Disse-me, um dia, o Juiz. [Mas quem é o «Juiz», perguntar-se-ão os meus raros leitores]:
«Considero de uma enorme arrogância oferecer-se livros. A mim, não me ofereçam livros!»
Suponho que, para o Juiz, não será certamente arrogância menor aconselhar-se livros.
Mas porque uma amiga e leitora assídua mo pediu, porque não existe qualquer hipótese de que o Juiz esteja entre os leitores deste blogue, porque tenho feito algumas descobertas que gostaria de partilhar, atrevo-me a este gesto pretensioso, embora, na verdade, sem a mínima pretensão.
Duas descobertas que tinha porventura a obrigação de haver feito há muitos séculos, mas que acabei de fazer, são Flannery O'Connor e Dino Buzzati.
Não há que misturá-los. Tudo os separa: o tempo, o país, o género, as referências, as preocupações. Mas se algo os une - o talento -, esse é suficientemente forte para que me refira simultaneamente a ambos.
Há outro factor. Nos dois, comecei - por mero acaso - pelos contos. Os de O'Connor, reunidos no magnífico «Um Bom Homem é Difícil de Encontrar», primam por um estilo delicioso, poético, encantatório na descrição de vidas numa América sulista e rural, onde, a cada passo, surgem os negros, os brancos pobres, as pequeníssimas proprietárias, o vendedor de bíblias, os garotos malandros, que ninguém aceita nem quer - nem mesmo os bons cristãos...! O confronto, e é sempre de de confrontos que se trata, é escalpelizado de uma forma inesperada e, sobretudo, com constantes mudanças de ângulo: ora vemos as coisas do ponto de vista desta personagem, ora de outra; todos têm razão, nenhuma tem razão - todas são compreensíveis nas sua mesquinhez ou crueldade, todas são justificáveis na sua maldade. Mesmo o mais terrível dos assassinos, que mata friamente, aparentemente sem razão.
Buzzati, por outro lado, é autor dos contos reunidos em «Pânico no Scala», onde uma dimensão de estranheza, roçando o surrealismo, está sempre presente, à espreita, abrindo insuspeitadas possibilidades em cada conto, fazendo-nos sorrir amargamente. Reencontro esta mesma atmosfera quase fantástica, sem, no entanto, se perder um esteio permanentemente realista, no seu romance que, entretanto, já comecei a ler, «O Deserto dos Tártaros»...
Para quem pensa que os «clássicos» são, essencialmente, aquelas obras de que nunca se tem a coragem de dizer: «Estou a lê-la», mas, sempre: «Estou a relê-la», é tempo de «reler», rapidamente, Gogol. Na verdade, estou a ler pela primeira vez (confesso) o seu «Contos de São Petersburgo». (Mas que tendência para os contos, observo agora). Que, aliás - para dizer realmente toda a verdade -, comprei, antes de mais, porque se tratava de uma edição de bolso, que me custou menos de sete euros. Posto isto, todos os contos são de facto maravilhosos, mas eu começaria (e comecei) por «O Nariz», verdadeira obra-prima de humor macabro, tortuoso, retorcido que, ao mesmo tempo, nos dá uma riquíssima imagem da Rússia do Século XIX e, mais concretamente, de São Petersburgo. Também o primeiro conto - «Avenida Névski» - é de um virtuosismo estilístico delirante: principia-se por nos descrever a avenida, com as suas lojas e as suas populações habituais, consoante as horas, dispersando-se cinematograficamente até ao momento em que segue uma personagem e o desenvolvimento da sua história...
quinta-feira, novembro 15, 2007
sábado, novembro 10, 2007
UM DIA COM O «DENNIS THE MENACE» NO FEMININO
Oh, como odeio estes sábados em que a minha mulher trabalha, o meu filho se refugia na casa da avó, onde lhe crava revistas, bugigangas, pizzas e coca-cola para o almoço, e eu tenho de passar um dia que não tem com certeza menos do que vinte e seis horas, a sós com um adversário curiácio, um bandido que me persegue, um ser de outro planeta que me investiga minuciosamente: a minha filha de dois anos e poucos meses, que continua sem dizer uma única frase completa!
Esqueçam o duelo Sócrates/Santana.
O duelo mais tremendo dos últimos anos, é este, em que, aliás, não tenho qualquer hipótese: Papá/Daisy. Ela é o «desperado», eu sou o «desesperado»!
A sessão do almoço, sobretudo, é de antologia. Começamos bem. Eu cantarolo, enquanto lhe aqueço a sopinha, o pratinho com franguinho e massinha e, sim, nessa fase ainda acrescento um «inho» a todas as palavras. (Mais tarde, os palavrões que grito já não levarão qualquer «inho»!). A tipa observa, entre curiosa e maquiavélica, com os olhinhos castanhos a brilhar dos planos tortuosos que me esmagarão. Está encarrapitada numa cadeira elevadíssima, uma torre eiffel cheia de cintos de segurança. Sorrio-me. Coitadinha: «És tão linda!»
A primeira escaramuça, mal chega para a aquecer. Quer comer por sua mão. Sei o que isso vai significar. Oh, oh! Mas cedo imediatamente. «Leva lá a colherinha, toma lá o pratinho do ursinho».
Enfia uma colherada de sopa na boca. E zás. Acto contínuo, lança a colher ao chão. O meu sorriso é já amarelo. A voz com que a admoesto é ainda simpática, mas um ouvinte atento e perspicaz descobriria, sem dúvida, uma tremura nervosa que não augura nada de bom. Lavo a colher. Devolvo-a. Mais uma colherada. Zás. Lança novamente a colher ao chão. «Pára com isso, Margarida!» Baixo-me para apanhar a colher. Nem de propósito: é o tempo de que Margarida precisa para cuspir a sopitanga sem que eu possa intervir. Quando me aproximo, estendendo-lhe atrasada e ridiculamente a colher, percebo que fui ultrapassado: ei-la com o babete nojento, o queixo e o ombro cheios do que me parecera uma sopinha mas, agora, já não me parece senão uma pasta viscosa e alaranjada. Limpo-a. Com movimentos bruscos. Irritados. Margarida não quer mais. Eu insisto. «Uma pela avó!» - Enfia a cabeçorra entre os braços, para que eu tenha a certeza de que não há a mais pequena possibilidade de a manipular. Endireito-a à força. Pega no prato, atira-o ao chão. Berro asneiras. Os vizinhos fazem um silêncio absoluto. Margarida olha-me, com os olhos a exprimir, inequivocamente: «Boa! Estou a gostar. Qual vai ser a próxima diversão, tens mais ideias?» (Como ela, mesmo sem palavras, fala tão clara e sofisticadamente com os olhos).
Passa-me pela cabeça que toda esta agitação se deva ao cansaço da menina. Pego nela. Levo-a para a sua caminha. Vou acalmando, enquanto subo a escada. Já me imagino a ver televisão, o som muito baixo para não a acordar, os pés, em peúgas, fatigada mas confortavelmente estendidos sobre uma cadeira, cadernos do Expresso espalhados pelo chão...!
Margarida não dorme. Cansada?! Isso sim! Deito-me numa cama ao lado, esperando que perceba o que tem de fazer. Nada. Bate com os pés no gradeamento da sua caminha. Puxa pelo cordel que põe um urso a tocar uma musicata enervante. Ergue-se, olhando para mim no escuro, o branco dos olhos iluminando o quarto, as mãos apoiadas às grades. Choraminga. Decido não lhe ligar. Perigo! Margarida tenta trepar, sozinha, pelo gradeamento da cama, está já com uma das pernas quase inteiramente do outro lado. Precipito-me.
Em desespero de causa, tomo decisões: Vamos passear! Vamos à Bulhosa. Tomo um café, ofereço-me uma prenda que me anime, o livro que a minha amiga Lara Croft me recomendou. Caramba, preciso desta compensação. Recomeço a sentir-me feliz. Que poderá a miuda fazer, destruir a livraria? Eheheh! Estou eufórico. (Não é normal. Consultar o psiquiatra?!)
Coloco-a na cadeirinha do carro. Amarro-a à vida. Arrancamos.
Margarida adormece dois quarteirões depois.
Regresso a casa. Bolas!
Esqueçam o duelo Sócrates/Santana.
O duelo mais tremendo dos últimos anos, é este, em que, aliás, não tenho qualquer hipótese: Papá/Daisy. Ela é o «desperado», eu sou o «desesperado»!
A sessão do almoço, sobretudo, é de antologia. Começamos bem. Eu cantarolo, enquanto lhe aqueço a sopinha, o pratinho com franguinho e massinha e, sim, nessa fase ainda acrescento um «inho» a todas as palavras. (Mais tarde, os palavrões que grito já não levarão qualquer «inho»!). A tipa observa, entre curiosa e maquiavélica, com os olhinhos castanhos a brilhar dos planos tortuosos que me esmagarão. Está encarrapitada numa cadeira elevadíssima, uma torre eiffel cheia de cintos de segurança. Sorrio-me. Coitadinha: «És tão linda!»
A primeira escaramuça, mal chega para a aquecer. Quer comer por sua mão. Sei o que isso vai significar. Oh, oh! Mas cedo imediatamente. «Leva lá a colherinha, toma lá o pratinho do ursinho».
Enfia uma colherada de sopa na boca. E zás. Acto contínuo, lança a colher ao chão. O meu sorriso é já amarelo. A voz com que a admoesto é ainda simpática, mas um ouvinte atento e perspicaz descobriria, sem dúvida, uma tremura nervosa que não augura nada de bom. Lavo a colher. Devolvo-a. Mais uma colherada. Zás. Lança novamente a colher ao chão. «Pára com isso, Margarida!» Baixo-me para apanhar a colher. Nem de propósito: é o tempo de que Margarida precisa para cuspir a sopitanga sem que eu possa intervir. Quando me aproximo, estendendo-lhe atrasada e ridiculamente a colher, percebo que fui ultrapassado: ei-la com o babete nojento, o queixo e o ombro cheios do que me parecera uma sopinha mas, agora, já não me parece senão uma pasta viscosa e alaranjada. Limpo-a. Com movimentos bruscos. Irritados. Margarida não quer mais. Eu insisto. «Uma pela avó!» - Enfia a cabeçorra entre os braços, para que eu tenha a certeza de que não há a mais pequena possibilidade de a manipular. Endireito-a à força. Pega no prato, atira-o ao chão. Berro asneiras. Os vizinhos fazem um silêncio absoluto. Margarida olha-me, com os olhos a exprimir, inequivocamente: «Boa! Estou a gostar. Qual vai ser a próxima diversão, tens mais ideias?» (Como ela, mesmo sem palavras, fala tão clara e sofisticadamente com os olhos).
Passa-me pela cabeça que toda esta agitação se deva ao cansaço da menina. Pego nela. Levo-a para a sua caminha. Vou acalmando, enquanto subo a escada. Já me imagino a ver televisão, o som muito baixo para não a acordar, os pés, em peúgas, fatigada mas confortavelmente estendidos sobre uma cadeira, cadernos do Expresso espalhados pelo chão...!
Margarida não dorme. Cansada?! Isso sim! Deito-me numa cama ao lado, esperando que perceba o que tem de fazer. Nada. Bate com os pés no gradeamento da sua caminha. Puxa pelo cordel que põe um urso a tocar uma musicata enervante. Ergue-se, olhando para mim no escuro, o branco dos olhos iluminando o quarto, as mãos apoiadas às grades. Choraminga. Decido não lhe ligar. Perigo! Margarida tenta trepar, sozinha, pelo gradeamento da cama, está já com uma das pernas quase inteiramente do outro lado. Precipito-me.
Em desespero de causa, tomo decisões: Vamos passear! Vamos à Bulhosa. Tomo um café, ofereço-me uma prenda que me anime, o livro que a minha amiga Lara Croft me recomendou. Caramba, preciso desta compensação. Recomeço a sentir-me feliz. Que poderá a miuda fazer, destruir a livraria? Eheheh! Estou eufórico. (Não é normal. Consultar o psiquiatra?!)
Coloco-a na cadeirinha do carro. Amarro-a à vida. Arrancamos.
Margarida adormece dois quarteirões depois.
Regresso a casa. Bolas!
sexta-feira, novembro 09, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - VI
Saiu do apartamento, preocupada e com alguma vergonha; desceu pela escada; espreitou, no átrio, antes de se aventurar à rua. Correu, por fim, olhando em todas as direcções, meio perdida, seguindo um mapa diferente do habitual, redesenhado em função de possíveis e súbitos esconderijos por onde pudesse desaparecer rapidamente, se necessário.
Contudo, nenhuma das situações previstas e temidas por Hermengarda viria a ocorrer. Dona Luizita e a Vizinha Maria nunca a confrontaram, nunca sequer se referiram àquele seu quase-encontro por paragens tão longínquas. Porquê? Porque esperavam vê-la regressar ao local do crime, aguardando o momento de a apanharem em flagrante (como julgou durante muito tempo, à medida que os dias passavam e ninguém lhe dizia fosse o que fosse)? Ou simplesmente porque, após confereciarem uma com a outra, teriam concluído que fora tudo um erro de Maria, uma, como se diz?, alucinação, pois não poderia realmente tratar-se de Hermangarda (como, mais tarde, aliviada, principiou a acreditar)?
Também nunca soube o que faziam as duas naquele bairro. Nunca o soube.
Tudo retomava a pavorosa forma da normalidade: a sogra entre medicamentos e cafés que enchia de açucar e mexia com uma colherinha de prata, trling, trling, trling, um ar de beatitude no rosto amarelado; Maria enfiando o nariz aguçado por todas as frinchas - «Boa tarde! Olááá! Posso entrar? Estão a comer? Não incomodo, não?».
Pior que tudo: Hermengarda, seu nome, voltou a colar-se-lhe definitivamente à pele, aos ossos, ao corpo, à alma, à vida.
Durante muito, mas muito tempo, não foi capaz de voltar ao apartamento.
Um dia, voltou. Havia pequenas mudanças na rua, no bairro, que a incomodaram. Coisas indefiníveis.
Chegou a subir - mas desceu imediatamente, claro, quando viu, à porta, um senhor de juba grisalha e uns óculos de aros muito finos. O pintor!
Não reencontrou a solidão.
«Tens sempre de acabar tão mal? Que melancolia!», sopram-me sobre o ombro, acompanhando este fim.
De vez em quando, recorda-se da sua amante. Recorda-se que, por pouco tempo, poucas vezes, a solidão foi sua. A saudade dói. Mas é diferente do que seria se não a tivesse tido nunca.
Mais: quando recorda os seus bons momentos, a sua solidão, a sua amante, dá-lhe, agora, um rosto. Uns olhos curiosos, vagamente trocistas. Um ar sábio, de alguém que tivesse visto e compreendido um segredo.
Sonha com ela, até.
É um amor perdido. Platónico.
É muito pouco. É bom.
FIM
Contudo, nenhuma das situações previstas e temidas por Hermengarda viria a ocorrer. Dona Luizita e a Vizinha Maria nunca a confrontaram, nunca sequer se referiram àquele seu quase-encontro por paragens tão longínquas. Porquê? Porque esperavam vê-la regressar ao local do crime, aguardando o momento de a apanharem em flagrante (como julgou durante muito tempo, à medida que os dias passavam e ninguém lhe dizia fosse o que fosse)? Ou simplesmente porque, após confereciarem uma com a outra, teriam concluído que fora tudo um erro de Maria, uma, como se diz?, alucinação, pois não poderia realmente tratar-se de Hermangarda (como, mais tarde, aliviada, principiou a acreditar)?
Também nunca soube o que faziam as duas naquele bairro. Nunca o soube.
Tudo retomava a pavorosa forma da normalidade: a sogra entre medicamentos e cafés que enchia de açucar e mexia com uma colherinha de prata, trling, trling, trling, um ar de beatitude no rosto amarelado; Maria enfiando o nariz aguçado por todas as frinchas - «Boa tarde! Olááá! Posso entrar? Estão a comer? Não incomodo, não?».
Pior que tudo: Hermengarda, seu nome, voltou a colar-se-lhe definitivamente à pele, aos ossos, ao corpo, à alma, à vida.
Durante muito, mas muito tempo, não foi capaz de voltar ao apartamento.
Um dia, voltou. Havia pequenas mudanças na rua, no bairro, que a incomodaram. Coisas indefiníveis.
Chegou a subir - mas desceu imediatamente, claro, quando viu, à porta, um senhor de juba grisalha e uns óculos de aros muito finos. O pintor!
Não reencontrou a solidão.
«Tens sempre de acabar tão mal? Que melancolia!», sopram-me sobre o ombro, acompanhando este fim.
De vez em quando, recorda-se da sua amante. Recorda-se que, por pouco tempo, poucas vezes, a solidão foi sua. A saudade dói. Mas é diferente do que seria se não a tivesse tido nunca.
Mais: quando recorda os seus bons momentos, a sua solidão, a sua amante, dá-lhe, agora, um rosto. Uns olhos curiosos, vagamente trocistas. Um ar sábio, de alguém que tivesse visto e compreendido um segredo.
Sonha com ela, até.
É um amor perdido. Platónico.
É muito pouco. É bom.
FIM
quinta-feira, novembro 08, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - V
Teve de se segurar, numa vertigem, numa náusea, num pavor, numa aflição - sensações e sentimentos inomináveis, por muito que eu multiplique palavras em busca da mais exacta.
Naquele pouco tempo, não teria sido possível, a Maria, telefonar - digamos - para Dona Luizita, prevenindo-a de que acabara de ver a sua nora, de modo que, logo a seguir, a senhora apanhasse um transporte para se materializar quase imediatamente ali. Não: a explicação tinha de ser outra. Talvez viessem juntas, mas onde iam? Ao médico? Que raio de coincidência! A não ser... a não ser... a não ser... que a seguissem há mais tempo...? Que as suas ausências - breves e espaçadas - as pusessem de sobreaviso? Pensariam, então, mas como pensar diferentemente numa situação tão suspeita?, que Hermengarda tinha um amante. O que era indigno, insultuoso. Não tinha um amante: tinha «uma» amante. Ou uma «amante».
Olhou. Já lá não estavam. Nem uma. Nem outra. Uma visão? Uma, como se chama, como se diz, ai, uma alucinação?!
O seu olhar percorreu as ruas, a seguir foi-se elevando, numa pesquisa confusa. Embateu no prédio em frente. Embateu na janela em frente da janela onde ela se postara. E, aí, descobriu um rosto que a seguia, de uma mulher muito jovem, que sorria, mais para si própria do que para Hermengarda, talvez com curiosidade, mas, sem dúvida, também com uma chama de troça no olhar. Como se tivesse visto tudo, percebido tudo: a sua fuga, o seu medo, como um rato cercado. Como uma presa acossada. E presa.
(CONTINUA)
Naquele pouco tempo, não teria sido possível, a Maria, telefonar - digamos - para Dona Luizita, prevenindo-a de que acabara de ver a sua nora, de modo que, logo a seguir, a senhora apanhasse um transporte para se materializar quase imediatamente ali. Não: a explicação tinha de ser outra. Talvez viessem juntas, mas onde iam? Ao médico? Que raio de coincidência! A não ser... a não ser... a não ser... que a seguissem há mais tempo...? Que as suas ausências - breves e espaçadas - as pusessem de sobreaviso? Pensariam, então, mas como pensar diferentemente numa situação tão suspeita?, que Hermengarda tinha um amante. O que era indigno, insultuoso. Não tinha um amante: tinha «uma» amante. Ou uma «amante».
Olhou. Já lá não estavam. Nem uma. Nem outra. Uma visão? Uma, como se chama, como se diz, ai, uma alucinação?!
O seu olhar percorreu as ruas, a seguir foi-se elevando, numa pesquisa confusa. Embateu no prédio em frente. Embateu na janela em frente da janela onde ela se postara. E, aí, descobriu um rosto que a seguia, de uma mulher muito jovem, que sorria, mais para si própria do que para Hermengarda, talvez com curiosidade, mas, sem dúvida, também com uma chama de troça no olhar. Como se tivesse visto tudo, percebido tudo: a sua fuga, o seu medo, como um rato cercado. Como uma presa acossada. E presa.
(CONTINUA)
quarta-feira, novembro 07, 2007
HERMANGARDA E SUA AMANTE - IV
Não estava ninguém lá em baixo. Nenhuma pessoa conhecida. Maria nenhuma.
Hermangarda sabia, todavia, que se não enganara. Inexplicavelmente, num sítio onde nenhuma razão conhecida colocaria a vizinha Maria, o certo é que a vizinha Maria aparecera, e a vira! E a reconhecera...
Claro que Maria não podia estar absolutamente segura de a ter reconhecido. Ou podia? Se ela lhe falasse mais tarde no assunto, o que Hermengarda tinha de fazer era mostrar um espanto convincente:
«Eu?! No bairro tal? Não! Podia lá ser. Eu, a que propósito...?!» (A vizinha Maria não associaria o bairro ao irmão de Hermengarda. Ninguém, nem mesmo a sua sogra, soubera alguma vez onde vivera ele, com quem nunca se tinha dado.)
Sentia-se mal, uma opressão no peito, uma turvação num prazer tão claro, talvez no único autêntico prazer na sua vida. Não conseguiu relaxar. Dava voltas, sentava-se, levantava-se, mas não era capaz de deixar de ser Hermengarda. Tinha, de resto, o grito de Maria ecoando-lhe ainda nos ouvidos. «Hermengaaarda!»
Não quis mais. (E regressaria? Talvez não já para a semana, mas dali a duas ou três semanas...? Poderia voltar a ser ali feliz...? E, entretanto, o legítimo proprietário não acabaria por aparecer...?) Não suportava nem mais um minuto daquela angústia. Ao fim de dez minutos, se tanto, preparou-se para se ir embora. Pegou na mala e espreitou pela janela, oculta, discreta, quieta.
E viu-a. Ou melhor, viu-as. Maria e sua sogra, lá em baixo. Maria apontava o dedo numa vaga direcção.
(CONTINUA)
Hermangarda sabia, todavia, que se não enganara. Inexplicavelmente, num sítio onde nenhuma razão conhecida colocaria a vizinha Maria, o certo é que a vizinha Maria aparecera, e a vira! E a reconhecera...
Claro que Maria não podia estar absolutamente segura de a ter reconhecido. Ou podia? Se ela lhe falasse mais tarde no assunto, o que Hermengarda tinha de fazer era mostrar um espanto convincente:
«Eu?! No bairro tal? Não! Podia lá ser. Eu, a que propósito...?!» (A vizinha Maria não associaria o bairro ao irmão de Hermengarda. Ninguém, nem mesmo a sua sogra, soubera alguma vez onde vivera ele, com quem nunca se tinha dado.)
Sentia-se mal, uma opressão no peito, uma turvação num prazer tão claro, talvez no único autêntico prazer na sua vida. Não conseguiu relaxar. Dava voltas, sentava-se, levantava-se, mas não era capaz de deixar de ser Hermengarda. Tinha, de resto, o grito de Maria ecoando-lhe ainda nos ouvidos. «Hermengaaarda!»
Não quis mais. (E regressaria? Talvez não já para a semana, mas dali a duas ou três semanas...? Poderia voltar a ser ali feliz...? E, entretanto, o legítimo proprietário não acabaria por aparecer...?) Não suportava nem mais um minuto daquela angústia. Ao fim de dez minutos, se tanto, preparou-se para se ir embora. Pegou na mala e espreitou pela janela, oculta, discreta, quieta.
E viu-a. Ou melhor, viu-as. Maria e sua sogra, lá em baixo. Maria apontava o dedo numa vaga direcção.
(CONTINUA)
domingo, novembro 04, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - III
Tornava-se um vício.
Nunca ia mais do que uma vez por semana, encurtando o tempo destinado às compras.
E nunca ficava mais do que uma hora; chegou a levar despertador que a arrancasse ao seu torpor, à sua paz, ao seu namoro consigo, ou melhor, com a sua almejada solidão.
Até ao dia em que, prestes a entrar para o prédio, ouviu chamar por si. Pelo horroroso «Hermengarda!». Não enfrentou o chamamento, mas olhou de soslaio, vagamente, incertamente, a fingir que não, escondendo-se um pouco entre umas colunas. E topou Maria, uma vizinha sua, que a perdera um pouco de vista mas a procurava, certa de que se não enganara. Que raio faria ali Maria? O seu médico seria para aqueles lados? Doente, sempre muito doente, com a respiração fraca, os pulmões enfermiços, o olhar de cão abandonado, eterna pedinte de umas migalhas de afeição, colando-se às pessoas, aparecendo-lhe em casa, como por acaso, sempre que lhe cheirava a algum jantar de amigos, a alguma festita de anos, Maria era uma pessoa de quem a sua sogra gostava muito, e que convidava amiúde, mas para quem Hermengarda não tinha paciência...
Aproveitou o ar desnorteado da mulher, aquele minuto em que ela a perdera de vista e entrou no prédio. Subiu pela escada, como de costume. (Mais discreta, menos passível de encontros indesejáveis do que o elevador...). Abriu a porta do seu reduto, do seu minúsculo antro, acercou-se da janela, meio escondida pelo cortinado velho, com o olhar em busca de Maria, lá em baixo...
(CONTINUA)
Nunca ia mais do que uma vez por semana, encurtando o tempo destinado às compras.
E nunca ficava mais do que uma hora; chegou a levar despertador que a arrancasse ao seu torpor, à sua paz, ao seu namoro consigo, ou melhor, com a sua almejada solidão.
Até ao dia em que, prestes a entrar para o prédio, ouviu chamar por si. Pelo horroroso «Hermengarda!». Não enfrentou o chamamento, mas olhou de soslaio, vagamente, incertamente, a fingir que não, escondendo-se um pouco entre umas colunas. E topou Maria, uma vizinha sua, que a perdera um pouco de vista mas a procurava, certa de que se não enganara. Que raio faria ali Maria? O seu médico seria para aqueles lados? Doente, sempre muito doente, com a respiração fraca, os pulmões enfermiços, o olhar de cão abandonado, eterna pedinte de umas migalhas de afeição, colando-se às pessoas, aparecendo-lhe em casa, como por acaso, sempre que lhe cheirava a algum jantar de amigos, a alguma festita de anos, Maria era uma pessoa de quem a sua sogra gostava muito, e que convidava amiúde, mas para quem Hermengarda não tinha paciência...
Aproveitou o ar desnorteado da mulher, aquele minuto em que ela a perdera de vista e entrou no prédio. Subiu pela escada, como de costume. (Mais discreta, menos passível de encontros indesejáveis do que o elevador...). Abriu a porta do seu reduto, do seu minúsculo antro, acercou-se da janela, meio escondida pelo cortinado velho, com o olhar em busca de Maria, lá em baixo...
(CONTINUA)
sábado, novembro 03, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE II
Ou talvez não, talvez não fosse assim uma ideia tão perversa. Simplesmente entrar, sentar-se e repousar. Mais nada. Uma meia hora sem ouvir Dona Luizita, um tempo esquecendo-se de que se chamava Hermengarda, namorando a sua preciosa e interdita solidão.
Mas não foi nesse dia. Estivera quase, mas não...
Nem no dia seguinte.
Mas no outro, as mãos tremiam-lhe como se perpetrasse o pior dos crimes, ao tentar penetrar com a chave na fechadura. E o coração batia-lhe descompassadamente. E teve, uma vez entrando, de ficar quase um minuto encostada à porta, respirando fundo, para se acalmar. E não se deixou ficar senão um quartito de hora, e sem prazer, sem qualquer prazer naquela espécie de encontro fortuito com nada nem ninguém.
Foi num outro dia, ainda, que se deixou estar uma hora. Uma hora! E se, ao princípio, existia naquele gesto qualquer coisa de uma violação, de uma transgressão que a magoava até aos ossos, como se, mais do que a criminosa, fosse a vítima, aos poucos foi-se abandonando, deixando de estar tão agudamente consciente do lado doentio e malévolo do seu acto, do lado proibido, para se deixar tombar - é a palavra - num esquecimento tépido, como se estivesse numa banheira cheia de água: já nem se chamava Hermengarda, já nem havia uma sogra, já nem ruído lá fora, já nem peso, já nem ser, já nem coisa nenhuma, já nada senão a solidão que se unia a ela, a completava, a transformava...
(CONTINUA)
Mas não foi nesse dia. Estivera quase, mas não...
Nem no dia seguinte.
Mas no outro, as mãos tremiam-lhe como se perpetrasse o pior dos crimes, ao tentar penetrar com a chave na fechadura. E o coração batia-lhe descompassadamente. E teve, uma vez entrando, de ficar quase um minuto encostada à porta, respirando fundo, para se acalmar. E não se deixou ficar senão um quartito de hora, e sem prazer, sem qualquer prazer naquela espécie de encontro fortuito com nada nem ninguém.
Foi num outro dia, ainda, que se deixou estar uma hora. Uma hora! E se, ao princípio, existia naquele gesto qualquer coisa de uma violação, de uma transgressão que a magoava até aos ossos, como se, mais do que a criminosa, fosse a vítima, aos poucos foi-se abandonando, deixando de estar tão agudamente consciente do lado doentio e malévolo do seu acto, do lado proibido, para se deixar tombar - é a palavra - num esquecimento tépido, como se estivesse numa banheira cheia de água: já nem se chamava Hermengarda, já nem havia uma sogra, já nem ruído lá fora, já nem peso, já nem ser, já nem coisa nenhuma, já nada senão a solidão que se unia a ela, a completava, a transformava...
(CONTINUA)
quinta-feira, novembro 01, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - I
Dois erros haviam ocupado, por inteiro, a vida de Hermengarda.
Um, era o seu nome. Não é possível fugir-se a um nome de que se não gosta. Está em todo o lado, suavizado pelas vozes dos que amamos (e não imaginam o mal que nos fazem) ou atirado contra os nossos ouvidos pelas vozes dos outros, ou nas cartas, nos documentos oficiais, nos cheques que assinamos. Mesmo dormindo, mesmo nos sonhos, uma Hermengarda não deixa de ser uma Hermengarda.
O outro, era a sua sogra. Dona Luizita não era idosa - não teria mais do que sessenta e poucos anos -, mas comportava-se como tal, sempre muito queixosa, muito rodeada de medicamentos, muito sem fazer coisa alguma e, sobretudo, muito esperando, e exigindo, que Hermengarda lhe fizesse tudo. Viviam juntos, como um país com excesso de população, sua sogra, seu marido, seu horroroso nome e ela.
Hermengarda tinha um amante. Ou, melhor, «uma» amante. Mas não nos precipitemos. A sua amante era a solidão. E era uma amante, aliás, com quem pouco se cruzava. Em casa, sobretudo, a solidão não era visita frequente, porque Dona Luizita nunca dali despegava, enchendo-se de cafés.
«Isso não lhe faz mal, Dona Luizita?», perguntava-lhe.
Para o que existiam duas respostas possíveis. De resto, contrárias, mas ambas típicas da senhora, ora uma,ora outra, consoante a sua disposição:
a) «Faz. Mas é o meu único consolo, filha. É o prazer que tenho nesta vida...»
b) «Não faz, faz agora! Este café feito em casa não é como as bicas lá fora. Isto não tem nada, é uma água preta...»
Mas um dia, por um bizarro acaso do destino que é a fantasia destravada do autor desta história, calhou a Hermengarda, passando pelo estúdio onde vivera o seu irmão até emigrar, havia cerca de um mês, perceber que esse estúdio, um mero T-zero num bairro-dormitório, ainda não fora ocupado pelo senhor pintor que o comprara. Não teve dúvidas: a desocupação notava-se do exterior; tudo nas janelas, na varanda, cheirava a desabitação; mas chegou a perguntar: «Já mora alguém no 1-L, e tal» e, no cafezito da Dona Tina, entre galões e uma torrada, soube tudo, que o senhor Alfredo começara a transportar as suas telas, os seus pincéis, as tintas, a tralha, mas só dali a um mês faria a mudança definitiva. Pois já captaram, não captaram? Hermengarda trazia, no seu porta-chaves, a chave do apartamentozito, que, na altura em que o seu irmão lá morava, ela mesma se encarregava de limpar uma, duas vezes por semana. De modo que não levou mais do que um instante a tomar conta da sua mente, a mais absurda, perversa, tremenda, imoral das ideias...
(CONTINUA)
Um, era o seu nome. Não é possível fugir-se a um nome de que se não gosta. Está em todo o lado, suavizado pelas vozes dos que amamos (e não imaginam o mal que nos fazem) ou atirado contra os nossos ouvidos pelas vozes dos outros, ou nas cartas, nos documentos oficiais, nos cheques que assinamos. Mesmo dormindo, mesmo nos sonhos, uma Hermengarda não deixa de ser uma Hermengarda.
O outro, era a sua sogra. Dona Luizita não era idosa - não teria mais do que sessenta e poucos anos -, mas comportava-se como tal, sempre muito queixosa, muito rodeada de medicamentos, muito sem fazer coisa alguma e, sobretudo, muito esperando, e exigindo, que Hermengarda lhe fizesse tudo. Viviam juntos, como um país com excesso de população, sua sogra, seu marido, seu horroroso nome e ela.
Hermengarda tinha um amante. Ou, melhor, «uma» amante. Mas não nos precipitemos. A sua amante era a solidão. E era uma amante, aliás, com quem pouco se cruzava. Em casa, sobretudo, a solidão não era visita frequente, porque Dona Luizita nunca dali despegava, enchendo-se de cafés.
«Isso não lhe faz mal, Dona Luizita?», perguntava-lhe.
Para o que existiam duas respostas possíveis. De resto, contrárias, mas ambas típicas da senhora, ora uma,ora outra, consoante a sua disposição:
a) «Faz. Mas é o meu único consolo, filha. É o prazer que tenho nesta vida...»
b) «Não faz, faz agora! Este café feito em casa não é como as bicas lá fora. Isto não tem nada, é uma água preta...»
Mas um dia, por um bizarro acaso do destino que é a fantasia destravada do autor desta história, calhou a Hermengarda, passando pelo estúdio onde vivera o seu irmão até emigrar, havia cerca de um mês, perceber que esse estúdio, um mero T-zero num bairro-dormitório, ainda não fora ocupado pelo senhor pintor que o comprara. Não teve dúvidas: a desocupação notava-se do exterior; tudo nas janelas, na varanda, cheirava a desabitação; mas chegou a perguntar: «Já mora alguém no 1-L, e tal» e, no cafezito da Dona Tina, entre galões e uma torrada, soube tudo, que o senhor Alfredo começara a transportar as suas telas, os seus pincéis, as tintas, a tralha, mas só dali a um mês faria a mudança definitiva. Pois já captaram, não captaram? Hermengarda trazia, no seu porta-chaves, a chave do apartamentozito, que, na altura em que o seu irmão lá morava, ela mesma se encarregava de limpar uma, duas vezes por semana. De modo que não levou mais do que um instante a tomar conta da sua mente, a mais absurda, perversa, tremenda, imoral das ideias...
(CONTINUA)
domingo, outubro 21, 2007
A LOJA DE BRINQUEDOS
Rolindo passara pela loja uma vez em que ia, cheio de pressa, levantar um bolo encomendado a uma pastelaria. Não tivera tempo para se deter nela, na dita loja, mas ficava-lhe na memória para uma visita, com o filho, em breve: ali estava, pois, uma curiosa alternativa aos «Toys "R" Us», às «Brincolândias», às casas brilhantes e chamativas dos centros comerciais, com luzes, lantejoulas e preços incomportáveis.
No fim-de-semana seguinte, pôs o Filipito - que fizera há poucos dias dois anos -, na cadeirinha do seu automóvel, «atado à vida», como lembravam anúncios mal conseguidos, por uma complicadíssima e demoradíssima teia de cintos de segurança, e rumou para a loja.
Era uma loja de brinquedos chamada, num arrojo de imaginação, «Loja de Brinquedos»: pequenina, último exemplar de comércio tradicional, sem luzes nem cores, muito degradada, tristonha, decadente. Poderia ser, se excluíssemos o pormenor do nome, em letras bem visíveis, uma agência funerária.
Filipito recusava-se a entrar. Chorava, agarrou-se às pernas de Rolindo, fazendo-o tropeçar várias vezes, irritando-o. «Anda, Fipo, vais ver que lá dentro é giro!»
Não era. O interior estava mergulhado numa penumbra inaceitável quando, lá fora, havia um sol tão amigo do mundo.
Aproximou-se deles uma figura sinistra, de óculos muito espessos nuns aros de massa, encavalitados sobre um nariz que tinha algo de assustador, não tanto pelas dimensões mas pela própria forma.
Arrastava-se lentamente, com algo de animal pré-histórico, com uma batida regular do sapato disforme sobre o soalho.
Quando viu Filipito, todavia, um sorriso metamorfoseou-lhe o rosto anguloso. Esticou em direcção à cabeça da criança um dedo comprido, torto, com marcas de nicotina.
«Olá-á-á!»
Filipito recomeçou a chorar, pedindo colo ao pai.
Mas como se a entrada de uma criança numa loja para crianças devolvesse um sentido esquecido àquele espaço tétrico, o vendedor abriu duas janelas rangentes, deixando, finalmente, que a luz iluminasse uma série de brinquedos antigos mas em bom estado, soldadinhos, carros, bonecos, ursos, tambores - nada de Action-men, nem mini-computadores, nem personagens de ficção científica auto-falantes.
A criança piscou os olhos. Como se acordasse. Ou como se a casa principiasse a acordar para ela.
Contudo, para o pai, o súbito entusiasmo do homem não deixava de ser alarmante: havia algo de louco, de profundamente nervoso no modo como ele exibia guindastes, como se infantilizava perante os brinquedos, agarrando, neurótico, num tambor ou numa corneta, abandonando-os imediatamente para se interessar por outras coisas, empurrando, aqui, febril, dando corda, ali, tremente, fazendo girar, sempre com inúmeros ruídos...
Filipito, porém, esse deixava-se ir. Saíra do colo do pai, seguia, completamente encantado, como um rato ao som de uma flauta mágica, o rasto dos carrinhos, sentava-se no chão, de pernas cruzadas, punha-se de pé, saltitava.
O homem não descansava. Ergueu então o menino, prendendo-o sob os braços. Colocou-o no interior de um estranho veículo muito vermelho, muito desprotegido, sem cintos que o atassem à vida, com rodas de plástico. Empurrou. Com uma velocidade cada vez maior, desmentindo as suas dificuldades físicas, a sua perna manca, como se quisesse ultrapassar a barreira do som. Filipito não estava menormente assustado. Ria.
O veículo embalou. O homem deixou-o ir. Zzzzzzzzzzzzzzzzzz, vertiginosamente.
O pai não teve tempo de gritar.
O carro embateu estrondosamente numa mesa.
Dando um corpo frágil e um grito aterrorizado ao movimento de inércia, Filipito continuou a sua viagem pelo ar, saindo por uma daquelas janelas que a sinistra figura abrira pouco tempo antes.
Rolindo saiu, correndo, chamando. O filho não lhe respondia. Não ouvira baque, não se ouvira nada senão o grito, cada vez mais longínquo, até se perder.
Até hoje.
Nunca mais soube do seu filho. Ainda hoje o procura, nas imediações da loja. Que, entretanto, fechou.
No fim-de-semana seguinte, pôs o Filipito - que fizera há poucos dias dois anos -, na cadeirinha do seu automóvel, «atado à vida», como lembravam anúncios mal conseguidos, por uma complicadíssima e demoradíssima teia de cintos de segurança, e rumou para a loja.
Era uma loja de brinquedos chamada, num arrojo de imaginação, «Loja de Brinquedos»: pequenina, último exemplar de comércio tradicional, sem luzes nem cores, muito degradada, tristonha, decadente. Poderia ser, se excluíssemos o pormenor do nome, em letras bem visíveis, uma agência funerária.
Filipito recusava-se a entrar. Chorava, agarrou-se às pernas de Rolindo, fazendo-o tropeçar várias vezes, irritando-o. «Anda, Fipo, vais ver que lá dentro é giro!»
Não era. O interior estava mergulhado numa penumbra inaceitável quando, lá fora, havia um sol tão amigo do mundo.
Aproximou-se deles uma figura sinistra, de óculos muito espessos nuns aros de massa, encavalitados sobre um nariz que tinha algo de assustador, não tanto pelas dimensões mas pela própria forma.
Arrastava-se lentamente, com algo de animal pré-histórico, com uma batida regular do sapato disforme sobre o soalho.
Quando viu Filipito, todavia, um sorriso metamorfoseou-lhe o rosto anguloso. Esticou em direcção à cabeça da criança um dedo comprido, torto, com marcas de nicotina.
«Olá-á-á!»
Filipito recomeçou a chorar, pedindo colo ao pai.
Mas como se a entrada de uma criança numa loja para crianças devolvesse um sentido esquecido àquele espaço tétrico, o vendedor abriu duas janelas rangentes, deixando, finalmente, que a luz iluminasse uma série de brinquedos antigos mas em bom estado, soldadinhos, carros, bonecos, ursos, tambores - nada de Action-men, nem mini-computadores, nem personagens de ficção científica auto-falantes.
A criança piscou os olhos. Como se acordasse. Ou como se a casa principiasse a acordar para ela.
Contudo, para o pai, o súbito entusiasmo do homem não deixava de ser alarmante: havia algo de louco, de profundamente nervoso no modo como ele exibia guindastes, como se infantilizava perante os brinquedos, agarrando, neurótico, num tambor ou numa corneta, abandonando-os imediatamente para se interessar por outras coisas, empurrando, aqui, febril, dando corda, ali, tremente, fazendo girar, sempre com inúmeros ruídos...
Filipito, porém, esse deixava-se ir. Saíra do colo do pai, seguia, completamente encantado, como um rato ao som de uma flauta mágica, o rasto dos carrinhos, sentava-se no chão, de pernas cruzadas, punha-se de pé, saltitava.
O homem não descansava. Ergueu então o menino, prendendo-o sob os braços. Colocou-o no interior de um estranho veículo muito vermelho, muito desprotegido, sem cintos que o atassem à vida, com rodas de plástico. Empurrou. Com uma velocidade cada vez maior, desmentindo as suas dificuldades físicas, a sua perna manca, como se quisesse ultrapassar a barreira do som. Filipito não estava menormente assustado. Ria.
O veículo embalou. O homem deixou-o ir. Zzzzzzzzzzzzzzzzzz, vertiginosamente.
O pai não teve tempo de gritar.
O carro embateu estrondosamente numa mesa.
Dando um corpo frágil e um grito aterrorizado ao movimento de inércia, Filipito continuou a sua viagem pelo ar, saindo por uma daquelas janelas que a sinistra figura abrira pouco tempo antes.
Rolindo saiu, correndo, chamando. O filho não lhe respondia. Não ouvira baque, não se ouvira nada senão o grito, cada vez mais longínquo, até se perder.
Até hoje.
Nunca mais soube do seu filho. Ainda hoje o procura, nas imediações da loja. Que, entretanto, fechou.
sexta-feira, outubro 19, 2007
CENAS KAOSTICAS
Uma Biblioteca esfuziante, modernaça: computadores, constantes remessas de novos livros, sala de conferências, exposições. Inclusivamente, um bar que serve almoços ligeiros.
Entro, aderindo de imediato àquela espécie de silêncio religioso. Trago dois ou três livros para devolver. Passo pela primeira mesa. Lembrando-me de que, da última vez que os quisera entregar aí, se tinham zangado comigo e indicado uma segunda mesa, própria, essa sim, para levantamento e/ou devolução de livros, não me detenho. Mas, de caminho, sempre confirmo com a senhora funcionária que nada faz, sentada à primeira mesa:
«Livros, naquela outra mesa, não é?»
«Sim», responde-me com um sorriso que não consigo interpretar.
Estou já diante da segunda mesa. Com os livros na mão. Aguardo. Não vejo ninguém. Não posso chamar, não posso assobiar; um casaquinho de malha deixado nas costas da cadeira faz-me ter fé: alguém aparecerá.
Ninguém aparece. A fé estremece. Sinto o tempo a bater-me nas têmporas. Tenho mais que fazer. Ao fundo, sentada à primeira mesa, a empregada olha-me, com o mesmo sorriso indefinível. Não me chama. Deixo-me estar.
Passou demasiado tempo. Vou ter com a funcionária da mesa 1. Pergunto-lhe, com uma perplexidade que nada tem de irónico:
«Desculpe-me, não está ninguém naquela mesa?»
Responde-me, com uma perplexidade que, toda ela, tresanda a ironia:
«Não vê que não?!»
«Sim», insisto, «mas não vai aparecer ninguém?»
«Não, provavelmente não».
«Mas não posso devolver estes livros?»
«Como?»
«Se não posso devolver hoje estes livros...»
«Pode».
«A quem? Onde?»
«Como?»
«Como é que eu faço? A quem? Onde vou?»
«A mim. Aqui mesmo.»
Não devo deixar passar em branco esta série de equívocos, até porque ela mantém o irritante sorriso que, percebo finalmente, só pode ser de quem me quer tourear.
«Perdão, mas a senhora não me disse que os livros deviam ser requisitados ou devolvidos naquela mesa?»
«Disse. Mas isso, obviamente, quando está lá alguém. Neste momento, não está». E rematou, alargando um pouco o sorriso gengivudo: «Eu posso recebê-los aqui, mas o senhor quer que os vá receber na outra mesa...? Se prefere...»
O sorriso. Os dentes revelados até às gengivas.
Fico um pouco desarmado por esta lógica implacável. Passam-me meteoricamente várias possíveis respostas pela mente. «Mas não viu que eu me dirigi para a outra mesa?», ou, à falta de melhor argumento: «Está lá um casaquinho nas costas da cadeira...»
Suspeito, porém, que a conversa poderia durar muito, muito, muito tempo neste registo delirante. Não tenho pedalada. Não suporto o sorriso. Dou-lhe os livros. Venho-me embora. Paro. E se lhe dissesse...? Nááá! Saio.
Entro, aderindo de imediato àquela espécie de silêncio religioso. Trago dois ou três livros para devolver. Passo pela primeira mesa. Lembrando-me de que, da última vez que os quisera entregar aí, se tinham zangado comigo e indicado uma segunda mesa, própria, essa sim, para levantamento e/ou devolução de livros, não me detenho. Mas, de caminho, sempre confirmo com a senhora funcionária que nada faz, sentada à primeira mesa:
«Livros, naquela outra mesa, não é?»
«Sim», responde-me com um sorriso que não consigo interpretar.
Estou já diante da segunda mesa. Com os livros na mão. Aguardo. Não vejo ninguém. Não posso chamar, não posso assobiar; um casaquinho de malha deixado nas costas da cadeira faz-me ter fé: alguém aparecerá.
Ninguém aparece. A fé estremece. Sinto o tempo a bater-me nas têmporas. Tenho mais que fazer. Ao fundo, sentada à primeira mesa, a empregada olha-me, com o mesmo sorriso indefinível. Não me chama. Deixo-me estar.
Passou demasiado tempo. Vou ter com a funcionária da mesa 1. Pergunto-lhe, com uma perplexidade que nada tem de irónico:
«Desculpe-me, não está ninguém naquela mesa?»
Responde-me, com uma perplexidade que, toda ela, tresanda a ironia:
«Não vê que não?!»
«Sim», insisto, «mas não vai aparecer ninguém?»
«Não, provavelmente não».
«Mas não posso devolver estes livros?»
«Como?»
«Se não posso devolver hoje estes livros...»
«Pode».
«A quem? Onde?»
«Como?»
«Como é que eu faço? A quem? Onde vou?»
«A mim. Aqui mesmo.»
Não devo deixar passar em branco esta série de equívocos, até porque ela mantém o irritante sorriso que, percebo finalmente, só pode ser de quem me quer tourear.
«Perdão, mas a senhora não me disse que os livros deviam ser requisitados ou devolvidos naquela mesa?»
«Disse. Mas isso, obviamente, quando está lá alguém. Neste momento, não está». E rematou, alargando um pouco o sorriso gengivudo: «Eu posso recebê-los aqui, mas o senhor quer que os vá receber na outra mesa...? Se prefere...»
O sorriso. Os dentes revelados até às gengivas.
Fico um pouco desarmado por esta lógica implacável. Passam-me meteoricamente várias possíveis respostas pela mente. «Mas não viu que eu me dirigi para a outra mesa?», ou, à falta de melhor argumento: «Está lá um casaquinho nas costas da cadeira...»
Suspeito, porém, que a conversa poderia durar muito, muito, muito tempo neste registo delirante. Não tenho pedalada. Não suporto o sorriso. Dou-lhe os livros. Venho-me embora. Paro. E se lhe dissesse...? Nááá! Saio.
50 ANOS
O que significa exactamente ter 50 anos de idade? O que simboliza, ou como me marca, ou de que modo me toca, ou me transforma, ou me esmaga, ou me faz pensar?
A tendência mais simples, mas a mais mentirosa também, seria a de encolher os ombros com alguma superioridade e responder «Nem dou por eles», fingindo não ouvir o riso surdo da minha ciática, dos meus grisalhos, das minhas rugas, das pessoas que me rodeiam. Não, alguma coisa terá mudado - sobretudo a nível simbólico, na maneira como olho para mim, e me vejo, e me meço. E deste ponto de vista, claro, é assustador: não posso evitar lembrar-me do que representava, para o adolescente que eu fui, um «senhor» de cinquenta; depois, há a perturbadora síntese dessa idade: meio século... Meio século parece-me uma imensidão, e se revejo os patamares das minhas vidas (porque tive realmente muitíssimas, e variadas), verifico que um «meio século» é uma substância temporal feita de épocas amarelecidas, que já nem reconheço se me confronto com elas, reconstituídas no cinema ou captadas em fotografias, com modelos de automóveis que não existem ou modas que, mais do que terem caído em desuso, se tornaram totalmente absurdas; amigos que desapareceram das mais diversas formas, mulheres que amei perdidamente, viagens inolvidáveis que me parecem impossíveis, a vivência colectiva de momentos que, para os adolescentes de hoje, são uma data histórica ou menos do que isso - nada são...
Aparte isso, reconheço em mim, e estou a ser inteiramente sincero, um elemento da mais pura infantilidade que nada, que ninguém foi capaz de desfazer. Uma capacidade de me não levar a sério que é um misto de insegurança perante tudo e todos e de recusa de me envolver numa «seriedade» da vida que me não fala nem toca.
E dizem-me, em casa:
«Pois! Isso é que é preocupante!»
E eu protesto. E mostro que poderia não ser de todo um defeito. Que até há quem me ache graça.
E respondem-me, em casa:
«Claro! Acham-te graça porque não têm de viver contigo...»
A tendência mais simples, mas a mais mentirosa também, seria a de encolher os ombros com alguma superioridade e responder «Nem dou por eles», fingindo não ouvir o riso surdo da minha ciática, dos meus grisalhos, das minhas rugas, das pessoas que me rodeiam. Não, alguma coisa terá mudado - sobretudo a nível simbólico, na maneira como olho para mim, e me vejo, e me meço. E deste ponto de vista, claro, é assustador: não posso evitar lembrar-me do que representava, para o adolescente que eu fui, um «senhor» de cinquenta; depois, há a perturbadora síntese dessa idade: meio século... Meio século parece-me uma imensidão, e se revejo os patamares das minhas vidas (porque tive realmente muitíssimas, e variadas), verifico que um «meio século» é uma substância temporal feita de épocas amarelecidas, que já nem reconheço se me confronto com elas, reconstituídas no cinema ou captadas em fotografias, com modelos de automóveis que não existem ou modas que, mais do que terem caído em desuso, se tornaram totalmente absurdas; amigos que desapareceram das mais diversas formas, mulheres que amei perdidamente, viagens inolvidáveis que me parecem impossíveis, a vivência colectiva de momentos que, para os adolescentes de hoje, são uma data histórica ou menos do que isso - nada são...
Aparte isso, reconheço em mim, e estou a ser inteiramente sincero, um elemento da mais pura infantilidade que nada, que ninguém foi capaz de desfazer. Uma capacidade de me não levar a sério que é um misto de insegurança perante tudo e todos e de recusa de me envolver numa «seriedade» da vida que me não fala nem toca.
E dizem-me, em casa:
«Pois! Isso é que é preocupante!»
E eu protesto. E mostro que poderia não ser de todo um defeito. Que até há quem me ache graça.
E respondem-me, em casa:
«Claro! Acham-te graça porque não têm de viver contigo...»
domingo, outubro 14, 2007
MADRE TERESA DE CALCUTÁ
Agora que o assunto deixou os jornais e as revistas onde, por um breve lapso de tempo, emparceirou com o caso «Maddie», é talvez o momento para regressar a ele. Falo de Madre Teresa de Calcutá, por quem, aliás, vá-se lá saber porquê, nunca nutri a mais minúscula simpatia.
Refiro-me, sobretudo, à sensacional (e sensacionalista) revelação da sua falta de Fé. Da sua «Noite Escura»: do silêncio de Deus, o pavoroso silêncio de um Deus que lhe não falava, que não descia sobre ela, que a não tranquilizava, que lhe não dava sinais, que a não deixava de modo algum sentir a sua Presença.
Curiosamente, os pensadores, padres ou leigos, entrevistados sobre esta questão, trataram de a menorizar: que a dúvida seria normal, que todo o crente passa por períodos de turbação e perturbação, de silêncio e ausência. Como São João da Cruz, diziam eles. Como Santa Teresa de Ávila, diziam eles. Como todos os Grandes Místicos, diziam eles. Mas, acrescentavam, que importância tem a dúvida se não para nos fortalecer? A persistência e o retorno ao redil, eis o que conta.
No caso de Madre Teresa, porám, não havia retorno. A fé fujira-lhe. Não estava em parte alguma. Batia à porta e, da casa, não lhe chegava qualquer vida. E não que lhe tivesse desaparecido ontem ou anteontem. Tratava-se de uma ausência longa, penosa, dolorosa, de anos, de sempre. Um silêncio abismal.
O que não ouvi dizer, é que é precisamente esse silêncio que transforma tudo quanto ela fez, tudo aquilo a que se entregou e devotou, numa tarefa enorme, grandiosa, sublime. Sem encorajamentos divinos, sem aplausos do Céu, sem vozes condutoras, sem, sequer, a certeza de um Prémio Eterno.
Entregar-se aos outro no meio do silêncio de Deus, sem o calor nem a energia celestiais, isso tem de ser, então, entregar-se verdadeiramente aos outros, para os outros, pelos outros. (Pois que, fora destes, para além deles, dos miseráveis que ajudo, dos esfomeados que alimento, dos nus a quem ofereço a própria camisa, nada me acena, nada me consola).
E, por si só, essa maneira de viver torna-se-me tão admirável, que encontro por Madre Teresa, na descoberta da sua tristeza, da sua descrença, da sua falta de Deus, a simpatia que nunca nutrira por ela.
E o seu exemplo vale bem todos os milhares gastos em sumptuosas igrejas em Fátima!
Refiro-me, sobretudo, à sensacional (e sensacionalista) revelação da sua falta de Fé. Da sua «Noite Escura»: do silêncio de Deus, o pavoroso silêncio de um Deus que lhe não falava, que não descia sobre ela, que a não tranquilizava, que lhe não dava sinais, que a não deixava de modo algum sentir a sua Presença.
Curiosamente, os pensadores, padres ou leigos, entrevistados sobre esta questão, trataram de a menorizar: que a dúvida seria normal, que todo o crente passa por períodos de turbação e perturbação, de silêncio e ausência. Como São João da Cruz, diziam eles. Como Santa Teresa de Ávila, diziam eles. Como todos os Grandes Místicos, diziam eles. Mas, acrescentavam, que importância tem a dúvida se não para nos fortalecer? A persistência e o retorno ao redil, eis o que conta.
No caso de Madre Teresa, porám, não havia retorno. A fé fujira-lhe. Não estava em parte alguma. Batia à porta e, da casa, não lhe chegava qualquer vida. E não que lhe tivesse desaparecido ontem ou anteontem. Tratava-se de uma ausência longa, penosa, dolorosa, de anos, de sempre. Um silêncio abismal.
O que não ouvi dizer, é que é precisamente esse silêncio que transforma tudo quanto ela fez, tudo aquilo a que se entregou e devotou, numa tarefa enorme, grandiosa, sublime. Sem encorajamentos divinos, sem aplausos do Céu, sem vozes condutoras, sem, sequer, a certeza de um Prémio Eterno.
Entregar-se aos outro no meio do silêncio de Deus, sem o calor nem a energia celestiais, isso tem de ser, então, entregar-se verdadeiramente aos outros, para os outros, pelos outros. (Pois que, fora destes, para além deles, dos miseráveis que ajudo, dos esfomeados que alimento, dos nus a quem ofereço a própria camisa, nada me acena, nada me consola).
E, por si só, essa maneira de viver torna-se-me tão admirável, que encontro por Madre Teresa, na descoberta da sua tristeza, da sua descrença, da sua falta de Deus, a simpatia que nunca nutrira por ela.
E o seu exemplo vale bem todos os milhares gastos em sumptuosas igrejas em Fátima!
quarta-feira, agosto 29, 2007
FOCO SOBRE A VERDADE
A história é simples. E real.
Estou numa piscina paradisíaca, ainda que de pouco me preste, a mim que não sei nadar nem gosto de enfiar a cabeça debaixo da água. Contudo, já que a paguei, sinto-me no dever de usufruir. Estendido numa cadeira branca, sob um guarda-sol multi-colorido, a barba por fazer, as pernas estranhamente brancas no meio desta tribu de pessoas bronzeadas, vou-me entretendo com um livro policial, bocejo, dormito, o livro esquecido sobre o estômago. Isto é que é vida! (Mas a boa vida pode ser uma seca tão grande!)
Presto atenção à vida que decorre em redor de mim.
Há uma família, aliás, que me obriga a prestar atenção, porque tudo entre eles é tratado em altos gritos. O pai, judicioso e careca, impõe-se frequentemente. A mãe só pára de berrar com alguém, para seguir, numa revista cheia de fotografias dolorosas, as últimas notícias da tragédia da Maddie.
Os miúdos são insuportáveis: querem batatas fritas, molham as outras pessoas com autênticos mergulhos-de-golfinho, fazem exigências exorbitantes - insuportáveis, e sei bem do que falo, porque se parecem muito com o meu próprio filho!
Bruscamente, o escândalo.
Os garotos combinam que vão mergulhar juntos, sim, não, sim outra vez, comprometem-se um com o outro, correm, um trava, o mais velho salta.
Eis que o que saltou regressa, furioso. Têm uma discussão. Trocam-se agressões.
O mais novo, que não saltara, desata a chorar:
«O mano arranhou-me, o mano arranhou-me...»
Mas o pai, careca e judicioso, vira tudo.Intervém:
«Vai-te mas é tratar, ouvistes? Tu tens de ir mas é ó médico dos malucos. Tu não vistes, Susana? Tu não vistes? O gajo arranhou-se a ele próprio, que eu bem topei, o gajo arranhou-se a ele próprio para acusar o irmão... Eu topei! Já vistes? É tramado, hein? Vai-te tratar, pá, vai-te mas é tratar...»
A minha versão é outra. Sim, porque eu também assisti. E, de tudo, sobra-me a seguinte interpretação, da qual extrairia até uma lição, se me permitissem.
O irmão agressivo arranhara, efectivamente, o outro: mas, se se tratava, para este último, de fazer queixa, que provas poderia ele, a vítima, apresentar? Marcas de arranhão não são suficientemente nítidas. Experimento agora sobre mim mesmo. Cá está a confirmação das minhas palavras: nada, praticamente nada. Quando o miúdo se auto-arranhou, não foi, pois, para mentir, mas para sublinhar a verdade, para iluminá-la, para dar-lhe indícios mais notórios.
Às vezes, a verdade não se basta: precisa de ser iluminada. A luz não é algo que lhe acrescento. Simplesmente a expõe.
Estou numa piscina paradisíaca, ainda que de pouco me preste, a mim que não sei nadar nem gosto de enfiar a cabeça debaixo da água. Contudo, já que a paguei, sinto-me no dever de usufruir. Estendido numa cadeira branca, sob um guarda-sol multi-colorido, a barba por fazer, as pernas estranhamente brancas no meio desta tribu de pessoas bronzeadas, vou-me entretendo com um livro policial, bocejo, dormito, o livro esquecido sobre o estômago. Isto é que é vida! (Mas a boa vida pode ser uma seca tão grande!)
Presto atenção à vida que decorre em redor de mim.
Há uma família, aliás, que me obriga a prestar atenção, porque tudo entre eles é tratado em altos gritos. O pai, judicioso e careca, impõe-se frequentemente. A mãe só pára de berrar com alguém, para seguir, numa revista cheia de fotografias dolorosas, as últimas notícias da tragédia da Maddie.
Os miúdos são insuportáveis: querem batatas fritas, molham as outras pessoas com autênticos mergulhos-de-golfinho, fazem exigências exorbitantes - insuportáveis, e sei bem do que falo, porque se parecem muito com o meu próprio filho!
Bruscamente, o escândalo.
Os garotos combinam que vão mergulhar juntos, sim, não, sim outra vez, comprometem-se um com o outro, correm, um trava, o mais velho salta.
Eis que o que saltou regressa, furioso. Têm uma discussão. Trocam-se agressões.
O mais novo, que não saltara, desata a chorar:
«O mano arranhou-me, o mano arranhou-me...»
Mas o pai, careca e judicioso, vira tudo.Intervém:
«Vai-te mas é tratar, ouvistes? Tu tens de ir mas é ó médico dos malucos. Tu não vistes, Susana? Tu não vistes? O gajo arranhou-se a ele próprio, que eu bem topei, o gajo arranhou-se a ele próprio para acusar o irmão... Eu topei! Já vistes? É tramado, hein? Vai-te tratar, pá, vai-te mas é tratar...»
A minha versão é outra. Sim, porque eu também assisti. E, de tudo, sobra-me a seguinte interpretação, da qual extrairia até uma lição, se me permitissem.
O irmão agressivo arranhara, efectivamente, o outro: mas, se se tratava, para este último, de fazer queixa, que provas poderia ele, a vítima, apresentar? Marcas de arranhão não são suficientemente nítidas. Experimento agora sobre mim mesmo. Cá está a confirmação das minhas palavras: nada, praticamente nada. Quando o miúdo se auto-arranhou, não foi, pois, para mentir, mas para sublinhar a verdade, para iluminá-la, para dar-lhe indícios mais notórios.
Às vezes, a verdade não se basta: precisa de ser iluminada. A luz não é algo que lhe acrescento. Simplesmente a expõe.
segunda-feira, agosto 27, 2007
DEUS
O ateismo é uma posição insustentável; considero-me perfeitamente insuspeito para fazer uma afirmação deste teor: na verdade, sou ateu.
O que mostra a existência de Deus não é, certamente, a retórica cartesiana, querendo fazer-se passar por uma pura «demonstração», assumindo como adquirido que um «ser perfeito mas inexistente» seria uma contradição nos termos. Descartes não tem razão: posso estabelecer, por exemplo, um conceito como o dos «mil euros que existem na minha carteira»; é evidente que o conceito de mil euros «existentes» na minha carteira «exige» que estes lá estejam (caso contrário, já não poderia ser o conceito dos «mil euros lá existentes»); mais: eu próprio bem gostaria de poder secundar essa exigência, de a fazer também, mas o facto é que não estão nem nunca lá estiveram, e não sei a que entidade possa endereçar a minha reclamação...
Também me não parece que por via de Pascal se encontre qualquer prova: apostar em Deus, é tudo o que o filósofo tem para aconselhar, numa espécie de piedoso truque - porque qualquer jogador sabe que se apostar em Deus e Ele não existir, paciência!, morro sem me aperceber sequer disso, enquanto que se, pelo contrário, não apostar e Ele existir, irei perder para toda a Eternidade...!
Isto pode fazer-me pensar duas vezes, mas não constitui realmente uma prova...
A única que me parece aceitável, é a mais antiga e a mais simples de todas: não se trata, naturalmente, do facto de o mundo ser perfeito, que, como podemos, aliás, observar facilmente, não é - ou não haveria necessidade de se inventar e produzir milho transgénico -, mas de ser uma construção complexa e, como tal, inteligente. E o homem, como resultado complexo de uma evolução no sentido do cada vez mais complexo, não pode certamente ser o composto arbitrário e darwinista de uma sucessão de acasos guiada unicamente por leis de adaptação. É, com certeza, mais do que isso. Embora, às vezes, baste um bando de energúmenos a destruir convictamente uma plantação de milho, ou a existência de alguém como a Carolina Salgado, para me regressarem as dúvidas...
A única pergunta que me parece, pois, sensata, é: e que Deus seria esse? Um Ser eterno e infinito, separado do mundo, criador desse mundo, ou simplesmente o Deus do panteísmo, o Logos, a dinâmica coerente da própria natureza, a esta imanente, uma força imperfeita mas não inteiramente cega, amoral mas inteligente?
É a única pergunta sensata. Não que a mim, pessoalmente, ela me interesse.
Antes manter-me ateu.
O que mostra a existência de Deus não é, certamente, a retórica cartesiana, querendo fazer-se passar por uma pura «demonstração», assumindo como adquirido que um «ser perfeito mas inexistente» seria uma contradição nos termos. Descartes não tem razão: posso estabelecer, por exemplo, um conceito como o dos «mil euros que existem na minha carteira»; é evidente que o conceito de mil euros «existentes» na minha carteira «exige» que estes lá estejam (caso contrário, já não poderia ser o conceito dos «mil euros lá existentes»); mais: eu próprio bem gostaria de poder secundar essa exigência, de a fazer também, mas o facto é que não estão nem nunca lá estiveram, e não sei a que entidade possa endereçar a minha reclamação...
Também me não parece que por via de Pascal se encontre qualquer prova: apostar em Deus, é tudo o que o filósofo tem para aconselhar, numa espécie de piedoso truque - porque qualquer jogador sabe que se apostar em Deus e Ele não existir, paciência!, morro sem me aperceber sequer disso, enquanto que se, pelo contrário, não apostar e Ele existir, irei perder para toda a Eternidade...!
Isto pode fazer-me pensar duas vezes, mas não constitui realmente uma prova...
A única que me parece aceitável, é a mais antiga e a mais simples de todas: não se trata, naturalmente, do facto de o mundo ser perfeito, que, como podemos, aliás, observar facilmente, não é - ou não haveria necessidade de se inventar e produzir milho transgénico -, mas de ser uma construção complexa e, como tal, inteligente. E o homem, como resultado complexo de uma evolução no sentido do cada vez mais complexo, não pode certamente ser o composto arbitrário e darwinista de uma sucessão de acasos guiada unicamente por leis de adaptação. É, com certeza, mais do que isso. Embora, às vezes, baste um bando de energúmenos a destruir convictamente uma plantação de milho, ou a existência de alguém como a Carolina Salgado, para me regressarem as dúvidas...
A única pergunta que me parece, pois, sensata, é: e que Deus seria esse? Um Ser eterno e infinito, separado do mundo, criador desse mundo, ou simplesmente o Deus do panteísmo, o Logos, a dinâmica coerente da própria natureza, a esta imanente, uma força imperfeita mas não inteiramente cega, amoral mas inteligente?
É a única pergunta sensata. Não que a mim, pessoalmente, ela me interesse.
Antes manter-me ateu.
TRAGICOMÉDIA
Dizia-se que era um homem tão ridículo, que todos os seus dramas, imensos e mesquinhos, com os quais queria recolher a compreensão e a solidariedade pesarosa dos outros, nunca fizeram senão arrancar as gargalhadas bem-dispostas de quem o ouvia.
Quando teve a sua única filha e viveu, depois de uma primeira, natural e breve euforia, o período talvez mais negro da sua vida, visto que a criança nunca o deixou dormir tranquilamente uma noite que fosse, contava isto para que o consolassem, muito olheirento, coitado, com um tom olivácio e, na verdade, este drama - comparável, nos efeitos, à tortura da privação do sono enfrentado por certos heróis -, nele, tinha qualquer coisa de cómico a que ninguém resistia.
Suicidou-se.
Infelizmente, até a sua trágica morte teve uma nota falsa: porque, para se enforcar, não arranjou outra corda que não fosse a corda de saltar da sua filha, com joaninhas vermelhas...
Quando teve a sua única filha e viveu, depois de uma primeira, natural e breve euforia, o período talvez mais negro da sua vida, visto que a criança nunca o deixou dormir tranquilamente uma noite que fosse, contava isto para que o consolassem, muito olheirento, coitado, com um tom olivácio e, na verdade, este drama - comparável, nos efeitos, à tortura da privação do sono enfrentado por certos heróis -, nele, tinha qualquer coisa de cómico a que ninguém resistia.
Suicidou-se.
Infelizmente, até a sua trágica morte teve uma nota falsa: porque, para se enforcar, não arranjou outra corda que não fosse a corda de saltar da sua filha, com joaninhas vermelhas...
quarta-feira, agosto 22, 2007
CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA
Se eu tivesse leitores, iriam certamente admirar-se de que escreva com tanta regularidade acerca da tarefa de separar o lixo, ou melhor, de ir despejar nos respectivos «ões» (o vidrão, o papelão, o pilhão etc.) os dejectos prévia e conscienciosamente separados.
Não é falta de assunto. Talvez porque a minha vida seja demasiado pacata, esta tarefa marca-me particularmente. É o meu grande contributo para a Causa ecológica.
Explico porquê:
Em primeiro lugar, sinto muitas saudades de um camião que passava todas as noites pela minha porta, à segunda levando o contentor amarelo, à terça o castanho, e por aí fora...
Como essa boa ideia morreu, eu deixo os contentores ficarem quase a transbordar e, um dia, levo-os até aos «ões», muitos quarteirões adiante.
Abrem-se-me dilemas, escolhas: levá-los de carro? Essa experiência foi traumatizante, porque estava calor, os plásticos têm sempre uns restos de substâncias viscosas que deixam cheiro e atraem moscas, de modo que o meu carro, que nunca foi um modelo de asseio, andou uns dias pior do que nunca. A ponto de, quando a polícia me mandou parar para me «autuar», o senhor agente do boné periclitante ter, após umas fungadelas, desconfiado que eu levaria um cadáver escondido na mala. Por que outra razão teria ele pedido que a abrisse?
A outra hipótese é carregá-los a pé. Arrastando-me, num penoso convívio com as moscas que não me abandonam e eu já não tenho mãos para enxotar, chego a um lugar sórdido, onde abundam restos de lixo que o desgraçado que eu sou tem de pisar enquanto enfia as coisas pelas ranhuras...
Em segundo lugar, dói-me a assistência. Há ali um banco onde uns velhinhos seguem atentamente o processo. Qualquer que seja a hora, os velhinhos estão lá.
Eu descrevi, um dia, esta cena à minha mulher.
«Os velhos fartam-se de gozar comigo! De cada vez que eu tropeço, ou que não consigo enfiar uma embalagem na ranhura, os tipos riem-se... devem pensar que eu me dou a trabalhos estúpidos, que sou um palhaço, uma criatura absurda...!»
E a minha mulher rebateu-me o pessimismo fácil e macambúzio:
«Pelo contrário! Tu és um exemplo! De cada vez que te vêem, os velhinhos só podem admirar-te por perceber que há pessoas que se dão a tanto trabalho para manter o planeta melhor. Tu comove-los, é o que é...»
«Hummmm...», desconfiei eu, lembrando-me dos rostos enrugados e trocistas, onde nunca li nada que me fizesse crer que os comovia.
Da última vez, hoje, mais precisamente, lá estavam eles.
E eu, orgulhoso, imbuído da minha superioridade sobre estes gajos que atiram papéis para o chão e sacos de lixo em qualquer lado, cheio do meu estatuto de exemplo.
Mas, na verdade, as coisas correram mal. Nada entrava onde devia, o vento trazia-me gargalhadas que me feriam a superioridade, a faziam ceder, o lixo escorregava-me pelo corpo.
Furioso, berrei, para ser ouvido:
- Que se f... a m... da reciclagem!
Depois voltei para casa, cabisbaixo, não me atrevendo a olhar para ninguém, embaraçado, envergonhado.
Até que o meu grito desesperado foi ganhando um significado. Era um elemento de rebelião contra as dificuldades da luta ecológica. Por que não há-de haver um papelão mais próximo? Um plasticão mais limpo? Com ranhuras mais largas???
O meu grito era um grito de luta. O elemento de violência que, ao que parece, deve ser incorporado na luta ecológica em busca de mediatismo.
A continuar assim, qualquer dia estou pronto para ir massacrar umas maçarocas transgénicas.
Não é falta de assunto. Talvez porque a minha vida seja demasiado pacata, esta tarefa marca-me particularmente. É o meu grande contributo para a Causa ecológica.
Explico porquê:
Em primeiro lugar, sinto muitas saudades de um camião que passava todas as noites pela minha porta, à segunda levando o contentor amarelo, à terça o castanho, e por aí fora...
Como essa boa ideia morreu, eu deixo os contentores ficarem quase a transbordar e, um dia, levo-os até aos «ões», muitos quarteirões adiante.
Abrem-se-me dilemas, escolhas: levá-los de carro? Essa experiência foi traumatizante, porque estava calor, os plásticos têm sempre uns restos de substâncias viscosas que deixam cheiro e atraem moscas, de modo que o meu carro, que nunca foi um modelo de asseio, andou uns dias pior do que nunca. A ponto de, quando a polícia me mandou parar para me «autuar», o senhor agente do boné periclitante ter, após umas fungadelas, desconfiado que eu levaria um cadáver escondido na mala. Por que outra razão teria ele pedido que a abrisse?
A outra hipótese é carregá-los a pé. Arrastando-me, num penoso convívio com as moscas que não me abandonam e eu já não tenho mãos para enxotar, chego a um lugar sórdido, onde abundam restos de lixo que o desgraçado que eu sou tem de pisar enquanto enfia as coisas pelas ranhuras...
Em segundo lugar, dói-me a assistência. Há ali um banco onde uns velhinhos seguem atentamente o processo. Qualquer que seja a hora, os velhinhos estão lá.
Eu descrevi, um dia, esta cena à minha mulher.
«Os velhos fartam-se de gozar comigo! De cada vez que eu tropeço, ou que não consigo enfiar uma embalagem na ranhura, os tipos riem-se... devem pensar que eu me dou a trabalhos estúpidos, que sou um palhaço, uma criatura absurda...!»
E a minha mulher rebateu-me o pessimismo fácil e macambúzio:
«Pelo contrário! Tu és um exemplo! De cada vez que te vêem, os velhinhos só podem admirar-te por perceber que há pessoas que se dão a tanto trabalho para manter o planeta melhor. Tu comove-los, é o que é...»
«Hummmm...», desconfiei eu, lembrando-me dos rostos enrugados e trocistas, onde nunca li nada que me fizesse crer que os comovia.
Da última vez, hoje, mais precisamente, lá estavam eles.
E eu, orgulhoso, imbuído da minha superioridade sobre estes gajos que atiram papéis para o chão e sacos de lixo em qualquer lado, cheio do meu estatuto de exemplo.
Mas, na verdade, as coisas correram mal. Nada entrava onde devia, o vento trazia-me gargalhadas que me feriam a superioridade, a faziam ceder, o lixo escorregava-me pelo corpo.
Furioso, berrei, para ser ouvido:
- Que se f... a m... da reciclagem!
Depois voltei para casa, cabisbaixo, não me atrevendo a olhar para ninguém, embaraçado, envergonhado.
Até que o meu grito desesperado foi ganhando um significado. Era um elemento de rebelião contra as dificuldades da luta ecológica. Por que não há-de haver um papelão mais próximo? Um plasticão mais limpo? Com ranhuras mais largas???
O meu grito era um grito de luta. O elemento de violência que, ao que parece, deve ser incorporado na luta ecológica em busca de mediatismo.
A continuar assim, qualquer dia estou pronto para ir massacrar umas maçarocas transgénicas.
terça-feira, agosto 21, 2007
UMA VITÓRIA NÍTIDA PARA A ECOLOGIA
E põe-se, de uma vez, termo às hesitações e às incertezas científicas: fica finalmente estabelecido que os alimentos transgénicos são altamente prejudiciais à saúde. Agora, há provas; há uma prova: a primeira vítima notória do milho geneticamente transformado foi o proprietário da plantação que, após o assalto dos jovens ecologistas que lhe massacraram heroicamente uma série de maçarocas, acabou tendo um enfarte.
Há por aí vozes que se erguem, discordantes, contra os bravos ecologistas. Há mesmo quem pretenda que eles erraram o alvo. Que deviam ter atacado empresas multinacionais, ao invés de um velhinho que se dedica à plantação de maçarocas. Erraram o alvo?! Isso foi o que pensaram quando um carro embateu no meu veículo e eu, furioso, tendo de bater forçosamente em alguém, dei um murro num senhor cego que se aproximara para assistir ao espectáculo. Não errei, não: acertei-lhe em cheio! E, vamos lá, quem queriam que agredisse? O homem de quase dois metros e tatuagens nos braços hercúleos que vinha a conduzir o carro que não parou num «stop» e partiu o meu em dois? Está bem, está!
Alguém, cujo nome e cuja importância eu não fixei, argumentou que não concordava com os métodos mas compreendia as razões - e sempre acrescentou que, bem vistas as coisas, a verdade é que, «apesar de tudo», nunca esta questão fora tão mediatizada. Portanto... até os métodos parecem ter qualquer coisa de bom. Se o episódio passa na televisão já quase mais vezes do que o desaparecimento da Maddie e os dislates do Berardo, então é certamente uma vitória.
O senhor Mendes e o senhor Louçã é que estão muito zangados com o governo a propósito do acontecimento. Mas o senhor Mendes e o senhor Louçã estão sempre muito zangados. Devem andar a comer milho estragado!
Há por aí vozes que se erguem, discordantes, contra os bravos ecologistas. Há mesmo quem pretenda que eles erraram o alvo. Que deviam ter atacado empresas multinacionais, ao invés de um velhinho que se dedica à plantação de maçarocas. Erraram o alvo?! Isso foi o que pensaram quando um carro embateu no meu veículo e eu, furioso, tendo de bater forçosamente em alguém, dei um murro num senhor cego que se aproximara para assistir ao espectáculo. Não errei, não: acertei-lhe em cheio! E, vamos lá, quem queriam que agredisse? O homem de quase dois metros e tatuagens nos braços hercúleos que vinha a conduzir o carro que não parou num «stop» e partiu o meu em dois? Está bem, está!
Alguém, cujo nome e cuja importância eu não fixei, argumentou que não concordava com os métodos mas compreendia as razões - e sempre acrescentou que, bem vistas as coisas, a verdade é que, «apesar de tudo», nunca esta questão fora tão mediatizada. Portanto... até os métodos parecem ter qualquer coisa de bom. Se o episódio passa na televisão já quase mais vezes do que o desaparecimento da Maddie e os dislates do Berardo, então é certamente uma vitória.
O senhor Mendes e o senhor Louçã é que estão muito zangados com o governo a propósito do acontecimento. Mas o senhor Mendes e o senhor Louçã estão sempre muito zangados. Devem andar a comer milho estragado!
O HOMEM PERFEITO
- H., anda para a cama, querido - chamava ela com uma nota de ansiedade na voz.
- Já vou, Dulce - respondeu H.
Não podia deitar-se sem lavar a loiça, logo naquele dia em que a máquina pifara.
Pegou nos pratos, foi-os deixando apanhar água sob a torneira que também teria de consertar, esfregou-os minuciosamente com a esponja embebida em detergente, mais água, limpou-os; fez o mesmo com os copos, com os talheres.
- Demoras muito, querido?
- Já não, já não. Vou já já, é já já!
Faltava, porém, engomar a roupa para o dia seguinte; não tanto a dele, que preferia as suas calças de ganga «au naturel», mas a dela: a saia que tinha de se passar com cem mil e cem cuidados, a camisa delicada, com rendas por todo o lado...
Abriu a tábua, colocou as peças sobre esta, aspergiu água, passou a roupa de Dulce, colocou-a, cuidadosamente, sobre uma cadeira.
A voz da mulher impacientava-se:
- Vais inventar mais alguma coisa para não vires para a cama...?
Ela não deixava de ter razão, pensou. Algumas das tarefas que se lhe acumulavam agora poderiam muito bem ter sido despachadas ao longo da tarde, desde que saíra do serviço. Mas tivera de passar por casa da mãe de Dulce para ver se, como habitualmente, não faltava nada a Dona Auzenda que, com oitenta anos, vivia sozinha num estúdio de um típico bairro J. Pimenta.
Subiu, deitou-se-lhe ao lado.
Dulce estava ansiosa por ele, pela sua pele, pelo seu corpo. Beijaram-se. Lançaram-se um ao outro, ou um no outro, numa espécie de luta animal, a que o prolongado grito de satisfação de Dulce pôs termo, ao fim de quase uma hora.
- Outra vez? - perguntou, solícito.
- Não, agora não, obrigada. Estou bem. E fatigada. Boa noite, querido.
Ela voltou-se-lhe de costas, com o habitual ranger de molas do colchão. Desligou o candeeiro da mesinha de cabeceira.
Por falar em «desligar»: H. precisava de carregar a bateria. Literalmente. Para isso, tinha simplesmente de se desligar a si próprio, premindo o minúsculo botão a que o professor Schultz, seu Deus, seu criador, dera a forma de mamilo, o seu mamilo esquerdo. (Nos homens, os mamilos não têm qualquer utilidade. Em H., pelo menos o esquerdo...)
E isso, conseguia fazer: desligar-se.
Mas, e depois? De manhã? Não seria capaz de se ligar a si mesmo, se estava desligado.
Ela seria capaz de o fazer? Fá-lo-ia?
Desligou-se, sem saber se alguma vez voltaria a acordar...
- Já vou, Dulce - respondeu H.
Não podia deitar-se sem lavar a loiça, logo naquele dia em que a máquina pifara.
Pegou nos pratos, foi-os deixando apanhar água sob a torneira que também teria de consertar, esfregou-os minuciosamente com a esponja embebida em detergente, mais água, limpou-os; fez o mesmo com os copos, com os talheres.
- Demoras muito, querido?
- Já não, já não. Vou já já, é já já!
Faltava, porém, engomar a roupa para o dia seguinte; não tanto a dele, que preferia as suas calças de ganga «au naturel», mas a dela: a saia que tinha de se passar com cem mil e cem cuidados, a camisa delicada, com rendas por todo o lado...
Abriu a tábua, colocou as peças sobre esta, aspergiu água, passou a roupa de Dulce, colocou-a, cuidadosamente, sobre uma cadeira.
A voz da mulher impacientava-se:
- Vais inventar mais alguma coisa para não vires para a cama...?
Ela não deixava de ter razão, pensou. Algumas das tarefas que se lhe acumulavam agora poderiam muito bem ter sido despachadas ao longo da tarde, desde que saíra do serviço. Mas tivera de passar por casa da mãe de Dulce para ver se, como habitualmente, não faltava nada a Dona Auzenda que, com oitenta anos, vivia sozinha num estúdio de um típico bairro J. Pimenta.
Subiu, deitou-se-lhe ao lado.
Dulce estava ansiosa por ele, pela sua pele, pelo seu corpo. Beijaram-se. Lançaram-se um ao outro, ou um no outro, numa espécie de luta animal, a que o prolongado grito de satisfação de Dulce pôs termo, ao fim de quase uma hora.
- Outra vez? - perguntou, solícito.
- Não, agora não, obrigada. Estou bem. E fatigada. Boa noite, querido.
Ela voltou-se-lhe de costas, com o habitual ranger de molas do colchão. Desligou o candeeiro da mesinha de cabeceira.
Por falar em «desligar»: H. precisava de carregar a bateria. Literalmente. Para isso, tinha simplesmente de se desligar a si próprio, premindo o minúsculo botão a que o professor Schultz, seu Deus, seu criador, dera a forma de mamilo, o seu mamilo esquerdo. (Nos homens, os mamilos não têm qualquer utilidade. Em H., pelo menos o esquerdo...)
E isso, conseguia fazer: desligar-se.
Mas, e depois? De manhã? Não seria capaz de se ligar a si mesmo, se estava desligado.
Ela seria capaz de o fazer? Fá-lo-ia?
Desligou-se, sem saber se alguma vez voltaria a acordar...
segunda-feira, agosto 20, 2007
A GLORIOSA REUNIÃO DE LÍDERES AFRICANOS
O núcleo duro de tudo aquilo que forma ideológica e simbolicamente a esquerda e, até, une de algum modo as diferentes esquerdas, reflecte-se com alguma segurança na ideia e na prática da descolonização.
Num tempo de repensamento, em que foram sendo sistematicamente postos em causa, por teóricos de esquerda,as chaves da própria esquerda (desde o papel do proletariado à possibilidade da revolução, desde a noção de igualdade à necessidade de liquidar a instituição burguesa que seria «a família»), num derradeiro dogma não vi ainda tocar: a bondade da descolonização, como forma de libertação de povos oprimidos e garantia de progresso para todos.
Uma vez que, à falta de melhor, me considero eventualmente (ainda) de esquerda, até quando a detesto, e mesmo, por vezes, marxista (tendência Groucho Marx), e porque, por outro lado, sou um desenraizado, ou seja, alguém que nasceu e viveu (até aos dezoito anos) em Moçambique,interessa-me profundamente a questão da descolonização.
Olhando para a glamourosa reunião de líderes africanos que Portugal orgulhosamente prepara, não posso deixar de sentir um ligeiro calafrio ante essa mirambolante colecção de ditadores que conseguimos juntar. Desde o senhor José Eduardo dos Santos ao senhor Mugabe, a quem não fomos capazes de negar assento, o espectáculo a que assistimos é, afinal, o dos nossos erros ou o da falência do grande ideal da esquerda: pegou-se em grandes e ricos territórios cujas fronteiras eram, já de si, uma ficção colonial, fazendo tábua rasa de rivalidades e lutas antiquíssimas entre diferentes etnias, esqueceram-se completamente os colonos que, mal ou bem, com direito ou sem ele, tinham investido nessas terras tudo o que eram e tudo o que possuíam, entregou-se o poder a elites formadas unicamente no combate e na guerrilha, esperando que estivessem preparadas para assumir os modelos políticos europeus, como se, por sua vez, estes fossem os únicos possíveis, e os mais indicados, e lavámos daí as nossas mãos.
Em face das insanidades e devaneios dos ditadores que entretanto emergiam, limitávamo-nos a assobiar para o lado, já demasiado assolados pelos nossos próprios complexos de culpa para arcarmos ainda com novas culpas...
Não sejamos lineares: houve, na luta anti-colonial, verdadeiros heróis, homens e mulheres exemplares, de uma força e de uma dignidade extraordinárias? Samora Machel ou Nelson Mandela são símbolos maiores de tudo aquilo em que a África livre poderia ter-se tornado? Sem dúvida.
As condições tiveram excessivo peso? Os países colonizadores não podiam, após anos e anos de dura luta, senão acatar, e nos termos em que o fizeram, a emancipação dos povos colonizados? Essas condições pareciam soprar, fortemente, todas num mesmo sentido, como se não houvesse escolha, como se algo de moira fatal imbuísse o vento da História? Sem dúvida.
Porque, afinal, a História não é uma constante entrada em novos patamares de escolhas. Frequentemente, mesmo o que nos soa como «escolhas» feitas (pelos reis, pelos governantes, por Mário Soares na altura...) são a expressão de teias de condicionalismos demasiado poderosos, que empurram fatidicamente para um ponto determinado.
Mas a conclusão é, então, que o movimento da História está muito longe de se poder representar como um «progresso». (Ah, sim! Essa outra grande e optimista convicção de todas as esquerdas).
Penso nisto, enquanto imagino Robert Mugabe sentando-se no seu lugar, sorrindo à esquerda e à direita, ao mesmo tempo que coloca nas orelhas os fones de tradução simultânea a que, certamente, há-de, também ele, ter direito... (como se compreendesse a tradução de quaisquer ideias que não sejam as suas próprias)...
Num tempo de repensamento, em que foram sendo sistematicamente postos em causa, por teóricos de esquerda,as chaves da própria esquerda (desde o papel do proletariado à possibilidade da revolução, desde a noção de igualdade à necessidade de liquidar a instituição burguesa que seria «a família»), num derradeiro dogma não vi ainda tocar: a bondade da descolonização, como forma de libertação de povos oprimidos e garantia de progresso para todos.
Uma vez que, à falta de melhor, me considero eventualmente (ainda) de esquerda, até quando a detesto, e mesmo, por vezes, marxista (tendência Groucho Marx), e porque, por outro lado, sou um desenraizado, ou seja, alguém que nasceu e viveu (até aos dezoito anos) em Moçambique,interessa-me profundamente a questão da descolonização.
Olhando para a glamourosa reunião de líderes africanos que Portugal orgulhosamente prepara, não posso deixar de sentir um ligeiro calafrio ante essa mirambolante colecção de ditadores que conseguimos juntar. Desde o senhor José Eduardo dos Santos ao senhor Mugabe, a quem não fomos capazes de negar assento, o espectáculo a que assistimos é, afinal, o dos nossos erros ou o da falência do grande ideal da esquerda: pegou-se em grandes e ricos territórios cujas fronteiras eram, já de si, uma ficção colonial, fazendo tábua rasa de rivalidades e lutas antiquíssimas entre diferentes etnias, esqueceram-se completamente os colonos que, mal ou bem, com direito ou sem ele, tinham investido nessas terras tudo o que eram e tudo o que possuíam, entregou-se o poder a elites formadas unicamente no combate e na guerrilha, esperando que estivessem preparadas para assumir os modelos políticos europeus, como se, por sua vez, estes fossem os únicos possíveis, e os mais indicados, e lavámos daí as nossas mãos.
Em face das insanidades e devaneios dos ditadores que entretanto emergiam, limitávamo-nos a assobiar para o lado, já demasiado assolados pelos nossos próprios complexos de culpa para arcarmos ainda com novas culpas...
Não sejamos lineares: houve, na luta anti-colonial, verdadeiros heróis, homens e mulheres exemplares, de uma força e de uma dignidade extraordinárias? Samora Machel ou Nelson Mandela são símbolos maiores de tudo aquilo em que a África livre poderia ter-se tornado? Sem dúvida.
As condições tiveram excessivo peso? Os países colonizadores não podiam, após anos e anos de dura luta, senão acatar, e nos termos em que o fizeram, a emancipação dos povos colonizados? Essas condições pareciam soprar, fortemente, todas num mesmo sentido, como se não houvesse escolha, como se algo de moira fatal imbuísse o vento da História? Sem dúvida.
Porque, afinal, a História não é uma constante entrada em novos patamares de escolhas. Frequentemente, mesmo o que nos soa como «escolhas» feitas (pelos reis, pelos governantes, por Mário Soares na altura...) são a expressão de teias de condicionalismos demasiado poderosos, que empurram fatidicamente para um ponto determinado.
Mas a conclusão é, então, que o movimento da História está muito longe de se poder representar como um «progresso». (Ah, sim! Essa outra grande e optimista convicção de todas as esquerdas).
Penso nisto, enquanto imagino Robert Mugabe sentando-se no seu lugar, sorrindo à esquerda e à direita, ao mesmo tempo que coloca nas orelhas os fones de tradução simultânea a que, certamente, há-de, também ele, ter direito... (como se compreendesse a tradução de quaisquer ideias que não sejam as suas próprias)...
terça-feira, agosto 07, 2007
COLECÇÃO JOE BERARDO NO CCB: UM PROJECTO SUICIDA
Deixem-me principiar por explicar o título deste meu «post».
O que, em relação à colecção Joe Berardo, se revelou um projecto suicida, foi a peregrina ideia de a visitar em família, ou seja, com uma mulher esgotada pelo facto de terem começado as suas férias, um adolescente de doze anos, misto de homem-aranha e de incrível Hulk, todo ele energia duendia à solta (quer dizer, uma energia de duende, instável, desequilibrada, magnífica) e uma criança de vinte e dois ou vinte e três meses...
Num episódio destes radica todo o surrealismo, a génese do próprio surrealismo, tão caro a Berardo: um pai de óculos, barba por fazer, calções e pernas muito brancas, norteado pela bizarra ideia de interessar a família em pintura, fotografia e escultura; uma mãe que se arrasta, ansiosa por que as recém-iniciadas férias acabem e ela possa regressar depressa à paz do seu serviço; um garoto que, de toda a colecção, se fixou para todo o sempre na escultura de um homem e uma mulher nus, no chão, deitados um sobre o outro; uma bebé gritando, não querendo sair de um rectângulo mais saliente do chão (que foi a única peça que, aliás, interessou a esta exigente crítica de Arte), insistindo em mexer nas obras - nomeadamente numa corda estendida no chão entre dois caixotes... que devo confessar que já não se encontra exactamente na mesma posição em que a vimos quando chegámos: será ainda uma obra de Arte? Uma instalação? Com o mesmo sentido, o mesmo significado, o mesmo desígnio, depois das ligeiras alterações promovidas por uma bebé irrequieta...?
O meu filho fazia, entretanto, cenas de ciumes porque a irmã não o abraçava; a irmã berrava almadamente (ou seja, com toda a sua alma, e não, como se diz, «desalmadamente»); depois, o Duarte aproximava-se de mim, segredava-me, excitadíssimo, lembrando-se do casal nu: «Mas ele não estava com a pila dentro dela, porquê? Não era para estar?» - e queria voltar atrás, e zangava-se com a irmã, e a irmã com ele.
Os seguranças seguiam-nos, num cordão apertado, atento, como se fossemos os ladrões do «Grito», detectados ali. Um deles, muito alto, muito negro, ria-se de tudo aquilo, com uns dentes a brilhar, enormes, alvíssimos. Os outros não riam. Preocupavam-se. Eu sentia que incomodávamos os demais casais, os velhinhos, os visitantes, a todos menos ao segurança negro de dentes brancos, que se divertia com o espectáculo...
O surrealismo, de que a nossa família nasceu, e que nasceu certamente, enquanto corrente artística, de um episódio como esta nossa visita, misturando o quotidiano com o onírico, o normal com o anormal, o bizarro e o impossível, nunca perece. Já nas salas de cima, desculpem-me, a pop-Art cansa, com as suas colagens, a sua confusão entre realismo e banda desenhada...
É a análise possível. Porque, mais à frente, a minha filha se prepara para subir a uma instalação.
Enquanto o meu filho volta à carga, de mãos nos bolsos:
«Mas ela tinha pêlos no pipi?»
O que, em relação à colecção Joe Berardo, se revelou um projecto suicida, foi a peregrina ideia de a visitar em família, ou seja, com uma mulher esgotada pelo facto de terem começado as suas férias, um adolescente de doze anos, misto de homem-aranha e de incrível Hulk, todo ele energia duendia à solta (quer dizer, uma energia de duende, instável, desequilibrada, magnífica) e uma criança de vinte e dois ou vinte e três meses...
Num episódio destes radica todo o surrealismo, a génese do próprio surrealismo, tão caro a Berardo: um pai de óculos, barba por fazer, calções e pernas muito brancas, norteado pela bizarra ideia de interessar a família em pintura, fotografia e escultura; uma mãe que se arrasta, ansiosa por que as recém-iniciadas férias acabem e ela possa regressar depressa à paz do seu serviço; um garoto que, de toda a colecção, se fixou para todo o sempre na escultura de um homem e uma mulher nus, no chão, deitados um sobre o outro; uma bebé gritando, não querendo sair de um rectângulo mais saliente do chão (que foi a única peça que, aliás, interessou a esta exigente crítica de Arte), insistindo em mexer nas obras - nomeadamente numa corda estendida no chão entre dois caixotes... que devo confessar que já não se encontra exactamente na mesma posição em que a vimos quando chegámos: será ainda uma obra de Arte? Uma instalação? Com o mesmo sentido, o mesmo significado, o mesmo desígnio, depois das ligeiras alterações promovidas por uma bebé irrequieta...?
O meu filho fazia, entretanto, cenas de ciumes porque a irmã não o abraçava; a irmã berrava almadamente (ou seja, com toda a sua alma, e não, como se diz, «desalmadamente»); depois, o Duarte aproximava-se de mim, segredava-me, excitadíssimo, lembrando-se do casal nu: «Mas ele não estava com a pila dentro dela, porquê? Não era para estar?» - e queria voltar atrás, e zangava-se com a irmã, e a irmã com ele.
Os seguranças seguiam-nos, num cordão apertado, atento, como se fossemos os ladrões do «Grito», detectados ali. Um deles, muito alto, muito negro, ria-se de tudo aquilo, com uns dentes a brilhar, enormes, alvíssimos. Os outros não riam. Preocupavam-se. Eu sentia que incomodávamos os demais casais, os velhinhos, os visitantes, a todos menos ao segurança negro de dentes brancos, que se divertia com o espectáculo...
O surrealismo, de que a nossa família nasceu, e que nasceu certamente, enquanto corrente artística, de um episódio como esta nossa visita, misturando o quotidiano com o onírico, o normal com o anormal, o bizarro e o impossível, nunca perece. Já nas salas de cima, desculpem-me, a pop-Art cansa, com as suas colagens, a sua confusão entre realismo e banda desenhada...
É a análise possível. Porque, mais à frente, a minha filha se prepara para subir a uma instalação.
Enquanto o meu filho volta à carga, de mãos nos bolsos:
«Mas ela tinha pêlos no pipi?»
domingo, julho 29, 2007
DA INSENSIBILIDADE COMO CATEGORIA POLÍTICA
Pois para festejarmos o modo como este governo clamorosamente agora caiu, e os ministros...
Peço perdão, houve uma troca de rascunhos, pelo que iniciei o presente «post» com uma frase que tenho ciosamente guardada para o devido momento.
Reiniciemos, pois:
Com a sua voz grave e tensa, de quem tem um dramático e permanente segredo para nos revelar, que parece queimar-lhe a garganta, Francisco Louçã confidenciou-nos: «Este governo não gosta das pessoas.»
Francisco Louçã perdeu, nos últimos anos, muito do interesse que me suscitara, mas, por uma vez, acertou no alvo de uma forma que chega a doer.
Em todas as decisões que têm chocado, e sobretudo em zonas tão delicadas como a Educação ou a Saúde, o governo tem revelado uma insensibilidade que nenhum discurso ministerial consegue esconder. Norteia-o a ideia de que há que fazer progredir o país segundo os critérios da Comunidade Europeia, no que toca a números visíveis, mas à custa das pessoas, das famílias, num total desrespeito pelo sofrimento concreto.
Pode o primeiro-ministro confessar-se chocado com as situações, sistematicamente vindas a lume, de recusa de aposentação a professores obrigados, desculpem-me a crueza das palavras, a morrer nas escolas; o certo é que, para que estes factos tenham sido possíveis, e durante tanto tempo - e com conhecimento da ministra da Educação, como a própria afirmou -, não só é necessário que esta espécie de anestesia dos sentimentos tenha crescido e estendido os seus efeitos um pouco por todos os departamentos sob responsabilidade do governo, como, à sua luz, se torna bruscamente compreensível que o governo tenha considerado uma medida aceitável travar e estancar todas as mudanças de escalão dos funcionários públicos e dos professores por um período prolongado, que um senhor seja posto na berlinda pelo uso da sua opinião, com palavras excessivas ou não...
Tudo, as mais dispersas e inesperadas medidas encontram, se não mais, este pequeno mas duro ponto comum, este mínimo mas forte fio condutor.
Irão, certamente, objectar-me que há demasiada subjectividade na minha análise, que algo como a «insensibilidade» não constitui uma categoria política; como é evidente, discordo completamente da objecção: por insensibilidade, entenda-se, não se discute se o primeiro-ministro ou qualquer um dos seus ministros são capazes de se comover em funerais, ou lacrimejar diante de um filme triste; não se discute até que ponto, como pessoa, o senhor José Sócrates, ao tomar conhecimento de alguns casos de professores obrigados a arrastar os respectivos cancros pelas escolas, não será capaz de sentir um aguilhão na consciência ou um aperto no coração. A insensibilidade de que vos falo é perfeitamente objectiva. E política. Tem que ver com um determinado espírito que condiciona as decisões, que determina as prioridades, que hierarquiza o que é importante e que, no momento das escolhas, concentra a atenção em certos aspectos ocultando à nossa atenção os outros - chamemos-lhes pormenores. Não tem conteúdo, não é, em si, um valor, muito menos um programa, mas algo que se aproximaria de uma atitude, sendo que o termo «atitude» é vago e, pessoalmente, lhe prefiro a expressão «forma»: trata-se, portanto, de uma forma de governação assumida pelo governo, multiplicada - e clonada -, por todos os ministros, secretários, sub-secretários, assessores, contínuos, porteiros, presente em todos os ministérios, copiada ao exemplo que vem de cima, natural e espontaneamente espalhada, forma à qual os amigos do governo chamariam «determinação», os inimigos «obstinação» e se apresenta, nos mais diversos casos, como pura «insensibilidade».
É claramente uma categoria política - situada naquele ponto invisível onde a política se cruza com a moral.
Peço perdão, houve uma troca de rascunhos, pelo que iniciei o presente «post» com uma frase que tenho ciosamente guardada para o devido momento.
Reiniciemos, pois:
Com a sua voz grave e tensa, de quem tem um dramático e permanente segredo para nos revelar, que parece queimar-lhe a garganta, Francisco Louçã confidenciou-nos: «Este governo não gosta das pessoas.»
Francisco Louçã perdeu, nos últimos anos, muito do interesse que me suscitara, mas, por uma vez, acertou no alvo de uma forma que chega a doer.
Em todas as decisões que têm chocado, e sobretudo em zonas tão delicadas como a Educação ou a Saúde, o governo tem revelado uma insensibilidade que nenhum discurso ministerial consegue esconder. Norteia-o a ideia de que há que fazer progredir o país segundo os critérios da Comunidade Europeia, no que toca a números visíveis, mas à custa das pessoas, das famílias, num total desrespeito pelo sofrimento concreto.
Pode o primeiro-ministro confessar-se chocado com as situações, sistematicamente vindas a lume, de recusa de aposentação a professores obrigados, desculpem-me a crueza das palavras, a morrer nas escolas; o certo é que, para que estes factos tenham sido possíveis, e durante tanto tempo - e com conhecimento da ministra da Educação, como a própria afirmou -, não só é necessário que esta espécie de anestesia dos sentimentos tenha crescido e estendido os seus efeitos um pouco por todos os departamentos sob responsabilidade do governo, como, à sua luz, se torna bruscamente compreensível que o governo tenha considerado uma medida aceitável travar e estancar todas as mudanças de escalão dos funcionários públicos e dos professores por um período prolongado, que um senhor seja posto na berlinda pelo uso da sua opinião, com palavras excessivas ou não...
Tudo, as mais dispersas e inesperadas medidas encontram, se não mais, este pequeno mas duro ponto comum, este mínimo mas forte fio condutor.
Irão, certamente, objectar-me que há demasiada subjectividade na minha análise, que algo como a «insensibilidade» não constitui uma categoria política; como é evidente, discordo completamente da objecção: por insensibilidade, entenda-se, não se discute se o primeiro-ministro ou qualquer um dos seus ministros são capazes de se comover em funerais, ou lacrimejar diante de um filme triste; não se discute até que ponto, como pessoa, o senhor José Sócrates, ao tomar conhecimento de alguns casos de professores obrigados a arrastar os respectivos cancros pelas escolas, não será capaz de sentir um aguilhão na consciência ou um aperto no coração. A insensibilidade de que vos falo é perfeitamente objectiva. E política. Tem que ver com um determinado espírito que condiciona as decisões, que determina as prioridades, que hierarquiza o que é importante e que, no momento das escolhas, concentra a atenção em certos aspectos ocultando à nossa atenção os outros - chamemos-lhes pormenores. Não tem conteúdo, não é, em si, um valor, muito menos um programa, mas algo que se aproximaria de uma atitude, sendo que o termo «atitude» é vago e, pessoalmente, lhe prefiro a expressão «forma»: trata-se, portanto, de uma forma de governação assumida pelo governo, multiplicada - e clonada -, por todos os ministros, secretários, sub-secretários, assessores, contínuos, porteiros, presente em todos os ministérios, copiada ao exemplo que vem de cima, natural e espontaneamente espalhada, forma à qual os amigos do governo chamariam «determinação», os inimigos «obstinação» e se apresenta, nos mais diversos casos, como pura «insensibilidade».
É claramente uma categoria política - situada naquele ponto invisível onde a política se cruza com a moral.
sábado, junho 30, 2007
O ESPECTÁCULO MAIS CARO E MAIS BREVE DO MUNDO
A Brigada de Trânsito multou-me. Ou, como eles dizem, autuou-me.
Tinham razão, e eu não: falava despudoradamente ao telemóvel enquanto conduzia, marginal afora. Dei por eles no momento em que me ultrapassaram, vagarosos, como se, de repente, tudo tivesse principiado a mover-se em câmara lenta; tudo, com excepção do meu coração, que disparou a uma velocidade que teria certamente merecido, também, ser «autuada».
Durante algum tempo, não fizeram nada: mantiveram-se à minha frente, rolando com serenidade. Nem gestos, nem sirenes, nem gritos por megafone. Cheguei a pensar, numa ingenuidade digna de uma terceira multa, que talvez não tivessem reparado no pormenor do telemóvel que, entretanto, desligara, e que chamava agora por mim, assinalando o desespero da pessoa a quem eu interrompera a conversa sem pré-aviso. Pensei em ultrapassá-los, por minha vez. Não o fiz. Mantive-me atento, tenso, atrás deles, pisando ovos...
Até que, ao aproximarmo-nos de uma saída, a mão peluda de um dos dois agentes indicou pela janela da viatura, com firmeza, que me queriam atrás deles por aquele desvio.
Saímos. Pararam, parei. Um jovem de óculos escuros e boné periclitante sobre a cabeça dirigiu-se-me. Eu balbuciava desculpas, explicava mentirosamente que não tinha esse hábito, que fora uma emergência, mas o homem limitava-se a insistir pelos meus documentos.
A única parte interessante de toda aquela sessão foi, do meu ponto de vista, constituída pelo momento em que uma rabanada de vento fez voar da cabeça do jovem agente o seu boné, fazendo-me compreender a dureza da sua missão: não é fácil perseguir bandidos com uma mão tendo de pressionar constantemente a tampa de um boné que não encaixa com perfeição na cabeça. Infelizmente, devo confessar que esse momento de humor e relaxamento foi demasiado breve para tamanho preço. Custou-me cento e vinte euros. Suponho que numa revista do Parque Mayer também me poderia ter rido do típico polícia à portuguesa por menos dinheiro...
Se eu fosse uma criança, ou um anarquista, ou um tipo sem moral, incapaz de respeito pela Lei, ter-me-ia dado ao trabalho de congeminar um plano para futuras situações. Por exemplo, passar a andar sempre com dois telemóveis no carro: um normal, o outro completamente avariado.
Mandado parar por falar ao telemóvel durante a condução, esconderia imediatamente o bom; apresentaria, ao agente, o estragado, dizendo-lhe:
- Mas eu não estava a falar ao telemóvel, senhor guarda. Já viu o estado dele? Como é que eu podia falar nisto? Encostara-o simplesmente ao ouvido para tentar perceber se teria arranjo. E não tem, não tem, já viu isto? Foi o meu filho e blá-blá-blá...
Se eu não passasse de um adolescente, claro, desses com aparelho nos dentes e que sangram do nariz por tudo e por nada. Ou de um anarquista. Ou de um Fora-da-lei. Ou se não fosse um professor a trabalhar pelo honroso posto de titular...!
Tinham razão, e eu não: falava despudoradamente ao telemóvel enquanto conduzia, marginal afora. Dei por eles no momento em que me ultrapassaram, vagarosos, como se, de repente, tudo tivesse principiado a mover-se em câmara lenta; tudo, com excepção do meu coração, que disparou a uma velocidade que teria certamente merecido, também, ser «autuada».
Durante algum tempo, não fizeram nada: mantiveram-se à minha frente, rolando com serenidade. Nem gestos, nem sirenes, nem gritos por megafone. Cheguei a pensar, numa ingenuidade digna de uma terceira multa, que talvez não tivessem reparado no pormenor do telemóvel que, entretanto, desligara, e que chamava agora por mim, assinalando o desespero da pessoa a quem eu interrompera a conversa sem pré-aviso. Pensei em ultrapassá-los, por minha vez. Não o fiz. Mantive-me atento, tenso, atrás deles, pisando ovos...
Até que, ao aproximarmo-nos de uma saída, a mão peluda de um dos dois agentes indicou pela janela da viatura, com firmeza, que me queriam atrás deles por aquele desvio.
Saímos. Pararam, parei. Um jovem de óculos escuros e boné periclitante sobre a cabeça dirigiu-se-me. Eu balbuciava desculpas, explicava mentirosamente que não tinha esse hábito, que fora uma emergência, mas o homem limitava-se a insistir pelos meus documentos.
A única parte interessante de toda aquela sessão foi, do meu ponto de vista, constituída pelo momento em que uma rabanada de vento fez voar da cabeça do jovem agente o seu boné, fazendo-me compreender a dureza da sua missão: não é fácil perseguir bandidos com uma mão tendo de pressionar constantemente a tampa de um boné que não encaixa com perfeição na cabeça. Infelizmente, devo confessar que esse momento de humor e relaxamento foi demasiado breve para tamanho preço. Custou-me cento e vinte euros. Suponho que numa revista do Parque Mayer também me poderia ter rido do típico polícia à portuguesa por menos dinheiro...
Se eu fosse uma criança, ou um anarquista, ou um tipo sem moral, incapaz de respeito pela Lei, ter-me-ia dado ao trabalho de congeminar um plano para futuras situações. Por exemplo, passar a andar sempre com dois telemóveis no carro: um normal, o outro completamente avariado.
Mandado parar por falar ao telemóvel durante a condução, esconderia imediatamente o bom; apresentaria, ao agente, o estragado, dizendo-lhe:
- Mas eu não estava a falar ao telemóvel, senhor guarda. Já viu o estado dele? Como é que eu podia falar nisto? Encostara-o simplesmente ao ouvido para tentar perceber se teria arranjo. E não tem, não tem, já viu isto? Foi o meu filho e blá-blá-blá...
Se eu não passasse de um adolescente, claro, desses com aparelho nos dentes e que sangram do nariz por tudo e por nada. Ou de um anarquista. Ou de um Fora-da-lei. Ou se não fosse um professor a trabalhar pelo honroso posto de titular...!
quarta-feira, junho 20, 2007
UMA TEORIA SOBRE A BOA EDUCAÇÃO E OS EQUÍVOCOS QUE GERA
Já percebi muito bem que alguma coisa, no modo como entro numa secretaria ou num qualquer serviço administrativo, envia sinais que os senhores que me atendem interpretam sempre como submissão, receio, inferioridade. Não sei que sinais sejam. Talvez excesso de suor, excesso de gestualidade, excesso de explicações, excesso de delicadeza. Alguma coisa, que não consigo identificar, quanto mais controlar em mim, faz os senhores e as senhoras que se encontram aos balcões das secretarias, puxar da sua arrogância, da sua prepotência, de uns esgares de impaciência e desdém, de uma secura especial em resposta às minhas desajeitadas tentativas de humor.
Falo a sério. Se esses sinais têm tanta importância entre os cães ou entre os lobos, ou mesmo entre os peixes, que não são criaturas conhecidas pela sua inteligência, se é fácil animais da mesma espécie reconhecerem quem lidera, e quem se acoita na subserviência, pelo modo como um deles exibe o ventre vulnerável aos dentes do outro, ou oferece o cachaço, ou espera pacientemente pela sua vez na partilha da presa, como não haveriam os seres humanos de reagir a sinais porventura ainda mais subtis? Não é preciso que eu me estenda no chão, mostrando o meu ventre; há certamente sinais imperceptíveis mas que, a um determinado nível, subliminarmente, não deixam de ter efeito.
Mas eu tenho uma teoria: a democracia, de algum modo, baralhou a lógica e o sentido desses sinais. (O facto parece-me tão evidente e compreensível, que não acredito que haja quem tome por anti-democrática a sua verificação. Enfim, nunca se sabe. Algumas pessoas são realmente muito burras...!)
A delicadeza, a etiqueta, a chamada boa educação, sempre foram a sofisticação da elite: uma pessoa deixar outra passar primeiro pela porta, alguém levantar-se para oferecer o seu lugar, ou descobrir-se diante de outrem, não eram propriamente gestos que indicassem submissão ou inferioridade. Eram, pelo contrário, uma garantia da educação esmerada - e um sinal de reconhecimento de um eleito, de um fidalgo, de um cavalheiro. Hoje, quando frequentamos (ou podemos frequentar) as mesmas escolas, aceder aos mesmos empregos e, pelo menos aparentemente, nos tornámos todos iguais, os sinais tornam-se equívocos - porque se eu deixo o bruto passar-me à frente, o bruto pensa: «Ah, ele reconhece que eu sou mais importante! Primeiro eu, depois ele...!»; se for uma mulher (que não sabe nem perceberia que eu deixo sempre passar primeiro quem quer que esteja comigo, e o não faço unicamente por se tratar de uma mulher), será capaz de me admoestar, como já algumas mo fizeram, do alto do seu assumido e estreito feminismo: «Isso já não se usa!»
São, quem sabe?, esta delicadeza incompreendida e dinossáurica, este dirigir-se ainda às pessoas com «por favor» e «desculpe», este não passar à frente nem pôr-se em bicos de pés, que, para um funcionário de secretaria, se traduzem de imediato como: «Grite-me aos ouvidos, enxovalhe-me, pontapeie-me que eu estou inibido e tenho muito medo de si!»
É a minha teoria
Falo a sério. Se esses sinais têm tanta importância entre os cães ou entre os lobos, ou mesmo entre os peixes, que não são criaturas conhecidas pela sua inteligência, se é fácil animais da mesma espécie reconhecerem quem lidera, e quem se acoita na subserviência, pelo modo como um deles exibe o ventre vulnerável aos dentes do outro, ou oferece o cachaço, ou espera pacientemente pela sua vez na partilha da presa, como não haveriam os seres humanos de reagir a sinais porventura ainda mais subtis? Não é preciso que eu me estenda no chão, mostrando o meu ventre; há certamente sinais imperceptíveis mas que, a um determinado nível, subliminarmente, não deixam de ter efeito.
Mas eu tenho uma teoria: a democracia, de algum modo, baralhou a lógica e o sentido desses sinais. (O facto parece-me tão evidente e compreensível, que não acredito que haja quem tome por anti-democrática a sua verificação. Enfim, nunca se sabe. Algumas pessoas são realmente muito burras...!)
A delicadeza, a etiqueta, a chamada boa educação, sempre foram a sofisticação da elite: uma pessoa deixar outra passar primeiro pela porta, alguém levantar-se para oferecer o seu lugar, ou descobrir-se diante de outrem, não eram propriamente gestos que indicassem submissão ou inferioridade. Eram, pelo contrário, uma garantia da educação esmerada - e um sinal de reconhecimento de um eleito, de um fidalgo, de um cavalheiro. Hoje, quando frequentamos (ou podemos frequentar) as mesmas escolas, aceder aos mesmos empregos e, pelo menos aparentemente, nos tornámos todos iguais, os sinais tornam-se equívocos - porque se eu deixo o bruto passar-me à frente, o bruto pensa: «Ah, ele reconhece que eu sou mais importante! Primeiro eu, depois ele...!»; se for uma mulher (que não sabe nem perceberia que eu deixo sempre passar primeiro quem quer que esteja comigo, e o não faço unicamente por se tratar de uma mulher), será capaz de me admoestar, como já algumas mo fizeram, do alto do seu assumido e estreito feminismo: «Isso já não se usa!»
São, quem sabe?, esta delicadeza incompreendida e dinossáurica, este dirigir-se ainda às pessoas com «por favor» e «desculpe», este não passar à frente nem pôr-se em bicos de pés, que, para um funcionário de secretaria, se traduzem de imediato como: «Grite-me aos ouvidos, enxovalhe-me, pontapeie-me que eu estou inibido e tenho muito medo de si!»
É a minha teoria
terça-feira, maio 22, 2007
A LIBERDADE DE PROIBIR QUE SE SEJA LIVRE DE FUMAR
Perante este poderoso e virtuoso tsunami que é a tentativa de liquidação dos fumadores, venho sentindo a necessidade de dizer uma, talvez duas coisas. Fá-lo-ei, ainda por cima, na posição imperdoável de traidor à minha classe de origem: a de não-fumador.
Fumar tornou-se, aos olhos moralistas e moralizadores do senso comum contemporâneo, num crime terrível, quase ao nível da pedofilia. De um momento para o outro, a sociedade passou a ver no acto de abrir um maço, puxar de um cigarro, levá-lo à boca, acendê-lo, uma espécie de degradação, misto de suicídio lento e de lento homicídio com alguma responsabilidade também na destruição do ambiente.
Fumar é visto como um acto sujo. Fisicamente sujo, porque se trata de contaminar os pulmões e o ar - e os dentes, e os dedos - mas também moralmente sujo, porque se trata de conformar-se ao vício. Multiplicam-se campanhas, ostentam-se fotografias de órgãos completamente destruídos, fala-se das doenças e, suprema humilhação, adverte-se, nos próprios maços, como se os fumadores o não soubessem ou pudessem esquecê-lo, que o tabaco torna impotente, mata, emporcalha o corpo e a alma.
Finalmente, proíbe-se que se fume: e os portugueses, sondados sobre a questão, acham bem; os portugueses gostariam, porventura, que se fosse mais longe; que os fumadores fossem impedidos de fumar em bares, em salões de fumo, em qualquer lado, em todo o lado...
A tirania espreita sob este ideal de um mundo politicamente correcto, perfeito, sem fumadores, nem touradas, nem circos, nem anedotas sobre Alentejanos, ou loiras, ou pretos; sem escolhas, nem risos, nem discordâncias. A mais tremenda das intolerâncias acoita-se, paradoxalmente, nesta pregação da «tolerância justa», que se poderia traduzir no seguinte lema: temos de ser tolerantes com todos aqueles sujeitos «diferentes» que venham enunciados na nossa cartilha - o que significa, ao mesmo tempo, banir e proscrever os «diferentes» errados, os que são capazes de apreciar (por exemplo) espectáculos bárbaros, ou de apreciar um charuto poluidor, ou os cínicos, ou os descrentes...
No meio de tudo, como não-fumador que não gosta que lhe fumem para ao rosto, é certo, e não se cala quando o cigarro incomoda, por exemplo se almoço num restaurante, mas não aceita que queiram proibir o cigarro como possibilidade, como direito, como escolha, apetece-me recordar que o acto de fumar é um acto cultural e mítico, imbuído de simbolismo e de estilo; que pode ser um acto de uma beleza e de uma sensualidade extremas, que a memória do cinema transporta desde sempre; que não é possível evocarmos determinadas imagens ou pessoas sem que se lhes associe o cigarro, de Bogart a Brando, de Malraux a Guevara, de Lucky Luke a Gainsbourg, passando pela Dietrich ou pela Simone de Beauvoir; que foi - e é - tantas vezes um gesto de rebeldia e provocação, que o foi sempre de emancipação, e de aproximação, de comunicação, sedução; ou, como se tudo não bastasse, que é um prazer, um gosto - antes de ser um vício, ou para além de o ser. Ou: ao mesmo tempo que o é.
Tudo isto se paga? Sem dúvida. Em dinheiro, em saúde, em rupturas. Não sei se compensará. Para alguns, teimosos resistentes, fumadores ferrenhos, parece-me óbvio que sim. Sei, como não-fumador assumido, contudo - e estou perfeitamente consciente de cada uma das palavras que passarei a escrever -, que um mundo do qual o tabaco fosse inteiramente banido, juntamente com a elegância do gesto de puxar de um cigarro, ou o de bater com ele sobre o maço, como que para o endireitar - coisa que já não vejo fazer tão frequentemente como via na minha infância -, ou de o acender com o tremeluzir amarelo-azul da chama de um isqueiro, seria um mundo mais pobre, mais seco, mais triste e mais despojado em termos simbólicos, míticos, culturais.
Sei que um mundo em que proibissem Humphrey Bogart de fumar - ou me proibissem de o evocar mergulhado no fumo ténue do seu eterno cigarro - seria um mundo menos rico. E menos livre.
Fumar tornou-se, aos olhos moralistas e moralizadores do senso comum contemporâneo, num crime terrível, quase ao nível da pedofilia. De um momento para o outro, a sociedade passou a ver no acto de abrir um maço, puxar de um cigarro, levá-lo à boca, acendê-lo, uma espécie de degradação, misto de suicídio lento e de lento homicídio com alguma responsabilidade também na destruição do ambiente.
Fumar é visto como um acto sujo. Fisicamente sujo, porque se trata de contaminar os pulmões e o ar - e os dentes, e os dedos - mas também moralmente sujo, porque se trata de conformar-se ao vício. Multiplicam-se campanhas, ostentam-se fotografias de órgãos completamente destruídos, fala-se das doenças e, suprema humilhação, adverte-se, nos próprios maços, como se os fumadores o não soubessem ou pudessem esquecê-lo, que o tabaco torna impotente, mata, emporcalha o corpo e a alma.
Finalmente, proíbe-se que se fume: e os portugueses, sondados sobre a questão, acham bem; os portugueses gostariam, porventura, que se fosse mais longe; que os fumadores fossem impedidos de fumar em bares, em salões de fumo, em qualquer lado, em todo o lado...
A tirania espreita sob este ideal de um mundo politicamente correcto, perfeito, sem fumadores, nem touradas, nem circos, nem anedotas sobre Alentejanos, ou loiras, ou pretos; sem escolhas, nem risos, nem discordâncias. A mais tremenda das intolerâncias acoita-se, paradoxalmente, nesta pregação da «tolerância justa», que se poderia traduzir no seguinte lema: temos de ser tolerantes com todos aqueles sujeitos «diferentes» que venham enunciados na nossa cartilha - o que significa, ao mesmo tempo, banir e proscrever os «diferentes» errados, os que são capazes de apreciar (por exemplo) espectáculos bárbaros, ou de apreciar um charuto poluidor, ou os cínicos, ou os descrentes...
No meio de tudo, como não-fumador que não gosta que lhe fumem para ao rosto, é certo, e não se cala quando o cigarro incomoda, por exemplo se almoço num restaurante, mas não aceita que queiram proibir o cigarro como possibilidade, como direito, como escolha, apetece-me recordar que o acto de fumar é um acto cultural e mítico, imbuído de simbolismo e de estilo; que pode ser um acto de uma beleza e de uma sensualidade extremas, que a memória do cinema transporta desde sempre; que não é possível evocarmos determinadas imagens ou pessoas sem que se lhes associe o cigarro, de Bogart a Brando, de Malraux a Guevara, de Lucky Luke a Gainsbourg, passando pela Dietrich ou pela Simone de Beauvoir; que foi - e é - tantas vezes um gesto de rebeldia e provocação, que o foi sempre de emancipação, e de aproximação, de comunicação, sedução; ou, como se tudo não bastasse, que é um prazer, um gosto - antes de ser um vício, ou para além de o ser. Ou: ao mesmo tempo que o é.
Tudo isto se paga? Sem dúvida. Em dinheiro, em saúde, em rupturas. Não sei se compensará. Para alguns, teimosos resistentes, fumadores ferrenhos, parece-me óbvio que sim. Sei, como não-fumador assumido, contudo - e estou perfeitamente consciente de cada uma das palavras que passarei a escrever -, que um mundo do qual o tabaco fosse inteiramente banido, juntamente com a elegância do gesto de puxar de um cigarro, ou o de bater com ele sobre o maço, como que para o endireitar - coisa que já não vejo fazer tão frequentemente como via na minha infância -, ou de o acender com o tremeluzir amarelo-azul da chama de um isqueiro, seria um mundo mais pobre, mais seco, mais triste e mais despojado em termos simbólicos, míticos, culturais.
Sei que um mundo em que proibissem Humphrey Bogart de fumar - ou me proibissem de o evocar mergulhado no fumo ténue do seu eterno cigarro - seria um mundo menos rico. E menos livre.
terça-feira, maio 15, 2007
AFORISMOS
O melhor critério para se identificar um paranóico: a coerência da sua interpretação é inatacável e a história que ele conta explica, efectivamente, os pormenores inexplicáveis...
quinta-feira, abril 26, 2007
CRÍTICA TELEVISIVA
Tenho, como aforismo pessoal que a experiência parece insistir em confirmar, a convicção de que as coisas com que mais aprendemos nesta vida não são as coisas bem feitas: são, precisamente pelo contrário, as mal feitas.
Em televisão, o aforismo é continuamente validado.
Há um programa da tarde, com um público-que-aplaude-ao-vivo, construído segundo um conceito que tem como alvo as mulheres idosas e as donas-de-casa, frustradas, de lágrima fácil, e que eu principio sempre por ver ociosamente (e até com aquele ligeiro ar de enfado que, nestas coisas, convém a um intelectual que se preza), mas que, no seguimento, acaba por me prender com a força de um «thriller»; pois bem: afianço-vos que esse programa tem sido, para mim, um verdadeiro poço de ensinamentos.
Para já, ensina-me a que ponto pode descer a tonteria, o desejo de aparecer em televisão, de ganhar uns prémios pindéricos ou a simplicidade com que se consegue fazer rir. Mas mais: depois, a propósito disto ou daquilo, há sempre umas quantas lições a retirar - muitas vezes, carregadas de consequências para outros campos, para outras áreas de interesse.
Neste último programa, tive, diante dos olhos, a razão clara (de que, às vezes, posso esquecer-me no meu dia-a-dia profissional) pela qual um professor nunca deve ir para uma aula sem a ter preparado convenientemente.
Os sucessivos desastres a que a apresentadora foi conduzida pelo facto de não haver preparado as entrevistas com aquelas velhinhas, sobre os «escapes» que tinham encontrado para afugentar os azares e as tristezas da vida.
Assistimos a coisas do género de: «Eu soube que gosta muito de ler», «Ah, quem me dera, não, minha senhora, infelizmente não sei ler», ou: «Já estou a ver que é Alentejana», «Não, sou da Beira-Baixa», ou: «É verdade que não esteve para aturar o seu marido durante muito tempo?», «Ele morreu» (será que foi a senhora que o assassinou, para não o «aturar durante muito tempo»?)
Um programa didáctico, da BBC, poderia ter tido esta força sobre mim, este poder de ilustração e de me colocar perante mim próprio? Duvido.
Bem-haja, TVI.
Em televisão, o aforismo é continuamente validado.
Há um programa da tarde, com um público-que-aplaude-ao-vivo, construído segundo um conceito que tem como alvo as mulheres idosas e as donas-de-casa, frustradas, de lágrima fácil, e que eu principio sempre por ver ociosamente (e até com aquele ligeiro ar de enfado que, nestas coisas, convém a um intelectual que se preza), mas que, no seguimento, acaba por me prender com a força de um «thriller»; pois bem: afianço-vos que esse programa tem sido, para mim, um verdadeiro poço de ensinamentos.
Para já, ensina-me a que ponto pode descer a tonteria, o desejo de aparecer em televisão, de ganhar uns prémios pindéricos ou a simplicidade com que se consegue fazer rir. Mas mais: depois, a propósito disto ou daquilo, há sempre umas quantas lições a retirar - muitas vezes, carregadas de consequências para outros campos, para outras áreas de interesse.
Neste último programa, tive, diante dos olhos, a razão clara (de que, às vezes, posso esquecer-me no meu dia-a-dia profissional) pela qual um professor nunca deve ir para uma aula sem a ter preparado convenientemente.
Os sucessivos desastres a que a apresentadora foi conduzida pelo facto de não haver preparado as entrevistas com aquelas velhinhas, sobre os «escapes» que tinham encontrado para afugentar os azares e as tristezas da vida.
Assistimos a coisas do género de: «Eu soube que gosta muito de ler», «Ah, quem me dera, não, minha senhora, infelizmente não sei ler», ou: «Já estou a ver que é Alentejana», «Não, sou da Beira-Baixa», ou: «É verdade que não esteve para aturar o seu marido durante muito tempo?», «Ele morreu» (será que foi a senhora que o assassinou, para não o «aturar durante muito tempo»?)
Um programa didáctico, da BBC, poderia ter tido esta força sobre mim, este poder de ilustração e de me colocar perante mim próprio? Duvido.
Bem-haja, TVI.
quinta-feira, abril 12, 2007
UM VULCÃO EM ACTIVIDADE NA ESCOLA
Não planeara participar, com uma turma de dez ou onze alunos, naquela comunicação/debate acerca de imigração. Tratou-se de um convite de última hora e, por «última hora», refiro o intervalo imediatamente anterior ao encontro. Mas porque o momento é, na vida do país, crucial para uma reflexão acerca da imigração e porque a minha pequena turma é constituída, precisamente, por pessoas originárias de Cabo-Verde, Angola e Timor, pareceu-me criminoso perder a oportunidade.
Naturalmente, o que se espera de um encontro deste tipo é, num certo sentido, relativamente pouco e relativamente pobre. Algumas banalidades e algumas ideias feitas, boas intenções e palavras virtuosas, ou seja, o desfiar da habitual cartilha de lugares-comuns «politicamente correctos».
Contudo, o que aconteceu foi outra coisa.
A moderadora, Cristina, muito jovem, que se preparara, talvez, para esse género de conferência «politicamente correcta», virtuosa e moralizadora acerca dos imigrantes, viu-se, bruscamente, confrontada com um vulcão. Natasha, imigrada da ex-Jugoslávia, mãe de duas alunas da escola, esteve presente: entrara tarde, irrompendo e interrompendo exuberantemente, provocando gargalhadas mas, em pouco tempo, conquistando o auditório, intervindo, questionando sistematicamente, interpelando, discordando. E o mais interessante de tudo foi que Cristina que, demasiado jovem, poderia ter-se desequilibrado perante aquela torrente, ou manifestar incómodo, ou remetê-la para o silêncio, soube, pelo contrário e, de facto, brilhantemente, estabelecer o diálogo enriquecedor, aproveitar-lhe as intervenções, criar-lhe o palco, desafiá-la para contar a própria história, para rememorar a própria experiência, as dificuldades com que se debateu num país estranho, a solidão, a saudade.
Natasha fê-lo com um à-vontade e um brilho intensos, com uma luminosidade inenarrável, no seu português desinibido e carregado.
Os mesmos alunos que, como já é hábito, teriam inicialmente a intenção de boicotar a «seca» que se lhes impunha, rindo e brincando a despropósito, calavam-se, estranhamente, muito atentos, tentando seguir a história dramatizada por aquela mulher, aquela actriz fantástica, história que nos rebentava diante dos olhos, num misto de tristeza, de alegria, de humor. Cristina, a sua interlocutora principal, apoiava-a, estimulava-a; ora falava, informando, adiantando dados, ora se retirava, tranquilamente, sem temer que lhe roubassem o protagonismo, delicada, revelando o raro e discreto génio de fazer sobressair os outros, ao invés de querer sobressair a qualquer preço.
Os alunos conversaram, perguntaram, intervieram, Cristina fez ainda ouvir a voz gravada de uma imigrada Cabo-Verdiana, escutada num silêncio religioso, Natasha deu receitas da sua terra e quis ensinar a dançar...
Não diria que foi «informativo», nem «interessante», que também foi; preferiria um adjectivo inabitual para um evento desta natureza: foi belo, foi tudo muito belo; e comovente.
Natasha, que eu já vira representar noutra ocasião, tem sempre o poder, que me embaraça, evidentemente, de me deixar os olhos marejados. É vergonhoso, sobretudo em público e, ainda mais, tratando-se de mim, cultor do cepticismo, da ironia, do sarcasmo e de outras formas de descrença cruel e de pessimismo militante. (Claro, posso usar a velha desculpa: Entrou-me qualquer coisa para o olho...!)
Naturalmente, o que se espera de um encontro deste tipo é, num certo sentido, relativamente pouco e relativamente pobre. Algumas banalidades e algumas ideias feitas, boas intenções e palavras virtuosas, ou seja, o desfiar da habitual cartilha de lugares-comuns «politicamente correctos».
Contudo, o que aconteceu foi outra coisa.
A moderadora, Cristina, muito jovem, que se preparara, talvez, para esse género de conferência «politicamente correcta», virtuosa e moralizadora acerca dos imigrantes, viu-se, bruscamente, confrontada com um vulcão. Natasha, imigrada da ex-Jugoslávia, mãe de duas alunas da escola, esteve presente: entrara tarde, irrompendo e interrompendo exuberantemente, provocando gargalhadas mas, em pouco tempo, conquistando o auditório, intervindo, questionando sistematicamente, interpelando, discordando. E o mais interessante de tudo foi que Cristina que, demasiado jovem, poderia ter-se desequilibrado perante aquela torrente, ou manifestar incómodo, ou remetê-la para o silêncio, soube, pelo contrário e, de facto, brilhantemente, estabelecer o diálogo enriquecedor, aproveitar-lhe as intervenções, criar-lhe o palco, desafiá-la para contar a própria história, para rememorar a própria experiência, as dificuldades com que se debateu num país estranho, a solidão, a saudade.
Natasha fê-lo com um à-vontade e um brilho intensos, com uma luminosidade inenarrável, no seu português desinibido e carregado.
Os mesmos alunos que, como já é hábito, teriam inicialmente a intenção de boicotar a «seca» que se lhes impunha, rindo e brincando a despropósito, calavam-se, estranhamente, muito atentos, tentando seguir a história dramatizada por aquela mulher, aquela actriz fantástica, história que nos rebentava diante dos olhos, num misto de tristeza, de alegria, de humor. Cristina, a sua interlocutora principal, apoiava-a, estimulava-a; ora falava, informando, adiantando dados, ora se retirava, tranquilamente, sem temer que lhe roubassem o protagonismo, delicada, revelando o raro e discreto génio de fazer sobressair os outros, ao invés de querer sobressair a qualquer preço.
Os alunos conversaram, perguntaram, intervieram, Cristina fez ainda ouvir a voz gravada de uma imigrada Cabo-Verdiana, escutada num silêncio religioso, Natasha deu receitas da sua terra e quis ensinar a dançar...
Não diria que foi «informativo», nem «interessante», que também foi; preferiria um adjectivo inabitual para um evento desta natureza: foi belo, foi tudo muito belo; e comovente.
Natasha, que eu já vira representar noutra ocasião, tem sempre o poder, que me embaraça, evidentemente, de me deixar os olhos marejados. É vergonhoso, sobretudo em público e, ainda mais, tratando-se de mim, cultor do cepticismo, da ironia, do sarcasmo e de outras formas de descrença cruel e de pessimismo militante. (Claro, posso usar a velha desculpa: Entrou-me qualquer coisa para o olho...!)
quinta-feira, abril 05, 2007
MAUS ALUNOS E BOAS ALUNAS
Os rapazes e as raparigas da escolaridade obrigatória ou, em resumo, os meninos e as meninas pré-adolescentes e adolescentes são, psicologicamente, muito diferenciáveis. Não só devido a factores de ordem biológica, não só devido a factores de ordem sócio-cultural, mas por uma complexa e intrincadíssima rede de causas orgânicas e educacionais. E os rapazes, que amadurecem com um ritmo próprio (porque desenvolvem aptidões próprias), quer a nível cognitivo, quer a nível afectivo, quer a nível comportamental, estão, por efeito dessas diferenças, destinados a ser os patinhos feios da escola.
O que as instituições do ensino público privilegiam ou, por outras palavras, o que é valorizado pela «escola pública», herdada, no fundo, de um sistema autoritário, apesar de sucessivas e, muitas vezes, caóticas remodelações, é um tipo de «bom aluno» feminino; é um modelo de aluno que só poderia ser uma menina: atenta, tranquila, trabalhadora, cumpridora. Nessas idades, os rapazes dificilmente conseguem corresponder a esse modelo. O seu desenvolvimento é outro, o seu ritmo é diferente - e, em tudo isto, não me parece obra do acaso que as «dislexias», as «hiperactividades» e outras disfunções deste género sejam, em geral, muito mais problemas «masculinos» do que «femininos».
Pergunto-me, diante das minhas turmas, se, de algum modo, os rapazes não são todos, todos eles, naquelas idades, hiperactivos, ou seja, adolescentes incapazes de se concentrar, a não ser parcial e episodicamente, incapazes de se abrir a outrem, incapazes da escuta, ou, simplesmente, de permanecer em silêncio durante muito tempo.
Num regime autoritário, numa escola «à antiga», poderiam sê-lo, naturalmente: estamos a falar da escola salazarista, que molda e modela, que pune e castra. Na escola pós-25 de Abril, em que, por um lado, as relações hierárquicas se modificaram e os valores são, necessariamente, outros (em que, por exemplo, se perdeu o medo em face do poder), mas em que, por outro lado, as expectativas e os critérios dos professores para decidir o que é um «bom aluno» se mantêm inalterados, os rapazes estão em desvantagem.
O sistema não premeia rapazes demasiado rapazes. Não está feito para isso. Varre-os para debaixo do tapete.
O sistema não está preparado para «aturar» outras formas, outros ritmos, outros amadurecimentos, sobretudo se dão maçada aos professores, nem outros interesses, nem um outro tipo de criatividade (que é tipicamente masculina, o que não significa, COMO É EVIDENTE, que não haja uma criatividade feminina) nem uma outra maneira de aprender.
Em termos competitivos (porque o sistema engendra e vive, necessariamente, de uma competição), os rapazes já perderam: os meninos-alunos depreciam-se, não acreditam nas suas capacidades e assumem, à falta de outras saídas, o papel do arruaceiro, do mau aluno orgulhoso de o ser. Abandonam. Só uma minoria - cada vez mais uma minoria - alcança a faculdade.
Os rapazes perderam. O sistema, um sistema que exclui e varre, um sistema feito à medida de um único género, também já perdeu...
O que as instituições do ensino público privilegiam ou, por outras palavras, o que é valorizado pela «escola pública», herdada, no fundo, de um sistema autoritário, apesar de sucessivas e, muitas vezes, caóticas remodelações, é um tipo de «bom aluno» feminino; é um modelo de aluno que só poderia ser uma menina: atenta, tranquila, trabalhadora, cumpridora. Nessas idades, os rapazes dificilmente conseguem corresponder a esse modelo. O seu desenvolvimento é outro, o seu ritmo é diferente - e, em tudo isto, não me parece obra do acaso que as «dislexias», as «hiperactividades» e outras disfunções deste género sejam, em geral, muito mais problemas «masculinos» do que «femininos».
Pergunto-me, diante das minhas turmas, se, de algum modo, os rapazes não são todos, todos eles, naquelas idades, hiperactivos, ou seja, adolescentes incapazes de se concentrar, a não ser parcial e episodicamente, incapazes de se abrir a outrem, incapazes da escuta, ou, simplesmente, de permanecer em silêncio durante muito tempo.
Num regime autoritário, numa escola «à antiga», poderiam sê-lo, naturalmente: estamos a falar da escola salazarista, que molda e modela, que pune e castra. Na escola pós-25 de Abril, em que, por um lado, as relações hierárquicas se modificaram e os valores são, necessariamente, outros (em que, por exemplo, se perdeu o medo em face do poder), mas em que, por outro lado, as expectativas e os critérios dos professores para decidir o que é um «bom aluno» se mantêm inalterados, os rapazes estão em desvantagem.
O sistema não premeia rapazes demasiado rapazes. Não está feito para isso. Varre-os para debaixo do tapete.
O sistema não está preparado para «aturar» outras formas, outros ritmos, outros amadurecimentos, sobretudo se dão maçada aos professores, nem outros interesses, nem um outro tipo de criatividade (que é tipicamente masculina, o que não significa, COMO É EVIDENTE, que não haja uma criatividade feminina) nem uma outra maneira de aprender.
Em termos competitivos (porque o sistema engendra e vive, necessariamente, de uma competição), os rapazes já perderam: os meninos-alunos depreciam-se, não acreditam nas suas capacidades e assumem, à falta de outras saídas, o papel do arruaceiro, do mau aluno orgulhoso de o ser. Abandonam. Só uma minoria - cada vez mais uma minoria - alcança a faculdade.
Os rapazes perderam. O sistema, um sistema que exclui e varre, um sistema feito à medida de um único género, também já perdeu...
domingo, fevereiro 25, 2007
O SAGRADO MOMENTO EM QUE.
Os passarinhos giravam incansavelmente em torno da árvore, pipilando numa autêntica histeria, e eu lembro-me de não ter levado mais do que um minuto a compreender: «Estão a jogar à versão, em pássaro, do jogo das cadeiras. A um sinal, poisam todos nos ramos, e há sempre um que fica de fora...!»
Quando compreendi finalmente o objectivo, atravessei o parque, afastando-me depressa dali. Espirrei. Mau sinal! Ergui a gola do casaco. Não podia apanhar um resfriado neste momento. Não no momento em que entendera o fito dos pássaros, o jogo dos pássaros e, portanto, o sentido do universo.
Entrei na casa velha, de degraus carcomidos, ouvindo uma espécie de eco macabro sob os meus passos incertos. No terceiro andar, sentei-me no chão, exausto, respirando com força, diante da porta esquerda; abracei os meus joelhos, com o queixo fincado neles. Tinha frio. Muito, muito, muito frio. Tremia. Nunca antes, em nenhum outro momento da minha vida, tremera assim. Se eu conseguisse parar o sismo de todo o meu corpo doente e fatigado, se conseguisse pôr-me de pé, se conseguisse bater à porta, tum tum tum, o velho viria abrir-ma, eu contar-lhe-ia o que tinha para lhe contar e talvez (não de certeza mas provavelmente), iria a tempo de salvar o que restava do universo. Caso contrário, seria tarde. Abrir-se-ia, dali a pouco, a outra porta do andar, os vampiros viriam buscar-me, o segredo perder-se-ia.
Levantei-me. Tinha de ser já. Mas, no momento em que, tremente, me preparava para bater à porta, fui acometido por uma derradeira dúvida: «E se me enganei!? E se não era nada disso que os pássaros estavam a fazer...?»
Percebi que se abria uma porta. Era um ruído distinto. Poderia ser a do lado esquerdo, a do velho, que me tivesse ouvido arfar, ou espirrar, ou pensar alto. Ou não. Poderia ser já tarde. Talvez fossem já os vampiros.
Fosse como fosse, fosse quem fosse, lembro-me de ter estabelecido esta regra - talvez última -, naquele momento de indecisão, naquele terrível e pesadíssimo momento em que tudo era ainda possível, ou em que nada era já possível mas eu ainda o não sabia:
REGRA: «Quando se trata de salvar o universo, não devo ter dúvidas, não posso hesitar!»
Quando compreendi finalmente o objectivo, atravessei o parque, afastando-me depressa dali. Espirrei. Mau sinal! Ergui a gola do casaco. Não podia apanhar um resfriado neste momento. Não no momento em que entendera o fito dos pássaros, o jogo dos pássaros e, portanto, o sentido do universo.
Entrei na casa velha, de degraus carcomidos, ouvindo uma espécie de eco macabro sob os meus passos incertos. No terceiro andar, sentei-me no chão, exausto, respirando com força, diante da porta esquerda; abracei os meus joelhos, com o queixo fincado neles. Tinha frio. Muito, muito, muito frio. Tremia. Nunca antes, em nenhum outro momento da minha vida, tremera assim. Se eu conseguisse parar o sismo de todo o meu corpo doente e fatigado, se conseguisse pôr-me de pé, se conseguisse bater à porta, tum tum tum, o velho viria abrir-ma, eu contar-lhe-ia o que tinha para lhe contar e talvez (não de certeza mas provavelmente), iria a tempo de salvar o que restava do universo. Caso contrário, seria tarde. Abrir-se-ia, dali a pouco, a outra porta do andar, os vampiros viriam buscar-me, o segredo perder-se-ia.
Levantei-me. Tinha de ser já. Mas, no momento em que, tremente, me preparava para bater à porta, fui acometido por uma derradeira dúvida: «E se me enganei!? E se não era nada disso que os pássaros estavam a fazer...?»
Percebi que se abria uma porta. Era um ruído distinto. Poderia ser a do lado esquerdo, a do velho, que me tivesse ouvido arfar, ou espirrar, ou pensar alto. Ou não. Poderia ser já tarde. Talvez fossem já os vampiros.
Fosse como fosse, fosse quem fosse, lembro-me de ter estabelecido esta regra - talvez última -, naquele momento de indecisão, naquele terrível e pesadíssimo momento em que tudo era ainda possível, ou em que nada era já possível mas eu ainda o não sabia:
REGRA: «Quando se trata de salvar o universo, não devo ter dúvidas, não posso hesitar!»
sábado, fevereiro 10, 2007
UM RESMUNGO A PROPÓSITO DA EXTINÇÃO DE UM PROJECTO PROMISSOR
Repentinamente, descobrimos que a magnífica iniciativa que tanto nos motivava para separar o lixo - que não é propriamente a mais agradável das tarefas, pese embora a sua importância - era uma experiência de curta duração, um teste, um projecto piloto. Chegou ao fim. Não se percebe bem por que razão, já não faz sentido dividirmos a porcaria pelos caixotes que nos tinham oferecido, o amarelo para os plásticos, o azul para o papel, etc etc, e não faz, sobretudo, sentido fixarmos os dias da semana em que devemos pôr cada um dos caixotes à porta para o camião da «Tratolixo» o despejar. Não faz sentido, porque o camião da «Tratolixo» deixará de passar.
Hoje, pela primeira vez em meses, tive de voltar a arcar com um caixote e caminhar com ele, protestando muito, seguido por uma quantidade de cães e de moscas, até ao eco-ponto mais próximo que, tal como as farmácias de serviço quando delas precisamos, nunca é suficientemente perto; e tive de, aí parado, entre dejectos que enchiam o chão em redor do local, pegar no lixo com as mãos para o enfiar, aos poucos, por uma ranhura estreita, como quem coloca sobrescritos num marco de correio. Todo este espectáculo, como se imagina, atentamente observado por um bando de mirones: dois idosos de boina, um deles de bengala, o outro com um palito entre os dentes, e quatro fedelhos encimados por bonés de pala virada para trás. Um dos dos idosos rouquejava qualquer coisa: talvez me desse conselhos. Sobre como pôr melhor os pedaços do lixo? Ao que eu desci...!
O problema não é este. O problema é que, por qualquer razão e com uma explicação que nada explica, se matou, praticamente à nascença, um projecto promissor. Vai regressar? Melhorado, tecnicamente aperfeiçoado? Ousou, no fundo, esperar que sim. Mas ouso, à superfície, duvidar.
Porque a questão portuguesa, a grande questão portuguesa, não é a falta de inteligência: o aparecimento desse projecto mostra-o bem. A questão portuguesa, a grande questão portuguesa, é a estupidez ser menos tímida, estar mais enraizada e esmagar muito cedo o que quer que valha a pena: a extinção desse projecto mostra-o bem
Hoje, pela primeira vez em meses, tive de voltar a arcar com um caixote e caminhar com ele, protestando muito, seguido por uma quantidade de cães e de moscas, até ao eco-ponto mais próximo que, tal como as farmácias de serviço quando delas precisamos, nunca é suficientemente perto; e tive de, aí parado, entre dejectos que enchiam o chão em redor do local, pegar no lixo com as mãos para o enfiar, aos poucos, por uma ranhura estreita, como quem coloca sobrescritos num marco de correio. Todo este espectáculo, como se imagina, atentamente observado por um bando de mirones: dois idosos de boina, um deles de bengala, o outro com um palito entre os dentes, e quatro fedelhos encimados por bonés de pala virada para trás. Um dos dos idosos rouquejava qualquer coisa: talvez me desse conselhos. Sobre como pôr melhor os pedaços do lixo? Ao que eu desci...!
O problema não é este. O problema é que, por qualquer razão e com uma explicação que nada explica, se matou, praticamente à nascença, um projecto promissor. Vai regressar? Melhorado, tecnicamente aperfeiçoado? Ousou, no fundo, esperar que sim. Mas ouso, à superfície, duvidar.
Porque a questão portuguesa, a grande questão portuguesa, não é a falta de inteligência: o aparecimento desse projecto mostra-o bem. A questão portuguesa, a grande questão portuguesa, é a estupidez ser menos tímida, estar mais enraizada e esmagar muito cedo o que quer que valha a pena: a extinção desse projecto mostra-o bem
sexta-feira, janeiro 26, 2007
COISAS SÉRIAS E COISAS AINDA MAIS SÉRIAS
Não sei o que vos dirá acerca da minha maturidade e da forma como envergo a roupa de adulto, a confissão de que trato algumas das minhas amigas por «Lara Croft», «Mulher Elástica» ou «Rainha de Inglaterra». Na verdade, se me perguntarem, de repente, qual o verdadeiro nome de cada uma delas, posso embatucar. Verdadeiro nome!? Então elas não são «Lara Croft», «Mulher Elástica», «Rainha de Inglaterra»?
Mas algo de muito sério perpassa no grupo, quando nos reunimos. Mais sério ainda do que as teatradas, com perucas e óculos, à mesa do restaurante, mais sério do que as gargalhadas filtradas pelo tinto, tão sério como a «Lara Croft» me ter surpreendido com a afirmação de que os meus textos transmitem um espírito muito forte na reacção ao azar e à tristeza. Embatuco novamente. É um elogio que me esmaga. A que sou, por uma vez, incapaz de reagir.
Tão sério como isso? Que será? Silêncio absoluto. Pela minha boca não saberão que «Lara Croft» está em missão, às ordens da «Rainha de Inglaterra». Não. Não é por mim que o saberão.
Mas algo de muito sério perpassa no grupo, quando nos reunimos. Mais sério ainda do que as teatradas, com perucas e óculos, à mesa do restaurante, mais sério do que as gargalhadas filtradas pelo tinto, tão sério como a «Lara Croft» me ter surpreendido com a afirmação de que os meus textos transmitem um espírito muito forte na reacção ao azar e à tristeza. Embatuco novamente. É um elogio que me esmaga. A que sou, por uma vez, incapaz de reagir.
Tão sério como isso? Que será? Silêncio absoluto. Pela minha boca não saberão que «Lara Croft» está em missão, às ordens da «Rainha de Inglaterra». Não. Não é por mim que o saberão.
sábado, janeiro 13, 2007
A FUGA
Miguel choramingava, enquanto ia enfiando num lenço vermelho alguns dos seus pertences: uma camisola, um par de cuecas, um de peúgas, cinco carrinhos que a avó lhe oferecera e os cromos dos lutadores de wresteling.
O pai estava furioso: era terrível de se ver, àquela hora da manhã, em roupão, com a barba a despontar como picos de um cacto, o cabelo revolto, um pé enfiado numa pantufa, outro descalço desde que, algures, muitos meses atrás, perdera a segunda pantufa.
A mãe estava zangada, falando muito depressa, à esquina de um ataque de nervos, levantando muito os braços, em camisa de noite mas, curiosamente, cheirando já a perfume.
E a razão de tanta zanga resumia-se a isto: Miguel não tinha fome de manhã. Queriam dar-lhe flocos, mas enjoara-se de todos os tipos de flocos - nem os chocapics, nem os nesquiks, nem as estrelitas, nem os chocolocos, nem os nogat's pillows... Leite simples não tinha graça. Pão, nem pensar. Poderia apetecer-lhe outra coisa, com boa vontade - mas tudo o que lhe poderia apetecer dava trabalho, confusão, exigia uma demorada fabricação: sumo de laranja, papinha de banana e kiwi esmagados minuciosamente com um garfo sobre o prato, maçã ralada com bolacha Maria esmigalhadinha...
O pai argumentava. Primeiro, com toda a calma. Fornecia alternativas. A mãe procurava na despensa. Nada! Miguel parava diante do frigorífico aberto. O pai esgotava a paciência. A mãe percorria a casa de um lado para o outro, desorientada, asmática, triste.
- Come qualquer coisa, Miguel! Qualquer coisa normal! Como os outros meninos!!! Todas as crianças comem pães, comem... comem... comem...
As vozes levantavam-se. A altercação instalava-se, vinha para ficar, os vizinhos ouviam gritos e desapareciam das respectivas próprias casas, ou escondiam-se no mais recôndito delas, um pouco temerosos. Miguel chorava. Não queria. Nada lhe interessava, a não ser...!
O pai entrava, por fim, no capítulo dos disparates. Que estava farto dele. Que ele ia ser responsável pela sua morte. Que a tensão vinha disparando... Pudera!!!
A mãe fechava-se na casa de banho.
Mandavam-no, pois, de castigo para o quarto. Não sairia enquanto não viesse com a disposição de comer qualquer coisa normal... pouco, podia até ser pouco, umas colheradas, umas goladas mas, sobretudo, qualquer coisa «normal».
No quarto, tomada a decisão, preparada a sua trouxa, saiu pela janela. Era um infeliz. Mas a vida esperava por ele, saturada dessa felicidade que os pais lhe negavam sistematicamente, pronta a abraçá-lo com centenas de aventuras e descobertas. Ainda haveria piratas? O pai costumava responder-lhe: «Há, se há! Cada vez mais, filho!» - talvez o aceitassem...? Ou infiltrar-se-ia clandestinamente? Terras por descobrir, mulheres por amar! A Teresinha iria ter saudades dele? E lembrando-se de Tereseninha, por quem se apaixonara destravadamente mas que, alertada por um terceiro, lhe fora dizer, cheia de sardas, mais bonita do que nunca, «Olha, Miguel, vamos ser só amigos, tá bem?» - lembrando-se dela, não aguentou mais e desatou a chorar com lágrimas grossas. Sentia-se triste, sentia fúria, estava pronto a revoltar-se com o mundo inteiro, a tornar-se muçulmano, pilotando aviões contra prédios, sentia uma melncolia no peito, ou na barriga, sentia... o quê, fome!?
Regressou a casa.
Pôs leite na sua caneca, encheu-a de flocos. Comeu. Partiria depois...
O pai estava furioso: era terrível de se ver, àquela hora da manhã, em roupão, com a barba a despontar como picos de um cacto, o cabelo revolto, um pé enfiado numa pantufa, outro descalço desde que, algures, muitos meses atrás, perdera a segunda pantufa.
A mãe estava zangada, falando muito depressa, à esquina de um ataque de nervos, levantando muito os braços, em camisa de noite mas, curiosamente, cheirando já a perfume.
E a razão de tanta zanga resumia-se a isto: Miguel não tinha fome de manhã. Queriam dar-lhe flocos, mas enjoara-se de todos os tipos de flocos - nem os chocapics, nem os nesquiks, nem as estrelitas, nem os chocolocos, nem os nogat's pillows... Leite simples não tinha graça. Pão, nem pensar. Poderia apetecer-lhe outra coisa, com boa vontade - mas tudo o que lhe poderia apetecer dava trabalho, confusão, exigia uma demorada fabricação: sumo de laranja, papinha de banana e kiwi esmagados minuciosamente com um garfo sobre o prato, maçã ralada com bolacha Maria esmigalhadinha...
O pai argumentava. Primeiro, com toda a calma. Fornecia alternativas. A mãe procurava na despensa. Nada! Miguel parava diante do frigorífico aberto. O pai esgotava a paciência. A mãe percorria a casa de um lado para o outro, desorientada, asmática, triste.
- Come qualquer coisa, Miguel! Qualquer coisa normal! Como os outros meninos!!! Todas as crianças comem pães, comem... comem... comem...
As vozes levantavam-se. A altercação instalava-se, vinha para ficar, os vizinhos ouviam gritos e desapareciam das respectivas próprias casas, ou escondiam-se no mais recôndito delas, um pouco temerosos. Miguel chorava. Não queria. Nada lhe interessava, a não ser...!
O pai entrava, por fim, no capítulo dos disparates. Que estava farto dele. Que ele ia ser responsável pela sua morte. Que a tensão vinha disparando... Pudera!!!
A mãe fechava-se na casa de banho.
Mandavam-no, pois, de castigo para o quarto. Não sairia enquanto não viesse com a disposição de comer qualquer coisa normal... pouco, podia até ser pouco, umas colheradas, umas goladas mas, sobretudo, qualquer coisa «normal».
No quarto, tomada a decisão, preparada a sua trouxa, saiu pela janela. Era um infeliz. Mas a vida esperava por ele, saturada dessa felicidade que os pais lhe negavam sistematicamente, pronta a abraçá-lo com centenas de aventuras e descobertas. Ainda haveria piratas? O pai costumava responder-lhe: «Há, se há! Cada vez mais, filho!» - talvez o aceitassem...? Ou infiltrar-se-ia clandestinamente? Terras por descobrir, mulheres por amar! A Teresinha iria ter saudades dele? E lembrando-se de Tereseninha, por quem se apaixonara destravadamente mas que, alertada por um terceiro, lhe fora dizer, cheia de sardas, mais bonita do que nunca, «Olha, Miguel, vamos ser só amigos, tá bem?» - lembrando-se dela, não aguentou mais e desatou a chorar com lágrimas grossas. Sentia-se triste, sentia fúria, estava pronto a revoltar-se com o mundo inteiro, a tornar-se muçulmano, pilotando aviões contra prédios, sentia uma melncolia no peito, ou na barriga, sentia... o quê, fome!?
Regressou a casa.
Pôs leite na sua caneca, encheu-a de flocos. Comeu. Partiria depois...
A MÁQUINA
Estava Lebranche do meu lado direito, Slovsky do meu lado esquerdo.
Lebranche, a quem chamávamos o anticartesiano metódico, era um homem alto e esguio, com um nariz abatatado e um queixo sumido, praticamente inexistente, que fazia da dúvida um incitamento para a descoberta da verdade, mas por um caminho oposto ao de Descartes. Argumentava ele: «Pá, aquilo de que se duvida é, no fundo, aquilo que poderia muito bem ser. E num mundo de contrariedades e de frustrações, isto é, em que quase tudo me parece impossível (e cada vez mais impossível à medida que envelheço), que haja ainda coisas possíveis, de que até podemos duvidar, mas que são, por isso mesmo, possíveis... torna-as quase verdadeiras. Eis a minha filosofia toda numa simples frase: o duvidoso é quase sempre verdadeiro!»
Slovsky, por outro lado, era um céptico. Mais: tratava-se do pior tipo de céptico. O céptico trocista. Baixinho, careca, com uns óculos redondos, de aros dourados, não refutava, não rebatia. Encolhia os ombros, com um sorriso torto, que nos esmagava mais rapidamente do que toneladas de argumentos.
E diante de nós estava o Engenheiro, a que não me referirei, aqui, senão pela sua inicial: K.
K. esperava-nos, sentado sobre o que me parecia uma sanita com um volante. «Grande invenção», segredou o temível Slovsky. «Se vamos a andar de carro e nos dá uma súbita vontade de evacuar...»
Nem eu nem Lebranche rimos. K. olhava-nos, com um sorriso contido e pacífico.
- Então, isso é que é a máquina do tempo? - perguntei, curioso.
- Isto é que é a máquina do tempo - respondeu, sem desfazer a tranquilidade. - Anos de estudo, de investigação...
- ... para atingir uma sanita volante! - resmungou Slovsky.
- E como se procede, senhor Engenheiro?
E, aí, aconteceu a tragédia. K. ligou um interruptor, uma faisca rasgou o ar, houve um monumental barulho, que nos assustou - a mim e a Lebranche, porque Slovsky ainda perguntou: «Será o autoclismo?» -, e, quando menos esperávamos, o sistema pegava fogo. As labaredas lambiam o tapete, o cortinado, ouvia-se o ruído aflitivo da madeira a transformar-se em carvão. Slovsky sentou-se numa das cadeiras, talvez a única, que não era pasto do incêndio. Eu e Lebranche corremos para a cozinha, tentando encher os nossos chapéus com água que, a seguir, vertíamos sobre o fogo. Era já muito tarde. Foi Slovsky que, no meio da confusão, se lembrou de telefonar aos bombeiros.
Assisti, mais tarde, a este diálogo entre os meus dois amigos:
S: As sanitas podem ser muito perigosas.
L: Não acreditas que tivessemos estado perante a máquina do tempo?
S: Só no sentido em que, para certas pessoas, a sanita é um local onde se passa muito tempo. Levam revistas, refugiam-se do mundo... E no futuro, quando descobrirem as sanitas, hão-de perguntar-se a que espécie de Deus dedicávamos aquele santuário...
L: Pois eu, pelo contrário, estou convencido que o Engenheiro tinha descoberto uma máquina que nos levaria ao futuro.
S: Duvido muito.
L: Mas era possível, não era? Era possível, não era? Responde-me só: era uma possiblidade...?
S: Bem...!
L: Ora aí está. É a prova que me basta: aquilo era mesmo a máquina do tempo.
Eu não sei. Aprendi a desconfiar das aparências. E pergunto-me o que poderia realmente ocultar-se sob a aparência um pouco ridícula de uma sanita com um volante.
Lebranche, a quem chamávamos o anticartesiano metódico, era um homem alto e esguio, com um nariz abatatado e um queixo sumido, praticamente inexistente, que fazia da dúvida um incitamento para a descoberta da verdade, mas por um caminho oposto ao de Descartes. Argumentava ele: «Pá, aquilo de que se duvida é, no fundo, aquilo que poderia muito bem ser. E num mundo de contrariedades e de frustrações, isto é, em que quase tudo me parece impossível (e cada vez mais impossível à medida que envelheço), que haja ainda coisas possíveis, de que até podemos duvidar, mas que são, por isso mesmo, possíveis... torna-as quase verdadeiras. Eis a minha filosofia toda numa simples frase: o duvidoso é quase sempre verdadeiro!»
Slovsky, por outro lado, era um céptico. Mais: tratava-se do pior tipo de céptico. O céptico trocista. Baixinho, careca, com uns óculos redondos, de aros dourados, não refutava, não rebatia. Encolhia os ombros, com um sorriso torto, que nos esmagava mais rapidamente do que toneladas de argumentos.
E diante de nós estava o Engenheiro, a que não me referirei, aqui, senão pela sua inicial: K.
K. esperava-nos, sentado sobre o que me parecia uma sanita com um volante. «Grande invenção», segredou o temível Slovsky. «Se vamos a andar de carro e nos dá uma súbita vontade de evacuar...»
Nem eu nem Lebranche rimos. K. olhava-nos, com um sorriso contido e pacífico.
- Então, isso é que é a máquina do tempo? - perguntei, curioso.
- Isto é que é a máquina do tempo - respondeu, sem desfazer a tranquilidade. - Anos de estudo, de investigação...
- ... para atingir uma sanita volante! - resmungou Slovsky.
- E como se procede, senhor Engenheiro?
E, aí, aconteceu a tragédia. K. ligou um interruptor, uma faisca rasgou o ar, houve um monumental barulho, que nos assustou - a mim e a Lebranche, porque Slovsky ainda perguntou: «Será o autoclismo?» -, e, quando menos esperávamos, o sistema pegava fogo. As labaredas lambiam o tapete, o cortinado, ouvia-se o ruído aflitivo da madeira a transformar-se em carvão. Slovsky sentou-se numa das cadeiras, talvez a única, que não era pasto do incêndio. Eu e Lebranche corremos para a cozinha, tentando encher os nossos chapéus com água que, a seguir, vertíamos sobre o fogo. Era já muito tarde. Foi Slovsky que, no meio da confusão, se lembrou de telefonar aos bombeiros.
Assisti, mais tarde, a este diálogo entre os meus dois amigos:
S: As sanitas podem ser muito perigosas.
L: Não acreditas que tivessemos estado perante a máquina do tempo?
S: Só no sentido em que, para certas pessoas, a sanita é um local onde se passa muito tempo. Levam revistas, refugiam-se do mundo... E no futuro, quando descobrirem as sanitas, hão-de perguntar-se a que espécie de Deus dedicávamos aquele santuário...
L: Pois eu, pelo contrário, estou convencido que o Engenheiro tinha descoberto uma máquina que nos levaria ao futuro.
S: Duvido muito.
L: Mas era possível, não era? Era possível, não era? Responde-me só: era uma possiblidade...?
S: Bem...!
L: Ora aí está. É a prova que me basta: aquilo era mesmo a máquina do tempo.
Eu não sei. Aprendi a desconfiar das aparências. E pergunto-me o que poderia realmente ocultar-se sob a aparência um pouco ridícula de uma sanita com um volante.
terça-feira, janeiro 09, 2007
ASSUMIR A ESCOLHA SIGNIFICA: NÃO SIMPLIFICÁ-LA
A verdade é sempre revolucionária, asseverava Gramsci. Não sei se o é. Sou, aliás, tão mais limitado, que começo por não saber o que seja «a verdade». Às vezes, permito-me desconfiar que esteja ao meu alcance; permito-me farejá-la: percebo, suspeito que não andará longe. Mas, imediatamente a seguir, posso duvidar. Não metodicamente - não há, nesta dúvida, razões de método, só mesmo uma tremenda insegurança...
Agora, custa-me, isso sim, que a «minha» verdade - ainda que momentânea - tenha de ser rodeada, ou retocada, ou calada, em nome seja do que for. Em nome de razões políticas, de virtude, de correcção ou de oportunidade. Detesto as razões de oportunidade ou conveniência. Detesto que argumentem: «Talvez até seja verdade, mas este não é o momento certo para a divulgar, para a mencionar sequer...!»
É o caso. Eu, que vou votar «Sim» neste referendo, eu, que já fiz mesmo um aborto - na medida em que partilho inteira e completamente a responsabilidade do aborto decidido e feito, em conjunto, pela mulher que engravidei e por mim próprio -, eu, que seria de uma hipocrisia sem precedentes se me abstivesse e ficasse a assobiar para o lado, não posso deixar, contudo, de expor a «minha» verdade: e a «minha» verdade é que me dói e custa, como talvez nenhum outro, a assunção deste acto, desta cruz que irei marcar no boletim.
Não tenho escolha: eu que abortei porque não poderia não ter abortado, que conheço as razões por que o fazem milhares de mulheres, e as circunstâncias em que o fazem, eu que não aceito - nem posso aceitar - que as persigam e punam por essa escolha tantas vezes trágica, não posso deixar de levar coerentemente a minha solidariedade até ao limite. Mas não me queiram convencer de que não faz mal; não me queiram convencer de que é outra coisa que não o mal menor - sendo que o mal menor, naturalmente, não é um bem: é, ainda, um mal. Não me queiram fazer esquecer que estou a lidar com a vida. Com vidas. Nem queiram reduzir a vida fetal a uma não-vida. Não me digam que o aborto não é, na melhor das hipóteses, um défice civilizacional e um défice moral. (Como o é - de um modo pior, e mais grave -, uma lei que não permita essa escolha, como se a escolha não fosse, em si mesma, complexa e terrível).
Não queiram simplificar as coisas, porque não seria digno. Nem sério.
Será que eu não devia afirmá-lo «agora»? Que, sobretudo, não neste momento? Que Devia fazê-lo só depois do referendo? Ah! Mas não consigo ser maniqueista. Nem fingir que o sou por razões de conveniência. Vou votar «Sim». Mas este voto a que não tenho o direito de fugir, por razões morais, precisamente, é um voto que me dilacera. Por razões morais, também: precisamente.
Agora, custa-me, isso sim, que a «minha» verdade - ainda que momentânea - tenha de ser rodeada, ou retocada, ou calada, em nome seja do que for. Em nome de razões políticas, de virtude, de correcção ou de oportunidade. Detesto as razões de oportunidade ou conveniência. Detesto que argumentem: «Talvez até seja verdade, mas este não é o momento certo para a divulgar, para a mencionar sequer...!»
É o caso. Eu, que vou votar «Sim» neste referendo, eu, que já fiz mesmo um aborto - na medida em que partilho inteira e completamente a responsabilidade do aborto decidido e feito, em conjunto, pela mulher que engravidei e por mim próprio -, eu, que seria de uma hipocrisia sem precedentes se me abstivesse e ficasse a assobiar para o lado, não posso deixar, contudo, de expor a «minha» verdade: e a «minha» verdade é que me dói e custa, como talvez nenhum outro, a assunção deste acto, desta cruz que irei marcar no boletim.
Não tenho escolha: eu que abortei porque não poderia não ter abortado, que conheço as razões por que o fazem milhares de mulheres, e as circunstâncias em que o fazem, eu que não aceito - nem posso aceitar - que as persigam e punam por essa escolha tantas vezes trágica, não posso deixar de levar coerentemente a minha solidariedade até ao limite. Mas não me queiram convencer de que não faz mal; não me queiram convencer de que é outra coisa que não o mal menor - sendo que o mal menor, naturalmente, não é um bem: é, ainda, um mal. Não me queiram fazer esquecer que estou a lidar com a vida. Com vidas. Nem queiram reduzir a vida fetal a uma não-vida. Não me digam que o aborto não é, na melhor das hipóteses, um défice civilizacional e um défice moral. (Como o é - de um modo pior, e mais grave -, uma lei que não permita essa escolha, como se a escolha não fosse, em si mesma, complexa e terrível).
Não queiram simplificar as coisas, porque não seria digno. Nem sério.
Será que eu não devia afirmá-lo «agora»? Que, sobretudo, não neste momento? Que Devia fazê-lo só depois do referendo? Ah! Mas não consigo ser maniqueista. Nem fingir que o sou por razões de conveniência. Vou votar «Sim». Mas este voto a que não tenho o direito de fugir, por razões morais, precisamente, é um voto que me dilacera. Por razões morais, também: precisamente.
segunda-feira, dezembro 25, 2006
REGRAS KAOSTICAS CONTRA O CÁLCULO DE PROBABILIDADES
1. Entre os professores, como em todas as profissões, há bons e maus profissionais
2. Em regra, os maus são os professores dos nossos filhos
3. A mesma regra se aplica, mutatis mutandis, às mulheres-a-dias. No caso, deverá ser enunciada como se segue: «Há, certamente, mulheres-a-dias que fazem um bom trabalho e mulheres-a-dias que fazem um mau trabalho. Em minha casa nunca entrou uma mulher-a-dias da primeira categoria».
4. Estas regras podem parecer triviais. Mesmo patetas. O seu alcance, porém, é assombroso: se repararem bem, elas vêm pôr completamente em causa a credibilidade e a serventia do cálculo de probabilidades...
5. Ou seja: na sua aparente simplicidade, preparam uma revolução qualquer no estádio do conhecimento humano.
2. Em regra, os maus são os professores dos nossos filhos
3. A mesma regra se aplica, mutatis mutandis, às mulheres-a-dias. No caso, deverá ser enunciada como se segue: «Há, certamente, mulheres-a-dias que fazem um bom trabalho e mulheres-a-dias que fazem um mau trabalho. Em minha casa nunca entrou uma mulher-a-dias da primeira categoria».
4. Estas regras podem parecer triviais. Mesmo patetas. O seu alcance, porém, é assombroso: se repararem bem, elas vêm pôr completamente em causa a credibilidade e a serventia do cálculo de probabilidades...
5. Ou seja: na sua aparente simplicidade, preparam uma revolução qualquer no estádio do conhecimento humano.
domingo, dezembro 24, 2006
SIMPLESMENTE UM CONTO SACRÍLEGO
1.
Deus Pai Todo Poderoso tinha um gnomo, seu braço direito, que o ajudava diligentemente. A razão pela qual se não fala, hoje, desse apoio é esta: a mais simples referência a ele foi completa e sucessivamente expurgada, suprimida de todos os textos sagrados. Tomás de Aquino, chamado «O Boi», perguntava-se, a esse propósito, eloquententemente: «Por que haveria Deus, O Todo Poderoso, de carecer de um ajudante? E porquê um anão? Por que não um gigante?» [Summa Theologica, 6-3]
2.
O trabalho do gnomo de Deus era monótono e, francamente, o pobre ser ressentia-se muito disso, dessa sua tarefa que consistia em garantir, antes ainda de serem depositadas nos corpos, que determinadas almas afins haveriam, depois, de se encontrar: estavam, digamos, predestinadas umas às outras; a virem a ligar-se, mais tarde, na vida terrena, por laços de afecto diverso: estes dois iriam amar-se, aqueles outros iriam ser amigos para a vida, outros mais, mestre e aprendiz, ou professor e aluno, ou...
3.
Trabalho importante, mas tão cansativo!
O gnomo de Deus tinha pouco tempo vago ao longo da longa eternidade. Porém, devido a uma curiosidade insana, pouco cristã, semelhante à que viria a perder Adão e Eva, o pequeno espírito aproveitava as suas horas vagas para ler a obra completa de Lucifer, que lhe havia sido recomendada pela alma, ao tempo ainda descarnada, de Pacheco Pereira. A obra completa de Lucifer era tremenda, terrível, temível. Escrevia Lucifer, a dado passo: «Eu não simbolizo o Mal, mas, simplesmente, um ponto de vista diferente. Por que diabo há-de ser tão custoso a Deus admitir que haja outros pontos de vista para além do seu??? Que intolerância!» E, noutro passo: «É fundamental que se entenda que, sob o colorido do Céu, que a todos atrai, existem operários que se dedicam a um trabalho ingrato, monótono, que nunca é compensado a não ser em harmonia celeste: por outras palavras, o único salário dos trabalhadores de Deus, é que Deus não se zangue com eles. A pretexto de que são puros espíritos, não têm necessidades nem carências de ordem alguma, nada mais se lhes paga».
4.
Quanto mais o gnomo lia, nas horas vagas, aquelas páginas incendiárias, carregadas de uma fúria rebelde, mais a sua situação lhe parecia injusta, mais o seu Patrão lhe parecia gozar de um prestígio imerecido, mais lhe apetecia contrariá-lo, defraudá-lo, desobedecer-lhe, desencadear a luta de classes...
5.
Ah, mas tinha medo. Muito medo.
6.
Até que um dia, mergulhado nas suas cogitações revolucionárias, por engano, por puro engano, por mero acidente, destinou para um encontro para toda a vida terrestre duas almas incompatíveis, completamente avessas. Primeiro, ficou aflito. Quis corrigir, contudo era tarde. Prevenir Deus, porém não teve coragem. Mas, curiosamente, percebeu que o erro passava. Que nem Deus, o próprio Deus, o Grande Deus, se apercebia...
7.
Então repetiu, agora deliberadamente, imperdoavelmente, o mesmo tipo de erro. Sempre impunemente. E mais uma vez, e outra, satisfeito consigo mesmo, sentindo correr-lhe nas veias espirituais um sangue de vingança: semeava conflitos, preparava para se encontrarem e juntarem para sempre naturezas opostas, seres que nunca se compreenderiam, laços de ódio e de conflito.
8.
Desse momento em diante, era já muito tarde para reverter o que quer que fosse. Almas fabricadas para se predestinarem, nunca se encontrariam. Em contrapartida, pessoas que só por humor negro poderiam viver juntas, essas, juntavam-se sob o mesmo tecto, completamente iludidas, rapidamente desiludidas, procriando, em constante guerrilha, filhos que, depois, odiavam, que os odiavam...
9.
Algures, noutra parte, impossível de vir a ser encontrada por cada um, o seu par, o seu verdadeiro par, o seu encaixe (o professor que o entusiasmaria, o amigo que o compreenderia...) - vivia uma vida impossível, encaixado, por sua vez, em alguém que odiava e a quem odiava.
10.
Esta é a verdade. Entretanto, por quanto tempo vos parece que se poderia enganar Deus Pai Todo Poderoso? A fraude do gnomo foi descoberta. O gnomo foi lançado no inferno, onde arde juntamente com Marx, Freud, Nietzsche, Darwin e outros.
11.
Deus trabalha, hoje, sozinho. Nunca mais aceitou braços direitos. Tudo indica, porém que, quanto mais não seja por piada ou, então, porque a burocracia se instalou irreversivelmente, continue a baralhar as peças, a promover encontros falsos, impossíveis, e a semear ligações perigosas!
Deus Pai Todo Poderoso tinha um gnomo, seu braço direito, que o ajudava diligentemente. A razão pela qual se não fala, hoje, desse apoio é esta: a mais simples referência a ele foi completa e sucessivamente expurgada, suprimida de todos os textos sagrados. Tomás de Aquino, chamado «O Boi», perguntava-se, a esse propósito, eloquententemente: «Por que haveria Deus, O Todo Poderoso, de carecer de um ajudante? E porquê um anão? Por que não um gigante?» [Summa Theologica, 6-3]
2.
O trabalho do gnomo de Deus era monótono e, francamente, o pobre ser ressentia-se muito disso, dessa sua tarefa que consistia em garantir, antes ainda de serem depositadas nos corpos, que determinadas almas afins haveriam, depois, de se encontrar: estavam, digamos, predestinadas umas às outras; a virem a ligar-se, mais tarde, na vida terrena, por laços de afecto diverso: estes dois iriam amar-se, aqueles outros iriam ser amigos para a vida, outros mais, mestre e aprendiz, ou professor e aluno, ou...
3.
Trabalho importante, mas tão cansativo!
O gnomo de Deus tinha pouco tempo vago ao longo da longa eternidade. Porém, devido a uma curiosidade insana, pouco cristã, semelhante à que viria a perder Adão e Eva, o pequeno espírito aproveitava as suas horas vagas para ler a obra completa de Lucifer, que lhe havia sido recomendada pela alma, ao tempo ainda descarnada, de Pacheco Pereira. A obra completa de Lucifer era tremenda, terrível, temível. Escrevia Lucifer, a dado passo: «Eu não simbolizo o Mal, mas, simplesmente, um ponto de vista diferente. Por que diabo há-de ser tão custoso a Deus admitir que haja outros pontos de vista para além do seu??? Que intolerância!» E, noutro passo: «É fundamental que se entenda que, sob o colorido do Céu, que a todos atrai, existem operários que se dedicam a um trabalho ingrato, monótono, que nunca é compensado a não ser em harmonia celeste: por outras palavras, o único salário dos trabalhadores de Deus, é que Deus não se zangue com eles. A pretexto de que são puros espíritos, não têm necessidades nem carências de ordem alguma, nada mais se lhes paga».
4.
Quanto mais o gnomo lia, nas horas vagas, aquelas páginas incendiárias, carregadas de uma fúria rebelde, mais a sua situação lhe parecia injusta, mais o seu Patrão lhe parecia gozar de um prestígio imerecido, mais lhe apetecia contrariá-lo, defraudá-lo, desobedecer-lhe, desencadear a luta de classes...
5.
Ah, mas tinha medo. Muito medo.
6.
Até que um dia, mergulhado nas suas cogitações revolucionárias, por engano, por puro engano, por mero acidente, destinou para um encontro para toda a vida terrestre duas almas incompatíveis, completamente avessas. Primeiro, ficou aflito. Quis corrigir, contudo era tarde. Prevenir Deus, porém não teve coragem. Mas, curiosamente, percebeu que o erro passava. Que nem Deus, o próprio Deus, o Grande Deus, se apercebia...
7.
Então repetiu, agora deliberadamente, imperdoavelmente, o mesmo tipo de erro. Sempre impunemente. E mais uma vez, e outra, satisfeito consigo mesmo, sentindo correr-lhe nas veias espirituais um sangue de vingança: semeava conflitos, preparava para se encontrarem e juntarem para sempre naturezas opostas, seres que nunca se compreenderiam, laços de ódio e de conflito.
8.
Desse momento em diante, era já muito tarde para reverter o que quer que fosse. Almas fabricadas para se predestinarem, nunca se encontrariam. Em contrapartida, pessoas que só por humor negro poderiam viver juntas, essas, juntavam-se sob o mesmo tecto, completamente iludidas, rapidamente desiludidas, procriando, em constante guerrilha, filhos que, depois, odiavam, que os odiavam...
9.
Algures, noutra parte, impossível de vir a ser encontrada por cada um, o seu par, o seu verdadeiro par, o seu encaixe (o professor que o entusiasmaria, o amigo que o compreenderia...) - vivia uma vida impossível, encaixado, por sua vez, em alguém que odiava e a quem odiava.
10.
Esta é a verdade. Entretanto, por quanto tempo vos parece que se poderia enganar Deus Pai Todo Poderoso? A fraude do gnomo foi descoberta. O gnomo foi lançado no inferno, onde arde juntamente com Marx, Freud, Nietzsche, Darwin e outros.
11.
Deus trabalha, hoje, sozinho. Nunca mais aceitou braços direitos. Tudo indica, porém que, quanto mais não seja por piada ou, então, porque a burocracia se instalou irreversivelmente, continue a baralhar as peças, a promover encontros falsos, impossíveis, e a semear ligações perigosas!
sábado, dezembro 23, 2006
AS BOAS SURPRESAS SÃO SEMPRE POSSÍVEIS
Para mim, que sou um imparável leitor e um constante re-leitor de Eça de Queirós, com quem tenho querido aprender a ironia, o humor, a escrita até, foi um momento saturado de melancolia, talvez de angústia, aquele em que descobri que o esgotara. Isto é: que poderia continuar a relê-lo, que iria certamente relê-lo pela vida fora, mas, morto que estava o escritor, completada que estava a obra, não me tornaria a ser dado o prazer de abrir pela primeira vez mais algum livro da sua autoria.
E era com nostalgia que me recordava de como, há uns quantos anos, quando já pensava tê-lo esgotado (quando senti esse primeiro baque), viria a descobrir, com uma surpresa encantada, que, afinal, nunca tinha lido, vá-se lá saber porquê, um seu texto fundamental: nada mais nada menos do que o delicioso A Capital.
Lembro-me da alegria com que o comprei na fnac, a impaciência com que corri para casa com ele num saco cor-de-laranja, o leve receio da desilusão, o gosto com que me detive na capa trivial, igual a todas as capas da sua obra, a tremente curiosidade com que fui mergulhando, passando as páginas, soltando-me do nervosismo, fruindo, reencontrando o meu Eça de sempre...
Mas, para uma suspresa dessas, não há bis. Era já bem bom que me tivesse caído do céu essa breve suspensão do destino, esse admirável adiamento do fecho. Lido A Capital, agora sim, esgotara realmente o meu querido autor...
Isto, se não mencionar, claro, um outro texto seu, que nunca me interessara, que me tinham oferecido há uns Natais mas eu nunca quisera sequer iniciar: A Tragédia da Rua das Flores, de que tão mal ouvira falar. Que era um rascunho, um borrão, uma coisa menoríssima, com repetições, contradições, personagens cujo nome não se conserva ao longo das páginas, absurdos vários!
Foi só por descargo de consciência, ou em busca de um substituto, mesmo menor, para um vício arreigado, que, por estes dias, me debrucei, contudo, sobre a «Tragédia». E, caramba, não faço mais suspense - lá estava o Eça: sob as debilidades de uma obra que o autor não levara muito a sério, que deixara para trás, ao abandono, enjeitada, ali se erguia e brilhava, e se ergue!, e brilha!, tudo o que nele me entusiasma, me apura o espírito crítico, me afina o sarcasmo.
Ando, pois, a ler, repimpadíssimo, como diria o próprio Eça, A Tragédia da Rua das Flores.
Este post pode servir para uma ou duas coisas: a) aconselhá-lo vivamente a quem tenha passado pela mesma nostalgia de «haver esgotado um autor que já não volta a escrever», a quem, por coincidência, este livro passasse, também, ao lado; b) acrescentar, como nota natalícia, este optimismo moral: às vezes, por impossível que pareça, mesmo o prazer que não voltará de certeza, pode voltar... (e, até, mais do que uma vez!)
Bom Natal!
E era com nostalgia que me recordava de como, há uns quantos anos, quando já pensava tê-lo esgotado (quando senti esse primeiro baque), viria a descobrir, com uma surpresa encantada, que, afinal, nunca tinha lido, vá-se lá saber porquê, um seu texto fundamental: nada mais nada menos do que o delicioso A Capital.
Lembro-me da alegria com que o comprei na fnac, a impaciência com que corri para casa com ele num saco cor-de-laranja, o leve receio da desilusão, o gosto com que me detive na capa trivial, igual a todas as capas da sua obra, a tremente curiosidade com que fui mergulhando, passando as páginas, soltando-me do nervosismo, fruindo, reencontrando o meu Eça de sempre...
Mas, para uma suspresa dessas, não há bis. Era já bem bom que me tivesse caído do céu essa breve suspensão do destino, esse admirável adiamento do fecho. Lido A Capital, agora sim, esgotara realmente o meu querido autor...
Isto, se não mencionar, claro, um outro texto seu, que nunca me interessara, que me tinham oferecido há uns Natais mas eu nunca quisera sequer iniciar: A Tragédia da Rua das Flores, de que tão mal ouvira falar. Que era um rascunho, um borrão, uma coisa menoríssima, com repetições, contradições, personagens cujo nome não se conserva ao longo das páginas, absurdos vários!
Foi só por descargo de consciência, ou em busca de um substituto, mesmo menor, para um vício arreigado, que, por estes dias, me debrucei, contudo, sobre a «Tragédia». E, caramba, não faço mais suspense - lá estava o Eça: sob as debilidades de uma obra que o autor não levara muito a sério, que deixara para trás, ao abandono, enjeitada, ali se erguia e brilhava, e se ergue!, e brilha!, tudo o que nele me entusiasma, me apura o espírito crítico, me afina o sarcasmo.
Ando, pois, a ler, repimpadíssimo, como diria o próprio Eça, A Tragédia da Rua das Flores.
Este post pode servir para uma ou duas coisas: a) aconselhá-lo vivamente a quem tenha passado pela mesma nostalgia de «haver esgotado um autor que já não volta a escrever», a quem, por coincidência, este livro passasse, também, ao lado; b) acrescentar, como nota natalícia, este optimismo moral: às vezes, por impossível que pareça, mesmo o prazer que não voltará de certeza, pode voltar... (e, até, mais do que uma vez!)
Bom Natal!
sexta-feira, dezembro 22, 2006
UM REGULAMENTO INTERNO A PENSAR NAQUILO COM QUE SE COMPRAM OS MELÕES
A minha filha, pobre garota, anda num infantário. Para que não subsistam dúvidas, escrevo-lhe já o nome: Colégio D. João de Castro.
O Colégio D. João de Castro tem um Regulamento Interno, o que é louvável.
Do Regulamento Interno do Colégio D. João de Castro, respigo uns quantos excertos:
«A todas as crianças que permaneçam no Colégio após a hora do fecho, será cobrado o valor de 10 Euros diários, por cada fracção de quinze minutos, de prolongamento.»
«Os Passeios e Colónia têm carácter obrigatório, pelo seu acentuado valor pedagógico [nem nos passava pela cabeça que fosse por outra razão], estão integrados no Plano Anual de Actividades e serão avisados com 8 dias de atecedência, o seu pagamento terá que ser feito na respectiva sala ou secretaria. As crianças que não forem aos Passeios ou Colónia não poderão frequentar o Colégio. A colónia [repentinamente com minúscula] realiza-se na 2ª quinzena de Junho e terá um custo de 75 euros [agora com minúscula, também]»
«Os pagamentos das mensalidades devem ser efectuados na secretaria ou na sala por adiantado, entre os dias 28 e 5 de cada mês. Após o prazo estipulado será cobrada uma taxa diária de 10 euros.»
«Todos os Encarregados de Educação estão obrigados ao pagamento de 12 mensalidades, no valor de 285 euros, quer o aluno frequente ou não o Colégio [como???], com a excepção do berçário [de onde expulsaram rapidamente a minha filha, com catorze meses] que poderá optar pela mensalidade sem alimentação, no valor de 255 euros, sendo o mês de Agosto repartido pelos meses de Outubro, Novembro, Dezembro, no valor de 95 euros.»
«Só serão aceites desistências com aviso prévio de um mês, sem o que terá que pagar a próxima mensalidade. Não serão aceites desistências a partir do mês de Maio inclusivé.»
«A Inscrição/Renovação e Seguro serão pagos e não serão devolvidos em caso algum. O seguro [bruscamente, com minúscula] é pago em Setembro e a renovação em Março, às crianças que não renovam a matrícula, é cobrado oo mês de Julho fraccionado pelos meses de Abril e Maio.»
«Será cobrado trimestralmente o valor de 15 euros para desgaste de material didáctico, nos meses de Outubro, Janeiro, Abril.»
«As desistências dos Passeios e Colónias de férias depois de pagos não serão reemblsados em caso algum [ou seja, mais vale não pagar!]»
«O uso da farda, bibe e chapéu são obrigatórios, de uso diário e custeados pelos pais [que os deverão comprar no «Corte Inglês»]
«Todas as crianças poderão ter uma falta mensal de fardamento [obrigado, obrigado, obrigado!], quando ultrapassada essa falta, poderá a direcção do Colégio vestir a peça em falta e debitá-la no recibo do mês seguinte.»
Nunca vi um Regulamento Interno assim. Nunca nenhum documento me pareceu tão óbvio na intenção exclusiva de planear a mínima forma de fazer dinheiro. Sobretudo, não me lembro de haver lido algum outro conjunto de regras de um estabelecimento de educação de crianças, privado ou público, que assumisse, tão escandalosamente, essa exclusiva inclinação economicista.
Poderão perguntar-me: Por que mantém então o senhor, que está assim tão zangado, a sua filha neste colégio?
Como essa pergunta só poderia ser-me dirigida por parte de quem não tem crianças em infantários, nem faz a menor ideia da luta vã por uma vaga, eu escuso-me de responder. Não iriam acreditar em mim.
O Colégio D. João de Castro tem um Regulamento Interno, o que é louvável.
Do Regulamento Interno do Colégio D. João de Castro, respigo uns quantos excertos:
«A todas as crianças que permaneçam no Colégio após a hora do fecho, será cobrado o valor de 10 Euros diários, por cada fracção de quinze minutos, de prolongamento.»
«Os Passeios e Colónia têm carácter obrigatório, pelo seu acentuado valor pedagógico [nem nos passava pela cabeça que fosse por outra razão], estão integrados no Plano Anual de Actividades e serão avisados com 8 dias de atecedência, o seu pagamento terá que ser feito na respectiva sala ou secretaria. As crianças que não forem aos Passeios ou Colónia não poderão frequentar o Colégio. A colónia [repentinamente com minúscula] realiza-se na 2ª quinzena de Junho e terá um custo de 75 euros [agora com minúscula, também]»
«Os pagamentos das mensalidades devem ser efectuados na secretaria ou na sala por adiantado, entre os dias 28 e 5 de cada mês. Após o prazo estipulado será cobrada uma taxa diária de 10 euros.»
«Todos os Encarregados de Educação estão obrigados ao pagamento de 12 mensalidades, no valor de 285 euros, quer o aluno frequente ou não o Colégio [como???], com a excepção do berçário [de onde expulsaram rapidamente a minha filha, com catorze meses] que poderá optar pela mensalidade sem alimentação, no valor de 255 euros, sendo o mês de Agosto repartido pelos meses de Outubro, Novembro, Dezembro, no valor de 95 euros.»
«Só serão aceites desistências com aviso prévio de um mês, sem o que terá que pagar a próxima mensalidade. Não serão aceites desistências a partir do mês de Maio inclusivé.»
«A Inscrição/Renovação e Seguro serão pagos e não serão devolvidos em caso algum. O seguro [bruscamente, com minúscula] é pago em Setembro e a renovação em Março, às crianças que não renovam a matrícula, é cobrado oo mês de Julho fraccionado pelos meses de Abril e Maio.»
«Será cobrado trimestralmente o valor de 15 euros para desgaste de material didáctico, nos meses de Outubro, Janeiro, Abril.»
«As desistências dos Passeios e Colónias de férias depois de pagos não serão reemblsados em caso algum [ou seja, mais vale não pagar!]»
«O uso da farda, bibe e chapéu são obrigatórios, de uso diário e custeados pelos pais [que os deverão comprar no «Corte Inglês»]
«Todas as crianças poderão ter uma falta mensal de fardamento [obrigado, obrigado, obrigado!], quando ultrapassada essa falta, poderá a direcção do Colégio vestir a peça em falta e debitá-la no recibo do mês seguinte.»
Nunca vi um Regulamento Interno assim. Nunca nenhum documento me pareceu tão óbvio na intenção exclusiva de planear a mínima forma de fazer dinheiro. Sobretudo, não me lembro de haver lido algum outro conjunto de regras de um estabelecimento de educação de crianças, privado ou público, que assumisse, tão escandalosamente, essa exclusiva inclinação economicista.
Poderão perguntar-me: Por que mantém então o senhor, que está assim tão zangado, a sua filha neste colégio?
Como essa pergunta só poderia ser-me dirigida por parte de quem não tem crianças em infantários, nem faz a menor ideia da luta vã por uma vaga, eu escuso-me de responder. Não iriam acreditar em mim.
sábado, dezembro 02, 2006
A CADERNETA ESCOLAR
Existe, até ao 9º ano, uma instituição que deveria garantir a ligação entre os professores e os encarregados de educação, que é a caderneta.
A caderneta, como não poderia deixar de escrever se isto fosse uma redacção virtuosa, é muito útil; tal como a vaca nos dá o leite, a caderneta permite-nos acompanhar de perto o desempenho dos nossos filhos, de forma a que os possamos corrigir e ajudar...
Sejamos sérios: a caderneta funciona, pelo que tenho visto, como uma espécie de bode expiatório, isto é, uma forma de os professores (os mesmos que detestam sentir os pais demasiado próximos, vasculhando e vigiando), poderem, de vez em quando, atirar-lhes com as culpas da sua própria incompetência: «O Manuel não tem feito os trabalhos de casa», «O João anda muito desatento e conversador nas aulas», «O Paulo deverá estudar», ou aquela pérola, pela mão do professor de EVT do meu próprio rebento, «Fulano tem tido atitudes impropriadas nas aulas». Impropriadas, escreve-me o professor do meu filho - ao que me apetecia responder: Bolas! Mesmo tratando-se de um professor de EVT... (no que estaria sendo injusto e preconceituoso).
Sabemos que os pais podem e devem acompanhar os filhos no seu trabalho de casa, como sabemos que nem sempre isso é possível porque, desde pais que não têm habilitação para o efeito até aos que não têm tempo, a situação dos alunos nem sempre pode ser solucionada em casa. Não querem os professores preservar a sua independência? Não se queixam de que os pais não são aptos para os avaliarem? Então porque recorrem tão frequentemente a eles e, aqui é que bate o ponto, tão arrogantemente, como quem lhes diz: Já viu bem a prenda que produziu? Veja lá se consegue fazer qualquer coisa com ele porque nós, professores, aqui, só vamos é depois avaliar...!
De algum modo, a caderneta transformou-se num instrumento de registo de males, de erros e inabilidades do aluno, uma selecção de depreciações. Se pensamos em como é pedagogicamente importante o reforço positivo, espantamo-nos de que tal elemento de ligação casa-escola nunca sirva para apreciar positivamente, para registar progressos e melhorias, parabéns, incentivos.
A caderneta do meu filho é um dos meus pesadelos. Sonho que me persegue. Quando espero pelo miudo à porta da escola e o vejo, com a caderneta meio escondida atrás das costas, lágrimas no rosto, já sei que temos drama.
Por mim, abomino a caderneta.
A caderneta, como não poderia deixar de escrever se isto fosse uma redacção virtuosa, é muito útil; tal como a vaca nos dá o leite, a caderneta permite-nos acompanhar de perto o desempenho dos nossos filhos, de forma a que os possamos corrigir e ajudar...
Sejamos sérios: a caderneta funciona, pelo que tenho visto, como uma espécie de bode expiatório, isto é, uma forma de os professores (os mesmos que detestam sentir os pais demasiado próximos, vasculhando e vigiando), poderem, de vez em quando, atirar-lhes com as culpas da sua própria incompetência: «O Manuel não tem feito os trabalhos de casa», «O João anda muito desatento e conversador nas aulas», «O Paulo deverá estudar», ou aquela pérola, pela mão do professor de EVT do meu próprio rebento, «Fulano tem tido atitudes impropriadas nas aulas». Impropriadas, escreve-me o professor do meu filho - ao que me apetecia responder: Bolas! Mesmo tratando-se de um professor de EVT... (no que estaria sendo injusto e preconceituoso).
Sabemos que os pais podem e devem acompanhar os filhos no seu trabalho de casa, como sabemos que nem sempre isso é possível porque, desde pais que não têm habilitação para o efeito até aos que não têm tempo, a situação dos alunos nem sempre pode ser solucionada em casa. Não querem os professores preservar a sua independência? Não se queixam de que os pais não são aptos para os avaliarem? Então porque recorrem tão frequentemente a eles e, aqui é que bate o ponto, tão arrogantemente, como quem lhes diz: Já viu bem a prenda que produziu? Veja lá se consegue fazer qualquer coisa com ele porque nós, professores, aqui, só vamos é depois avaliar...!
De algum modo, a caderneta transformou-se num instrumento de registo de males, de erros e inabilidades do aluno, uma selecção de depreciações. Se pensamos em como é pedagogicamente importante o reforço positivo, espantamo-nos de que tal elemento de ligação casa-escola nunca sirva para apreciar positivamente, para registar progressos e melhorias, parabéns, incentivos.
A caderneta do meu filho é um dos meus pesadelos. Sonho que me persegue. Quando espero pelo miudo à porta da escola e o vejo, com a caderneta meio escondida atrás das costas, lágrimas no rosto, já sei que temos drama.
Por mim, abomino a caderneta.
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