circo contém?
Eu tive o privilégio da inocência; o termo que uso carece de explicação: falo de «privilégio» no pior sentido da palavra, que é o de um bem que me coube numa injusta distribuição de bens, da qual saí favorecido.
O privilégio da inocência, que as crianças não possuem no tempo sábio, questionante, que é o nosso, tem que ver com o facto de eu ter conhecido, e amado, e brincado com muitas coisas que mais tarde viriam a ser banidas ou arrumadas do lado do pecado ou, pelo menos, do «politicamente incorrecto».
Nascido em Moçambique, filho de colonos, vivi feliz numa terra cujos limites a minha vista nunca alcançava, tão espacialmente diversa da Lisboa de ruas estreitas e escadinhas esconsas para onde me mandaram viver mais tarde.
Vivi sem dramas nem complexos: não questionava nem ouvira questionar a virtude da minha experiência colonial, de que não tinha consciência porque se tratava claramente, para mim, da «minha» casa na «minha» terra; não me sabia nem sentia opressor, nem filho de opressores, nem para mim existia a menor noção de «exploração de algo que nos não pertencia». Não tinha essa noção, porque a não tinham, possivelmente, os adultos que constituíam o meu círculo de laços e de convivência.
Fui servido por criados. Desculpem a palavra, mas é a única que devo empregar se não quero fugir da verdade. Fui «servido», sim: sem complexos, porque a minha sociedade era uma sociedade em que essa estrutura se apresentava como um dado simples, claro, certo na sua simplicidade e na sua clareza, sem os rasgões da vergonha ou da culpabilidade.
Do mesmo modo, soube de pessoas que caçavam, de alguns homens que eram «grandes» caçadores, e terei certamente admirado esses Clark Gables, num tempo em que me não tinham revelado a crueldade de se matarem animais. Tinha piedade dos cães esfomeados ou dos pássaros sofredores. Gostava de ver elefantes no Jardim Zoológico. Não seria capaz de fazer mal a um crocodilo indefeso (e dou este exemplo aparentemente absurdo porque me lembro de me exaltar com uns amigos que, do lado de cá do perímetro gradeado, atiravam paus a um crocodilo quieto como um tronco).
Sou, pois, de um tempo em que os circos faziam parte do imaginário das crianças.
A ida ao circo correspondia a um desses momentos sagrados, a um perfeito e feliz ritual do extasiamento.
Os palhaços eram o grande objectivo, mas não desdenhava os outros números e adorava os domadores, com os chicotes com que dirigiam animais obedientes ou relutantes. A justa questão que hoje se põe a propósito do modo como os animais circenses são tratados, do espaço que não têm ou da indignidade a que os sujeitam, se não mesmo crueldade, era uma questão que, para o dizer com uma simplicidade inaceitável, não me ocorreria. E, portanto, eu pude ser feliz sobre essas luzes e essas cores, sobre essa matéria do sonho, completamente ignorante de que, por vezes - naquele caso era precisamente o que se passava - a felicidade e o sonho dos meninos privilegiados são tecidos com o sofrimento, a exploração, a crueldade sobre os não-privilegiados.
Há, evidentemente, um preço a pagar.
O preço a pagar pela felicidade inocente é, mais tarde, a culpabilidade: éramos inocentes quando não tínhamos o direito a sê-lo.
Mas, olhando para a excitação do meu filho, «Uau, pai, vamos, não vamos?, um circo à porta de casa; quando os meus amigos souberem...», pergunto-me se a solução para a imperdoável inocência em que vivemos será, de facto, a sociedade da culpa em que os meninos são hoje educados.
Pergunto-me se será a ausência total, quase total, de inocência, a interdição da inocência, numa sociedade em que as crianças se culpabilizam por cada gesto seu e temem os gestos dos que as rodeiam; onde os adultos são, a seus olhos, potenciais monstros; onde o mínimo prazer vem embebido numa espécie de veneno; onde até o prazer de brincar com a água é imediatamente associado ao crime de «gastar» um bem escasso; onde comer doces é proibido porque se sabe bem de mais os efeitos e as consequências da coisa mais simples; onde o futuro ameaça e nada é inteiramente puro nem inteiramente são.
Pergunto-me.
quarta-feira, abril 12, 2006
segunda-feira, abril 10, 2006
AS MINHAS PASSAGENS PELO CÉU
Não resisto a transcrever esta passagem de um texto, da autoria de George Steiner, que me toca no seu sabor e saber profundamente proustianos:
«Por que é que eu não vou para o céu? Decerto por excelentes razões morais, mas também por razões muito práticas: já lá estive. Mas é o quê, o céu? A «Galleria» de Milão. Estou sentado diante de um capuccino autêntico, com «La Stampa», a «Frankfurter Allgemeine», «Le Monde» e o «Times». Tenho um bilhete para o Scala no bolso, e chegam até mim os dez ou doze aromas complexos da «Galleria»: o do chocolate da padaria, mas também o perfume das vinte livrarias (que se contam entre as melhores do mundo); o ruído dos passos das pessoas que vão à ópera ou ao teatro essa noite; a maneira que Milão tem de vibrar à nossa volta. Já lá estive e não preciso de um segundo [céu].»
Detenho-me a pensar nas minhas próprias viagens ao céu, nesses momentos perfeitos que todos teremos vivido um par de vezes na vida, e que a memória nos devolve quando queremos, transformados em puro mito, próximo e longínquo, como uma trama de sons, sabores - e a sensação egoista de que tudo serviu, desde o Génesis, só para permitir aquele único e fugaz pedaço de tempo.
A minha primeiro experiência do céu é vaga, porque eu era muito criança: ser conduzido, à noite, num automóvel. Não conseguirei, talvez, descrever o conjunto excelso de sensações e sentimentos em que me suspendia, nessa ideia de estar muito protegido numa espécie de concha fechada, mas com vidros, ouvindo, desatentamente, as conversas dos adultos - possivelmente a minha mãe e o meu pai, nos lugares da frente do carro -, imerso numa obscuridade levemente atenuada pelas luzes do «tablier», enquanto furávamos a noite imensa, o obscuro infinito, o desconhecido exterior, como a primitiva verdade do universo, que seria ameaçadora, que estava a um passo de se tornar ameaçadora, não o conseguindo, porque eu me encontrava do lado de dentro, num habitáculo sólido e cómodo, numa casa móvel. Suspirava de prazer. Não adormecia: deixava-me estar numa modorra perfeita.
E recordo o conteúdo já inumano, já quase angélico, desta experiência extrema da felicidade, que reinvento, hoje, de uma forma perfeitamente descontextualizada, ou quase: não sei que idade teria, ou que faria na Àfrica-do-sul (Johannesburg), nem com quem estava. Talvez com os meus tios. Quase certamente com os meus tios.
Sei só que era véspera de Natal. E que eu ia no automóvel, lá atrás, fascinado com a noite iluminada (mas sempre profunda e escura, sob a iluminação) até que os meus olhos se detiveram num imenso Pai Natal - mas seria mesmo tão grande como estou agora a vê-lo, ou é a imaginação da memória que mo refabrica assim? -, irresistível de cor e luz, muito vermelho e muito branco. Recordo que o minha surpresa era um dos muitos rostos da felicidade.
Para que conste, quando aprendi a conduzir e fazê-lo se tornou um hábito e, muitas vezes, uma obrigação, esse poder, esse Dom da felicidade que emergia no andar de automóvel à noite, se perdeu irremediavelmente.
Mas lembro-me de uma outra viagem ao céu.
Tento repeti-la episodicamente, torná-la um ritual, mas percebo que é cada vez menos possível.
Em primeiro lugar, porque tínhamos quinze anos - e nunca mais os teremos.
Estávamos o meu primo, o primo do meu primo e eu.
O primo do meu primo, que entretanto desapareceu de circulação, cortando amarras e relações com tudo e com todos, ofendido com o mundo inteiro, é outra das razões pelas quais um tal momento é irrevivível.
Eu vivia em Cascais e recebia-os. Iam dormir em minha casa, o que era sempre um autêntico espectáculo de euforia e gargalhadas, como se nos drogássemos, coisa de que, manifestamente, não tínhamos qualquer necessidade.
No momento que a memória fragilmente me devolve, estávamos os três sentados a uma mesa do Santini. O primo do meu primo raspava, com a fúria da gula, o fundo do seu copo, para não desperdiçar o mínimo vestígio do gelado. O senhor Santini, que ainda era vivo (mas falo de um tempo em que, como diria Àlvaro de Campos, estavam todos vivos ainda: o meu pai, o pai do meu primo...) aproximou-se e brincou com a fúria do Manel: «No tene doppo fondo» - já acabou mesmo, pá, os copos não têm duplo fundo...!
E ríamos perdidamente (o Manel com um pouco de vergonha: talvez tivesse principiado aí a sua raiva contra o mundo...), «sentindo», nos nossos bolsos (à maneira da magia do Scala, simbolizado no bilhete que George Steiner sabia trazer consigo), os bilhetes para um filme do Woody Allen (que também nunca mais foi o mesmo, nem me voltou a fazer rir da mesma maneira) num cinema Oxford, de Cascais, que entretanto se transformou num templo da IURD.
Algum dos meus leitores, se os há ainda (regularmente, parece-me de novo que os perco todos), gostaria de me evocar os seus céus?
«Por que é que eu não vou para o céu? Decerto por excelentes razões morais, mas também por razões muito práticas: já lá estive. Mas é o quê, o céu? A «Galleria» de Milão. Estou sentado diante de um capuccino autêntico, com «La Stampa», a «Frankfurter Allgemeine», «Le Monde» e o «Times». Tenho um bilhete para o Scala no bolso, e chegam até mim os dez ou doze aromas complexos da «Galleria»: o do chocolate da padaria, mas também o perfume das vinte livrarias (que se contam entre as melhores do mundo); o ruído dos passos das pessoas que vão à ópera ou ao teatro essa noite; a maneira que Milão tem de vibrar à nossa volta. Já lá estive e não preciso de um segundo [céu].»
Detenho-me a pensar nas minhas próprias viagens ao céu, nesses momentos perfeitos que todos teremos vivido um par de vezes na vida, e que a memória nos devolve quando queremos, transformados em puro mito, próximo e longínquo, como uma trama de sons, sabores - e a sensação egoista de que tudo serviu, desde o Génesis, só para permitir aquele único e fugaz pedaço de tempo.
A minha primeiro experiência do céu é vaga, porque eu era muito criança: ser conduzido, à noite, num automóvel. Não conseguirei, talvez, descrever o conjunto excelso de sensações e sentimentos em que me suspendia, nessa ideia de estar muito protegido numa espécie de concha fechada, mas com vidros, ouvindo, desatentamente, as conversas dos adultos - possivelmente a minha mãe e o meu pai, nos lugares da frente do carro -, imerso numa obscuridade levemente atenuada pelas luzes do «tablier», enquanto furávamos a noite imensa, o obscuro infinito, o desconhecido exterior, como a primitiva verdade do universo, que seria ameaçadora, que estava a um passo de se tornar ameaçadora, não o conseguindo, porque eu me encontrava do lado de dentro, num habitáculo sólido e cómodo, numa casa móvel. Suspirava de prazer. Não adormecia: deixava-me estar numa modorra perfeita.
E recordo o conteúdo já inumano, já quase angélico, desta experiência extrema da felicidade, que reinvento, hoje, de uma forma perfeitamente descontextualizada, ou quase: não sei que idade teria, ou que faria na Àfrica-do-sul (Johannesburg), nem com quem estava. Talvez com os meus tios. Quase certamente com os meus tios.
Sei só que era véspera de Natal. E que eu ia no automóvel, lá atrás, fascinado com a noite iluminada (mas sempre profunda e escura, sob a iluminação) até que os meus olhos se detiveram num imenso Pai Natal - mas seria mesmo tão grande como estou agora a vê-lo, ou é a imaginação da memória que mo refabrica assim? -, irresistível de cor e luz, muito vermelho e muito branco. Recordo que o minha surpresa era um dos muitos rostos da felicidade.
Para que conste, quando aprendi a conduzir e fazê-lo se tornou um hábito e, muitas vezes, uma obrigação, esse poder, esse Dom da felicidade que emergia no andar de automóvel à noite, se perdeu irremediavelmente.
Mas lembro-me de uma outra viagem ao céu.
Tento repeti-la episodicamente, torná-la um ritual, mas percebo que é cada vez menos possível.
Em primeiro lugar, porque tínhamos quinze anos - e nunca mais os teremos.
Estávamos o meu primo, o primo do meu primo e eu.
O primo do meu primo, que entretanto desapareceu de circulação, cortando amarras e relações com tudo e com todos, ofendido com o mundo inteiro, é outra das razões pelas quais um tal momento é irrevivível.
Eu vivia em Cascais e recebia-os. Iam dormir em minha casa, o que era sempre um autêntico espectáculo de euforia e gargalhadas, como se nos drogássemos, coisa de que, manifestamente, não tínhamos qualquer necessidade.
No momento que a memória fragilmente me devolve, estávamos os três sentados a uma mesa do Santini. O primo do meu primo raspava, com a fúria da gula, o fundo do seu copo, para não desperdiçar o mínimo vestígio do gelado. O senhor Santini, que ainda era vivo (mas falo de um tempo em que, como diria Àlvaro de Campos, estavam todos vivos ainda: o meu pai, o pai do meu primo...) aproximou-se e brincou com a fúria do Manel: «No tene doppo fondo» - já acabou mesmo, pá, os copos não têm duplo fundo...!
E ríamos perdidamente (o Manel com um pouco de vergonha: talvez tivesse principiado aí a sua raiva contra o mundo...), «sentindo», nos nossos bolsos (à maneira da magia do Scala, simbolizado no bilhete que George Steiner sabia trazer consigo), os bilhetes para um filme do Woody Allen (que também nunca mais foi o mesmo, nem me voltou a fazer rir da mesma maneira) num cinema Oxford, de Cascais, que entretanto se transformou num templo da IURD.
Algum dos meus leitores, se os há ainda (regularmente, parece-me de novo que os perco todos), gostaria de me evocar os seus céus?
domingo, abril 09, 2006
IDEIAS DE POUCAS PALAVRAS (VI)
Conheço um teste para separar infalivelmente a inteligência e a estupidez: aprender a fazer balões de pastilha elástica. Por alguma obscura razão, só os estúpidos conseguem fazê-los bem.
INSTINTO FATAL 2: CAÍ NA ARMADILHA
Encontrando-me sozinho à noite, com um raríssimo tempo livre para gastar, carente de cinema, esse saudoso ritual que abandonou praticamente os meus hábitos, vi-me diante de várias salas mas de muito pouca escolha: uns filmes já tinham principiado, outros interessavam-me nulamente.
Acabei por optar por um que, com efeito, também me não interessava, mas só moderadamente me não interessava: Instinto Fatal 2.
O problema que a crítica portuguesa erigiu como «o» problema a partir do qual se decide a importância de Instinto Fatal 2 é um problema que nada me diz: ou que nada diz à minha mania wittgensteiniana (para-wittgensteiniana, de facto, porque o que Wittgesntein realmente afirma é bem diferente) de que, sobre aquilo que está já dito e redito, mais vale fazer silêncio. Tal problema é: tem algum sentido uma sequela do Instinto Fatal, a não ser para Sharon Stone mostrar que, como escrevia alguém, «ainda está ali para as curvas»?
Passo, portanto, a uma outra questão, que, essa sim, me mereceu pelo menos a seguinte reflexão: como já acontecia no nº 1, aquilo que o filme quer construir como um fim absolutamente imprevisível e, mais do que isso, totalmente ambíguo - será, pergunta-se o espectador, que a última versão é a verdadeira?, não poderia a verdade ser, antes, qualquer uma das versões que foram sendo sucessivamente sugeridas ao longo do filme? -, é um fim elaborado de uma forma extremamente desonesta: não foram revelados indícios, nem semeadas pistas, nem sendo insinuadas possibilidades e, portanto, é ilegítima essa derradeira torsão, esse final caído violentamente do céu, que viola o espírito da história para poder surpreender-nos a todos.
Talvez, portanto, valha a pena falar deste filme sob esse aspecto: como um exemplo do que se não deve fazer. Uma história - e, mais do que todas, uma história «policial» - tem de supor um pacto com o leitor ou com o espectador. Só pode ser a evolução de uma situação que nos permita, a nós que a «lemos», ir conhecendo as personagens, nos seus perfis psicológicos, não de maneira a evitar a imprevisibilidade - o que seria um romance de mistério sem a «imprevisibilidade»? -, mas de maneira a que o leitor/espectador possa entrar no jogo, arriscando as suas previsões, retirando, também, as suas conclusões. A imprevisibilidade não lhe pode ser lançada à cara de lado nenhum, a partir de coisa nenhuma.
O cinema americano, que sabe tanto - e, aquilo que sabe, sabe infinitamente melhor do que outros «cinemas» -, esquece que a fraude é, certamente, surpreendente, mas nem toda a surpresa tem de ser uma fraude.
Acabei por optar por um que, com efeito, também me não interessava, mas só moderadamente me não interessava: Instinto Fatal 2.
O problema que a crítica portuguesa erigiu como «o» problema a partir do qual se decide a importância de Instinto Fatal 2 é um problema que nada me diz: ou que nada diz à minha mania wittgensteiniana (para-wittgensteiniana, de facto, porque o que Wittgesntein realmente afirma é bem diferente) de que, sobre aquilo que está já dito e redito, mais vale fazer silêncio. Tal problema é: tem algum sentido uma sequela do Instinto Fatal, a não ser para Sharon Stone mostrar que, como escrevia alguém, «ainda está ali para as curvas»?
Passo, portanto, a uma outra questão, que, essa sim, me mereceu pelo menos a seguinte reflexão: como já acontecia no nº 1, aquilo que o filme quer construir como um fim absolutamente imprevisível e, mais do que isso, totalmente ambíguo - será, pergunta-se o espectador, que a última versão é a verdadeira?, não poderia a verdade ser, antes, qualquer uma das versões que foram sendo sucessivamente sugeridas ao longo do filme? -, é um fim elaborado de uma forma extremamente desonesta: não foram revelados indícios, nem semeadas pistas, nem sendo insinuadas possibilidades e, portanto, é ilegítima essa derradeira torsão, esse final caído violentamente do céu, que viola o espírito da história para poder surpreender-nos a todos.
Talvez, portanto, valha a pena falar deste filme sob esse aspecto: como um exemplo do que se não deve fazer. Uma história - e, mais do que todas, uma história «policial» - tem de supor um pacto com o leitor ou com o espectador. Só pode ser a evolução de uma situação que nos permita, a nós que a «lemos», ir conhecendo as personagens, nos seus perfis psicológicos, não de maneira a evitar a imprevisibilidade - o que seria um romance de mistério sem a «imprevisibilidade»? -, mas de maneira a que o leitor/espectador possa entrar no jogo, arriscando as suas previsões, retirando, também, as suas conclusões. A imprevisibilidade não lhe pode ser lançada à cara de lado nenhum, a partir de coisa nenhuma.
O cinema americano, que sabe tanto - e, aquilo que sabe, sabe infinitamente melhor do que outros «cinemas» -, esquece que a fraude é, certamente, surpreendente, mas nem toda a surpresa tem de ser uma fraude.
UM CRIMINOSO COM UM JOELHO MAU (III)
Tratava-se, então, de proceder como?
O senhor X tinha uma hora de absoluta solidão para agir: levantaria a tampa da caixa infernal em que o fechavam e, mesmo em cuecas (porque ninguém o veria nessa figura: o bairro era praticamente um deserto àquela hora, e a única pessoa que, às vezes, por ali passava, era um cego), ou em cuecas e, quando muito, uma camisola de lã que enfiasse num instantinho, para não adoecer com a brusca mudança de temperatura, saltaria pela janela que a secretária do Henriques deixava entreaberta, correria até sua casa, entraria, aproximar-se-ia de sua mulher, pegando, de caminho, numa faca de cozinha e, apanhando dona X desprevenida, talvez até de costas (sonhara tantas vezes com a cena), esfaqueá-la-ia até à morte. Simples. Básico. Perfeito. Partiria vasos, desarrumaria um pouco, roubaria dinheiro de gavetas de modo a que as culpas pudessem recair num intruso qualquer, um ladrão. Depois, sairia de casa em corrida, subiria pela janela do Henriques, reentraria na sala da sauna, por fim na caixa do inferno, certamente suado - o que não fazia a menor diferença porque, na sauna, era justamente suado que esperavam vê-lo quando o fossem desligar.
Na décima sessão, quando o tempo urgia porque só faltavam mais duas para concluir o tratamento, tomou a decisão.
Havia riscos no seu plano. Mas os riscos resumiam-se à possibilidade de alguma coisa não suceder como sucedia habitualmente.
Por exemplo: a secretária chinesa, até por causa das suas artrozes, nunca aparecia a não ser que ele gritasse por ela. Mas não poderia, por qualquer razão, naquele dia, aparecer e não o ver na sauna?
As ruas estavam sempre vazias. E, se passava alguém, era, como sabia, um senhor cego. Mas não poderia nesse dia, por azar, passar outra pessoa, um rapaz, uma senhora...?
Tinha de avançar. Não podia preocupar-se agora com os riscos. Era pegar ou largar a única oportunidade de uma vida horrível. Abriu a tampa. Correu, nas suas cuecas de ursinhos, até à cadeira onde pousara a roupa. Tentou vestir uma camisola. Mas os braços daquela espécie de embrulho de lã estavam como que amarrados um no outro. Desistiu da camisola. Enervava-se com o tempo a passar. Calçou uns sapatos de borracha. E, em cuecas, tronco nu e sapatos, sentou-se à janela, com as pernas voltadas para o exterior, prontas para o salto.
Para o salto, escrevi bem. Porque, repentinamente, apercebeu-se de que a altura era enorme. Foi deslizando como uma serpente, os dedos enclavinhados no parapeito, o corpo descendo pelo lado de fora, desenrolando-se, encostado à parede...! Mas, mesmo assim, todo esticado, os seus pés não tocavam no passeio. Longe disso. Estava pendurado, com os dedos a tremer pelo esforço para o manterem preso à janela. Considerou tornar a subir: impossível. Não tinha forças nos braços para puxar por si até lá acima de novo. Estava arrependido de toda aquela loucura. Ele não era um assassino. Era um cobarde. Por que razão um homem que não tem sequer coragem para se divorciar da mulher que odeia, haveria de ter coragem para matá-la?
Temia largar-se, saltar, aterrar no chão. Não podia gritar por socorro. Não podia, em suma, fazer coisa alguma. Estava perdido.
Nesse momento, quando a situação parecia tão complicada que nada seria capaz de a tornar pior para si, o joelho, o seu joelho, o seu joelho mau, principiou a doer. Mas a doer tanto, tão inimaginavelmente como já quase não lhe voltara a doer desde que iniciara a série de massagens...
E sob efeito da dor atroz, os dedos abriram-se-lhe todos, como cabelos eriçados.
E o seu corpo tombou.
O senhor X caía, pesada e dolorosamente, sobre um cão: era o cão do cego que costumava passar por ali àquela hora, rente à parede, ligando-se ao muro pela bengala branca.
O cão não ganiu, uivou de susto e dor.
O cego, em pânico, sentindo-se assaltado, percebendo vagamente que lhe roubavam o cão, seu único amigo nesta vida, espadeirou com a bengala em todas as direcções. E acertou regularmente em quase todo o corpo do senhor X.
Quando a secretária chinesa ouviu tocar a campainha e veio abrir a porta da rua, deu de caras, com um pequeno grito de surpresa, com o mesmo homem, o mesmo senhor X que, ainda não havia meia hora, tinha deixado a marinar no caixote.
O senhor X estava de tronco nu.
Vestia as suas cuecas de ursinhos, mas muito rasgadas.
Num dos pés, um sapato de borracha. O outro, descalço, era um pé de esqueleto, era um conjunto de ossos arrastando-se.
Respirava com dificuldade. Encurvava-se ligeiramente, só ligeiramente, como se quisesse manter um último e improvável resto ou rasto de dignidade.
Havia sangue em toda a parte. No peito, no rosto, no joelho.
Disse:
- Caí da janela!
A secretária do Henriques, Henriques esse que também aparecia lá ao fundo, a mastigar como de costume, não podia crer.
- Como? - perguntou ela.
- O que foi? - mastigou o Henriques.
- A sauna estava muito quente - explicou o senhor X, ensaiando um sorriso. Mas era o sorriso mais dorido da sua vida. - Tive de ir respirar à janela. E caí.
Imaginou a sua chegada a casa, onde a mulher também lhe perguntaria, com a sua voz ríspida:
- Que é que te aconteceu?
E desatou a chorar.
O senhor X tinha uma hora de absoluta solidão para agir: levantaria a tampa da caixa infernal em que o fechavam e, mesmo em cuecas (porque ninguém o veria nessa figura: o bairro era praticamente um deserto àquela hora, e a única pessoa que, às vezes, por ali passava, era um cego), ou em cuecas e, quando muito, uma camisola de lã que enfiasse num instantinho, para não adoecer com a brusca mudança de temperatura, saltaria pela janela que a secretária do Henriques deixava entreaberta, correria até sua casa, entraria, aproximar-se-ia de sua mulher, pegando, de caminho, numa faca de cozinha e, apanhando dona X desprevenida, talvez até de costas (sonhara tantas vezes com a cena), esfaqueá-la-ia até à morte. Simples. Básico. Perfeito. Partiria vasos, desarrumaria um pouco, roubaria dinheiro de gavetas de modo a que as culpas pudessem recair num intruso qualquer, um ladrão. Depois, sairia de casa em corrida, subiria pela janela do Henriques, reentraria na sala da sauna, por fim na caixa do inferno, certamente suado - o que não fazia a menor diferença porque, na sauna, era justamente suado que esperavam vê-lo quando o fossem desligar.
Na décima sessão, quando o tempo urgia porque só faltavam mais duas para concluir o tratamento, tomou a decisão.
Havia riscos no seu plano. Mas os riscos resumiam-se à possibilidade de alguma coisa não suceder como sucedia habitualmente.
Por exemplo: a secretária chinesa, até por causa das suas artrozes, nunca aparecia a não ser que ele gritasse por ela. Mas não poderia, por qualquer razão, naquele dia, aparecer e não o ver na sauna?
As ruas estavam sempre vazias. E, se passava alguém, era, como sabia, um senhor cego. Mas não poderia nesse dia, por azar, passar outra pessoa, um rapaz, uma senhora...?
Tinha de avançar. Não podia preocupar-se agora com os riscos. Era pegar ou largar a única oportunidade de uma vida horrível. Abriu a tampa. Correu, nas suas cuecas de ursinhos, até à cadeira onde pousara a roupa. Tentou vestir uma camisola. Mas os braços daquela espécie de embrulho de lã estavam como que amarrados um no outro. Desistiu da camisola. Enervava-se com o tempo a passar. Calçou uns sapatos de borracha. E, em cuecas, tronco nu e sapatos, sentou-se à janela, com as pernas voltadas para o exterior, prontas para o salto.
Para o salto, escrevi bem. Porque, repentinamente, apercebeu-se de que a altura era enorme. Foi deslizando como uma serpente, os dedos enclavinhados no parapeito, o corpo descendo pelo lado de fora, desenrolando-se, encostado à parede...! Mas, mesmo assim, todo esticado, os seus pés não tocavam no passeio. Longe disso. Estava pendurado, com os dedos a tremer pelo esforço para o manterem preso à janela. Considerou tornar a subir: impossível. Não tinha forças nos braços para puxar por si até lá acima de novo. Estava arrependido de toda aquela loucura. Ele não era um assassino. Era um cobarde. Por que razão um homem que não tem sequer coragem para se divorciar da mulher que odeia, haveria de ter coragem para matá-la?
Temia largar-se, saltar, aterrar no chão. Não podia gritar por socorro. Não podia, em suma, fazer coisa alguma. Estava perdido.
Nesse momento, quando a situação parecia tão complicada que nada seria capaz de a tornar pior para si, o joelho, o seu joelho, o seu joelho mau, principiou a doer. Mas a doer tanto, tão inimaginavelmente como já quase não lhe voltara a doer desde que iniciara a série de massagens...
E sob efeito da dor atroz, os dedos abriram-se-lhe todos, como cabelos eriçados.
E o seu corpo tombou.
O senhor X caía, pesada e dolorosamente, sobre um cão: era o cão do cego que costumava passar por ali àquela hora, rente à parede, ligando-se ao muro pela bengala branca.
O cão não ganiu, uivou de susto e dor.
O cego, em pânico, sentindo-se assaltado, percebendo vagamente que lhe roubavam o cão, seu único amigo nesta vida, espadeirou com a bengala em todas as direcções. E acertou regularmente em quase todo o corpo do senhor X.
Quando a secretária chinesa ouviu tocar a campainha e veio abrir a porta da rua, deu de caras, com um pequeno grito de surpresa, com o mesmo homem, o mesmo senhor X que, ainda não havia meia hora, tinha deixado a marinar no caixote.
O senhor X estava de tronco nu.
Vestia as suas cuecas de ursinhos, mas muito rasgadas.
Num dos pés, um sapato de borracha. O outro, descalço, era um pé de esqueleto, era um conjunto de ossos arrastando-se.
Respirava com dificuldade. Encurvava-se ligeiramente, só ligeiramente, como se quisesse manter um último e improvável resto ou rasto de dignidade.
Havia sangue em toda a parte. No peito, no rosto, no joelho.
Disse:
- Caí da janela!
A secretária do Henriques, Henriques esse que também aparecia lá ao fundo, a mastigar como de costume, não podia crer.
- Como? - perguntou ela.
- O que foi? - mastigou o Henriques.
- A sauna estava muito quente - explicou o senhor X, ensaiando um sorriso. Mas era o sorriso mais dorido da sua vida. - Tive de ir respirar à janela. E caí.
Imaginou a sua chegada a casa, onde a mulher também lhe perguntaria, com a sua voz ríspida:
- Que é que te aconteceu?
E desatou a chorar.
sábado, abril 08, 2006
UM CRIMINOSO COM UM JOELHO MAU (II)
Para quem quer que olhasse para o crime de fora, se realmente o viesse a cometer, dificilmente o senhor X cairia na lista dos suspeitos. De que móbil o acusariam?
Dona X não possuía nenhum pecúlio à parte, de que ele pudesse apropriar-se; o senhor X não era beneficiário de nenhum testamento dela, nem de nenhum seguro.
Todos os motivos que tinha para a eliminar eram invisíveis para os outros. Motivos psicológicos. E estéticos.
Nem sequer a odiava por ela ser tão feia por dentro e por fora. Odiava-a por ter sido tão bela. Odiava-se a si mesmo porque se deixara enganar. Como se o casamento fosse uma fraude; como se, logo no momento em que saíam da igreja, ainda os convidados lhes lançavam arroz e já ela tivesse começado a mudar.
Primeiro, fora a voz. Nas mulheres que mudam com o casamento, pensava o senhor X, a voz é sempre o primeiro indício. Como sucede com os adolescentes na idade do caixote.
Depois, as formas. Todas as formas, aliás: as do corpo e as da personalidade.
O senhor X continha-se no dia-a-dia. Raramente gritava ou reagia ameaçadoramente. Aprendia a conviver com esta mulher que não escolhera.
Mas tudo quanto ela fazia o enervava: a sua maneira ríspida de falar, como se também o não suportasse, as expressões que empregava, o bater dos saltos secos dos sapatos no chão, o nariz pontiagudo, aquele último suspiro que ela dava ao entrar para a cama (ele não conseguia acalmar-se e preparar-se para dormir enquanto o raio do suspiro não fosse solto, noite após noite), um certo modo, que considerava repelente, de ela coçar a cabeça, introduzindo a unha grande e pintada por entre os cabelos, a sua total incompreensão de todos os desejos dele, os seus interesses, os seus gostos...
Passava vinte e quatro horas de cada dia planeando matá-la. Era uma obssessão que acabaria por matá-lo a ele. Sabia que nunca ousaria fazê-lo. Limitava-se a compor esquemas, hipóteses, como quem escreve romances.
Mas ali, fechado na caixa quente do Henriques, tinha a possibilidade única.
Era pegar ou largar.
CONTINUA
Dona X não possuía nenhum pecúlio à parte, de que ele pudesse apropriar-se; o senhor X não era beneficiário de nenhum testamento dela, nem de nenhum seguro.
Todos os motivos que tinha para a eliminar eram invisíveis para os outros. Motivos psicológicos. E estéticos.
Nem sequer a odiava por ela ser tão feia por dentro e por fora. Odiava-a por ter sido tão bela. Odiava-se a si mesmo porque se deixara enganar. Como se o casamento fosse uma fraude; como se, logo no momento em que saíam da igreja, ainda os convidados lhes lançavam arroz e já ela tivesse começado a mudar.
Primeiro, fora a voz. Nas mulheres que mudam com o casamento, pensava o senhor X, a voz é sempre o primeiro indício. Como sucede com os adolescentes na idade do caixote.
Depois, as formas. Todas as formas, aliás: as do corpo e as da personalidade.
O senhor X continha-se no dia-a-dia. Raramente gritava ou reagia ameaçadoramente. Aprendia a conviver com esta mulher que não escolhera.
Mas tudo quanto ela fazia o enervava: a sua maneira ríspida de falar, como se também o não suportasse, as expressões que empregava, o bater dos saltos secos dos sapatos no chão, o nariz pontiagudo, aquele último suspiro que ela dava ao entrar para a cama (ele não conseguia acalmar-se e preparar-se para dormir enquanto o raio do suspiro não fosse solto, noite após noite), um certo modo, que considerava repelente, de ela coçar a cabeça, introduzindo a unha grande e pintada por entre os cabelos, a sua total incompreensão de todos os desejos dele, os seus interesses, os seus gostos...
Passava vinte e quatro horas de cada dia planeando matá-la. Era uma obssessão que acabaria por matá-lo a ele. Sabia que nunca ousaria fazê-lo. Limitava-se a compor esquemas, hipóteses, como quem escreve romances.
Mas ali, fechado na caixa quente do Henriques, tinha a possibilidade única.
Era pegar ou largar.
CONTINUA
sexta-feira, abril 07, 2006
UM CRIMINOSO COM UM JOELHO MAU (I)
Como, no Inverno, as dores no joelho se tornavam lancinantes, pôs-se duas ou três vezes por semana nas mãos do Henriques, que era um massagista particular e morava muito próximo dele.
O Henriques encontrava-se no indefinido limiar entre o autêntico e competente mecânico de ossos e o mero aldrabão. Onde passava de um a outro, era difícil de perceber.
Recebia o nosso homem a secretária do Henriques, uma chinesa magra e franzina, que também sofria dos ossos (o que não seria a melhor das propagandas) e o encaminhava para uma marquise.
O senhor X punha-se em cuecas.
Henriques aparecia por fim, ainda a mastigar o almoço e a limpar os dentes com deslocações da língua no interior da boca, e atirava-se-lhe ao joelho.
Massajava-o com uma minúcia paciente; aos olhos de X, o que, precisamente, traía o seu carácter de «aldrabão», era o imoderado gosto por uns aparelhómetros incredíveis, umas cintas almofadadas que lhe envolviam o joelho e eram ligadas à corrente ou, então, uma trapalhada com um polo positivo e um polo negativo que era posta a vibrar sobre a sua dor, sob efeito de um interruptor que o Henriques manipulava um pouco empiricamente: «E agora, dói muito? Assim está melhor...?»
Havia pomadas, mais uma meia hora de massagens e o «Grand Finale», a derradeira tortura: a sauna.
Ficava numa sala sozinho, dentro de uma caixa, com a cabeça de fora.
A senhora chinesa ligava os botões, deixava-lhe uma toalha turca à volta do queixo, para que não escapasse o mínimo calor pelo orifício por onde lhe passava o pescoço para fora da caixa, e ali se deixava derreter. Estava no inferno. Suava abundantemente. Quase desmaiava.
Pensava, ao fim de uns minutos: «Vou pedir que me tirem daqui. Já não aguento mais!», mas, logo após, «Vá, só mais um minuto», e depois, «Vou gritar, já chega disto», e a seguir «Só mais um pouco», até que os dois pensares contrários, «Não aguento nem mais um pouco» e «Vou aguentar só um pouco mais» acabavam por se confundir, tornando-se num mesmo e único estranhíssimo pensamento.
Com o tempo, semana atrás de semana, o senhor X conseguia acalmar-se e apreciar aquela hora a sós consigo. Aproveitava a rara oportunidade para passar em revista os seus dias e os seus problemas.
Olhava pela janela que a secretária do Henriques, lamentando-se muito por causa das suas artrozes e artrites, deixava entreaberta para que ele se distraísse.
Um dia, perguntou-se se não veria dali a própria casa. E esforçando-se, deslocando o seu pescoço tanto quanto lhe era possível naquela prisão, compreendeu que podia, dali mesmo, fixar uma janela de sua casa e, àquela hora, assistir à chegada da sua mulher, a única mulher que odiava no mundo inteiro.
E, meio drogado pelo calor que lhe derretia o corpo mas, aparentemente, lhe vivificava o espírito, concebeu o plano perfeito para eliminá-la sem deixar qualquer vestígio.
A melhor das formas.
A forma que a sorte, a sorte de estar na sauna precisamente àquela hora, naquelas condições, lhe concedia - e que talvez nunca mais se lhe oferecesse com tanta simplicidade.
CONTINUA
O Henriques encontrava-se no indefinido limiar entre o autêntico e competente mecânico de ossos e o mero aldrabão. Onde passava de um a outro, era difícil de perceber.
Recebia o nosso homem a secretária do Henriques, uma chinesa magra e franzina, que também sofria dos ossos (o que não seria a melhor das propagandas) e o encaminhava para uma marquise.
O senhor X punha-se em cuecas.
Henriques aparecia por fim, ainda a mastigar o almoço e a limpar os dentes com deslocações da língua no interior da boca, e atirava-se-lhe ao joelho.
Massajava-o com uma minúcia paciente; aos olhos de X, o que, precisamente, traía o seu carácter de «aldrabão», era o imoderado gosto por uns aparelhómetros incredíveis, umas cintas almofadadas que lhe envolviam o joelho e eram ligadas à corrente ou, então, uma trapalhada com um polo positivo e um polo negativo que era posta a vibrar sobre a sua dor, sob efeito de um interruptor que o Henriques manipulava um pouco empiricamente: «E agora, dói muito? Assim está melhor...?»
Havia pomadas, mais uma meia hora de massagens e o «Grand Finale», a derradeira tortura: a sauna.
Ficava numa sala sozinho, dentro de uma caixa, com a cabeça de fora.
A senhora chinesa ligava os botões, deixava-lhe uma toalha turca à volta do queixo, para que não escapasse o mínimo calor pelo orifício por onde lhe passava o pescoço para fora da caixa, e ali se deixava derreter. Estava no inferno. Suava abundantemente. Quase desmaiava.
Pensava, ao fim de uns minutos: «Vou pedir que me tirem daqui. Já não aguento mais!», mas, logo após, «Vá, só mais um minuto», e depois, «Vou gritar, já chega disto», e a seguir «Só mais um pouco», até que os dois pensares contrários, «Não aguento nem mais um pouco» e «Vou aguentar só um pouco mais» acabavam por se confundir, tornando-se num mesmo e único estranhíssimo pensamento.
Com o tempo, semana atrás de semana, o senhor X conseguia acalmar-se e apreciar aquela hora a sós consigo. Aproveitava a rara oportunidade para passar em revista os seus dias e os seus problemas.
Olhava pela janela que a secretária do Henriques, lamentando-se muito por causa das suas artrozes e artrites, deixava entreaberta para que ele se distraísse.
Um dia, perguntou-se se não veria dali a própria casa. E esforçando-se, deslocando o seu pescoço tanto quanto lhe era possível naquela prisão, compreendeu que podia, dali mesmo, fixar uma janela de sua casa e, àquela hora, assistir à chegada da sua mulher, a única mulher que odiava no mundo inteiro.
E, meio drogado pelo calor que lhe derretia o corpo mas, aparentemente, lhe vivificava o espírito, concebeu o plano perfeito para eliminá-la sem deixar qualquer vestígio.
A melhor das formas.
A forma que a sorte, a sorte de estar na sauna precisamente àquela hora, naquelas condições, lhe concedia - e que talvez nunca mais se lhe oferecesse com tanta simplicidade.
CONTINUA
terça-feira, abril 04, 2006
QUEM CONFERE VALOR À OBRA DE ARTE?
1. Tenho realmente de dizer que, mesmo quando nos compreendemos mal ou nos incompreendemos mutuamente de todo - o que sucede amiúde porque somos, manifestamente, duas pessoas muito diferentes uma da outra -, a extraordinária leitora que é sm consegue fazer, dos seus desacordos em relação ao que eu escrevo, uma autêntica corrente eléctrica de meditação e de luz. Para mim, os nossos desacordos têm valido como um verdadeiro tratado da discordância: de como esta pode ser um exercício fascinante de comunicação e de encontro no desencontro.
2. O seu último comentário, sobre o que é ser um escritor, e o meu canhestro comentário ao seu comentário, inspiram-me a pensar acerca do que eu penso disso; ou, ainda melhor: a pensar acerca do que eu não tinha pensado.
3. Alargo o problema à Arte em geral.
Pergunto: o que - ou quem - decide o valor de uma obra de Arte, quem determina o seu merecimento, a sua beleza, a sua qualidade?
Diria, antes de mais, que há um valor ideal, platónico, que não depende sequer de que haja um receptor, ou um ouvinte, ou um leitor dessa obra.
Da mesma maneira que há uma verdade matemática que subsiste por si, e seria igual a si mesma ainda que não existissem homens, nem se tivesse inventado a matemática - não foram os homens que convencionaram que dois mais dois «deveriam» ser quatro -, isto é, da mesma maneira que há, na verdade matemática, algo que não é meramente humano nem cultural, ainda que precise da humanidade e da cultura para se manifestar, também penso que uma melodia, uma pintura, um poema ou um romance podem ser em si mesmos magníficos, ainda que lhes falte um receptor, ainda que ninguém os oiça, nem veja, nem leia; ainda que desapareçam para todo o sempre sem nunca terem sido percepcionados por nenhum ser humano.
Por outras palavras: uma obra de Arte vale, primeiramente, aquilo que vale em si mesma, segundo um sentido ideal que pode até estar destinado a nunca ser decifrado. (A obra de Kafka, sabemo-lo, esteve perto de ser devorada pelo fogo. George Steiner lembra-nos que a noiva de Buchner queimou num fogão o manuscrito de «Arentino», que deveria ser a sua obra-prima. O que estes dois exemplos nos fazem pensar é que: 1. A obra de Kafka, mesmo que o seu amigo a tivesse queimado, seria, de algum modo, num mundo inteligível, o que entretanto sabemos hoje que é; 2. Não duvidamos de que «Arentino», que não existe corporeamente, que não está cá, «é», contudo, uma obra-prima).
4. Em segundo lugar - e neste ponto divirjo completamente de sm - a obra é constituída no seu merecimento, no seu valor, pelo «reconhecimento», mas não pelo reconhecimento do «público» (o público é volúvel e as mais das vezes ignorante) e sim pelo dos homens que, na época do artista em causa, têm o dever moral e estético de o compreenderem. Os que possuem cultura e conhecimentos, os que possuem instrumentos para uma apreciação profunda e rigorosa. Os críticos. Os estudiosos. Enganam-se? Sim senhor. Cometem erros? A História está pejada de exemplos. Falta-lhes o distanciamento necessário para procederem a um juízo justo? É verdade. São os mesmos a quem escapa o génio dos seus contemporâneos, os que recusam Proust (veja-se o caso de André Gide...). Mas eles são, naturalmente, os que detêm os instrumentos mais afinados e penetrantes e, com eles, o dever moral de se não enganarem. Ou de o não fazerem de ânimo leve.
5. Em última análise, bem entendido, o tempo falará mais alto. E mais surpreendentemente. A longo prazo, cabe-lhe a última palavra: será o Grande Juiz, o Derradeiro Deus, o Decisivo Escrutinador.
Eu diria que, neste moroso e complicado processo, neste difícil acerto e concerto de tão diferentes factores, o que menos importância há-de ter é a quantidade de seguidores seus contemporâneos que um artista conseguiu convencer.
Muitos dos mais elogiados autores no próprio tempo tornaram-se, depois, inteiramente desconhecidos. Foram varridos.
Pelo contrário, alguns dos mais vilipendiados, perseguidos, troçados e incompreendidos traziam afinal, no seu porvir, uma inesperada Glória póstuma.
6. O que restará, no meio disto tudo, de uma Margarida Rebelo Pinto?
2. O seu último comentário, sobre o que é ser um escritor, e o meu canhestro comentário ao seu comentário, inspiram-me a pensar acerca do que eu penso disso; ou, ainda melhor: a pensar acerca do que eu não tinha pensado.
3. Alargo o problema à Arte em geral.
Pergunto: o que - ou quem - decide o valor de uma obra de Arte, quem determina o seu merecimento, a sua beleza, a sua qualidade?
Diria, antes de mais, que há um valor ideal, platónico, que não depende sequer de que haja um receptor, ou um ouvinte, ou um leitor dessa obra.
Da mesma maneira que há uma verdade matemática que subsiste por si, e seria igual a si mesma ainda que não existissem homens, nem se tivesse inventado a matemática - não foram os homens que convencionaram que dois mais dois «deveriam» ser quatro -, isto é, da mesma maneira que há, na verdade matemática, algo que não é meramente humano nem cultural, ainda que precise da humanidade e da cultura para se manifestar, também penso que uma melodia, uma pintura, um poema ou um romance podem ser em si mesmos magníficos, ainda que lhes falte um receptor, ainda que ninguém os oiça, nem veja, nem leia; ainda que desapareçam para todo o sempre sem nunca terem sido percepcionados por nenhum ser humano.
Por outras palavras: uma obra de Arte vale, primeiramente, aquilo que vale em si mesma, segundo um sentido ideal que pode até estar destinado a nunca ser decifrado. (A obra de Kafka, sabemo-lo, esteve perto de ser devorada pelo fogo. George Steiner lembra-nos que a noiva de Buchner queimou num fogão o manuscrito de «Arentino», que deveria ser a sua obra-prima. O que estes dois exemplos nos fazem pensar é que: 1. A obra de Kafka, mesmo que o seu amigo a tivesse queimado, seria, de algum modo, num mundo inteligível, o que entretanto sabemos hoje que é; 2. Não duvidamos de que «Arentino», que não existe corporeamente, que não está cá, «é», contudo, uma obra-prima).
4. Em segundo lugar - e neste ponto divirjo completamente de sm - a obra é constituída no seu merecimento, no seu valor, pelo «reconhecimento», mas não pelo reconhecimento do «público» (o público é volúvel e as mais das vezes ignorante) e sim pelo dos homens que, na época do artista em causa, têm o dever moral e estético de o compreenderem. Os que possuem cultura e conhecimentos, os que possuem instrumentos para uma apreciação profunda e rigorosa. Os críticos. Os estudiosos. Enganam-se? Sim senhor. Cometem erros? A História está pejada de exemplos. Falta-lhes o distanciamento necessário para procederem a um juízo justo? É verdade. São os mesmos a quem escapa o génio dos seus contemporâneos, os que recusam Proust (veja-se o caso de André Gide...). Mas eles são, naturalmente, os que detêm os instrumentos mais afinados e penetrantes e, com eles, o dever moral de se não enganarem. Ou de o não fazerem de ânimo leve.
5. Em última análise, bem entendido, o tempo falará mais alto. E mais surpreendentemente. A longo prazo, cabe-lhe a última palavra: será o Grande Juiz, o Derradeiro Deus, o Decisivo Escrutinador.
Eu diria que, neste moroso e complicado processo, neste difícil acerto e concerto de tão diferentes factores, o que menos importância há-de ter é a quantidade de seguidores seus contemporâneos que um artista conseguiu convencer.
Muitos dos mais elogiados autores no próprio tempo tornaram-se, depois, inteiramente desconhecidos. Foram varridos.
Pelo contrário, alguns dos mais vilipendiados, perseguidos, troçados e incompreendidos traziam afinal, no seu porvir, uma inesperada Glória póstuma.
6. O que restará, no meio disto tudo, de uma Margarida Rebelo Pinto?
O PARADOXO
Nenhuma crítica ao sistema de ensino ou, pelo menos, do ensino da filosofia (ou, se calhar, do professor de filosofia em causa) poderia ser tão contundente como a que se encerra no seguinte paradoxo: o meu melhor aluno foi um jovem que, num longínquo 12º ano - estávamos na Escola Secundária de Pedro Nunes - não tirou positiva em nenhum teste de filosofia.
Que ele era o melhor aluno de filosofia, era-o, claramente, por uma notável conjugação de diversas competências: uma cultura superior à média, um interesse e uma curiosidade agudíssimas para as questões que eu lhes provocava, um inexcedível prazer na leitura, uma intuição filosófica penetrante, uma enorme facilidade na interpretação dos textos, uma imaginação vivíssima, que o levava a relacionar brilhantemente aspectos que muitas vezes eu próprio não relacionara e, sobretudo, uma poderosa capacidade de argumentação, perante a qual me sucedia, não frequentemente, mas algumas vezes, ficar sem nenhuma resposta convincente, hesitando, procurando aflitivamente na minha mente; o João, com quem as discussões eram tantas vezes de igual para igual, que me estimulava o espírito e me obrigava a rever-me e a repensar as ideias feitas, como não recordo que nenhum outro aluno tivesse conseguido nem creio que algum venha a conseguir do mesmo modo, era um daqueles casos em que, por uma vez, a velha banalidade usada pelos professores, «Eu aprendo imenso com os meus alunos», tinha, de facto, toda a razão de ser.
O facto de nunca ter tido positiva nos testes, não se prende necessariamente com a natureza destes. Os testes eram claros, as perguntas perfeitamente respondíveis, outros alunos, menos bons do que o João, tinham classificações elevadas.
Simplesmente, para ele, cada pergunta era o início de uma viagem que já não sabia travar. O mínimo pormenor se lhe tornava de uma exigência absurda. A necessidade de fundamentar cuidadosa e rigorosamente as suas respostas, obrigava-o a um longo tempo de preparação interior, a uma reflexão tranquila e, só depois, a pegar na esferográfica para principiar a encontrar o fio condutor da sua escrita. Não havia tempo suficiente para uma tão enorme auto-exigência. Cerca de duas horas de teste, mesmo com o intervalo, eram manifestamente insuficientes: o João apresentava-me, no fim, uma folha de ponto com muitos riscos, com respostas começadas, com promissoras ideias somente esboçadas.
Nunca resolvemos esse problema. Nem ele - que, pelo contrário, começou a encarar cada novo teste como um novo factor de perturbação e nervosismo, cada vez mais inseguro e menos capaz - nem eu, que hesitava longamente nas notas que deveria dar-lhe no fim de cada período, acabando por penalizá-lo muito menos do que poderia fazê-lo em termos de média aritmética mas, mesmo assim, muito mais do que merecia um aluno com aquela capacidade, aqueles rasgos de puro génio filosófico, aquela vertigem do pensamento.
Uma andorinha não faz a Primavera, e um João pode não ser, por si, um diagnóstico da incapacidade do ensino.
Não deixa de ter sido, para mim, uma lição que, naqueles meus primeiros anos de ensino, ainda com muitas dúvidas, valeu como um murro no estômago.
Ainda hoje sinto que este paradoxo é de uma notável eloquência:
O meu melhor aluno de filosofia nunca teve uma positiva num teste de filosofia!
Que ele era o melhor aluno de filosofia, era-o, claramente, por uma notável conjugação de diversas competências: uma cultura superior à média, um interesse e uma curiosidade agudíssimas para as questões que eu lhes provocava, um inexcedível prazer na leitura, uma intuição filosófica penetrante, uma enorme facilidade na interpretação dos textos, uma imaginação vivíssima, que o levava a relacionar brilhantemente aspectos que muitas vezes eu próprio não relacionara e, sobretudo, uma poderosa capacidade de argumentação, perante a qual me sucedia, não frequentemente, mas algumas vezes, ficar sem nenhuma resposta convincente, hesitando, procurando aflitivamente na minha mente; o João, com quem as discussões eram tantas vezes de igual para igual, que me estimulava o espírito e me obrigava a rever-me e a repensar as ideias feitas, como não recordo que nenhum outro aluno tivesse conseguido nem creio que algum venha a conseguir do mesmo modo, era um daqueles casos em que, por uma vez, a velha banalidade usada pelos professores, «Eu aprendo imenso com os meus alunos», tinha, de facto, toda a razão de ser.
O facto de nunca ter tido positiva nos testes, não se prende necessariamente com a natureza destes. Os testes eram claros, as perguntas perfeitamente respondíveis, outros alunos, menos bons do que o João, tinham classificações elevadas.
Simplesmente, para ele, cada pergunta era o início de uma viagem que já não sabia travar. O mínimo pormenor se lhe tornava de uma exigência absurda. A necessidade de fundamentar cuidadosa e rigorosamente as suas respostas, obrigava-o a um longo tempo de preparação interior, a uma reflexão tranquila e, só depois, a pegar na esferográfica para principiar a encontrar o fio condutor da sua escrita. Não havia tempo suficiente para uma tão enorme auto-exigência. Cerca de duas horas de teste, mesmo com o intervalo, eram manifestamente insuficientes: o João apresentava-me, no fim, uma folha de ponto com muitos riscos, com respostas começadas, com promissoras ideias somente esboçadas.
Nunca resolvemos esse problema. Nem ele - que, pelo contrário, começou a encarar cada novo teste como um novo factor de perturbação e nervosismo, cada vez mais inseguro e menos capaz - nem eu, que hesitava longamente nas notas que deveria dar-lhe no fim de cada período, acabando por penalizá-lo muito menos do que poderia fazê-lo em termos de média aritmética mas, mesmo assim, muito mais do que merecia um aluno com aquela capacidade, aqueles rasgos de puro génio filosófico, aquela vertigem do pensamento.
Uma andorinha não faz a Primavera, e um João pode não ser, por si, um diagnóstico da incapacidade do ensino.
Não deixa de ter sido, para mim, uma lição que, naqueles meus primeiros anos de ensino, ainda com muitas dúvidas, valeu como um murro no estômago.
Ainda hoje sinto que este paradoxo é de uma notável eloquência:
O meu melhor aluno de filosofia nunca teve uma positiva num teste de filosofia!
segunda-feira, abril 03, 2006
MARGARIDA E GEORGE
Margarida Rebelo Pinto não se sente insultada por que lhe dizerem que não sabe escrever, que não é capaz de fazer um romance com pés e cabeça, que o que produz não é literatura. Valha-me Deus! Seria muito mau sinal que a senhora o não soubesse já, ou que a preocupasse minimamente qualquer coisa que está tão obviamente arredada dos seus objectivos.
O negócio de Margarida Rebelo Pinto é outro: mais precisamente, o negócio.
Descobrir, num país inculto e vagamente semi-alfabetizado, onde se lê a «Maria», a «Crónica Feminina» ou a «TV-Guia» - que um livro propriamente dito, com mais de cinquenta ou de cem páginas, não pode vingar, a não ser que seja o desenvolvimento de uma típica carta de leitora da «Crónica Feminina», com palavrões de cinco em cinco linhas, personagens lineares (mulheres emancipadas e homens maus e estúpidos) e, uma vez feita essa descoberta, torná-la um ganha-pão, não tem que ver com literatura: tem que ver com negócio. O negócio do «best-selling». Margarida Rebelo Pinto não se preocupa com isso. Não se ofende com isso. Que haja críticos que se dêem ao trabalho de lhe ler as obras e as comentar, como se elas tivessem qualquer pretensão a ser mais do que são, revela um enorme equívoco e uma mente perturbada. Não a de Margarida. A do crítico.
João Pedro George, que é um professor universitário e tem ensaios publicados, está agora muito na moda por ter escrito um livro sobre os segredos da escrita de Margarida Rebelo Pinto. Já tinha dado uma entrevista ao 24 Horas, vem agora à televisão a propósito da sua crítica, sem perceber aquilo que, talvez injustamente, vai estar na mente de todas as pessoas: que George se aproveita da celebridade da autora de «Não há Coincidências», «Sei lá», «Alma de Pássaro» e não sei que mais, para tratar da sua própria vida e da sua própria carreira, que havia certamente estagnado (ou, mais rigorosamente: não havia ainda arrancado) até ao momento em que teve a genial intuição de parasitar dona Rebelo Pinto. George, que não creio que alguma vez tivesse posto os pés numa televisão, dificilmente, agora, sai de lá. Vemo-lo à hora do almoço, do lanche e do jantar, entre notícias sobre manifestações em França e sobre os treze restaurantes chineses encerrados por motivo de absoluta nojeira. Aparece, geralmente, sentado num escritório pobrezinho, no género do meu, com poucos livros e uma mesa em pinho. Pensa-se logo, maldosamente: «Lá está ele à procura de um meio para progredir na vida...!»
Alguém ganhou alguma coisa com isso?
O senhor George sim - e há-de, talvez, ganhar ainda um pouco mais.
A senhora Margarida sim, porque lhe dão atenção e a confundem com uma escritora criticável (ao nível, note-se, de um Agualusa), quando se não trata de uma «escritora» mas de uma «pessoa que escreve», o que é completamente diferente. Pode agora fingir que se ofende, que se melindra, quando, de facto, nada disto lhe faz a menor mossa.
Os noticiários televisivos ganham porque, durante este início de Primavera, recebem no palco mais duas personagens envolvidas num conflito serôdio.
Todos os outros, os que vêem e ouvem, e os que ainda se dão ao trabalho de escrever sobre este assunto, como eu, só perdem. Quanto mais não seja, tempo.
Se ainda tiver leitores, peço humildemente desculpa pelo tempo que os fiz perder com esta caca.
O negócio de Margarida Rebelo Pinto é outro: mais precisamente, o negócio.
Descobrir, num país inculto e vagamente semi-alfabetizado, onde se lê a «Maria», a «Crónica Feminina» ou a «TV-Guia» - que um livro propriamente dito, com mais de cinquenta ou de cem páginas, não pode vingar, a não ser que seja o desenvolvimento de uma típica carta de leitora da «Crónica Feminina», com palavrões de cinco em cinco linhas, personagens lineares (mulheres emancipadas e homens maus e estúpidos) e, uma vez feita essa descoberta, torná-la um ganha-pão, não tem que ver com literatura: tem que ver com negócio. O negócio do «best-selling». Margarida Rebelo Pinto não se preocupa com isso. Não se ofende com isso. Que haja críticos que se dêem ao trabalho de lhe ler as obras e as comentar, como se elas tivessem qualquer pretensão a ser mais do que são, revela um enorme equívoco e uma mente perturbada. Não a de Margarida. A do crítico.
João Pedro George, que é um professor universitário e tem ensaios publicados, está agora muito na moda por ter escrito um livro sobre os segredos da escrita de Margarida Rebelo Pinto. Já tinha dado uma entrevista ao 24 Horas, vem agora à televisão a propósito da sua crítica, sem perceber aquilo que, talvez injustamente, vai estar na mente de todas as pessoas: que George se aproveita da celebridade da autora de «Não há Coincidências», «Sei lá», «Alma de Pássaro» e não sei que mais, para tratar da sua própria vida e da sua própria carreira, que havia certamente estagnado (ou, mais rigorosamente: não havia ainda arrancado) até ao momento em que teve a genial intuição de parasitar dona Rebelo Pinto. George, que não creio que alguma vez tivesse posto os pés numa televisão, dificilmente, agora, sai de lá. Vemo-lo à hora do almoço, do lanche e do jantar, entre notícias sobre manifestações em França e sobre os treze restaurantes chineses encerrados por motivo de absoluta nojeira. Aparece, geralmente, sentado num escritório pobrezinho, no género do meu, com poucos livros e uma mesa em pinho. Pensa-se logo, maldosamente: «Lá está ele à procura de um meio para progredir na vida...!»
Alguém ganhou alguma coisa com isso?
O senhor George sim - e há-de, talvez, ganhar ainda um pouco mais.
A senhora Margarida sim, porque lhe dão atenção e a confundem com uma escritora criticável (ao nível, note-se, de um Agualusa), quando se não trata de uma «escritora» mas de uma «pessoa que escreve», o que é completamente diferente. Pode agora fingir que se ofende, que se melindra, quando, de facto, nada disto lhe faz a menor mossa.
Os noticiários televisivos ganham porque, durante este início de Primavera, recebem no palco mais duas personagens envolvidas num conflito serôdio.
Todos os outros, os que vêem e ouvem, e os que ainda se dão ao trabalho de escrever sobre este assunto, como eu, só perdem. Quanto mais não seja, tempo.
Se ainda tiver leitores, peço humildemente desculpa pelo tempo que os fiz perder com esta caca.
domingo, abril 02, 2006
A POESIA DO HIP-HOP
Se, nos Estados Unidos da América, o Hip-hop se tornou num gigantesco universo de tiques e de lugares comuns, ideias feitas para palavras feitas entoadas numa música feita, que soa, aliás, como se fosse precisamente sempre a mesma, e se os «clips» não se distinguem quase uns dos outros (os mesmos negros com os mesmos gestos e as mesmas coreografias, as mesmas roupas nos homens e a mesma falta de roupa nas mulheres), em Portugal, por um curioso fenómeno, passa-se o contrário disto.
Talvez porque a referência mtv seja fortíssima, mas também porque há, no hip-hop, uma indesmentível carga de «música negra contemporânea» e porque não são necessários instrumentos dispendiosos (o hip-hop vive muito da voz e dos passos), vários jovens, vários grupos de jovens formam, em Portugal, bandas de música: são negros, imigrantes cabo-verdeanos ou angolanos, tiveram na vida, certamente, as dificuldades que todos os imigrados, mesmo de 2ª ou 3ª geração conhecem (na escola, com a língua, profissionalmente) e vêem neste género de música um potente instrumento para denunciarem o que os faz sofrer, cantarem as suas histórias pessoais, darem-se a conhecer, progredirem a todos os níveis.
E é curioso, porque não sendo o hip-hop expressão da cultura própria, mas um género globalizado, torna-se, nas suas vozes, num revelador da sua verdade mais profunda e numa forma em que se realizam e definem, eles que, se pensarmos bem, não se reconheciam já na cultura dos seus pais, nem inteiramente na do país que os recebe nem, afinal, em nenhuma outra.
A poesia que criam é a das suas histórias pessoais, sofridas, e é, nessa medida, sempre em parte concreta, ligada aos episódios do dia-a-dia suburbano mas, ao mesmo tempo (oiçam-nos bem!), torna-se um esplêndido veículo de assimilação do que poderia ser visto como a cultura do opressor: eles aprendem um português fluente, compreendem que só o conhecimento os libertará, tornam-se filósofos, vão para além do senso comum desse seu quotidiano de jovens, procuram romper horizontes culturais e cognitivos.
Está tudo lá.
Comecei a ouvir um ou outro grupo, aqui ou ali, por mero acaso, mas cada vez mais atentamente, e vou seguindo com um ouvido desperto.
Experimentem fazê-lo.
Talvez porque a referência mtv seja fortíssima, mas também porque há, no hip-hop, uma indesmentível carga de «música negra contemporânea» e porque não são necessários instrumentos dispendiosos (o hip-hop vive muito da voz e dos passos), vários jovens, vários grupos de jovens formam, em Portugal, bandas de música: são negros, imigrantes cabo-verdeanos ou angolanos, tiveram na vida, certamente, as dificuldades que todos os imigrados, mesmo de 2ª ou 3ª geração conhecem (na escola, com a língua, profissionalmente) e vêem neste género de música um potente instrumento para denunciarem o que os faz sofrer, cantarem as suas histórias pessoais, darem-se a conhecer, progredirem a todos os níveis.
E é curioso, porque não sendo o hip-hop expressão da cultura própria, mas um género globalizado, torna-se, nas suas vozes, num revelador da sua verdade mais profunda e numa forma em que se realizam e definem, eles que, se pensarmos bem, não se reconheciam já na cultura dos seus pais, nem inteiramente na do país que os recebe nem, afinal, em nenhuma outra.
A poesia que criam é a das suas histórias pessoais, sofridas, e é, nessa medida, sempre em parte concreta, ligada aos episódios do dia-a-dia suburbano mas, ao mesmo tempo (oiçam-nos bem!), torna-se um esplêndido veículo de assimilação do que poderia ser visto como a cultura do opressor: eles aprendem um português fluente, compreendem que só o conhecimento os libertará, tornam-se filósofos, vão para além do senso comum desse seu quotidiano de jovens, procuram romper horizontes culturais e cognitivos.
Está tudo lá.
Comecei a ouvir um ou outro grupo, aqui ou ali, por mero acaso, mas cada vez mais atentamente, e vou seguindo com um ouvido desperto.
Experimentem fazê-lo.
IMAGENS KAOSTICAS (II)
Numa parede meio descascada de um velho bairro J. Pimenta, dou com a gloriosa simplicidade deste graffiti: «Bandido do Céu»!
Só isto. Que excelente título não daria.
E que significa exactamente? Como interpretar o genitivo? Será que o «do» quer dizer que o bandido tem o céu como seu limite e objectivo, que se prepara para o invadir e assaltar? Ou o «do» quer dizer que o bandido provém do céu? Do céu podem provir bandidos, anjos caídos, demónios. A origem do próprio Lúcifer não é outra. Mas, no momento da queda, perderam o vínculo com essa morada primordial. Não são demónios do céu. São só demónios. Por que manterá este bandido o seu vínculo? Tratar-se-á de um bandido de bom fundo? De um bandido que, sob a capa das suas malfeitorias, procura o Bem? Um bandido fascinante, a que o próprio Deus não conseguirá resistir...?
O que este enigmático título me lembra, é que estamos a passar completamente ao lado de uma verdadeira revolução estética e poética. A do hip-hop português.
Talvez um dia me debruce sobre essa revelação.
Só isto. Que excelente título não daria.
E que significa exactamente? Como interpretar o genitivo? Será que o «do» quer dizer que o bandido tem o céu como seu limite e objectivo, que se prepara para o invadir e assaltar? Ou o «do» quer dizer que o bandido provém do céu? Do céu podem provir bandidos, anjos caídos, demónios. A origem do próprio Lúcifer não é outra. Mas, no momento da queda, perderam o vínculo com essa morada primordial. Não são demónios do céu. São só demónios. Por que manterá este bandido o seu vínculo? Tratar-se-á de um bandido de bom fundo? De um bandido que, sob a capa das suas malfeitorias, procura o Bem? Um bandido fascinante, a que o próprio Deus não conseguirá resistir...?
O que este enigmático título me lembra, é que estamos a passar completamente ao lado de uma verdadeira revolução estética e poética. A do hip-hop português.
Talvez um dia me debruce sobre essa revelação.
sábado, abril 01, 2006
OS PEQUENOS LEITORES E OS LEITORES RETARDADOS
1. Devo confessar que nunca é sem um leve sorriso dos lábios da minha alma que digiro a informação de que certos intelectuais já tinham lido, entre os seus dez e quinze anos, alguns dos clássicos da literatura. Ainda bem para eles: A Cartuxa de Parma ou Madame Bovary, que Clara Ferreira Alves nos conta que lera por essa idade, ou Guerra e Paz, que Mega Ferreira aponta, displicentemente, que, em miúdo, tinha lido na íntegra, são bons exemplos; não me impressiono: quando me esmurram com essas gabarolices, raramente penso «Que precoces!» - penso, porventura sob efeito de um preconceito sardónico, que ou são mentirosos, ou não se lembram bem, ou que eram umas crianças enfermiças, muito pálidas, dessas que passavam longos períodos na cama, entre colheradas de óleo de fígado de bacalhau e excelentes livros. O tipo de adolescente que eu era, aos onze anos ainda não passara d'Os Cinco e d'Os Sete; não jogava futebol porque não tinha pé certeiro - mas preferia jogar basquete ou subir às árvores do que ficar fechado com um clássico nas mãos.
2. As leituras da minha vida foram encontradas e começadas e concluídas relativamente tarde. Quase todas depois dos dezoito anos. Até aí, perdera - dir-se-á - muito tempo com Banda Desenhada e cinema. Mas terei perdido de facto esse tempo? Não creio. Em todo o caso, se sim, sinto que o recuperei perfeitamente. O que este atraso precisamente me trouxe de inegavelmente bom foi uma avidez apaixonada (as paixões tardias não são melhores nem piores: são únicas, porém) e, sobretudo, um prazer da descoberta do essencial, juntamente com a sensação de que o essencial desse essencial estará poventura por vir.
3. Henry James, por exemplo.
Não conhecia de Henry James - será um sacrilégio, sem dúvida - senão um único romance: Retrato de uma Dama. Atenção: não o conhecia senão em filme (Duplo sacrilégio, portanto). Pior: ficara com uma ideia muito vaporosa do filme - a indiferença sofisticada e snob de um John Malkovich, muitos chapéus femininos, paisagens de palácios italianos, uma conversa que voara rapidamente por mim que tinha passado a maior parte do filme a dormir. Ainda se não perderam na conta dos sacrilégios?
4. Descubro agora H. James (quando o ideal seria poder dizer «redescubro») por duas vias simultâneas: a de uma biografia romanceada («Autor, Autor», de um David Lodge que nunca fora tão bom), e a da obra do próprio James, que consumo cada vez mais como um Henryjamescoholic, um James Adict, completamente maravilhado. Retrato de uma Dama, as novelas, os contos...
5. O Retrato é notável. Os diálogos são perfeitos: autênticos jogos em que, com sínteses brilhantes, inesquecíveis, se revela a perspicácia irónica das personagens principais. E, no entanto, as falas soam diferentemente em virtude das características das diferentes personagens que falam. Que lição, compreendermos que não são necessárias explicações acerca do estado do espírito dos protagonistas («Disse ela irritada» ou «respondeu ele agressivamente») para que tudo nos seja dado pelo discurso directo de cada uma. Como se o ouvíssemos interiormente, como se a irritação nos soasse aos ouvidos da mente como irritação, a ironia como ironia, a surpresa como surpresa, sem que nenhum narrador precisasse de nos alertar, de o sublinhar com adjectivos e razões.
6. Osborne, de que me lembrava vagamente, mascarado com o rosto de Malkovich - e tive de refazer no meu espírito porque, como é evidente, o Osborne de James nunca teria nem o rosto nem nada daquele actor - é uma das personagens mais extraordinárias de todas quantas me marcaram: a sua fraqueza espiritual, que é também uma indomável energia niilista, o seu mal radical de alma, o seu absoluto desinteresse pelo outro, a sua total impotência afectiva, transformados numa negligência cultivada e sofisticadíssima, é-nos dado num retrato psicológico profundo, penetrante - ao nível, para resvalar para o terreno da comparação fácil e do lugar comum, de Shakespeare.
Ter-me-ia marcado do mesmo modo na adolescência?
Tê-lo-ia lido com o mesmo prazer e interesse, com a mesma sensação de um mergulho absoluto em que, seja pelo tempo que for, estou em transe, cortei amarras com o mundo onde se encontra fisicamente a cadeira em que me sento, o candeeiro que ilumina a página e o meu próprio corpo ali sentado?
7. Recomendo, pois, que se principie tarde na literatura?
Nem por sombras.
O que penso é que nunca é tarde. Para coisa nenhuma...
2. As leituras da minha vida foram encontradas e começadas e concluídas relativamente tarde. Quase todas depois dos dezoito anos. Até aí, perdera - dir-se-á - muito tempo com Banda Desenhada e cinema. Mas terei perdido de facto esse tempo? Não creio. Em todo o caso, se sim, sinto que o recuperei perfeitamente. O que este atraso precisamente me trouxe de inegavelmente bom foi uma avidez apaixonada (as paixões tardias não são melhores nem piores: são únicas, porém) e, sobretudo, um prazer da descoberta do essencial, juntamente com a sensação de que o essencial desse essencial estará poventura por vir.
3. Henry James, por exemplo.
Não conhecia de Henry James - será um sacrilégio, sem dúvida - senão um único romance: Retrato de uma Dama. Atenção: não o conhecia senão em filme (Duplo sacrilégio, portanto). Pior: ficara com uma ideia muito vaporosa do filme - a indiferença sofisticada e snob de um John Malkovich, muitos chapéus femininos, paisagens de palácios italianos, uma conversa que voara rapidamente por mim que tinha passado a maior parte do filme a dormir. Ainda se não perderam na conta dos sacrilégios?
4. Descubro agora H. James (quando o ideal seria poder dizer «redescubro») por duas vias simultâneas: a de uma biografia romanceada («Autor, Autor», de um David Lodge que nunca fora tão bom), e a da obra do próprio James, que consumo cada vez mais como um Henryjamescoholic, um James Adict, completamente maravilhado. Retrato de uma Dama, as novelas, os contos...
5. O Retrato é notável. Os diálogos são perfeitos: autênticos jogos em que, com sínteses brilhantes, inesquecíveis, se revela a perspicácia irónica das personagens principais. E, no entanto, as falas soam diferentemente em virtude das características das diferentes personagens que falam. Que lição, compreendermos que não são necessárias explicações acerca do estado do espírito dos protagonistas («Disse ela irritada» ou «respondeu ele agressivamente») para que tudo nos seja dado pelo discurso directo de cada uma. Como se o ouvíssemos interiormente, como se a irritação nos soasse aos ouvidos da mente como irritação, a ironia como ironia, a surpresa como surpresa, sem que nenhum narrador precisasse de nos alertar, de o sublinhar com adjectivos e razões.
6. Osborne, de que me lembrava vagamente, mascarado com o rosto de Malkovich - e tive de refazer no meu espírito porque, como é evidente, o Osborne de James nunca teria nem o rosto nem nada daquele actor - é uma das personagens mais extraordinárias de todas quantas me marcaram: a sua fraqueza espiritual, que é também uma indomável energia niilista, o seu mal radical de alma, o seu absoluto desinteresse pelo outro, a sua total impotência afectiva, transformados numa negligência cultivada e sofisticadíssima, é-nos dado num retrato psicológico profundo, penetrante - ao nível, para resvalar para o terreno da comparação fácil e do lugar comum, de Shakespeare.
Ter-me-ia marcado do mesmo modo na adolescência?
Tê-lo-ia lido com o mesmo prazer e interesse, com a mesma sensação de um mergulho absoluto em que, seja pelo tempo que for, estou em transe, cortei amarras com o mundo onde se encontra fisicamente a cadeira em que me sento, o candeeiro que ilumina a página e o meu próprio corpo ali sentado?
7. Recomendo, pois, que se principie tarde na literatura?
Nem por sombras.
O que penso é que nunca é tarde. Para coisa nenhuma...
quinta-feira, março 30, 2006
IMAGENS KAOSTICAS (I)
Eis-me sozinho ao volante do meu Honda básico e insípido.
Abrando à medida que me aproximo de um semáforo.
E diante de mim - de costas, portanto - vejo um minúsculo bólide, descapotável, vermelhão, daqueles que só têm dois lugares.
E sentados nos dois lugares, dois homens calvos: verdadeiros carecas à moda antiga, sem complexos nem disfarces, sem cabelos falsamente puxados de uma orelha para a outra; não: algum cabelo na nuca, nas têmporas, mas o alto da cabeça livre e reluzente. Tento ultrapassá-los quando o semáforo muda. Não consigo. Desaparecem numa trapalhada de ruído e fumo.
Tudo nesta imagem se desajusta - felizmente, febrilmente, euforicamente - em relação ao conceito de um carro desportivo, de um descapotável. Em primeiro lugar, porque nos habituámos estupidamente a que o esperável seria, nesses lugares, um homem e uma mulher. Em segundo lugar porque, fosse como fosse, deveriam ser ambos cabeludos. Um descapotável é o mesmo que cabelos ao vento, longas cabeleiras loiras de Barbie, com óculos de sol no alto, a fazer de bandelete em vez de proteger os olhos (elas), e franjas de quéques, a tapar as orelhas, nos homens.
Considero, pois, estes dois senhores carecas verdadeiros revolucionários da estética do quotidiano.
Bem-vindos ao Kaostico
Abrando à medida que me aproximo de um semáforo.
E diante de mim - de costas, portanto - vejo um minúsculo bólide, descapotável, vermelhão, daqueles que só têm dois lugares.
E sentados nos dois lugares, dois homens calvos: verdadeiros carecas à moda antiga, sem complexos nem disfarces, sem cabelos falsamente puxados de uma orelha para a outra; não: algum cabelo na nuca, nas têmporas, mas o alto da cabeça livre e reluzente. Tento ultrapassá-los quando o semáforo muda. Não consigo. Desaparecem numa trapalhada de ruído e fumo.
Tudo nesta imagem se desajusta - felizmente, febrilmente, euforicamente - em relação ao conceito de um carro desportivo, de um descapotável. Em primeiro lugar, porque nos habituámos estupidamente a que o esperável seria, nesses lugares, um homem e uma mulher. Em segundo lugar porque, fosse como fosse, deveriam ser ambos cabeludos. Um descapotável é o mesmo que cabelos ao vento, longas cabeleiras loiras de Barbie, com óculos de sol no alto, a fazer de bandelete em vez de proteger os olhos (elas), e franjas de quéques, a tapar as orelhas, nos homens.
Considero, pois, estes dois senhores carecas verdadeiros revolucionários da estética do quotidiano.
Bem-vindos ao Kaostico
terça-feira, março 28, 2006
A CRISE DOS PARTIDOS
1. Com a «instauração» - que é um termo muito feio - da democracia em Portugal, foi-se criando - e «instaurando» -, sobretudo no seio da Esquerda, uma visão para a qual qualquer vestígio de crítica à política seria sempe suspeita e, em última análise, necessariamente reaccionária. Poderíamos pôr em causa, quando muito, o funcionamento deste ou daquele partido - mas não a instituição-partido enquanto tal, não os partidos em geral, nunca uma democracia cujo modelo é o da representatividade por via partidária; poderíamos até criticar certas políticas - as do governo, nomeadamente -, mas não «a» política, vista, em Portugal, pelos próprios políticos em primeiro lugar, como uma função de uma superioridade, nobreza e utilidade incontestáveis.
2. No limite, este tipo de tabu, este tipo de imperativo democrático, justificaria que se não tolerasse que algumas pessoas decidissem não votar.
Pessoalmente, entediei-me desse discurso consensual: «o abstencionismo é a vergonha máxima, é o acto impuro e indigno que envergonha a democracia». Entediei-me de ouvir o velho lugar-comum: «Não é importante saber se votamos neste ou naquele; vote-se em quem se entenda. Mas não podemos deixar de votar».
3. Eu voto. Sou um cidadão democraticamente insuspeito. Sempre que me chamam, lá estou diante das urnas, pronto a trocar o cartão de eleitor e o bilhete de identidade por um papelinho, a recolher-me na solidão responsável de uma câmara escura com uma prancha de madeira e uma bic dependurada de um cordel, a desenhar uma cruz num quadrado, como se não soubesse escrever, a enfiar o papel, dobrado em quatro, numa abertura estreita, a receber de volta o cartão de eleitor e o B.I. Mas uma percentagem embaraçosa de portugueses abstém-se. Vai para a praia. Os políticos não compreendem, vociferam contra essa inconsciência e essa irresponsabilidade. Pudera!
4. Ao mesmo tempo que sou um votante empedernido, compreendo o desprezo tremendo dos abstencionistas, esse acto extremo de não-participação, essa ruptura radical que soa como um manguito. As expressões primariamente anti-políticos, que nos tínhamos habituado a identificar com chavões de toda a imbecilidade, e a que os abstencionistas recorrem para justificar as suas abstenções, o «não vale a pena», o «são todos iguais», o «eles querem é encher-se», o «eles querem é poleiro» fazem, infelizmente, ao fim de cerca de trinta anos de democracia, um impressionante sentido: contêm um inevitável fundo de verdade. Se parece senso comum, no sentido menos nobre da palavra, o de «opinião vulgar», não instruída, é porque corresponde a uma percepção generalizada, inescapável.
Os partidos operam como caixas fechadas sobre si.
O interesse partidário tornou-se um filtro pelo qual é lido o interesse do povo, da democracia, do país.
A autonomia dos membros de qualquer partido reduz-se a uma tábua confrangedoramente limitada: todos vemos como é próprio dos membros partidários raciocinarem de acordo com uma lógica estrita, pobre, de conflito e de oposição aos outros partidos. (As cabeças pensantes dão-se sempre mal no «milieu» partidário).
O carreirismo é a grande e única medida.
Por isso, quando os políticos profissionais se escandalizam porque Cavaco Silva tenha tido a esperteza saloia de se demarcar precisamente dos «políticos profissionais» ou porque Manuel Alegre retirasse dividendos da ideia de uma participação cívica extra-partidária, bramando tratar-se de um equívoco, esquecem que, de facto, o que está em causa é, e cada vez mais, a instituição-partido. Ou o que políticos medíocres e arrivistas disso fizeram.
5. Eu continuarei a votar.
Por uma espécie de consciência política em vias de extinção, ou por um hábito muito arreigado.
Mas cada vez mais cepticamente.
E cinicamente.
2. No limite, este tipo de tabu, este tipo de imperativo democrático, justificaria que se não tolerasse que algumas pessoas decidissem não votar.
Pessoalmente, entediei-me desse discurso consensual: «o abstencionismo é a vergonha máxima, é o acto impuro e indigno que envergonha a democracia». Entediei-me de ouvir o velho lugar-comum: «Não é importante saber se votamos neste ou naquele; vote-se em quem se entenda. Mas não podemos deixar de votar».
3. Eu voto. Sou um cidadão democraticamente insuspeito. Sempre que me chamam, lá estou diante das urnas, pronto a trocar o cartão de eleitor e o bilhete de identidade por um papelinho, a recolher-me na solidão responsável de uma câmara escura com uma prancha de madeira e uma bic dependurada de um cordel, a desenhar uma cruz num quadrado, como se não soubesse escrever, a enfiar o papel, dobrado em quatro, numa abertura estreita, a receber de volta o cartão de eleitor e o B.I. Mas uma percentagem embaraçosa de portugueses abstém-se. Vai para a praia. Os políticos não compreendem, vociferam contra essa inconsciência e essa irresponsabilidade. Pudera!
4. Ao mesmo tempo que sou um votante empedernido, compreendo o desprezo tremendo dos abstencionistas, esse acto extremo de não-participação, essa ruptura radical que soa como um manguito. As expressões primariamente anti-políticos, que nos tínhamos habituado a identificar com chavões de toda a imbecilidade, e a que os abstencionistas recorrem para justificar as suas abstenções, o «não vale a pena», o «são todos iguais», o «eles querem é encher-se», o «eles querem é poleiro» fazem, infelizmente, ao fim de cerca de trinta anos de democracia, um impressionante sentido: contêm um inevitável fundo de verdade. Se parece senso comum, no sentido menos nobre da palavra, o de «opinião vulgar», não instruída, é porque corresponde a uma percepção generalizada, inescapável.
Os partidos operam como caixas fechadas sobre si.
O interesse partidário tornou-se um filtro pelo qual é lido o interesse do povo, da democracia, do país.
A autonomia dos membros de qualquer partido reduz-se a uma tábua confrangedoramente limitada: todos vemos como é próprio dos membros partidários raciocinarem de acordo com uma lógica estrita, pobre, de conflito e de oposição aos outros partidos. (As cabeças pensantes dão-se sempre mal no «milieu» partidário).
O carreirismo é a grande e única medida.
Por isso, quando os políticos profissionais se escandalizam porque Cavaco Silva tenha tido a esperteza saloia de se demarcar precisamente dos «políticos profissionais» ou porque Manuel Alegre retirasse dividendos da ideia de uma participação cívica extra-partidária, bramando tratar-se de um equívoco, esquecem que, de facto, o que está em causa é, e cada vez mais, a instituição-partido. Ou o que políticos medíocres e arrivistas disso fizeram.
5. Eu continuarei a votar.
Por uma espécie de consciência política em vias de extinção, ou por um hábito muito arreigado.
Mas cada vez mais cepticamente.
E cinicamente.
segunda-feira, março 27, 2006
PREDILECÇÕES
Muito longe da intenção de classificar ou, sequer, de aconselhar de cátedra, venho hoje referir-me àquelas pessoas, das que andam por aí a fazer coisas nas mais diversas áreas, que têm conseguido captar-me a atenção e cujo percurso sigo:
No humor:
Considero Nuno Markl imperdível; a ter de escolher, prefiro o Markl radiofónico ao Markl televisivo, porque se é verdade que a rádio e a televisão são ou implicam linguagens completamente diferentes, então o «meu» Nuno Markl é o da Antena 3, onde o seu «Há Vida em Makl», que oscila entre o mero sorriso - amarelo - que às vezes provoca e a genialidade hilariante, é para mim o pequeno-almoço, a oração matinal.
Mas a mais recente descoberta que fiz é José de Pina, no «Prazer dos Diabos»: a sua imaginação delirante, sob a forma rude e truculenta, quase malcriada, que reveste,é de um efeito cómico irresistível. (José de Pina é um dos autores do Contrainformação e de um ou dois livros perfeitamente dispensáveis...)
Gosto dos Gato Fedorento: mas que dizer acerca deles que o país inteiro não diga já - até um Banco, que os usa na sua publicidade?
Na política:
Confesso, tristemente, que ninguém, rigorosamente ninguém: nem já a Ana Drago me é suportável.
Na literatura:
Çonçalo M. Tavares criou um universo onde a fantasia se articula de uma forma matematicamente perfeita (um pouco à maneira de Lewis Carrol) e onde a sua bizarria tem a eficácia de um relógio. As personagens que passam de uns romances para os outros, com os seus nomes estrangeiros (frequentemente de ressonância germânica) compõem uma complexa rede cujos elementos são uma inocência infantil, o puro prazer da brincadeira que reinventa os mais simples objectos, o rigor e a contenção da forma e dos meios, as referências literárias que fazem de cada uma das suas palavras, de cada uma das suas frases, uma remissão para livros e autores, como se na sua obra se percepcionasse toda a sua biblioteca.
Frederico Lourenço é o escritor cuja prosa, neste momento, me encanta mais: pela sua limpidez, pela sua serenidade, por uma sobriedade que não é simplicidade, mas se consegue por um trabalho aturado na busca do «mot juste». Para além dos seus romances, dos seus contos, a que subjazem uma visão e um ideal de aristocracia muito belos, há um texto curto sobre a sua infância e adolescência: trata-se, para dizer tudo, do texto mais delicado e profundo acerca da homossexualidade, da sua própria homossexualidade, onde a naturalidade com que é apresentada, como uma condição da sua vida, está longe de querer chocar, ou impor, ou sequer provar seja o que for.
Na pintura:
Há um tipo chamado Nuno Viegas. Para não falar, também eu, da inevitável Paula Rego, relembro este Nuno Viegas com cujo trabalho deparei por mero acaso numa exposição do Centro Cultural de Cascais (Tinta Envenenada). Dos seus pequenos quadros a preto e branco, onde o traço satírico, carregado de influências de BD, pressupõe uma narrativa sobre a qual podemos unicamente especular (por que razão aquelas personagens chegaram à situação que nos é desenhada? Por que prega aquela espécie de Sócrates para um urso de peluche? Que lhe sucederá depois?) até às pinturas maiores, cheias de cores vivas, de um realismo no traço que não descura nenhum pormenor (notem os ténis do jovem pintor autoretratado num quadro) para melhor nos mostrar imagens de um irrealismo que nos perturba, o que vi da pintura de Nuno Viegas fez-me pensar duas coisas: 1. Um dia, este jovem será famoso e irá residir em Londres; 2. Um dia, terei dinheiro para comprar um destes quadros (sei, até, qual compraria: mas não digo...). Posso ter-me enganado numa, ou noutra, ou nas duas, até poque não tornei a ver nem a ouvir falar de Viegas. Mas seria pena.
Na música:
Há quanto tempo não oiço nada interessante pós-Ala dos Namorados???
No humor:
Considero Nuno Markl imperdível; a ter de escolher, prefiro o Markl radiofónico ao Markl televisivo, porque se é verdade que a rádio e a televisão são ou implicam linguagens completamente diferentes, então o «meu» Nuno Markl é o da Antena 3, onde o seu «Há Vida em Makl», que oscila entre o mero sorriso - amarelo - que às vezes provoca e a genialidade hilariante, é para mim o pequeno-almoço, a oração matinal.
Mas a mais recente descoberta que fiz é José de Pina, no «Prazer dos Diabos»: a sua imaginação delirante, sob a forma rude e truculenta, quase malcriada, que reveste,é de um efeito cómico irresistível. (José de Pina é um dos autores do Contrainformação e de um ou dois livros perfeitamente dispensáveis...)
Gosto dos Gato Fedorento: mas que dizer acerca deles que o país inteiro não diga já - até um Banco, que os usa na sua publicidade?
Na política:
Confesso, tristemente, que ninguém, rigorosamente ninguém: nem já a Ana Drago me é suportável.
Na literatura:
Çonçalo M. Tavares criou um universo onde a fantasia se articula de uma forma matematicamente perfeita (um pouco à maneira de Lewis Carrol) e onde a sua bizarria tem a eficácia de um relógio. As personagens que passam de uns romances para os outros, com os seus nomes estrangeiros (frequentemente de ressonância germânica) compõem uma complexa rede cujos elementos são uma inocência infantil, o puro prazer da brincadeira que reinventa os mais simples objectos, o rigor e a contenção da forma e dos meios, as referências literárias que fazem de cada uma das suas palavras, de cada uma das suas frases, uma remissão para livros e autores, como se na sua obra se percepcionasse toda a sua biblioteca.
Frederico Lourenço é o escritor cuja prosa, neste momento, me encanta mais: pela sua limpidez, pela sua serenidade, por uma sobriedade que não é simplicidade, mas se consegue por um trabalho aturado na busca do «mot juste». Para além dos seus romances, dos seus contos, a que subjazem uma visão e um ideal de aristocracia muito belos, há um texto curto sobre a sua infância e adolescência: trata-se, para dizer tudo, do texto mais delicado e profundo acerca da homossexualidade, da sua própria homossexualidade, onde a naturalidade com que é apresentada, como uma condição da sua vida, está longe de querer chocar, ou impor, ou sequer provar seja o que for.
Na pintura:
Há um tipo chamado Nuno Viegas. Para não falar, também eu, da inevitável Paula Rego, relembro este Nuno Viegas com cujo trabalho deparei por mero acaso numa exposição do Centro Cultural de Cascais (Tinta Envenenada). Dos seus pequenos quadros a preto e branco, onde o traço satírico, carregado de influências de BD, pressupõe uma narrativa sobre a qual podemos unicamente especular (por que razão aquelas personagens chegaram à situação que nos é desenhada? Por que prega aquela espécie de Sócrates para um urso de peluche? Que lhe sucederá depois?) até às pinturas maiores, cheias de cores vivas, de um realismo no traço que não descura nenhum pormenor (notem os ténis do jovem pintor autoretratado num quadro) para melhor nos mostrar imagens de um irrealismo que nos perturba, o que vi da pintura de Nuno Viegas fez-me pensar duas coisas: 1. Um dia, este jovem será famoso e irá residir em Londres; 2. Um dia, terei dinheiro para comprar um destes quadros (sei, até, qual compraria: mas não digo...). Posso ter-me enganado numa, ou noutra, ou nas duas, até poque não tornei a ver nem a ouvir falar de Viegas. Mas seria pena.
Na música:
Há quanto tempo não oiço nada interessante pós-Ala dos Namorados???
sábado, março 25, 2006
IDEIAS DE POUCAS PALAVRAS (V)
O homem é o animal que não come do chão. A dinâmica do corpo humano vai afastando a sua cabeça, progressivamente, dos seus pés. O rosto não cheira o que está em baixo, nem toma contacto com a terra: este é o primeiro e último segredo da sua fisiologia e da sua filosofia.
DIÁLOGO CONCISO
Atreveu-se a dizer à própria mulher:
- Às vezes, tenho saudades da outra.
Ouviu-a reagir, num princípio de surpresa horrorizada e horrorosa:
- Dizes-me isso a mim? Odeio-te!
Ouviu-a, depois de um silêncio, sussurrar, como se tivesse medo de acordar a resposta:
- Quem é ela?
Explicou-lhe:
- Quem? A outra? A outra és tu. Ou eras. A outra tu. A que foste naquele tempo em que me amavas tanto.
- Tonto. Mas eu amo-te.
- Não tanto. Não da mesma maneira. Já não. Não como a outra.
- Às vezes, tenho saudades da outra.
Ouviu-a reagir, num princípio de surpresa horrorizada e horrorosa:
- Dizes-me isso a mim? Odeio-te!
Ouviu-a, depois de um silêncio, sussurrar, como se tivesse medo de acordar a resposta:
- Quem é ela?
Explicou-lhe:
- Quem? A outra? A outra és tu. Ou eras. A outra tu. A que foste naquele tempo em que me amavas tanto.
- Tonto. Mas eu amo-te.
- Não tanto. Não da mesma maneira. Já não. Não como a outra.
sexta-feira, março 24, 2006
O MÉTODO DE GONÇALO M. TAVARES
O método de Gonçalo M. Tavares consiste em olhar para um objecto simples, corriqueiro - digamos: um telefone. Para que serve um telefone? Para duas pessoas se falarem. Que lembra um telefone, ou que animal falante poderia evocar? Um papagaio. Eis estabelecido o princípio da analogia. Mas dizer que um telefone é um papagaio soa demasiado simples, seria preciso tornar a analogia mais completa e mais complexa. O que evoco agora é um papagaio pousado sobre fios de alta tensão, e esta ideia de uma ave palradora que tivesse fugido, por exemplo, e pousado nos fios, entre postes, permite-me completar a ideia, precisamente porque, num telefone, também se trata de fios.
Diria, por exemplo: um telefone é um papagaio sobre fios eléctricos - não pousado neles, mas ligado a eles.
Este método é um delicioso propiciador de paradoxos, de imagens tanto mais ricas quanto maior for o engenho. Também é fácil cansarmo-nos, quando a técnica começa a espreitar demasiado sob os efeitos, como um mágico que, inadvertidamente, deixa os fios e os arames transparecerem. Enquanto não transparecem, é pura magia: um movimento de uso lúdico das palavras, o retorno a uma recriação quase infantil das coisas mais banais do quotidiano.
Aconselho uma visita à Biblioteca Municipal de Oeiras. Ao longo das paredes, ao pé das estantes - não sei até que data - encontram painéis onde Gonçalo M. Tavares deixou escritos alguns destes paradoxos: o que são os sapatos, o que são os óculos, o que é um novelo de lã.
Diria, por exemplo: um telefone é um papagaio sobre fios eléctricos - não pousado neles, mas ligado a eles.
Este método é um delicioso propiciador de paradoxos, de imagens tanto mais ricas quanto maior for o engenho. Também é fácil cansarmo-nos, quando a técnica começa a espreitar demasiado sob os efeitos, como um mágico que, inadvertidamente, deixa os fios e os arames transparecerem. Enquanto não transparecem, é pura magia: um movimento de uso lúdico das palavras, o retorno a uma recriação quase infantil das coisas mais banais do quotidiano.
Aconselho uma visita à Biblioteca Municipal de Oeiras. Ao longo das paredes, ao pé das estantes - não sei até que data - encontram painéis onde Gonçalo M. Tavares deixou escritos alguns destes paradoxos: o que são os sapatos, o que são os óculos, o que é um novelo de lã.
DA DIFICULDADE EM LER A IRONIA (II)
Quando falo da impotência dos jovens para a ironia - a questão é apaixonante - não me refiro a um problema etário, mas a um problema social: conheci rapazes e raparigas que eram verdadeiros mestres nessa arte, apenas observo, como professor, que, de ano para ano, vou ensinando novos bandos de jovens que não dominan nem têm já sensibilidade para ela, que a não usam como um dos seus instrumentos, ou que a afinaram pouco e não se sentem muito à vontade nesse elemento.
Na verdade, penso que o problema é mais vasto. Não é exclusivamente a questão da ironia mas, do meu ponto de vista, a questão da linguagem o que está em causa.
A ironia não é uma pura função intelectual, uma mera capacidade cerebral, mas uma das possibilidades da linguagem. A ironia é uma forma de usar a linguagem simbólica, que pressupõe um rasgão no sentido, um subtil desvio, que não introduz a mentira porque assume que o receptor da mensagem é capaz do mesmo desvio, do mesmo recuo, de compreender o contrário do que está expresso.
Evidentemente, quando me refiro a um embotamento da ironia, é a um embotamento desta no seu uso mais sofisticado, mais delicado, mais inteligente. O símbolo, pelo contrário,da ironia dos jovens de hoje, que é uma forma toda ela feita de sublinhados, de risos, de advertências, de indicações, para não haver a mínima hipótese de que a duplicidade do sentido possa escapar, é o gesto tipicamente norte-americano com que, uma pessoa que está a falar, faz questão de pôr uma frase ou uma palavra entre aspas, como desenhando-as no ar com dois dedos de cada mão.
Uma ironia mais plástica, menos óbvia, menos grosseira, requereria um outro poder sobre a linguagem, uma outra capacidade de interpretação, que multiplicasse os seus níveis e as suas virtualidades; isso implicaria um convívio com o texto escrito, com os grandes autores, os grandes mestres, um prazer e um cuidado com a linguagem e com a língua, que há algumas gerações, por muitos motivos, se veio descurando.
Na verdade, penso que o problema é mais vasto. Não é exclusivamente a questão da ironia mas, do meu ponto de vista, a questão da linguagem o que está em causa.
A ironia não é uma pura função intelectual, uma mera capacidade cerebral, mas uma das possibilidades da linguagem. A ironia é uma forma de usar a linguagem simbólica, que pressupõe um rasgão no sentido, um subtil desvio, que não introduz a mentira porque assume que o receptor da mensagem é capaz do mesmo desvio, do mesmo recuo, de compreender o contrário do que está expresso.
Evidentemente, quando me refiro a um embotamento da ironia, é a um embotamento desta no seu uso mais sofisticado, mais delicado, mais inteligente. O símbolo, pelo contrário,da ironia dos jovens de hoje, que é uma forma toda ela feita de sublinhados, de risos, de advertências, de indicações, para não haver a mínima hipótese de que a duplicidade do sentido possa escapar, é o gesto tipicamente norte-americano com que, uma pessoa que está a falar, faz questão de pôr uma frase ou uma palavra entre aspas, como desenhando-as no ar com dois dedos de cada mão.
Uma ironia mais plástica, menos óbvia, menos grosseira, requereria um outro poder sobre a linguagem, uma outra capacidade de interpretação, que multiplicasse os seus níveis e as suas virtualidades; isso implicaria um convívio com o texto escrito, com os grandes autores, os grandes mestres, um prazer e um cuidado com a linguagem e com a língua, que há algumas gerações, por muitos motivos, se veio descurando.
quinta-feira, março 23, 2006
DA DIFICULDADE EM LER A IRONIA
Quando estava nos alvores da minha juventude mais destravada, com as hormonas e a adrenalina a projectarem-me numa roda viva do disparate, peguei, um dia, numa mochila de lona e zarpei para um longo périplo por França onde, acompanhado de uma amiga de óculos, dentes de coelho e cabelo encaracolado, fiz algumas das melhores coisas da minha vida (que são, na maior parte dos casos, coisas de que me arrependo e não tornaria hoje a fazer): roubava em supermercados o almoço da cada dia - e, uma vez, fomos apanhados pelo detective da casa em flagrante delito -, dormi num citroen que sofrera um acidente e ali repousava à beira da estrada, preparei-me para andar de comboio sem pagar bilhete porque já não tinha dinheiro - soube, depois, que era dia de greve: passei a noite num banco da estação sem ver passar um único comboio -, infiltrava-me em vãos de escada de prédios para passar a noite.
O grande objectivo era irmos fazer as vindimas.
Antes de chegarmos a esse ponto, no percurso, a minha amiga e eu integrámo-nos num grupo que, sob as ordens de um professor universitário, procedia a escavações arqueológicas. Parece interessante, não parece? Também a mim, inicialmente, pareceu muito interessante: na verdade, tudo se resumia a dias terríveis, que começavam muito cedo, madrugada ainda, e se prolongavam até às cinco ou seis da tarde, sob um sol abrasador, com uma curta pausa para almoço; no chão, mal sentados, escavávamos morosamente umas pedras sem nada que as tornasse muito especiais, mas que o professor mirava, colocando os óculos na testa, como um aviador, piscando muito os seus olhos pequeninos e argutos. Eu era inexperiente: tremo, hoje, só de pensar nos vestígios historicamente valiosíssimos que não terei destruído sem sequer disso me aperceber.
Já muito tarde, arrasados, muito melancólicos, éramos devolvidos ao parque de campismo onde pernoitávamos; tomávamos um duche, vestíamo-nos o melhor possível e (abençoado tempo de uma viagem de furgoneta, que eu desejava que nunca mais terminasse) rumávamos a um restaurante dos arredores, onde jantávamos todos, à volta de uma mesa enorme. Havia muitos franceses, dois portugueses (nós), um camaronês, um grupo de belgas, no meio do qual brilhava uma rapariga gorducha, loira, sempre muito corada, extremamente divertida; um inglês, o professor, a esposa do professor...
E nunca me esqueço de que fazíamos muito barulho. E de que, curiosamente (para quem conhece o pãozinho sem sal em que entretanto me tornei), rapaz pouco habituado à bebida como eu era, com dois ou três copos a mais, que eles insistiam em que eu emborcasse, ou que me iam discretamente reenchendo, sem que desse conta, eu era o mais ruidoso, o mais apatetado (nem quero imaginar as figuras que terei feito), o do sapateado, o da cantoria, o dos brindes...
Mas lembro-me de que, por qualquer razão, um dia, o patrão do restaurante nos veio pedir que não fizessemos tanta algazarra: talvez houvesse mais clientes lá para o fundo, talvez alguém se incomodasse, talvez outra coisa qualquer.
O professor olhou imediatamente para mim:
- Gil, du calme!
E eu, levantando-me muito apressadamente, mimando o menino queixinhas, dei quase uma volta inteira à mesa para me aproximar da rapariga belga, que era divertida, como já disse, mas, acrescento agora, tímida e discreta - e, por isso, um alvo fácil das nossas brincadeiras -, apontar-lhe um dedo acusador e bradar:
- Não sou eu quem está a fazer barulho! É a belga...
Era uma clara ironia. Ou pensei que sim. Uma brincadeira inconsequente: porque eu fora, obviamente, o barulhento mais barulhento, porque a belga fora, pelo contrário, a mais risonha mas também a mais sossegada das pessoas, aquela minha acusação não podia ter efeito literal.
Mas a mulher do professor universitário olhou-me friamente. Gelidamente.
E, sem ponta de ironia, lançou-me esta lição absoluta:
- Gil, é muito feio acusar as outras pessoas.
A lição desta história - porque esta história contém uma moral - não reside, naturalmente, nas palavras de madame. A lição está na percepção de que talvez nunca existam ironias claras: porque somos todos muito diferentes uns dos outros e temos diversos e diversificados limites, a prática da ironia será necessariamente um exercício e um jogo de risco, um movimento entre alguns, que lêem literalmente aquelas palavras, outros, que hesitam, sem saberem se devem tomar a sério ou não e, porventura, por vezes, um só, o próprio sujeito irónico, o único capaz de se distanciar e de se compreender.
Vem-me esta lição novamente ao espírito, quando me apercebo - por razões, por razões que não vêm ao caso - de que a ironia é uma espécie em vias de extinção, uma daquelas profissões antigas que já praticamente não tem seguidores, que uma temível gravidade se abateu sobre os jovens, que a sociedade se fechou, ou se vai fechando, que já poucos e raros são capazes de vislumbrar o segundo sentido.
Imaginem uma sociedade feita de pessoas como a mulher do professor universitário.
O grande objectivo era irmos fazer as vindimas.
Antes de chegarmos a esse ponto, no percurso, a minha amiga e eu integrámo-nos num grupo que, sob as ordens de um professor universitário, procedia a escavações arqueológicas. Parece interessante, não parece? Também a mim, inicialmente, pareceu muito interessante: na verdade, tudo se resumia a dias terríveis, que começavam muito cedo, madrugada ainda, e se prolongavam até às cinco ou seis da tarde, sob um sol abrasador, com uma curta pausa para almoço; no chão, mal sentados, escavávamos morosamente umas pedras sem nada que as tornasse muito especiais, mas que o professor mirava, colocando os óculos na testa, como um aviador, piscando muito os seus olhos pequeninos e argutos. Eu era inexperiente: tremo, hoje, só de pensar nos vestígios historicamente valiosíssimos que não terei destruído sem sequer disso me aperceber.
Já muito tarde, arrasados, muito melancólicos, éramos devolvidos ao parque de campismo onde pernoitávamos; tomávamos um duche, vestíamo-nos o melhor possível e (abençoado tempo de uma viagem de furgoneta, que eu desejava que nunca mais terminasse) rumávamos a um restaurante dos arredores, onde jantávamos todos, à volta de uma mesa enorme. Havia muitos franceses, dois portugueses (nós), um camaronês, um grupo de belgas, no meio do qual brilhava uma rapariga gorducha, loira, sempre muito corada, extremamente divertida; um inglês, o professor, a esposa do professor...
E nunca me esqueço de que fazíamos muito barulho. E de que, curiosamente (para quem conhece o pãozinho sem sal em que entretanto me tornei), rapaz pouco habituado à bebida como eu era, com dois ou três copos a mais, que eles insistiam em que eu emborcasse, ou que me iam discretamente reenchendo, sem que desse conta, eu era o mais ruidoso, o mais apatetado (nem quero imaginar as figuras que terei feito), o do sapateado, o da cantoria, o dos brindes...
Mas lembro-me de que, por qualquer razão, um dia, o patrão do restaurante nos veio pedir que não fizessemos tanta algazarra: talvez houvesse mais clientes lá para o fundo, talvez alguém se incomodasse, talvez outra coisa qualquer.
O professor olhou imediatamente para mim:
- Gil, du calme!
E eu, levantando-me muito apressadamente, mimando o menino queixinhas, dei quase uma volta inteira à mesa para me aproximar da rapariga belga, que era divertida, como já disse, mas, acrescento agora, tímida e discreta - e, por isso, um alvo fácil das nossas brincadeiras -, apontar-lhe um dedo acusador e bradar:
- Não sou eu quem está a fazer barulho! É a belga...
Era uma clara ironia. Ou pensei que sim. Uma brincadeira inconsequente: porque eu fora, obviamente, o barulhento mais barulhento, porque a belga fora, pelo contrário, a mais risonha mas também a mais sossegada das pessoas, aquela minha acusação não podia ter efeito literal.
Mas a mulher do professor universitário olhou-me friamente. Gelidamente.
E, sem ponta de ironia, lançou-me esta lição absoluta:
- Gil, é muito feio acusar as outras pessoas.
A lição desta história - porque esta história contém uma moral - não reside, naturalmente, nas palavras de madame. A lição está na percepção de que talvez nunca existam ironias claras: porque somos todos muito diferentes uns dos outros e temos diversos e diversificados limites, a prática da ironia será necessariamente um exercício e um jogo de risco, um movimento entre alguns, que lêem literalmente aquelas palavras, outros, que hesitam, sem saberem se devem tomar a sério ou não e, porventura, por vezes, um só, o próprio sujeito irónico, o único capaz de se distanciar e de se compreender.
Vem-me esta lição novamente ao espírito, quando me apercebo - por razões, por razões que não vêm ao caso - de que a ironia é uma espécie em vias de extinção, uma daquelas profissões antigas que já praticamente não tem seguidores, que uma temível gravidade se abateu sobre os jovens, que a sociedade se fechou, ou se vai fechando, que já poucos e raros são capazes de vislumbrar o segundo sentido.
Imaginem uma sociedade feita de pessoas como a mulher do professor universitário.
quarta-feira, março 22, 2006
O SUBLIME. (LEMBRANDO CONVERSAS COM UMA AMIGA)
A beleza é tranquila.
As coisas que me são belas não me amedrontam. O rosto de uma criança adormecida, uma melodia que me corta a respiração, o riso. Mesmo quando no intuir de algo de uma beleza tocante há uma espécie de melancolia, ou de tristeza, é um sentimento que salva, não um sentimento que deprime, nem que despedaça. É uma turvação, sim, mas com a qual os meus sentidos e o meu espírito se reconciliam numa secreta harmonia e numa serena limpidez. O belo, mesmo que seja essa turvação triste e melancólica, mesmo que seja essa quase-intranquilidade, é sempre desejado, é sempre buscado. Não se foge à beleza.
Naturalmente, nem só ela nos atrai os sentidos. E o meu espírito defronta-se, mais raramente, mas algumas vezes, com uma outra categoria estética, que me surpreende, me chama, mas não confere tranquilidade alguma. No fascínio pelo que me ultrapassa infinitamente, e me ultrapassa de tal modo que sinto em mim um misto de receio, ou de terror, já não é de beleza que se trata. Uma tempestade que, ao mesmo tempo que, no seu espectáculo apocalíptico, me revela a inquietante fragilidade de que sou feito e os meus próximos e a minha casa ante a loucura da natureza, repele-me, amedronta-me, esmaga-me, é certo, mas envolve-me numa experiência que me prende também absolutamente, e a que não resisto.
Miguel Sousa Tavares referia-se, nos mesmos termos, a uma tempestade de areia no deserto: a vivência que aterroriza na sua grandiosidade - e nos põe perante o infinito: aquilo que os nossos sentidos já não apreendem de todo, o que a nossa razão não abarca e, portanto - como escreveu Kant - já só a nossa imaginação possibilita que se vislumbre no seu terrífico sentido.
Deve ter sido o sentimento de Moisés em face de Deus.
A reverência, o respeito, quando não o terror, são as formas possíveis dessa antevisão, desse espreitar aquilo que nenhuma forma humana consegue conter nos limites da sua compreensão.
E, neste enunciar de exemplos com que me vou, somente, aproximando do que é impronunciável, inominável, impensável, recordo-me de uma fotografia que me fascinou num longo e doloroso arrepio: um leopardo mirando-nos de frente, com um olhar de uma intensa luminosidade, tenso, vigilante, com o focinho tingido de sangue. Nesse tipo de beleza maléfica, perversa, nessa beleza que é anti-beleza, de certo modo, reside, porventura, a explicação de espectáculos hediondos, brutais, cruéis que são, para muitas pessoas, espectáculos magníficos: a tourada, como um bailado bárbaro e macabro, mas de uma precisão, de uma elegância, de uma subtileza, de uma delicadeza no mal que encarna e provoca, no estranho sentido da proximidade do perigo e da morte; ou Hannibal, quem não se lembra? - esse exemplo imoral de como o terrível pode exercer uma incompreensível e medonha atracção.
Tal é o sublime.
As coisas que me são belas não me amedrontam. O rosto de uma criança adormecida, uma melodia que me corta a respiração, o riso. Mesmo quando no intuir de algo de uma beleza tocante há uma espécie de melancolia, ou de tristeza, é um sentimento que salva, não um sentimento que deprime, nem que despedaça. É uma turvação, sim, mas com a qual os meus sentidos e o meu espírito se reconciliam numa secreta harmonia e numa serena limpidez. O belo, mesmo que seja essa turvação triste e melancólica, mesmo que seja essa quase-intranquilidade, é sempre desejado, é sempre buscado. Não se foge à beleza.
Naturalmente, nem só ela nos atrai os sentidos. E o meu espírito defronta-se, mais raramente, mas algumas vezes, com uma outra categoria estética, que me surpreende, me chama, mas não confere tranquilidade alguma. No fascínio pelo que me ultrapassa infinitamente, e me ultrapassa de tal modo que sinto em mim um misto de receio, ou de terror, já não é de beleza que se trata. Uma tempestade que, ao mesmo tempo que, no seu espectáculo apocalíptico, me revela a inquietante fragilidade de que sou feito e os meus próximos e a minha casa ante a loucura da natureza, repele-me, amedronta-me, esmaga-me, é certo, mas envolve-me numa experiência que me prende também absolutamente, e a que não resisto.
Miguel Sousa Tavares referia-se, nos mesmos termos, a uma tempestade de areia no deserto: a vivência que aterroriza na sua grandiosidade - e nos põe perante o infinito: aquilo que os nossos sentidos já não apreendem de todo, o que a nossa razão não abarca e, portanto - como escreveu Kant - já só a nossa imaginação possibilita que se vislumbre no seu terrífico sentido.
Deve ter sido o sentimento de Moisés em face de Deus.
A reverência, o respeito, quando não o terror, são as formas possíveis dessa antevisão, desse espreitar aquilo que nenhuma forma humana consegue conter nos limites da sua compreensão.
E, neste enunciar de exemplos com que me vou, somente, aproximando do que é impronunciável, inominável, impensável, recordo-me de uma fotografia que me fascinou num longo e doloroso arrepio: um leopardo mirando-nos de frente, com um olhar de uma intensa luminosidade, tenso, vigilante, com o focinho tingido de sangue. Nesse tipo de beleza maléfica, perversa, nessa beleza que é anti-beleza, de certo modo, reside, porventura, a explicação de espectáculos hediondos, brutais, cruéis que são, para muitas pessoas, espectáculos magníficos: a tourada, como um bailado bárbaro e macabro, mas de uma precisão, de uma elegância, de uma subtileza, de uma delicadeza no mal que encarna e provoca, no estranho sentido da proximidade do perigo e da morte; ou Hannibal, quem não se lembra? - esse exemplo imoral de como o terrível pode exercer uma incompreensível e medonha atracção.
Tal é o sublime.
segunda-feira, março 20, 2006
IDEIAS DE POUCAS PALAVRAS (IV)
O sentido de humor dos outros é, para a maioria das pessoas, como uma daquelas doenças temíveis: suportamo-lo estoicamente quando toca aos nossos próximos; nunca o esperamos. Mas ficamos como se fosse o fim do mundo, quando nos bate também à porta.
sábado, março 18, 2006
DIA APROXIMADO DO PAI
No dia dezassete de Março, o infantário da minha menina (já com cinco meses!) festejou com os pais das crianças o «dia de semana mais próximo do dia do pai».
Fomos tomar, digamos, um leitinho com os meninos.
E ali estávamos, cinco ou seis pais, algumas mães, uns quantos avós, várias educadoras de bata de riscas azuis, todos num atropelamento mútuo no interior de uma sala pequenina, diante de uma mesa redonda, ajoujada de salgadinhos e de Ice-tea, que os pais tinham sido convidados a levar mas em que, embaraçadamente, ninguém se atrevia a mexer.
Cada pai com o seu rebento ao colo, éramos, ali, um grupo de pessoas que se não conheciam umas às outras e não sabiam de que falar. Alguns sentavam-se, como Brancas de Neve do sexo masculino, em cadeirinhas da casa dos sete anõezinhos, minúsculas, muito coloridas.
Ríamos exageradamente da mínima gracinha de algum dos bebés, do mais pequeno tropeção, do menor choro.
Havia balões, umas bonecas de trapo presas, do tecto, por elásticos.
Um pai falava ao telemóvel.
Escreveramos previamente uma mensagem paterna em cartões que nos olhavam agora, ternamente (ou ridiculamente), afixados numa parede.
SER PAI É, dois pontos - e, para um: «Amar muito»; para outro: «Ser a mais feliz das criaturas e dar milhões de beijinhos aos seus filhos» (se fosse só isso...!); para alguém (talvez o de fato e gravata, que falava ao telemóvel): «Ter sempre tempo para eles».
E eu, que escrevera uma patetice de que me envergonhava um pouco, só conseguia ruminar na frase que não ousara escrever, mas seria ali, naquele momento, a mais sincera, a mais sentida, a com mais sentido, e a mais bizarramente intensa que me poderia ocorrer:
SER PAI É, dois pontos - «Amar-te ao ponto de vir a esta festinha de quase-dia-do-pai».
Fomos tomar, digamos, um leitinho com os meninos.
E ali estávamos, cinco ou seis pais, algumas mães, uns quantos avós, várias educadoras de bata de riscas azuis, todos num atropelamento mútuo no interior de uma sala pequenina, diante de uma mesa redonda, ajoujada de salgadinhos e de Ice-tea, que os pais tinham sido convidados a levar mas em que, embaraçadamente, ninguém se atrevia a mexer.
Cada pai com o seu rebento ao colo, éramos, ali, um grupo de pessoas que se não conheciam umas às outras e não sabiam de que falar. Alguns sentavam-se, como Brancas de Neve do sexo masculino, em cadeirinhas da casa dos sete anõezinhos, minúsculas, muito coloridas.
Ríamos exageradamente da mínima gracinha de algum dos bebés, do mais pequeno tropeção, do menor choro.
Havia balões, umas bonecas de trapo presas, do tecto, por elásticos.
Um pai falava ao telemóvel.
Escreveramos previamente uma mensagem paterna em cartões que nos olhavam agora, ternamente (ou ridiculamente), afixados numa parede.
SER PAI É, dois pontos - e, para um: «Amar muito»; para outro: «Ser a mais feliz das criaturas e dar milhões de beijinhos aos seus filhos» (se fosse só isso...!); para alguém (talvez o de fato e gravata, que falava ao telemóvel): «Ter sempre tempo para eles».
E eu, que escrevera uma patetice de que me envergonhava um pouco, só conseguia ruminar na frase que não ousara escrever, mas seria ali, naquele momento, a mais sincera, a mais sentida, a com mais sentido, e a mais bizarramente intensa que me poderia ocorrer:
SER PAI É, dois pontos - «Amar-te ao ponto de vir a esta festinha de quase-dia-do-pai».
sexta-feira, março 17, 2006
SOBRE TRAIÇÕES, ERROS E O QUE MAIS SE VERÁ
Terei talvez perdido - com uma natural melancolia - aquela que, desde o momento em que descobri que o meu blogue atraía alguns curiosos, talvez equivocados, se mostrou a minha leitora mais interessada e atenta: sm, que comentava com alguma regularidade os textos que a tocavam, não voltou a emitir sinais vitais.
Preocupa-me a ideia de um encontro tão fugaz.
Preocupa-me que um dos meus aforismos, em especial, a tenha indignado.
Talvez valha a pena falar disso mais detidamente.
Sob a capa peremptória, petulante, de saber definitivo, que é a forma própria e natural de um aforismo, o que procurei foi apresentar frases - aquilo a que gosto de chamar «ideias com poucas palavras» - que me obrigam a reflectir contra a corrente, à margem da visão consensual (a minha própria, em primeiro lugar), da rotina ideológica e moral em que, como todos, também no dia-a-dia tendo a equilibrar-me.
Sei que, em situação de equilíbrio, raramente penso, na acepção mais lata do termo «pensar»: quando muito, limito-me a repetir-me.
É quase sempre na instabilidade, no desequilíbrio, na ameaça do desconhecido, do «e se fosse de outra maneira?», que sinto o pensamento abrir asas.
Não, não se trata de querer por força mostrar-me original ou de querer, por força, ser paradoxal e diferente: trata-se, para empregar uma expressão da própria sm, de abrir frestas. De arriscar, aqui ou ali, a vertigem do «e se fosse?»
Não professo nenhuma teoria sobre a infidelidade. Não venho aqui fazer a apologia dela. Pergunto-me, somente, se tenho a certeza de que está, relativamente à «traição», tudo já moralmente certificado. Se, mesmo o acto terrível e escandaloso de enganar alguém, não contém às vezes algo, não digo de bom, mas irredutível ao moralismo imediato: uma dimensão trágica...? Pergunto-me o que será, o que poderá ser, por exemplo, o dilema de estar partido entre duas pessoas que ame intensa, imensamente, que me mereçam ambas absolutamente e eu desejaria merecer - ambas - fielmente.
Conheço quem seja infiel por lhe estar na massa do sangue, que engane como quem bebe água, porque dessa duplicidade e desse secretismo retira a adrenalina necessária para se sentir vivo; conheço quem solucione, pelo contrário, as suas infidelidades mentais optando por uma estrita fidelidade, alimentando uma inconfessada e inconfessável paixão platónica, pensando mais na outra ou no outro do que no/a legítimo/a. Conheço gente, ainda, de uma fidelidade fácil - a dos que nunca sofreram sequer a tentação, nem se sentiram divididos, nem entreviram qualquer outra possibilidade, nem estremeceram: espíritos tranquilos, que dormem sossegadamente, sem um único dilema amoroso, e que não sei se inveje, se lamente. Mas conheço, por fim, outros casos: os que vivem esta impossibilidade como possibilidade, ou esta possiblidade como impossibilidade e, sempre, como um mal profundo, que os corrói e traga, que os esmaga mas a que não podem escapar.
É por tudo isto - mas, em relação a certos temas, é certo, nunca nos explicamos suficientemente: tudo ficaria ainda por dizer - que este acto que eu não aprovo - não se trata aqui de aprovação - contém algo de paixão infeliz, de impossibilidade fatal, que me parece que a palavra «traição» julga sem tentar compreender.
Não quero ter razão, sm. Ter razão é demasiado fácil e, sobretudo, demasiado enganador. Gostaria, isso sim, de pensar e ver para além do que me é segura e comodamente oferecido.
Deixa-me não ter aquilo que tu consideras ser o «ter razão» - e, mesmo assim, continuares a ler-me.
De vez em quando...
Preocupa-me a ideia de um encontro tão fugaz.
Preocupa-me que um dos meus aforismos, em especial, a tenha indignado.
Talvez valha a pena falar disso mais detidamente.
Sob a capa peremptória, petulante, de saber definitivo, que é a forma própria e natural de um aforismo, o que procurei foi apresentar frases - aquilo a que gosto de chamar «ideias com poucas palavras» - que me obrigam a reflectir contra a corrente, à margem da visão consensual (a minha própria, em primeiro lugar), da rotina ideológica e moral em que, como todos, também no dia-a-dia tendo a equilibrar-me.
Sei que, em situação de equilíbrio, raramente penso, na acepção mais lata do termo «pensar»: quando muito, limito-me a repetir-me.
É quase sempre na instabilidade, no desequilíbrio, na ameaça do desconhecido, do «e se fosse de outra maneira?», que sinto o pensamento abrir asas.
Não, não se trata de querer por força mostrar-me original ou de querer, por força, ser paradoxal e diferente: trata-se, para empregar uma expressão da própria sm, de abrir frestas. De arriscar, aqui ou ali, a vertigem do «e se fosse?»
Não professo nenhuma teoria sobre a infidelidade. Não venho aqui fazer a apologia dela. Pergunto-me, somente, se tenho a certeza de que está, relativamente à «traição», tudo já moralmente certificado. Se, mesmo o acto terrível e escandaloso de enganar alguém, não contém às vezes algo, não digo de bom, mas irredutível ao moralismo imediato: uma dimensão trágica...? Pergunto-me o que será, o que poderá ser, por exemplo, o dilema de estar partido entre duas pessoas que ame intensa, imensamente, que me mereçam ambas absolutamente e eu desejaria merecer - ambas - fielmente.
Conheço quem seja infiel por lhe estar na massa do sangue, que engane como quem bebe água, porque dessa duplicidade e desse secretismo retira a adrenalina necessária para se sentir vivo; conheço quem solucione, pelo contrário, as suas infidelidades mentais optando por uma estrita fidelidade, alimentando uma inconfessada e inconfessável paixão platónica, pensando mais na outra ou no outro do que no/a legítimo/a. Conheço gente, ainda, de uma fidelidade fácil - a dos que nunca sofreram sequer a tentação, nem se sentiram divididos, nem entreviram qualquer outra possibilidade, nem estremeceram: espíritos tranquilos, que dormem sossegadamente, sem um único dilema amoroso, e que não sei se inveje, se lamente. Mas conheço, por fim, outros casos: os que vivem esta impossibilidade como possibilidade, ou esta possiblidade como impossibilidade e, sempre, como um mal profundo, que os corrói e traga, que os esmaga mas a que não podem escapar.
É por tudo isto - mas, em relação a certos temas, é certo, nunca nos explicamos suficientemente: tudo ficaria ainda por dizer - que este acto que eu não aprovo - não se trata aqui de aprovação - contém algo de paixão infeliz, de impossibilidade fatal, que me parece que a palavra «traição» julga sem tentar compreender.
Não quero ter razão, sm. Ter razão é demasiado fácil e, sobretudo, demasiado enganador. Gostaria, isso sim, de pensar e ver para além do que me é segura e comodamente oferecido.
Deixa-me não ter aquilo que tu consideras ser o «ter razão» - e, mesmo assim, continuares a ler-me.
De vez em quando...
terça-feira, março 14, 2006
SOBRE A COLUNA, HOJE, DE PRADO COELHO
Esteja eu ou não de acordo com ele: porque, num país de certos consensos tão fáceis, tão imediatos e tão indiscutíveis, Eduardo Prado Coelho escreveu hoje que Mariza canta o mais banal dos fados e tem, na sua opinião, sido extremamente sobrevalorizada, E.P.C., os meus parabéns.
NUNO CRATO, O ANTI-EDUQUÊS
Eu gosto de Nuno Crato.
Se às vezes faço dele o alvo do meu sarcasmo, não é porque não entenda que, no fundo, a falta de tacto e de polimento de algumas das suas afirmações é somente a forma que elegeu para «épater le bourgeois», isto é, no caso, os bons sentimentos, leia-se, o «politicamente correcto».
O seu último livro, sobre (e contra) o «eduquês», é uma crítica implacável e, geralmente, bem fundamentada, das modernas pedagogias e do seu romantismo que reduz todo o ensino ao problema de como motivar os alunos.
É esta crítica original? Não é. Se nos lembrarmos de um texto recente e polémico de Maria Filomena Mónica sobre os «Filhos de Rousseau» (também, depois, editado em livro) compreendemos a linha de que são feitas estas críticas: Rousseau seria, segundo elas, o verdadeiro pai teórico da pedagogia em que chafurdamos em Portugal; somos todos herdeiros da ideia rousseauniana de que os meninos não devem ser sacrificados, de que todo o progresso - e exigência de progresso - é simultaneamente uma perversão do bem natural e espontâneo, de que o ensino terá de ser não um factor de progresso mas de prazer, uma espécie de permanente exercício lúdico...
Rousseau tem as costas largas. A busca de um pai intelectual é sempre uma tarefa imperfeita. Do meu ponto de vista, Jean-Jacques tem pouco que ver com o estado a que o ensino chegou. Os verdadeiros e múltiplos pais dos novos métodos são toda uma geração: a daqueles - de que Maria Filomena Mónica e Nuno Crato fazem parte - que eram jovens nos anos sessenta, e que, contra uma sociedade asfixiante, que lhes impunha modelos bafientos enquanto enviava os rapazes para a guerra (Vietname, Angola, Moçambique), opôs a sua contracultura: feita de liberdade e criação na música, nas relações, no vestuário, na linguagem, com uma procura delirante do exótico e do prazer imediato - fosse no amor, fosse nas drogas, nas filosofias do Oriente, em Che ou em Mao.
Este movimento, de que nos tendemos, hoje, a esquecer, envolveu e mudou o mundo de várias formas e em diferentes frentes. É da vaga de psicólogos e sociólogos então produzidos, carregados de boas intenções, sonhos e droga, que nós somos, todos os professores quarentões, os autênticos herdeiros.
Não há dúvida de que os disparates se acumularam e o desastre parece ameaçar-nos a cada instante. Estou, como Crato ou como Mónica, contra as novas pedagogias em que se apoia o sistema que se tornou, aparentemente, pouco sério e nada eficaz. Não há, talvez, nada mais pernicioso do que as boas intenções, quando mal compreendidas, mal digeridas e estupidamente aplicadas. Mas seria importante não lançar fora o bebé com a água do banho: não perder de vista a intenção de humanização do ensino que subjazia a esses projectos que tanto mal fizeram. Seria importante que, corrigir, reformar, não fosse - como, às vezes, parece na boca de alguns - passar do modelo que em tudo detecta horrorosas fontes de desprazer e recalcamento, para o modelo que não teme minimamente fazer sofrer, e que exclui o prazer como elemento da aprendizagem.
Se às vezes faço dele o alvo do meu sarcasmo, não é porque não entenda que, no fundo, a falta de tacto e de polimento de algumas das suas afirmações é somente a forma que elegeu para «épater le bourgeois», isto é, no caso, os bons sentimentos, leia-se, o «politicamente correcto».
O seu último livro, sobre (e contra) o «eduquês», é uma crítica implacável e, geralmente, bem fundamentada, das modernas pedagogias e do seu romantismo que reduz todo o ensino ao problema de como motivar os alunos.
É esta crítica original? Não é. Se nos lembrarmos de um texto recente e polémico de Maria Filomena Mónica sobre os «Filhos de Rousseau» (também, depois, editado em livro) compreendemos a linha de que são feitas estas críticas: Rousseau seria, segundo elas, o verdadeiro pai teórico da pedagogia em que chafurdamos em Portugal; somos todos herdeiros da ideia rousseauniana de que os meninos não devem ser sacrificados, de que todo o progresso - e exigência de progresso - é simultaneamente uma perversão do bem natural e espontâneo, de que o ensino terá de ser não um factor de progresso mas de prazer, uma espécie de permanente exercício lúdico...
Rousseau tem as costas largas. A busca de um pai intelectual é sempre uma tarefa imperfeita. Do meu ponto de vista, Jean-Jacques tem pouco que ver com o estado a que o ensino chegou. Os verdadeiros e múltiplos pais dos novos métodos são toda uma geração: a daqueles - de que Maria Filomena Mónica e Nuno Crato fazem parte - que eram jovens nos anos sessenta, e que, contra uma sociedade asfixiante, que lhes impunha modelos bafientos enquanto enviava os rapazes para a guerra (Vietname, Angola, Moçambique), opôs a sua contracultura: feita de liberdade e criação na música, nas relações, no vestuário, na linguagem, com uma procura delirante do exótico e do prazer imediato - fosse no amor, fosse nas drogas, nas filosofias do Oriente, em Che ou em Mao.
Este movimento, de que nos tendemos, hoje, a esquecer, envolveu e mudou o mundo de várias formas e em diferentes frentes. É da vaga de psicólogos e sociólogos então produzidos, carregados de boas intenções, sonhos e droga, que nós somos, todos os professores quarentões, os autênticos herdeiros.
Não há dúvida de que os disparates se acumularam e o desastre parece ameaçar-nos a cada instante. Estou, como Crato ou como Mónica, contra as novas pedagogias em que se apoia o sistema que se tornou, aparentemente, pouco sério e nada eficaz. Não há, talvez, nada mais pernicioso do que as boas intenções, quando mal compreendidas, mal digeridas e estupidamente aplicadas. Mas seria importante não lançar fora o bebé com a água do banho: não perder de vista a intenção de humanização do ensino que subjazia a esses projectos que tanto mal fizeram. Seria importante que, corrigir, reformar, não fosse - como, às vezes, parece na boca de alguns - passar do modelo que em tudo detecta horrorosas fontes de desprazer e recalcamento, para o modelo que não teme minimamente fazer sofrer, e que exclui o prazer como elemento da aprendizagem.
domingo, março 12, 2006
«SI NON É VERO...»
Conta o meu irmão, em cujas histórias não posso confiar plenamente mas que me fazem sempre rir, que Freitas do Amaral foi entrevistado para a TVI, num encontro em Salzburg.
A propósito das recentes polémicas por causa do seu comunicado acerca dos cartunes, respondia, com a arrogância e os olhos esbugalhados do costume, por trás dos seus óculos de aquário: «Perdão, só os ignorantes é que não entenderam o que se pretendia com esse comunicado...»; e para provar que, internacionalmente, a sua mensagem, como agora se diz de novo, passara, clara e consensual, Freitas fez questão de chamar para o pé de si o ministro dinamarquês, que deveria aplaudir as suas palavras, o seu comunicado e a «compreensão» nele mostrada em relação à fúria devastadora do mundo árabe.
O ministro dinamarquês aproximou-se, com efeito, grato pela solidariedade que os portugueses haviam dado, pelo apoio oferecido neste momento difícil, e bla-bla-blá, bla-bla-blá.
Mas, por uma vez, o jornalista que os interrogava era um homem que falava inglês e, com uma pronúncia (sempre segundo meu irmão) ainda mais correcta do que a do próprio Freitas, atravessou-se, perguntando ao ministro se tinha efectivamente lido o dito comunicado, especialmente o ponto em que este se referia à «compreensão» da reacção muçulmana.
Perante este esclarecimento, o ministro dinamarquês gritou, espantado: «Compreensão!? Compreensão!? Mas não; que disparate, é inadmissível: «compreender» os destruidores das embaixadas? como compreensão, como compreensão...?», ao que Freitas, por sua vez, interpunha, muito vermelho, «Mas eu não disse exactamente «compreensão», o que eu disse, atenção!, o que eu disse...», saindo então ambos a esbracejar, e deixando o jornalista sozinho com o microfone.
Duvido que isto se tenha passado assim.
Mas lá que teria sido merecido, que era bom que se tivesse passado assim, isso...
A propósito das recentes polémicas por causa do seu comunicado acerca dos cartunes, respondia, com a arrogância e os olhos esbugalhados do costume, por trás dos seus óculos de aquário: «Perdão, só os ignorantes é que não entenderam o que se pretendia com esse comunicado...»; e para provar que, internacionalmente, a sua mensagem, como agora se diz de novo, passara, clara e consensual, Freitas fez questão de chamar para o pé de si o ministro dinamarquês, que deveria aplaudir as suas palavras, o seu comunicado e a «compreensão» nele mostrada em relação à fúria devastadora do mundo árabe.
O ministro dinamarquês aproximou-se, com efeito, grato pela solidariedade que os portugueses haviam dado, pelo apoio oferecido neste momento difícil, e bla-bla-blá, bla-bla-blá.
Mas, por uma vez, o jornalista que os interrogava era um homem que falava inglês e, com uma pronúncia (sempre segundo meu irmão) ainda mais correcta do que a do próprio Freitas, atravessou-se, perguntando ao ministro se tinha efectivamente lido o dito comunicado, especialmente o ponto em que este se referia à «compreensão» da reacção muçulmana.
Perante este esclarecimento, o ministro dinamarquês gritou, espantado: «Compreensão!? Compreensão!? Mas não; que disparate, é inadmissível: «compreender» os destruidores das embaixadas? como compreensão, como compreensão...?», ao que Freitas, por sua vez, interpunha, muito vermelho, «Mas eu não disse exactamente «compreensão», o que eu disse, atenção!, o que eu disse...», saindo então ambos a esbracejar, e deixando o jornalista sozinho com o microfone.
Duvido que isto se tenha passado assim.
Mas lá que teria sido merecido, que era bom que se tivesse passado assim, isso...
sábado, março 11, 2006
AFORISMOS - PORVENTURA ERRADOS - ACERCA DE ERROS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE
Uma pessoa nunca é o que pensávamos. Pode, porém, suceder que nunca sejamos confrontados com o nosso engano: nesse caso, dir-se-á que a conhecemos.
Se não encontramos a pessoa talhada para que sejamos ambos felizes, paciência. Encontramos sempre outra: geralmente, pagamo-lo caro.
A primeira lição que devemos aprender com os nossos erros, é que os erros são professores austeros: não nos perdoam que erremos.
A maior imoralidade numa traição por amor, consiste em que se lhe chame «traição».
A infidelidade é, muitas vezes, a fidelidade exercida como dilema.
Se não encontramos a pessoa talhada para que sejamos ambos felizes, paciência. Encontramos sempre outra: geralmente, pagamo-lo caro.
A primeira lição que devemos aprender com os nossos erros, é que os erros são professores austeros: não nos perdoam que erremos.
A maior imoralidade numa traição por amor, consiste em que se lhe chame «traição».
A infidelidade é, muitas vezes, a fidelidade exercida como dilema.
sexta-feira, março 10, 2006
ISA A MENTIROSA
Isa brincava no recreio da escola, quando viu, em cima do muro baixo, um poucochinho de brilho sob o sol da manhã.
Por um momento, pensou que esse brilho fosse um bocado do próprio sol, que tivesse caído. Devia ser quente! Uma curiosidade gazelídea movia-a devagar em direcção ao brilho; ia um pouco receosa mas, ao mesmo tempo, com o prazer desse receio.
Ao perceber o que era, deu um gritinho. Melhor do que um bocado do sol: um bâton a sério, de senhora, que se tornava, de súbito, a melhor coisa do recreio, a melhor coisa do momento, talvez da sua vida. Um bâton como o da tia São (a mãe praticamente não usava), como o daquelas senhoras de lábios lustrosos, que deixavam marcas nos guadanapos de papel, nos copos e nas chávenas.
Pegou no supositório (é verdade que também lhe parecia um supositório), pô-lo na palma da mão, nas duas mãos em concha, tirou-lhe a tampa, mirou-lhe a cor: fez um traço sobre o muro e arrependeu-se imediatamente, com medo de gastar o que acabara de descobrir.
Andou o resto do tempo do intervalo sozinha, não se pintando, mas fingindo que se pintava, sentindo o pauzinho nas mãos suadas, guardando-o no bolso, tirando-o de novo para o ver, como se tivesse esquecido e quisesse recordar a sua forma, ou como se duvidasse da sua existência.
Mais tarde, na casa de banho da escola, olhando-se ao espelho, pintou ao de leve os lábios; depois, como se não se visse bem, como se não tivesse tido nos lábios a cor viva que esperara, tornou a passá-lo. Quando saiu, sentia-se uma senhora crescida. Se limpasse os lábios a um guardanapo, deixaria uma marca, o desenho de uns lábios. Se desse um beijo ao Marco, que ela adorava secretamente, estamparia na bochecha dele a forma de um coração. Se levasse um copo à boca, ficaria um borrão na borda...
Já não sei quem foi a primeira a reparar. Possivelmente a professora, que perguntou o que tinha ela. Isa explicou que pintara os lábios. A professora não percebeu com quê, julgou que com tinta, mandou-a lavar muito bem a boca.
Quando soube que uma sua colega perdera o bâton, e o procurava, aflita, assustada até, porque tinha sido um presente muito caro, a professora fez mentalmente uma vaga associação, como uma descoberta que não se vestira ainda completamente para sair à rua, mas poderia sair dentro de pouco tempo.
- Mas onde é que tu tinhas o bâton?
- Na minha mala. Esteve sempre na minha mala.
- Mas não o terias perdido...?
- Não. A mala estava fechada. Esteve sempre fechada. Não.
- Achas que to roubaram? Desapareceu-te mais alguma coisa? Não o terás deixado em casa?
A colega tinha a certeza absoluta. A mala estivera pousada numa cadeira, à mão de semear de quem passasse, talvez de uma das empregadas...
- Mas não te levava a carteira? Só o bâton? Não achas estranho?
De novo na aula, a professora mandou chamar Isa para o pé da sua secretária.
Olhou-a muito atentamente, como uma adulta capaz de seguir o rasto dos pensamentos de uma criança culpada, como um polícia esperto, a quem não escapam os sinais do medo no rosto do assassino.
- Aquilo que tu tinhas hoje de manhã nos lábios... aquilo era bâton, Isa?
- Era - (nem sombra de atrapalhação na expressão, na voz, no gesto).
- E onde é que arranjaste o bâton?
- Ah, foi a minha tia que me deu. - (A tradução-para-adulto destas palavras deveria ser: Este bâton é igual aos da minha tia, é tão importante como os da minha tia, faz de mim uma senhora crescida como a minha tia, como se tivesse sido a minha tia a abrir-me esta deliciosa porta).
Era uma mentira óbvia, pensou a professora. Uma tia não oferece um bâton a uma criança de seis anos.
- Tens aí o bâton? Posso vê-lo?
A professora parecia demasiado interessada no seu segredo, no seu brinquedo, na sua brincadeira, no seu brilho - que começara por ser um brilho de sol sobre o muro e se tornara num brilho de cor nos seus lábios. Isa olhou-a, tentando encontrar o significado daquele interesse.
- Não.
Baixou a cabeça. Escondeu os olhos no chão.
- Tens a certeza? - insistia a professora.
- Não.
- Não quê? Não tens a certeza, ou não tens o bâton contigo?
- Não.
- Bem. Vá, vai lá sentar-te.
Isa foi. Mas a professora sabia já o que queria saber, a sua suspeita vestira-se completamente, pusera chapéu e luvas, não era uma curiosidade assomada à janela, mas uma certeza pronta para sair à rua.
Quando tocou para o intervalo do almoço, a professora seguiu silenciosamente Isa, espreitou-a na casa de banho onde, como a senhora previra, a menina, diante do espelho baixo, à medida das meninas, se encantava consigo, com os seus lábios, com o seu bâton.
- Ah! malandra. Ladra. Ladrazinha de uma figa!!!
Quando a mãe de Isa a veio buscar à escola, a professora disse-lhe que precisava de falar com ela. Estava muito séria. Muito grave. Com a voz ligeiramente velada. Levou-a para um gabinete onde se sentaram, já as duas um pouco nervosas, ambas tensas e preocupadas, sem que a professora soubesse como começar a narração; sem saber muito bem, apesar de ter treinado essa conversa, como insultar a menina em linguagem psicologicamente correcta.
Por um momento, pensou que esse brilho fosse um bocado do próprio sol, que tivesse caído. Devia ser quente! Uma curiosidade gazelídea movia-a devagar em direcção ao brilho; ia um pouco receosa mas, ao mesmo tempo, com o prazer desse receio.
Ao perceber o que era, deu um gritinho. Melhor do que um bocado do sol: um bâton a sério, de senhora, que se tornava, de súbito, a melhor coisa do recreio, a melhor coisa do momento, talvez da sua vida. Um bâton como o da tia São (a mãe praticamente não usava), como o daquelas senhoras de lábios lustrosos, que deixavam marcas nos guadanapos de papel, nos copos e nas chávenas.
Pegou no supositório (é verdade que também lhe parecia um supositório), pô-lo na palma da mão, nas duas mãos em concha, tirou-lhe a tampa, mirou-lhe a cor: fez um traço sobre o muro e arrependeu-se imediatamente, com medo de gastar o que acabara de descobrir.
Andou o resto do tempo do intervalo sozinha, não se pintando, mas fingindo que se pintava, sentindo o pauzinho nas mãos suadas, guardando-o no bolso, tirando-o de novo para o ver, como se tivesse esquecido e quisesse recordar a sua forma, ou como se duvidasse da sua existência.
Mais tarde, na casa de banho da escola, olhando-se ao espelho, pintou ao de leve os lábios; depois, como se não se visse bem, como se não tivesse tido nos lábios a cor viva que esperara, tornou a passá-lo. Quando saiu, sentia-se uma senhora crescida. Se limpasse os lábios a um guardanapo, deixaria uma marca, o desenho de uns lábios. Se desse um beijo ao Marco, que ela adorava secretamente, estamparia na bochecha dele a forma de um coração. Se levasse um copo à boca, ficaria um borrão na borda...
Já não sei quem foi a primeira a reparar. Possivelmente a professora, que perguntou o que tinha ela. Isa explicou que pintara os lábios. A professora não percebeu com quê, julgou que com tinta, mandou-a lavar muito bem a boca.
Quando soube que uma sua colega perdera o bâton, e o procurava, aflita, assustada até, porque tinha sido um presente muito caro, a professora fez mentalmente uma vaga associação, como uma descoberta que não se vestira ainda completamente para sair à rua, mas poderia sair dentro de pouco tempo.
- Mas onde é que tu tinhas o bâton?
- Na minha mala. Esteve sempre na minha mala.
- Mas não o terias perdido...?
- Não. A mala estava fechada. Esteve sempre fechada. Não.
- Achas que to roubaram? Desapareceu-te mais alguma coisa? Não o terás deixado em casa?
A colega tinha a certeza absoluta. A mala estivera pousada numa cadeira, à mão de semear de quem passasse, talvez de uma das empregadas...
- Mas não te levava a carteira? Só o bâton? Não achas estranho?
De novo na aula, a professora mandou chamar Isa para o pé da sua secretária.
Olhou-a muito atentamente, como uma adulta capaz de seguir o rasto dos pensamentos de uma criança culpada, como um polícia esperto, a quem não escapam os sinais do medo no rosto do assassino.
- Aquilo que tu tinhas hoje de manhã nos lábios... aquilo era bâton, Isa?
- Era - (nem sombra de atrapalhação na expressão, na voz, no gesto).
- E onde é que arranjaste o bâton?
- Ah, foi a minha tia que me deu. - (A tradução-para-adulto destas palavras deveria ser: Este bâton é igual aos da minha tia, é tão importante como os da minha tia, faz de mim uma senhora crescida como a minha tia, como se tivesse sido a minha tia a abrir-me esta deliciosa porta).
Era uma mentira óbvia, pensou a professora. Uma tia não oferece um bâton a uma criança de seis anos.
- Tens aí o bâton? Posso vê-lo?
A professora parecia demasiado interessada no seu segredo, no seu brinquedo, na sua brincadeira, no seu brilho - que começara por ser um brilho de sol sobre o muro e se tornara num brilho de cor nos seus lábios. Isa olhou-a, tentando encontrar o significado daquele interesse.
- Não.
Baixou a cabeça. Escondeu os olhos no chão.
- Tens a certeza? - insistia a professora.
- Não.
- Não quê? Não tens a certeza, ou não tens o bâton contigo?
- Não.
- Bem. Vá, vai lá sentar-te.
Isa foi. Mas a professora sabia já o que queria saber, a sua suspeita vestira-se completamente, pusera chapéu e luvas, não era uma curiosidade assomada à janela, mas uma certeza pronta para sair à rua.
Quando tocou para o intervalo do almoço, a professora seguiu silenciosamente Isa, espreitou-a na casa de banho onde, como a senhora previra, a menina, diante do espelho baixo, à medida das meninas, se encantava consigo, com os seus lábios, com o seu bâton.
- Ah! malandra. Ladra. Ladrazinha de uma figa!!!
Quando a mãe de Isa a veio buscar à escola, a professora disse-lhe que precisava de falar com ela. Estava muito séria. Muito grave. Com a voz ligeiramente velada. Levou-a para um gabinete onde se sentaram, já as duas um pouco nervosas, ambas tensas e preocupadas, sem que a professora soubesse como começar a narração; sem saber muito bem, apesar de ter treinado essa conversa, como insultar a menina em linguagem psicologicamente correcta.
IDEIAS DE POUCAS PALAVRAS (III)
Quando alguém a quem se diz «Isto não pode ser» responde «Então só parte disto» ou «Ao menos aquilo», este só e este ao menos são como um pé que se atravessa na fresta da porta, para que esta se não feche: e um pé que impede uma porta de se fechar, fá-lo sempre com o intuito de, mais tarde, a abrir.
quinta-feira, março 09, 2006
NO SILÊNCIO DO SENTIR-TE
A mais usada das palavras é só
Um nome para este tremor imenso,
Este querer-te tanto, que assim querer alguém
Não pode senão ser ilusão ou erro
Esta palavra demasiado fácil,
Que todos os amantes, todos os dias
Usam, nós não podemos porém usá-la
Porque o seu som não designa este silêncio
Concentremo-nos
Simplesmente
No que nunca pertenceu às palavras
Um nome para este tremor imenso,
Este querer-te tanto, que assim querer alguém
Não pode senão ser ilusão ou erro
Esta palavra demasiado fácil,
Que todos os amantes, todos os dias
Usam, nós não podemos porém usá-la
Porque o seu som não designa este silêncio
Concentremo-nos
Simplesmente
No que nunca pertenceu às palavras
PROBLEMAS GOSTOSAMENTE IRRELEVANTES
Quando iniciei este blogue, não tinha dúvidas de que a minha intenção e a minha intensidade de comunicação se tornariam irresistíveis e de que, em pouco tempo, um universo de sedentos leitores dos meus mais pequeninos pensamentos se formaria. Espalhei o endereço por alguns amigos, comecei a escrever. Insistia com as pessoas: Já leste, já viste? Assediados, um ou outro acabavam por dar com textos a que, depois, se referiam - raramente para o blogue, a maioria das vezes em mensagem de telemóvel ou, quando me encontravam, de viva voz. Uns quantos «postaram», no entanto, os respectivos comentário. Um convite publicitário - foi a primeira reacção ao meu blogue -, e algumas impressões. Com o tempo, os comentários foram rareando. Ainda me lembro de uma série de textos em que eu reflectia sobre a sensação de isolamento que me ganhava, a ideia de estar a escrever na água, em vão, para o tempo passageiro e volúvel, para o vazio. Eram textos pungentes, chamamentos, apelos, pedidos de um eco longínquo, de um sinal mínimo. Num certo sentido, habituei-me à ideia de que estava só. De que escrevia pelo prazer de escrever.
E fui, até, deixando de frequentar o meu próprio blogue. Alternativamente, escrevia para um outro, da escola, que, esse sim, se tornara popular, e me granjeava leitores - gente que gostava e gente que detestava, mas, fosse como fosse, reacções vivas, comentários. Negligenciei, pois, o Kaostico.
A minha primeira surpresa deu-se quando uma colega de, digamos, relação formal, ou meio-formal - já aqui falei disto - me contou, um dia, que se dera ao trabalho de, através do blogue da escola, me seguir até este: lia os meus textos kaosticos, apreciara muito alguns, reconhecia-se num em especial. Fiquei siderado. Pensei, numa espécie de sobressalto, que talvez me tivesse excedido, de que a sensação de estar só me levara, porventura, a escrever com uma sinceridade incómoda, como quando estamos sozinhos a tirar macacos do nariz e descobrimos que, afinal, algures, alguém olhava para nós...
Vieram, entretanto, outras surpresas.
Uma «sm» pedia-me que, a propósito de uma prevista conversa com alunos acerca do amor platónico, de que eu aqui dava conta, escrevesse mais, fizesse uma «continuação» de modo a noticiar como tinha, depois, corrido essa conversa.
Automaticamente, de mim para mim, descodifiquei «sm» como «São Morais» - minha amiga e organizadora dessa conversa com alunos - e respondi-lhe tratando-a por esse nome. Até que descobri que «sm», que continuava comentando, não era «São Morais», mas outra. Que outra? Alguém que eu conhecesse? Uma desconhecida que tropeçara por acaso no blogue e se interessara? Como sabê-lo? Ironicamente, expliquei que, pelas minhas contas, já teria três leitores, talvez quatro nos dias de maior engarrafamento - e digo «ironicamente» porque, no fundo, no fundo, supunha ter bem menos.
A propósito de novos textos, tenho recebido outros comentários. Um «curioso» elogia-me uma reflexão, comenta um conto sobre monstros, adverte-me para que terei mais leitores que só não se tinham manifestado - como ele, até então - por não saberem como. E perante esta sensação estranha, perturbadora,esta noção de um eco desconhecido, um murmurar de desconhecidos, no outro lado (são quem eu penso? «sm», que não é a São, será a Paulina? «Curioso» será o Carlos? Ou pessoas que nunca me viram...?) sinto-me preocupado, temeroso, excitado, inseguro. São, num certo sentido, preocupações irrelevantes: não me matam, não há que dramatizar. Excitantes: comunico, afinal (embora um blogue, lembra-me «sm», seja uma fresta muito pequena). São problemas, de algum modo, gostosos, em que me perco um pouco.
Posso comprometer-me a escrever aqui um texto - pelo menos - por dia. Posso comprometer-me a, sobretudo, não me vigiar: a dizer o que sinto, o que estou pensando, ainda que possa estar a pensar mal. Não como quem tira macacos do nariz. Mas sentindo que, se alguém se dá ao trabalho de vir até mim, merece que eu seja mesmo eu diante dele.
E fui, até, deixando de frequentar o meu próprio blogue. Alternativamente, escrevia para um outro, da escola, que, esse sim, se tornara popular, e me granjeava leitores - gente que gostava e gente que detestava, mas, fosse como fosse, reacções vivas, comentários. Negligenciei, pois, o Kaostico.
A minha primeira surpresa deu-se quando uma colega de, digamos, relação formal, ou meio-formal - já aqui falei disto - me contou, um dia, que se dera ao trabalho de, através do blogue da escola, me seguir até este: lia os meus textos kaosticos, apreciara muito alguns, reconhecia-se num em especial. Fiquei siderado. Pensei, numa espécie de sobressalto, que talvez me tivesse excedido, de que a sensação de estar só me levara, porventura, a escrever com uma sinceridade incómoda, como quando estamos sozinhos a tirar macacos do nariz e descobrimos que, afinal, algures, alguém olhava para nós...
Vieram, entretanto, outras surpresas.
Uma «sm» pedia-me que, a propósito de uma prevista conversa com alunos acerca do amor platónico, de que eu aqui dava conta, escrevesse mais, fizesse uma «continuação» de modo a noticiar como tinha, depois, corrido essa conversa.
Automaticamente, de mim para mim, descodifiquei «sm» como «São Morais» - minha amiga e organizadora dessa conversa com alunos - e respondi-lhe tratando-a por esse nome. Até que descobri que «sm», que continuava comentando, não era «São Morais», mas outra. Que outra? Alguém que eu conhecesse? Uma desconhecida que tropeçara por acaso no blogue e se interessara? Como sabê-lo? Ironicamente, expliquei que, pelas minhas contas, já teria três leitores, talvez quatro nos dias de maior engarrafamento - e digo «ironicamente» porque, no fundo, no fundo, supunha ter bem menos.
A propósito de novos textos, tenho recebido outros comentários. Um «curioso» elogia-me uma reflexão, comenta um conto sobre monstros, adverte-me para que terei mais leitores que só não se tinham manifestado - como ele, até então - por não saberem como. E perante esta sensação estranha, perturbadora,esta noção de um eco desconhecido, um murmurar de desconhecidos, no outro lado (são quem eu penso? «sm», que não é a São, será a Paulina? «Curioso» será o Carlos? Ou pessoas que nunca me viram...?) sinto-me preocupado, temeroso, excitado, inseguro. São, num certo sentido, preocupações irrelevantes: não me matam, não há que dramatizar. Excitantes: comunico, afinal (embora um blogue, lembra-me «sm», seja uma fresta muito pequena). São problemas, de algum modo, gostosos, em que me perco um pouco.
Posso comprometer-me a escrever aqui um texto - pelo menos - por dia. Posso comprometer-me a, sobretudo, não me vigiar: a dizer o que sinto, o que estou pensando, ainda que possa estar a pensar mal. Não como quem tira macacos do nariz. Mas sentindo que, se alguém se dá ao trabalho de vir até mim, merece que eu seja mesmo eu diante dele.
terça-feira, março 07, 2006
RACIOCÍNIOS FRÁGEIS
O Doutor Boaventura de Sousa Santos (BSS), expoente maior das ciências humanas na sua versão pós-moderna, escrevia um artigo em que tentava responder, no fundo, a uma adivinha: o que há de comum entre (1) uns jovens que, recentemente, assassinaram um sem-abrigo à pedrada, (2) uns outros jovens brasileiros que, há algum tempo, mataram - ou, pelo menos, atacaram - uns representantes de uma comunidade de índios e (3) o caso das caricaturas do profeta Maomé?
Sei que a resposta a esta adivinha deve residir, obviamente, numa determinada analogia. Mas também sei que as analogias devem ser usadas com ponderação e rigor - ou bem que têm limites, ou tudo pode ter qualquer coisa em comum com seja lá o que for.
Para BSS, o segredo para solucionar o problema radica em observar-se que existe, nos três casos, um mesmo desprezo pelo outro: pelo diferente, trate-se do travesti, do sem-abrigo, do índio, do homossexual.
A ridicularização implicaria sempre uma idêntica forma de desrespeito por aquilo que se não compreende. E é sempre de ridicularização que se trata, quer sob a forma da pedrada quer sob a forma da caricatura. Ou seja, para BSS não há nenhuma diferença de natureza entre espancar um homem até à morte e fazer humor: apedrejar um ser humano ou contar uma anedota de alentejanos são actos que comungam de uma mesma essência assassina. Enxovalhar o outro no seu ser-outro representa sempre, fundamentalmente, um mesmo tipo de indignidade.
Ora do meu ponto de vista, pelo contrário, o humor não pode deixar de ser um olhar sobre o que é diferente: esse talento e esse poder de negar momentaneamente a seriedade do que é, quanto mais não seja para alguém, a coisa mais séria desta vida, constitui uma seiva de toda a democracia e, mais do que isso, um pilar da civilização ocidental. Na sua forma mais delicada ou mais grosseira, como ironia, ou sarcasmo, ou escárnio e mal-dizer, o humor, que faz estremecer o poder, tomba governos e submete ao escrutínio do ridículo todas as instituições e todas as expressões humanas, é, frequentemente, uma voz do preconceito, sem dúvida, mas nem por isso deixa de representar um limite para que nos tomemos demasiado a sério ou para que façamos do respeito absoluto, da reverência e do tabu os princípios da nossa existência social.
Umberto Eco mostrava-nos, no Nome da Rosa, essa ligação íntima entre a imposição do dogma e o banir do riso. Onde o riso é temido, e proibido, ou admoestado, só pode emergir uma gravidade totalmente falha de espírito - no caso, do espírito capaz de se distanciar do literal, o espírito capaz de deformar para provocar a saudável gargalhada, o espírito do humor.
BSS diria: Não, não, não, não é disso que se trata! Não de banir o riso, que horror, olhem para mim, que sou um homem tão divertido, e que gosto muito de rir com anedotas que não ofendem, como aquela do elefante e da formiga, mas de banir o mau riso.
Mau riso? Não é que não seja concebível um riso pior - um riso grosseiro, humilhante, sem gosto nem educação. Mas o problema está em que, se há, efectivamente, esse riso pior, que nos assusta, também me parece, por outro lado, que não há riso que não seja mau. Não existe humor sem maldade. Um humor que fosse puro e cristalino, bondoso, de santos, seria um humor sem graça. E no entanto, a eficácia social da maldade humorística, por implacável que seja, está precisamente em que essa maldade não é exercida como violência física ou como exclusão efectiva do outro. Um homem que ri de si mesmo, um negro que conta anedotas de negros, não são necessariamente suicidas, nem traidores: são a prova de que se pode compreender que o mal do riso não tem de ser maléfico nem humilhante.
Compreenderia que se tentasse separar, do riso mau (que é todo, num certo sentido), o riso pior. Mas não seria isso também uma amputação cultural e social com repercussões perigosas? Que critérios e que fronteiras, que limites e que ofensas teríamos de considerar (se, em última análise, tudo o que é troça pode ser ofensivo)?
Tudo deve então ser permitido? Certamente que não. Mas não vejo que seja um progresso humano traçarmos a priori uma demarcação.
Por onde quer que olhe, não compreendo a analogia de BSS.
Tremo só de pensar no uso que, em ciência, BSS pode fazer da analogia.
Sei que a resposta a esta adivinha deve residir, obviamente, numa determinada analogia. Mas também sei que as analogias devem ser usadas com ponderação e rigor - ou bem que têm limites, ou tudo pode ter qualquer coisa em comum com seja lá o que for.
Para BSS, o segredo para solucionar o problema radica em observar-se que existe, nos três casos, um mesmo desprezo pelo outro: pelo diferente, trate-se do travesti, do sem-abrigo, do índio, do homossexual.
A ridicularização implicaria sempre uma idêntica forma de desrespeito por aquilo que se não compreende. E é sempre de ridicularização que se trata, quer sob a forma da pedrada quer sob a forma da caricatura. Ou seja, para BSS não há nenhuma diferença de natureza entre espancar um homem até à morte e fazer humor: apedrejar um ser humano ou contar uma anedota de alentejanos são actos que comungam de uma mesma essência assassina. Enxovalhar o outro no seu ser-outro representa sempre, fundamentalmente, um mesmo tipo de indignidade.
Ora do meu ponto de vista, pelo contrário, o humor não pode deixar de ser um olhar sobre o que é diferente: esse talento e esse poder de negar momentaneamente a seriedade do que é, quanto mais não seja para alguém, a coisa mais séria desta vida, constitui uma seiva de toda a democracia e, mais do que isso, um pilar da civilização ocidental. Na sua forma mais delicada ou mais grosseira, como ironia, ou sarcasmo, ou escárnio e mal-dizer, o humor, que faz estremecer o poder, tomba governos e submete ao escrutínio do ridículo todas as instituições e todas as expressões humanas, é, frequentemente, uma voz do preconceito, sem dúvida, mas nem por isso deixa de representar um limite para que nos tomemos demasiado a sério ou para que façamos do respeito absoluto, da reverência e do tabu os princípios da nossa existência social.
Umberto Eco mostrava-nos, no Nome da Rosa, essa ligação íntima entre a imposição do dogma e o banir do riso. Onde o riso é temido, e proibido, ou admoestado, só pode emergir uma gravidade totalmente falha de espírito - no caso, do espírito capaz de se distanciar do literal, o espírito capaz de deformar para provocar a saudável gargalhada, o espírito do humor.
BSS diria: Não, não, não, não é disso que se trata! Não de banir o riso, que horror, olhem para mim, que sou um homem tão divertido, e que gosto muito de rir com anedotas que não ofendem, como aquela do elefante e da formiga, mas de banir o mau riso.
Mau riso? Não é que não seja concebível um riso pior - um riso grosseiro, humilhante, sem gosto nem educação. Mas o problema está em que, se há, efectivamente, esse riso pior, que nos assusta, também me parece, por outro lado, que não há riso que não seja mau. Não existe humor sem maldade. Um humor que fosse puro e cristalino, bondoso, de santos, seria um humor sem graça. E no entanto, a eficácia social da maldade humorística, por implacável que seja, está precisamente em que essa maldade não é exercida como violência física ou como exclusão efectiva do outro. Um homem que ri de si mesmo, um negro que conta anedotas de negros, não são necessariamente suicidas, nem traidores: são a prova de que se pode compreender que o mal do riso não tem de ser maléfico nem humilhante.
Compreenderia que se tentasse separar, do riso mau (que é todo, num certo sentido), o riso pior. Mas não seria isso também uma amputação cultural e social com repercussões perigosas? Que critérios e que fronteiras, que limites e que ofensas teríamos de considerar (se, em última análise, tudo o que é troça pode ser ofensivo)?
Tudo deve então ser permitido? Certamente que não. Mas não vejo que seja um progresso humano traçarmos a priori uma demarcação.
Por onde quer que olhe, não compreendo a analogia de BSS.
Tremo só de pensar no uso que, em ciência, BSS pode fazer da analogia.
segunda-feira, março 06, 2006
OS MONSTROS
Aquele súbito ruído bem no âmago da sua silenciosa solidão fê-la estremecer de um susto minúsculo, diríamos: discreto.
As crianças, em seus sustos, concebem de imediato monstros habitando-lhes o roupeiro. Só aos poucos é que, à medida que vão adolescendo mais, preenchem os sustos com outras hipóteses: intrusos, ladrões, a professora de matemática...
Os adultos, pelo contrário, principiam sempre por pôr as hipóteses menos terríveis. Não porque ignorem os monstros mas, pelo contrário, porque os viram já frente a frente, porque os conhecem bem de mais e os temem demasiado. Treinaram-se para não os imaginarem constantemente.
Por isso mesmo, Maria, sozinha em casa, assustada, foi-se propondo hipóteses inócuas para o bizarro e repentino ruído: uma janela aberta lá em cima (por que se esquecia sempre de as fechar?), o vento, algum objecto que resvalara...
Mas o ruído reproduzira-se. Havia mais sons. Passos. Algo que se aproximava, que não se limitava a soar mecanicamente no mesmo sítio.
Tentou regressar ao juízo, um redil de pequeníssimo diâmetro.
Que disparate! Quem poderia ser? O que poderia ser? Não se ergueu da cadeira. Nem para ir ver - que nunca iria - nem para se refugiar. Impunha juízo ao seu espírito, impunha-lhe saúde mental; recordava-se de que era adulta, esquecia-se ou fazia por se esquecer de que um adulto sozinho é simplesmente uma criança amputada da capacidade de brincar, insultava-se, «Estúpida, medrosa», a palavra «medrosa» conduzia-a, por associação, a insultos ainda piores, «merdosa», fazia-se mal para afugentar de uma vez a ideia de que lhe poderiam fazer mal.
Mas havia uma aproximação. Inegavelmente. Fosse o que fosse, era um aproximante, um ser que vinha, que se chegava, que sentia cada vez mais perto. Toda a sua coragem se fragmentou em torno de um princípio de terror. Um ladrão?
O terror endurecia, trazendo consigo os seus pesadelos.
Sabia que os monstros existiam, como qualquer adulto o sabe, principalmente os que o ignoram, os que sorriem, protectores, dos seus filhos que gritam, à noite, por eles.
Já não era capaz de apagar o seu pressentimento, de dar outro nome e outra forma àquela pura proximidade, àquela aproximação secreta.
O monstro regressava.
Meu Deus, que horas seriam?
O monstro estava ali. À porta da sala. Fixando-a incisivamente. Muito pálido. O seu marido.
As crianças, em seus sustos, concebem de imediato monstros habitando-lhes o roupeiro. Só aos poucos é que, à medida que vão adolescendo mais, preenchem os sustos com outras hipóteses: intrusos, ladrões, a professora de matemática...
Os adultos, pelo contrário, principiam sempre por pôr as hipóteses menos terríveis. Não porque ignorem os monstros mas, pelo contrário, porque os viram já frente a frente, porque os conhecem bem de mais e os temem demasiado. Treinaram-se para não os imaginarem constantemente.
Por isso mesmo, Maria, sozinha em casa, assustada, foi-se propondo hipóteses inócuas para o bizarro e repentino ruído: uma janela aberta lá em cima (por que se esquecia sempre de as fechar?), o vento, algum objecto que resvalara...
Mas o ruído reproduzira-se. Havia mais sons. Passos. Algo que se aproximava, que não se limitava a soar mecanicamente no mesmo sítio.
Tentou regressar ao juízo, um redil de pequeníssimo diâmetro.
Que disparate! Quem poderia ser? O que poderia ser? Não se ergueu da cadeira. Nem para ir ver - que nunca iria - nem para se refugiar. Impunha juízo ao seu espírito, impunha-lhe saúde mental; recordava-se de que era adulta, esquecia-se ou fazia por se esquecer de que um adulto sozinho é simplesmente uma criança amputada da capacidade de brincar, insultava-se, «Estúpida, medrosa», a palavra «medrosa» conduzia-a, por associação, a insultos ainda piores, «merdosa», fazia-se mal para afugentar de uma vez a ideia de que lhe poderiam fazer mal.
Mas havia uma aproximação. Inegavelmente. Fosse o que fosse, era um aproximante, um ser que vinha, que se chegava, que sentia cada vez mais perto. Toda a sua coragem se fragmentou em torno de um princípio de terror. Um ladrão?
O terror endurecia, trazendo consigo os seus pesadelos.
Sabia que os monstros existiam, como qualquer adulto o sabe, principalmente os que o ignoram, os que sorriem, protectores, dos seus filhos que gritam, à noite, por eles.
Já não era capaz de apagar o seu pressentimento, de dar outro nome e outra forma àquela pura proximidade, àquela aproximação secreta.
O monstro regressava.
Meu Deus, que horas seriam?
O monstro estava ali. À porta da sala. Fixando-a incisivamente. Muito pálido. O seu marido.
LIBERDADES
Diz a feminista previdente: «Eu não me casei, para poder fazer tudo o que quero». Responde o previdente machão: «Eu casei-me, para poder fazer tudo o que quero».
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
A EXPERIÊNCIA DO AMOR PLATÓNICO
Seguindo o conselho da minha amiga São - que me enviou um comentário para este blogue vazio de outros comentários, sem medo de parecer ridícula: é nesses momentos que consigo avaliar a extraordinária dimensão da sua amizade -, vou, hoje, narrar a experiência da minha conversa sobre o Amor Platónico.
Em primeiro lugar, cheguei cedo; chego sempre cedo: não disse que me «vinha» sempre cedo, mas que «chegava», referindo-me, como é evidente, a outros acontecimentos sociais importantes para além do sexo.
Fiquei no carro a rever apontamentos, muito nervoso, com um casaco de bombazina que a São, quando apareceu, não perdeu oportunidade de comentar: «Ena, pareces mesmo um conferencista!»
Foi dali mostrar-me «o» lugar em que eu seria executado dentro em pouco, o Centro de Recursos, magnífico, muito bem apetrechado, com música de fundo, muitas flores sobre a mesa em que eu me apoiaria.
Depois, levou-me a tomar um café à sala dos professores, onde nos esperava o presidente do Conselho Executivo, e meu amigo - que pouco tenho visto - José Guerreiro, a quem expliquei que estava tão nervoso que nem seria capaz de alterar a introdução do meu texto («Sinto-me muito feliz por ver aqui tanta gente reunida»), ainda que só estivessem dois ou três alunos presentes. Curiosamente, o Guerreiro e a São tomaram esta advertência por uma piada, e riram muito, incapazes de compreender a que ponto me encontrava de facto nervoso.
De novo no Centro de Recursos, escondi-me num canto, enquanto se abriam as portas e entrava por ali uma massa de alunos, soltando no ar ruídos de telemóvel e apartes sarcásticos: «Agora é que vamos ficar a saber o que é o amor...!»
De repente, a São já estava a apresentar-me. E mais depressa ainda, ali estava eu sozinho, entalado entre uma mesa com flores e um grupo de alunos diversificados, entre os quais espreitavam as cabeças de duas ou três adultas, presumivelmente as professoras que tinham obrigado aqueles marmanjos a virem conversar comigo!
Principiei, pois, a falar. Os lábios pareciam colados: abria-os com uma dificuldade imensa, muito secos, como se se agarrassem um ao outro para não terem de se separar. E, entre alunas muito novas, completamente desinteressadas, que mantinham os olhos fixos nos seus telemóveis, deu-se ali, porém, uma espécie de encantamento amoroso, um pequeno encantamento que principiou a crescer, à medida que algumas outras raparigas (sim, sobretudo raparigas), mais velhas, talvez do 12º ano, entravam em diálogo comigo acerca deste assunto que não lhes dizia certamente nada - amor platónico? hoje em dia..? - mas de que se aproximavam genuinamente, como se reconhecessem que era, talvez, de um outro planeta que eu descia para comunicar e, no entanto, tivessem a expectativa (mais do que a convicção) de que os seres de outro planeta, com outros hábitos e outras mentes, revelam diferenças que vale a pena observar, que nos diluem as próprias certezas, que nos distanciam, por um momento, imperceptivelmente, dos nossos próprios hábitos...! Que, ainda que nos não mudem realmente, já de alguma maneira nos mudaram. Que, ainda que nos não mudem as respostas, já, de alguma forma, mudaram algumas das nossas perguntas...
Senti-me pleno. Daí em diante, cada momento do que sucedia era, ainda, um fragmento dessa plenitude. Foi tudo imperfeito, claro. No instante em que as coisas estão a acontecer e nos minutos seguintes, só temos consciência dos aspectos em que falhámos, no que poderia ter sido feito muito melhor. Mas alguns dias depois, só temos pena de que, mesmo imperfeito, mesmo incompleto, esse momento já tenha passado.
Não sou, portanto, platónico. É sempre de um momento real, imperfeito e tudo, que eu, depois, tenho saudades.
É sempre a realidade, mesmo imperfeita, que eu depois idealizo.
Em primeiro lugar, cheguei cedo; chego sempre cedo: não disse que me «vinha» sempre cedo, mas que «chegava», referindo-me, como é evidente, a outros acontecimentos sociais importantes para além do sexo.
Fiquei no carro a rever apontamentos, muito nervoso, com um casaco de bombazina que a São, quando apareceu, não perdeu oportunidade de comentar: «Ena, pareces mesmo um conferencista!»
Foi dali mostrar-me «o» lugar em que eu seria executado dentro em pouco, o Centro de Recursos, magnífico, muito bem apetrechado, com música de fundo, muitas flores sobre a mesa em que eu me apoiaria.
Depois, levou-me a tomar um café à sala dos professores, onde nos esperava o presidente do Conselho Executivo, e meu amigo - que pouco tenho visto - José Guerreiro, a quem expliquei que estava tão nervoso que nem seria capaz de alterar a introdução do meu texto («Sinto-me muito feliz por ver aqui tanta gente reunida»), ainda que só estivessem dois ou três alunos presentes. Curiosamente, o Guerreiro e a São tomaram esta advertência por uma piada, e riram muito, incapazes de compreender a que ponto me encontrava de facto nervoso.
De novo no Centro de Recursos, escondi-me num canto, enquanto se abriam as portas e entrava por ali uma massa de alunos, soltando no ar ruídos de telemóvel e apartes sarcásticos: «Agora é que vamos ficar a saber o que é o amor...!»
De repente, a São já estava a apresentar-me. E mais depressa ainda, ali estava eu sozinho, entalado entre uma mesa com flores e um grupo de alunos diversificados, entre os quais espreitavam as cabeças de duas ou três adultas, presumivelmente as professoras que tinham obrigado aqueles marmanjos a virem conversar comigo!
Principiei, pois, a falar. Os lábios pareciam colados: abria-os com uma dificuldade imensa, muito secos, como se se agarrassem um ao outro para não terem de se separar. E, entre alunas muito novas, completamente desinteressadas, que mantinham os olhos fixos nos seus telemóveis, deu-se ali, porém, uma espécie de encantamento amoroso, um pequeno encantamento que principiou a crescer, à medida que algumas outras raparigas (sim, sobretudo raparigas), mais velhas, talvez do 12º ano, entravam em diálogo comigo acerca deste assunto que não lhes dizia certamente nada - amor platónico? hoje em dia..? - mas de que se aproximavam genuinamente, como se reconhecessem que era, talvez, de um outro planeta que eu descia para comunicar e, no entanto, tivessem a expectativa (mais do que a convicção) de que os seres de outro planeta, com outros hábitos e outras mentes, revelam diferenças que vale a pena observar, que nos diluem as próprias certezas, que nos distanciam, por um momento, imperceptivelmente, dos nossos próprios hábitos...! Que, ainda que nos não mudem realmente, já de alguma maneira nos mudaram. Que, ainda que nos não mudem as respostas, já, de alguma forma, mudaram algumas das nossas perguntas...
Senti-me pleno. Daí em diante, cada momento do que sucedia era, ainda, um fragmento dessa plenitude. Foi tudo imperfeito, claro. No instante em que as coisas estão a acontecer e nos minutos seguintes, só temos consciência dos aspectos em que falhámos, no que poderia ter sido feito muito melhor. Mas alguns dias depois, só temos pena de que, mesmo imperfeito, mesmo incompleto, esse momento já tenha passado.
Não sou, portanto, platónico. É sempre de um momento real, imperfeito e tudo, que eu, depois, tenho saudades.
É sempre a realidade, mesmo imperfeita, que eu depois idealizo.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
AMOR PLATÓNICO
A minha amiga São, que me sobrevaloriza certamente as capacidades e talentos oratórios, convidou-me, imagine-se, para aquilo a que chama uma «conversa» - na verdade uma conferência que eu próprio deverei dar no centro de recursos novinho em folha da sua escola. Fá-lo-ei com mais prazer do que perícia.
O tema é o amor platónico. No dia dos namorados, vejam bem. O amor platónico, portanto, debatido com jovens de uma sociedade e de um tempo em que o sexo se tornou não só importante, mas central.
Porque este blogue que ninguém ou poucos lêem há-de servir alguma vez para alguma coisa, deixem-me aproveitá-lo para praticar o que amanhã farei de viva voz: lançar ideias, seguir pistas, sublinhar alguma coisa acerca do amor platónico no meio de jovens para quem já nada, hoje em dia, é platónico.
Gostaria de principiar por lhes recordar que, historicamente (ou etimologicamente, talvez) o conceito de «amor platónico» se funda num equívoco. O que seria o amor segundo Platão (que hoje se confunde, comummente, com uma atracção puramente espiritual, idealizada, sem realização nem dimensão carnal), é tratado, afinal, pelo próprio Platão, no Banquete, de um modo que em nada se aproxima desse lugar comum em que acabaria por se converter.
No seu discurso, Diotima, dialogando com um Sócrates ainda jovem, explica-lhe o caminho que deve trilhar aquele que se quer iniciar nas artes do amor.
Numa primeira fase, terá de se passar pela paixão devoradora por outrem. Por uma única pessoa, mais do que isso - ou menos do que isso: por um corpo. Aquele ou aquela que me parece a mais bela, a quem me entrego como se nada e ninguém mais importasse, abrem-me o caminho. Esse - ou essa - é o meu iniciador.
Mais tarde, deverei descobrir que a beleza não reside unicamente numa pessoa. O meu amado, a minha amada, deverá ser, digamos, superado/a. Através, mas que pouco platónico tudo isto soa!, da descoberta de diversos amantes, de diversos corpos, de inúmeras pessoas, que me permitam desvendar em todas uma beleza comum, a beleza. Quando perceber que esta é una, que se não esgota num corpo nem num objecto e quando, então, me cansar dos corpos, inferiores ao próprio belo que exprimem, poderei erguer-me para fins mais elevados, compreender a beleza nas próprias leis, nas ideias...
Ou seja, não é em Platão que encontramos o amor platónico de que hoje falamos. É nos trovadores e poetas da Idade Média, nos artistas do Renascimento, nos cantores - geralmente jovens, geralmente pobres, cuja sensibilidade nervosa e culta os faz aspirar ardentemente a amores inacessíveis, a suspirar por damas prometidas a outros, ou casadas. Porque o lugar dos trovadores junto dos poderosos é ambíguo - por um lado, requisitados por estes, para que os divirtam, por outro lado, rebaixados, são os verdadeiros inventores do amor.De um amor idealizado, sonhado, cantado, irrealizado, irrealizável numa sociedade em que o que determina as uniões e os casamentos é a vontade de pais poderosos, de famílias ricas às quais as filhas não ousam desobedecer.
A minha tese é, pois, a de que há um carácter profundamente revolucionário no amor platónico - o de se opor a um sistema de casamentos de conveniência, em que o sentimento não conta e o desejo não tem lugar. (É simples compreendermos, a partir desta perspectiva, porque razão a História precisou de tanto tempo para deixar que sobreviesse, e se reconhecesse e afirmasse a existência de algo como o «desejo feminino»).
Que lugar e que sentido pode ter hoje, numa sociedade tão fortemente impregnada do sexual, uma concepção que, noutro tempo, teve um papel revolucionário?
A pergunta com que terminarei é: podemos, hoje, conceber o amor platónico como um tipo de amor específico, completo em si mesmo, satisfatório? Ou será sempre visto como uma forma de carência, de irrealização, de incumprimento, uma falta, uma falha, uma frustração?
É interessante, em torno dessa questão, usar as posições extremas de, por um lado, o movimento assexual, para quem o amor autêntico não passa pelo sexo - é outra coisa, à qual o sexo, quando se junta, se se junta, nada de essencial acrescenta -, e, por outro lado, de Marguerite Yourcenar, que em Memórias Piedosas nos relata uma amizade de infância entre duas meninas, perguntando-se se haveria, nesse laço, qualquer forma de sensualidade, para se responder, finalmente, que não há laço afectivo que não seja, no fundo de si, sensual...
Assim será. Até amanhã, São.
O tema é o amor platónico. No dia dos namorados, vejam bem. O amor platónico, portanto, debatido com jovens de uma sociedade e de um tempo em que o sexo se tornou não só importante, mas central.
Porque este blogue que ninguém ou poucos lêem há-de servir alguma vez para alguma coisa, deixem-me aproveitá-lo para praticar o que amanhã farei de viva voz: lançar ideias, seguir pistas, sublinhar alguma coisa acerca do amor platónico no meio de jovens para quem já nada, hoje em dia, é platónico.
Gostaria de principiar por lhes recordar que, historicamente (ou etimologicamente, talvez) o conceito de «amor platónico» se funda num equívoco. O que seria o amor segundo Platão (que hoje se confunde, comummente, com uma atracção puramente espiritual, idealizada, sem realização nem dimensão carnal), é tratado, afinal, pelo próprio Platão, no Banquete, de um modo que em nada se aproxima desse lugar comum em que acabaria por se converter.
No seu discurso, Diotima, dialogando com um Sócrates ainda jovem, explica-lhe o caminho que deve trilhar aquele que se quer iniciar nas artes do amor.
Numa primeira fase, terá de se passar pela paixão devoradora por outrem. Por uma única pessoa, mais do que isso - ou menos do que isso: por um corpo. Aquele ou aquela que me parece a mais bela, a quem me entrego como se nada e ninguém mais importasse, abrem-me o caminho. Esse - ou essa - é o meu iniciador.
Mais tarde, deverei descobrir que a beleza não reside unicamente numa pessoa. O meu amado, a minha amada, deverá ser, digamos, superado/a. Através, mas que pouco platónico tudo isto soa!, da descoberta de diversos amantes, de diversos corpos, de inúmeras pessoas, que me permitam desvendar em todas uma beleza comum, a beleza. Quando perceber que esta é una, que se não esgota num corpo nem num objecto e quando, então, me cansar dos corpos, inferiores ao próprio belo que exprimem, poderei erguer-me para fins mais elevados, compreender a beleza nas próprias leis, nas ideias...
Ou seja, não é em Platão que encontramos o amor platónico de que hoje falamos. É nos trovadores e poetas da Idade Média, nos artistas do Renascimento, nos cantores - geralmente jovens, geralmente pobres, cuja sensibilidade nervosa e culta os faz aspirar ardentemente a amores inacessíveis, a suspirar por damas prometidas a outros, ou casadas. Porque o lugar dos trovadores junto dos poderosos é ambíguo - por um lado, requisitados por estes, para que os divirtam, por outro lado, rebaixados, são os verdadeiros inventores do amor.De um amor idealizado, sonhado, cantado, irrealizado, irrealizável numa sociedade em que o que determina as uniões e os casamentos é a vontade de pais poderosos, de famílias ricas às quais as filhas não ousam desobedecer.
A minha tese é, pois, a de que há um carácter profundamente revolucionário no amor platónico - o de se opor a um sistema de casamentos de conveniência, em que o sentimento não conta e o desejo não tem lugar. (É simples compreendermos, a partir desta perspectiva, porque razão a História precisou de tanto tempo para deixar que sobreviesse, e se reconhecesse e afirmasse a existência de algo como o «desejo feminino»).
Que lugar e que sentido pode ter hoje, numa sociedade tão fortemente impregnada do sexual, uma concepção que, noutro tempo, teve um papel revolucionário?
A pergunta com que terminarei é: podemos, hoje, conceber o amor platónico como um tipo de amor específico, completo em si mesmo, satisfatório? Ou será sempre visto como uma forma de carência, de irrealização, de incumprimento, uma falta, uma falha, uma frustração?
É interessante, em torno dessa questão, usar as posições extremas de, por um lado, o movimento assexual, para quem o amor autêntico não passa pelo sexo - é outra coisa, à qual o sexo, quando se junta, se se junta, nada de essencial acrescenta -, e, por outro lado, de Marguerite Yourcenar, que em Memórias Piedosas nos relata uma amizade de infância entre duas meninas, perguntando-se se haveria, nesse laço, qualquer forma de sensualidade, para se responder, finalmente, que não há laço afectivo que não seja, no fundo de si, sensual...
Assim será. Até amanhã, São.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
A NÃO-DEFICIÊNCIA COMO INSUFICIÊNCIA
Em Portugal,os cidadãos deficientes são os melhores de nós. Claramente: digo-o sem qualquer espécie de paternalismo ou de complacência. Como se, para um português, ser não-deficiente fosse uma forma de diminuição psicológica,como se equivalesse a uma incapacidade congénita no uso da vida,a uma impreparação para avançar, para dispensar desculpas. Já notámos que os deficientes portugueses são, verdadeiramente, os que ganham medalhas nos jogos olímpicos, os que passam mesmo a linha que separa o sonho e o desejo, da acção que realiza.
Escrevo a propósito de um livro de que ouvi falar: feito por um homem que sofre de paralisia cerebral - mas está longe de sofrer de paralisia da inteligência ou da sensibilidade -, que faz de cada instante do seu quotidiano um exercício do pensar, e nos diz, sem ironia, que o seu estado físico, as suas próprias incapacidades, é que o levam a pensar tão intensa e constantemente, consiste num conjunto de aforismos, de pensamentos poéticos, de, quase no sentido bíblico, palavras de salvação. Do saber que subjaz ao seu livro, afirma: «Esta luz é apenas um pouco da luz que a minha humana cegueira alcança».
Vemo-lo no seu computador, escrevendo com dificuldade, vemo-lo procurar outros, vemo-lo dar-se em convívio e amor. Calculando que - precisamente porque sabemos como são, na sua maioria, os não-deficientes em Portugal - calculando como ser deficiente entre nós é, num certo sentido, ser-se ainda mais deficiente, ou seja, mais abandonado, mais desprotegido, calculando como a mínima realização é, para um cidadão deficiente, de um custo infinitamente superior ao de um cidadão deficiente de outro país europeu, não posso deixar de me interrogar sobre o que seria Portugal se o espírito de luta e sacrifício, e se a vontade fossem deste calibre.
Infelizmente, isso não é para todos!
Escrevo a propósito de um livro de que ouvi falar: feito por um homem que sofre de paralisia cerebral - mas está longe de sofrer de paralisia da inteligência ou da sensibilidade -, que faz de cada instante do seu quotidiano um exercício do pensar, e nos diz, sem ironia, que o seu estado físico, as suas próprias incapacidades, é que o levam a pensar tão intensa e constantemente, consiste num conjunto de aforismos, de pensamentos poéticos, de, quase no sentido bíblico, palavras de salvação. Do saber que subjaz ao seu livro, afirma: «Esta luz é apenas um pouco da luz que a minha humana cegueira alcança».
Vemo-lo no seu computador, escrevendo com dificuldade, vemo-lo procurar outros, vemo-lo dar-se em convívio e amor. Calculando que - precisamente porque sabemos como são, na sua maioria, os não-deficientes em Portugal - calculando como ser deficiente entre nós é, num certo sentido, ser-se ainda mais deficiente, ou seja, mais abandonado, mais desprotegido, calculando como a mínima realização é, para um cidadão deficiente, de um custo infinitamente superior ao de um cidadão deficiente de outro país europeu, não posso deixar de me interrogar sobre o que seria Portugal se o espírito de luta e sacrifício, e se a vontade fossem deste calibre.
Infelizmente, isso não é para todos!
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