Pois para festejarmos o modo como este governo clamorosamente agora caiu, e os ministros...
Peço perdão, houve uma troca de rascunhos, pelo que iniciei o presente «post» com uma frase que tenho ciosamente guardada para o devido momento.
Reiniciemos, pois:
Com a sua voz grave e tensa, de quem tem um dramático e permanente segredo para nos revelar, que parece queimar-lhe a garganta, Francisco Louçã confidenciou-nos: «Este governo não gosta das pessoas.»
Francisco Louçã perdeu, nos últimos anos, muito do interesse que me suscitara, mas, por uma vez, acertou no alvo de uma forma que chega a doer.
Em todas as decisões que têm chocado, e sobretudo em zonas tão delicadas como a Educação ou a Saúde, o governo tem revelado uma insensibilidade que nenhum discurso ministerial consegue esconder. Norteia-o a ideia de que há que fazer progredir o país segundo os critérios da Comunidade Europeia, no que toca a números visíveis, mas à custa das pessoas, das famílias, num total desrespeito pelo sofrimento concreto.
Pode o primeiro-ministro confessar-se chocado com as situações, sistematicamente vindas a lume, de recusa de aposentação a professores obrigados, desculpem-me a crueza das palavras, a morrer nas escolas; o certo é que, para que estes factos tenham sido possíveis, e durante tanto tempo - e com conhecimento da ministra da Educação, como a própria afirmou -, não só é necessário que esta espécie de anestesia dos sentimentos tenha crescido e estendido os seus efeitos um pouco por todos os departamentos sob responsabilidade do governo, como, à sua luz, se torna bruscamente compreensível que o governo tenha considerado uma medida aceitável travar e estancar todas as mudanças de escalão dos funcionários públicos e dos professores por um período prolongado, que um senhor seja posto na berlinda pelo uso da sua opinião, com palavras excessivas ou não...
Tudo, as mais dispersas e inesperadas medidas encontram, se não mais, este pequeno mas duro ponto comum, este mínimo mas forte fio condutor.
Irão, certamente, objectar-me que há demasiada subjectividade na minha análise, que algo como a «insensibilidade» não constitui uma categoria política; como é evidente, discordo completamente da objecção: por insensibilidade, entenda-se, não se discute se o primeiro-ministro ou qualquer um dos seus ministros são capazes de se comover em funerais, ou lacrimejar diante de um filme triste; não se discute até que ponto, como pessoa, o senhor José Sócrates, ao tomar conhecimento de alguns casos de professores obrigados a arrastar os respectivos cancros pelas escolas, não será capaz de sentir um aguilhão na consciência ou um aperto no coração. A insensibilidade de que vos falo é perfeitamente objectiva. E política. Tem que ver com um determinado espírito que condiciona as decisões, que determina as prioridades, que hierarquiza o que é importante e que, no momento das escolhas, concentra a atenção em certos aspectos ocultando à nossa atenção os outros - chamemos-lhes pormenores. Não tem conteúdo, não é, em si, um valor, muito menos um programa, mas algo que se aproximaria de uma atitude, sendo que o termo «atitude» é vago e, pessoalmente, lhe prefiro a expressão «forma»: trata-se, portanto, de uma forma de governação assumida pelo governo, multiplicada - e clonada -, por todos os ministros, secretários, sub-secretários, assessores, contínuos, porteiros, presente em todos os ministérios, copiada ao exemplo que vem de cima, natural e espontaneamente espalhada, forma à qual os amigos do governo chamariam «determinação», os inimigos «obstinação» e se apresenta, nos mais diversos casos, como pura «insensibilidade».
É claramente uma categoria política - situada naquele ponto invisível onde a política se cruza com a moral.
domingo, julho 29, 2007
sábado, junho 30, 2007
O ESPECTÁCULO MAIS CARO E MAIS BREVE DO MUNDO
A Brigada de Trânsito multou-me. Ou, como eles dizem, autuou-me.
Tinham razão, e eu não: falava despudoradamente ao telemóvel enquanto conduzia, marginal afora. Dei por eles no momento em que me ultrapassaram, vagarosos, como se, de repente, tudo tivesse principiado a mover-se em câmara lenta; tudo, com excepção do meu coração, que disparou a uma velocidade que teria certamente merecido, também, ser «autuada».
Durante algum tempo, não fizeram nada: mantiveram-se à minha frente, rolando com serenidade. Nem gestos, nem sirenes, nem gritos por megafone. Cheguei a pensar, numa ingenuidade digna de uma terceira multa, que talvez não tivessem reparado no pormenor do telemóvel que, entretanto, desligara, e que chamava agora por mim, assinalando o desespero da pessoa a quem eu interrompera a conversa sem pré-aviso. Pensei em ultrapassá-los, por minha vez. Não o fiz. Mantive-me atento, tenso, atrás deles, pisando ovos...
Até que, ao aproximarmo-nos de uma saída, a mão peluda de um dos dois agentes indicou pela janela da viatura, com firmeza, que me queriam atrás deles por aquele desvio.
Saímos. Pararam, parei. Um jovem de óculos escuros e boné periclitante sobre a cabeça dirigiu-se-me. Eu balbuciava desculpas, explicava mentirosamente que não tinha esse hábito, que fora uma emergência, mas o homem limitava-se a insistir pelos meus documentos.
A única parte interessante de toda aquela sessão foi, do meu ponto de vista, constituída pelo momento em que uma rabanada de vento fez voar da cabeça do jovem agente o seu boné, fazendo-me compreender a dureza da sua missão: não é fácil perseguir bandidos com uma mão tendo de pressionar constantemente a tampa de um boné que não encaixa com perfeição na cabeça. Infelizmente, devo confessar que esse momento de humor e relaxamento foi demasiado breve para tamanho preço. Custou-me cento e vinte euros. Suponho que numa revista do Parque Mayer também me poderia ter rido do típico polícia à portuguesa por menos dinheiro...
Se eu fosse uma criança, ou um anarquista, ou um tipo sem moral, incapaz de respeito pela Lei, ter-me-ia dado ao trabalho de congeminar um plano para futuras situações. Por exemplo, passar a andar sempre com dois telemóveis no carro: um normal, o outro completamente avariado.
Mandado parar por falar ao telemóvel durante a condução, esconderia imediatamente o bom; apresentaria, ao agente, o estragado, dizendo-lhe:
- Mas eu não estava a falar ao telemóvel, senhor guarda. Já viu o estado dele? Como é que eu podia falar nisto? Encostara-o simplesmente ao ouvido para tentar perceber se teria arranjo. E não tem, não tem, já viu isto? Foi o meu filho e blá-blá-blá...
Se eu não passasse de um adolescente, claro, desses com aparelho nos dentes e que sangram do nariz por tudo e por nada. Ou de um anarquista. Ou de um Fora-da-lei. Ou se não fosse um professor a trabalhar pelo honroso posto de titular...!
Tinham razão, e eu não: falava despudoradamente ao telemóvel enquanto conduzia, marginal afora. Dei por eles no momento em que me ultrapassaram, vagarosos, como se, de repente, tudo tivesse principiado a mover-se em câmara lenta; tudo, com excepção do meu coração, que disparou a uma velocidade que teria certamente merecido, também, ser «autuada».
Durante algum tempo, não fizeram nada: mantiveram-se à minha frente, rolando com serenidade. Nem gestos, nem sirenes, nem gritos por megafone. Cheguei a pensar, numa ingenuidade digna de uma terceira multa, que talvez não tivessem reparado no pormenor do telemóvel que, entretanto, desligara, e que chamava agora por mim, assinalando o desespero da pessoa a quem eu interrompera a conversa sem pré-aviso. Pensei em ultrapassá-los, por minha vez. Não o fiz. Mantive-me atento, tenso, atrás deles, pisando ovos...
Até que, ao aproximarmo-nos de uma saída, a mão peluda de um dos dois agentes indicou pela janela da viatura, com firmeza, que me queriam atrás deles por aquele desvio.
Saímos. Pararam, parei. Um jovem de óculos escuros e boné periclitante sobre a cabeça dirigiu-se-me. Eu balbuciava desculpas, explicava mentirosamente que não tinha esse hábito, que fora uma emergência, mas o homem limitava-se a insistir pelos meus documentos.
A única parte interessante de toda aquela sessão foi, do meu ponto de vista, constituída pelo momento em que uma rabanada de vento fez voar da cabeça do jovem agente o seu boné, fazendo-me compreender a dureza da sua missão: não é fácil perseguir bandidos com uma mão tendo de pressionar constantemente a tampa de um boné que não encaixa com perfeição na cabeça. Infelizmente, devo confessar que esse momento de humor e relaxamento foi demasiado breve para tamanho preço. Custou-me cento e vinte euros. Suponho que numa revista do Parque Mayer também me poderia ter rido do típico polícia à portuguesa por menos dinheiro...
Se eu fosse uma criança, ou um anarquista, ou um tipo sem moral, incapaz de respeito pela Lei, ter-me-ia dado ao trabalho de congeminar um plano para futuras situações. Por exemplo, passar a andar sempre com dois telemóveis no carro: um normal, o outro completamente avariado.
Mandado parar por falar ao telemóvel durante a condução, esconderia imediatamente o bom; apresentaria, ao agente, o estragado, dizendo-lhe:
- Mas eu não estava a falar ao telemóvel, senhor guarda. Já viu o estado dele? Como é que eu podia falar nisto? Encostara-o simplesmente ao ouvido para tentar perceber se teria arranjo. E não tem, não tem, já viu isto? Foi o meu filho e blá-blá-blá...
Se eu não passasse de um adolescente, claro, desses com aparelho nos dentes e que sangram do nariz por tudo e por nada. Ou de um anarquista. Ou de um Fora-da-lei. Ou se não fosse um professor a trabalhar pelo honroso posto de titular...!
quarta-feira, junho 20, 2007
UMA TEORIA SOBRE A BOA EDUCAÇÃO E OS EQUÍVOCOS QUE GERA
Já percebi muito bem que alguma coisa, no modo como entro numa secretaria ou num qualquer serviço administrativo, envia sinais que os senhores que me atendem interpretam sempre como submissão, receio, inferioridade. Não sei que sinais sejam. Talvez excesso de suor, excesso de gestualidade, excesso de explicações, excesso de delicadeza. Alguma coisa, que não consigo identificar, quanto mais controlar em mim, faz os senhores e as senhoras que se encontram aos balcões das secretarias, puxar da sua arrogância, da sua prepotência, de uns esgares de impaciência e desdém, de uma secura especial em resposta às minhas desajeitadas tentativas de humor.
Falo a sério. Se esses sinais têm tanta importância entre os cães ou entre os lobos, ou mesmo entre os peixes, que não são criaturas conhecidas pela sua inteligência, se é fácil animais da mesma espécie reconhecerem quem lidera, e quem se acoita na subserviência, pelo modo como um deles exibe o ventre vulnerável aos dentes do outro, ou oferece o cachaço, ou espera pacientemente pela sua vez na partilha da presa, como não haveriam os seres humanos de reagir a sinais porventura ainda mais subtis? Não é preciso que eu me estenda no chão, mostrando o meu ventre; há certamente sinais imperceptíveis mas que, a um determinado nível, subliminarmente, não deixam de ter efeito.
Mas eu tenho uma teoria: a democracia, de algum modo, baralhou a lógica e o sentido desses sinais. (O facto parece-me tão evidente e compreensível, que não acredito que haja quem tome por anti-democrática a sua verificação. Enfim, nunca se sabe. Algumas pessoas são realmente muito burras...!)
A delicadeza, a etiqueta, a chamada boa educação, sempre foram a sofisticação da elite: uma pessoa deixar outra passar primeiro pela porta, alguém levantar-se para oferecer o seu lugar, ou descobrir-se diante de outrem, não eram propriamente gestos que indicassem submissão ou inferioridade. Eram, pelo contrário, uma garantia da educação esmerada - e um sinal de reconhecimento de um eleito, de um fidalgo, de um cavalheiro. Hoje, quando frequentamos (ou podemos frequentar) as mesmas escolas, aceder aos mesmos empregos e, pelo menos aparentemente, nos tornámos todos iguais, os sinais tornam-se equívocos - porque se eu deixo o bruto passar-me à frente, o bruto pensa: «Ah, ele reconhece que eu sou mais importante! Primeiro eu, depois ele...!»; se for uma mulher (que não sabe nem perceberia que eu deixo sempre passar primeiro quem quer que esteja comigo, e o não faço unicamente por se tratar de uma mulher), será capaz de me admoestar, como já algumas mo fizeram, do alto do seu assumido e estreito feminismo: «Isso já não se usa!»
São, quem sabe?, esta delicadeza incompreendida e dinossáurica, este dirigir-se ainda às pessoas com «por favor» e «desculpe», este não passar à frente nem pôr-se em bicos de pés, que, para um funcionário de secretaria, se traduzem de imediato como: «Grite-me aos ouvidos, enxovalhe-me, pontapeie-me que eu estou inibido e tenho muito medo de si!»
É a minha teoria
Falo a sério. Se esses sinais têm tanta importância entre os cães ou entre os lobos, ou mesmo entre os peixes, que não são criaturas conhecidas pela sua inteligência, se é fácil animais da mesma espécie reconhecerem quem lidera, e quem se acoita na subserviência, pelo modo como um deles exibe o ventre vulnerável aos dentes do outro, ou oferece o cachaço, ou espera pacientemente pela sua vez na partilha da presa, como não haveriam os seres humanos de reagir a sinais porventura ainda mais subtis? Não é preciso que eu me estenda no chão, mostrando o meu ventre; há certamente sinais imperceptíveis mas que, a um determinado nível, subliminarmente, não deixam de ter efeito.
Mas eu tenho uma teoria: a democracia, de algum modo, baralhou a lógica e o sentido desses sinais. (O facto parece-me tão evidente e compreensível, que não acredito que haja quem tome por anti-democrática a sua verificação. Enfim, nunca se sabe. Algumas pessoas são realmente muito burras...!)
A delicadeza, a etiqueta, a chamada boa educação, sempre foram a sofisticação da elite: uma pessoa deixar outra passar primeiro pela porta, alguém levantar-se para oferecer o seu lugar, ou descobrir-se diante de outrem, não eram propriamente gestos que indicassem submissão ou inferioridade. Eram, pelo contrário, uma garantia da educação esmerada - e um sinal de reconhecimento de um eleito, de um fidalgo, de um cavalheiro. Hoje, quando frequentamos (ou podemos frequentar) as mesmas escolas, aceder aos mesmos empregos e, pelo menos aparentemente, nos tornámos todos iguais, os sinais tornam-se equívocos - porque se eu deixo o bruto passar-me à frente, o bruto pensa: «Ah, ele reconhece que eu sou mais importante! Primeiro eu, depois ele...!»; se for uma mulher (que não sabe nem perceberia que eu deixo sempre passar primeiro quem quer que esteja comigo, e o não faço unicamente por se tratar de uma mulher), será capaz de me admoestar, como já algumas mo fizeram, do alto do seu assumido e estreito feminismo: «Isso já não se usa!»
São, quem sabe?, esta delicadeza incompreendida e dinossáurica, este dirigir-se ainda às pessoas com «por favor» e «desculpe», este não passar à frente nem pôr-se em bicos de pés, que, para um funcionário de secretaria, se traduzem de imediato como: «Grite-me aos ouvidos, enxovalhe-me, pontapeie-me que eu estou inibido e tenho muito medo de si!»
É a minha teoria
terça-feira, maio 22, 2007
A LIBERDADE DE PROIBIR QUE SE SEJA LIVRE DE FUMAR
Perante este poderoso e virtuoso tsunami que é a tentativa de liquidação dos fumadores, venho sentindo a necessidade de dizer uma, talvez duas coisas. Fá-lo-ei, ainda por cima, na posição imperdoável de traidor à minha classe de origem: a de não-fumador.
Fumar tornou-se, aos olhos moralistas e moralizadores do senso comum contemporâneo, num crime terrível, quase ao nível da pedofilia. De um momento para o outro, a sociedade passou a ver no acto de abrir um maço, puxar de um cigarro, levá-lo à boca, acendê-lo, uma espécie de degradação, misto de suicídio lento e de lento homicídio com alguma responsabilidade também na destruição do ambiente.
Fumar é visto como um acto sujo. Fisicamente sujo, porque se trata de contaminar os pulmões e o ar - e os dentes, e os dedos - mas também moralmente sujo, porque se trata de conformar-se ao vício. Multiplicam-se campanhas, ostentam-se fotografias de órgãos completamente destruídos, fala-se das doenças e, suprema humilhação, adverte-se, nos próprios maços, como se os fumadores o não soubessem ou pudessem esquecê-lo, que o tabaco torna impotente, mata, emporcalha o corpo e a alma.
Finalmente, proíbe-se que se fume: e os portugueses, sondados sobre a questão, acham bem; os portugueses gostariam, porventura, que se fosse mais longe; que os fumadores fossem impedidos de fumar em bares, em salões de fumo, em qualquer lado, em todo o lado...
A tirania espreita sob este ideal de um mundo politicamente correcto, perfeito, sem fumadores, nem touradas, nem circos, nem anedotas sobre Alentejanos, ou loiras, ou pretos; sem escolhas, nem risos, nem discordâncias. A mais tremenda das intolerâncias acoita-se, paradoxalmente, nesta pregação da «tolerância justa», que se poderia traduzir no seguinte lema: temos de ser tolerantes com todos aqueles sujeitos «diferentes» que venham enunciados na nossa cartilha - o que significa, ao mesmo tempo, banir e proscrever os «diferentes» errados, os que são capazes de apreciar (por exemplo) espectáculos bárbaros, ou de apreciar um charuto poluidor, ou os cínicos, ou os descrentes...
No meio de tudo, como não-fumador que não gosta que lhe fumem para ao rosto, é certo, e não se cala quando o cigarro incomoda, por exemplo se almoço num restaurante, mas não aceita que queiram proibir o cigarro como possibilidade, como direito, como escolha, apetece-me recordar que o acto de fumar é um acto cultural e mítico, imbuído de simbolismo e de estilo; que pode ser um acto de uma beleza e de uma sensualidade extremas, que a memória do cinema transporta desde sempre; que não é possível evocarmos determinadas imagens ou pessoas sem que se lhes associe o cigarro, de Bogart a Brando, de Malraux a Guevara, de Lucky Luke a Gainsbourg, passando pela Dietrich ou pela Simone de Beauvoir; que foi - e é - tantas vezes um gesto de rebeldia e provocação, que o foi sempre de emancipação, e de aproximação, de comunicação, sedução; ou, como se tudo não bastasse, que é um prazer, um gosto - antes de ser um vício, ou para além de o ser. Ou: ao mesmo tempo que o é.
Tudo isto se paga? Sem dúvida. Em dinheiro, em saúde, em rupturas. Não sei se compensará. Para alguns, teimosos resistentes, fumadores ferrenhos, parece-me óbvio que sim. Sei, como não-fumador assumido, contudo - e estou perfeitamente consciente de cada uma das palavras que passarei a escrever -, que um mundo do qual o tabaco fosse inteiramente banido, juntamente com a elegância do gesto de puxar de um cigarro, ou o de bater com ele sobre o maço, como que para o endireitar - coisa que já não vejo fazer tão frequentemente como via na minha infância -, ou de o acender com o tremeluzir amarelo-azul da chama de um isqueiro, seria um mundo mais pobre, mais seco, mais triste e mais despojado em termos simbólicos, míticos, culturais.
Sei que um mundo em que proibissem Humphrey Bogart de fumar - ou me proibissem de o evocar mergulhado no fumo ténue do seu eterno cigarro - seria um mundo menos rico. E menos livre.
Fumar tornou-se, aos olhos moralistas e moralizadores do senso comum contemporâneo, num crime terrível, quase ao nível da pedofilia. De um momento para o outro, a sociedade passou a ver no acto de abrir um maço, puxar de um cigarro, levá-lo à boca, acendê-lo, uma espécie de degradação, misto de suicídio lento e de lento homicídio com alguma responsabilidade também na destruição do ambiente.
Fumar é visto como um acto sujo. Fisicamente sujo, porque se trata de contaminar os pulmões e o ar - e os dentes, e os dedos - mas também moralmente sujo, porque se trata de conformar-se ao vício. Multiplicam-se campanhas, ostentam-se fotografias de órgãos completamente destruídos, fala-se das doenças e, suprema humilhação, adverte-se, nos próprios maços, como se os fumadores o não soubessem ou pudessem esquecê-lo, que o tabaco torna impotente, mata, emporcalha o corpo e a alma.
Finalmente, proíbe-se que se fume: e os portugueses, sondados sobre a questão, acham bem; os portugueses gostariam, porventura, que se fosse mais longe; que os fumadores fossem impedidos de fumar em bares, em salões de fumo, em qualquer lado, em todo o lado...
A tirania espreita sob este ideal de um mundo politicamente correcto, perfeito, sem fumadores, nem touradas, nem circos, nem anedotas sobre Alentejanos, ou loiras, ou pretos; sem escolhas, nem risos, nem discordâncias. A mais tremenda das intolerâncias acoita-se, paradoxalmente, nesta pregação da «tolerância justa», que se poderia traduzir no seguinte lema: temos de ser tolerantes com todos aqueles sujeitos «diferentes» que venham enunciados na nossa cartilha - o que significa, ao mesmo tempo, banir e proscrever os «diferentes» errados, os que são capazes de apreciar (por exemplo) espectáculos bárbaros, ou de apreciar um charuto poluidor, ou os cínicos, ou os descrentes...
No meio de tudo, como não-fumador que não gosta que lhe fumem para ao rosto, é certo, e não se cala quando o cigarro incomoda, por exemplo se almoço num restaurante, mas não aceita que queiram proibir o cigarro como possibilidade, como direito, como escolha, apetece-me recordar que o acto de fumar é um acto cultural e mítico, imbuído de simbolismo e de estilo; que pode ser um acto de uma beleza e de uma sensualidade extremas, que a memória do cinema transporta desde sempre; que não é possível evocarmos determinadas imagens ou pessoas sem que se lhes associe o cigarro, de Bogart a Brando, de Malraux a Guevara, de Lucky Luke a Gainsbourg, passando pela Dietrich ou pela Simone de Beauvoir; que foi - e é - tantas vezes um gesto de rebeldia e provocação, que o foi sempre de emancipação, e de aproximação, de comunicação, sedução; ou, como se tudo não bastasse, que é um prazer, um gosto - antes de ser um vício, ou para além de o ser. Ou: ao mesmo tempo que o é.
Tudo isto se paga? Sem dúvida. Em dinheiro, em saúde, em rupturas. Não sei se compensará. Para alguns, teimosos resistentes, fumadores ferrenhos, parece-me óbvio que sim. Sei, como não-fumador assumido, contudo - e estou perfeitamente consciente de cada uma das palavras que passarei a escrever -, que um mundo do qual o tabaco fosse inteiramente banido, juntamente com a elegância do gesto de puxar de um cigarro, ou o de bater com ele sobre o maço, como que para o endireitar - coisa que já não vejo fazer tão frequentemente como via na minha infância -, ou de o acender com o tremeluzir amarelo-azul da chama de um isqueiro, seria um mundo mais pobre, mais seco, mais triste e mais despojado em termos simbólicos, míticos, culturais.
Sei que um mundo em que proibissem Humphrey Bogart de fumar - ou me proibissem de o evocar mergulhado no fumo ténue do seu eterno cigarro - seria um mundo menos rico. E menos livre.
terça-feira, maio 15, 2007
AFORISMOS
O melhor critério para se identificar um paranóico: a coerência da sua interpretação é inatacável e a história que ele conta explica, efectivamente, os pormenores inexplicáveis...
quinta-feira, abril 26, 2007
CRÍTICA TELEVISIVA
Tenho, como aforismo pessoal que a experiência parece insistir em confirmar, a convicção de que as coisas com que mais aprendemos nesta vida não são as coisas bem feitas: são, precisamente pelo contrário, as mal feitas.
Em televisão, o aforismo é continuamente validado.
Há um programa da tarde, com um público-que-aplaude-ao-vivo, construído segundo um conceito que tem como alvo as mulheres idosas e as donas-de-casa, frustradas, de lágrima fácil, e que eu principio sempre por ver ociosamente (e até com aquele ligeiro ar de enfado que, nestas coisas, convém a um intelectual que se preza), mas que, no seguimento, acaba por me prender com a força de um «thriller»; pois bem: afianço-vos que esse programa tem sido, para mim, um verdadeiro poço de ensinamentos.
Para já, ensina-me a que ponto pode descer a tonteria, o desejo de aparecer em televisão, de ganhar uns prémios pindéricos ou a simplicidade com que se consegue fazer rir. Mas mais: depois, a propósito disto ou daquilo, há sempre umas quantas lições a retirar - muitas vezes, carregadas de consequências para outros campos, para outras áreas de interesse.
Neste último programa, tive, diante dos olhos, a razão clara (de que, às vezes, posso esquecer-me no meu dia-a-dia profissional) pela qual um professor nunca deve ir para uma aula sem a ter preparado convenientemente.
Os sucessivos desastres a que a apresentadora foi conduzida pelo facto de não haver preparado as entrevistas com aquelas velhinhas, sobre os «escapes» que tinham encontrado para afugentar os azares e as tristezas da vida.
Assistimos a coisas do género de: «Eu soube que gosta muito de ler», «Ah, quem me dera, não, minha senhora, infelizmente não sei ler», ou: «Já estou a ver que é Alentejana», «Não, sou da Beira-Baixa», ou: «É verdade que não esteve para aturar o seu marido durante muito tempo?», «Ele morreu» (será que foi a senhora que o assassinou, para não o «aturar durante muito tempo»?)
Um programa didáctico, da BBC, poderia ter tido esta força sobre mim, este poder de ilustração e de me colocar perante mim próprio? Duvido.
Bem-haja, TVI.
Em televisão, o aforismo é continuamente validado.
Há um programa da tarde, com um público-que-aplaude-ao-vivo, construído segundo um conceito que tem como alvo as mulheres idosas e as donas-de-casa, frustradas, de lágrima fácil, e que eu principio sempre por ver ociosamente (e até com aquele ligeiro ar de enfado que, nestas coisas, convém a um intelectual que se preza), mas que, no seguimento, acaba por me prender com a força de um «thriller»; pois bem: afianço-vos que esse programa tem sido, para mim, um verdadeiro poço de ensinamentos.
Para já, ensina-me a que ponto pode descer a tonteria, o desejo de aparecer em televisão, de ganhar uns prémios pindéricos ou a simplicidade com que se consegue fazer rir. Mas mais: depois, a propósito disto ou daquilo, há sempre umas quantas lições a retirar - muitas vezes, carregadas de consequências para outros campos, para outras áreas de interesse.
Neste último programa, tive, diante dos olhos, a razão clara (de que, às vezes, posso esquecer-me no meu dia-a-dia profissional) pela qual um professor nunca deve ir para uma aula sem a ter preparado convenientemente.
Os sucessivos desastres a que a apresentadora foi conduzida pelo facto de não haver preparado as entrevistas com aquelas velhinhas, sobre os «escapes» que tinham encontrado para afugentar os azares e as tristezas da vida.
Assistimos a coisas do género de: «Eu soube que gosta muito de ler», «Ah, quem me dera, não, minha senhora, infelizmente não sei ler», ou: «Já estou a ver que é Alentejana», «Não, sou da Beira-Baixa», ou: «É verdade que não esteve para aturar o seu marido durante muito tempo?», «Ele morreu» (será que foi a senhora que o assassinou, para não o «aturar durante muito tempo»?)
Um programa didáctico, da BBC, poderia ter tido esta força sobre mim, este poder de ilustração e de me colocar perante mim próprio? Duvido.
Bem-haja, TVI.
quinta-feira, abril 12, 2007
UM VULCÃO EM ACTIVIDADE NA ESCOLA
Não planeara participar, com uma turma de dez ou onze alunos, naquela comunicação/debate acerca de imigração. Tratou-se de um convite de última hora e, por «última hora», refiro o intervalo imediatamente anterior ao encontro. Mas porque o momento é, na vida do país, crucial para uma reflexão acerca da imigração e porque a minha pequena turma é constituída, precisamente, por pessoas originárias de Cabo-Verde, Angola e Timor, pareceu-me criminoso perder a oportunidade.
Naturalmente, o que se espera de um encontro deste tipo é, num certo sentido, relativamente pouco e relativamente pobre. Algumas banalidades e algumas ideias feitas, boas intenções e palavras virtuosas, ou seja, o desfiar da habitual cartilha de lugares-comuns «politicamente correctos».
Contudo, o que aconteceu foi outra coisa.
A moderadora, Cristina, muito jovem, que se preparara, talvez, para esse género de conferência «politicamente correcta», virtuosa e moralizadora acerca dos imigrantes, viu-se, bruscamente, confrontada com um vulcão. Natasha, imigrada da ex-Jugoslávia, mãe de duas alunas da escola, esteve presente: entrara tarde, irrompendo e interrompendo exuberantemente, provocando gargalhadas mas, em pouco tempo, conquistando o auditório, intervindo, questionando sistematicamente, interpelando, discordando. E o mais interessante de tudo foi que Cristina que, demasiado jovem, poderia ter-se desequilibrado perante aquela torrente, ou manifestar incómodo, ou remetê-la para o silêncio, soube, pelo contrário e, de facto, brilhantemente, estabelecer o diálogo enriquecedor, aproveitar-lhe as intervenções, criar-lhe o palco, desafiá-la para contar a própria história, para rememorar a própria experiência, as dificuldades com que se debateu num país estranho, a solidão, a saudade.
Natasha fê-lo com um à-vontade e um brilho intensos, com uma luminosidade inenarrável, no seu português desinibido e carregado.
Os mesmos alunos que, como já é hábito, teriam inicialmente a intenção de boicotar a «seca» que se lhes impunha, rindo e brincando a despropósito, calavam-se, estranhamente, muito atentos, tentando seguir a história dramatizada por aquela mulher, aquela actriz fantástica, história que nos rebentava diante dos olhos, num misto de tristeza, de alegria, de humor. Cristina, a sua interlocutora principal, apoiava-a, estimulava-a; ora falava, informando, adiantando dados, ora se retirava, tranquilamente, sem temer que lhe roubassem o protagonismo, delicada, revelando o raro e discreto génio de fazer sobressair os outros, ao invés de querer sobressair a qualquer preço.
Os alunos conversaram, perguntaram, intervieram, Cristina fez ainda ouvir a voz gravada de uma imigrada Cabo-Verdiana, escutada num silêncio religioso, Natasha deu receitas da sua terra e quis ensinar a dançar...
Não diria que foi «informativo», nem «interessante», que também foi; preferiria um adjectivo inabitual para um evento desta natureza: foi belo, foi tudo muito belo; e comovente.
Natasha, que eu já vira representar noutra ocasião, tem sempre o poder, que me embaraça, evidentemente, de me deixar os olhos marejados. É vergonhoso, sobretudo em público e, ainda mais, tratando-se de mim, cultor do cepticismo, da ironia, do sarcasmo e de outras formas de descrença cruel e de pessimismo militante. (Claro, posso usar a velha desculpa: Entrou-me qualquer coisa para o olho...!)
Naturalmente, o que se espera de um encontro deste tipo é, num certo sentido, relativamente pouco e relativamente pobre. Algumas banalidades e algumas ideias feitas, boas intenções e palavras virtuosas, ou seja, o desfiar da habitual cartilha de lugares-comuns «politicamente correctos».
Contudo, o que aconteceu foi outra coisa.
A moderadora, Cristina, muito jovem, que se preparara, talvez, para esse género de conferência «politicamente correcta», virtuosa e moralizadora acerca dos imigrantes, viu-se, bruscamente, confrontada com um vulcão. Natasha, imigrada da ex-Jugoslávia, mãe de duas alunas da escola, esteve presente: entrara tarde, irrompendo e interrompendo exuberantemente, provocando gargalhadas mas, em pouco tempo, conquistando o auditório, intervindo, questionando sistematicamente, interpelando, discordando. E o mais interessante de tudo foi que Cristina que, demasiado jovem, poderia ter-se desequilibrado perante aquela torrente, ou manifestar incómodo, ou remetê-la para o silêncio, soube, pelo contrário e, de facto, brilhantemente, estabelecer o diálogo enriquecedor, aproveitar-lhe as intervenções, criar-lhe o palco, desafiá-la para contar a própria história, para rememorar a própria experiência, as dificuldades com que se debateu num país estranho, a solidão, a saudade.
Natasha fê-lo com um à-vontade e um brilho intensos, com uma luminosidade inenarrável, no seu português desinibido e carregado.
Os mesmos alunos que, como já é hábito, teriam inicialmente a intenção de boicotar a «seca» que se lhes impunha, rindo e brincando a despropósito, calavam-se, estranhamente, muito atentos, tentando seguir a história dramatizada por aquela mulher, aquela actriz fantástica, história que nos rebentava diante dos olhos, num misto de tristeza, de alegria, de humor. Cristina, a sua interlocutora principal, apoiava-a, estimulava-a; ora falava, informando, adiantando dados, ora se retirava, tranquilamente, sem temer que lhe roubassem o protagonismo, delicada, revelando o raro e discreto génio de fazer sobressair os outros, ao invés de querer sobressair a qualquer preço.
Os alunos conversaram, perguntaram, intervieram, Cristina fez ainda ouvir a voz gravada de uma imigrada Cabo-Verdiana, escutada num silêncio religioso, Natasha deu receitas da sua terra e quis ensinar a dançar...
Não diria que foi «informativo», nem «interessante», que também foi; preferiria um adjectivo inabitual para um evento desta natureza: foi belo, foi tudo muito belo; e comovente.
Natasha, que eu já vira representar noutra ocasião, tem sempre o poder, que me embaraça, evidentemente, de me deixar os olhos marejados. É vergonhoso, sobretudo em público e, ainda mais, tratando-se de mim, cultor do cepticismo, da ironia, do sarcasmo e de outras formas de descrença cruel e de pessimismo militante. (Claro, posso usar a velha desculpa: Entrou-me qualquer coisa para o olho...!)
quinta-feira, abril 05, 2007
MAUS ALUNOS E BOAS ALUNAS
Os rapazes e as raparigas da escolaridade obrigatória ou, em resumo, os meninos e as meninas pré-adolescentes e adolescentes são, psicologicamente, muito diferenciáveis. Não só devido a factores de ordem biológica, não só devido a factores de ordem sócio-cultural, mas por uma complexa e intrincadíssima rede de causas orgânicas e educacionais. E os rapazes, que amadurecem com um ritmo próprio (porque desenvolvem aptidões próprias), quer a nível cognitivo, quer a nível afectivo, quer a nível comportamental, estão, por efeito dessas diferenças, destinados a ser os patinhos feios da escola.
O que as instituições do ensino público privilegiam ou, por outras palavras, o que é valorizado pela «escola pública», herdada, no fundo, de um sistema autoritário, apesar de sucessivas e, muitas vezes, caóticas remodelações, é um tipo de «bom aluno» feminino; é um modelo de aluno que só poderia ser uma menina: atenta, tranquila, trabalhadora, cumpridora. Nessas idades, os rapazes dificilmente conseguem corresponder a esse modelo. O seu desenvolvimento é outro, o seu ritmo é diferente - e, em tudo isto, não me parece obra do acaso que as «dislexias», as «hiperactividades» e outras disfunções deste género sejam, em geral, muito mais problemas «masculinos» do que «femininos».
Pergunto-me, diante das minhas turmas, se, de algum modo, os rapazes não são todos, todos eles, naquelas idades, hiperactivos, ou seja, adolescentes incapazes de se concentrar, a não ser parcial e episodicamente, incapazes de se abrir a outrem, incapazes da escuta, ou, simplesmente, de permanecer em silêncio durante muito tempo.
Num regime autoritário, numa escola «à antiga», poderiam sê-lo, naturalmente: estamos a falar da escola salazarista, que molda e modela, que pune e castra. Na escola pós-25 de Abril, em que, por um lado, as relações hierárquicas se modificaram e os valores são, necessariamente, outros (em que, por exemplo, se perdeu o medo em face do poder), mas em que, por outro lado, as expectativas e os critérios dos professores para decidir o que é um «bom aluno» se mantêm inalterados, os rapazes estão em desvantagem.
O sistema não premeia rapazes demasiado rapazes. Não está feito para isso. Varre-os para debaixo do tapete.
O sistema não está preparado para «aturar» outras formas, outros ritmos, outros amadurecimentos, sobretudo se dão maçada aos professores, nem outros interesses, nem um outro tipo de criatividade (que é tipicamente masculina, o que não significa, COMO É EVIDENTE, que não haja uma criatividade feminina) nem uma outra maneira de aprender.
Em termos competitivos (porque o sistema engendra e vive, necessariamente, de uma competição), os rapazes já perderam: os meninos-alunos depreciam-se, não acreditam nas suas capacidades e assumem, à falta de outras saídas, o papel do arruaceiro, do mau aluno orgulhoso de o ser. Abandonam. Só uma minoria - cada vez mais uma minoria - alcança a faculdade.
Os rapazes perderam. O sistema, um sistema que exclui e varre, um sistema feito à medida de um único género, também já perdeu...
O que as instituições do ensino público privilegiam ou, por outras palavras, o que é valorizado pela «escola pública», herdada, no fundo, de um sistema autoritário, apesar de sucessivas e, muitas vezes, caóticas remodelações, é um tipo de «bom aluno» feminino; é um modelo de aluno que só poderia ser uma menina: atenta, tranquila, trabalhadora, cumpridora. Nessas idades, os rapazes dificilmente conseguem corresponder a esse modelo. O seu desenvolvimento é outro, o seu ritmo é diferente - e, em tudo isto, não me parece obra do acaso que as «dislexias», as «hiperactividades» e outras disfunções deste género sejam, em geral, muito mais problemas «masculinos» do que «femininos».
Pergunto-me, diante das minhas turmas, se, de algum modo, os rapazes não são todos, todos eles, naquelas idades, hiperactivos, ou seja, adolescentes incapazes de se concentrar, a não ser parcial e episodicamente, incapazes de se abrir a outrem, incapazes da escuta, ou, simplesmente, de permanecer em silêncio durante muito tempo.
Num regime autoritário, numa escola «à antiga», poderiam sê-lo, naturalmente: estamos a falar da escola salazarista, que molda e modela, que pune e castra. Na escola pós-25 de Abril, em que, por um lado, as relações hierárquicas se modificaram e os valores são, necessariamente, outros (em que, por exemplo, se perdeu o medo em face do poder), mas em que, por outro lado, as expectativas e os critérios dos professores para decidir o que é um «bom aluno» se mantêm inalterados, os rapazes estão em desvantagem.
O sistema não premeia rapazes demasiado rapazes. Não está feito para isso. Varre-os para debaixo do tapete.
O sistema não está preparado para «aturar» outras formas, outros ritmos, outros amadurecimentos, sobretudo se dão maçada aos professores, nem outros interesses, nem um outro tipo de criatividade (que é tipicamente masculina, o que não significa, COMO É EVIDENTE, que não haja uma criatividade feminina) nem uma outra maneira de aprender.
Em termos competitivos (porque o sistema engendra e vive, necessariamente, de uma competição), os rapazes já perderam: os meninos-alunos depreciam-se, não acreditam nas suas capacidades e assumem, à falta de outras saídas, o papel do arruaceiro, do mau aluno orgulhoso de o ser. Abandonam. Só uma minoria - cada vez mais uma minoria - alcança a faculdade.
Os rapazes perderam. O sistema, um sistema que exclui e varre, um sistema feito à medida de um único género, também já perdeu...
domingo, fevereiro 25, 2007
O SAGRADO MOMENTO EM QUE.
Os passarinhos giravam incansavelmente em torno da árvore, pipilando numa autêntica histeria, e eu lembro-me de não ter levado mais do que um minuto a compreender: «Estão a jogar à versão, em pássaro, do jogo das cadeiras. A um sinal, poisam todos nos ramos, e há sempre um que fica de fora...!»
Quando compreendi finalmente o objectivo, atravessei o parque, afastando-me depressa dali. Espirrei. Mau sinal! Ergui a gola do casaco. Não podia apanhar um resfriado neste momento. Não no momento em que entendera o fito dos pássaros, o jogo dos pássaros e, portanto, o sentido do universo.
Entrei na casa velha, de degraus carcomidos, ouvindo uma espécie de eco macabro sob os meus passos incertos. No terceiro andar, sentei-me no chão, exausto, respirando com força, diante da porta esquerda; abracei os meus joelhos, com o queixo fincado neles. Tinha frio. Muito, muito, muito frio. Tremia. Nunca antes, em nenhum outro momento da minha vida, tremera assim. Se eu conseguisse parar o sismo de todo o meu corpo doente e fatigado, se conseguisse pôr-me de pé, se conseguisse bater à porta, tum tum tum, o velho viria abrir-ma, eu contar-lhe-ia o que tinha para lhe contar e talvez (não de certeza mas provavelmente), iria a tempo de salvar o que restava do universo. Caso contrário, seria tarde. Abrir-se-ia, dali a pouco, a outra porta do andar, os vampiros viriam buscar-me, o segredo perder-se-ia.
Levantei-me. Tinha de ser já. Mas, no momento em que, tremente, me preparava para bater à porta, fui acometido por uma derradeira dúvida: «E se me enganei!? E se não era nada disso que os pássaros estavam a fazer...?»
Percebi que se abria uma porta. Era um ruído distinto. Poderia ser a do lado esquerdo, a do velho, que me tivesse ouvido arfar, ou espirrar, ou pensar alto. Ou não. Poderia ser já tarde. Talvez fossem já os vampiros.
Fosse como fosse, fosse quem fosse, lembro-me de ter estabelecido esta regra - talvez última -, naquele momento de indecisão, naquele terrível e pesadíssimo momento em que tudo era ainda possível, ou em que nada era já possível mas eu ainda o não sabia:
REGRA: «Quando se trata de salvar o universo, não devo ter dúvidas, não posso hesitar!»
Quando compreendi finalmente o objectivo, atravessei o parque, afastando-me depressa dali. Espirrei. Mau sinal! Ergui a gola do casaco. Não podia apanhar um resfriado neste momento. Não no momento em que entendera o fito dos pássaros, o jogo dos pássaros e, portanto, o sentido do universo.
Entrei na casa velha, de degraus carcomidos, ouvindo uma espécie de eco macabro sob os meus passos incertos. No terceiro andar, sentei-me no chão, exausto, respirando com força, diante da porta esquerda; abracei os meus joelhos, com o queixo fincado neles. Tinha frio. Muito, muito, muito frio. Tremia. Nunca antes, em nenhum outro momento da minha vida, tremera assim. Se eu conseguisse parar o sismo de todo o meu corpo doente e fatigado, se conseguisse pôr-me de pé, se conseguisse bater à porta, tum tum tum, o velho viria abrir-ma, eu contar-lhe-ia o que tinha para lhe contar e talvez (não de certeza mas provavelmente), iria a tempo de salvar o que restava do universo. Caso contrário, seria tarde. Abrir-se-ia, dali a pouco, a outra porta do andar, os vampiros viriam buscar-me, o segredo perder-se-ia.
Levantei-me. Tinha de ser já. Mas, no momento em que, tremente, me preparava para bater à porta, fui acometido por uma derradeira dúvida: «E se me enganei!? E se não era nada disso que os pássaros estavam a fazer...?»
Percebi que se abria uma porta. Era um ruído distinto. Poderia ser a do lado esquerdo, a do velho, que me tivesse ouvido arfar, ou espirrar, ou pensar alto. Ou não. Poderia ser já tarde. Talvez fossem já os vampiros.
Fosse como fosse, fosse quem fosse, lembro-me de ter estabelecido esta regra - talvez última -, naquele momento de indecisão, naquele terrível e pesadíssimo momento em que tudo era ainda possível, ou em que nada era já possível mas eu ainda o não sabia:
REGRA: «Quando se trata de salvar o universo, não devo ter dúvidas, não posso hesitar!»
sábado, fevereiro 10, 2007
UM RESMUNGO A PROPÓSITO DA EXTINÇÃO DE UM PROJECTO PROMISSOR
Repentinamente, descobrimos que a magnífica iniciativa que tanto nos motivava para separar o lixo - que não é propriamente a mais agradável das tarefas, pese embora a sua importância - era uma experiência de curta duração, um teste, um projecto piloto. Chegou ao fim. Não se percebe bem por que razão, já não faz sentido dividirmos a porcaria pelos caixotes que nos tinham oferecido, o amarelo para os plásticos, o azul para o papel, etc etc, e não faz, sobretudo, sentido fixarmos os dias da semana em que devemos pôr cada um dos caixotes à porta para o camião da «Tratolixo» o despejar. Não faz sentido, porque o camião da «Tratolixo» deixará de passar.
Hoje, pela primeira vez em meses, tive de voltar a arcar com um caixote e caminhar com ele, protestando muito, seguido por uma quantidade de cães e de moscas, até ao eco-ponto mais próximo que, tal como as farmácias de serviço quando delas precisamos, nunca é suficientemente perto; e tive de, aí parado, entre dejectos que enchiam o chão em redor do local, pegar no lixo com as mãos para o enfiar, aos poucos, por uma ranhura estreita, como quem coloca sobrescritos num marco de correio. Todo este espectáculo, como se imagina, atentamente observado por um bando de mirones: dois idosos de boina, um deles de bengala, o outro com um palito entre os dentes, e quatro fedelhos encimados por bonés de pala virada para trás. Um dos dos idosos rouquejava qualquer coisa: talvez me desse conselhos. Sobre como pôr melhor os pedaços do lixo? Ao que eu desci...!
O problema não é este. O problema é que, por qualquer razão e com uma explicação que nada explica, se matou, praticamente à nascença, um projecto promissor. Vai regressar? Melhorado, tecnicamente aperfeiçoado? Ousou, no fundo, esperar que sim. Mas ouso, à superfície, duvidar.
Porque a questão portuguesa, a grande questão portuguesa, não é a falta de inteligência: o aparecimento desse projecto mostra-o bem. A questão portuguesa, a grande questão portuguesa, é a estupidez ser menos tímida, estar mais enraizada e esmagar muito cedo o que quer que valha a pena: a extinção desse projecto mostra-o bem
Hoje, pela primeira vez em meses, tive de voltar a arcar com um caixote e caminhar com ele, protestando muito, seguido por uma quantidade de cães e de moscas, até ao eco-ponto mais próximo que, tal como as farmácias de serviço quando delas precisamos, nunca é suficientemente perto; e tive de, aí parado, entre dejectos que enchiam o chão em redor do local, pegar no lixo com as mãos para o enfiar, aos poucos, por uma ranhura estreita, como quem coloca sobrescritos num marco de correio. Todo este espectáculo, como se imagina, atentamente observado por um bando de mirones: dois idosos de boina, um deles de bengala, o outro com um palito entre os dentes, e quatro fedelhos encimados por bonés de pala virada para trás. Um dos dos idosos rouquejava qualquer coisa: talvez me desse conselhos. Sobre como pôr melhor os pedaços do lixo? Ao que eu desci...!
O problema não é este. O problema é que, por qualquer razão e com uma explicação que nada explica, se matou, praticamente à nascença, um projecto promissor. Vai regressar? Melhorado, tecnicamente aperfeiçoado? Ousou, no fundo, esperar que sim. Mas ouso, à superfície, duvidar.
Porque a questão portuguesa, a grande questão portuguesa, não é a falta de inteligência: o aparecimento desse projecto mostra-o bem. A questão portuguesa, a grande questão portuguesa, é a estupidez ser menos tímida, estar mais enraizada e esmagar muito cedo o que quer que valha a pena: a extinção desse projecto mostra-o bem
sexta-feira, janeiro 26, 2007
COISAS SÉRIAS E COISAS AINDA MAIS SÉRIAS
Não sei o que vos dirá acerca da minha maturidade e da forma como envergo a roupa de adulto, a confissão de que trato algumas das minhas amigas por «Lara Croft», «Mulher Elástica» ou «Rainha de Inglaterra». Na verdade, se me perguntarem, de repente, qual o verdadeiro nome de cada uma delas, posso embatucar. Verdadeiro nome!? Então elas não são «Lara Croft», «Mulher Elástica», «Rainha de Inglaterra»?
Mas algo de muito sério perpassa no grupo, quando nos reunimos. Mais sério ainda do que as teatradas, com perucas e óculos, à mesa do restaurante, mais sério do que as gargalhadas filtradas pelo tinto, tão sério como a «Lara Croft» me ter surpreendido com a afirmação de que os meus textos transmitem um espírito muito forte na reacção ao azar e à tristeza. Embatuco novamente. É um elogio que me esmaga. A que sou, por uma vez, incapaz de reagir.
Tão sério como isso? Que será? Silêncio absoluto. Pela minha boca não saberão que «Lara Croft» está em missão, às ordens da «Rainha de Inglaterra». Não. Não é por mim que o saberão.
Mas algo de muito sério perpassa no grupo, quando nos reunimos. Mais sério ainda do que as teatradas, com perucas e óculos, à mesa do restaurante, mais sério do que as gargalhadas filtradas pelo tinto, tão sério como a «Lara Croft» me ter surpreendido com a afirmação de que os meus textos transmitem um espírito muito forte na reacção ao azar e à tristeza. Embatuco novamente. É um elogio que me esmaga. A que sou, por uma vez, incapaz de reagir.
Tão sério como isso? Que será? Silêncio absoluto. Pela minha boca não saberão que «Lara Croft» está em missão, às ordens da «Rainha de Inglaterra». Não. Não é por mim que o saberão.
sábado, janeiro 13, 2007
A FUGA
Miguel choramingava, enquanto ia enfiando num lenço vermelho alguns dos seus pertences: uma camisola, um par de cuecas, um de peúgas, cinco carrinhos que a avó lhe oferecera e os cromos dos lutadores de wresteling.
O pai estava furioso: era terrível de se ver, àquela hora da manhã, em roupão, com a barba a despontar como picos de um cacto, o cabelo revolto, um pé enfiado numa pantufa, outro descalço desde que, algures, muitos meses atrás, perdera a segunda pantufa.
A mãe estava zangada, falando muito depressa, à esquina de um ataque de nervos, levantando muito os braços, em camisa de noite mas, curiosamente, cheirando já a perfume.
E a razão de tanta zanga resumia-se a isto: Miguel não tinha fome de manhã. Queriam dar-lhe flocos, mas enjoara-se de todos os tipos de flocos - nem os chocapics, nem os nesquiks, nem as estrelitas, nem os chocolocos, nem os nogat's pillows... Leite simples não tinha graça. Pão, nem pensar. Poderia apetecer-lhe outra coisa, com boa vontade - mas tudo o que lhe poderia apetecer dava trabalho, confusão, exigia uma demorada fabricação: sumo de laranja, papinha de banana e kiwi esmagados minuciosamente com um garfo sobre o prato, maçã ralada com bolacha Maria esmigalhadinha...
O pai argumentava. Primeiro, com toda a calma. Fornecia alternativas. A mãe procurava na despensa. Nada! Miguel parava diante do frigorífico aberto. O pai esgotava a paciência. A mãe percorria a casa de um lado para o outro, desorientada, asmática, triste.
- Come qualquer coisa, Miguel! Qualquer coisa normal! Como os outros meninos!!! Todas as crianças comem pães, comem... comem... comem...
As vozes levantavam-se. A altercação instalava-se, vinha para ficar, os vizinhos ouviam gritos e desapareciam das respectivas próprias casas, ou escondiam-se no mais recôndito delas, um pouco temerosos. Miguel chorava. Não queria. Nada lhe interessava, a não ser...!
O pai entrava, por fim, no capítulo dos disparates. Que estava farto dele. Que ele ia ser responsável pela sua morte. Que a tensão vinha disparando... Pudera!!!
A mãe fechava-se na casa de banho.
Mandavam-no, pois, de castigo para o quarto. Não sairia enquanto não viesse com a disposição de comer qualquer coisa normal... pouco, podia até ser pouco, umas colheradas, umas goladas mas, sobretudo, qualquer coisa «normal».
No quarto, tomada a decisão, preparada a sua trouxa, saiu pela janela. Era um infeliz. Mas a vida esperava por ele, saturada dessa felicidade que os pais lhe negavam sistematicamente, pronta a abraçá-lo com centenas de aventuras e descobertas. Ainda haveria piratas? O pai costumava responder-lhe: «Há, se há! Cada vez mais, filho!» - talvez o aceitassem...? Ou infiltrar-se-ia clandestinamente? Terras por descobrir, mulheres por amar! A Teresinha iria ter saudades dele? E lembrando-se de Tereseninha, por quem se apaixonara destravadamente mas que, alertada por um terceiro, lhe fora dizer, cheia de sardas, mais bonita do que nunca, «Olha, Miguel, vamos ser só amigos, tá bem?» - lembrando-se dela, não aguentou mais e desatou a chorar com lágrimas grossas. Sentia-se triste, sentia fúria, estava pronto a revoltar-se com o mundo inteiro, a tornar-se muçulmano, pilotando aviões contra prédios, sentia uma melncolia no peito, ou na barriga, sentia... o quê, fome!?
Regressou a casa.
Pôs leite na sua caneca, encheu-a de flocos. Comeu. Partiria depois...
O pai estava furioso: era terrível de se ver, àquela hora da manhã, em roupão, com a barba a despontar como picos de um cacto, o cabelo revolto, um pé enfiado numa pantufa, outro descalço desde que, algures, muitos meses atrás, perdera a segunda pantufa.
A mãe estava zangada, falando muito depressa, à esquina de um ataque de nervos, levantando muito os braços, em camisa de noite mas, curiosamente, cheirando já a perfume.
E a razão de tanta zanga resumia-se a isto: Miguel não tinha fome de manhã. Queriam dar-lhe flocos, mas enjoara-se de todos os tipos de flocos - nem os chocapics, nem os nesquiks, nem as estrelitas, nem os chocolocos, nem os nogat's pillows... Leite simples não tinha graça. Pão, nem pensar. Poderia apetecer-lhe outra coisa, com boa vontade - mas tudo o que lhe poderia apetecer dava trabalho, confusão, exigia uma demorada fabricação: sumo de laranja, papinha de banana e kiwi esmagados minuciosamente com um garfo sobre o prato, maçã ralada com bolacha Maria esmigalhadinha...
O pai argumentava. Primeiro, com toda a calma. Fornecia alternativas. A mãe procurava na despensa. Nada! Miguel parava diante do frigorífico aberto. O pai esgotava a paciência. A mãe percorria a casa de um lado para o outro, desorientada, asmática, triste.
- Come qualquer coisa, Miguel! Qualquer coisa normal! Como os outros meninos!!! Todas as crianças comem pães, comem... comem... comem...
As vozes levantavam-se. A altercação instalava-se, vinha para ficar, os vizinhos ouviam gritos e desapareciam das respectivas próprias casas, ou escondiam-se no mais recôndito delas, um pouco temerosos. Miguel chorava. Não queria. Nada lhe interessava, a não ser...!
O pai entrava, por fim, no capítulo dos disparates. Que estava farto dele. Que ele ia ser responsável pela sua morte. Que a tensão vinha disparando... Pudera!!!
A mãe fechava-se na casa de banho.
Mandavam-no, pois, de castigo para o quarto. Não sairia enquanto não viesse com a disposição de comer qualquer coisa normal... pouco, podia até ser pouco, umas colheradas, umas goladas mas, sobretudo, qualquer coisa «normal».
No quarto, tomada a decisão, preparada a sua trouxa, saiu pela janela. Era um infeliz. Mas a vida esperava por ele, saturada dessa felicidade que os pais lhe negavam sistematicamente, pronta a abraçá-lo com centenas de aventuras e descobertas. Ainda haveria piratas? O pai costumava responder-lhe: «Há, se há! Cada vez mais, filho!» - talvez o aceitassem...? Ou infiltrar-se-ia clandestinamente? Terras por descobrir, mulheres por amar! A Teresinha iria ter saudades dele? E lembrando-se de Tereseninha, por quem se apaixonara destravadamente mas que, alertada por um terceiro, lhe fora dizer, cheia de sardas, mais bonita do que nunca, «Olha, Miguel, vamos ser só amigos, tá bem?» - lembrando-se dela, não aguentou mais e desatou a chorar com lágrimas grossas. Sentia-se triste, sentia fúria, estava pronto a revoltar-se com o mundo inteiro, a tornar-se muçulmano, pilotando aviões contra prédios, sentia uma melncolia no peito, ou na barriga, sentia... o quê, fome!?
Regressou a casa.
Pôs leite na sua caneca, encheu-a de flocos. Comeu. Partiria depois...
A MÁQUINA
Estava Lebranche do meu lado direito, Slovsky do meu lado esquerdo.
Lebranche, a quem chamávamos o anticartesiano metódico, era um homem alto e esguio, com um nariz abatatado e um queixo sumido, praticamente inexistente, que fazia da dúvida um incitamento para a descoberta da verdade, mas por um caminho oposto ao de Descartes. Argumentava ele: «Pá, aquilo de que se duvida é, no fundo, aquilo que poderia muito bem ser. E num mundo de contrariedades e de frustrações, isto é, em que quase tudo me parece impossível (e cada vez mais impossível à medida que envelheço), que haja ainda coisas possíveis, de que até podemos duvidar, mas que são, por isso mesmo, possíveis... torna-as quase verdadeiras. Eis a minha filosofia toda numa simples frase: o duvidoso é quase sempre verdadeiro!»
Slovsky, por outro lado, era um céptico. Mais: tratava-se do pior tipo de céptico. O céptico trocista. Baixinho, careca, com uns óculos redondos, de aros dourados, não refutava, não rebatia. Encolhia os ombros, com um sorriso torto, que nos esmagava mais rapidamente do que toneladas de argumentos.
E diante de nós estava o Engenheiro, a que não me referirei, aqui, senão pela sua inicial: K.
K. esperava-nos, sentado sobre o que me parecia uma sanita com um volante. «Grande invenção», segredou o temível Slovsky. «Se vamos a andar de carro e nos dá uma súbita vontade de evacuar...»
Nem eu nem Lebranche rimos. K. olhava-nos, com um sorriso contido e pacífico.
- Então, isso é que é a máquina do tempo? - perguntei, curioso.
- Isto é que é a máquina do tempo - respondeu, sem desfazer a tranquilidade. - Anos de estudo, de investigação...
- ... para atingir uma sanita volante! - resmungou Slovsky.
- E como se procede, senhor Engenheiro?
E, aí, aconteceu a tragédia. K. ligou um interruptor, uma faisca rasgou o ar, houve um monumental barulho, que nos assustou - a mim e a Lebranche, porque Slovsky ainda perguntou: «Será o autoclismo?» -, e, quando menos esperávamos, o sistema pegava fogo. As labaredas lambiam o tapete, o cortinado, ouvia-se o ruído aflitivo da madeira a transformar-se em carvão. Slovsky sentou-se numa das cadeiras, talvez a única, que não era pasto do incêndio. Eu e Lebranche corremos para a cozinha, tentando encher os nossos chapéus com água que, a seguir, vertíamos sobre o fogo. Era já muito tarde. Foi Slovsky que, no meio da confusão, se lembrou de telefonar aos bombeiros.
Assisti, mais tarde, a este diálogo entre os meus dois amigos:
S: As sanitas podem ser muito perigosas.
L: Não acreditas que tivessemos estado perante a máquina do tempo?
S: Só no sentido em que, para certas pessoas, a sanita é um local onde se passa muito tempo. Levam revistas, refugiam-se do mundo... E no futuro, quando descobrirem as sanitas, hão-de perguntar-se a que espécie de Deus dedicávamos aquele santuário...
L: Pois eu, pelo contrário, estou convencido que o Engenheiro tinha descoberto uma máquina que nos levaria ao futuro.
S: Duvido muito.
L: Mas era possível, não era? Era possível, não era? Responde-me só: era uma possiblidade...?
S: Bem...!
L: Ora aí está. É a prova que me basta: aquilo era mesmo a máquina do tempo.
Eu não sei. Aprendi a desconfiar das aparências. E pergunto-me o que poderia realmente ocultar-se sob a aparência um pouco ridícula de uma sanita com um volante.
Lebranche, a quem chamávamos o anticartesiano metódico, era um homem alto e esguio, com um nariz abatatado e um queixo sumido, praticamente inexistente, que fazia da dúvida um incitamento para a descoberta da verdade, mas por um caminho oposto ao de Descartes. Argumentava ele: «Pá, aquilo de que se duvida é, no fundo, aquilo que poderia muito bem ser. E num mundo de contrariedades e de frustrações, isto é, em que quase tudo me parece impossível (e cada vez mais impossível à medida que envelheço), que haja ainda coisas possíveis, de que até podemos duvidar, mas que são, por isso mesmo, possíveis... torna-as quase verdadeiras. Eis a minha filosofia toda numa simples frase: o duvidoso é quase sempre verdadeiro!»
Slovsky, por outro lado, era um céptico. Mais: tratava-se do pior tipo de céptico. O céptico trocista. Baixinho, careca, com uns óculos redondos, de aros dourados, não refutava, não rebatia. Encolhia os ombros, com um sorriso torto, que nos esmagava mais rapidamente do que toneladas de argumentos.
E diante de nós estava o Engenheiro, a que não me referirei, aqui, senão pela sua inicial: K.
K. esperava-nos, sentado sobre o que me parecia uma sanita com um volante. «Grande invenção», segredou o temível Slovsky. «Se vamos a andar de carro e nos dá uma súbita vontade de evacuar...»
Nem eu nem Lebranche rimos. K. olhava-nos, com um sorriso contido e pacífico.
- Então, isso é que é a máquina do tempo? - perguntei, curioso.
- Isto é que é a máquina do tempo - respondeu, sem desfazer a tranquilidade. - Anos de estudo, de investigação...
- ... para atingir uma sanita volante! - resmungou Slovsky.
- E como se procede, senhor Engenheiro?
E, aí, aconteceu a tragédia. K. ligou um interruptor, uma faisca rasgou o ar, houve um monumental barulho, que nos assustou - a mim e a Lebranche, porque Slovsky ainda perguntou: «Será o autoclismo?» -, e, quando menos esperávamos, o sistema pegava fogo. As labaredas lambiam o tapete, o cortinado, ouvia-se o ruído aflitivo da madeira a transformar-se em carvão. Slovsky sentou-se numa das cadeiras, talvez a única, que não era pasto do incêndio. Eu e Lebranche corremos para a cozinha, tentando encher os nossos chapéus com água que, a seguir, vertíamos sobre o fogo. Era já muito tarde. Foi Slovsky que, no meio da confusão, se lembrou de telefonar aos bombeiros.
Assisti, mais tarde, a este diálogo entre os meus dois amigos:
S: As sanitas podem ser muito perigosas.
L: Não acreditas que tivessemos estado perante a máquina do tempo?
S: Só no sentido em que, para certas pessoas, a sanita é um local onde se passa muito tempo. Levam revistas, refugiam-se do mundo... E no futuro, quando descobrirem as sanitas, hão-de perguntar-se a que espécie de Deus dedicávamos aquele santuário...
L: Pois eu, pelo contrário, estou convencido que o Engenheiro tinha descoberto uma máquina que nos levaria ao futuro.
S: Duvido muito.
L: Mas era possível, não era? Era possível, não era? Responde-me só: era uma possiblidade...?
S: Bem...!
L: Ora aí está. É a prova que me basta: aquilo era mesmo a máquina do tempo.
Eu não sei. Aprendi a desconfiar das aparências. E pergunto-me o que poderia realmente ocultar-se sob a aparência um pouco ridícula de uma sanita com um volante.
terça-feira, janeiro 09, 2007
ASSUMIR A ESCOLHA SIGNIFICA: NÃO SIMPLIFICÁ-LA
A verdade é sempre revolucionária, asseverava Gramsci. Não sei se o é. Sou, aliás, tão mais limitado, que começo por não saber o que seja «a verdade». Às vezes, permito-me desconfiar que esteja ao meu alcance; permito-me farejá-la: percebo, suspeito que não andará longe. Mas, imediatamente a seguir, posso duvidar. Não metodicamente - não há, nesta dúvida, razões de método, só mesmo uma tremenda insegurança...
Agora, custa-me, isso sim, que a «minha» verdade - ainda que momentânea - tenha de ser rodeada, ou retocada, ou calada, em nome seja do que for. Em nome de razões políticas, de virtude, de correcção ou de oportunidade. Detesto as razões de oportunidade ou conveniência. Detesto que argumentem: «Talvez até seja verdade, mas este não é o momento certo para a divulgar, para a mencionar sequer...!»
É o caso. Eu, que vou votar «Sim» neste referendo, eu, que já fiz mesmo um aborto - na medida em que partilho inteira e completamente a responsabilidade do aborto decidido e feito, em conjunto, pela mulher que engravidei e por mim próprio -, eu, que seria de uma hipocrisia sem precedentes se me abstivesse e ficasse a assobiar para o lado, não posso deixar, contudo, de expor a «minha» verdade: e a «minha» verdade é que me dói e custa, como talvez nenhum outro, a assunção deste acto, desta cruz que irei marcar no boletim.
Não tenho escolha: eu que abortei porque não poderia não ter abortado, que conheço as razões por que o fazem milhares de mulheres, e as circunstâncias em que o fazem, eu que não aceito - nem posso aceitar - que as persigam e punam por essa escolha tantas vezes trágica, não posso deixar de levar coerentemente a minha solidariedade até ao limite. Mas não me queiram convencer de que não faz mal; não me queiram convencer de que é outra coisa que não o mal menor - sendo que o mal menor, naturalmente, não é um bem: é, ainda, um mal. Não me queiram fazer esquecer que estou a lidar com a vida. Com vidas. Nem queiram reduzir a vida fetal a uma não-vida. Não me digam que o aborto não é, na melhor das hipóteses, um défice civilizacional e um défice moral. (Como o é - de um modo pior, e mais grave -, uma lei que não permita essa escolha, como se a escolha não fosse, em si mesma, complexa e terrível).
Não queiram simplificar as coisas, porque não seria digno. Nem sério.
Será que eu não devia afirmá-lo «agora»? Que, sobretudo, não neste momento? Que Devia fazê-lo só depois do referendo? Ah! Mas não consigo ser maniqueista. Nem fingir que o sou por razões de conveniência. Vou votar «Sim». Mas este voto a que não tenho o direito de fugir, por razões morais, precisamente, é um voto que me dilacera. Por razões morais, também: precisamente.
Agora, custa-me, isso sim, que a «minha» verdade - ainda que momentânea - tenha de ser rodeada, ou retocada, ou calada, em nome seja do que for. Em nome de razões políticas, de virtude, de correcção ou de oportunidade. Detesto as razões de oportunidade ou conveniência. Detesto que argumentem: «Talvez até seja verdade, mas este não é o momento certo para a divulgar, para a mencionar sequer...!»
É o caso. Eu, que vou votar «Sim» neste referendo, eu, que já fiz mesmo um aborto - na medida em que partilho inteira e completamente a responsabilidade do aborto decidido e feito, em conjunto, pela mulher que engravidei e por mim próprio -, eu, que seria de uma hipocrisia sem precedentes se me abstivesse e ficasse a assobiar para o lado, não posso deixar, contudo, de expor a «minha» verdade: e a «minha» verdade é que me dói e custa, como talvez nenhum outro, a assunção deste acto, desta cruz que irei marcar no boletim.
Não tenho escolha: eu que abortei porque não poderia não ter abortado, que conheço as razões por que o fazem milhares de mulheres, e as circunstâncias em que o fazem, eu que não aceito - nem posso aceitar - que as persigam e punam por essa escolha tantas vezes trágica, não posso deixar de levar coerentemente a minha solidariedade até ao limite. Mas não me queiram convencer de que não faz mal; não me queiram convencer de que é outra coisa que não o mal menor - sendo que o mal menor, naturalmente, não é um bem: é, ainda, um mal. Não me queiram fazer esquecer que estou a lidar com a vida. Com vidas. Nem queiram reduzir a vida fetal a uma não-vida. Não me digam que o aborto não é, na melhor das hipóteses, um défice civilizacional e um défice moral. (Como o é - de um modo pior, e mais grave -, uma lei que não permita essa escolha, como se a escolha não fosse, em si mesma, complexa e terrível).
Não queiram simplificar as coisas, porque não seria digno. Nem sério.
Será que eu não devia afirmá-lo «agora»? Que, sobretudo, não neste momento? Que Devia fazê-lo só depois do referendo? Ah! Mas não consigo ser maniqueista. Nem fingir que o sou por razões de conveniência. Vou votar «Sim». Mas este voto a que não tenho o direito de fugir, por razões morais, precisamente, é um voto que me dilacera. Por razões morais, também: precisamente.
segunda-feira, dezembro 25, 2006
REGRAS KAOSTICAS CONTRA O CÁLCULO DE PROBABILIDADES
1. Entre os professores, como em todas as profissões, há bons e maus profissionais
2. Em regra, os maus são os professores dos nossos filhos
3. A mesma regra se aplica, mutatis mutandis, às mulheres-a-dias. No caso, deverá ser enunciada como se segue: «Há, certamente, mulheres-a-dias que fazem um bom trabalho e mulheres-a-dias que fazem um mau trabalho. Em minha casa nunca entrou uma mulher-a-dias da primeira categoria».
4. Estas regras podem parecer triviais. Mesmo patetas. O seu alcance, porém, é assombroso: se repararem bem, elas vêm pôr completamente em causa a credibilidade e a serventia do cálculo de probabilidades...
5. Ou seja: na sua aparente simplicidade, preparam uma revolução qualquer no estádio do conhecimento humano.
2. Em regra, os maus são os professores dos nossos filhos
3. A mesma regra se aplica, mutatis mutandis, às mulheres-a-dias. No caso, deverá ser enunciada como se segue: «Há, certamente, mulheres-a-dias que fazem um bom trabalho e mulheres-a-dias que fazem um mau trabalho. Em minha casa nunca entrou uma mulher-a-dias da primeira categoria».
4. Estas regras podem parecer triviais. Mesmo patetas. O seu alcance, porém, é assombroso: se repararem bem, elas vêm pôr completamente em causa a credibilidade e a serventia do cálculo de probabilidades...
5. Ou seja: na sua aparente simplicidade, preparam uma revolução qualquer no estádio do conhecimento humano.
domingo, dezembro 24, 2006
SIMPLESMENTE UM CONTO SACRÍLEGO
1.
Deus Pai Todo Poderoso tinha um gnomo, seu braço direito, que o ajudava diligentemente. A razão pela qual se não fala, hoje, desse apoio é esta: a mais simples referência a ele foi completa e sucessivamente expurgada, suprimida de todos os textos sagrados. Tomás de Aquino, chamado «O Boi», perguntava-se, a esse propósito, eloquententemente: «Por que haveria Deus, O Todo Poderoso, de carecer de um ajudante? E porquê um anão? Por que não um gigante?» [Summa Theologica, 6-3]
2.
O trabalho do gnomo de Deus era monótono e, francamente, o pobre ser ressentia-se muito disso, dessa sua tarefa que consistia em garantir, antes ainda de serem depositadas nos corpos, que determinadas almas afins haveriam, depois, de se encontrar: estavam, digamos, predestinadas umas às outras; a virem a ligar-se, mais tarde, na vida terrena, por laços de afecto diverso: estes dois iriam amar-se, aqueles outros iriam ser amigos para a vida, outros mais, mestre e aprendiz, ou professor e aluno, ou...
3.
Trabalho importante, mas tão cansativo!
O gnomo de Deus tinha pouco tempo vago ao longo da longa eternidade. Porém, devido a uma curiosidade insana, pouco cristã, semelhante à que viria a perder Adão e Eva, o pequeno espírito aproveitava as suas horas vagas para ler a obra completa de Lucifer, que lhe havia sido recomendada pela alma, ao tempo ainda descarnada, de Pacheco Pereira. A obra completa de Lucifer era tremenda, terrível, temível. Escrevia Lucifer, a dado passo: «Eu não simbolizo o Mal, mas, simplesmente, um ponto de vista diferente. Por que diabo há-de ser tão custoso a Deus admitir que haja outros pontos de vista para além do seu??? Que intolerância!» E, noutro passo: «É fundamental que se entenda que, sob o colorido do Céu, que a todos atrai, existem operários que se dedicam a um trabalho ingrato, monótono, que nunca é compensado a não ser em harmonia celeste: por outras palavras, o único salário dos trabalhadores de Deus, é que Deus não se zangue com eles. A pretexto de que são puros espíritos, não têm necessidades nem carências de ordem alguma, nada mais se lhes paga».
4.
Quanto mais o gnomo lia, nas horas vagas, aquelas páginas incendiárias, carregadas de uma fúria rebelde, mais a sua situação lhe parecia injusta, mais o seu Patrão lhe parecia gozar de um prestígio imerecido, mais lhe apetecia contrariá-lo, defraudá-lo, desobedecer-lhe, desencadear a luta de classes...
5.
Ah, mas tinha medo. Muito medo.
6.
Até que um dia, mergulhado nas suas cogitações revolucionárias, por engano, por puro engano, por mero acidente, destinou para um encontro para toda a vida terrestre duas almas incompatíveis, completamente avessas. Primeiro, ficou aflito. Quis corrigir, contudo era tarde. Prevenir Deus, porém não teve coragem. Mas, curiosamente, percebeu que o erro passava. Que nem Deus, o próprio Deus, o Grande Deus, se apercebia...
7.
Então repetiu, agora deliberadamente, imperdoavelmente, o mesmo tipo de erro. Sempre impunemente. E mais uma vez, e outra, satisfeito consigo mesmo, sentindo correr-lhe nas veias espirituais um sangue de vingança: semeava conflitos, preparava para se encontrarem e juntarem para sempre naturezas opostas, seres que nunca se compreenderiam, laços de ódio e de conflito.
8.
Desse momento em diante, era já muito tarde para reverter o que quer que fosse. Almas fabricadas para se predestinarem, nunca se encontrariam. Em contrapartida, pessoas que só por humor negro poderiam viver juntas, essas, juntavam-se sob o mesmo tecto, completamente iludidas, rapidamente desiludidas, procriando, em constante guerrilha, filhos que, depois, odiavam, que os odiavam...
9.
Algures, noutra parte, impossível de vir a ser encontrada por cada um, o seu par, o seu verdadeiro par, o seu encaixe (o professor que o entusiasmaria, o amigo que o compreenderia...) - vivia uma vida impossível, encaixado, por sua vez, em alguém que odiava e a quem odiava.
10.
Esta é a verdade. Entretanto, por quanto tempo vos parece que se poderia enganar Deus Pai Todo Poderoso? A fraude do gnomo foi descoberta. O gnomo foi lançado no inferno, onde arde juntamente com Marx, Freud, Nietzsche, Darwin e outros.
11.
Deus trabalha, hoje, sozinho. Nunca mais aceitou braços direitos. Tudo indica, porém que, quanto mais não seja por piada ou, então, porque a burocracia se instalou irreversivelmente, continue a baralhar as peças, a promover encontros falsos, impossíveis, e a semear ligações perigosas!
Deus Pai Todo Poderoso tinha um gnomo, seu braço direito, que o ajudava diligentemente. A razão pela qual se não fala, hoje, desse apoio é esta: a mais simples referência a ele foi completa e sucessivamente expurgada, suprimida de todos os textos sagrados. Tomás de Aquino, chamado «O Boi», perguntava-se, a esse propósito, eloquententemente: «Por que haveria Deus, O Todo Poderoso, de carecer de um ajudante? E porquê um anão? Por que não um gigante?» [Summa Theologica, 6-3]
2.
O trabalho do gnomo de Deus era monótono e, francamente, o pobre ser ressentia-se muito disso, dessa sua tarefa que consistia em garantir, antes ainda de serem depositadas nos corpos, que determinadas almas afins haveriam, depois, de se encontrar: estavam, digamos, predestinadas umas às outras; a virem a ligar-se, mais tarde, na vida terrena, por laços de afecto diverso: estes dois iriam amar-se, aqueles outros iriam ser amigos para a vida, outros mais, mestre e aprendiz, ou professor e aluno, ou...
3.
Trabalho importante, mas tão cansativo!
O gnomo de Deus tinha pouco tempo vago ao longo da longa eternidade. Porém, devido a uma curiosidade insana, pouco cristã, semelhante à que viria a perder Adão e Eva, o pequeno espírito aproveitava as suas horas vagas para ler a obra completa de Lucifer, que lhe havia sido recomendada pela alma, ao tempo ainda descarnada, de Pacheco Pereira. A obra completa de Lucifer era tremenda, terrível, temível. Escrevia Lucifer, a dado passo: «Eu não simbolizo o Mal, mas, simplesmente, um ponto de vista diferente. Por que diabo há-de ser tão custoso a Deus admitir que haja outros pontos de vista para além do seu??? Que intolerância!» E, noutro passo: «É fundamental que se entenda que, sob o colorido do Céu, que a todos atrai, existem operários que se dedicam a um trabalho ingrato, monótono, que nunca é compensado a não ser em harmonia celeste: por outras palavras, o único salário dos trabalhadores de Deus, é que Deus não se zangue com eles. A pretexto de que são puros espíritos, não têm necessidades nem carências de ordem alguma, nada mais se lhes paga».
4.
Quanto mais o gnomo lia, nas horas vagas, aquelas páginas incendiárias, carregadas de uma fúria rebelde, mais a sua situação lhe parecia injusta, mais o seu Patrão lhe parecia gozar de um prestígio imerecido, mais lhe apetecia contrariá-lo, defraudá-lo, desobedecer-lhe, desencadear a luta de classes...
5.
Ah, mas tinha medo. Muito medo.
6.
Até que um dia, mergulhado nas suas cogitações revolucionárias, por engano, por puro engano, por mero acidente, destinou para um encontro para toda a vida terrestre duas almas incompatíveis, completamente avessas. Primeiro, ficou aflito. Quis corrigir, contudo era tarde. Prevenir Deus, porém não teve coragem. Mas, curiosamente, percebeu que o erro passava. Que nem Deus, o próprio Deus, o Grande Deus, se apercebia...
7.
Então repetiu, agora deliberadamente, imperdoavelmente, o mesmo tipo de erro. Sempre impunemente. E mais uma vez, e outra, satisfeito consigo mesmo, sentindo correr-lhe nas veias espirituais um sangue de vingança: semeava conflitos, preparava para se encontrarem e juntarem para sempre naturezas opostas, seres que nunca se compreenderiam, laços de ódio e de conflito.
8.
Desse momento em diante, era já muito tarde para reverter o que quer que fosse. Almas fabricadas para se predestinarem, nunca se encontrariam. Em contrapartida, pessoas que só por humor negro poderiam viver juntas, essas, juntavam-se sob o mesmo tecto, completamente iludidas, rapidamente desiludidas, procriando, em constante guerrilha, filhos que, depois, odiavam, que os odiavam...
9.
Algures, noutra parte, impossível de vir a ser encontrada por cada um, o seu par, o seu verdadeiro par, o seu encaixe (o professor que o entusiasmaria, o amigo que o compreenderia...) - vivia uma vida impossível, encaixado, por sua vez, em alguém que odiava e a quem odiava.
10.
Esta é a verdade. Entretanto, por quanto tempo vos parece que se poderia enganar Deus Pai Todo Poderoso? A fraude do gnomo foi descoberta. O gnomo foi lançado no inferno, onde arde juntamente com Marx, Freud, Nietzsche, Darwin e outros.
11.
Deus trabalha, hoje, sozinho. Nunca mais aceitou braços direitos. Tudo indica, porém que, quanto mais não seja por piada ou, então, porque a burocracia se instalou irreversivelmente, continue a baralhar as peças, a promover encontros falsos, impossíveis, e a semear ligações perigosas!
sábado, dezembro 23, 2006
AS BOAS SURPRESAS SÃO SEMPRE POSSÍVEIS
Para mim, que sou um imparável leitor e um constante re-leitor de Eça de Queirós, com quem tenho querido aprender a ironia, o humor, a escrita até, foi um momento saturado de melancolia, talvez de angústia, aquele em que descobri que o esgotara. Isto é: que poderia continuar a relê-lo, que iria certamente relê-lo pela vida fora, mas, morto que estava o escritor, completada que estava a obra, não me tornaria a ser dado o prazer de abrir pela primeira vez mais algum livro da sua autoria.
E era com nostalgia que me recordava de como, há uns quantos anos, quando já pensava tê-lo esgotado (quando senti esse primeiro baque), viria a descobrir, com uma surpresa encantada, que, afinal, nunca tinha lido, vá-se lá saber porquê, um seu texto fundamental: nada mais nada menos do que o delicioso A Capital.
Lembro-me da alegria com que o comprei na fnac, a impaciência com que corri para casa com ele num saco cor-de-laranja, o leve receio da desilusão, o gosto com que me detive na capa trivial, igual a todas as capas da sua obra, a tremente curiosidade com que fui mergulhando, passando as páginas, soltando-me do nervosismo, fruindo, reencontrando o meu Eça de sempre...
Mas, para uma suspresa dessas, não há bis. Era já bem bom que me tivesse caído do céu essa breve suspensão do destino, esse admirável adiamento do fecho. Lido A Capital, agora sim, esgotara realmente o meu querido autor...
Isto, se não mencionar, claro, um outro texto seu, que nunca me interessara, que me tinham oferecido há uns Natais mas eu nunca quisera sequer iniciar: A Tragédia da Rua das Flores, de que tão mal ouvira falar. Que era um rascunho, um borrão, uma coisa menoríssima, com repetições, contradições, personagens cujo nome não se conserva ao longo das páginas, absurdos vários!
Foi só por descargo de consciência, ou em busca de um substituto, mesmo menor, para um vício arreigado, que, por estes dias, me debrucei, contudo, sobre a «Tragédia». E, caramba, não faço mais suspense - lá estava o Eça: sob as debilidades de uma obra que o autor não levara muito a sério, que deixara para trás, ao abandono, enjeitada, ali se erguia e brilhava, e se ergue!, e brilha!, tudo o que nele me entusiasma, me apura o espírito crítico, me afina o sarcasmo.
Ando, pois, a ler, repimpadíssimo, como diria o próprio Eça, A Tragédia da Rua das Flores.
Este post pode servir para uma ou duas coisas: a) aconselhá-lo vivamente a quem tenha passado pela mesma nostalgia de «haver esgotado um autor que já não volta a escrever», a quem, por coincidência, este livro passasse, também, ao lado; b) acrescentar, como nota natalícia, este optimismo moral: às vezes, por impossível que pareça, mesmo o prazer que não voltará de certeza, pode voltar... (e, até, mais do que uma vez!)
Bom Natal!
E era com nostalgia que me recordava de como, há uns quantos anos, quando já pensava tê-lo esgotado (quando senti esse primeiro baque), viria a descobrir, com uma surpresa encantada, que, afinal, nunca tinha lido, vá-se lá saber porquê, um seu texto fundamental: nada mais nada menos do que o delicioso A Capital.
Lembro-me da alegria com que o comprei na fnac, a impaciência com que corri para casa com ele num saco cor-de-laranja, o leve receio da desilusão, o gosto com que me detive na capa trivial, igual a todas as capas da sua obra, a tremente curiosidade com que fui mergulhando, passando as páginas, soltando-me do nervosismo, fruindo, reencontrando o meu Eça de sempre...
Mas, para uma suspresa dessas, não há bis. Era já bem bom que me tivesse caído do céu essa breve suspensão do destino, esse admirável adiamento do fecho. Lido A Capital, agora sim, esgotara realmente o meu querido autor...
Isto, se não mencionar, claro, um outro texto seu, que nunca me interessara, que me tinham oferecido há uns Natais mas eu nunca quisera sequer iniciar: A Tragédia da Rua das Flores, de que tão mal ouvira falar. Que era um rascunho, um borrão, uma coisa menoríssima, com repetições, contradições, personagens cujo nome não se conserva ao longo das páginas, absurdos vários!
Foi só por descargo de consciência, ou em busca de um substituto, mesmo menor, para um vício arreigado, que, por estes dias, me debrucei, contudo, sobre a «Tragédia». E, caramba, não faço mais suspense - lá estava o Eça: sob as debilidades de uma obra que o autor não levara muito a sério, que deixara para trás, ao abandono, enjeitada, ali se erguia e brilhava, e se ergue!, e brilha!, tudo o que nele me entusiasma, me apura o espírito crítico, me afina o sarcasmo.
Ando, pois, a ler, repimpadíssimo, como diria o próprio Eça, A Tragédia da Rua das Flores.
Este post pode servir para uma ou duas coisas: a) aconselhá-lo vivamente a quem tenha passado pela mesma nostalgia de «haver esgotado um autor que já não volta a escrever», a quem, por coincidência, este livro passasse, também, ao lado; b) acrescentar, como nota natalícia, este optimismo moral: às vezes, por impossível que pareça, mesmo o prazer que não voltará de certeza, pode voltar... (e, até, mais do que uma vez!)
Bom Natal!
sexta-feira, dezembro 22, 2006
UM REGULAMENTO INTERNO A PENSAR NAQUILO COM QUE SE COMPRAM OS MELÕES
A minha filha, pobre garota, anda num infantário. Para que não subsistam dúvidas, escrevo-lhe já o nome: Colégio D. João de Castro.
O Colégio D. João de Castro tem um Regulamento Interno, o que é louvável.
Do Regulamento Interno do Colégio D. João de Castro, respigo uns quantos excertos:
«A todas as crianças que permaneçam no Colégio após a hora do fecho, será cobrado o valor de 10 Euros diários, por cada fracção de quinze minutos, de prolongamento.»
«Os Passeios e Colónia têm carácter obrigatório, pelo seu acentuado valor pedagógico [nem nos passava pela cabeça que fosse por outra razão], estão integrados no Plano Anual de Actividades e serão avisados com 8 dias de atecedência, o seu pagamento terá que ser feito na respectiva sala ou secretaria. As crianças que não forem aos Passeios ou Colónia não poderão frequentar o Colégio. A colónia [repentinamente com minúscula] realiza-se na 2ª quinzena de Junho e terá um custo de 75 euros [agora com minúscula, também]»
«Os pagamentos das mensalidades devem ser efectuados na secretaria ou na sala por adiantado, entre os dias 28 e 5 de cada mês. Após o prazo estipulado será cobrada uma taxa diária de 10 euros.»
«Todos os Encarregados de Educação estão obrigados ao pagamento de 12 mensalidades, no valor de 285 euros, quer o aluno frequente ou não o Colégio [como???], com a excepção do berçário [de onde expulsaram rapidamente a minha filha, com catorze meses] que poderá optar pela mensalidade sem alimentação, no valor de 255 euros, sendo o mês de Agosto repartido pelos meses de Outubro, Novembro, Dezembro, no valor de 95 euros.»
«Só serão aceites desistências com aviso prévio de um mês, sem o que terá que pagar a próxima mensalidade. Não serão aceites desistências a partir do mês de Maio inclusivé.»
«A Inscrição/Renovação e Seguro serão pagos e não serão devolvidos em caso algum. O seguro [bruscamente, com minúscula] é pago em Setembro e a renovação em Março, às crianças que não renovam a matrícula, é cobrado oo mês de Julho fraccionado pelos meses de Abril e Maio.»
«Será cobrado trimestralmente o valor de 15 euros para desgaste de material didáctico, nos meses de Outubro, Janeiro, Abril.»
«As desistências dos Passeios e Colónias de férias depois de pagos não serão reemblsados em caso algum [ou seja, mais vale não pagar!]»
«O uso da farda, bibe e chapéu são obrigatórios, de uso diário e custeados pelos pais [que os deverão comprar no «Corte Inglês»]
«Todas as crianças poderão ter uma falta mensal de fardamento [obrigado, obrigado, obrigado!], quando ultrapassada essa falta, poderá a direcção do Colégio vestir a peça em falta e debitá-la no recibo do mês seguinte.»
Nunca vi um Regulamento Interno assim. Nunca nenhum documento me pareceu tão óbvio na intenção exclusiva de planear a mínima forma de fazer dinheiro. Sobretudo, não me lembro de haver lido algum outro conjunto de regras de um estabelecimento de educação de crianças, privado ou público, que assumisse, tão escandalosamente, essa exclusiva inclinação economicista.
Poderão perguntar-me: Por que mantém então o senhor, que está assim tão zangado, a sua filha neste colégio?
Como essa pergunta só poderia ser-me dirigida por parte de quem não tem crianças em infantários, nem faz a menor ideia da luta vã por uma vaga, eu escuso-me de responder. Não iriam acreditar em mim.
O Colégio D. João de Castro tem um Regulamento Interno, o que é louvável.
Do Regulamento Interno do Colégio D. João de Castro, respigo uns quantos excertos:
«A todas as crianças que permaneçam no Colégio após a hora do fecho, será cobrado o valor de 10 Euros diários, por cada fracção de quinze minutos, de prolongamento.»
«Os Passeios e Colónia têm carácter obrigatório, pelo seu acentuado valor pedagógico [nem nos passava pela cabeça que fosse por outra razão], estão integrados no Plano Anual de Actividades e serão avisados com 8 dias de atecedência, o seu pagamento terá que ser feito na respectiva sala ou secretaria. As crianças que não forem aos Passeios ou Colónia não poderão frequentar o Colégio. A colónia [repentinamente com minúscula] realiza-se na 2ª quinzena de Junho e terá um custo de 75 euros [agora com minúscula, também]»
«Os pagamentos das mensalidades devem ser efectuados na secretaria ou na sala por adiantado, entre os dias 28 e 5 de cada mês. Após o prazo estipulado será cobrada uma taxa diária de 10 euros.»
«Todos os Encarregados de Educação estão obrigados ao pagamento de 12 mensalidades, no valor de 285 euros, quer o aluno frequente ou não o Colégio [como???], com a excepção do berçário [de onde expulsaram rapidamente a minha filha, com catorze meses] que poderá optar pela mensalidade sem alimentação, no valor de 255 euros, sendo o mês de Agosto repartido pelos meses de Outubro, Novembro, Dezembro, no valor de 95 euros.»
«Só serão aceites desistências com aviso prévio de um mês, sem o que terá que pagar a próxima mensalidade. Não serão aceites desistências a partir do mês de Maio inclusivé.»
«A Inscrição/Renovação e Seguro serão pagos e não serão devolvidos em caso algum. O seguro [bruscamente, com minúscula] é pago em Setembro e a renovação em Março, às crianças que não renovam a matrícula, é cobrado oo mês de Julho fraccionado pelos meses de Abril e Maio.»
«Será cobrado trimestralmente o valor de 15 euros para desgaste de material didáctico, nos meses de Outubro, Janeiro, Abril.»
«As desistências dos Passeios e Colónias de férias depois de pagos não serão reemblsados em caso algum [ou seja, mais vale não pagar!]»
«O uso da farda, bibe e chapéu são obrigatórios, de uso diário e custeados pelos pais [que os deverão comprar no «Corte Inglês»]
«Todas as crianças poderão ter uma falta mensal de fardamento [obrigado, obrigado, obrigado!], quando ultrapassada essa falta, poderá a direcção do Colégio vestir a peça em falta e debitá-la no recibo do mês seguinte.»
Nunca vi um Regulamento Interno assim. Nunca nenhum documento me pareceu tão óbvio na intenção exclusiva de planear a mínima forma de fazer dinheiro. Sobretudo, não me lembro de haver lido algum outro conjunto de regras de um estabelecimento de educação de crianças, privado ou público, que assumisse, tão escandalosamente, essa exclusiva inclinação economicista.
Poderão perguntar-me: Por que mantém então o senhor, que está assim tão zangado, a sua filha neste colégio?
Como essa pergunta só poderia ser-me dirigida por parte de quem não tem crianças em infantários, nem faz a menor ideia da luta vã por uma vaga, eu escuso-me de responder. Não iriam acreditar em mim.
sábado, dezembro 02, 2006
A CADERNETA ESCOLAR
Existe, até ao 9º ano, uma instituição que deveria garantir a ligação entre os professores e os encarregados de educação, que é a caderneta.
A caderneta, como não poderia deixar de escrever se isto fosse uma redacção virtuosa, é muito útil; tal como a vaca nos dá o leite, a caderneta permite-nos acompanhar de perto o desempenho dos nossos filhos, de forma a que os possamos corrigir e ajudar...
Sejamos sérios: a caderneta funciona, pelo que tenho visto, como uma espécie de bode expiatório, isto é, uma forma de os professores (os mesmos que detestam sentir os pais demasiado próximos, vasculhando e vigiando), poderem, de vez em quando, atirar-lhes com as culpas da sua própria incompetência: «O Manuel não tem feito os trabalhos de casa», «O João anda muito desatento e conversador nas aulas», «O Paulo deverá estudar», ou aquela pérola, pela mão do professor de EVT do meu próprio rebento, «Fulano tem tido atitudes impropriadas nas aulas». Impropriadas, escreve-me o professor do meu filho - ao que me apetecia responder: Bolas! Mesmo tratando-se de um professor de EVT... (no que estaria sendo injusto e preconceituoso).
Sabemos que os pais podem e devem acompanhar os filhos no seu trabalho de casa, como sabemos que nem sempre isso é possível porque, desde pais que não têm habilitação para o efeito até aos que não têm tempo, a situação dos alunos nem sempre pode ser solucionada em casa. Não querem os professores preservar a sua independência? Não se queixam de que os pais não são aptos para os avaliarem? Então porque recorrem tão frequentemente a eles e, aqui é que bate o ponto, tão arrogantemente, como quem lhes diz: Já viu bem a prenda que produziu? Veja lá se consegue fazer qualquer coisa com ele porque nós, professores, aqui, só vamos é depois avaliar...!
De algum modo, a caderneta transformou-se num instrumento de registo de males, de erros e inabilidades do aluno, uma selecção de depreciações. Se pensamos em como é pedagogicamente importante o reforço positivo, espantamo-nos de que tal elemento de ligação casa-escola nunca sirva para apreciar positivamente, para registar progressos e melhorias, parabéns, incentivos.
A caderneta do meu filho é um dos meus pesadelos. Sonho que me persegue. Quando espero pelo miudo à porta da escola e o vejo, com a caderneta meio escondida atrás das costas, lágrimas no rosto, já sei que temos drama.
Por mim, abomino a caderneta.
A caderneta, como não poderia deixar de escrever se isto fosse uma redacção virtuosa, é muito útil; tal como a vaca nos dá o leite, a caderneta permite-nos acompanhar de perto o desempenho dos nossos filhos, de forma a que os possamos corrigir e ajudar...
Sejamos sérios: a caderneta funciona, pelo que tenho visto, como uma espécie de bode expiatório, isto é, uma forma de os professores (os mesmos que detestam sentir os pais demasiado próximos, vasculhando e vigiando), poderem, de vez em quando, atirar-lhes com as culpas da sua própria incompetência: «O Manuel não tem feito os trabalhos de casa», «O João anda muito desatento e conversador nas aulas», «O Paulo deverá estudar», ou aquela pérola, pela mão do professor de EVT do meu próprio rebento, «Fulano tem tido atitudes impropriadas nas aulas». Impropriadas, escreve-me o professor do meu filho - ao que me apetecia responder: Bolas! Mesmo tratando-se de um professor de EVT... (no que estaria sendo injusto e preconceituoso).
Sabemos que os pais podem e devem acompanhar os filhos no seu trabalho de casa, como sabemos que nem sempre isso é possível porque, desde pais que não têm habilitação para o efeito até aos que não têm tempo, a situação dos alunos nem sempre pode ser solucionada em casa. Não querem os professores preservar a sua independência? Não se queixam de que os pais não são aptos para os avaliarem? Então porque recorrem tão frequentemente a eles e, aqui é que bate o ponto, tão arrogantemente, como quem lhes diz: Já viu bem a prenda que produziu? Veja lá se consegue fazer qualquer coisa com ele porque nós, professores, aqui, só vamos é depois avaliar...!
De algum modo, a caderneta transformou-se num instrumento de registo de males, de erros e inabilidades do aluno, uma selecção de depreciações. Se pensamos em como é pedagogicamente importante o reforço positivo, espantamo-nos de que tal elemento de ligação casa-escola nunca sirva para apreciar positivamente, para registar progressos e melhorias, parabéns, incentivos.
A caderneta do meu filho é um dos meus pesadelos. Sonho que me persegue. Quando espero pelo miudo à porta da escola e o vejo, com a caderneta meio escondida atrás das costas, lágrimas no rosto, já sei que temos drama.
Por mim, abomino a caderneta.
sábado, novembro 25, 2006
RESPOSTA A UM COMENTÁRIO QUE JÁ CÁ NÃO ESTÁ
Eu, que não recebia comentários há vários meses e me conformei ou quase, ou que, pelo menos, me desabituei de clamar chorosamente por eles, tinha, ontem ou anteontem, umas linhas em inglês: um tal Unjava ou qualquer coisa assim - não sei, não me lembro (espero que se não tratasse do jovem e promissor escritor angolano Ondjaaki) -, exprimia, tratando-me por «Gil», o seu apreço pelos artigos do meu site, com o qual aprendia muito. Tudo aquilo - o nome, o inglês, o elogio sem mais... - me soaram tão pouco credíveis, tão a «vírus» ou a «vendas», que optei por eliminar esse primeiro comentário - ainda para mais apologético - de há vários meses. Agora, claro, arrependo-me. E choramingo um pouco. E se...?
Não deixo, contudo, de me interrogar; sobretudo porque o referido comentário me era deixado a propósito do post «Leis Kaosticas». Preocupo-me, pois: será que alguém que, em referência directa a uma explicação estúpida para as buzinadelas diante dos semáforos, diz que «aprende muito com o meu blogue», me terá levado a sério? Isto é: mais a sério do que se pretendia? Será que poderá dar-se o caso - imaginemos que é um estudante -, de ele vir a apresentar, num trabalho académico, a teoria de que a mudança do vermelho para o verde é percebida mais rapidamente pelos condutores que se encontram, na bicha, mais longe do lugar imediatamente diante do semáforo? Diacho!
Porque há duas hipóteses: ou este leitor é uma fera do sarcasmo, ou tem estado de facto a «aprender» com os meus textos. E isso faz-me pensar quão maléfico poderá ter sido, por um absurdo efeito perverso, senão por um efeito perverso absurdo, o impacto do kaostico entre leitores mais jovens e particularmente fechados à ironia: não acabarei como Sócrates ou, vá lá, para salvaguardar as distâncias devidas, um Sócrates de trazer por casa?
Ó Undjave, ou lá como te assinas: olha que, no kaostico, raramente se tenta ensinar. O meu negócio é mais o de desensinar. And a good day to you too, my friend.
Não deixo, contudo, de me interrogar; sobretudo porque o referido comentário me era deixado a propósito do post «Leis Kaosticas». Preocupo-me, pois: será que alguém que, em referência directa a uma explicação estúpida para as buzinadelas diante dos semáforos, diz que «aprende muito com o meu blogue», me terá levado a sério? Isto é: mais a sério do que se pretendia? Será que poderá dar-se o caso - imaginemos que é um estudante -, de ele vir a apresentar, num trabalho académico, a teoria de que a mudança do vermelho para o verde é percebida mais rapidamente pelos condutores que se encontram, na bicha, mais longe do lugar imediatamente diante do semáforo? Diacho!
Porque há duas hipóteses: ou este leitor é uma fera do sarcasmo, ou tem estado de facto a «aprender» com os meus textos. E isso faz-me pensar quão maléfico poderá ter sido, por um absurdo efeito perverso, senão por um efeito perverso absurdo, o impacto do kaostico entre leitores mais jovens e particularmente fechados à ironia: não acabarei como Sócrates ou, vá lá, para salvaguardar as distâncias devidas, um Sócrates de trazer por casa?
Ó Undjave, ou lá como te assinas: olha que, no kaostico, raramente se tenta ensinar. O meu negócio é mais o de desensinar. And a good day to you too, my friend.
quarta-feira, novembro 15, 2006
LEIS KAÓSTICAS
Quando se forma uma bicha diante de um semáforo vermelho e, após uma longa espera, a luz muda para verde, esta transição é sempre apercebida, pelos condutores na bicha, tanto mais rapidamente quanto mais longe se encontram do primeiro lugar, mesmo em frente do semáforo.
O primeiro da bicha é sempre o último a perceber que já pode arrancar.
O último da bicha é sempre o primeiro a perceber que o primeiro já deveria ter arrancado há vários segundos.
E assim sucessivamente, numa compreensão cuja rapidez é sempre inversamente proporcional ao lugar que se ocupa na bicha.
Daí, as buzinadelas.
O primeiro da bicha é sempre o último a perceber que já pode arrancar.
O último da bicha é sempre o primeiro a perceber que o primeiro já deveria ter arrancado há vários segundos.
E assim sucessivamente, numa compreensão cuja rapidez é sempre inversamente proporcional ao lugar que se ocupa na bicha.
Daí, as buzinadelas.
segunda-feira, novembro 13, 2006
A ESCOLA E OS MAUS ALUNOS
Sabemos, por pouco marxistas que sejamos, em que medida a «escola pública» é uma instituição de cariz ideológico, que visa formar os jovens, desde cedo, como cidadãos, isto é, de acordo com a visão e as regras que convêm ao poder instituído.
A escola democrática assenta num princípio que é, quanto a mim, o principal equívoco da democracia. A igualdade. Deixem-me dizê-lo: querendo conciliar a ideia da «igualdade» com a necessidade de avaliar e classificar, que se lhe opõe inteiramente, que resultado se obtém? Bom: obtém-se a ideia perniciosa e pateta de que todos os «objectivos» são, por igual, alcançáveis pelos alunos. Como a prática se encarrega de mostrar sistematicamente que isso não sucede, tendem a abrir-se duas hipóteses para explicar por que diabo tais objectivos, teoricamente alcançáveis, raramente são, de facto, alcançados por todos: segundo uma delas, a culpa é dos alunos. A maioria dos professores, como é evidente, prefere esta explicação. Há alunos que não querem, não se esforçam, não se aplicam, não se interessam - ou, na sua formulação mais benigna, menos chocante, politicamente correcta, alguns alunos vivem em condições socio-culturais que os colocam em má posição na corrida: não têm pais formados, ou empenhados em ajudá-los, não têm computador, ou são oriundos de uma cultura que não valoriza a leitura, por exemplo...; segundo a outra hipótese, que é a preferida pelos alunos, pelos pais, pelos sucessivos ministros da Educação, pela sociedade em geral, a culpa é dos professores. De acordo com esta ideia, só há negativas e insucesso porque há maus professores. Que não motivam. Que não usam as estratégias adequadas - qualquer turma e qualquer aluno poderá corresponder desde que tenha o professor capaz de.
Do meu ponto de vista, ambas as hipóteses estão erradas. É o princípio em que assenta a escola democrática, que não pode ser levado a sério. O mito da «igualdade» nunca fez grande sentido: as competências, as capacidades, os talentos, as inteligências até, são muito diferentes nos diversos adolescentes. Pensar sempre que um aluno com «capacidades» que não as «aproveita» o não faz porque «não quer», porque «não trabalha mais», é laborar num erro: as pessoas são formáveis e «transformáveis», sim, mas o tipo de «transformação» que a escola exige, sem levar em consideração a singularidade de cada aluno, sem tentar fazer brilhar aquilo em que cada um é excelente ao mesmo tempo que o faz conviver e familiarizar-se, sem medo nem traumas, com aquilo em que é menos bom, é um funil castrante e esmagador.
Olho para alunos cheios de «capacidades», cujos resultados são, porém, sofríveis, e penso: Ele poderia. Se «estudasse mais», se tivesse «método», se criasse «hábitos de trabalho». (são sempre estes os termos que repetimos nas actas). Raios, por que é que ele não se esforça? Está na mão dele, é esperto, escreve bem...! Mas - e se a sua ausência de método for simplesmente a presença de um outro tipo de método, invisível do ponto de vista dos critérios e dos padrões de eficácia da escola? E se a sua desadequação, a sua inaptidão, a sua, às vezes quase me apetece dizer: estupidez!, não fosse senão a expressão de talentos e aptidões com que a escola não trabalha, nunca trabalhou, não saberia trabalhar?
Podem dizer-me: Pobre homem, ficou-se na mensagem dos Pink Floyd! Que anos setenta! Eu não me importo. E não, não, não penso que a solução fosse a escola relativista, sem regras (para não traumatizar), sem classificações nem exigência. Não, não, não penso que a solução fosse o reino da pura singularidade. Mas não tenho dúvidas de que o aliciante para mim, como professor, será sempre, sem cair na relatividade e na anarquia do indivíduo, sem prescindir de critérios universais nem de uma predominância do colectivo, ter sempre presente que o colectivo não é a soma nem a média de elementos idênticos, que a forma e o talento próprios de cada um são um enriquecimento do grupo, não uma excrecência, nunca um lixo que se deva eliminar.
A ministra, sempre tão preocupada com o insucesso, não seria capaz de entender a minha linguagem. Suspeito que os Pink Floyd, no fundo, também não.
Mas, muitos séculos atrás, Aristóteles abria esta senda.
A escola democrática assenta num princípio que é, quanto a mim, o principal equívoco da democracia. A igualdade. Deixem-me dizê-lo: querendo conciliar a ideia da «igualdade» com a necessidade de avaliar e classificar, que se lhe opõe inteiramente, que resultado se obtém? Bom: obtém-se a ideia perniciosa e pateta de que todos os «objectivos» são, por igual, alcançáveis pelos alunos. Como a prática se encarrega de mostrar sistematicamente que isso não sucede, tendem a abrir-se duas hipóteses para explicar por que diabo tais objectivos, teoricamente alcançáveis, raramente são, de facto, alcançados por todos: segundo uma delas, a culpa é dos alunos. A maioria dos professores, como é evidente, prefere esta explicação. Há alunos que não querem, não se esforçam, não se aplicam, não se interessam - ou, na sua formulação mais benigna, menos chocante, politicamente correcta, alguns alunos vivem em condições socio-culturais que os colocam em má posição na corrida: não têm pais formados, ou empenhados em ajudá-los, não têm computador, ou são oriundos de uma cultura que não valoriza a leitura, por exemplo...; segundo a outra hipótese, que é a preferida pelos alunos, pelos pais, pelos sucessivos ministros da Educação, pela sociedade em geral, a culpa é dos professores. De acordo com esta ideia, só há negativas e insucesso porque há maus professores. Que não motivam. Que não usam as estratégias adequadas - qualquer turma e qualquer aluno poderá corresponder desde que tenha o professor capaz de.
Do meu ponto de vista, ambas as hipóteses estão erradas. É o princípio em que assenta a escola democrática, que não pode ser levado a sério. O mito da «igualdade» nunca fez grande sentido: as competências, as capacidades, os talentos, as inteligências até, são muito diferentes nos diversos adolescentes. Pensar sempre que um aluno com «capacidades» que não as «aproveita» o não faz porque «não quer», porque «não trabalha mais», é laborar num erro: as pessoas são formáveis e «transformáveis», sim, mas o tipo de «transformação» que a escola exige, sem levar em consideração a singularidade de cada aluno, sem tentar fazer brilhar aquilo em que cada um é excelente ao mesmo tempo que o faz conviver e familiarizar-se, sem medo nem traumas, com aquilo em que é menos bom, é um funil castrante e esmagador.
Olho para alunos cheios de «capacidades», cujos resultados são, porém, sofríveis, e penso: Ele poderia. Se «estudasse mais», se tivesse «método», se criasse «hábitos de trabalho». (são sempre estes os termos que repetimos nas actas). Raios, por que é que ele não se esforça? Está na mão dele, é esperto, escreve bem...! Mas - e se a sua ausência de método for simplesmente a presença de um outro tipo de método, invisível do ponto de vista dos critérios e dos padrões de eficácia da escola? E se a sua desadequação, a sua inaptidão, a sua, às vezes quase me apetece dizer: estupidez!, não fosse senão a expressão de talentos e aptidões com que a escola não trabalha, nunca trabalhou, não saberia trabalhar?
Podem dizer-me: Pobre homem, ficou-se na mensagem dos Pink Floyd! Que anos setenta! Eu não me importo. E não, não, não penso que a solução fosse a escola relativista, sem regras (para não traumatizar), sem classificações nem exigência. Não, não, não penso que a solução fosse o reino da pura singularidade. Mas não tenho dúvidas de que o aliciante para mim, como professor, será sempre, sem cair na relatividade e na anarquia do indivíduo, sem prescindir de critérios universais nem de uma predominância do colectivo, ter sempre presente que o colectivo não é a soma nem a média de elementos idênticos, que a forma e o talento próprios de cada um são um enriquecimento do grupo, não uma excrecência, nunca um lixo que se deva eliminar.
A ministra, sempre tão preocupada com o insucesso, não seria capaz de entender a minha linguagem. Suspeito que os Pink Floyd, no fundo, também não.
Mas, muitos séculos atrás, Aristóteles abria esta senda.
quinta-feira, novembro 02, 2006
COMO EMENDAR CLIENTES DE QUE SE NÃO GOSTA
Não é que eu não aprecie comer um bife pouco saudável no «Portugália» - com molho de mostarda, batatas fritas, etc. Aprecio. O que, de facto, não me agrada no «Portugália», é um certo género de empregados que faz questão de mostrar que sabe mais do que o cliente - e nunca se coibe de o educar.
Um exemplo: há precisamente uma semana, estávamos eu e o meu filho sentados a uma mesa do restaurante, e fazíamos o nosso pedido a um senhor muito alto, muito hirto, demasiado sério, pouco dado a brincadeiras. O meu filho, criança irrequieta, activa, quase no limiar da hiperactividade, ia rodando, entretanto, a faca sobre a mesa. Até que o tal empregado hirto, neurótico, não podendo resistir mais, lhe arrancou a faca e a acertou no lugar devido, junto ao prato.
O miudo, espantado mas ainda com uma réstea de energia para esgotar, iniciou, então, uma rotação com o garfo sobre a mesa, rotação essa imediatamente interrompida pelo senhor. Mas como parecesse que o Duarte não se dera ainda por satisfeito, o homem teve, de repente, uma espécie de iluminação; sussurrou, na sua entoação brasileira, «Cê quer hambúrger no pão, né mesmo? Então não vai precisar disso aí»; pegou nos talheres, e levou-os para longe...
O que me irrita é este tipo de superioridade dos empregados de certos restaurantes, não só, aliás, do «Portugália» (embora, aí, pareçam ter frequentado todos uma Acção de Formação sobre como pôr os clientes na linha).
O que me faz reviver uma outra situação, de uma vez em que eu e a minha mulher almoçávamos num lugar aprazível, com uma vista soberba sobre a Baía de Cascais, e a Adelaide achou que o que lhe apetecia, naquele momento, era precisamente um menu infantil.
Ao que a empregada, uma de óculos grossos e rictus de permanente zanga com o mundo, contestou, friamente:
- Peço desculpa, mas não vejo aqui nenhuma criança.
A Adelaide ainda pensou que se tratasse de uma brincadeira. Ainda pensou, coitada, que poderia responder com uma outra brincadeira. E atirou:
- Há uma criança dentro e cada um de nós, não é verdade?
- Ah, pois é - fechou a mulher, sem a sombra de um sorriso -, mas essa criança que há dentro da senhora não tem direito a menu infantil.
Um exemplo: há precisamente uma semana, estávamos eu e o meu filho sentados a uma mesa do restaurante, e fazíamos o nosso pedido a um senhor muito alto, muito hirto, demasiado sério, pouco dado a brincadeiras. O meu filho, criança irrequieta, activa, quase no limiar da hiperactividade, ia rodando, entretanto, a faca sobre a mesa. Até que o tal empregado hirto, neurótico, não podendo resistir mais, lhe arrancou a faca e a acertou no lugar devido, junto ao prato.
O miudo, espantado mas ainda com uma réstea de energia para esgotar, iniciou, então, uma rotação com o garfo sobre a mesa, rotação essa imediatamente interrompida pelo senhor. Mas como parecesse que o Duarte não se dera ainda por satisfeito, o homem teve, de repente, uma espécie de iluminação; sussurrou, na sua entoação brasileira, «Cê quer hambúrger no pão, né mesmo? Então não vai precisar disso aí»; pegou nos talheres, e levou-os para longe...
O que me irrita é este tipo de superioridade dos empregados de certos restaurantes, não só, aliás, do «Portugália» (embora, aí, pareçam ter frequentado todos uma Acção de Formação sobre como pôr os clientes na linha).
O que me faz reviver uma outra situação, de uma vez em que eu e a minha mulher almoçávamos num lugar aprazível, com uma vista soberba sobre a Baía de Cascais, e a Adelaide achou que o que lhe apetecia, naquele momento, era precisamente um menu infantil.
Ao que a empregada, uma de óculos grossos e rictus de permanente zanga com o mundo, contestou, friamente:
- Peço desculpa, mas não vejo aqui nenhuma criança.
A Adelaide ainda pensou que se tratasse de uma brincadeira. Ainda pensou, coitada, que poderia responder com uma outra brincadeira. E atirou:
- Há uma criança dentro e cada um de nós, não é verdade?
- Ah, pois é - fechou a mulher, sem a sombra de um sorriso -, mas essa criança que há dentro da senhora não tem direito a menu infantil.
sábado, outubro 28, 2006
AINDA SOBRE AS AULAS DE SUBSTITUIÇÃO
Não deixa de me espantar que a Ministra de Educação insista tão firmemente em braços-de-ferro em relação a medidas que, ainda que fossem acertadas, nunca iriam longe deste modo, sem a compreensão e a aceitação por parte dos seus alvos.
Sucede que, para mais, a maioria das medidas é errada. O problema não é só o de os professores não gostarem delas, ou se sentirem agredidos por elas - o que não seria um pormenor despiciendo -, mas de estarmos ante graves perversões pedagógicas.
Estou a pensar, concretamente, nas «aulas de substituição» (que afinal, não o são necessariamente mas, apenas, «actividades de acompanhamento»).
A ideia de que os alunos não podem estar fora de uma sala de aula quando falta um professor, que devem ter uma «actividade» qualquer, em que serão «acompanhados» por um outro professor, não satisfaz ninguém. Não satisfaz os alunos, que não aceitam o docente-substituto de bom-grado, nem percebem a lógica dessa substituição e, portanto, o hostilizam. Não satisfaz o professor chamado a passar noventa minutos com uma turma que não conhece, num território que não é o seu, num encontro que só pode ser episódico, que dificilmente terá qualquer tipo de continuidade...
Satisfará os pais dos alunos? Algum pai irá suspirar de alívio por saber que o seu filho fica guardado, leia-se, enjaulado e convenientemente vigiado durante a ausência do professor que faltou? Talvez, talvez. Sabe-se lá.
Mas se eu quiser retornar à minha adolescência e à minha juventude, poderei lembrar que as «borlas», isto é, não haver aulas por falta de um professor, preenchiam uma indispensável função de socialização: correspondiam ao momento privilegiado em que os alunos se juntavam para explorar a escola ou o espaço próximo, jogando à bola, uns, reunindo-se num café, outros, conversando, conhecendo-se, interagindo de um modo mais completo, que os dez ou quinze minutos dos intervalos não permitiam. Havia uma liberdade essencial, tão importante para a nossa formação como os curricula das disciplinas.
Conheço as objecções: os professores faltam muito; deixar os alunos à solta durante demasiado tempo pode ser pernicioso e, sobretudo, não parece «rendível»: seria deixá--los brincar durante um tempo em que deveriam estar aprendendo. (Seria habituá-los a tirar partido do desleixo, em vez de o corrigirem).
Sejamos sérios: esta última objecção é a mais absurda de todas. A mais ridícula. Numa aula de substituição, ou numa actividade de acompanhamento, ou como lhe queiram chamar, não se trata de aprendizagem: trata-se de manter meninos ocupados - ou, quanto mais não seja, fechados. Não se trata de rigor, nem de promover a disciplina e o gosto pelo trabalho - mas de fomentar o azedume, a frustração, o mal-estar. Não se trata de prevenir os perigos da liberdade - mas de gerar os perigos da falta da liberdade, da atrofia, típicos da escola vista como uma grande fábrica. Entra-se por aqui, sai-se por ali. Não há tempos mortos. Existem sempre uma porca ou um parafuso sendo apertados. Tudo rende, tudo rende, tudo rende. Não há «borlas». Não se respira. A ida à casa de banho é cronometrada.
Sucede que, para mais, a maioria das medidas é errada. O problema não é só o de os professores não gostarem delas, ou se sentirem agredidos por elas - o que não seria um pormenor despiciendo -, mas de estarmos ante graves perversões pedagógicas.
Estou a pensar, concretamente, nas «aulas de substituição» (que afinal, não o são necessariamente mas, apenas, «actividades de acompanhamento»).
A ideia de que os alunos não podem estar fora de uma sala de aula quando falta um professor, que devem ter uma «actividade» qualquer, em que serão «acompanhados» por um outro professor, não satisfaz ninguém. Não satisfaz os alunos, que não aceitam o docente-substituto de bom-grado, nem percebem a lógica dessa substituição e, portanto, o hostilizam. Não satisfaz o professor chamado a passar noventa minutos com uma turma que não conhece, num território que não é o seu, num encontro que só pode ser episódico, que dificilmente terá qualquer tipo de continuidade...
Satisfará os pais dos alunos? Algum pai irá suspirar de alívio por saber que o seu filho fica guardado, leia-se, enjaulado e convenientemente vigiado durante a ausência do professor que faltou? Talvez, talvez. Sabe-se lá.
Mas se eu quiser retornar à minha adolescência e à minha juventude, poderei lembrar que as «borlas», isto é, não haver aulas por falta de um professor, preenchiam uma indispensável função de socialização: correspondiam ao momento privilegiado em que os alunos se juntavam para explorar a escola ou o espaço próximo, jogando à bola, uns, reunindo-se num café, outros, conversando, conhecendo-se, interagindo de um modo mais completo, que os dez ou quinze minutos dos intervalos não permitiam. Havia uma liberdade essencial, tão importante para a nossa formação como os curricula das disciplinas.
Conheço as objecções: os professores faltam muito; deixar os alunos à solta durante demasiado tempo pode ser pernicioso e, sobretudo, não parece «rendível»: seria deixá--los brincar durante um tempo em que deveriam estar aprendendo. (Seria habituá-los a tirar partido do desleixo, em vez de o corrigirem).
Sejamos sérios: esta última objecção é a mais absurda de todas. A mais ridícula. Numa aula de substituição, ou numa actividade de acompanhamento, ou como lhe queiram chamar, não se trata de aprendizagem: trata-se de manter meninos ocupados - ou, quanto mais não seja, fechados. Não se trata de rigor, nem de promover a disciplina e o gosto pelo trabalho - mas de fomentar o azedume, a frustração, o mal-estar. Não se trata de prevenir os perigos da liberdade - mas de gerar os perigos da falta da liberdade, da atrofia, típicos da escola vista como uma grande fábrica. Entra-se por aqui, sai-se por ali. Não há tempos mortos. Existem sempre uma porca ou um parafuso sendo apertados. Tudo rende, tudo rende, tudo rende. Não há «borlas». Não se respira. A ida à casa de banho é cronometrada.
segunda-feira, outubro 09, 2006
AFORISMOS OCIOSOS
A beleza nunca se cumpre. É, no melhor dos casos, uma promessa. No pior, uma ameaça.
Há problemas evitáveis: infelizmente, nunca é possível evitá-los.
A fazer alguma coisa, é sempre mais fácil destruir do que construir: eis uma lição sobre a natureza humana que me é dada pela minha filha bebé, que desmonta, sistemática e minuciosamente, as torres da «Lego» que eu vou continuando a montar...
Há problemas evitáveis: infelizmente, nunca é possível evitá-los.
A fazer alguma coisa, é sempre mais fácil destruir do que construir: eis uma lição sobre a natureza humana que me é dada pela minha filha bebé, que desmonta, sistemática e minuciosamente, as torres da «Lego» que eu vou continuando a montar...
quinta-feira, setembro 28, 2006
UMAS FÉRIAS NA PRAIA
Embora eu esteja muito, muito mas muito longe de consentir que me confundam com um fanático da praia, lembro-me de que me deixara convencer (arrastar, enfim) para uma semana de férias numa terreola de pescadores. Por causa, obviamente, da... praia!
Tinham-se unido vários grupos nessa grotesca excursão: a) eu e a minha esposa, casados de fresco e que insistíamos, vá-se lá perceber porquê, em fazer daquela semana uma segunda lua-de-mel; b) os Fonsecas, pais e filha - uma daquelas meninas irritantes, demasiado sérias e sábias, que, quando discutem com os adultos, o fazem esgrimindo argumentos imbatíveis, e que escrevem poesia - e, c) os Guimarães, um pai e uma mãe mais duas crianças - um menino gordo que era uma fonte permanente de agitação e ruído e um menino enfezado e triste, como se o primeiro se alimentasse da energia do outro...
Estvámos todos na mesma pensão, a «Pensão Alegria», repartidos por três quartos. Por que me deixara eu convencer (ou arrastar, enfim) para uma férias desta natureza surrealista, já não recordo (ou fiz por esquecer, para não me odiar). Devia estar apaixonado: tão apaixonado que, se calhar, nem ouvira bem o projecto quando a minha fresca esposa mo expusera. Aceitara sem perceber todos os pormenores ou todas as implicações!
O primeiro dia de praia, começou por ser um dia de chuva imensa. Imparável. Africana.
Tínhamos acordado cedíssimo (porventura para escapar aos Fonseca e aos Guimarães) e arrancado animadamente, ou quase animadamente, em direcção à praia - eu carregando guarda-sol, toalhas, cestos, chapéus e uma espécie de frigorífico portátil, de que, aliás, sempre troçara como o cúmulo da saloíce, quando o via à responsabilidade de outras pessoas... - mas, a meio caminho, a chuvada desabara, inclemente, pérfida, implacável. Africana.
Regressámos precipitadamente à pensão, evitando fazer barulho para não atrairmos a atenção dos Fonseca e dos Guimarães - apesar de os meus chinelos de praia, encharcadíssimos, emitirem um enervante «fuenc, fuenc» -, pousámos a tralha no quarto e preparámo-nos para o almoço, como uma espécie de compensação que nos oferecíamos, apesar de nem ainda onze horas serem...
Na pensão, porém, nesse dia o almoço resumia-se a um prato único: cozido!
Eu não sei se a minha leitora (ou as minhas duas leitoras, ao que parece!) nutrem pelo chamado cozido à portuguesa o mesmo asco que eu. Sim, na altura eu estaria completamente apaixonado - ou não iria passar uma semana na praia numa pensão com a família Fonseca e a família Guimarães em quartos próximos - mas, se podemos dizer que até as mais desenfreadas paixões têm um limite, o meu limite era o cozido à portuguesa.
Fomos, pois, enfrentando mais um pedaço de chuva, até ao restaurante manhoso ali da frente.
Mas ali à frente não era bem tão «ali à frente» como eu julgara. E, sobretudo à chuva, ainda de chinelos e de camiseta florida, o «ali à frente» tornara-se num caminho horrendo, imenso, desabrigado...
Para o restaurante, entrava-se, por um portão verde, para uma espécie de quintal com um alpendre confortável. Era engraçado! Romântico. Delicioso.
Ali estávamos, portanto, já no quintal, protegidos sob o abençoado alpendre, quando, que susto!, reparámos numa figurinha que transpunha, por sua vez, o portão da entrada.
Era a menina Fonseca. A sábia-junior. Lá vinha a chatinha, carregando duas enciclopédias, já muito molhadas, com o cartão das capas a desfazer-se. Vinha compenetrada, sem esboçar um sorriso de cumprimento como, aliás, nunca fazia.
- Os meus pais viram-vos vir em direcção ao restaurante. Querem que eu almoce convosco porque têm de fazer não sei quê...
Eu sei o que os Fonseca queriam fazer - no quarto, num dia de chuva, a sós, sem a menina sábia e chata a atrapalhar.
Conformava-me. Fiz-lhe até uma espécie de vaga e breve carícia nos cabelos molhados.
Nessa altura, do outro lado do portão, a senhora Guimarães, sem chegar a abri-lo, passava o menino gordo por cima e dava-lhe instruções no sentido de se dirigir a nós. O enfezadinho vinha depois.
- Mas quem é que esta gente pensa que nós somos? - sussurrei eu à minha mulher. - Os baby-sitters? Uma agência de dar almoços à criançada?
A Guimarães gritava-nos de lá qualquer coisa que não entendíamos. E ia-se embora.
- Estou pior que estragado! - vociferei.
- Deixa lá - sossegou-me a minha mulher. - O Paulinho e o Frederico (o gordo e o enfezado) já almoçaram, com certeza, comem sempre muito cedo. Vêm só para brincar com a Mariana. Ficam aqui a brincar enquanto nós vamos lá para dentro, não fiques assim...
- Não, não - intrometeu-se rapidamente o Paulinho gordo -, nós não almoçámos não, eu tou cheio de fome...!
Tinham-se unido vários grupos nessa grotesca excursão: a) eu e a minha esposa, casados de fresco e que insistíamos, vá-se lá perceber porquê, em fazer daquela semana uma segunda lua-de-mel; b) os Fonsecas, pais e filha - uma daquelas meninas irritantes, demasiado sérias e sábias, que, quando discutem com os adultos, o fazem esgrimindo argumentos imbatíveis, e que escrevem poesia - e, c) os Guimarães, um pai e uma mãe mais duas crianças - um menino gordo que era uma fonte permanente de agitação e ruído e um menino enfezado e triste, como se o primeiro se alimentasse da energia do outro...
Estvámos todos na mesma pensão, a «Pensão Alegria», repartidos por três quartos. Por que me deixara eu convencer (ou arrastar, enfim) para uma férias desta natureza surrealista, já não recordo (ou fiz por esquecer, para não me odiar). Devia estar apaixonado: tão apaixonado que, se calhar, nem ouvira bem o projecto quando a minha fresca esposa mo expusera. Aceitara sem perceber todos os pormenores ou todas as implicações!
O primeiro dia de praia, começou por ser um dia de chuva imensa. Imparável. Africana.
Tínhamos acordado cedíssimo (porventura para escapar aos Fonseca e aos Guimarães) e arrancado animadamente, ou quase animadamente, em direcção à praia - eu carregando guarda-sol, toalhas, cestos, chapéus e uma espécie de frigorífico portátil, de que, aliás, sempre troçara como o cúmulo da saloíce, quando o via à responsabilidade de outras pessoas... - mas, a meio caminho, a chuvada desabara, inclemente, pérfida, implacável. Africana.
Regressámos precipitadamente à pensão, evitando fazer barulho para não atrairmos a atenção dos Fonseca e dos Guimarães - apesar de os meus chinelos de praia, encharcadíssimos, emitirem um enervante «fuenc, fuenc» -, pousámos a tralha no quarto e preparámo-nos para o almoço, como uma espécie de compensação que nos oferecíamos, apesar de nem ainda onze horas serem...
Na pensão, porém, nesse dia o almoço resumia-se a um prato único: cozido!
Eu não sei se a minha leitora (ou as minhas duas leitoras, ao que parece!) nutrem pelo chamado cozido à portuguesa o mesmo asco que eu. Sim, na altura eu estaria completamente apaixonado - ou não iria passar uma semana na praia numa pensão com a família Fonseca e a família Guimarães em quartos próximos - mas, se podemos dizer que até as mais desenfreadas paixões têm um limite, o meu limite era o cozido à portuguesa.
Fomos, pois, enfrentando mais um pedaço de chuva, até ao restaurante manhoso ali da frente.
Mas ali à frente não era bem tão «ali à frente» como eu julgara. E, sobretudo à chuva, ainda de chinelos e de camiseta florida, o «ali à frente» tornara-se num caminho horrendo, imenso, desabrigado...
Para o restaurante, entrava-se, por um portão verde, para uma espécie de quintal com um alpendre confortável. Era engraçado! Romântico. Delicioso.
Ali estávamos, portanto, já no quintal, protegidos sob o abençoado alpendre, quando, que susto!, reparámos numa figurinha que transpunha, por sua vez, o portão da entrada.
Era a menina Fonseca. A sábia-junior. Lá vinha a chatinha, carregando duas enciclopédias, já muito molhadas, com o cartão das capas a desfazer-se. Vinha compenetrada, sem esboçar um sorriso de cumprimento como, aliás, nunca fazia.
- Os meus pais viram-vos vir em direcção ao restaurante. Querem que eu almoce convosco porque têm de fazer não sei quê...
Eu sei o que os Fonseca queriam fazer - no quarto, num dia de chuva, a sós, sem a menina sábia e chata a atrapalhar.
Conformava-me. Fiz-lhe até uma espécie de vaga e breve carícia nos cabelos molhados.
Nessa altura, do outro lado do portão, a senhora Guimarães, sem chegar a abri-lo, passava o menino gordo por cima e dava-lhe instruções no sentido de se dirigir a nós. O enfezadinho vinha depois.
- Mas quem é que esta gente pensa que nós somos? - sussurrei eu à minha mulher. - Os baby-sitters? Uma agência de dar almoços à criançada?
A Guimarães gritava-nos de lá qualquer coisa que não entendíamos. E ia-se embora.
- Estou pior que estragado! - vociferei.
- Deixa lá - sossegou-me a minha mulher. - O Paulinho e o Frederico (o gordo e o enfezado) já almoçaram, com certeza, comem sempre muito cedo. Vêm só para brincar com a Mariana. Ficam aqui a brincar enquanto nós vamos lá para dentro, não fiques assim...
- Não, não - intrometeu-se rapidamente o Paulinho gordo -, nós não almoçámos não, eu tou cheio de fome...!
sexta-feira, setembro 01, 2006
ANJO GORDO
Azael sentia-se infeliz - o que é um sentimento humano.
E com um princípio de ressentimento azul, que tenderia a provocar chispas de raiva avermelhada e, mais tarde, poderia abrir janelas a um ódio púrpura - tudo sentimentos humanos que, quando penentram em almas angélicas, as alimentam de uma força que nem os homens terão alguma vez experimentado.
Azael, o anjo, não podia compreender por que Deus o teria concebido como um «anjo gordo». Os anjos são puro espírito. Não têm carne. Os seus corpos espirituais, etéreos, são de uma elegância perfeita, luminosa, leve, no limiar da translucidez. Que sentido faz um anjo gordo!? Um anjo gordo para quê??? Que diabo pensava Deus - passe a expressão -, que tinha Deus na sua mente omnisciente quando o concebera e criara assim?
Por um estranho e perverso efeito, apesar de ser todo espírito, como os demais, essa sua espiritualidade gorda assumia algumas das características da gordura física: lentidão, cansaço, vergonha de si.
Sentou-se sobre uma pedra.
Gostaria de ver Deus. Não de o enfrentar - não teria coragem para se rebelar, bastava a trágica história de Lúcifer para o dissuadir. Mas perguntar-lhe. Porquê, Meu Deus? Que querias tu provar? Para que te sirvo assim?
Viu passar um menino gordo. E, por um instante, pareceu-lhe que compreendia a sua missão, a sua qualquer coisa. Não? Por um instante pensou que talvez se tratasse de o aproximar de um certo grupo de seres humanos - complexados, doentes, tristes - e de lhes mostrar que até entre os anjos pode haver gordos, que o aspecto não tem qualquer importância, que...
Em suma, talvez Deus o tivesse criado por uma intenção «politicamente correcta».
E pôs-se de pé. Diante do menino atónito. Em toda a extensão das suas asas e da sua gordura descomunal.
E sorriu ao menino. Luminosamente.
E a tristeza passava-lhe, agora que se imbuía da sua missão.
Afinal.
Até que o menino, o próprio menino, ele próprio gordo, exclamou, de dedo humilhantemente apontado:
- Ena pá! Um gordo com asas!
E, então, a irremediável tristeza de Azael regressou por inteiro.
E o anjo gordo sentou-se de novo sobre a pedra.
E suspirou.
E com um princípio de ressentimento azul, que tenderia a provocar chispas de raiva avermelhada e, mais tarde, poderia abrir janelas a um ódio púrpura - tudo sentimentos humanos que, quando penentram em almas angélicas, as alimentam de uma força que nem os homens terão alguma vez experimentado.
Azael, o anjo, não podia compreender por que Deus o teria concebido como um «anjo gordo». Os anjos são puro espírito. Não têm carne. Os seus corpos espirituais, etéreos, são de uma elegância perfeita, luminosa, leve, no limiar da translucidez. Que sentido faz um anjo gordo!? Um anjo gordo para quê??? Que diabo pensava Deus - passe a expressão -, que tinha Deus na sua mente omnisciente quando o concebera e criara assim?
Por um estranho e perverso efeito, apesar de ser todo espírito, como os demais, essa sua espiritualidade gorda assumia algumas das características da gordura física: lentidão, cansaço, vergonha de si.
Sentou-se sobre uma pedra.
Gostaria de ver Deus. Não de o enfrentar - não teria coragem para se rebelar, bastava a trágica história de Lúcifer para o dissuadir. Mas perguntar-lhe. Porquê, Meu Deus? Que querias tu provar? Para que te sirvo assim?
Viu passar um menino gordo. E, por um instante, pareceu-lhe que compreendia a sua missão, a sua qualquer coisa. Não? Por um instante pensou que talvez se tratasse de o aproximar de um certo grupo de seres humanos - complexados, doentes, tristes - e de lhes mostrar que até entre os anjos pode haver gordos, que o aspecto não tem qualquer importância, que...
Em suma, talvez Deus o tivesse criado por uma intenção «politicamente correcta».
E pôs-se de pé. Diante do menino atónito. Em toda a extensão das suas asas e da sua gordura descomunal.
E sorriu ao menino. Luminosamente.
E a tristeza passava-lhe, agora que se imbuía da sua missão.
Afinal.
Até que o menino, o próprio menino, ele próprio gordo, exclamou, de dedo humilhantemente apontado:
- Ena pá! Um gordo com asas!
E, então, a irremediável tristeza de Azael regressou por inteiro.
E o anjo gordo sentou-se de novo sobre a pedra.
E suspirou.
quarta-feira, agosto 30, 2006
HISTÓRIA BREVE DOS VÍCIOS DE SIMÕES
O Simões, coitado, era, aos trinta anos de idade, o que se chama um virgem: mas virgem de corpo e alma, e virgem em relação a praticamente tudo o que prenuncie prazer. O Simões não tinha vícios: não fumava, não bebia, não praticava sexo; não tomava café, porque temia as palpitações e as insónias; não sabia conduzir nem sabia nadar; nunca andara de bicileta; de moto, muito menos; não amava, nunca se apaixonara; é certo que trabalhava muito: o trabalho equivalia, no Simões, a quase um vício. Era, talvez, o que disso mais se aproximava.
O ponto é que nem aos trinta, nem aos quarenta, talvez em idade nenhuma se tem a vida completamente fechada, inteiramente imune a surpresas.
E, como a prová-lo, um dia, o Simões apaixonou-se.
Ou seja: dera-lhe uma espécie de explosão epilética em face de uma mulher de cinquenta e três anos mas com aspecto de menina, aspecto esse mantido, aliás, pelo aparelho «teen-ager» que usava nos dentes e pelas camisolinhas que lhe revelavam um belo umbigo num estômago que ela se esforçava por encolher.
A mulher, Alda Bobone, tinha rugas no rosto - que o Simões, de resto, adorava: eram as rugas mais belas que ele já vira, em todos os pontos certos, num subtil jogo de ramificações, numa maravilhosa teia que lhe fazia lembrar relâmpagos riscando o céu numa noite de trovoada.
Como o Simões nunca estivera antes apaixonado, tornou-se demasiado óbvio: suspirava, revirava os olhos, palidejava quando a via. Punha um ar de sofrimento, como se estivesse com os sapatos apertados ou dor de dentes. Não dormia. O rosto ia-se-lhe escavando até se fixar nos contornos dramáticos da caveira. Não comia. As calças principiavam a cair-lhe, apertava o cinto, tornava-se de uma magreza neo-Gótica.
Alda Bobone percebeu rapidamente que aquele jovem com ar vagamente de poeta começara a desfazer-se por causa dela. E comportou-se como se lhe tivesse saído a taluda, e com razão: aos cinquenta e três anos, ainda despertava paixões...!
Nunca os seus requebros foram tão ostensivos, os seus decotes tão profundos, o aparelho nos dentes tão faiscante, nunca o seu modo de se sentar, cruzando a perna, destapando a coxa, fora tão sensual.
Ao fim de umas curtas semanas durante as quais ensaiou todos os passos da sua dança de sedução, e não querendo prolongar essa fase, não fosse o jovem, cada dia mais aflito, agonizar de vez, dona Alda passou ao ataque. Num só dia apanhou-o a sós, beijou-o como se lhe sugasse a alma, desencadeando-lhe um dos seus piores ataques de asma, e levou-o dali para a cama, ainda com a respiração descontrolada.
Nesse único dia, Simões somou, ao tenebroso vício da paixão, dois novos vícios: em primeiro lugar, o sexo. Não precisou de se esforçar, porque dona Alda fazia tudo praticamente sozinha: ela tratou dos preliminares, pôs-se-lhe debaixo, pôs-se-lhe por cima, comprimindo-o na sua celulite, gemeu, arfou, gritou. Ora bem. Em segundo lugar, o tabaco. Porque, inexperiente como era, virgem como fora sempre, não tendo do sexo senão as imagens e os clichês dos filmes, Simões julgava que fazia parte do próprio acto concluí-lo com umas passas num cigarro, o corpo nu enrolado num lençol, enquanto lançava, para o ar, sopros de fumo e algumas reflexões vagamente filosóficas.
Dona Alda era incansável. Queria mais, queria sempre, todos os dias, se não a todas as horas. E o Simões, que no início da paixão parecera rejubilar, ganhar novas cores e uma nova vitalidade, depressa retomou a marcha para a decadência física, para a magreza, para o ar tenebroso e neo-Gótico.
E, principalmente, fumava muito. Fumava de todas as vezes que fazia sexo. Entretanto, descobriu que dona Alda era casada com um certo engenheiro Bobone, que o procurava agora por todo o lado e lhe fazia esperas, com uma machadinha escondida no bolso. Simões deu, pois, em fugir. E em fumar cada vez mais. Fugia do marido dela, obviamente, mas também da mulher do marido. Já não fumava meramente como um ritual pós-coito, fumava, agora, para relembrar o sexo de que fugia, mas também para tentar esquecê-lo, ou simplesmente para se acalmar, ou fosse pelo que fosse.
A sua asma não melhorou. Pelo contrário. Quando não estava com um cigarro nos lábios, estava com uma bomba enfiada na boca, aspirando com um estertor moribundo.
Com trinta e dois anos, Simões morreu de complicações que eu, que não sou médico, não saberia descrever.
Várias hipóteses de moral seriam retiráveis deste conto, algumas talhadas para as campanhas anti-tabagistas.
A única que me apetece extrair, com a dor e a melancolia de quem tem de extrair um dente, é esta: Mais vale uma vida breve por causa de um vício, do que uma vida demorada sem vício nenhum.
O ponto é que nem aos trinta, nem aos quarenta, talvez em idade nenhuma se tem a vida completamente fechada, inteiramente imune a surpresas.
E, como a prová-lo, um dia, o Simões apaixonou-se.
Ou seja: dera-lhe uma espécie de explosão epilética em face de uma mulher de cinquenta e três anos mas com aspecto de menina, aspecto esse mantido, aliás, pelo aparelho «teen-ager» que usava nos dentes e pelas camisolinhas que lhe revelavam um belo umbigo num estômago que ela se esforçava por encolher.
A mulher, Alda Bobone, tinha rugas no rosto - que o Simões, de resto, adorava: eram as rugas mais belas que ele já vira, em todos os pontos certos, num subtil jogo de ramificações, numa maravilhosa teia que lhe fazia lembrar relâmpagos riscando o céu numa noite de trovoada.
Como o Simões nunca estivera antes apaixonado, tornou-se demasiado óbvio: suspirava, revirava os olhos, palidejava quando a via. Punha um ar de sofrimento, como se estivesse com os sapatos apertados ou dor de dentes. Não dormia. O rosto ia-se-lhe escavando até se fixar nos contornos dramáticos da caveira. Não comia. As calças principiavam a cair-lhe, apertava o cinto, tornava-se de uma magreza neo-Gótica.
Alda Bobone percebeu rapidamente que aquele jovem com ar vagamente de poeta começara a desfazer-se por causa dela. E comportou-se como se lhe tivesse saído a taluda, e com razão: aos cinquenta e três anos, ainda despertava paixões...!
Nunca os seus requebros foram tão ostensivos, os seus decotes tão profundos, o aparelho nos dentes tão faiscante, nunca o seu modo de se sentar, cruzando a perna, destapando a coxa, fora tão sensual.
Ao fim de umas curtas semanas durante as quais ensaiou todos os passos da sua dança de sedução, e não querendo prolongar essa fase, não fosse o jovem, cada dia mais aflito, agonizar de vez, dona Alda passou ao ataque. Num só dia apanhou-o a sós, beijou-o como se lhe sugasse a alma, desencadeando-lhe um dos seus piores ataques de asma, e levou-o dali para a cama, ainda com a respiração descontrolada.
Nesse único dia, Simões somou, ao tenebroso vício da paixão, dois novos vícios: em primeiro lugar, o sexo. Não precisou de se esforçar, porque dona Alda fazia tudo praticamente sozinha: ela tratou dos preliminares, pôs-se-lhe debaixo, pôs-se-lhe por cima, comprimindo-o na sua celulite, gemeu, arfou, gritou. Ora bem. Em segundo lugar, o tabaco. Porque, inexperiente como era, virgem como fora sempre, não tendo do sexo senão as imagens e os clichês dos filmes, Simões julgava que fazia parte do próprio acto concluí-lo com umas passas num cigarro, o corpo nu enrolado num lençol, enquanto lançava, para o ar, sopros de fumo e algumas reflexões vagamente filosóficas.
Dona Alda era incansável. Queria mais, queria sempre, todos os dias, se não a todas as horas. E o Simões, que no início da paixão parecera rejubilar, ganhar novas cores e uma nova vitalidade, depressa retomou a marcha para a decadência física, para a magreza, para o ar tenebroso e neo-Gótico.
E, principalmente, fumava muito. Fumava de todas as vezes que fazia sexo. Entretanto, descobriu que dona Alda era casada com um certo engenheiro Bobone, que o procurava agora por todo o lado e lhe fazia esperas, com uma machadinha escondida no bolso. Simões deu, pois, em fugir. E em fumar cada vez mais. Fugia do marido dela, obviamente, mas também da mulher do marido. Já não fumava meramente como um ritual pós-coito, fumava, agora, para relembrar o sexo de que fugia, mas também para tentar esquecê-lo, ou simplesmente para se acalmar, ou fosse pelo que fosse.
A sua asma não melhorou. Pelo contrário. Quando não estava com um cigarro nos lábios, estava com uma bomba enfiada na boca, aspirando com um estertor moribundo.
Com trinta e dois anos, Simões morreu de complicações que eu, que não sou médico, não saberia descrever.
Várias hipóteses de moral seriam retiráveis deste conto, algumas talhadas para as campanhas anti-tabagistas.
A única que me apetece extrair, com a dor e a melancolia de quem tem de extrair um dente, é esta: Mais vale uma vida breve por causa de um vício, do que uma vida demorada sem vício nenhum.
terça-feira, agosto 22, 2006
O MITO DO OBSERVADOR INVISÍVEL
Nós, que nos ufanamos de ser do género «observador», gente perspicaz a quem nada falha, meticulosos sugadoiros do mundo em todos os seus aspectos, temos um pouco a noção (ou a mania) de que nunca somos observados: estamos do outro lado, como se fossemos de cristal; a nossa condição de pessoas que tudo vêem torna-nos, de certo modo, invisíveis.
Gosto de observar. Como aspirante a romancista (eterno e eternamente impublicado aspirante a romancista) tomo nota mental dos gestos e dos actos dos outros, sento-me numa mesa de café, meio encoberto por um jornal, oiço as conversas que me não dizem respeito, atento nas discussões, imagino histórias com que visto as pessoas que me passam ao lado, tornando-as personagens de futuros romances.
Observo, no comboio, os meninos prepotentes que fazem o que querem dos avós impotentes e indefesos: «Quero ir à janela! Com a janela aberta!», «Não, Quinzinho, não, não, é muito perigoso, olha lá, e se passa um comboio em sentido contrário...?», «Mas eu quero, eu quero, eu quero!!!», «Pronto, vá lá, só um bocadinho...»
Sei histórias dos carteiros, da porteira, da mulher-a-dias, do senhor que vende jornais no quiosque, dos vizinhos, dos bombeiros. De tentativas de suicídio ou de murros imprevistos, de cenas de ciúme e ódio; assisti por um triz à zanga da Elsa Raposo, à sua saída da casa do ex-namorado, cheia de malas, provocando um ajuntamento.
Tenho, na minha varanda, um posto privilegiado. Ao mínimo ruído de altercação, à noite, ao mínimo sinal de briga entre bêbedos, ao travar de uma ambulância que vem buscar alguém ao prédio da frente, assomo logo ao meu posto, seguro da minha invisibilidade, a coberto da escuridão.
Uma destas noites, precisamente, assomei atraído pelos gritos de uma velha prostituta que batia desapiedadamente num velho; partiu-lhe os óculos, partia-o todo, aos gritos de «Posso ser puta, mas pelo menos não sou tua mãe, que era pior!»
Na manhã seguinte, quando, por acaso, me cruzei com a mulher - eu a entrar para um café de onde ela saía -, rosnou-me, com uma agressividade que nunca lhe vira.
E já ela ia a dobrar a esquina, ainda lhe ouvi, obviamente para mim:
«E tu vais espreitar a tua prima lá da tua varanda, ó cabrão!»
Nunca me tinha falado antes. Fala-me, agora, sempre: e sempre com os mesmos modos desabridos, de quem me odeia, de quem me não perdoa o que eu vi nessa noite. Ela é que não perdoa o que eu vi, percebem? Porque ela sabe que a vi. Ela viu que eu vira tudo...
Foi, também, o fim de um mito: o do homem de cristal - o do observador invisível.
Gosto de observar. Como aspirante a romancista (eterno e eternamente impublicado aspirante a romancista) tomo nota mental dos gestos e dos actos dos outros, sento-me numa mesa de café, meio encoberto por um jornal, oiço as conversas que me não dizem respeito, atento nas discussões, imagino histórias com que visto as pessoas que me passam ao lado, tornando-as personagens de futuros romances.
Observo, no comboio, os meninos prepotentes que fazem o que querem dos avós impotentes e indefesos: «Quero ir à janela! Com a janela aberta!», «Não, Quinzinho, não, não, é muito perigoso, olha lá, e se passa um comboio em sentido contrário...?», «Mas eu quero, eu quero, eu quero!!!», «Pronto, vá lá, só um bocadinho...»
Sei histórias dos carteiros, da porteira, da mulher-a-dias, do senhor que vende jornais no quiosque, dos vizinhos, dos bombeiros. De tentativas de suicídio ou de murros imprevistos, de cenas de ciúme e ódio; assisti por um triz à zanga da Elsa Raposo, à sua saída da casa do ex-namorado, cheia de malas, provocando um ajuntamento.
Tenho, na minha varanda, um posto privilegiado. Ao mínimo ruído de altercação, à noite, ao mínimo sinal de briga entre bêbedos, ao travar de uma ambulância que vem buscar alguém ao prédio da frente, assomo logo ao meu posto, seguro da minha invisibilidade, a coberto da escuridão.
Uma destas noites, precisamente, assomei atraído pelos gritos de uma velha prostituta que batia desapiedadamente num velho; partiu-lhe os óculos, partia-o todo, aos gritos de «Posso ser puta, mas pelo menos não sou tua mãe, que era pior!»
Na manhã seguinte, quando, por acaso, me cruzei com a mulher - eu a entrar para um café de onde ela saía -, rosnou-me, com uma agressividade que nunca lhe vira.
E já ela ia a dobrar a esquina, ainda lhe ouvi, obviamente para mim:
«E tu vais espreitar a tua prima lá da tua varanda, ó cabrão!»
Nunca me tinha falado antes. Fala-me, agora, sempre: e sempre com os mesmos modos desabridos, de quem me odeia, de quem me não perdoa o que eu vi nessa noite. Ela é que não perdoa o que eu vi, percebem? Porque ela sabe que a vi. Ela viu que eu vira tudo...
Foi, também, o fim de um mito: o do homem de cristal - o do observador invisível.
domingo, agosto 20, 2006
LITERATURA E MARKETING
Não me digam que a literatura não está tão sujeita ao marketing como todos os outros objectos compráveis. E não me digam que, no caso da literatura, não é isso que conta, não é isso o que mais importa...
E é realmente de literatura que falo, não simplesmente de livros, nem de escrita pimba, nem de escrita pop, nem de escrita light.
Se, por exemplo, não tivesse começado a ler «Em Busca do Tempo Perdido» já completamente rendido ao efeito mítico dessa obra imensa, escrita por um homossexual histérico e asmático (pode parecer insultuoso mas, se relerem, vão perceber que nenhum dos termos empregues tem necessariamente uma carga pejorativa), tocada por um halo que me impregnara antecipadamente, isto é, antes de o ter principiado a ler, se não me tivessem já criado essa espécie de fantasia em torno do autor, da personagem, da obra, da memória e do papel da memória, se o meu avô não me tivesse já descrito, abundante e deliciosamente, o célebre episódio da «madalena», eu teria ido ao encontro da obra, tê-la-ia deixado vir ao meu encontro, tê-la-ia deixado tornar-se, paulatinamente (e já tarde) a obra da minha vida?
Faço estas considerações a propósito de um conto longo (uma novela, no fundo) que Vasco Graça Moura escreveu propositadamente para ser comprado em conjunto com um certo número da revista «Visão» (por mais três euros e tal).
Pensam que se não se tratasse de Vasco Graça Moura, para já, esse intelectual encartado do nosso país, esse tradutor reconhecido e premiado, esse poeta cantado e recantado (e requintado... e, já agora, requentado...!), de quem apreciei anteriores escritos, o livro me teria sorrido?
Pensam que se não fosse aquela capa - em que, numa fotografia, Vasco Graça Moura, com um polo Lacoste azul celeste, nos sorri, diante da sua magnífica biblioteca, repousando o cotovelo sobre o degrau superior de um escadote para alcançar os livros das prateleiras superiores - eu me teria detido sobre o objecto? Pensam que uma fotografia do Vasco Graça Moura a lamber um sorvete, ou a acenar-nos, ou a passear um cão, ou a correr para um autocarro, teriam surtido o mesmo efeito, esse efeito quase sagrado da proximidade dos livros, do seu escritório (que imaginamos mais do que realmente vemos), do seu trabalho intelectual (que invejamos mais do que realmente admiramos)?
Finalmente, pensam que se o título não fosse «Duas mulheres em Novembro», evocando de imediato um romance do narrador com duas senhoras, em pleno Inverno, um pouco à maneira de David Mourão-Ferreira, eu teria tido tanta pressa de o comprar?
Mas o marketing é sempre ilusório.
Para que conste, não há qualquer triângulo amoroso: as «duas mulheres» do título são, simplesmente, duas mulheres que se encontram (em Novembro, obviamente) no consultório de um médico que não há modo de as atender, e conversam ao longo das páginas mais chatas que já li em dias de minha vida.
O Graça Moura é uma seca. É um pim pam pum.
E a biblioteca da fotografia, se calhar, é um logro. Como este livro. Pft!
E é realmente de literatura que falo, não simplesmente de livros, nem de escrita pimba, nem de escrita pop, nem de escrita light.
Se, por exemplo, não tivesse começado a ler «Em Busca do Tempo Perdido» já completamente rendido ao efeito mítico dessa obra imensa, escrita por um homossexual histérico e asmático (pode parecer insultuoso mas, se relerem, vão perceber que nenhum dos termos empregues tem necessariamente uma carga pejorativa), tocada por um halo que me impregnara antecipadamente, isto é, antes de o ter principiado a ler, se não me tivessem já criado essa espécie de fantasia em torno do autor, da personagem, da obra, da memória e do papel da memória, se o meu avô não me tivesse já descrito, abundante e deliciosamente, o célebre episódio da «madalena», eu teria ido ao encontro da obra, tê-la-ia deixado vir ao meu encontro, tê-la-ia deixado tornar-se, paulatinamente (e já tarde) a obra da minha vida?
Faço estas considerações a propósito de um conto longo (uma novela, no fundo) que Vasco Graça Moura escreveu propositadamente para ser comprado em conjunto com um certo número da revista «Visão» (por mais três euros e tal).
Pensam que se não se tratasse de Vasco Graça Moura, para já, esse intelectual encartado do nosso país, esse tradutor reconhecido e premiado, esse poeta cantado e recantado (e requintado... e, já agora, requentado...!), de quem apreciei anteriores escritos, o livro me teria sorrido?
Pensam que se não fosse aquela capa - em que, numa fotografia, Vasco Graça Moura, com um polo Lacoste azul celeste, nos sorri, diante da sua magnífica biblioteca, repousando o cotovelo sobre o degrau superior de um escadote para alcançar os livros das prateleiras superiores - eu me teria detido sobre o objecto? Pensam que uma fotografia do Vasco Graça Moura a lamber um sorvete, ou a acenar-nos, ou a passear um cão, ou a correr para um autocarro, teriam surtido o mesmo efeito, esse efeito quase sagrado da proximidade dos livros, do seu escritório (que imaginamos mais do que realmente vemos), do seu trabalho intelectual (que invejamos mais do que realmente admiramos)?
Finalmente, pensam que se o título não fosse «Duas mulheres em Novembro», evocando de imediato um romance do narrador com duas senhoras, em pleno Inverno, um pouco à maneira de David Mourão-Ferreira, eu teria tido tanta pressa de o comprar?
Mas o marketing é sempre ilusório.
Para que conste, não há qualquer triângulo amoroso: as «duas mulheres» do título são, simplesmente, duas mulheres que se encontram (em Novembro, obviamente) no consultório de um médico que não há modo de as atender, e conversam ao longo das páginas mais chatas que já li em dias de minha vida.
O Graça Moura é uma seca. É um pim pam pum.
E a biblioteca da fotografia, se calhar, é um logro. Como este livro. Pft!
sábado, agosto 19, 2006
DIÁLOGOS IMPRESSIONANTES
MINHA MÃE - Estás maluco? Já estou arrependida de te ter contado esta história.
EU (amuado) - E porquê?
MINHA MÃE - Porque dizes que vais pôr isso no teu blogue! Com nomes e tudo!
EU (digníssimo) - E vou! E vou mesmo! O meu blogue é um lugar de denúncia das falsas virtudes, etc. etc. Ninguém me cala...
MINHA MÃE - Pelo amor de Deus, não faças isso, ao menos generaliza, diz que «há pessoas que fazem isto e fazem aquilo...» Não digas que «Fulano faz»...
EU (cada vez mais emocionado com o poder do meu blogue) - Ná, ná, ná! Não estou à venda. Vai tudo escarrapachado para lá. E é já. O meu blogue é um lugar livre e independente... (Depois de uma hesitação)... até porque ninguém o lê...!
EU (amuado) - E porquê?
MINHA MÃE - Porque dizes que vais pôr isso no teu blogue! Com nomes e tudo!
EU (digníssimo) - E vou! E vou mesmo! O meu blogue é um lugar de denúncia das falsas virtudes, etc. etc. Ninguém me cala...
MINHA MÃE - Pelo amor de Deus, não faças isso, ao menos generaliza, diz que «há pessoas que fazem isto e fazem aquilo...» Não digas que «Fulano faz»...
EU (cada vez mais emocionado com o poder do meu blogue) - Ná, ná, ná! Não estou à venda. Vai tudo escarrapachado para lá. E é já. O meu blogue é um lugar livre e independente... (Depois de uma hesitação)... até porque ninguém o lê...!
sexta-feira, agosto 11, 2006
PAIS, FILHOS & PSICÓLOGOS
Educar uma criança é difícil, mas mais fácil do que parece.
A primeira coisa a fazer, é não ligar aos psicólogos. Sobretudo, em Portugal, a pessoas como o Daniel Sampaio ou o Eduardo Sá. Ou o Pedro Strecht - em suma, aqueles que pontificam um pouco por toda a parte. Não é que nos enganem, coitados: eles não enganam ninguém. Basta ouvi-los durante cinco pacientes minutos para se perceber de imediato que não percebem nada destas coisas, que estão para ali a alinhar os mesmos chavões em que se revelam os perigos de uma teoria sem prática.
O que a prática me tem revelado, a mim que não sou psicólogo, é que não existem pais nem famílias que não sejam neuróticos; mais: que, na maior parte dos casos, quanto mais «politicamente correctos», quanto mais «consciencializados», quanto mais atentos e preocupados em agir by the book, isto é, de acordo com os manuais que ensinam os pais a ser pais, mais neuróticos são. (É preciso ser-se valentemente neurótico para se achar, por exemplo, que é possível viver a paternidade segundo os conselhos do senhor Daniel Sampaio).
Não quero que pensem que tenho a mania, ou que julgo saber do assunto mais do quem quer que seja; não quero que pensem que não cometo erros, nem sequer que penso que os não cometo. Cometo inúmeros. Alguns, incorrigíveis: estão-me na massa, na estrutura, no ADN, no que quiserem. Não tenho teorias, ou melhor, vou tentando compreender o que faço, tirando as minhas lições, procurando melhorar. É possível que esteja deformando e estragando o meu filho, que o esteja traumatizando, que lhe vá criando complexos e vícios vários. (Mas também não me preocupo mais do que a minha análise me convide a fazê-lo, porque verifiquei que a maioria dos «complexos» e dos «vícios» são uma invenção que tem rendido a uma certa psicologia...)
A minha aposta consiste simplesmente em confiar que tenho algumas coisas boas, que identifico e tento transmitir, tentando multiplicar as situações que o permitam; em reconhecer que tenho diversos e graves defeitos, cujo impacto menorizo quando posso; e, sobretudo, em esperar que a nossa relação viva e cresça, com bens e males, capaz de cuidar de si mesma, de constituir um rumo e um ritmo próprios, de acreditar em si. Isto não é uma receita. Não creio em receitas. É uma maneira de dizer que os filhos são resistentes: na maior parte dos casos, aprendem a superar o mal que lhes possamos fazer. Não é que isto me de-responsabilize. Nos de-responsabilize. É que se não acreditar nisto, mais vale não ter filhos - ou, então, pedir ao senhor Daniel Sampaio que os eduque por mim.
A primeira coisa a fazer, é não ligar aos psicólogos. Sobretudo, em Portugal, a pessoas como o Daniel Sampaio ou o Eduardo Sá. Ou o Pedro Strecht - em suma, aqueles que pontificam um pouco por toda a parte. Não é que nos enganem, coitados: eles não enganam ninguém. Basta ouvi-los durante cinco pacientes minutos para se perceber de imediato que não percebem nada destas coisas, que estão para ali a alinhar os mesmos chavões em que se revelam os perigos de uma teoria sem prática.
O que a prática me tem revelado, a mim que não sou psicólogo, é que não existem pais nem famílias que não sejam neuróticos; mais: que, na maior parte dos casos, quanto mais «politicamente correctos», quanto mais «consciencializados», quanto mais atentos e preocupados em agir by the book, isto é, de acordo com os manuais que ensinam os pais a ser pais, mais neuróticos são. (É preciso ser-se valentemente neurótico para se achar, por exemplo, que é possível viver a paternidade segundo os conselhos do senhor Daniel Sampaio).
Não quero que pensem que tenho a mania, ou que julgo saber do assunto mais do quem quer que seja; não quero que pensem que não cometo erros, nem sequer que penso que os não cometo. Cometo inúmeros. Alguns, incorrigíveis: estão-me na massa, na estrutura, no ADN, no que quiserem. Não tenho teorias, ou melhor, vou tentando compreender o que faço, tirando as minhas lições, procurando melhorar. É possível que esteja deformando e estragando o meu filho, que o esteja traumatizando, que lhe vá criando complexos e vícios vários. (Mas também não me preocupo mais do que a minha análise me convide a fazê-lo, porque verifiquei que a maioria dos «complexos» e dos «vícios» são uma invenção que tem rendido a uma certa psicologia...)
A minha aposta consiste simplesmente em confiar que tenho algumas coisas boas, que identifico e tento transmitir, tentando multiplicar as situações que o permitam; em reconhecer que tenho diversos e graves defeitos, cujo impacto menorizo quando posso; e, sobretudo, em esperar que a nossa relação viva e cresça, com bens e males, capaz de cuidar de si mesma, de constituir um rumo e um ritmo próprios, de acreditar em si. Isto não é uma receita. Não creio em receitas. É uma maneira de dizer que os filhos são resistentes: na maior parte dos casos, aprendem a superar o mal que lhes possamos fazer. Não é que isto me de-responsabilize. Nos de-responsabilize. É que se não acreditar nisto, mais vale não ter filhos - ou, então, pedir ao senhor Daniel Sampaio que os eduque por mim.
segunda-feira, agosto 07, 2006
FALAS DE AZUL
Devo ter induzido pessoas em erro com um velho «post» em que elogiava o hip-hop que se fazia em Portugal: pus uns quantos leitores (não muitos, mas isso porque não tenho muitos leitores) a pensar que eu seria um grande apreciador do género. Na verdade, não sou: tenho o hip-hop por uma música preguiçosa, mais cantada do que falada, e falada, ainda por cima, sempre quase da mesma forma (embora não com o mesmo conteúdo), com tiques e vícios de estilo por todo o lado. No entanto, surpreendiam-me algumas letras - algumas das tais «falas». Pelo arrojo, pelo português seguro que as sustentava, por uma capacidade admirável de tornar poético um quotidiano suburbano, pela, pasmem!, criatividade!
Mesmo em grupos desconhecidos parecia-me detectar essa estranha criatividade, esse inesperado domínio das palavras, essa expressiva familiaridade com o surrealismo.
Havia, por exemplo, nos «Morangos com Açúcar», uma música cujo nome desconheço, cantada ou falada por um desses grupos, que me obrigava a deter-me diante destas palavras:
«Falas de azul/ Esquece azul... etc, etc.»
Era bonito. Não sabíamos bem o que significava, nem o meu filho nem eu, mas gostávamos da estranha magia daquele «azul», e procurávamos interpretá-lo. Para o meu filho, tratava-se de alguém que «falava (vestida) de azul»: «Falas de azul». E, acrescentava ele, «alguém» que esquecia (o quê, que esquecia ela? - qualquer coisa), mas esquecia-se ainda e sempre vestida de azul: «Esqueces (de) azul»... (Admito que esta segunda parte me parece menos plausível, sobretudo porque eu não ouvia «esqueces» mas «esquece», no imperativo. Mas paciência: o meu filho tem onze anos).
Para mim, era antes com a metáfora que havia que se jogar. Alguém falava acerca de azul, porventura de um ideal, ou de amor, ou de um mundo perfeito, ou seja, de tudo aquilo a que aspiramos e que podemos representar sob essa cor que evoca o céu, o mar....! E, ironicamente, o cantor respondia-lhe, «Esquece azul», como quem diz, deixa-te disso, não vale a pena, não te incomodes, eu já não acredito nos teus sonhos nem nas tuas palavras...
As discussões que esta letra desencadeou, o que ela exigiu do nosso poder de argumentação, do nosso espírito, a dialéctica hermenêutica a que nos obrigou.
Tornámos a ouvir a música, numa destas noites, no rádio do carro; ouvimo-la com uma esforçadíssima atenção. Pois bem: não há ali azul nenhum. Nenhum. O que se diz é simplesmente «Falas disso» (soando como: «Falas dissú!»), «Esquece isso!» («Esquece issú!»).
O meu filho e eu rimo-nos do nosso equívoco. Mas pouco. Era um riso levemente amargo.
Ora bolas!
Mesmo em grupos desconhecidos parecia-me detectar essa estranha criatividade, esse inesperado domínio das palavras, essa expressiva familiaridade com o surrealismo.
Havia, por exemplo, nos «Morangos com Açúcar», uma música cujo nome desconheço, cantada ou falada por um desses grupos, que me obrigava a deter-me diante destas palavras:
«Falas de azul/ Esquece azul... etc, etc.»
Era bonito. Não sabíamos bem o que significava, nem o meu filho nem eu, mas gostávamos da estranha magia daquele «azul», e procurávamos interpretá-lo. Para o meu filho, tratava-se de alguém que «falava (vestida) de azul»: «Falas de azul». E, acrescentava ele, «alguém» que esquecia (o quê, que esquecia ela? - qualquer coisa), mas esquecia-se ainda e sempre vestida de azul: «Esqueces (de) azul»... (Admito que esta segunda parte me parece menos plausível, sobretudo porque eu não ouvia «esqueces» mas «esquece», no imperativo. Mas paciência: o meu filho tem onze anos).
Para mim, era antes com a metáfora que havia que se jogar. Alguém falava acerca de azul, porventura de um ideal, ou de amor, ou de um mundo perfeito, ou seja, de tudo aquilo a que aspiramos e que podemos representar sob essa cor que evoca o céu, o mar....! E, ironicamente, o cantor respondia-lhe, «Esquece azul», como quem diz, deixa-te disso, não vale a pena, não te incomodes, eu já não acredito nos teus sonhos nem nas tuas palavras...
As discussões que esta letra desencadeou, o que ela exigiu do nosso poder de argumentação, do nosso espírito, a dialéctica hermenêutica a que nos obrigou.
Tornámos a ouvir a música, numa destas noites, no rádio do carro; ouvimo-la com uma esforçadíssima atenção. Pois bem: não há ali azul nenhum. Nenhum. O que se diz é simplesmente «Falas disso» (soando como: «Falas dissú!»), «Esquece isso!» («Esquece issú!»).
O meu filho e eu rimo-nos do nosso equívoco. Mas pouco. Era um riso levemente amargo.
Ora bolas!
sábado, julho 29, 2006
TUDO O QUE É MAU FAZ BEM
Num livro que tem sido apresentado como «revolucionário», um autor norte-americano - penso eu, mas talvez erre; será, porventura, um preconceito, mas estas «revoluções» parecem-me tipicamente americanas - sustenta que tudo aquilo praticamente que sempre se pensou ser prejudicial aos adolescentes é, afinal, benéfico para o seu desenvolvimento. O excesso de televisão. Os videogames. Os telemóveis. You name it. Nós, até agora, preocupados com os nossos filhos, evitando parvamente que eles se alienassem com os jogos de computador e outros vícios da cultura de massas e, pelo contrário, os jogos e os vícios a despertar-lhes as mentes, rasgando-lhes fronteiras à inteligência, adestrando-os e aperfeiçoando-os...! O tempo que desperdiçámos a mandá-los estudar aos invés de os deixarmos colados ao ecrã, movendo ruidosamente os polegares sobre os botões da consola para disparar rajadas contra as naves invasoras.
Sei que não há, nesse livro, nada de científico. O registo é o da argumentação. E desconfio muito dessa retórica de que se tecem teorias cómodas. Fujo delas como o diabo da cruz: sofro de um leve enjoo quando oiço um psicólogo pedir «tempo de qualidade» por oposição à «quantidade», querendo convencer-me de que os pais geralmente muito ocupados podem ser melhores do que os outros se forem capazes de fazer do quarto de hora em que estão com os filhos um quarto de hora a sério, de «qualidade», cheio de histórias e brincadeira.
Haverá sempre um psicólogo para entoar loas às virtudes do macDonald's, da coca-cola, das pipocas no cinema. Há-de haver um psicólogo pronto a justificar - pior, a tomar como exemplo salutar - o comportamento desses pais negligentes que atafulham as crianças, as mimam em excesso, lhes não negam nada, lhes oferecem jogos em vez de atenção.
Compensa-se a irresponsabilidade dessas teorias com o tom revolucionário e provocatório que elas ostentam, o irresistível cunho de novidade e, sobretudo, o efeito de desculpabilização para consciências atormentadas de alguns pais.
Para muitos, é um óptimo negócio.
Sei que não há, nesse livro, nada de científico. O registo é o da argumentação. E desconfio muito dessa retórica de que se tecem teorias cómodas. Fujo delas como o diabo da cruz: sofro de um leve enjoo quando oiço um psicólogo pedir «tempo de qualidade» por oposição à «quantidade», querendo convencer-me de que os pais geralmente muito ocupados podem ser melhores do que os outros se forem capazes de fazer do quarto de hora em que estão com os filhos um quarto de hora a sério, de «qualidade», cheio de histórias e brincadeira.
Haverá sempre um psicólogo para entoar loas às virtudes do macDonald's, da coca-cola, das pipocas no cinema. Há-de haver um psicólogo pronto a justificar - pior, a tomar como exemplo salutar - o comportamento desses pais negligentes que atafulham as crianças, as mimam em excesso, lhes não negam nada, lhes oferecem jogos em vez de atenção.
Compensa-se a irresponsabilidade dessas teorias com o tom revolucionário e provocatório que elas ostentam, o irresistível cunho de novidade e, sobretudo, o efeito de desculpabilização para consciências atormentadas de alguns pais.
Para muitos, é um óptimo negócio.
sábado, julho 08, 2006
A HISTERIA
Quando perguntei a uma amiga se tinha sofrido muito com o jogo em que, na noite anterior, a França destruira as lusas ilusões, ela respondeu-me: «Na verdade, fiquei aliviada. Temia que viesse aí uma nova vaga de histeria!»
Eu compreendo que este patriotismo de trazer por casa pareça tão mal, se não chocante, a alguns intelectuais. E não emprego o termo depreciativamente: é, obviamente, entre os intelectuais, como o Barroso, o Pulido Valente ou o Pacheco Pereira, que esta onda de bandeiras invandindo varandas e automóveis soa pindérico, estúpido, misturando valores respeitáveis com ludismos de pacotilha.
Do meu ponto de vista, porém, a questão que aqui se põe não é a do patriotismo foleiro, a do patriotismo fácil, a do patriotismo histérico. Não é, de todo, a questão do patriotismo.
Tenho dificuldade em aceitar que, no interior de um país que se despreza há muitos séculos, que talvez tenha nascido já de um desprezo por si mesmo - com a incompreensível interrupção dos Descobrimentos -, no interior de um país que se viu sempre diminuído em face do resto da Europa, a começar pela enorme e potente Espanha com a qual faz fronteira, no interior de um país que foi vivendo, em grande parte, de emigração, lançando pelo mundo porteiras, trabalhadores das obras e varredores, famílias chutadas para bairros degradados, olhadas de cima, desintegradas, sempre a braços com uma língua que não dominavam, que no interior deste país haja quem não entenda a adesão à selecção nacional, a euforia futebolística, como uma espécie de vingança pequenina contra a nossa condição de portugueses e contra um destino rasca que nos cabe. Que não se veja aqui, que diabo, uma questão de - odiosa palavra, perdoem-ma - «auto-estima».
Resolvemos os nossos problemas? Não. Teríamos solucionado algo do nosso fado, mesmo que o Zinedine Zidane não tivesse jogado ou o árbitro não mandasse marcar a porcaria do penalty? Não. Teria alguma coisa essencial mudado se, no fim, vencêssemos a Itália e fossemos os campeões do mundo?
Não. Andaríamos nas nuvens umas semanas, um mês, uns meses e, depois, tudo voltaria fatalmente ao ramerrão português.
Mas, caramba, que mal faz uma interrupção da tristeza? Um breve período de intensidade e comunhão? Um carnaval em que nos unimos, por uma vez positivamente, neste drama de sermos portugueses?
Histeria? Sem dúvida. Mas eu sempre achei que havia qualquer coisa de profundamente saudável na histeria. Doentes, doentes, eram os psiquiatras e os psicólogos que se debruçavam sobre ela.
Eu compreendo que este patriotismo de trazer por casa pareça tão mal, se não chocante, a alguns intelectuais. E não emprego o termo depreciativamente: é, obviamente, entre os intelectuais, como o Barroso, o Pulido Valente ou o Pacheco Pereira, que esta onda de bandeiras invandindo varandas e automóveis soa pindérico, estúpido, misturando valores respeitáveis com ludismos de pacotilha.
Do meu ponto de vista, porém, a questão que aqui se põe não é a do patriotismo foleiro, a do patriotismo fácil, a do patriotismo histérico. Não é, de todo, a questão do patriotismo.
Tenho dificuldade em aceitar que, no interior de um país que se despreza há muitos séculos, que talvez tenha nascido já de um desprezo por si mesmo - com a incompreensível interrupção dos Descobrimentos -, no interior de um país que se viu sempre diminuído em face do resto da Europa, a começar pela enorme e potente Espanha com a qual faz fronteira, no interior de um país que foi vivendo, em grande parte, de emigração, lançando pelo mundo porteiras, trabalhadores das obras e varredores, famílias chutadas para bairros degradados, olhadas de cima, desintegradas, sempre a braços com uma língua que não dominavam, que no interior deste país haja quem não entenda a adesão à selecção nacional, a euforia futebolística, como uma espécie de vingança pequenina contra a nossa condição de portugueses e contra um destino rasca que nos cabe. Que não se veja aqui, que diabo, uma questão de - odiosa palavra, perdoem-ma - «auto-estima».
Resolvemos os nossos problemas? Não. Teríamos solucionado algo do nosso fado, mesmo que o Zinedine Zidane não tivesse jogado ou o árbitro não mandasse marcar a porcaria do penalty? Não. Teria alguma coisa essencial mudado se, no fim, vencêssemos a Itália e fossemos os campeões do mundo?
Não. Andaríamos nas nuvens umas semanas, um mês, uns meses e, depois, tudo voltaria fatalmente ao ramerrão português.
Mas, caramba, que mal faz uma interrupção da tristeza? Um breve período de intensidade e comunhão? Um carnaval em que nos unimos, por uma vez positivamente, neste drama de sermos portugueses?
Histeria? Sem dúvida. Mas eu sempre achei que havia qualquer coisa de profundamente saudável na histeria. Doentes, doentes, eram os psiquiatras e os psicólogos que se debruçavam sobre ela.
quinta-feira, julho 06, 2006
A FRUSTRAÇÃO DOS D'ZRT
Os D'zrt não são propriamente uns garotos. Embora finjam um pouco que sim: por exemplo, um deles, já quase nos seus gastos trinta anos, fazia, nos MORANGOS COM AÇÚCAR, o papel desadequado de um jovem adolescente apaixonado pela professora de Inglês; o outro, o inefável Zé Milho dos mesmos MORANGOS, também deve ter-se atrasado alguns anos na sua qualidade de miúdo, qualidade que não foi capaz de largar a tempo. E portanto, crescidotes como são, suspeito que, ao formarem uma banda, o sonho deles era serem uns tipos irreverentes, parasitando o hip-hop, com um público de jovens um pouco embriagados fazendo gestos obscenos e sacudindo-se a compasso nos seus concertos.
Observo, na televisão, o verdadeiro público dos D'Zrt: meninas de trancinhas e aparelho nos dentes, às cavalitas dos pais, bebés adormecidos no carrinho ou ao colo da mãe, miúdos de chucha, sardentos, alguns rapazolas com albuns de cromos debaixo do braço. E, aí, atenção: nem todos os rapazes! O meu filho olha com alguma indignação para o CD dos D'zrt que lhe ofereceram nos anos. Detesta-os. Tenho nisso algum orgulho, mas pouca influência. Os meninos que, em quase tudo o mais evoluem mais lentamente do que as meninas, nisto, parecem muito mais lúcidos. Os colegas do Duarte deformam-lhes as letras das músicas, ridicularizando-as divertida e gostosamente. Chego a ter pena do Topé e do Zé Milho!
Não acredito que o sonho dos D'zrt fosse esta multidão de crianças a pedirem-lhes autógrafos, com a caneta numa mão e a Barbie na outra.
Observo, na televisão, o verdadeiro público dos D'Zrt: meninas de trancinhas e aparelho nos dentes, às cavalitas dos pais, bebés adormecidos no carrinho ou ao colo da mãe, miúdos de chucha, sardentos, alguns rapazolas com albuns de cromos debaixo do braço. E, aí, atenção: nem todos os rapazes! O meu filho olha com alguma indignação para o CD dos D'zrt que lhe ofereceram nos anos. Detesta-os. Tenho nisso algum orgulho, mas pouca influência. Os meninos que, em quase tudo o mais evoluem mais lentamente do que as meninas, nisto, parecem muito mais lúcidos. Os colegas do Duarte deformam-lhes as letras das músicas, ridicularizando-as divertida e gostosamente. Chego a ter pena do Topé e do Zé Milho!
Não acredito que o sonho dos D'zrt fosse esta multidão de crianças a pedirem-lhes autógrafos, com a caneta numa mão e a Barbie na outra.
terça-feira, junho 13, 2006
A SAÍDA
Hans não conseguia deixar de olhar pela janela.
Passara os últimos dias olhando fixamente, cheio de fé, de uma fé irrealista que o tornava inapto para as tarefas da casa.
Os outros irritavam-se. Ada, sobretudo, enervava-se muito com a sua atitude:
- Tu não podes esperar que sejamos nós a fazer tudo. É injusto. Estamos juntos nesta situação, precisamos uns dos outros, precisamos de todos.
Clark, que, tacitamente, era visto pelo grupo como o líder, procurava acalmá-la:
- Ele está mal, Ada. Dá-lhe tempo. Deixa-o recompor-se. Foi o que sofreu mais de todos nós. Perdeu os pais, os filhos...
Ada chorava. Não de pena, mas de raiva, de uma raiva mesquinha contra Hans, e do orgulho ferido por Clark, que ela continuava amando secretamente.
- Quanto tempo lhe queres dar, Clark?
- Dá-lhe tempo, Ada, dá-lhe algum tempo. É só do que ele precisa...
Hans via claramente que, no exterior, tudo se recompunha. Não o dizia a ninguém. Mantinha segredo. Os outros ainda lhe agradeceriam, quando ele anunciasse: «Podemos sair, o mundo renasceu lá fora!»
Hans percebia perfeitamente que o cinzento começara a dar lentamente lugar a cores, que algumas flores brotavam do chão; pensava, comovido: «Há flores prontas a regressar à menor oportunidade, mesmo num mundo estragado. E que força! A força com que rompem o alcatrão, com que fendem as estradas...»
Um dia, Hans gritou.
Os outros aproximaram-se, a medo.
Mas o jovem ria-se. Apontava com o dedo pela janela. O mundo regenerara. Por completo. Estava pronto a recebê-los, reanimado, animado da sua eterna pujança.
- Que achas? -, perguntou Lake.
- Acho que ele enlouqueceu -, respondeu Ada.
- Também acho, infelizmente -, confirmou Clark. - A sua fé criou uma espécie de alucinação que, sob efeito das recordações, o faz ver o mundo lá fora como era antes.
- Ele quer sair. Podemos prendê-lo? -, interrogava-se Eva.
- Temos de o convencer -, experimentava Clark.
- Convencê-lo? -, troçava Ada. - Como se convence um louco?
- Temos de admitir outra hipótese -, arriscou Lap. Corou muito perante o silêncio atento que se fez em torno das suas palavras. Depois, nervosamente, com excesso de gestos, prosseguiu. - Temos de admitir a hipótese de que ele tenha razão. De que ele esteja a ver as coisas como elas de facto são, e nós não.
- Todos nós enganados? Loucos? E ele a percepcionar adequadamente? Mas porquê?
- Bem, o facto de ele ter passado tanto tempo à janela pode tê-lo tornado mais sensível para pequenas variações que nos escapam. Estamos demasiado habituados a esta falsa luz, que não sabemos até que ponto altera a nossa visão.
- Lap tem razão.
- Vais deixá-lo sair? A porta terá de se fechar imediatamente. E uma vez fechada, não a conseguiremos abrir senão ao fim de uma hora. E se nada mudou, como resistirá ele lá fora, sob a nuvem tóxica, durante uma hora? Queres usá-lo como cobaia, é isso?
Discutiram durante muito tempo. Com Hans e sem Hans. Para este, não havia dúvidas. Espantava-se de que não vissem tão claramente como ele o mundo renascido, mas o certo é que esse mundo o esperava. Não havia hesitação. Da sua parte, não havia a menor hesitação. E parecia lúcido: argumentava inteligentemente, um pouco excitado mas sem qualquer vestígio de delírio.
Estava à porta. Olhou para os seus companheiros um por um.
Tinha a certeza. Estava seguro. Sabia o que eles pensavam, lia-o nos rostos tensos, dramáticos. «E se o Hans não volta? E se o Hans morre?»
Uma vez saindo, não havia volta. A porta teria de ser imediatamente fechada nas suas costas, e não poderiam abri-la senão ao fim de uma hora. Se não tivesse razão, ao fim de uma hora iriam recolher o seu cadáver.
Tremeu. Não chegou a ser hesitação. Nem frio. Fora uma tremura nervosa.
A porta abriu-se. Hans saiu. A porta fechou-se nas suas costas.
Passara os últimos dias olhando fixamente, cheio de fé, de uma fé irrealista que o tornava inapto para as tarefas da casa.
Os outros irritavam-se. Ada, sobretudo, enervava-se muito com a sua atitude:
- Tu não podes esperar que sejamos nós a fazer tudo. É injusto. Estamos juntos nesta situação, precisamos uns dos outros, precisamos de todos.
Clark, que, tacitamente, era visto pelo grupo como o líder, procurava acalmá-la:
- Ele está mal, Ada. Dá-lhe tempo. Deixa-o recompor-se. Foi o que sofreu mais de todos nós. Perdeu os pais, os filhos...
Ada chorava. Não de pena, mas de raiva, de uma raiva mesquinha contra Hans, e do orgulho ferido por Clark, que ela continuava amando secretamente.
- Quanto tempo lhe queres dar, Clark?
- Dá-lhe tempo, Ada, dá-lhe algum tempo. É só do que ele precisa...
Hans via claramente que, no exterior, tudo se recompunha. Não o dizia a ninguém. Mantinha segredo. Os outros ainda lhe agradeceriam, quando ele anunciasse: «Podemos sair, o mundo renasceu lá fora!»
Hans percebia perfeitamente que o cinzento começara a dar lentamente lugar a cores, que algumas flores brotavam do chão; pensava, comovido: «Há flores prontas a regressar à menor oportunidade, mesmo num mundo estragado. E que força! A força com que rompem o alcatrão, com que fendem as estradas...»
Um dia, Hans gritou.
Os outros aproximaram-se, a medo.
Mas o jovem ria-se. Apontava com o dedo pela janela. O mundo regenerara. Por completo. Estava pronto a recebê-los, reanimado, animado da sua eterna pujança.
- Que achas? -, perguntou Lake.
- Acho que ele enlouqueceu -, respondeu Ada.
- Também acho, infelizmente -, confirmou Clark. - A sua fé criou uma espécie de alucinação que, sob efeito das recordações, o faz ver o mundo lá fora como era antes.
- Ele quer sair. Podemos prendê-lo? -, interrogava-se Eva.
- Temos de o convencer -, experimentava Clark.
- Convencê-lo? -, troçava Ada. - Como se convence um louco?
- Temos de admitir outra hipótese -, arriscou Lap. Corou muito perante o silêncio atento que se fez em torno das suas palavras. Depois, nervosamente, com excesso de gestos, prosseguiu. - Temos de admitir a hipótese de que ele tenha razão. De que ele esteja a ver as coisas como elas de facto são, e nós não.
- Todos nós enganados? Loucos? E ele a percepcionar adequadamente? Mas porquê?
- Bem, o facto de ele ter passado tanto tempo à janela pode tê-lo tornado mais sensível para pequenas variações que nos escapam. Estamos demasiado habituados a esta falsa luz, que não sabemos até que ponto altera a nossa visão.
- Lap tem razão.
- Vais deixá-lo sair? A porta terá de se fechar imediatamente. E uma vez fechada, não a conseguiremos abrir senão ao fim de uma hora. E se nada mudou, como resistirá ele lá fora, sob a nuvem tóxica, durante uma hora? Queres usá-lo como cobaia, é isso?
Discutiram durante muito tempo. Com Hans e sem Hans. Para este, não havia dúvidas. Espantava-se de que não vissem tão claramente como ele o mundo renascido, mas o certo é que esse mundo o esperava. Não havia hesitação. Da sua parte, não havia a menor hesitação. E parecia lúcido: argumentava inteligentemente, um pouco excitado mas sem qualquer vestígio de delírio.
Estava à porta. Olhou para os seus companheiros um por um.
Tinha a certeza. Estava seguro. Sabia o que eles pensavam, lia-o nos rostos tensos, dramáticos. «E se o Hans não volta? E se o Hans morre?»
Uma vez saindo, não havia volta. A porta teria de ser imediatamente fechada nas suas costas, e não poderiam abri-la senão ao fim de uma hora. Se não tivesse razão, ao fim de uma hora iriam recolher o seu cadáver.
Tremeu. Não chegou a ser hesitação. Nem frio. Fora uma tremura nervosa.
A porta abriu-se. Hans saiu. A porta fechou-se nas suas costas.
terça-feira, junho 06, 2006
INCONSCIENTE E MÁ-FÉ
Sartre nunca gostou muito de Freud. À ideia de «inconsciente», respondia com a noção de uma consciência sem zonas obscuras. Não, argumentava ele, o sujeito é pura consciência, uma consciência total e completa, sem estrutura nem qualquer mecanismo ou forma «a priori»; é, afinal, um nada - aquele nada no sentido sartreano (néant), que a língua portuguesa nunca conseguiu traduzir satisfatoriamente.
Mas - perguntava-se-lhe -, se o sujeito é consciência, como pode ignorar tanto de si, dos seus impulsos mais recônditos, como pode haver actos que não é capaz de explicar, cujas razões desconhece ou deturpa?
Ah!, dizia ele, isso é por causa da má-fé.
A má-fé ganhou, com Sartre, foros de conceito filosófico. Tratava-se de pensar uma espécie de truque da consciência, uma capacidade de se enganar a si própria, sem realmente se enganar uma vez que, em última análise, não podia deixar de perceber o jogo com que se mascarava de si para si.
O sujeito conhece os seus impulsos, as suas intenções, as suas motivações: nada lhe é verdadeiramente inconsciente. Mas, eis o segredo, pode actuar como se não soubesse, ou como se não tivesse a certeza, ou como se aceitasse outra explicação ou outra hipótese, levando esse «como se», por vezes, ao extremo ponto de, não acreditando, quase acreditar ou, por momentos, acreditar de facto na sua ignorância.
O exemplo mais conhecido desta atitude da consciência, é-nos oferecido pelo próprio Sartre: a jovem que conversa, à mesa de um café ou de um restaurante, com alguém que intenta seduzi-la. O homem, num determinado momento, pousa a sua mão sobre a mão dela. E ela, que poderia retirar imediatamente a sua, chocada, ou recuar de algum modo, pelo contrário deixa-a estar abandonada sob o suave toque, o peso daqueles dedos, continuando porém a falar acerca de filosofia, ou de religião, ou de temas excelsos, como se não tivesse notado, ou como se não tivesse compreendido, ou não desse nenhuma significação especial ao gesto, ou como se acreditasse na inocência deste...! Como se o tema e a conversa o impregnassem de leveza, de inocência, o esvaziassem de toda a intenção amorosa e de toda a sensualidade.
Há muitos anos, um amigo meu, casado e bom rapaz, tinha sido convidado por uma colega, com quem, obviamente se dava muito bem, para jantar em casa dela. A sós. O pretexto era que se tratava de uma casa nova, para onde ela mudara recentemente e que lhe queria mostrar.
Quando hoje ele se lembra desta situação, tenta sempre acreditar que aceitou inocentemente, sem ler nada nas entrelinhas e achando normal que uma colega, uma quase-amiga, com quem se dava muito bem, o convidasse para jantar em casa dela. Tenta acreditar que era possível, e lhe foi possível, não achar estranho, nem ler no convite para jantar nenhum segundo convite.
Respondemos-lhe: «Não é possível tamanha inocência!»
Do ponto de vista de Sartre, toda a inocência é uma forma de má-fé.
Não garanto que isto supere Freud, que explique os actos mais ou melhor do que o inconsciente explicaria.
Não sei se, aliás, o «inconsciente» e a «má-fé» são contraditórios e, como tal, se excluem mutuamente.
Ambos me parecem fazer todo o sentido.
Mas - perguntava-se-lhe -, se o sujeito é consciência, como pode ignorar tanto de si, dos seus impulsos mais recônditos, como pode haver actos que não é capaz de explicar, cujas razões desconhece ou deturpa?
Ah!, dizia ele, isso é por causa da má-fé.
A má-fé ganhou, com Sartre, foros de conceito filosófico. Tratava-se de pensar uma espécie de truque da consciência, uma capacidade de se enganar a si própria, sem realmente se enganar uma vez que, em última análise, não podia deixar de perceber o jogo com que se mascarava de si para si.
O sujeito conhece os seus impulsos, as suas intenções, as suas motivações: nada lhe é verdadeiramente inconsciente. Mas, eis o segredo, pode actuar como se não soubesse, ou como se não tivesse a certeza, ou como se aceitasse outra explicação ou outra hipótese, levando esse «como se», por vezes, ao extremo ponto de, não acreditando, quase acreditar ou, por momentos, acreditar de facto na sua ignorância.
O exemplo mais conhecido desta atitude da consciência, é-nos oferecido pelo próprio Sartre: a jovem que conversa, à mesa de um café ou de um restaurante, com alguém que intenta seduzi-la. O homem, num determinado momento, pousa a sua mão sobre a mão dela. E ela, que poderia retirar imediatamente a sua, chocada, ou recuar de algum modo, pelo contrário deixa-a estar abandonada sob o suave toque, o peso daqueles dedos, continuando porém a falar acerca de filosofia, ou de religião, ou de temas excelsos, como se não tivesse notado, ou como se não tivesse compreendido, ou não desse nenhuma significação especial ao gesto, ou como se acreditasse na inocência deste...! Como se o tema e a conversa o impregnassem de leveza, de inocência, o esvaziassem de toda a intenção amorosa e de toda a sensualidade.
Há muitos anos, um amigo meu, casado e bom rapaz, tinha sido convidado por uma colega, com quem, obviamente se dava muito bem, para jantar em casa dela. A sós. O pretexto era que se tratava de uma casa nova, para onde ela mudara recentemente e que lhe queria mostrar.
Quando hoje ele se lembra desta situação, tenta sempre acreditar que aceitou inocentemente, sem ler nada nas entrelinhas e achando normal que uma colega, uma quase-amiga, com quem se dava muito bem, o convidasse para jantar em casa dela. Tenta acreditar que era possível, e lhe foi possível, não achar estranho, nem ler no convite para jantar nenhum segundo convite.
Respondemos-lhe: «Não é possível tamanha inocência!»
Do ponto de vista de Sartre, toda a inocência é uma forma de má-fé.
Não garanto que isto supere Freud, que explique os actos mais ou melhor do que o inconsciente explicaria.
Não sei se, aliás, o «inconsciente» e a «má-fé» são contraditórios e, como tal, se excluem mutuamente.
Ambos me parecem fazer todo o sentido.
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