CAPÍTULO UM.
Vigiam-me. Não me dão lápis nem canetas, escrevo com uma lasca da perna da cama, embebida em sangue. No meu sangue. Muito menos papel, apenas uma camisola interior branca, que despi - e onde escrevo e escreverei sempre que possa, nesses raros segundos em que me encontre a sós, sobretudo agora que descobri onde a posso esconder: no mesmo buraco do chão (de madeira carcomida) que se abriu, ontem, sob o peso da Mamã. A Mamã assustou-se muito, acorreram todos, levaram-na, esqueceram-se do buraco que terei, talvez, de ocultar um pouco melhor, se o quiser realmente usar.
Eu não fui raptado. A culpa foi minha. Principiei por dar-me com alguns dos irmãos. Era tão bom no início: estavam sempre felizes, reuniamo-nos, líamos o Livro Sagrado, cantávamos e orávamos. Depois, convenceram-me a fugir. Fui recebido pelo Papá e pela Mamã, os líderes da comunidade. Arrancaram do meu espírito o meu nome terreno e não me atrevo a usar aqui, neste registo, o nome que me doaram. Trabalham afincadamente para que eu esqueça o mundo, a vida passada. Tenho já só algumas vagas memórias, que se confundem com sonhos e não sou capaz de precisar.
Entretanto, sob efeito do meu novo nome, do silêncio que cultivamos, da oração colectiva, do chá sagrado e da «libertação», que é como se designa o trânsito da alma fora do corpo, venho descobrindo a Verdade. E luto comigo próprio. Luto furiosamente comigo mesmo: porque às vezes sinto que devo abrir-me por inteiro à Verdade, como me exigem, mas, outras vezes, tenho repulsa por ela, abomino-a e só desejo prevenir os outros homens do que sei. Contar ao mundo. Por isso escrevo! Enquanto me é possível. Enquanto me restam raiva, repulsa e lucidez... quem sabe como estarei, como serei, o que serei eu amanhã?!
CAPÍTULO DOIS.
Eis a Verdade: não havia tempo. Havia deuses. Somente. E os deuses estavam unidos. Às vezes com ressentimentos mútuos, com desejos reprimidos, com ofensas, invejas, ciumes e malquerenças que, no entanto, não eram suficientes para os afastar uns dos outros. Os deuses viviam sem Rei, nem Pai, nem Lei que não a própria lei de cada um em consonância, tanto quanto possível, com as leis dos demais. Às vezes, lutavam em duelo. Nenhum deus se submeteria a outro deus e, portanto, o regime divino só poderia ser este: uma anarquia.
CAPÍTULO TRÊS.
Um dia, um deus começou a desprezar todos os outros. Não queria ser Rei. Queria pior: queria ser o Único Deus! Perseguiu e esmagou impiedosamente os outros, desbaratou-os, lançando num não-lugar, a que chamou inferno, os que se rebelavam, os que se lhe opunham, os que quebravam correntes, os que gargalhavam. E então, como Deus, criou um outro plano, o universo, ponto por ponto, com coisas boas e coisas más - a luz, a noite, a água, o fogo, buracos negros e pÓ; mas, tendo escorraçado ou sido abandonado por todos os outros, sentiu-se só. E decidiu criar, então, uma espécie de seres que seriam seus servos. E chamou-lhes homens. E não repousou enquanto não lhe mostrou a sua lei. Mas...
CAPÍTULO QUATRO.
Muitos dos deuses expulsos, conseguindo revestir-se de forma humana, refugiaram-se entre os homens. Com poderes descomunais, como super-heróis, todavia mantendo-se discretos no dia-a-dia, com identidades secretas, estão desde o começo dos tempos entre nós: talvez o nosso vizinho, talvez a vossa mulher-a-dias, o vosso subalterno, o senhor da mercearia, sejam deuses. Talvez não. Nunca os identificarão. (A não ser que...!)
CAPÍTULO CINCO.
Mas como os «Anjos do Senhor» foram imediatamente enviados em busca dos deuses, perseguindo-os onde quer que se escondessem, onde se acoitassem, reconhecendo-os sob as suas identidades secretas, sucedeu que a guerra, a sublime guerra divina teve lugar, e que se prepara a batalha final. Entre nós. Pois o terreno da batalha não há-de ser outro senão o mundo dos homens. E os homens, aliás, desde há muito, sem o saberem, são já, com as suas diversas guerras em todas as partes do mundo, joguetes da imensa e tentacular batalha subterrânea.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
terça-feira, janeiro 15, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (XII)
- É uma blasfémia! Não, não é isso que quero dizer, não é uma blasfémia, é uma, uma, uma... aaah... difamação! Não pense que se safa assim, senhora dona tartaruga. Ao contrário do que diz, eu sou muito rico, e prometo-lhe que não descansarei enquanto não a vir, a vir, aaah... E o Engenheiro? Hein?! E o Engenheiro?! Deixe-me adivinhar. Matei-o, não foi? Vinha eu a raspar-me com o gato debaixo do braço, o Engenheiro atravessou-se-me no caminho...
- Devo dizer que cheguei a achar isso. Foi a minha primeira teoria. Era mais económica, e eu sempre disse que as teorias mais simples são as mais bonitas. De resto, agradava-me que fosse antes o senhor... mas não seria sério, na verdade houve ali um período de tempo curtíssimo, em que não lhe seria possível raptar e matar. Mas por um triz o senhor e o assassino não tropeçaram um no outro. Não deixa de ser interessante a ideia de que, às escuras, e deve ter sido o senhor que cortou a corrente, mas, portanto, às escuras, sem saberem um do outro, quase chocaram...
- Porque a senhora também sabe quem é o assassino? - perguntou o inspector, mordiscando o próprio bigode. Estava verdadeiramente surpreendido com a agilidade mental de Mrs. Turtle.
Até Zorbas Castorpopoulos se interrompeu, num misto de curiosidade pela inculpação seguinte e de alívio por não ser ele o criminoso.
Mrs. Turtle fez render o peixe.
- O assassino. The murderer. Que pena que o nosso inglês seja tão ambíguo. Se falasse francês, não poderia antes dizer... Não seria o assassino uma mulher? Que me diz, Lady Gloria?
Voltou-se para a velha dama.
Emily e John, irreflectidamente, abraçaram-se.
Lady Gloria perguntou, num grito, à beira das lágrimas:
- Eu?!
Nova pausa.
- Não, Lady Gloria, não a senhora. Mas alguém que a senhora devia ter vigiado mais atentamente, alguém que a senhora sabe o que fez e que quer encobrir...
John perguntou:
- Refere-se a... a...?
- Sim, John, a Melody. Melody, que ansiava por casar com Charles, por quem se apaixonara, e a quem Charles fizera crer (deduzo eu) que poderia separar-se de Björk para vir a casar-se com ela. Melody, a quem Charles marcara um encontro amoroso durante a noite da passagem de ano... Mas vejam, quem é que se opunha com toda a força e toda a energia a este plano? Sem contar, é claro, com Björk. E admitindo que Charles queria alguma coisa mais do que divertir-se com uma rapariga mentalmente perturbada, que se apaixonara por ele...?
Melody estava estranhamente silenciosa. Os seus olhos pareciam perdidos no interior do seu inferno pessoal. Brincava com algo que ora ocultava ora mostrava entre as mãos.
Mrs. Turtle continuou:
- O Engenheiro, é claro. O Engenheiro, que chegou a tentar pôr cobro a este disparate, e da forma mais rude: ou és santa, ou és louca. Não foi, Melody? Num ou noutro caso, deixa-te de sonhar. O Engenheiro odiava Björk, mas nunca teria consentido nisto. Levei algum tempo a perceber que era ao Engenheiro que Melody se referia. Alguém que lhe teria dito: «Ou és Santa ou és louca, se fores santa, fica virgem, se fores louca, não penses trazer a infelicidade...»
- O meu pai não poderia impedir-me, se eu quisesse -, interpôs-se Charles, com a expressão mais séria possível. Uma onda de piedade começava a invadi-lo.
- Quem sabe, Charles, quem sabe? Melody foi molestada por ti. Estava perdida, desorientada, entre o amor que te tinha e a interdição do Engenheiro. O mal que tudo isto lge deve ter feito! Se não fosse... assim como é... poderia não lhe ter pesado tudo tanto! Fugiu-te, Charles. E cá em baixo, quando nos disse que eras tu, que tu lhe tinhas feito mal, procurando perdoar-se do que pensou que fosse um pecado, foi severamente admoestada pelo Engenheiro. Lembra-se do que ela lhe disse há algum tempo, inspector?
- Qualquer coisa como... não sei bem... espíritos maus... a casa ter de ser purificada... o corpo do Engenheiro ter de ser queimado...
- ...Para que ela se livrasse do pecado, do crime da culpa, para que os seus demónios a deixassem... Melody... nós não queremos que... Melody, que fazes? Lady Gloria, o que é que...?
- Filha!!!
- Tire-lhe isso da mão, mãe. É uma faca de cozinha -, advertiu John, branco.
- Esteja quieta, rapariga. Dê cá isso. Dê cá isso... Não faça isso, ninguém a vai prender, só queremos... - exclamava o inspector, receoso de que qualquer gesto brusco da sua parte deitasse tudo a perder.
Mas...
Muito tarde. Muito tarde. Muito tarde.
Tarde de mais.
FIM
- Devo dizer que cheguei a achar isso. Foi a minha primeira teoria. Era mais económica, e eu sempre disse que as teorias mais simples são as mais bonitas. De resto, agradava-me que fosse antes o senhor... mas não seria sério, na verdade houve ali um período de tempo curtíssimo, em que não lhe seria possível raptar e matar. Mas por um triz o senhor e o assassino não tropeçaram um no outro. Não deixa de ser interessante a ideia de que, às escuras, e deve ter sido o senhor que cortou a corrente, mas, portanto, às escuras, sem saberem um do outro, quase chocaram...
- Porque a senhora também sabe quem é o assassino? - perguntou o inspector, mordiscando o próprio bigode. Estava verdadeiramente surpreendido com a agilidade mental de Mrs. Turtle.
Até Zorbas Castorpopoulos se interrompeu, num misto de curiosidade pela inculpação seguinte e de alívio por não ser ele o criminoso.
Mrs. Turtle fez render o peixe.
- O assassino. The murderer. Que pena que o nosso inglês seja tão ambíguo. Se falasse francês, não poderia antes dizer... Não seria o assassino uma mulher? Que me diz, Lady Gloria?
Voltou-se para a velha dama.
Emily e John, irreflectidamente, abraçaram-se.
Lady Gloria perguntou, num grito, à beira das lágrimas:
- Eu?!
Nova pausa.
- Não, Lady Gloria, não a senhora. Mas alguém que a senhora devia ter vigiado mais atentamente, alguém que a senhora sabe o que fez e que quer encobrir...
John perguntou:
- Refere-se a... a...?
- Sim, John, a Melody. Melody, que ansiava por casar com Charles, por quem se apaixonara, e a quem Charles fizera crer (deduzo eu) que poderia separar-se de Björk para vir a casar-se com ela. Melody, a quem Charles marcara um encontro amoroso durante a noite da passagem de ano... Mas vejam, quem é que se opunha com toda a força e toda a energia a este plano? Sem contar, é claro, com Björk. E admitindo que Charles queria alguma coisa mais do que divertir-se com uma rapariga mentalmente perturbada, que se apaixonara por ele...?
Melody estava estranhamente silenciosa. Os seus olhos pareciam perdidos no interior do seu inferno pessoal. Brincava com algo que ora ocultava ora mostrava entre as mãos.
Mrs. Turtle continuou:
- O Engenheiro, é claro. O Engenheiro, que chegou a tentar pôr cobro a este disparate, e da forma mais rude: ou és santa, ou és louca. Não foi, Melody? Num ou noutro caso, deixa-te de sonhar. O Engenheiro odiava Björk, mas nunca teria consentido nisto. Levei algum tempo a perceber que era ao Engenheiro que Melody se referia. Alguém que lhe teria dito: «Ou és Santa ou és louca, se fores santa, fica virgem, se fores louca, não penses trazer a infelicidade...»
- O meu pai não poderia impedir-me, se eu quisesse -, interpôs-se Charles, com a expressão mais séria possível. Uma onda de piedade começava a invadi-lo.
- Quem sabe, Charles, quem sabe? Melody foi molestada por ti. Estava perdida, desorientada, entre o amor que te tinha e a interdição do Engenheiro. O mal que tudo isto lge deve ter feito! Se não fosse... assim como é... poderia não lhe ter pesado tudo tanto! Fugiu-te, Charles. E cá em baixo, quando nos disse que eras tu, que tu lhe tinhas feito mal, procurando perdoar-se do que pensou que fosse um pecado, foi severamente admoestada pelo Engenheiro. Lembra-se do que ela lhe disse há algum tempo, inspector?
- Qualquer coisa como... não sei bem... espíritos maus... a casa ter de ser purificada... o corpo do Engenheiro ter de ser queimado...
- ...Para que ela se livrasse do pecado, do crime da culpa, para que os seus demónios a deixassem... Melody... nós não queremos que... Melody, que fazes? Lady Gloria, o que é que...?
- Filha!!!
- Tire-lhe isso da mão, mãe. É uma faca de cozinha -, advertiu John, branco.
- Esteja quieta, rapariga. Dê cá isso. Dê cá isso... Não faça isso, ninguém a vai prender, só queremos... - exclamava o inspector, receoso de que qualquer gesto brusco da sua parte deitasse tudo a perder.
Mas...
Muito tarde. Muito tarde. Muito tarde.
Tarde de mais.
FIM
segunda-feira, janeiro 14, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (XI)
- Quem fez o gato desaparecer foi o próprio senhor Castorpopoulos.
Um protesto imediato, indignado. Constrangimento. Fúria do grego. O inspector levantou uma mão, impondo silêncio, para que a mulher pudesse continuar.
Mrs. Turtle esperou que a calma se restabelecesse. Estava certa do que ia dizer.
- Mr. Castorpopoulos tinha aliciado Charles. Lembrem-se de que o senhor Zorbas, quando aqui apareceu pela primeira vez mais o seu gato, disse, entre outras coisas estranhas, que nos conhecia muito bem a todos, que nunca improvisava, que tinha feito bem o seu trabalho de casa. Ora, quem nos poderia ter-lhe descrito tão pormenorizadamente a todos nós? Charles, é claro...
Charles protestou:
- Eu, ou Mrs. Turtle, ou John, ou Lady Gloria, ou... qualquer um de nós...
- É verdade, até eu, Charlie, até eu. Mas não fui eu que estive, no dia anterior ou na tarde do próprio dia, em casa do senhor Castorpopoulos, o tal «vizinho» onde teria perdido a chave. Sejamos sérios, Charlie. Que outro vizinho poderia ser? Que vizinhos temos nós, para além do casal de velhotes, ao lado da Torre? Eu não me lembro de mais ninguém. Não te estou a acusar de conheceres o plano do senhor Castorpopoulos, filho...
- Isto é um disparate! -, regougou o grego.
- Penso até que não sabias. Penso mais: penso que, ao princípio, não havia plano algum. O que terá dado ao senhor Castorpopulos a ideia do rapto foi, provavelmente, ver aparecer-lhe simplesmente essa possibilidade diante dos olhos, sob a forma de uma providencial chave de que Charles, o seu informador, se teria esquecido em sua casa. Daí a ter congeminado um rapto que seria a solução para o seu problema, deve ter sido um passo...
- Problema? Mas que problema?! Esta mulher é doida, inspector. Exijo que me deixe sair imediatamente. Não fico nesta casa nem mais um minuto...!
- Ah, o problema. O seu problema? O problema é ter legado ao gato uma fortuna que não existe. Ainda no outro dia John me contava que o senhor joga, é perseguido por credores... Como é que o rapto o beneficiaria? O «herdeiro» está no Seguro?! Será isso? Ou...?
- Mas então não tem provas? Diz o que quer, minha senhora, insulta-me, e pronto? Não tem de demonstrar nada? Limita-se a abrir a boca e a... a...?
- Eu observei logo, por exemplo, que a gaiola estava simplesmente aberta. Não foi forçada. Porquê, não pensou nisso? Acha que a Companhia de Seguros não detectaria tal falha? Ou tratava-se de uma gaiola demasiado cara para ser estragada? E quem mais possuiria a chave da gaiola de um herdeiro tão precioso? Uma vez mais, meu senhor, o senhor é traído por uma chave. Primeiro, pela chave que usou para entrar aqui, em segundo lugar, pela chave que usou para libertar o seu gato. Libertar, realmente?! Que lhe fez, escondeu-o? Matou-o? Será que o matou???
(CONTINUA)
Um protesto imediato, indignado. Constrangimento. Fúria do grego. O inspector levantou uma mão, impondo silêncio, para que a mulher pudesse continuar.
Mrs. Turtle esperou que a calma se restabelecesse. Estava certa do que ia dizer.
- Mr. Castorpopoulos tinha aliciado Charles. Lembrem-se de que o senhor Zorbas, quando aqui apareceu pela primeira vez mais o seu gato, disse, entre outras coisas estranhas, que nos conhecia muito bem a todos, que nunca improvisava, que tinha feito bem o seu trabalho de casa. Ora, quem nos poderia ter-lhe descrito tão pormenorizadamente a todos nós? Charles, é claro...
Charles protestou:
- Eu, ou Mrs. Turtle, ou John, ou Lady Gloria, ou... qualquer um de nós...
- É verdade, até eu, Charlie, até eu. Mas não fui eu que estive, no dia anterior ou na tarde do próprio dia, em casa do senhor Castorpopoulos, o tal «vizinho» onde teria perdido a chave. Sejamos sérios, Charlie. Que outro vizinho poderia ser? Que vizinhos temos nós, para além do casal de velhotes, ao lado da Torre? Eu não me lembro de mais ninguém. Não te estou a acusar de conheceres o plano do senhor Castorpopoulos, filho...
- Isto é um disparate! -, regougou o grego.
- Penso até que não sabias. Penso mais: penso que, ao princípio, não havia plano algum. O que terá dado ao senhor Castorpopulos a ideia do rapto foi, provavelmente, ver aparecer-lhe simplesmente essa possibilidade diante dos olhos, sob a forma de uma providencial chave de que Charles, o seu informador, se teria esquecido em sua casa. Daí a ter congeminado um rapto que seria a solução para o seu problema, deve ter sido um passo...
- Problema? Mas que problema?! Esta mulher é doida, inspector. Exijo que me deixe sair imediatamente. Não fico nesta casa nem mais um minuto...!
- Ah, o problema. O seu problema? O problema é ter legado ao gato uma fortuna que não existe. Ainda no outro dia John me contava que o senhor joga, é perseguido por credores... Como é que o rapto o beneficiaria? O «herdeiro» está no Seguro?! Será isso? Ou...?
- Mas então não tem provas? Diz o que quer, minha senhora, insulta-me, e pronto? Não tem de demonstrar nada? Limita-se a abrir a boca e a... a...?
- Eu observei logo, por exemplo, que a gaiola estava simplesmente aberta. Não foi forçada. Porquê, não pensou nisso? Acha que a Companhia de Seguros não detectaria tal falha? Ou tratava-se de uma gaiola demasiado cara para ser estragada? E quem mais possuiria a chave da gaiola de um herdeiro tão precioso? Uma vez mais, meu senhor, o senhor é traído por uma chave. Primeiro, pela chave que usou para entrar aqui, em segundo lugar, pela chave que usou para libertar o seu gato. Libertar, realmente?! Que lhe fez, escondeu-o? Matou-o? Será que o matou???
(CONTINUA)
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (X)
Na verdade, tanto quanto se consiga adivinhar o que se passa no espírito de cada um, não me parece que o inspector tivesse a mínima intenção de inculpar Mrs. Turtle do crime; achava-a perspicaz, gostava de a ouvir, até porque se sentia totalmente desnorteado em relação àquele caso: haviam chegado, entretanto, outros polícias; o corpo não poderia ficar eternamente naquele lugar, de modo que, concluído o trabalho dos fotógrafos e de um indivíduo extremamente baixo, cuja especialidade se resumia a desenhar, no chão, a giz, a posição de cadáveres, transportaram os, se me é permitido exprimir-me assim, restos mortais da vítima para a morgue.
Mas Mrs. Turtle não entendia aquela insistência do inspector junto da sua pessoa, e não lhe agradava que este tentasse definir qual era realmente o sentido da presença dela no seio da família. De forma que, por volta do meio dia, quando o viu aproximar-se pela décima primeira vez, tomou uma decisão e principiou a falar. Primeiro a medo, pondo e tirando uns óculos de aros fininhos, mordiscando uma das hastes, depois mais confiantemente, à medida que via que - e como - as suas palavras magnetizavam a pequena assembleia.
Tinha uma teoria sobre tudo o que se passara, disse. E acrescentou que o culpado fora Charles Arbuckle. Assim mesmo, sem mais. Houve pequenos gritos, formou-se um círculo, arrastaram-se cadeiras. Charles estava estarrecido...
- ... Ele é culpado -, prosseguiu a velha senhora - de um amor proibido e censurado, não sei se censurável, mas censurado por todos quantos sabiam. Não tenho a menor dúvida de que Charles esteve cá naquela noite.
- Alto lá, alto lá! - redarguiu o acusado.
- Não tenho dúvidas nenhumas. Em primeiro lugar, é verdade que Charlie tinha perdido a chave, mas já vimos que isso não constituía qualquer problema. Usou a de Bjork. Que haveria de mais simples? Em segundo lugar, não vejo razão para desconfiar do que Melody nos contou. Tinham certamente combinado encontrar-se os dois, aqui em casa, antes da meia noite, o que explica por que razão Charles não fez nada para não ir à festa sueca onde, obviamente, não tinha sombra de interesse em estar. Foi simplesmente um pretexto para se separar de Bjork: levou-a lá, bebeu um ou dois copos, zangou-se, fez alarido, voltou. Finalmente, também é visível que houve uma grande confusão lá para cima, no primeiro andar. Fui investigar com muita atenção. Parece que houve uma batalha campal! Charles e Melody encontraram-se, mas deviam ter ideias muito diferentes sobre o que iriam fazer. Ele deve ter tentado beijá-la, ou despi-la, sei lá!, e ela não queria, ou não achava que fosse o momento, ou os espíritos que a acompanham sempre se indignaram e assanharam. Peço desculpa da minha crueza, Melody. Desculpe-me, Lady Gloria, bem vejo que a choco. Há traços de luta, há vestígios, a seguir, das fugas - de uma e de outro, cada um para seu lado...
Fez-se um silêncio. Todos tinham os olhos lançados sobre Charles.
Mrs. Turtle percebeu que começara bem. O inspector queria perguntar-lhe algo, mas desistiu. Calou-se. Esperou pela continuação, que não se fez tardar.
- Mas é preciso não nos esquecermos de que se deram três acontecimentos diferentes nessa noite. Melody teve um encontro que se tornou num desencontro; o gato desapareceu; o Engenheiro morreu. Foi assassinado.
Lady Gloria soltou uma exclamação abafada.
- Foi Charles que fez tudo isto? Não creio. O gato é outra história. O gato foi raptado por...
Estavam em suspenso.
Mr. Castorpopulos não cabia em si de curiosidade.
(CONTINUA)
Mas Mrs. Turtle não entendia aquela insistência do inspector junto da sua pessoa, e não lhe agradava que este tentasse definir qual era realmente o sentido da presença dela no seio da família. De forma que, por volta do meio dia, quando o viu aproximar-se pela décima primeira vez, tomou uma decisão e principiou a falar. Primeiro a medo, pondo e tirando uns óculos de aros fininhos, mordiscando uma das hastes, depois mais confiantemente, à medida que via que - e como - as suas palavras magnetizavam a pequena assembleia.
Tinha uma teoria sobre tudo o que se passara, disse. E acrescentou que o culpado fora Charles Arbuckle. Assim mesmo, sem mais. Houve pequenos gritos, formou-se um círculo, arrastaram-se cadeiras. Charles estava estarrecido...
- ... Ele é culpado -, prosseguiu a velha senhora - de um amor proibido e censurado, não sei se censurável, mas censurado por todos quantos sabiam. Não tenho a menor dúvida de que Charles esteve cá naquela noite.
- Alto lá, alto lá! - redarguiu o acusado.
- Não tenho dúvidas nenhumas. Em primeiro lugar, é verdade que Charlie tinha perdido a chave, mas já vimos que isso não constituía qualquer problema. Usou a de Bjork. Que haveria de mais simples? Em segundo lugar, não vejo razão para desconfiar do que Melody nos contou. Tinham certamente combinado encontrar-se os dois, aqui em casa, antes da meia noite, o que explica por que razão Charles não fez nada para não ir à festa sueca onde, obviamente, não tinha sombra de interesse em estar. Foi simplesmente um pretexto para se separar de Bjork: levou-a lá, bebeu um ou dois copos, zangou-se, fez alarido, voltou. Finalmente, também é visível que houve uma grande confusão lá para cima, no primeiro andar. Fui investigar com muita atenção. Parece que houve uma batalha campal! Charles e Melody encontraram-se, mas deviam ter ideias muito diferentes sobre o que iriam fazer. Ele deve ter tentado beijá-la, ou despi-la, sei lá!, e ela não queria, ou não achava que fosse o momento, ou os espíritos que a acompanham sempre se indignaram e assanharam. Peço desculpa da minha crueza, Melody. Desculpe-me, Lady Gloria, bem vejo que a choco. Há traços de luta, há vestígios, a seguir, das fugas - de uma e de outro, cada um para seu lado...
Fez-se um silêncio. Todos tinham os olhos lançados sobre Charles.
Mrs. Turtle percebeu que começara bem. O inspector queria perguntar-lhe algo, mas desistiu. Calou-se. Esperou pela continuação, que não se fez tardar.
- Mas é preciso não nos esquecermos de que se deram três acontecimentos diferentes nessa noite. Melody teve um encontro que se tornou num desencontro; o gato desapareceu; o Engenheiro morreu. Foi assassinado.
Lady Gloria soltou uma exclamação abafada.
- Foi Charles que fez tudo isto? Não creio. O gato é outra história. O gato foi raptado por...
Estavam em suspenso.
Mr. Castorpopulos não cabia em si de curiosidade.
(CONTINUA)
sábado, janeiro 12, 2008
CRIME NA PASSAGEM DO ANO (XIX)
Aqui apresentamos em primeira mão, fragmentária e enigmática como um texto de Heraclito, a terceira e última página escrita do caderno de Mrs. Turtle.
Infelizmente, não cremos que esta página faça uma luz definitiva sobre o caso.
Haverá, pois, um próximo episódio desta trágica narrativa.
OS APONTAMENTOS DE VIRGINIA TURTLE.
OBSERVAÇÕES E PERGUNTAS. pÁG. 3
«Fiz uma primeira investigação, que se impunha, ao andar superior.
Por estranho que pareça, o estúpido do inspector não se lembrou disso. Trabalha às três pancadas.
Bom. Tal como eu suspeitava, é possível que algum intruso tivesse andado pelos quartos. Mesas tombadas, jarras partidas, como se alguém, no escuro, caminhasse aos encontrões... ou como se tivesse havido um combate...
«As crianças estão todas acordadas, por fim. Tivemos de fazer um perímetro em torno do corpo do Eng, e tapá-lo com um lençol, enquanto se não dá a investigação por concluída.
«O janota grego propôs sair com os garotos; levá-los a passear; libertá-los deste ambiente angustiante. Espertalhão. Mas o inspector não foi na esparrela. Os meninos, alternativamente ao passeio censurado, deixaram-se estar presos pela cola da televisão.
«Mr. Arbuckle teve um ataque cardíaco. O médico regressou à pressa. O velho está melhor, mas ainda muito prostrado...
«Penso que Charles tem tentado telefonar a Björk, sem conseguir encontrá-la em parte alguma.
«Fiz uma segunda investigação, muito simples.
Pus uma questão muito simples à doida. Sem palavras a mais, nem a menos. Andei a treiná-la. Quando Charlie, que parece agora fugir-lhe constantemente (não, se calhar é impressão minha... sou tão mazinha, ele tem de estar atento a Angel, coitado...) quando Charlie não estava por ali, perguntei a Melody:
«Que mal te fez ele?»
Ao que me respondeu:
«Disse-me que eu ou era santa, ou era maluca».
«Como?!»
«Santa ou louca. E que as santas devem permanecer virgens. E que as loucas não poderão ser felizes, porque tornam os outros infelizes...»
«Tenho dado voltas à cabeça. Isto não faz sentido. A minha pergunta referia-se a Charlie, evidentemente. Mas a resposta dela não se coaduna com a história de alguém que teria tentado molestá-la. Teria sido mesmo Charlie a dizer-lhe isto...? Quando...? Ou será que não era Charlie...?
«Ou será que...?
«Não pude continuar a falar, porque o maldito inspector nos interrompeu: queria falar comigo (pela décima vez), saber por que insistia eu em «infiltrar-me» nesta família onde não era bem-vinda pelo Eng...
«Espera... espera... mas eu começo a perceber... eu sei o que se passou nessa noite...estou a ver estou a ver estou a ver calma calma para não perder a ideia de vista não-deixar-fugir nãodeixarfugirnãodeixarfugir estaideiaestaideia ES TA I DEI A»
O resto da página é irreproduzível: setas, círculos, cálculos estranhos em torno de horas...
(CONTINUA)
Infelizmente, não cremos que esta página faça uma luz definitiva sobre o caso.
Haverá, pois, um próximo episódio desta trágica narrativa.
OS APONTAMENTOS DE VIRGINIA TURTLE.
OBSERVAÇÕES E PERGUNTAS. pÁG. 3
«Fiz uma primeira investigação, que se impunha, ao andar superior.
Por estranho que pareça, o estúpido do inspector não se lembrou disso. Trabalha às três pancadas.
Bom. Tal como eu suspeitava, é possível que algum intruso tivesse andado pelos quartos. Mesas tombadas, jarras partidas, como se alguém, no escuro, caminhasse aos encontrões... ou como se tivesse havido um combate...
«As crianças estão todas acordadas, por fim. Tivemos de fazer um perímetro em torno do corpo do Eng, e tapá-lo com um lençol, enquanto se não dá a investigação por concluída.
«O janota grego propôs sair com os garotos; levá-los a passear; libertá-los deste ambiente angustiante. Espertalhão. Mas o inspector não foi na esparrela. Os meninos, alternativamente ao passeio censurado, deixaram-se estar presos pela cola da televisão.
«Mr. Arbuckle teve um ataque cardíaco. O médico regressou à pressa. O velho está melhor, mas ainda muito prostrado...
«Penso que Charles tem tentado telefonar a Björk, sem conseguir encontrá-la em parte alguma.
«Fiz uma segunda investigação, muito simples.
Pus uma questão muito simples à doida. Sem palavras a mais, nem a menos. Andei a treiná-la. Quando Charlie, que parece agora fugir-lhe constantemente (não, se calhar é impressão minha... sou tão mazinha, ele tem de estar atento a Angel, coitado...) quando Charlie não estava por ali, perguntei a Melody:
«Que mal te fez ele?»
Ao que me respondeu:
«Disse-me que eu ou era santa, ou era maluca».
«Como?!»
«Santa ou louca. E que as santas devem permanecer virgens. E que as loucas não poderão ser felizes, porque tornam os outros infelizes...»
«Tenho dado voltas à cabeça. Isto não faz sentido. A minha pergunta referia-se a Charlie, evidentemente. Mas a resposta dela não se coaduna com a história de alguém que teria tentado molestá-la. Teria sido mesmo Charlie a dizer-lhe isto...? Quando...? Ou será que não era Charlie...?
«Ou será que...?
«Não pude continuar a falar, porque o maldito inspector nos interrompeu: queria falar comigo (pela décima vez), saber por que insistia eu em «infiltrar-me» nesta família onde não era bem-vinda pelo Eng...
«Espera... espera... mas eu começo a perceber... eu sei o que se passou nessa noite...estou a ver estou a ver estou a ver calma calma para não perder a ideia de vista não-deixar-fugir nãodeixarfugirnãodeixarfugir estaideiaestaideia ES TA I DEI A»
O resto da página é irreproduzível: setas, círculos, cálculos estranhos em torno de horas...
(CONTINUA)
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (VIII)
OS APONTAMENTOS DE VIRGINIA TURTLE
OBSERVAÇÕES E PERGUNTAS. PÁGINA 2
«Tempo somente para garatujar umas [ilegível].
Porcaria do Inspector não me larga. Desconfia de mim. [Uma palavra, porventura uma obscenidade, muito riscada].
«Mr. Castorpopoulos [riscado; por cima, escreveu antes: O Janota] quis ir a sua casa. Apesar de ser perto (na verdade o Janota é o nosso único vizinho, com excepção dos velhos [nome ilegível] que não saem há anos) o [palavrão] do inspector não o deixou ir. «Mas eu também? Eu nem sequer estava cá!» Discute Janota. Agora aquietou-se. Deitou-se numa cadeira, com uma manta. Ressona. Ou finge.
John diz que ele não é tão rico como se supõe. Que joga! Que perde fortunas!
«Ouvi a conversa do inspector com Miss Melody. De morrer a rir. O inspector tratava-a como a uma rapariga normal. Deve ter ficado sem pinga de sangue, ouvindo-a dizer enormidades sobre os espíritos bons e os espíritos maus, sobre as vozes que a mandam purificar a casa queimando o cadáver do tio porque...
«Lá vem o inspector.
«Que seca! Que perseguição! Retomo os rabiscos. O culpado poderia ser...
«Não. Demasiado horrível.
«Seis horas da manhã. Angel acordou. Berra. O pai foi buscá-la, não vá ela acordar os outros.
«Oiço-a gritar para o pai: «Não. Tu não. Mãe. Qué' a mãe!» E o pai enervadíssimo a [palavra riscada]
«Mrs. Emily fala com John. Já não está tão desmaiada, parece! (Mazinha, mazinha, mazinha, Virginia)
«Entretanto, algo começa a clarificar-se na minha mente. Tenho de me apressar. Antes que o palhaço do inspector decida que a culpada sou eu!»
(CONTINUA)
OBSERVAÇÕES E PERGUNTAS. PÁGINA 2
«Tempo somente para garatujar umas [ilegível].
Porcaria do Inspector não me larga. Desconfia de mim. [Uma palavra, porventura uma obscenidade, muito riscada].
«Mr. Castorpopoulos [riscado; por cima, escreveu antes: O Janota] quis ir a sua casa. Apesar de ser perto (na verdade o Janota é o nosso único vizinho, com excepção dos velhos [nome ilegível] que não saem há anos) o [palavrão] do inspector não o deixou ir. «Mas eu também? Eu nem sequer estava cá!» Discute Janota. Agora aquietou-se. Deitou-se numa cadeira, com uma manta. Ressona. Ou finge.
John diz que ele não é tão rico como se supõe. Que joga! Que perde fortunas!
«Ouvi a conversa do inspector com Miss Melody. De morrer a rir. O inspector tratava-a como a uma rapariga normal. Deve ter ficado sem pinga de sangue, ouvindo-a dizer enormidades sobre os espíritos bons e os espíritos maus, sobre as vozes que a mandam purificar a casa queimando o cadáver do tio porque...
«Lá vem o inspector.
«Que seca! Que perseguição! Retomo os rabiscos. O culpado poderia ser...
«Não. Demasiado horrível.
«Seis horas da manhã. Angel acordou. Berra. O pai foi buscá-la, não vá ela acordar os outros.
«Oiço-a gritar para o pai: «Não. Tu não. Mãe. Qué' a mãe!» E o pai enervadíssimo a [palavra riscada]
«Mrs. Emily fala com John. Já não está tão desmaiada, parece! (Mazinha, mazinha, mazinha, Virginia)
«Entretanto, algo começa a clarificar-se na minha mente. Tenho de me apressar. Antes que o palhaço do inspector decida que a culpada sou eu!»
(CONTINUA)
INTERRUPÇÃO NO POLICIAL PARA UMAS QUANTAS CONFISSÕES
Leio isto, no Eclesiastes: «O que aconteceu, de novo acontecerá; e o que se fez, de novo será feito: debaixo do sol não há nenhuma novidade.» [Ecl. 9-10]
E, todavia, dou por mim, já com tanto caminho percorrido (meio século de cultivo de um cepticismo permanente e de uma feroz desconfiança em relação a todas as «novidades»), a discordar desta mensagem.
Nunca tanto como nestes últimos anos fui chamado ou, talvez mais rigorosamente, «convidado» à descoberta de algumas maravilhas que me ferem o olhar, os ouvidos e o espírito, em diferentes áreas, com o seu sabor de absoluta originalidade: «originalidade» no melhor sentido da palavra, que não é o do diferente pelo diferente, só porque sim, mas do diferente que interessa e vale a pena, que introduz algo de novo debaixo do sol, e nos encanta, e faz a nossa alma rejubilar. Amen!
Nestas descobertas, nestes convites, nestes chamamentos, os amigos têm tido um papel essencial: o que me faz pensar que o encontro com o «novo» tem qualquer coisa que ver, necessária ou, pelo menos, preferencialmente, com um movimento de amizade e de partilha, de não-avareza, de se querer mostrar de imediato o que descobrimos aos que nos compreendem, de estar, por outro lado, de olhos e orelhas bem despertos para o que eles nos queiram dar a ver.
Talvez que muito do novo, do genuinamente novo, resida na capacidade de refrescar o nosso olhar, fazendo-o olhar de uma outra forma para o que aparentemente já antes existia - até para o que já esperava por nós há séculos! E, nesse sentido, Janota, no seu «Bisnaga Janota», revelou-me a magnífica imagem de Ron Hutt, que se intitula «Aphrodite arranging a romantic rendezvous with Ares on her cell» - é verdade, Aphrodite combinando um rendez-vous pelo telemóvel -, e é simplesmente a primeira de uma série de imagens onde revisita, inesperada e supreendentemente, a arte da antiguidade grega, reconstituindo-a à luz de uma modernidade irónica e estranha, improvável e belíssima.
Da mesma forma, mantendo-me ainda na pista do antigo que é reavaliado, ou do antigo que nem sequer conhecíamos e portanto, para nós, que o descobrimos agora, é, de facto, novo, gostaria de vos sussurrar algo acerca de uma outra pequena maravilha, sobre a qual o meu primo se abriu comigo em confissão, porque o tem fascinado e porque o fará um dia, quem sabe, perder a cabeça e arruinar-se: é a pintura de um senhor inglês do século XVIII, completamente rendido, por sua vez, a Nápoles; chama-se, esse senhor, Thomas Jones. Ah, se eu fosse Janota ou Angel, se tivesse a sua mestria tecnológica, o gosto com que não vos mostraria já algumas reproduções: a delicadeza das cores, das fachadas pobres e em ruínas, o ligeiro prenúncio (como me dizia meu primo, pobre louco apaixonado!) do que viria a ser o impressionismo, tanto tempo antes da emergência deste...
Mas assim, sem poder postar cores nem pinturas, posso pedir-vos que pesquisem, que procurem, repito, Thomas Jones, acrescentando, talvez, «Nápoles» porque, ao que parece, há mais, há muitos outros Thomas Jones. Não se deixem enganar nem confundir...
Angel, por sua vez, foi (e já lho disse, também), a pessoa que me chamou a descobrir Neil Gaiman: é uma dívida que nunca agradecerei nem pagarei suficientemente; Neil Gaiman é um criador múltiplo e prodigioso, tentacular, que está em todas as áreas ao mesmo tempo - no romance («Os Filhos de Ananci», «Neverwhere»...), no cinema (sim, o guião de «Bewoulf» é, em parte, da sua autoria), na banda desenhada, com diversas Graphic Novels, entre as quais Sandman (e a série «Nocturno», que encontrei não mais longe do que... na Biblioteca Municipal de Oeiras, é de nos fazer perder o ar) e «O Mundo da Marvel», onde coloca as personagens da Marvel, por uma espécie de erro espacio-temporal, no longínquo ano de 1620, em plena histeria da inquisição e de caça às bruxas...!
Vamos ainda mais longe. Descobri, por um mero acaso - e há que, neste processo de busca, dar a devida importância ao «acaso» -, uma outra personagem de BD, sobre que me não posso calar durante nem mais um minuto. Blacksad, de dois espanhóis, Díaz Canales e Guarnido, é um detective romântico e ácido, nos EUA dos anos 40; desenhado num grafismo vertiginoso, com uma cor magnífica, sombria, procurando ângulos e planos próprios de quem viu e digeriu muito cinema, com sequências onde o movimento é captado de uma forma quase impossível, Blacksad é, afinal... um gato negro, num universo onde todas as personagens são animais em convivência complexa e dolorosa: cães, porcos, cavalos, gazelas, tigres, leões, numa melancólica representação das personalidades, das virtudes e dos vícios, da ética e da imoralidade humanos.
Muito mais haveria a dizer: mas para, fechando o círculo, terminar no mesmo ponto onde iniciei este post, devo aproveitar para fazer a revelação de que nunca prestara grande atenção ao Eclesiastes.
Quem mo devolveu foi, vejam lá como isto funciona, como as descobertas nos chegam de onde menos se espera - foi Ricardo Araújo Pereira que, algures, numa entrevista, destacava o tom do Eclesiastes: o seu autor pareceria ser, na interpretação do Gato Fedorento, um mensageiro de Deus, no fundo, secreta e amargamente descrente de Deus e da sua Obra. Um Profeta descrente? Um Condutor impotente para crer no caminho? Não descansei enquanto não procurei uma Bíblia.
Surpresas e maravilhas são sem fim...
E, todavia, dou por mim, já com tanto caminho percorrido (meio século de cultivo de um cepticismo permanente e de uma feroz desconfiança em relação a todas as «novidades»), a discordar desta mensagem.
Nunca tanto como nestes últimos anos fui chamado ou, talvez mais rigorosamente, «convidado» à descoberta de algumas maravilhas que me ferem o olhar, os ouvidos e o espírito, em diferentes áreas, com o seu sabor de absoluta originalidade: «originalidade» no melhor sentido da palavra, que não é o do diferente pelo diferente, só porque sim, mas do diferente que interessa e vale a pena, que introduz algo de novo debaixo do sol, e nos encanta, e faz a nossa alma rejubilar. Amen!
Nestas descobertas, nestes convites, nestes chamamentos, os amigos têm tido um papel essencial: o que me faz pensar que o encontro com o «novo» tem qualquer coisa que ver, necessária ou, pelo menos, preferencialmente, com um movimento de amizade e de partilha, de não-avareza, de se querer mostrar de imediato o que descobrimos aos que nos compreendem, de estar, por outro lado, de olhos e orelhas bem despertos para o que eles nos queiram dar a ver.
Talvez que muito do novo, do genuinamente novo, resida na capacidade de refrescar o nosso olhar, fazendo-o olhar de uma outra forma para o que aparentemente já antes existia - até para o que já esperava por nós há séculos! E, nesse sentido, Janota, no seu «Bisnaga Janota», revelou-me a magnífica imagem de Ron Hutt, que se intitula «Aphrodite arranging a romantic rendezvous with Ares on her cell» - é verdade, Aphrodite combinando um rendez-vous pelo telemóvel -, e é simplesmente a primeira de uma série de imagens onde revisita, inesperada e supreendentemente, a arte da antiguidade grega, reconstituindo-a à luz de uma modernidade irónica e estranha, improvável e belíssima.
Da mesma forma, mantendo-me ainda na pista do antigo que é reavaliado, ou do antigo que nem sequer conhecíamos e portanto, para nós, que o descobrimos agora, é, de facto, novo, gostaria de vos sussurrar algo acerca de uma outra pequena maravilha, sobre a qual o meu primo se abriu comigo em confissão, porque o tem fascinado e porque o fará um dia, quem sabe, perder a cabeça e arruinar-se: é a pintura de um senhor inglês do século XVIII, completamente rendido, por sua vez, a Nápoles; chama-se, esse senhor, Thomas Jones. Ah, se eu fosse Janota ou Angel, se tivesse a sua mestria tecnológica, o gosto com que não vos mostraria já algumas reproduções: a delicadeza das cores, das fachadas pobres e em ruínas, o ligeiro prenúncio (como me dizia meu primo, pobre louco apaixonado!) do que viria a ser o impressionismo, tanto tempo antes da emergência deste...
Mas assim, sem poder postar cores nem pinturas, posso pedir-vos que pesquisem, que procurem, repito, Thomas Jones, acrescentando, talvez, «Nápoles» porque, ao que parece, há mais, há muitos outros Thomas Jones. Não se deixem enganar nem confundir...
Angel, por sua vez, foi (e já lho disse, também), a pessoa que me chamou a descobrir Neil Gaiman: é uma dívida que nunca agradecerei nem pagarei suficientemente; Neil Gaiman é um criador múltiplo e prodigioso, tentacular, que está em todas as áreas ao mesmo tempo - no romance («Os Filhos de Ananci», «Neverwhere»...), no cinema (sim, o guião de «Bewoulf» é, em parte, da sua autoria), na banda desenhada, com diversas Graphic Novels, entre as quais Sandman (e a série «Nocturno», que encontrei não mais longe do que... na Biblioteca Municipal de Oeiras, é de nos fazer perder o ar) e «O Mundo da Marvel», onde coloca as personagens da Marvel, por uma espécie de erro espacio-temporal, no longínquo ano de 1620, em plena histeria da inquisição e de caça às bruxas...!
Vamos ainda mais longe. Descobri, por um mero acaso - e há que, neste processo de busca, dar a devida importância ao «acaso» -, uma outra personagem de BD, sobre que me não posso calar durante nem mais um minuto. Blacksad, de dois espanhóis, Díaz Canales e Guarnido, é um detective romântico e ácido, nos EUA dos anos 40; desenhado num grafismo vertiginoso, com uma cor magnífica, sombria, procurando ângulos e planos próprios de quem viu e digeriu muito cinema, com sequências onde o movimento é captado de uma forma quase impossível, Blacksad é, afinal... um gato negro, num universo onde todas as personagens são animais em convivência complexa e dolorosa: cães, porcos, cavalos, gazelas, tigres, leões, numa melancólica representação das personalidades, das virtudes e dos vícios, da ética e da imoralidade humanos.
Muito mais haveria a dizer: mas para, fechando o círculo, terminar no mesmo ponto onde iniciei este post, devo aproveitar para fazer a revelação de que nunca prestara grande atenção ao Eclesiastes.
Quem mo devolveu foi, vejam lá como isto funciona, como as descobertas nos chegam de onde menos se espera - foi Ricardo Araújo Pereira que, algures, numa entrevista, destacava o tom do Eclesiastes: o seu autor pareceria ser, na interpretação do Gato Fedorento, um mensageiro de Deus, no fundo, secreta e amargamente descrente de Deus e da sua Obra. Um Profeta descrente? Um Condutor impotente para crer no caminho? Não descansei enquanto não procurei uma Bíblia.
Surpresas e maravilhas são sem fim...
sexta-feira, janeiro 11, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (VII)
OS APONTAMENTOS DE VIRGINIA TURTLE
«OBSERVAÇÕES & INTERROGAÇÕES»
«Charlie entrou com uma chave. Lady Gloria abraçou-se a ele e pô-lo a par dos acontecimentos. Charlie, como se esperaria, quis ver o corpo do pai. Debruçou-se sobre o cadáver e fez adequadamente o seu teatro. Estarei a ser mazinha?
«Melody parecia tola. No primeiro momento tinha-se levantado, como se assustada, e chegara a esconder-se atrás de uma cadeira. Mas, depois, veio consolar Charlie, o choroso Charlie, afagando-lhe ternamente o cabelo. É doida, é claro, mas isso explica tudo? Afinal, o que aconteceu lá em cima? Tenho tantas perguntas. Será que sou capaz de fazer as perguntas certas, sem dizer de mais, sem dizer de menos? Sem espantar a caça? Hum!
«Inquirido por mim (omo quem não quer a coisa) sobre se, então, sempre tornara a encontrar a chave que se queixara de ter perdido, e sobre por que voltara tão cedo, e sem a mulher, Charlie explicou-nos, não sei se convincentemente, que:
«a) Não tinha realmente chave da casa dos pais. Perdera-a na véspera do dia do ano novo, de visita a casa de um vizinho. Que vizinho? Há poucos vizinhos por aqui. (A chave que trazia, segundo me disse, era de Björk. Mas por que raio haveria a sueca de ter uma chave da casa dos sogros? Bem, suponho que isso poderá ser confirmado...)
b) Veio mais cedo da festa sueca, porque não conhecia praticamente ninguém e... só se falava em sueco. Está bem visto. Cansou-se, teve, em bom inglês, uma monumental discussão com a esposa, que se recusou a sair, e deixou-a, aliás, ao que parece, muito divertida e meio bêbeda.
«No fundo, pensando bem, Charlie é francamente suspeito, mas não é o único.
Devo dizer que a mais suspeita de todos, de resto, sou eu. Tenho quase pena de me ter desperdiçado como presumível culpada. Eu sei que não fui eu.
Também sei que não foi Mr. Arbuckle. Coitado! Posso eliminá-lo descansadamente. Eliminá-lo?! Cala-te boca, que palavra horrorosa, nesta situação. (Também posso «eliminar» Mrs. Arbuckle. Uma mãe é uma mãe. Conheço-a bem. Embora...!)
«Mr. Castorpopoulos chegou, antes da polícia, às duas horas da manhã. Janota, sem um vinco fora do lugar, os sapatos brilhando muito, como se não tivesse estado a divertir-se, e a beber, e a soprar gaitinhas...! Cristo! Não se imagina o estado em que ficou quando confrontado com o desaparecimento do gato. Dir-se-ia que o sumiço do bichano o perturbou muito mais do que a morte do Engenheiro. O homem é mesmo grego! Que intuição para a tragédia! Que talento! As mãos abertas, como se se preparasse para voar...! A voz rouca...! Estou a ser mazinha, não consigo controlar este meu ódio contra um homem que deixa toda a sua fortuna ao gato!
«Charlie e John iniciaram, mais tarde, uma discussão sem tréguas. Ambos pareciam culpar-se de qualquer coisa. John estava muito nervoso, pensa que Charlie lhe violou a irmã, fez desaparecer o gato, matou o pai. Não o diz, mas insinua! E John? Que sei eu dele, a não ser que era amicíssimo do Engenheiro? Mas não havia um rumor de ambos terem estado apaixonados por Mrs. Emily? E de não terem falado durante anos, logo após o casamento do Engenheiro com a esposa...?
Melody interpõe-se. Não compreendo esta rapariga. Ela e Charlie estão, agora, a olhar-se de olhos nos olhos, muito intensamente, como se... como se... não gosto disto, não gosto disto!
«A polícia chegou quase às três da manhã, com um médico calvo e macilento que anunciou, com o ar de quem descobria a pólvora: «Está morto!»
«O detective, um senhor de bigode ruivo e chapéu de coco, desconfia de mim. Percebe-se imediatamente! Desvaloriza o pormenor da chave de Charlie. Desvaloriza outros pormenores para que eu lhe chamei discreta e delicadamente a atenção.
«E Emily dava-se bem com o esposo? Não, não dava. Ainda estaria apaixonada por John? Quem sabe?! Mas seria capaz de assassinar o Eng.? Mandar alguém, em desespero... não digo que não. (Estou a ser mazinha?). O Engenheiro era intragável. Tenho de ser sincera. (Virginia, Virginia, és tão mazinha!)
«Eu tenho uma teoria. Mas precisava de fazer as perguntas certas. Sem afugentar a presa. Serei capaz?
«Olha, olha, olha, olha! Charlie e Melody não estão cá. Lá em cima?!
«Hum...!»
(CONTINUA)
«OBSERVAÇÕES & INTERROGAÇÕES»
«Charlie entrou com uma chave. Lady Gloria abraçou-se a ele e pô-lo a par dos acontecimentos. Charlie, como se esperaria, quis ver o corpo do pai. Debruçou-se sobre o cadáver e fez adequadamente o seu teatro. Estarei a ser mazinha?
«Melody parecia tola. No primeiro momento tinha-se levantado, como se assustada, e chegara a esconder-se atrás de uma cadeira. Mas, depois, veio consolar Charlie, o choroso Charlie, afagando-lhe ternamente o cabelo. É doida, é claro, mas isso explica tudo? Afinal, o que aconteceu lá em cima? Tenho tantas perguntas. Será que sou capaz de fazer as perguntas certas, sem dizer de mais, sem dizer de menos? Sem espantar a caça? Hum!
«Inquirido por mim (omo quem não quer a coisa) sobre se, então, sempre tornara a encontrar a chave que se queixara de ter perdido, e sobre por que voltara tão cedo, e sem a mulher, Charlie explicou-nos, não sei se convincentemente, que:
«a) Não tinha realmente chave da casa dos pais. Perdera-a na véspera do dia do ano novo, de visita a casa de um vizinho. Que vizinho? Há poucos vizinhos por aqui. (A chave que trazia, segundo me disse, era de Björk. Mas por que raio haveria a sueca de ter uma chave da casa dos sogros? Bem, suponho que isso poderá ser confirmado...)
b) Veio mais cedo da festa sueca, porque não conhecia praticamente ninguém e... só se falava em sueco. Está bem visto. Cansou-se, teve, em bom inglês, uma monumental discussão com a esposa, que se recusou a sair, e deixou-a, aliás, ao que parece, muito divertida e meio bêbeda.
«No fundo, pensando bem, Charlie é francamente suspeito, mas não é o único.
Devo dizer que a mais suspeita de todos, de resto, sou eu. Tenho quase pena de me ter desperdiçado como presumível culpada. Eu sei que não fui eu.
Também sei que não foi Mr. Arbuckle. Coitado! Posso eliminá-lo descansadamente. Eliminá-lo?! Cala-te boca, que palavra horrorosa, nesta situação. (Também posso «eliminar» Mrs. Arbuckle. Uma mãe é uma mãe. Conheço-a bem. Embora...!)
«Mr. Castorpopoulos chegou, antes da polícia, às duas horas da manhã. Janota, sem um vinco fora do lugar, os sapatos brilhando muito, como se não tivesse estado a divertir-se, e a beber, e a soprar gaitinhas...! Cristo! Não se imagina o estado em que ficou quando confrontado com o desaparecimento do gato. Dir-se-ia que o sumiço do bichano o perturbou muito mais do que a morte do Engenheiro. O homem é mesmo grego! Que intuição para a tragédia! Que talento! As mãos abertas, como se se preparasse para voar...! A voz rouca...! Estou a ser mazinha, não consigo controlar este meu ódio contra um homem que deixa toda a sua fortuna ao gato!
«Charlie e John iniciaram, mais tarde, uma discussão sem tréguas. Ambos pareciam culpar-se de qualquer coisa. John estava muito nervoso, pensa que Charlie lhe violou a irmã, fez desaparecer o gato, matou o pai. Não o diz, mas insinua! E John? Que sei eu dele, a não ser que era amicíssimo do Engenheiro? Mas não havia um rumor de ambos terem estado apaixonados por Mrs. Emily? E de não terem falado durante anos, logo após o casamento do Engenheiro com a esposa...?
Melody interpõe-se. Não compreendo esta rapariga. Ela e Charlie estão, agora, a olhar-se de olhos nos olhos, muito intensamente, como se... como se... não gosto disto, não gosto disto!
«A polícia chegou quase às três da manhã, com um médico calvo e macilento que anunciou, com o ar de quem descobria a pólvora: «Está morto!»
«O detective, um senhor de bigode ruivo e chapéu de coco, desconfia de mim. Percebe-se imediatamente! Desvaloriza o pormenor da chave de Charlie. Desvaloriza outros pormenores para que eu lhe chamei discreta e delicadamente a atenção.
«E Emily dava-se bem com o esposo? Não, não dava. Ainda estaria apaixonada por John? Quem sabe?! Mas seria capaz de assassinar o Eng.? Mandar alguém, em desespero... não digo que não. (Estou a ser mazinha?). O Engenheiro era intragável. Tenho de ser sincera. (Virginia, Virginia, és tão mazinha!)
«Eu tenho uma teoria. Mas precisava de fazer as perguntas certas. Sem afugentar a presa. Serei capaz?
«Olha, olha, olha, olha! Charlie e Melody não estão cá. Lá em cima?!
«Hum...!»
(CONTINUA)
quarta-feira, janeiro 09, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (VI)
Virginia Turtle que, para além de excelente cozinheira, era uma devoradora de livros policiais, num gosto cultivado pelos solitários e prolongados dias que os pulmões fracos a forçavam a passar na cama, tomou, repentinamente, a direcção do pequeno grupo. Nunca pensara viver, em vida real, um romance em tudo tão semelhante aos que povoavam as suas horas de respiração penosa e fatigante.
Por outro lado, naquele momento, ninguém mais estava, ali, em condições de tomar a mínima decisão. Mrs. Arbuckle e Emily haviam desmaiado em uníssono. Mr. Arbuckle, doido de dor, sentara-se no seu sofá predilecto, meio paralisado, como se afectado por uma estranha indiferença que não era mais do que a tentativa desesperada de regressar ao país das memórias, de onde se arrependia já de ter saído; Lady Gloria, chorando, procurava acordar as mulheres desmaiadas e, ao mesmo tempo, esconder a Melody o cadáver que esta já tivera ocasião de ver. Entretanto, John, o «primo» John, como o Engenheiro costumava chamar-lhe, arrastava as crianças dali para fora, tão triste como se sentisse a faca no próprio coração. Iria, seguidamente, fazer telefonemas - mas que polícia, ou que médico, o atenderiam no início de um novo ano?
Mrs. Virginia Turtle examinou atentamente o corpo, sem lhe tocar, e examinou a gaiola. Disse, para si: «Não a arrobaram. Trabalho bem feito...»; serviu uma bebida forte às únicas que permaneciam completamente acordadas, ajudou-as a sentar, deu umas palmadinhas no ombro de Melody e perguntou-lhe:
- Querida, está melhor? Oiça, preciso que me diga uma coisa. Mas pense bem, pense muito bem antes de responder. Quanto a Charlie: viu-o, realmente? Era ele? Foi de certeza ele que a... hum... incomodou?!
- Charlie! Sim, sim...- retorquiu a rapariga, assustadíssima, com os olhos muito abertos. Depois principiou a murmurar incongruências, numa obcecada reza aos demónios do seu espírito inquieto.
- Não podia ser Charlie - exclamou Lady Gloria. - Charlie tinha saído para a festa do Clube Sueco.
- Bem - pensava Virginia Turtle em voz alta -, saiu, é certo, mas podia ter tornado a entrar, discretamente, durante um momento de confusão, não é verdade? E houve tantos! A verdade é que ele e o pai se davam mal. Oh, e ultimamente, então, andavam furiosos, positivamente furiosos um com o outro, sobretudo por causa de Mrs. Björk. Devo aliás dizer que a cena a que eu assisti hoje à tarde... ui! A raiva com que o senhor Engenheiro insultou o filho diante da nora, e a raiva com que este lhe respondeu...
- Não - teimou Lady Gloria. - Charlie não poderia ter entrado, porque não tinha chave. Lembro-me de a minha cunhada me ter dito precisamente que o seu neto tinha perdido a chave hoje, quando foi fazer uma visita qualquer não se sabe a quem...
Lady Gloria parecia, de facto, tão empenhada em defender Charles Arbuckle, em recusar que ele pudesse ter molestado a sua filha, quanto mais assassinado o próprio pai (e feito sumir o gato, já agora...) que, mais do que espanto, foi quase com frustração que viu desfazer-se o argumento da chave. Era Charlie que estava justamente a entrar em casa, pela porta da rua, com uma chave que mantinha ainda entre dois dedos...
- Charlie!
Vinha só, com o fato em desalinho, o cabelo despenteado.
Melody levantou-se, num acto de pânico.
(CONTINUA)
Por outro lado, naquele momento, ninguém mais estava, ali, em condições de tomar a mínima decisão. Mrs. Arbuckle e Emily haviam desmaiado em uníssono. Mr. Arbuckle, doido de dor, sentara-se no seu sofá predilecto, meio paralisado, como se afectado por uma estranha indiferença que não era mais do que a tentativa desesperada de regressar ao país das memórias, de onde se arrependia já de ter saído; Lady Gloria, chorando, procurava acordar as mulheres desmaiadas e, ao mesmo tempo, esconder a Melody o cadáver que esta já tivera ocasião de ver. Entretanto, John, o «primo» John, como o Engenheiro costumava chamar-lhe, arrastava as crianças dali para fora, tão triste como se sentisse a faca no próprio coração. Iria, seguidamente, fazer telefonemas - mas que polícia, ou que médico, o atenderiam no início de um novo ano?
Mrs. Virginia Turtle examinou atentamente o corpo, sem lhe tocar, e examinou a gaiola. Disse, para si: «Não a arrobaram. Trabalho bem feito...»; serviu uma bebida forte às únicas que permaneciam completamente acordadas, ajudou-as a sentar, deu umas palmadinhas no ombro de Melody e perguntou-lhe:
- Querida, está melhor? Oiça, preciso que me diga uma coisa. Mas pense bem, pense muito bem antes de responder. Quanto a Charlie: viu-o, realmente? Era ele? Foi de certeza ele que a... hum... incomodou?!
- Charlie! Sim, sim...- retorquiu a rapariga, assustadíssima, com os olhos muito abertos. Depois principiou a murmurar incongruências, numa obcecada reza aos demónios do seu espírito inquieto.
- Não podia ser Charlie - exclamou Lady Gloria. - Charlie tinha saído para a festa do Clube Sueco.
- Bem - pensava Virginia Turtle em voz alta -, saiu, é certo, mas podia ter tornado a entrar, discretamente, durante um momento de confusão, não é verdade? E houve tantos! A verdade é que ele e o pai se davam mal. Oh, e ultimamente, então, andavam furiosos, positivamente furiosos um com o outro, sobretudo por causa de Mrs. Björk. Devo aliás dizer que a cena a que eu assisti hoje à tarde... ui! A raiva com que o senhor Engenheiro insultou o filho diante da nora, e a raiva com que este lhe respondeu...
- Não - teimou Lady Gloria. - Charlie não poderia ter entrado, porque não tinha chave. Lembro-me de a minha cunhada me ter dito precisamente que o seu neto tinha perdido a chave hoje, quando foi fazer uma visita qualquer não se sabe a quem...
Lady Gloria parecia, de facto, tão empenhada em defender Charles Arbuckle, em recusar que ele pudesse ter molestado a sua filha, quanto mais assassinado o próprio pai (e feito sumir o gato, já agora...) que, mais do que espanto, foi quase com frustração que viu desfazer-se o argumento da chave. Era Charlie que estava justamente a entrar em casa, pela porta da rua, com uma chave que mantinha ainda entre dois dedos...
- Charlie!
Vinha só, com o fato em desalinho, o cabelo despenteado.
Melody levantou-se, num acto de pânico.
(CONTINUA)
domingo, janeiro 06, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (V)
Melody entrou lavada em lágrimas, com a pintura do rosto esborratada, a camisa rasgada nos ombros e no decote, a saia enxovalhada, praticamente arrancada, e somente com um dos seus sapatos de salto curto calçado; chorava como que num desespero atroz.
As crianças tinham vindo assistir ao trágico, ou cómico, ou tragicómico espectáculo de Melody, uma rapariga crescida, estranha, sim, mas crescida, em trajes menores, ou quase, chorando e repetindo frases sem nexo:
- Foi ele! Foi ele! -, soluçava.
- Que modos são esses, rapariga? - perguntava o Engenheiro. - «Ele», quem?! - inquiria ainda, como se temesse que Melody o acusasse a si.
- Charlie! Foi Charlie!
- Que disparate, menina! Recomponha-se. E componha-se, pelo amor de Deus! Charlie não está cá.
- Foi ele, foi ele! Ali em cima, no quarto... - e apontava, tremente.
Mal tinham tido tempo para a calar, para a amparar, para a agasalhar, para digerir a sua afirmação peremptória de que Charlie estava em casa, e lhe fizera algo que a deixara em tal estado, quando Mr. Arbuckle, arrancado às suas memórias, ao seu doce devaneio, caído numa irascibilidade perfeitamente senil, armava o terceiro escândalo, berrando que os não queria ali, que os punha fora de casa, a todos!, empurrando o Engenheiro, dirigindo a sua própria esposa - por engano ou deliberadamente - em direcção à porta da rua...
Só as badaladas da meia noite puseram fim à confusão geral.
Entretanto, um corte de energia fazia cessar os gritos no interior da casa, ao mesmo tempo que, no exterior, se faziam ouvir outros gritos, animadíssimos, se elevavam foguetes e festivas rolhas de champanhe, que saudavam, com renovadas esperanças e muitas expectatitas, o aparentemente bem-vindo 1958.
Quando a luz voltou, à meia noite e um, precisamente à meia noite e um minuto, ouviu-se um grito no interior da casa.
À meia noite e sessenta e sete segundos, ouviu-se um novo grito. (Outra voz, outra pessoa, também no interior da casa...)
O primeiro, soltado por Mrs. Turtle, na sala, dava conta do seu espanto por deparar com a gaiola aberta, e vazia...! Zorba não estava ali. Como Cristo, também parecera ter ressuscitado do seu túmulo.
O segundo, mais angustiado, lançado por Melody, manifestava o horror dela diante do corpo do Engenheiro, estendido no chão, de bruços, com o cabo de uma faca sobressaindo: a faca estava completamente enterrada num poço de sangue, escavado, se assim me posso exprimir, nas suas costas, por sobre o lado do coração.
(CONTINUARÁ... DEPOIS DE UM DESCANSO QUE OS MEUS LEITORES MERECEM)
As crianças tinham vindo assistir ao trágico, ou cómico, ou tragicómico espectáculo de Melody, uma rapariga crescida, estranha, sim, mas crescida, em trajes menores, ou quase, chorando e repetindo frases sem nexo:
- Foi ele! Foi ele! -, soluçava.
- Que modos são esses, rapariga? - perguntava o Engenheiro. - «Ele», quem?! - inquiria ainda, como se temesse que Melody o acusasse a si.
- Charlie! Foi Charlie!
- Que disparate, menina! Recomponha-se. E componha-se, pelo amor de Deus! Charlie não está cá.
- Foi ele, foi ele! Ali em cima, no quarto... - e apontava, tremente.
Mal tinham tido tempo para a calar, para a amparar, para a agasalhar, para digerir a sua afirmação peremptória de que Charlie estava em casa, e lhe fizera algo que a deixara em tal estado, quando Mr. Arbuckle, arrancado às suas memórias, ao seu doce devaneio, caído numa irascibilidade perfeitamente senil, armava o terceiro escândalo, berrando que os não queria ali, que os punha fora de casa, a todos!, empurrando o Engenheiro, dirigindo a sua própria esposa - por engano ou deliberadamente - em direcção à porta da rua...
Só as badaladas da meia noite puseram fim à confusão geral.
Entretanto, um corte de energia fazia cessar os gritos no interior da casa, ao mesmo tempo que, no exterior, se faziam ouvir outros gritos, animadíssimos, se elevavam foguetes e festivas rolhas de champanhe, que saudavam, com renovadas esperanças e muitas expectatitas, o aparentemente bem-vindo 1958.
Quando a luz voltou, à meia noite e um, precisamente à meia noite e um minuto, ouviu-se um grito no interior da casa.
À meia noite e sessenta e sete segundos, ouviu-se um novo grito. (Outra voz, outra pessoa, também no interior da casa...)
O primeiro, soltado por Mrs. Turtle, na sala, dava conta do seu espanto por deparar com a gaiola aberta, e vazia...! Zorba não estava ali. Como Cristo, também parecera ter ressuscitado do seu túmulo.
O segundo, mais angustiado, lançado por Melody, manifestava o horror dela diante do corpo do Engenheiro, estendido no chão, de bruços, com o cabo de uma faca sobressaindo: a faca estava completamente enterrada num poço de sangue, escavado, se assim me posso exprimir, nas suas costas, por sobre o lado do coração.
(CONTINUARÁ... DEPOIS DE UM DESCANSO QUE OS MEUS LEITORES MERECEM)
sexta-feira, janeiro 04, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (IV)
Era Mrs. Turtle, que se refugiara na cozinha assim que vira e ouvira falar acerca do gato, mas agora, ciente de que Zorbas Castorpopoulos se tinha ido embora, desatava a gritar enormidades, alimentando-se da sua indignação, sentindo-se cada vez mais furiosa por efeito das suas próprias palavras, ou melhor, dos seus gritos:
- Não há direito! Gente com fome! Gente à míngua! E o biltre mais rico, se calhar do mundo, deixa tudo ao gato! Ao gato! Maldito gato! Gato do inferno! Espírito das trevas! Que eu nem o veja à frente! Estou capaz de o comer! Danação! Aaaaaah!
Lady Gloria, partindo cristais pelo caminho, apressara-se a dirigir-se-lhe com o fito de a acalmar, mas todas as tentativas pareciam vãs.
O Engenheiro, aproveitando a oportunidade de carregar, contra ela, a sua antipatia e a sua secura, repreendia-a com toda a severidade (e, vá lá, alguma má educação):
- Que diabo, mulher! Tenha juízo! Tenha modos! Isto não é um barraco! Comporte-se!
Mrs. Turtle, ou não ouvia (por não se ouvir senão a si mesma), ou fingia não escutar, ou estava mesmo para além da possibilidade de se controlar. Num reacção de pura cólera, lançou o seu punho fechado contra o nariz de Lady Gloria, que, além de ser uma mulher frágil, não esperava o ataque, de modo que tombou para trás, batendo com as nádegas no chão.
Foi, contudo, remédio eficaz, tão eficaz como um par de bofetadas para solucionar uma crise de histeria: imediatamente arrependida, Mrs. Turtle calou-se; levou as mãos à boca. Ela mesmo acorreu em primeiro lugar em socorro de Lady Gloria, chorando, pedindo perdão.
O Engenheiro estava furioso, provavelmente furioso consigo por não ter aproveitado o excelente pretexto da crise histérica para esbofetear a, pensava ele, «horrorosa mulherzinha». Fora, de facto, uma chance perdida. Agora, já não seria, talvez, possível bater-lhe, porque o ponto é que, entretanto, Mrs. Turtle iniciara um autêntico espectáculo de tosse e de falta de ar...
Que, pobre senhora, nem teve tempo para desenvolver devidamente.
Eram vinte e três horas e cinquenta e um minutos, quando o segundo escândalo da noite teve lugar.
E que escândalo: desta feita, era a prima. Melody, a santa. Bem! Melody, com efeito, ali, naquele momento, não parecia nenhuma santa. Garanto-vos.
(CONTINUA)
- Não há direito! Gente com fome! Gente à míngua! E o biltre mais rico, se calhar do mundo, deixa tudo ao gato! Ao gato! Maldito gato! Gato do inferno! Espírito das trevas! Que eu nem o veja à frente! Estou capaz de o comer! Danação! Aaaaaah!
Lady Gloria, partindo cristais pelo caminho, apressara-se a dirigir-se-lhe com o fito de a acalmar, mas todas as tentativas pareciam vãs.
O Engenheiro, aproveitando a oportunidade de carregar, contra ela, a sua antipatia e a sua secura, repreendia-a com toda a severidade (e, vá lá, alguma má educação):
- Que diabo, mulher! Tenha juízo! Tenha modos! Isto não é um barraco! Comporte-se!
Mrs. Turtle, ou não ouvia (por não se ouvir senão a si mesma), ou fingia não escutar, ou estava mesmo para além da possibilidade de se controlar. Num reacção de pura cólera, lançou o seu punho fechado contra o nariz de Lady Gloria, que, além de ser uma mulher frágil, não esperava o ataque, de modo que tombou para trás, batendo com as nádegas no chão.
Foi, contudo, remédio eficaz, tão eficaz como um par de bofetadas para solucionar uma crise de histeria: imediatamente arrependida, Mrs. Turtle calou-se; levou as mãos à boca. Ela mesmo acorreu em primeiro lugar em socorro de Lady Gloria, chorando, pedindo perdão.
O Engenheiro estava furioso, provavelmente furioso consigo por não ter aproveitado o excelente pretexto da crise histérica para esbofetear a, pensava ele, «horrorosa mulherzinha». Fora, de facto, uma chance perdida. Agora, já não seria, talvez, possível bater-lhe, porque o ponto é que, entretanto, Mrs. Turtle iniciara um autêntico espectáculo de tosse e de falta de ar...
Que, pobre senhora, nem teve tempo para desenvolver devidamente.
Eram vinte e três horas e cinquenta e um minutos, quando o segundo escândalo da noite teve lugar.
E que escândalo: desta feita, era a prima. Melody, a santa. Bem! Melody, com efeito, ali, naquele momento, não parecia nenhuma santa. Garanto-vos.
(CONTINUA)
quinta-feira, janeiro 03, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (III)
Por desejo do improvável visitante, conduziram-no à sala de jantar (ou, mais rigorosamente, «a uma divisão», conforme ele pedira, que tivesse «uma mesa grande», e que acabou por coincidir, de facto, com a sala de jantar).
Aí chegados, fazendo, com a ajuda de Mrs. Arbuckle, espaço entre copos e pratos, o grego depositou o impressionante embrulho sobre aquela mesa longa (que, quando havia muitos convidados, se tornava ainda mais longa, mercê de umas providenciais orelhas que ora se ocultavam, ora a estendiam).
Com uma lentidão deliberada, principiou a rasgar o papel do que quer que fosse, no embrulho.
Enquanto assim procedia, contudo, não parava de falar: sim, tinha vindo absolutamente sozinho, confessou. Ele próprio, contra os seus hábitos e a sua comodidade, conduzira o Bentley até ali, prescindindo do motorista. (As crianças seguiam, atentas, aquelas mãos que, em câmara lenta, continuavam a tirar pedacinhos do papel de embrulho).
A questão - revelava Zorbas Castorpopoulos - é que à meia noite, deveria imperiosamente estar numa festa, num local onde a sua ausência seria tomada como um imperdoável gesto de hostilidade.
Obviamente, não poderia fazer-se acompanhar «daquilo». (E, com o queixo, impondo-se uma pausa na manobra de desembrulhar, apontava para o misterioso objecto, ainda envolvido em papel colorido).
Todavia, por outro lado, não poderia deixar «aquilo» em sua casa, porque não confiava em ninguém. Em nenhuma das pessoas que o rodeavam habitualmente. Mesmo que tivesse dado folga ao mordomo, ao motorista, à governanta, à cozinheira, ao copeiro, aos criados e criadas, aos moços de estrebaria, ao treinador dos cavalos, ao tratador dos cães, aos jardineiros e por aí fora, bastava-lhe ... (voltara ao «desembrulhanço»; via-se já a parte superior de qualquer coisa metálica; uma espécie de capacete?)... bastava-lhe a simples ideia de que eles conheciam os cantos à mansão, de que possuíam chaves, possibilidades quase infinitas de entrada e circulação, para que não pudesse serenar.
Com três últimos gestos, desfez, por fim, o embrulho, deixando ver que aquela espécie de capacete não era senão o tecto, digamos assim, de uma gaiola.
No seu interior, fitava-os agudamente, com uns olhos verdes, faiscantes, em tudo semelhantes aos do seu proprietário, um gato.
- Meus senhores, este é Zorba, o gato! É o meu único herdeiro. Tudo o que vos peço é que mo vigiem durante esta noite. Só esta noite. Oh, serão principescamente recompensados. Não tenho qualquer outra solução.
- Mas o senhor não nos conhece...
- Oh, mas conheço, Lady Gloria, conheço todos e cada um dos presentes. Eu faço sempre o meu trabalho de casa. Nunca improviso. - Com estas palavras, olhou para o relógio preso de uma corrente no bolso. Deu um estalido com a língua, como se quisesse dizer «já estou a demorar muito...»; desejou boas-noites e, sem esperar por nenhum assentimento, retirou-se.
Zorba, o gato, fez «pffffff» com alguma agressividade.
Nesse preciso momento, eram vinte e três horas e quarenta e sete minutos (já Mr. Castorpopoulos entrara no seu Bentley e se sumira na noite, ainda a maioria dos convivas não regressara inteiramente a si), ouviu-se, da cozinha, uma tremenda gritaria.
Começava assim, desta forma absurda, com gritos histéricos, o primeiro dos três escândalos dessa noite.
(CONTINUA)
Aí chegados, fazendo, com a ajuda de Mrs. Arbuckle, espaço entre copos e pratos, o grego depositou o impressionante embrulho sobre aquela mesa longa (que, quando havia muitos convidados, se tornava ainda mais longa, mercê de umas providenciais orelhas que ora se ocultavam, ora a estendiam).
Com uma lentidão deliberada, principiou a rasgar o papel do que quer que fosse, no embrulho.
Enquanto assim procedia, contudo, não parava de falar: sim, tinha vindo absolutamente sozinho, confessou. Ele próprio, contra os seus hábitos e a sua comodidade, conduzira o Bentley até ali, prescindindo do motorista. (As crianças seguiam, atentas, aquelas mãos que, em câmara lenta, continuavam a tirar pedacinhos do papel de embrulho).
A questão - revelava Zorbas Castorpopoulos - é que à meia noite, deveria imperiosamente estar numa festa, num local onde a sua ausência seria tomada como um imperdoável gesto de hostilidade.
Obviamente, não poderia fazer-se acompanhar «daquilo». (E, com o queixo, impondo-se uma pausa na manobra de desembrulhar, apontava para o misterioso objecto, ainda envolvido em papel colorido).
Todavia, por outro lado, não poderia deixar «aquilo» em sua casa, porque não confiava em ninguém. Em nenhuma das pessoas que o rodeavam habitualmente. Mesmo que tivesse dado folga ao mordomo, ao motorista, à governanta, à cozinheira, ao copeiro, aos criados e criadas, aos moços de estrebaria, ao treinador dos cavalos, ao tratador dos cães, aos jardineiros e por aí fora, bastava-lhe ... (voltara ao «desembrulhanço»; via-se já a parte superior de qualquer coisa metálica; uma espécie de capacete?)... bastava-lhe a simples ideia de que eles conheciam os cantos à mansão, de que possuíam chaves, possibilidades quase infinitas de entrada e circulação, para que não pudesse serenar.
Com três últimos gestos, desfez, por fim, o embrulho, deixando ver que aquela espécie de capacete não era senão o tecto, digamos assim, de uma gaiola.
No seu interior, fitava-os agudamente, com uns olhos verdes, faiscantes, em tudo semelhantes aos do seu proprietário, um gato.
- Meus senhores, este é Zorba, o gato! É o meu único herdeiro. Tudo o que vos peço é que mo vigiem durante esta noite. Só esta noite. Oh, serão principescamente recompensados. Não tenho qualquer outra solução.
- Mas o senhor não nos conhece...
- Oh, mas conheço, Lady Gloria, conheço todos e cada um dos presentes. Eu faço sempre o meu trabalho de casa. Nunca improviso. - Com estas palavras, olhou para o relógio preso de uma corrente no bolso. Deu um estalido com a língua, como se quisesse dizer «já estou a demorar muito...»; desejou boas-noites e, sem esperar por nenhum assentimento, retirou-se.
Zorba, o gato, fez «pffffff» com alguma agressividade.
Nesse preciso momento, eram vinte e três horas e quarenta e sete minutos (já Mr. Castorpopoulos entrara no seu Bentley e se sumira na noite, ainda a maioria dos convivas não regressara inteiramente a si), ouviu-se, da cozinha, uma tremenda gritaria.
Começava assim, desta forma absurda, com gritos histéricos, o primeiro dos três escândalos dessa noite.
(CONTINUA)
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (II)
Observação: a pedido de várias famílias - está bem!, não várias porque este blogue não tem tantos leitores quanto isso... -, o folhetim vai sofrer alguns inesperados desvios. Não se espantem!
Por volta das vinte e três e quinze, a campaínha retiniu longamente.
Como na casa dos Arbuckle não havia propriamente mordomos, apenas uma cozinheira que, tendo deixado a ceia preparada, fora dispensada pela dona de casa para passar essa noite com a família, foi a própria esposa do Engenheiro quem se dirigiu à porta.
Porém, o toque, que, francamente, ninguém esperava, teve o condão de causar uma certa agitação entre os convivas. Mr. Arbuckle, himself, pareceu despertar do fundo de cem anos de recordações; Angel e os gémeos, Rick e Ruth, descolaram-se por um instante da televisão.
Mas foi o Engenheiro, sobretudo, que passou por uma série de metamorfoses. Aborrecimento, primeiro, porque algo o arrancava ao sumptuoso livro que o prendera; perplexidade, logo a seguir, «Ora bolas! A esta hora, quem diacho poderá ser...?», como se um sistema de engrenagens começasse a trabalhar, no seu cérebro, para solucionar um enigma particularmente difícil; por fim, uma chamazinha de felicidade incrédula perante a resposta que encontrara: Charlie! Só podia ser Charlie, seu filho! Ou se haviam arrependido, ou o rapaz tivera uma discussão com a sueca e se separara dela - esta hipótese, a verificar-se, seria ainda melhor -, ou... Em suma: Charlie viera juntar-se à família. O filho pródigo! O filho pródigo!
Algures, Lady Gloria, na confusão, partia qualquer coisa, desta vez para os lados da cozinha.
À entrada, porém, estava um homem baixo,que ninguém conseguia ainda ver para além de Mrs. Emily, que vinha de lhe abrir a porta: de fraque, com o cabelo luzidiamente negro e uns olhos verdes faiscantes, era Zorbas Castorpopoulos em pessoa!
O homem mais rico das redondezas, se não de toda a Grã-Bretanha, porventura da Europa, dignara-se parar-lhes à entrada, fosse lá pelo que fosse, com um incrível embrulho nas mãos. Não enviara um dos seus criados, não: ali estava em pessoa. A menos que fosse um sósia.
- Boa noite. Eu não queria incomodar, mas gostaria de fazer uma proposta aos donos da casa...
(CONTINUA)
Por volta das vinte e três e quinze, a campaínha retiniu longamente.
Como na casa dos Arbuckle não havia propriamente mordomos, apenas uma cozinheira que, tendo deixado a ceia preparada, fora dispensada pela dona de casa para passar essa noite com a família, foi a própria esposa do Engenheiro quem se dirigiu à porta.
Porém, o toque, que, francamente, ninguém esperava, teve o condão de causar uma certa agitação entre os convivas. Mr. Arbuckle, himself, pareceu despertar do fundo de cem anos de recordações; Angel e os gémeos, Rick e Ruth, descolaram-se por um instante da televisão.
Mas foi o Engenheiro, sobretudo, que passou por uma série de metamorfoses. Aborrecimento, primeiro, porque algo o arrancava ao sumptuoso livro que o prendera; perplexidade, logo a seguir, «Ora bolas! A esta hora, quem diacho poderá ser...?», como se um sistema de engrenagens começasse a trabalhar, no seu cérebro, para solucionar um enigma particularmente difícil; por fim, uma chamazinha de felicidade incrédula perante a resposta que encontrara: Charlie! Só podia ser Charlie, seu filho! Ou se haviam arrependido, ou o rapaz tivera uma discussão com a sueca e se separara dela - esta hipótese, a verificar-se, seria ainda melhor -, ou... Em suma: Charlie viera juntar-se à família. O filho pródigo! O filho pródigo!
Algures, Lady Gloria, na confusão, partia qualquer coisa, desta vez para os lados da cozinha.
À entrada, porém, estava um homem baixo,que ninguém conseguia ainda ver para além de Mrs. Emily, que vinha de lhe abrir a porta: de fraque, com o cabelo luzidiamente negro e uns olhos verdes faiscantes, era Zorbas Castorpopoulos em pessoa!
O homem mais rico das redondezas, se não de toda a Grã-Bretanha, porventura da Europa, dignara-se parar-lhes à entrada, fosse lá pelo que fosse, com um incrível embrulho nas mãos. Não enviara um dos seus criados, não: ali estava em pessoa. A menos que fosse um sósia.
- Boa noite. Eu não queria incomodar, mas gostaria de fazer uma proposta aos donos da casa...
(CONTINUA)
quarta-feira, janeiro 02, 2008
CRIME NA PASSAGEM DE ANO (I)
Mr. Arbuckle, que dois dias antes do salto para 1958 perfizera cem anos de idade, sentara-se pachorrentamente no sofá de orelhas, com um calicezinho de Madeira na mão, e deslizava, com vagar e prazer, para o imenso e variado mundo das suas memórias - apesar de Mrs. Arbuckle, que só tinha noventa e sete anos, lhe dizer, cada vez mais frequentemente, que não percebia que diacho de memórias o absorviam tanto, a ele que não tinha memória para se lembrar sequer do que lhe pedia para trazer da mercearia - enquanto, ao lado, os netos e a bisneta, finalmente calados, se colavam a uma série de anúncios com que a televisão conseguira atraí-los.
O Engenheiro, seu filho, sentara-se antipaticamente sob o candeeiro de pé alto, folheando um livro que lhe haviam oferecido no Natal. Incomodava sobremaneira ao sr. Engenheiro a presença de Mrs. Turtle, a «desvalida», como se lhe referia entre dentes, que se colara à dona da casa com o mesmo tipo de cola resistente que colava as crianças à TV. Ela não tinha com quem passar as festas, de modo que encontrava maneira de se imiscuir naquele grupo de que não fazia parte, com os seus bolos caseiros, os seus problemas respiratórios que já tinham estragado o jantar de Natal e, o que impressionava mais ainda o Engenheiro, o seu apetite voraz. Mas é evidente que o principal foco da sua irritação, nem era essa presença. Na verdade, era uma ausência: até ao princípio da tarde, o Engenheiro acreditara que o seu filho, Charlie, se impusesse à própria esposa, Mrs. Björk, a sueca,como lhe chamavam, e acabasse por se juntar à família na passagem de ano. Em vez disso, Charlie & Björn tinham vindo depositar a sua filha de três anos, Angel (que era tudo menos o «anjo» com que o nome enganava os incautos), a qual fazia a vida negra aos próprios gémeos, filhos mais novos do Engenheiro e, portanto, tios da miúda, quase dez anos mais velhos do que esta - e ainda terríveis, também. Charlie e a «sueca» haviam desejado um «Bom Ano» e partido, com um suspiro de alívio quase audível, em direcção a uma grande festa sueca, com muitos suecos e suecas, no Clube Sueco.
Emily, a esposa do Engenheiro, muito rosada e genuinamente feliz, servia de álcool a família que acabara de chegar: John, o primo direito, a desenfiar ainda o sobretudo acolchoado, gargalhando com as suas gargalhadas estrepitosas, repetindo as mesmas velhas graças, de que, avaramente, nunca se desfazia ao longo dos anos, dos natais, das passagens de ano, com um nariz comprido e esticado como o bico de um pássaro, onde se encavalitavam os óculos de aros finos, estranhamente finos para umas lentes tão graduadas; Lady Gloria, irmã de Mr. Arbuckle, mãe de John e de Melody, desajeitadíssima, varrendo jarros e vidros à passagem míope do seu casaco comprido e, por fim, miss Melody, a própria, conhecida por ouvir vozes e cânticos permanentes na sua cabeça e por receber mensagens sabe-se lá de que Além (embora a família se inclinasse mais para o diagnóstico de «loucura» do que para o de «misticismo»), bonita e parada, desconfiada de tudo e todos...
Estava reunido, na casa de Mr. e Mrs. Arbuckle, o grupo que ia passar,em coro, para o ano de 1958.
(CONTINUA)
O Engenheiro, seu filho, sentara-se antipaticamente sob o candeeiro de pé alto, folheando um livro que lhe haviam oferecido no Natal. Incomodava sobremaneira ao sr. Engenheiro a presença de Mrs. Turtle, a «desvalida», como se lhe referia entre dentes, que se colara à dona da casa com o mesmo tipo de cola resistente que colava as crianças à TV. Ela não tinha com quem passar as festas, de modo que encontrava maneira de se imiscuir naquele grupo de que não fazia parte, com os seus bolos caseiros, os seus problemas respiratórios que já tinham estragado o jantar de Natal e, o que impressionava mais ainda o Engenheiro, o seu apetite voraz. Mas é evidente que o principal foco da sua irritação, nem era essa presença. Na verdade, era uma ausência: até ao princípio da tarde, o Engenheiro acreditara que o seu filho, Charlie, se impusesse à própria esposa, Mrs. Björk, a sueca,como lhe chamavam, e acabasse por se juntar à família na passagem de ano. Em vez disso, Charlie & Björn tinham vindo depositar a sua filha de três anos, Angel (que era tudo menos o «anjo» com que o nome enganava os incautos), a qual fazia a vida negra aos próprios gémeos, filhos mais novos do Engenheiro e, portanto, tios da miúda, quase dez anos mais velhos do que esta - e ainda terríveis, também. Charlie e a «sueca» haviam desejado um «Bom Ano» e partido, com um suspiro de alívio quase audível, em direcção a uma grande festa sueca, com muitos suecos e suecas, no Clube Sueco.
Emily, a esposa do Engenheiro, muito rosada e genuinamente feliz, servia de álcool a família que acabara de chegar: John, o primo direito, a desenfiar ainda o sobretudo acolchoado, gargalhando com as suas gargalhadas estrepitosas, repetindo as mesmas velhas graças, de que, avaramente, nunca se desfazia ao longo dos anos, dos natais, das passagens de ano, com um nariz comprido e esticado como o bico de um pássaro, onde se encavalitavam os óculos de aros finos, estranhamente finos para umas lentes tão graduadas; Lady Gloria, irmã de Mr. Arbuckle, mãe de John e de Melody, desajeitadíssima, varrendo jarros e vidros à passagem míope do seu casaco comprido e, por fim, miss Melody, a própria, conhecida por ouvir vozes e cânticos permanentes na sua cabeça e por receber mensagens sabe-se lá de que Além (embora a família se inclinasse mais para o diagnóstico de «loucura» do que para o de «misticismo»), bonita e parada, desconfiada de tudo e todos...
Estava reunido, na casa de Mr. e Mrs. Arbuckle, o grupo que ia passar,em coro, para o ano de 1958.
(CONTINUA)
quinta-feira, dezembro 20, 2007
O PRESÉPIO À LUZ DE BUGZ
Bugz viajava há muitos anos-luz pelo espaço intergaláctico.
Não tinha propriamente um objectivo: primeiro, fora feito prisioneiro por um grupo de mercadores vvvenyxianos, que pensavam vendê-lo como escravo; com grande dificuldade e alguns combates, rompendo-se todo, perdendo a cauda pelo caminho (que precisaria de muito tempo para tornar a crescer), tinha conseguido fugir, num pequeno planeta em que a nave parara para se abastecer; aceitara, depois, boleia de um grupo de komodorz, todas do sexo feminino, embora durante o tempo da viagem, com grande pena sua, não tivesse chegado a compreender a anatomia delas, nem o seu funcionamento sexual; as komodorz é que, fartas de tantas investidas, se tinham livrado dele, que, entretanto, tomou boleia de um velho humpfg, o qual, após uma vida preenchida, se dirigia para o próprio planeta natal, para morrer. Quando se separaram, Bugz decidiu jogar a recém-adquirida nave. Perdeu-a ao jogo, já na via láctea.
Esfomeado, sem alternativas, roubou uma schvaz-de-um-lugar, dourada e velocíssima, e prosseguiu a sua odisseia até um planeta azul, convidativo e sereno...
Nessa noite, dos céus, brilhando muito, como uma luz, como se fosse uma estrela (por efeito da schvaz-de-um-lugar que o transportava), Bugz assistiu a um estranho quadro de seres terrestres. Um quadro de luz e salvação.
Havia um ser maravilhoso, terno e doce, com um bafo cálido, deitado sobre uma meda de palha; tinha uma longa cauda e chifres, exactamente como as deliciosas fêmeas do seu próprio planeta; havia, a seu lado, o que, porventura, seria o seu macho, um ser de longas orelhas e dentes grandes.
Outros seres, fatigados, lentos, pareciam vir de longe, de muito longe (na perspectiva do planeta), para adorarem o casal: três criaturas amareladas, de bossas, chegavam carregando oferendas sobre o seu dorso; iam, percebia-se perfeitamente, oferecer-lhes aqueles animais ricamente vestidos, ornamentados e com coroas, que os montavam.
De outros lugares, aproximavam-se ainda outros maravilhosos seres, de quatro patinhas finas, vestindo de caracóis esbranquiçados. Também traziam, pela arreata, os seus presentes: uns animais monstruosos, só com duas pernas e dois braços, sem pêlos, a não ser no alto da cabeça e, alguns deles, com uma massa pilosa no queixo.
Aliás, no interior da gruta, dois seres dessa espécie, com duas pernas cada um, não mais, aqueciam o ser de chifres e o de longas orelhas.
Algures, sobre umas palhinhas, algo berrava. Era, com certeza, a música que se fazia naquele planeta.
Bugz sentia a alma inundada de paz.
Não tinha propriamente um objectivo: primeiro, fora feito prisioneiro por um grupo de mercadores vvvenyxianos, que pensavam vendê-lo como escravo; com grande dificuldade e alguns combates, rompendo-se todo, perdendo a cauda pelo caminho (que precisaria de muito tempo para tornar a crescer), tinha conseguido fugir, num pequeno planeta em que a nave parara para se abastecer; aceitara, depois, boleia de um grupo de komodorz, todas do sexo feminino, embora durante o tempo da viagem, com grande pena sua, não tivesse chegado a compreender a anatomia delas, nem o seu funcionamento sexual; as komodorz é que, fartas de tantas investidas, se tinham livrado dele, que, entretanto, tomou boleia de um velho humpfg, o qual, após uma vida preenchida, se dirigia para o próprio planeta natal, para morrer. Quando se separaram, Bugz decidiu jogar a recém-adquirida nave. Perdeu-a ao jogo, já na via láctea.
Esfomeado, sem alternativas, roubou uma schvaz-de-um-lugar, dourada e velocíssima, e prosseguiu a sua odisseia até um planeta azul, convidativo e sereno...
Nessa noite, dos céus, brilhando muito, como uma luz, como se fosse uma estrela (por efeito da schvaz-de-um-lugar que o transportava), Bugz assistiu a um estranho quadro de seres terrestres. Um quadro de luz e salvação.
Havia um ser maravilhoso, terno e doce, com um bafo cálido, deitado sobre uma meda de palha; tinha uma longa cauda e chifres, exactamente como as deliciosas fêmeas do seu próprio planeta; havia, a seu lado, o que, porventura, seria o seu macho, um ser de longas orelhas e dentes grandes.
Outros seres, fatigados, lentos, pareciam vir de longe, de muito longe (na perspectiva do planeta), para adorarem o casal: três criaturas amareladas, de bossas, chegavam carregando oferendas sobre o seu dorso; iam, percebia-se perfeitamente, oferecer-lhes aqueles animais ricamente vestidos, ornamentados e com coroas, que os montavam.
De outros lugares, aproximavam-se ainda outros maravilhosos seres, de quatro patinhas finas, vestindo de caracóis esbranquiçados. Também traziam, pela arreata, os seus presentes: uns animais monstruosos, só com duas pernas e dois braços, sem pêlos, a não ser no alto da cabeça e, alguns deles, com uma massa pilosa no queixo.
Aliás, no interior da gruta, dois seres dessa espécie, com duas pernas cada um, não mais, aqueciam o ser de chifres e o de longas orelhas.
Algures, sobre umas palhinhas, algo berrava. Era, com certeza, a música que se fazia naquele planeta.
Bugz sentia a alma inundada de paz.
quinta-feira, dezembro 13, 2007
OS ASPIRANTES A INTELECTUAIS NA POLÍTICA
É evidente que um mundo de intelectuais estaria infinitamente longe da perfeição. Sobretudo se se parecessem todos com o Pacheco Pereira. E que faríamos nós, que faria eu, sobretudo,sem um canalizador? Que faria se me obrigassem a pregar pregos?
Também me não parece imprescindível que as pessoas que se dedicam, por exemplo, à política, tenham de ser intelectuais. Para quê? Onde poríamos o Jerónimo de Sousa? Gostaríamos de um parlamento inteiramente talhado à imagem de Louçã? (Imaginem, sem desmaiar, uma série de Louçãs, da Esquerda à Direita, defendendo Causas diferentes, obviamente, até antagónicas, mas todos eles com a mesma certeza da sua razão, a mesma voz dramaticamente tensa de pessoa incapaz de relaxar e o mesmo nariz?)
O problema é outro: é que, não sendo todos, nem devendo ser todos igualmente intelectuais, os políticos poderiam, então, descobrir o seu jeito e estilo próprios, a sua natureza respectiva. Haveria o Deputado-canalizador, o Deputado-torneiro-mecânico, o Deputado-desempregado e por aí fora. Quando (perdoem-me o aparente snobismo) um político que nada tem de intelectual, como o Mendes Bota, quer por força fazer-se passar por tal, o resultado só pode ser penoso. Mendes Bota a querer convencer-nos de que é intelectual, dá bota, pela certa.
O senhor José Sócrates funciona, neste particular, como um exemplo terrível.
O convívio prolongado tem destas coisas: tendo convivido com Guterres que, diga-se o que se disser, é um homem de letras, apesar de Engenheiro (Engenheiro-a-sério), que fala com fluência e à-vontade diversas línguas, ouve música clássica, compra o Times, The Independent, Corrieri de la Sera, Le Monde e leu, em inglês, os escritos de Churchill (dos quais, aliás, tirou pouco proveito prático); tendo convivido com Durão Barroso que, diga-se o que se disser - e espero que se diga bastante mal -, é um sujeito com alguma cultura, posto que lia, na juventude, Mao Tse Tung, e que fala o seu inglês e o seu francês, José Sócrates albergou sempre o sonho secreto, inconfessado, de ser como eles.
Em mais do que uma entrevista, desatou a perorar - sempre muito a despropósito - de livros que o teriam marcado, logo a ele, tão rígido que dificilmente se deixaria marcar por um livro, a não ser que fosse uma lista telefónica caindo-lhe em cima...; em vários momentos, puxou do seu inglês técnico, incorrecto e incompetente, sem pudor nem vergonha. Em vários momentos semeou citações, procurou trepar até ao pináculo das ideias, dos debates filosóficos, da fundamentação teórica.
Não é que o não possa. Não é que, para o fazer, tenha de ser membro de um clube com uma indicação à porta, no género de: «Pessoas sem Cultura não Entram»; e não pensem que o digo por mim, como se me causasse alguma repugnância cruzar-me, num clube de intelectuais, com não-intelectuais a fingir que o são. Trata-se, para começar, de algo que eu não quero parecer de modo algum: e se não tenho remédio senão reconhecer que o sou, «tecnicamente», por ofício e formação, esclareço que não me reconheço na imagem, nem no folclore, nem, digamos, no uniforme que haveria que vestir. Retomo, aí, a deliciosa ironia de Groucho Marx: «Nunca aceitaria fazer parte de um clube que se rebaixasse a aceitar-me como sócio».
E, portanto, o que me incomoda é simplesmente o puro jogo das aparências. O faz-de-conta. O passar-se por. Sem mais.
Santana deixando-se fotografar com Le Monde Diplomatique sob o braço, ou confessando que a sua música preferida sempre foi um certo «Chopin para violino», ou Sócrates citando as obras que lia na adolescência, quando, na prática, tem quem tem no Ministério da Cultura e tem quem tem no Ministério da Educação, são coisas que não poderiam deixar de me provocar uma leve náusea.
Leve. Só. É um desabafo.
Também me não parece imprescindível que as pessoas que se dedicam, por exemplo, à política, tenham de ser intelectuais. Para quê? Onde poríamos o Jerónimo de Sousa? Gostaríamos de um parlamento inteiramente talhado à imagem de Louçã? (Imaginem, sem desmaiar, uma série de Louçãs, da Esquerda à Direita, defendendo Causas diferentes, obviamente, até antagónicas, mas todos eles com a mesma certeza da sua razão, a mesma voz dramaticamente tensa de pessoa incapaz de relaxar e o mesmo nariz?)
O problema é outro: é que, não sendo todos, nem devendo ser todos igualmente intelectuais, os políticos poderiam, então, descobrir o seu jeito e estilo próprios, a sua natureza respectiva. Haveria o Deputado-canalizador, o Deputado-torneiro-mecânico, o Deputado-desempregado e por aí fora. Quando (perdoem-me o aparente snobismo) um político que nada tem de intelectual, como o Mendes Bota, quer por força fazer-se passar por tal, o resultado só pode ser penoso. Mendes Bota a querer convencer-nos de que é intelectual, dá bota, pela certa.
O senhor José Sócrates funciona, neste particular, como um exemplo terrível.
O convívio prolongado tem destas coisas: tendo convivido com Guterres que, diga-se o que se disser, é um homem de letras, apesar de Engenheiro (Engenheiro-a-sério), que fala com fluência e à-vontade diversas línguas, ouve música clássica, compra o Times, The Independent, Corrieri de la Sera, Le Monde e leu, em inglês, os escritos de Churchill (dos quais, aliás, tirou pouco proveito prático); tendo convivido com Durão Barroso que, diga-se o que se disser - e espero que se diga bastante mal -, é um sujeito com alguma cultura, posto que lia, na juventude, Mao Tse Tung, e que fala o seu inglês e o seu francês, José Sócrates albergou sempre o sonho secreto, inconfessado, de ser como eles.
Em mais do que uma entrevista, desatou a perorar - sempre muito a despropósito - de livros que o teriam marcado, logo a ele, tão rígido que dificilmente se deixaria marcar por um livro, a não ser que fosse uma lista telefónica caindo-lhe em cima...; em vários momentos, puxou do seu inglês técnico, incorrecto e incompetente, sem pudor nem vergonha. Em vários momentos semeou citações, procurou trepar até ao pináculo das ideias, dos debates filosóficos, da fundamentação teórica.
Não é que o não possa. Não é que, para o fazer, tenha de ser membro de um clube com uma indicação à porta, no género de: «Pessoas sem Cultura não Entram»; e não pensem que o digo por mim, como se me causasse alguma repugnância cruzar-me, num clube de intelectuais, com não-intelectuais a fingir que o são. Trata-se, para começar, de algo que eu não quero parecer de modo algum: e se não tenho remédio senão reconhecer que o sou, «tecnicamente», por ofício e formação, esclareço que não me reconheço na imagem, nem no folclore, nem, digamos, no uniforme que haveria que vestir. Retomo, aí, a deliciosa ironia de Groucho Marx: «Nunca aceitaria fazer parte de um clube que se rebaixasse a aceitar-me como sócio».
E, portanto, o que me incomoda é simplesmente o puro jogo das aparências. O faz-de-conta. O passar-se por. Sem mais.
Santana deixando-se fotografar com Le Monde Diplomatique sob o braço, ou confessando que a sua música preferida sempre foi um certo «Chopin para violino», ou Sócrates citando as obras que lia na adolescência, quando, na prática, tem quem tem no Ministério da Cultura e tem quem tem no Ministério da Educação, são coisas que não poderiam deixar de me provocar uma leve náusea.
Leve. Só. É um desabafo.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
UNS PASTELINHOS MUUUITO TENRINHOS. SEXTO CAPÍTULO (macabro e carregado de mau gosto, como convém)
James Lawford não pôde deixar de se aperceber da expressão de puro terror com que Caveira acatou a ordem de Mrs. Miriam.
- Estou cansado, realmente. Vou-me estender um pouco. Boa note, Mr. Lawford.
Saiu, trôpego, morrendo aos poucos.
- Então o Leo ainda cá está? - perguntou James.
-Sim, sim. Já lhe disse. Venha. Venha, que eu levo-o até ele. - A pausa que se seguiu foi tremenda. Mas as palavras que a quebraram, não o acalmaram. - Com que então conheceu Rudolph, não? - O tom da mulher era tenso, ligeiramente rouco. O olhar dela perseguia-o, febril. Prosseguiu. - Eu não sei o que ele lhe disse. Mas é preciso não acreditar em Rudolph, sabe? Nada do que ele diz é inteiramente verdade. Ele contou-lhe a fantasia de que foi escravo de uma velha? E disse-lhe o que lhe fez? Ou disse que fui eu que o fiz? Às vezes, acusa-me.
- Vagamente. - Logo que respondeu, percebeu que se tratava de uma resposta comprometedora. Não a dava por ingenuidade mas, no fundo, por ser incapaz de mentir diante dos olhos de Mrs. Miriam que o vasculhavam até às entranhas. Mudou de conversa. - O Leo? Onde vamos?
- Não houve velha nenhuma -, insistia ela. - É um delírio. Ninguém a comeu.
Entraram na cozinha.
- Olhe, não está aqui -, disse a mulher. - Pensei que sim, como ouvi ruído, julguei que tivessem vindo comer alguma coisa. Mas sente-se, Mr. Lawford, sente-se aqui um pouco. Não quer um pastelinho? Eu volto já, vou ver se lhe trago Leo. Estão com certeza no quarto. Diabo de rapazes.
Enquanto Mrs. Miriam saía, transportando consigo a pá, James principiou a sentir-se mais nervoso do que nunca. A ausência de Leo incomodava-o de uma forma bizarra. Sentia que uma angústia se apoderava lentamente do seu peito. O coração batia descompassadamente. Ouviu ganir. Não. Gritar, lá em cima. Rudolph, cadáver ambulante, pobre de Cristo crucificado, uivava de um modo que se lhe cravava no pescoço. Não foi capaz de se sentar. Andava de um lado para o outro. Leo, pensava! Onde estás tu? Onde estás tu?, perguntava-se em surdina, entre trovões que faziam estremecer a noite.
Reparou na caixa dos pastéis.
Retirou, delicadamente, um, segurando-o entre dois dedos, como se fosse uma pinça.
- Só faltava que a bruxa me envenenasse com um pastel - suspirou. E, no momento imediato, perante o absurdo da ideia, sorriu e acalmou.
Não tinha fome, mas mastigou o pastel como se fosse uma pastilha, algo que o fizesse mascar, que lhe permitisse movimentos em que concentrasse a sua energia angustiada.
Tenro. Tenro. Muuuito tenro e saboroso.
Bruscamente, cuspiu qualquer coisa.
Uma unha. Uma unha suja.
Instantaneamente, estupidamente, associou aquela unha a uma memória, e sussurrou:
- É verdade, não posso esquecer-me de dizer ao Leo para cortar as unhas. Está com elas tão sujas...
O horror desta associação, o significado profundo da relação que lhe surgia no espírito deixou-o apavorado. Cuspiu o pastel. Fora uma compreensão súbita, como um hediondo e repugnante relâmpago. Se tivesse demorado mais tempo a perceber, teria morrido sem saber o que tinha acontecido. Assim, a intuição trágica da verdade foi a última iluminação que teve em vida porque, no momento seguinte, uma pá pesada caía sobre a sua cabeça, fendia-a, matava-o.
Caiu no chão, o seu rosto sobre a pequena e suja unha.
- Estou cansado, realmente. Vou-me estender um pouco. Boa note, Mr. Lawford.
Saiu, trôpego, morrendo aos poucos.
- Então o Leo ainda cá está? - perguntou James.
-Sim, sim. Já lhe disse. Venha. Venha, que eu levo-o até ele. - A pausa que se seguiu foi tremenda. Mas as palavras que a quebraram, não o acalmaram. - Com que então conheceu Rudolph, não? - O tom da mulher era tenso, ligeiramente rouco. O olhar dela perseguia-o, febril. Prosseguiu. - Eu não sei o que ele lhe disse. Mas é preciso não acreditar em Rudolph, sabe? Nada do que ele diz é inteiramente verdade. Ele contou-lhe a fantasia de que foi escravo de uma velha? E disse-lhe o que lhe fez? Ou disse que fui eu que o fiz? Às vezes, acusa-me.
- Vagamente. - Logo que respondeu, percebeu que se tratava de uma resposta comprometedora. Não a dava por ingenuidade mas, no fundo, por ser incapaz de mentir diante dos olhos de Mrs. Miriam que o vasculhavam até às entranhas. Mudou de conversa. - O Leo? Onde vamos?
- Não houve velha nenhuma -, insistia ela. - É um delírio. Ninguém a comeu.
Entraram na cozinha.
- Olhe, não está aqui -, disse a mulher. - Pensei que sim, como ouvi ruído, julguei que tivessem vindo comer alguma coisa. Mas sente-se, Mr. Lawford, sente-se aqui um pouco. Não quer um pastelinho? Eu volto já, vou ver se lhe trago Leo. Estão com certeza no quarto. Diabo de rapazes.
Enquanto Mrs. Miriam saía, transportando consigo a pá, James principiou a sentir-se mais nervoso do que nunca. A ausência de Leo incomodava-o de uma forma bizarra. Sentia que uma angústia se apoderava lentamente do seu peito. O coração batia descompassadamente. Ouviu ganir. Não. Gritar, lá em cima. Rudolph, cadáver ambulante, pobre de Cristo crucificado, uivava de um modo que se lhe cravava no pescoço. Não foi capaz de se sentar. Andava de um lado para o outro. Leo, pensava! Onde estás tu? Onde estás tu?, perguntava-se em surdina, entre trovões que faziam estremecer a noite.
Reparou na caixa dos pastéis.
Retirou, delicadamente, um, segurando-o entre dois dedos, como se fosse uma pinça.
- Só faltava que a bruxa me envenenasse com um pastel - suspirou. E, no momento imediato, perante o absurdo da ideia, sorriu e acalmou.
Não tinha fome, mas mastigou o pastel como se fosse uma pastilha, algo que o fizesse mascar, que lhe permitisse movimentos em que concentrasse a sua energia angustiada.
Tenro. Tenro. Muuuito tenro e saboroso.
Bruscamente, cuspiu qualquer coisa.
Uma unha. Uma unha suja.
Instantaneamente, estupidamente, associou aquela unha a uma memória, e sussurrou:
- É verdade, não posso esquecer-me de dizer ao Leo para cortar as unhas. Está com elas tão sujas...
O horror desta associação, o significado profundo da relação que lhe surgia no espírito deixou-o apavorado. Cuspiu o pastel. Fora uma compreensão súbita, como um hediondo e repugnante relâmpago. Se tivesse demorado mais tempo a perceber, teria morrido sem saber o que tinha acontecido. Assim, a intuição trágica da verdade foi a última iluminação que teve em vida porque, no momento seguinte, uma pá pesada caía sobre a sua cabeça, fendia-a, matava-o.
Caiu no chão, o seu rosto sobre a pequena e suja unha.
terça-feira, dezembro 11, 2007
UNS PASTELINHOS MUUUITO TENRINHOS. QUINTO CAPÍTULO
O homem olhava-o, com uma espuma esbranquiçada entre os lábios entreabertos.
James pensou: «Tenho medo disto!»
Porquê? Bem: porque o Cadáver lhe confessara tanto sobre si mesmo, que, certamente, não o deixaria sair dali vivo. Como o libertaria, se lhe havia contado até que era um ser sem identidade (e assim quereria permanecer, sem dúvida), que nada, nenhum documento, registo algum provava, sequer, que existia? Pior: como o libertaria, depois de lhe ter dito que matara a velha?
(Ah, sim, James Lawford não tinha a menor hesitação acerca desse pormenor; soubera ler nas entrelinhas, soubera interpretar o eufemismo quase delicado: «Eu já não podia suportá-la mais», sussurrara-lhe Caveira Crucificada, «e ela morreu».)
Contudo, imediatamente a seguir, foi-se compenentrando de que, afinal, não tinha medo. Medo de quê? Porquê? Caveira Crucificada expusera-se de mais - e a verdade é que nós só tememos o que não vemos inteiramente, o que se nos oculta em parte, o que se resguarda na sombra. Caveira mostrara-lhe os seus ridículos. Era penoso de ver, não terrível. Respirava mal, cansava-se facilmente. Tinha orelhas grandes. Que mal poderia advir, a James, daquela figura patética, agora que não era um simples, tenebroso e desconhecido vulto à janela, entre relâmpagos, mas um pobre de Cristo?
Nesse momento, Mrs. Miriam surgiu.
Trazia uma pá na mão.
James Lawford reparou que Cadáver principiara a tremer, como se a presença da senhora o atemorizasse.
- Ah, Mrs. Miriam, trouxe a pá, que bom. Vamos? - perguntou James.
A senhora não o olhava. Fitava Cadáver.
- Não pode ir agora, Mr Lawford.
- Porquê?
- Porque ainda está a chover muito.
Cadáver calara-se. Babava-se. Parecia, mais do que nunca, um cadáver, um Cristo crucificado, um doente.
- Mas tenho de ir, Mrs. Miriam. Leo está à minha espera.
- Ah, pois, isso é outra coisa que eu tinha para lhe dizer. Afinal, enganei-me. Penso que Leo ainda cá está.
- Mas tinha-me dito...
- Pois disse, eu sei. Julguei que. Julguei que. Mas afinal não. Afinal não. Desculpe. Ouvi-os a falar, quando passei pelo quarto. São tão amiguinhos. Estão lá os dois. A estudar, é claro.
Cadáver pusera-se de costas, como para se entregar totalmente ao calor da lareira. Voltou-se de novo para ela:
- Mas, Miriam, não seria melhor...?
Mrs. Miriam olhou Cadáver nos olhos, segurando na pá com uma força nervosa.
- Sobe! - disse-lhe, simplesmente.
Deu dois passos. Como se não se tivesse movido do mesmo lugar. Como se não houvesse, na ligeira aproximação, propriamente uma ameaça.
(CONTINUA)
James pensou: «Tenho medo disto!»
Porquê? Bem: porque o Cadáver lhe confessara tanto sobre si mesmo, que, certamente, não o deixaria sair dali vivo. Como o libertaria, se lhe havia contado até que era um ser sem identidade (e assim quereria permanecer, sem dúvida), que nada, nenhum documento, registo algum provava, sequer, que existia? Pior: como o libertaria, depois de lhe ter dito que matara a velha?
(Ah, sim, James Lawford não tinha a menor hesitação acerca desse pormenor; soubera ler nas entrelinhas, soubera interpretar o eufemismo quase delicado: «Eu já não podia suportá-la mais», sussurrara-lhe Caveira Crucificada, «e ela morreu».)
Contudo, imediatamente a seguir, foi-se compenentrando de que, afinal, não tinha medo. Medo de quê? Porquê? Caveira Crucificada expusera-se de mais - e a verdade é que nós só tememos o que não vemos inteiramente, o que se nos oculta em parte, o que se resguarda na sombra. Caveira mostrara-lhe os seus ridículos. Era penoso de ver, não terrível. Respirava mal, cansava-se facilmente. Tinha orelhas grandes. Que mal poderia advir, a James, daquela figura patética, agora que não era um simples, tenebroso e desconhecido vulto à janela, entre relâmpagos, mas um pobre de Cristo?
Nesse momento, Mrs. Miriam surgiu.
Trazia uma pá na mão.
James Lawford reparou que Cadáver principiara a tremer, como se a presença da senhora o atemorizasse.
- Ah, Mrs. Miriam, trouxe a pá, que bom. Vamos? - perguntou James.
A senhora não o olhava. Fitava Cadáver.
- Não pode ir agora, Mr Lawford.
- Porquê?
- Porque ainda está a chover muito.
Cadáver calara-se. Babava-se. Parecia, mais do que nunca, um cadáver, um Cristo crucificado, um doente.
- Mas tenho de ir, Mrs. Miriam. Leo está à minha espera.
- Ah, pois, isso é outra coisa que eu tinha para lhe dizer. Afinal, enganei-me. Penso que Leo ainda cá está.
- Mas tinha-me dito...
- Pois disse, eu sei. Julguei que. Julguei que. Mas afinal não. Afinal não. Desculpe. Ouvi-os a falar, quando passei pelo quarto. São tão amiguinhos. Estão lá os dois. A estudar, é claro.
Cadáver pusera-se de costas, como para se entregar totalmente ao calor da lareira. Voltou-se de novo para ela:
- Mas, Miriam, não seria melhor...?
Mrs. Miriam olhou Cadáver nos olhos, segurando na pá com uma força nervosa.
- Sobe! - disse-lhe, simplesmente.
Deu dois passos. Como se não se tivesse movido do mesmo lugar. Como se não houvesse, na ligeira aproximação, propriamente uma ameaça.
(CONTINUA)
sábado, dezembro 08, 2007
UNS PASTELINHOS MUUUITO TENRINHOS. QUARTO CAPÍTULO
O indivíduo era horroroso: calvo de um modo perfeito, o rosto perfeitamente triangular, descarnado, como uma caveira (uma caveira à qual uns rapazes maldosos, irreverentemente, tivessem colado duas consideráveis e salientes orelhas).
Ou ele sorria, ou fazia um esgar. Tinha umas gengivas grandes, que o sorriso, ou lá o que era aquilo, revelava quase até ao nariz.
James Lawford costumava tranquilizar-se, na sua insegurança em relação a certos desconhecidos, fazendo o mesmo que Deus convidara Adão a fazer: nomeando-as. Como se, pelo poder mágico da palavra, atribuir um nome fosse domar e dominar uma criatura. Ali, hesitava: chamar-lhe-ia, no seu espírito, Crucificado Ambulante? Ou Cadáver?
Cadáver Crucificado Ambulante aproximava-se dele.
James sorriu-lhe:
- Boa noite. Isto é que está um tempo. O meu carro está atolado... sou... sou o pai de Leo.
Cadáver Crucificado não lhe respondeu. Ao fim de alguns segundos que pareceram fracções de eternidade, estendeu-lhe uma mão longa, inesperadamente peluda.
Falou:
- Eu não sei como me apresente. Mas sente-se, sente-se.
Tinha uma voz fraca. Arquejante. Ligeiramente aflautada. Era a segunda surpresa: esperara um tom cavo, lúgubre, possante.
Sentaram-se.
- A sua mulher... - procurava James obstruir o silêncio fosse como fosse, mesmo com incoveniências: tudo menos deixar que o silêncio subisse como uma trepadeira venenosa pela sala obscura - ... isto é, penso que é a sua mulher, Mrs. Miriam... foi procurar uma pá. No outro dia, vi-o à janela lá de cima. Também me viu?
- Vi-o.
- A sua mulher... ou melhor... enfim, Mrs. Miriam deve ter-se confundido; afirmava que eu não podia ter visto ninguém. Que o senhor era um crucifixo.
Riram ambos. Cadáver Crucificado durante pouco tempo, cansando-se de imediato e precisando de respirar fundo.
Depois, sem qualquer transição lógica, entrou, pausadamente, numa confissão absurda (provavelmente fantasiosa, julgou James), a que as características do lugar ou a presença, porventura rara, de um hóspede, pareciam impeli-lo:
- A minha mulher, como diz, procura proteger-me. [Pausa]. Mente sempre aos intrusos que julgam ter-me visto. [Pausa demorada, como para deixar a expressão «intrusos» penetrar no espírito do intruso]. Porque eu, realmente, não sou ninguém. [Tosse]. Não existo. Para efeito nenhum. Não tenho um único documento. [Pausa longa e, a seguir, em voz melancólica].Nasci em casa dos meus pais, nunca me registaram, fui oferecido, ou vendido [pausa] a uma velha que me teve como criado [pausa], eu diria escravo, durante toda a sua vida, aliás demasiado longa para meu gosto [pausa],até que eu já não podia suportá-la mais, e ela morreu.
Riu. A seguir, iniciou-se uma crise. Como se sufocasse, como se se lhe esgotasse o ar.
James estava impressionado. Ou assustado.
(CONTINUA)
Ou ele sorria, ou fazia um esgar. Tinha umas gengivas grandes, que o sorriso, ou lá o que era aquilo, revelava quase até ao nariz.
James Lawford costumava tranquilizar-se, na sua insegurança em relação a certos desconhecidos, fazendo o mesmo que Deus convidara Adão a fazer: nomeando-as. Como se, pelo poder mágico da palavra, atribuir um nome fosse domar e dominar uma criatura. Ali, hesitava: chamar-lhe-ia, no seu espírito, Crucificado Ambulante? Ou Cadáver?
Cadáver Crucificado Ambulante aproximava-se dele.
James sorriu-lhe:
- Boa noite. Isto é que está um tempo. O meu carro está atolado... sou... sou o pai de Leo.
Cadáver Crucificado não lhe respondeu. Ao fim de alguns segundos que pareceram fracções de eternidade, estendeu-lhe uma mão longa, inesperadamente peluda.
Falou:
- Eu não sei como me apresente. Mas sente-se, sente-se.
Tinha uma voz fraca. Arquejante. Ligeiramente aflautada. Era a segunda surpresa: esperara um tom cavo, lúgubre, possante.
Sentaram-se.
- A sua mulher... - procurava James obstruir o silêncio fosse como fosse, mesmo com incoveniências: tudo menos deixar que o silêncio subisse como uma trepadeira venenosa pela sala obscura - ... isto é, penso que é a sua mulher, Mrs. Miriam... foi procurar uma pá. No outro dia, vi-o à janela lá de cima. Também me viu?
- Vi-o.
- A sua mulher... ou melhor... enfim, Mrs. Miriam deve ter-se confundido; afirmava que eu não podia ter visto ninguém. Que o senhor era um crucifixo.
Riram ambos. Cadáver Crucificado durante pouco tempo, cansando-se de imediato e precisando de respirar fundo.
Depois, sem qualquer transição lógica, entrou, pausadamente, numa confissão absurda (provavelmente fantasiosa, julgou James), a que as características do lugar ou a presença, porventura rara, de um hóspede, pareciam impeli-lo:
- A minha mulher, como diz, procura proteger-me. [Pausa]. Mente sempre aos intrusos que julgam ter-me visto. [Pausa demorada, como para deixar a expressão «intrusos» penetrar no espírito do intruso]. Porque eu, realmente, não sou ninguém. [Tosse]. Não existo. Para efeito nenhum. Não tenho um único documento. [Pausa longa e, a seguir, em voz melancólica].Nasci em casa dos meus pais, nunca me registaram, fui oferecido, ou vendido [pausa] a uma velha que me teve como criado [pausa], eu diria escravo, durante toda a sua vida, aliás demasiado longa para meu gosto [pausa],até que eu já não podia suportá-la mais, e ela morreu.
Riu. A seguir, iniciou-se uma crise. Como se sufocasse, como se se lhe esgotasse o ar.
James estava impressionado. Ou assustado.
(CONTINUA)
sexta-feira, dezembro 07, 2007
UNS PASTELINHOS MUUUITO TENRINHOS. TERCEIRO CAPÍTULO
E, de facto, o dia seguinte foi um dia repousado.
Trouxe o filho da escola e ficaram os dois em casa, o pai arrumando os selos da sua colecção, Leo desenhando as próprias histórias em quadradinhos, muito mórbidas, cheias de monstros que pareciam devorar as páginas que mal os continham, mal os albergavam.
James bebeu um whisky e fumou dois ou três cigarros, apesar da proibição do médico.
Não conversaram. Falavam pouco um com o outro.
Também no dia seguinte, Leo tornou a não ir estudar com o seu amigo; o que, de algum modo, para James, acabou por se tornar embaraçoso, como se a presença do filho, de que se desabituara, fosse um peso estranho, um incómodo indefinível, silencioso e fantasmagórico. Sabia-o por ali. Ou fechado no quarto, ou sentado na cozinha, lanchando sem ruído.
Teria sido, talvez, por causa dessa sensação que a presença soturna do seu filho provocava, como um peso estranho no seio da sua liberdade e do seu espaço, que acabou por nem discutir quando, no terceiro dia, Leo lhe disse:
- Jonas pediu que o ajudasse hoje à tarde com o Latim. Temos exercício já na próxima semana. Posso ir?
Era sexta-feira. Chovia intensamente. Às sete horas da tarde, Leo não tinha regressado do «estudo». Ao princípio, não o preocupou que o rapaz tardasse, mas sim a chuva que certamente iria apanhar de caminho. Contudo, não lhe apetecia sair de casa. Egoísta, deixava-se estar, com o copo de whisky nas mãos, colado à janela.
Às oito, bruscamente, tomou uma decisão. Entrou no carro, dirigiu-se à casa velha.
Não havia luz. Buzinou. Não avistou, em nenhum lado, o que a senhora justificava como sendo um crucifixo que os protegia dos temporais. Saiu do automóvel, abrindo o guarda-chuva com que desta vez se prevenira, correu até à porta de casa, amaldiçoando a lama em que os seus sapatos novos se afundavam frequentemente. Não viu campainha; bateu com estrondo, usando o cabo do guarda-chuva.
Ao fim de um bocado, a porta entreabriu-se. Os olhos de Mrs. Miriam brilhavam por uma frincha, com um corte oblíquo que lhe dividia o rosto entre a sombra e uma vaga claridade.
- Boa noite, Mrs. Miriam. Venho buscar o Leo.
A porta não se abria mais do que aquilo. Ninguém o convidava a entrar. A voz da senhora era, naquele cenário diluviano, a única realidade que conservava uma espécie de secura absoluta.
- Boa noite, Mr. Lawford. O Leo já saiu. Há mais de uma meia hora.
Esteve a um instante de lhe perguntar se o deixava entrar para se sentar a descansar. Seria uma pequena ironia. Desistiu, não fosse ela abrir-lhe efectivamente a porta. Na verdade, estava desejoso de regressar.
- Ah! Então adeus. Boa noite.
- ...
Entrou no carro. Rodou a chave. Como nos filmes de terceira ou quarta ordem, o motor não lhe obedeceu. Quando, por fim, após várias tentativas enervantes, o carro principiou a rosnar, percebeu que não conseguia tirá-lo dali. Casara-se com a terra. Afundara ligeiramente no chão lamacento. Estava enterrado. Saiu do veículo, com vontade de erguer o punho contra os céus inclementes. Fez esforços baldados para o soltar das raízes que ganhara. Nunca libertaria, sozinho, o automóvel daquela espécie de paixão funesta.
Correu à casa horrorosa. Bateu estrondosamente. Agora, estava furioso. Quando Mrs. Miriam reentreabriu, empurrou-a com maus modos, procurando o calor do corredor, a luz do interior.
- O Jonas está cá? Vou precisar da ajuda dele. Ou está cá mais alguém? Talvez o crucifixo possa operar um milagre sobre o meu automóvel, que não se desenterra daquela lama? Posso entrar?
A senhora convidava-o e impedia-o, simultaneamente. Via-se que, ao mesmo tempo que lhe abria a porta, que o conduzia em direcção à sala, o cercava, o travava; proibia-o, subtilmente, de decidir os seus próprios passos, proibia-o de transgredir uma qualquer linha invisível, como se temesse que ele lhe invadisse a casa, lhe espiasse os quartos, lhe revoltasse as normas.
- Venha então para aqui, está mais quente. O Jonas não está. Não. Não está cá mais ninguém. Mas eu posso ajudá-lo.
Sentou-o junto ao fogo brando da lareira. Passara de uma fala seca, ríspida, nervosa, para um discurso nervosamente rápido, entremeado pelo que pareciam ser gargalhadas histéricas.
- Dê cá o seu casaco, vou ver se arranjo uma pá e uma lanterna, deixe-se estar aqui, quer beber alguma coisa quente?, não?, não se mexa que eu já volto.
James Lawford sentou-se. A chuva batia lá fora, ininterruptamente. Por um instante, aconchegado pelo calor, talvez tenha chegado a adormecer. Olhou para o relógio de pulso. Não haviam passado sequer cinco minutos. Ergueu a cabeça. A senhora voltara...! Estava ali. James estreitou os olhos, tentando perceber melhor que raio fazia Mrs. Miriam assim tão quieta. E deu um salto da cadeira, logo que deu conta do seu engano: não era Mrs. Miriam que o contemplava fixamente; encontrava-se diante do rosto magro e anguloso que descobrira, no outro dia, à janela: qual figura de cera, de uma palidez quase luminosa, como certos peixes das profundezas que transportam consigo a sua própria luz, assim a estranha personagem nadava na profundidade da velha casa, clareando a obscuridade marítima da sala. Mas não era um crucifixo.
Trouxe o filho da escola e ficaram os dois em casa, o pai arrumando os selos da sua colecção, Leo desenhando as próprias histórias em quadradinhos, muito mórbidas, cheias de monstros que pareciam devorar as páginas que mal os continham, mal os albergavam.
James bebeu um whisky e fumou dois ou três cigarros, apesar da proibição do médico.
Não conversaram. Falavam pouco um com o outro.
Também no dia seguinte, Leo tornou a não ir estudar com o seu amigo; o que, de algum modo, para James, acabou por se tornar embaraçoso, como se a presença do filho, de que se desabituara, fosse um peso estranho, um incómodo indefinível, silencioso e fantasmagórico. Sabia-o por ali. Ou fechado no quarto, ou sentado na cozinha, lanchando sem ruído.
Teria sido, talvez, por causa dessa sensação que a presença soturna do seu filho provocava, como um peso estranho no seio da sua liberdade e do seu espaço, que acabou por nem discutir quando, no terceiro dia, Leo lhe disse:
- Jonas pediu que o ajudasse hoje à tarde com o Latim. Temos exercício já na próxima semana. Posso ir?
Era sexta-feira. Chovia intensamente. Às sete horas da tarde, Leo não tinha regressado do «estudo». Ao princípio, não o preocupou que o rapaz tardasse, mas sim a chuva que certamente iria apanhar de caminho. Contudo, não lhe apetecia sair de casa. Egoísta, deixava-se estar, com o copo de whisky nas mãos, colado à janela.
Às oito, bruscamente, tomou uma decisão. Entrou no carro, dirigiu-se à casa velha.
Não havia luz. Buzinou. Não avistou, em nenhum lado, o que a senhora justificava como sendo um crucifixo que os protegia dos temporais. Saiu do automóvel, abrindo o guarda-chuva com que desta vez se prevenira, correu até à porta de casa, amaldiçoando a lama em que os seus sapatos novos se afundavam frequentemente. Não viu campainha; bateu com estrondo, usando o cabo do guarda-chuva.
Ao fim de um bocado, a porta entreabriu-se. Os olhos de Mrs. Miriam brilhavam por uma frincha, com um corte oblíquo que lhe dividia o rosto entre a sombra e uma vaga claridade.
- Boa noite, Mrs. Miriam. Venho buscar o Leo.
A porta não se abria mais do que aquilo. Ninguém o convidava a entrar. A voz da senhora era, naquele cenário diluviano, a única realidade que conservava uma espécie de secura absoluta.
- Boa noite, Mr. Lawford. O Leo já saiu. Há mais de uma meia hora.
Esteve a um instante de lhe perguntar se o deixava entrar para se sentar a descansar. Seria uma pequena ironia. Desistiu, não fosse ela abrir-lhe efectivamente a porta. Na verdade, estava desejoso de regressar.
- Ah! Então adeus. Boa noite.
- ...
Entrou no carro. Rodou a chave. Como nos filmes de terceira ou quarta ordem, o motor não lhe obedeceu. Quando, por fim, após várias tentativas enervantes, o carro principiou a rosnar, percebeu que não conseguia tirá-lo dali. Casara-se com a terra. Afundara ligeiramente no chão lamacento. Estava enterrado. Saiu do veículo, com vontade de erguer o punho contra os céus inclementes. Fez esforços baldados para o soltar das raízes que ganhara. Nunca libertaria, sozinho, o automóvel daquela espécie de paixão funesta.
Correu à casa horrorosa. Bateu estrondosamente. Agora, estava furioso. Quando Mrs. Miriam reentreabriu, empurrou-a com maus modos, procurando o calor do corredor, a luz do interior.
- O Jonas está cá? Vou precisar da ajuda dele. Ou está cá mais alguém? Talvez o crucifixo possa operar um milagre sobre o meu automóvel, que não se desenterra daquela lama? Posso entrar?
A senhora convidava-o e impedia-o, simultaneamente. Via-se que, ao mesmo tempo que lhe abria a porta, que o conduzia em direcção à sala, o cercava, o travava; proibia-o, subtilmente, de decidir os seus próprios passos, proibia-o de transgredir uma qualquer linha invisível, como se temesse que ele lhe invadisse a casa, lhe espiasse os quartos, lhe revoltasse as normas.
- Venha então para aqui, está mais quente. O Jonas não está. Não. Não está cá mais ninguém. Mas eu posso ajudá-lo.
Sentou-o junto ao fogo brando da lareira. Passara de uma fala seca, ríspida, nervosa, para um discurso nervosamente rápido, entremeado pelo que pareciam ser gargalhadas histéricas.
- Dê cá o seu casaco, vou ver se arranjo uma pá e uma lanterna, deixe-se estar aqui, quer beber alguma coisa quente?, não?, não se mexa que eu já volto.
James Lawford sentou-se. A chuva batia lá fora, ininterruptamente. Por um instante, aconchegado pelo calor, talvez tenha chegado a adormecer. Olhou para o relógio de pulso. Não haviam passado sequer cinco minutos. Ergueu a cabeça. A senhora voltara...! Estava ali. James estreitou os olhos, tentando perceber melhor que raio fazia Mrs. Miriam assim tão quieta. E deu um salto da cadeira, logo que deu conta do seu engano: não era Mrs. Miriam que o contemplava fixamente; encontrava-se diante do rosto magro e anguloso que descobrira, no outro dia, à janela: qual figura de cera, de uma palidez quase luminosa, como certos peixes das profundezas que transportam consigo a sua própria luz, assim a estranha personagem nadava na profundidade da velha casa, clareando a obscuridade marítima da sala. Mas não era um crucifixo.
quinta-feira, dezembro 06, 2007
UNS PASTELINHOS MUUUITO TENRINHOS. SEGUNDO CAPÍTULO
Perante aquilo, com um arrepio quase doloroso, James Lawford voltou a enfiar-se todo no automóvel. Deixou-se estar uns segundos parado, quieto, sem saber o que fazer. Respirava com dificuldade. Relâmpagos desaustinados eram cuspidos, como se em frustradas tentativas de queimar tudo em seu redor. Olhou, inseguro, para a janela da casa. O rosto cadavérico desaparecera. Ou melhor, a vela extinguira-se, ou alguém a apagara, e já não se via nessa janela senão um rectângulo de negrume.
James considerou a hipótese de sair do carro e tocar à campaínha - se é que a casa possuía alguma. Respirou fundo, como para ganhar coragem. Ou tempo. Começou a contar em voz baixa, pensando: «Se não acontecer nada, se não aparecer ninguém quando eu chegar aos dez... não, aos vinte... vou até à porta... seis... sete...»
Nesse preciso instante, percebeu que havia uma face brusca colada ao vidro do seu automóvel.
Teve um sobressalto. Encostou-se ao banco, entre dois relâmpagos.
Era Mrs. Miriam, que lhe trazia Leo, escoltados ambos pelo filho adoptivo da senhora, de guarda-chuva em punho, um guarda-chuva que só lhe fazia lembrar, tetricamente, as asas de um morcego.
Abriu a porta do carro. Leo entrou, molhando os estofos. James abriu o vidro para dirigir a palavra à senhora:
- Já estava aqui há um bocado a chamar. Buzinei. Até gritei que era eu, mas o seu marido, lá em cima, à janela, não deu por nada...
- Meu...? -, enervou-se Mrs. Miriam. - Não, não, não. Ah, já sei. Deve estar a referir-se ao crucifixo. É um Cristo que está ali, no quarto. Em noites de temporal, trago-o para o pé da janela. Ora. São as nossas manias!
Passava-lhe, para as mãos, uma caixinha de pastéis. Depois, a senhora falou para Leo, o qual esperava, muito silencioso, muito molhado, como se estivesse perturbado com alguma coisa.
- Mas amanhã, menino, vai ser como eu digo, hein? Primeiro, estudam. Depois, é que vão conversar...
James fechou bruscamente a possibilidade:
- Ah, mas amanhã não, Mrs. Miriam, amanhã o Leo não vai poder vir porque... porque... tem outras coisas que fazer.
A senhora olhava-o. Era um olhar de viva reprovação, que nem a água dos céus, que os separava um do outro, como uma cortina líquida, conseguia atenuar.
Ele sentia-se culpado por esta sua recusa ingrata, ao mesmo tempo que segurava, entre as mãos enluvadas, os pastelinhos que a senhora acabara de lhe oferecer.
Mas cortava a vinda de Leo, como se o protegesse de um mal. Tremia de frio e de nervoso. A tenebrosa e cadavérica figura à janela da casa ainda lhe rangia no espírito. Um crucifixo?! Qual! Impossível. Aquilo movera-se. Juraria. Impressão sua...?
(CONTINUA)
James considerou a hipótese de sair do carro e tocar à campaínha - se é que a casa possuía alguma. Respirou fundo, como para ganhar coragem. Ou tempo. Começou a contar em voz baixa, pensando: «Se não acontecer nada, se não aparecer ninguém quando eu chegar aos dez... não, aos vinte... vou até à porta... seis... sete...»
Nesse preciso instante, percebeu que havia uma face brusca colada ao vidro do seu automóvel.
Teve um sobressalto. Encostou-se ao banco, entre dois relâmpagos.
Era Mrs. Miriam, que lhe trazia Leo, escoltados ambos pelo filho adoptivo da senhora, de guarda-chuva em punho, um guarda-chuva que só lhe fazia lembrar, tetricamente, as asas de um morcego.
Abriu a porta do carro. Leo entrou, molhando os estofos. James abriu o vidro para dirigir a palavra à senhora:
- Já estava aqui há um bocado a chamar. Buzinei. Até gritei que era eu, mas o seu marido, lá em cima, à janela, não deu por nada...
- Meu...? -, enervou-se Mrs. Miriam. - Não, não, não. Ah, já sei. Deve estar a referir-se ao crucifixo. É um Cristo que está ali, no quarto. Em noites de temporal, trago-o para o pé da janela. Ora. São as nossas manias!
Passava-lhe, para as mãos, uma caixinha de pastéis. Depois, a senhora falou para Leo, o qual esperava, muito silencioso, muito molhado, como se estivesse perturbado com alguma coisa.
- Mas amanhã, menino, vai ser como eu digo, hein? Primeiro, estudam. Depois, é que vão conversar...
James fechou bruscamente a possibilidade:
- Ah, mas amanhã não, Mrs. Miriam, amanhã o Leo não vai poder vir porque... porque... tem outras coisas que fazer.
A senhora olhava-o. Era um olhar de viva reprovação, que nem a água dos céus, que os separava um do outro, como uma cortina líquida, conseguia atenuar.
Ele sentia-se culpado por esta sua recusa ingrata, ao mesmo tempo que segurava, entre as mãos enluvadas, os pastelinhos que a senhora acabara de lhe oferecer.
Mas cortava a vinda de Leo, como se o protegesse de um mal. Tremia de frio e de nervoso. A tenebrosa e cadavérica figura à janela da casa ainda lhe rangia no espírito. Um crucifixo?! Qual! Impossível. Aquilo movera-se. Juraria. Impressão sua...?
(CONTINUA)
segunda-feira, dezembro 03, 2007
REIS MAGOS A JACTO
NOTA: A essência do cristianismo reside no perdão; espero que os meus leitores cristãos sejam mais coerentes do que eu, e façam do meu texto um pretexto para o exercício de me perdoarem...
Na qualidade de ateu empedernido, tornou-se-me, no início do período mais coerente da minha vida, praticamente impossível a convivência com o presépio e tudo quanto este simboliza. Depois de muito instado, chegava a aceitar a àrvore de Natal. Com dificuldade e muitos resmungos, é certo, mas vá: à àrvore ainda fechava os olhos! Agora, um presépio, um menino ao frio, sobre palhinhas deitado, um pai que não era pai mas fazia de conta que não se importava, uma mãe que alegava permanecer intocada apesar de todas as evidências, uns reis cuja sensatez os levava a oferecer, como prendas para um recém-nascido, coisas tão desadequadas como ouro, incenso, mirra, uns pastores, uma vaca, um burro, isso era já mais do que podia suportar.
Mais tarde, não por ter ganho fé em Deus, mas por ter perdido a fé na coerência - a qual, no limite, se confunde com intolerância -, dei por mim a olhar para presépios e a descobrir uma espécie de beleza discreta na subordinação de tantos adultos a um bebé. Pensava para comigo: «E isso não é nada! Deixem o menino chegar à idade da minha Margaridinha, que já vão ver o poder que uma criança realmente tem sobre os crescidos!»
Num dia de arrumações, descobri, em algum baú herdado, um conjunto de figuras de presépio, e senti-me fundir, senti-me derreter, quase enternecido, derramando-me por sequências de imagens dos Natais da minha infância, dos presépios que então me fascinavam; não só os de casa - ou das sucessivas casas por onde passei -, mas também o(s) presépio(s) da(s) escola(s). Recordei-me de como certo dia, na adoração de um deles, quase pegava fogo à roupa. Não me perguntem como, porque não reparara em nada e, quando regressei a casa com a camisa queimada, não sabia explicar exactamente o que sucedera. E nunca soube!
Mas ainda assim, mesmo depois dessa viagem pelo tempo, precisei de semanas para digerir esta súbita saudade, esta inexplicável vontade de retomar o presépio. Pensava: «Que mal faz?» Justificava: «Trata-se tão-só de aceitar um mito belo sem ver nele mais do que um mito belo, trata-se de celebrar a família, sob a forma de um grupo disfuncional como, no fundo, todas as famílias são hoje. (Presépio: Pai ausente, padrasto indiferente, mãe em delírio, filho megalómano...)
Quando, por fim, encolhi os ombros numa muda aceitação deste símbolo, quis, em todo o caso, que ela tivesse qualquer coisa de singular. Digamos: uma concessão ao ateu rabugento em mim- Que, ao menos, não fosse um presépio comum. Que não fosse um passo em direcção à massificação natalícia. Que tivesse um toque pós-moderno. Um toque... ateu?!
A minha ideia, ó delírio, consistia simplesmente nisto: elevar o presépio, colocando-o sobre um pedestal de caixas que escondesse, aos olhos de todos, um comboio eléctrico. Esperem: o comboio carregaria, subtilmente, os três reis magos. Mas, insisto, ninguém veria comboio algum. Em contrapartida, os embevecidos espectadores que eu idealizava, seriam postos ante o espectáculo da autonomia de Baltazar, Gaspar e Belchior, como se estes se deslocassem, sozinhos, numa alegre cavalgada (ou camelada) em direcção ao menino Jesus. O comboio seria, portanto, o mecanismo secreto, o motor escondido da sua aproximação.
O que separa o génio do ridículo é, por vezes, uma linha tão ténue, que grandes ideias acabam por afundar no gozo e na troça gerais.
Poupo-vos a descrição do que aconteceu diante dos olhos incrédulos dos primeiros espectadores que convidei: os reis magos, numa desenfreada e absurda pressa, como se estivessem já muito atrasados, descrevendo um movimento demasiado ruidoso, demasiado circular e repetitivo, em torno de Jesus, mas sem nunca realmente O visitarem, incapazes de quebrar o perpétuo circuito em que se viam lançados, provocaram, sobretudo, gargalhadas. Que público reaccionário. Que falta de sensibilidade artística. Que tacanhez para o que é novo, o que é diferente, o que não foi feito para este tempo.
E assim, morrem grandes ideias. Aposto que a História está carregada de destroços que prometiam tanto...!
Se calhar, desisto do presépio.
Na qualidade de ateu empedernido, tornou-se-me, no início do período mais coerente da minha vida, praticamente impossível a convivência com o presépio e tudo quanto este simboliza. Depois de muito instado, chegava a aceitar a àrvore de Natal. Com dificuldade e muitos resmungos, é certo, mas vá: à àrvore ainda fechava os olhos! Agora, um presépio, um menino ao frio, sobre palhinhas deitado, um pai que não era pai mas fazia de conta que não se importava, uma mãe que alegava permanecer intocada apesar de todas as evidências, uns reis cuja sensatez os levava a oferecer, como prendas para um recém-nascido, coisas tão desadequadas como ouro, incenso, mirra, uns pastores, uma vaca, um burro, isso era já mais do que podia suportar.
Mais tarde, não por ter ganho fé em Deus, mas por ter perdido a fé na coerência - a qual, no limite, se confunde com intolerância -, dei por mim a olhar para presépios e a descobrir uma espécie de beleza discreta na subordinação de tantos adultos a um bebé. Pensava para comigo: «E isso não é nada! Deixem o menino chegar à idade da minha Margaridinha, que já vão ver o poder que uma criança realmente tem sobre os crescidos!»
Num dia de arrumações, descobri, em algum baú herdado, um conjunto de figuras de presépio, e senti-me fundir, senti-me derreter, quase enternecido, derramando-me por sequências de imagens dos Natais da minha infância, dos presépios que então me fascinavam; não só os de casa - ou das sucessivas casas por onde passei -, mas também o(s) presépio(s) da(s) escola(s). Recordei-me de como certo dia, na adoração de um deles, quase pegava fogo à roupa. Não me perguntem como, porque não reparara em nada e, quando regressei a casa com a camisa queimada, não sabia explicar exactamente o que sucedera. E nunca soube!
Mas ainda assim, mesmo depois dessa viagem pelo tempo, precisei de semanas para digerir esta súbita saudade, esta inexplicável vontade de retomar o presépio. Pensava: «Que mal faz?» Justificava: «Trata-se tão-só de aceitar um mito belo sem ver nele mais do que um mito belo, trata-se de celebrar a família, sob a forma de um grupo disfuncional como, no fundo, todas as famílias são hoje. (Presépio: Pai ausente, padrasto indiferente, mãe em delírio, filho megalómano...)
Quando, por fim, encolhi os ombros numa muda aceitação deste símbolo, quis, em todo o caso, que ela tivesse qualquer coisa de singular. Digamos: uma concessão ao ateu rabugento em mim- Que, ao menos, não fosse um presépio comum. Que não fosse um passo em direcção à massificação natalícia. Que tivesse um toque pós-moderno. Um toque... ateu?!
A minha ideia, ó delírio, consistia simplesmente nisto: elevar o presépio, colocando-o sobre um pedestal de caixas que escondesse, aos olhos de todos, um comboio eléctrico. Esperem: o comboio carregaria, subtilmente, os três reis magos. Mas, insisto, ninguém veria comboio algum. Em contrapartida, os embevecidos espectadores que eu idealizava, seriam postos ante o espectáculo da autonomia de Baltazar, Gaspar e Belchior, como se estes se deslocassem, sozinhos, numa alegre cavalgada (ou camelada) em direcção ao menino Jesus. O comboio seria, portanto, o mecanismo secreto, o motor escondido da sua aproximação.
O que separa o génio do ridículo é, por vezes, uma linha tão ténue, que grandes ideias acabam por afundar no gozo e na troça gerais.
Poupo-vos a descrição do que aconteceu diante dos olhos incrédulos dos primeiros espectadores que convidei: os reis magos, numa desenfreada e absurda pressa, como se estivessem já muito atrasados, descrevendo um movimento demasiado ruidoso, demasiado circular e repetitivo, em torno de Jesus, mas sem nunca realmente O visitarem, incapazes de quebrar o perpétuo circuito em que se viam lançados, provocaram, sobretudo, gargalhadas. Que público reaccionário. Que falta de sensibilidade artística. Que tacanhez para o que é novo, o que é diferente, o que não foi feito para este tempo.
E assim, morrem grandes ideias. Aposto que a História está carregada de destroços que prometiam tanto...!
Se calhar, desisto do presépio.
sexta-feira, novembro 30, 2007
UNS PASTELINHOS MUUUITO TENRINHOS. PRIMEIRO CAPÍTULO DE UM PEQUENO CONTO GÓTICO (para o caso de não perceberem imediatamente)
No seu snobismo característico, James B. Lawford mostrava sempre um certo enfado pelo modo como Mrs. Miriam se apoderava do filho dele, rapaz inteligente e vivo, muito bom aluno, para o levar a "estudar com o" - isto era um eufemismo: tratava-se, na verdade, de "dar explicações ao" - seu [dela] filho adoptivo, um moço distraído, triste, sujo e mau aluno.
J.B.Lawford tinha dificuldade em responder, à pobre senhora, com uma recusa peremptória, sobretudo quando ela entoava, numa espécie de melopeia, aquelas palavras do costume: «Desculpe, desculpe, o senhor desculpe»; mas que os meninos eram «tão amiguinhos...», e nhã-nhã-nhã-nhã. (A expressão «amiguinhos», a propósito do seu filho e da outra criança, exasperava-o, mas ia acenando com a cabeça num gesto monótono que, todavia, a não calava). Para além do mais, havia os pastelinhos. Leo Lawford, o filho de James, trazia invariavelmente das sessões de estudo, umas caixas carregadas de pastelinhos.
Às vezes, a sessão prolongava-se: era já noite cerrada, em pleno Inverno, e Leo ainda não tinha voltado para casa.
E, uma vez, James Lawford decidiu mesmo vestir o sobretudo, pôr o cachecol, um chapéu, luvas, meter-se no seu automóvel e dirigir-se, sob uma chuva inquieta, amarelecida num cone de luz projectada pelos faróis, até à casa de Mrs. Miriam.
Era uma casa muito velha, antiga, em que mal se reparava, durante o dia, mas que, à noite, no escuro, sob a toalha da água dos céus, se tornava lúgubre, cheia de sombras e tristeza, evocando sinais da passagem da morte e violências inconfessáveis.
Estacionou, esperando que vissem, de alguma janela, o automóvel expectante. Mantinha os faróis ligados contra a escuridão, molhando a luz ténue na chuva. Mas Leo não aparecia. Ninguém aparecia.
Buzinou.
E numa janela pequena, de um primeiro andar iluminado por alguma vela, surgiu um vulto.
Fez sinais de luzes. Abriu a porta do carro, lançou a cabeça de fora, gritando quase desesperadamente para o ar impregnado do ruído da água:
- Sou eu! O pai de Leo!
Mas nada. O vulto não reagia. Foi só um ou dois segundos depois, à luz de um relâmpago que se despenhou do céu negro (uau! Estou estarrecido comigo) que James se apercebeu de que não se tratava nem de Mrs. Miriam, nem de um dos rapazes, mas de um homem - ou de um cadáver: branco, anguloso, magro, envolto em sombra, esculpido por sombras.
(CONTINUA)
J.B.Lawford tinha dificuldade em responder, à pobre senhora, com uma recusa peremptória, sobretudo quando ela entoava, numa espécie de melopeia, aquelas palavras do costume: «Desculpe, desculpe, o senhor desculpe»; mas que os meninos eram «tão amiguinhos...», e nhã-nhã-nhã-nhã. (A expressão «amiguinhos», a propósito do seu filho e da outra criança, exasperava-o, mas ia acenando com a cabeça num gesto monótono que, todavia, a não calava). Para além do mais, havia os pastelinhos. Leo Lawford, o filho de James, trazia invariavelmente das sessões de estudo, umas caixas carregadas de pastelinhos.
Às vezes, a sessão prolongava-se: era já noite cerrada, em pleno Inverno, e Leo ainda não tinha voltado para casa.
E, uma vez, James Lawford decidiu mesmo vestir o sobretudo, pôr o cachecol, um chapéu, luvas, meter-se no seu automóvel e dirigir-se, sob uma chuva inquieta, amarelecida num cone de luz projectada pelos faróis, até à casa de Mrs. Miriam.
Era uma casa muito velha, antiga, em que mal se reparava, durante o dia, mas que, à noite, no escuro, sob a toalha da água dos céus, se tornava lúgubre, cheia de sombras e tristeza, evocando sinais da passagem da morte e violências inconfessáveis.
Estacionou, esperando que vissem, de alguma janela, o automóvel expectante. Mantinha os faróis ligados contra a escuridão, molhando a luz ténue na chuva. Mas Leo não aparecia. Ninguém aparecia.
Buzinou.
E numa janela pequena, de um primeiro andar iluminado por alguma vela, surgiu um vulto.
Fez sinais de luzes. Abriu a porta do carro, lançou a cabeça de fora, gritando quase desesperadamente para o ar impregnado do ruído da água:
- Sou eu! O pai de Leo!
Mas nada. O vulto não reagia. Foi só um ou dois segundos depois, à luz de um relâmpago que se despenhou do céu negro (uau! Estou estarrecido comigo) que James se apercebeu de que não se tratava nem de Mrs. Miriam, nem de um dos rapazes, mas de um homem - ou de um cadáver: branco, anguloso, magro, envolto em sombra, esculpido por sombras.
(CONTINUA)
domingo, novembro 25, 2007
UMA SALVADORA INSIGNIFICÂNCIA
Fora, não ainda há muitos anos, o melhor vendedor da marca: talvez em Portugal e «quiçá» - como o seu chefe gostava de empregar, fungando abundantemente, na sua sempiterna constipação -, «quiçá» na Europa inteira!
Mas tudo muda. (Não vejam aqui um lugar comum: é uma inquestionável verdade!). A mulher saíra de casa, fugindo («fugindo» será força de expressão: não consta que saísse a correr...) com um talhante, e Jordão Silveira nunca mais se reerguera. Dos seus tempos de melhor vendedor, «quiçá» da Europa, não lhe restavam, hoje, senão a raiva e os ressentimentos dos colegas, que sempre o haviam invejado, mas com respeito, e agora se vingavam do seu passado, da sua superioridade de tantos anos, desrespeitando-o declaradamente...
Um vendedor como Jordão Silveira, batalhando duramente ao longo de quase 24 horas, mas não tendo ninguém com quem pudesse partilhar um pique-nique, uma soirée, uma viagem, ninguém com quem nada de nada, tendia a desleixar-se: primeiro, nem valia a pena ir a casa jantar; depois, deixara de tomar banho, ficando-se com o cabelo gorduroso, criando caspa nas golas, sujidade nas unhas. O desleixo infiltrava-se, invadia a sua pessoa e o seu apartamento, com jornais espalhados pelo chão e latas rolando entre pratos cheios de restos, e quantidades de repugnantes maçãs roídas e abandonadas, que são, por si só, uma imagem forte da degradação; e tudo isto coincidia, de facto, com a degradação nas vendas: Jordão Silveira tornava-se, «quiçá», o pior vendedor da Europa.
Às vezes, para se não sentir só, passava a noite no luminoso hall do Casino Estoril. Por ali perambulava, com um copinho entre as mãos, mirando os cartazes, alienando-se nos passantes e no ruído constante, até que se sentava, de perna cruzada, num dos sofás mais confortáveis, e se preparava para dormir três ou quatro horas. Pelas cinco da manhã, despertava. Fazia a barba e lavava sumariamente o rosto e as axilas na casa de banho. A seguir, partia para o trabalho e para a troça dos colegas, adormecendo várias vezes durante o dia, vendendo pouco e perdendo os melhores clientes.
Mas, vamos a mais um lugar comum, há, para cada pessoa, um ponto de rotura, um limite do suportável.
Um dia, Jordão acordou com a sensação de que tocara nesse ponto. Não se dirigiu ao seu serviço. Ao invés, entrou num prédio alto, subiu as escadas, arfando a cada novo degrau, enojado de si, ferido pelo seu ponto de rotura, obcecado pela ideia única de nunca mais voltar a querer ter ideias, nem esperanças, nem desejos, nem vendas, nem nada.
Ao chegar ao quinto andar, deparou com um relógio que o fitava de uma parede. Era um relógio redondo, como devia existir, embora não tivesse reparado em nenhum até esse momento, um por andar.
Mas, mais do que tudo, os ponteiros desenhavam, sob o vidro abaulado, as 11.11: onze horas e onze minutos.
Jordão Silveira teve um estremecimento: como se um número tão exacto, tão repetitivo, tão cheio de «uns», fosse um chamamento das profundezas do universo, um gesto apaziaguador dos deuses, ou de Deus, ou de quem quer que estivesse sentado ao controlo. Como se fosse uma piscadela de olho. Como se fosse uma expressão de cumplicidade.
Logo a seguir, porém, a força do seu azar, da sua imperfeição, do seu cansaço, da contínua degradação da sua vida, da sua tristeza, da sua angústia, do seu mal-estar, a força do limite que atingira e de onde lhe não apetecia continuar a cair (a não ser que se tratasse de cair, literalmente, do prédio abaixo ou da vida para fora) reapossou-se de si e estilhaçou aquele breve momento de quase-paz. Continuou, pois, a subir. Esquecido, logo nos degraus seguintes, daquela comunhão matemática...
Foi quando chegou ao terraço, e se aproximou do muro, com o cabelo agitado por ventanias várias, que se lembrou e, num gesto de derradeira curiosidade, olhou para o relógio de pulso. E, ali, no seu relógio, viu marcadas 11.10. Mas, imediatamente após, como um atrevimento do destino, 11.11.
Por alguma razão, portanto, ou porque o relógio do prédio estivesse adiantado, ou porque o seu relógio se atrasara, tudo ocorria como se os deuses lhe tivessem oferecido um minuto de vida.
Não podia desperdiçá-lo. Não podia ser ingrato a esse ponto. Não tinha o direito de jogar fora a divina oferenda, o minuto miraculoso, jogando-se fora a si próprio. Havia, já não uma coincidência, mas uma dupla coincidência. Uma dupla coincidência não poderia ser mera coincidência. Sentiu lágrimas nos olhos. Talvez as coisas melhorassem. Talvez a mulher regressasse. Talvez principiasse a vender. Sentiu lágrimas nos olhos. (Olha, já tinha escrito isto!). Há insignificâncias maravilhosas, não há?
Nota: demorou mais de dez minutos a descer a escadaria. Mas não reparou nisso!
Mas tudo muda. (Não vejam aqui um lugar comum: é uma inquestionável verdade!). A mulher saíra de casa, fugindo («fugindo» será força de expressão: não consta que saísse a correr...) com um talhante, e Jordão Silveira nunca mais se reerguera. Dos seus tempos de melhor vendedor, «quiçá» da Europa, não lhe restavam, hoje, senão a raiva e os ressentimentos dos colegas, que sempre o haviam invejado, mas com respeito, e agora se vingavam do seu passado, da sua superioridade de tantos anos, desrespeitando-o declaradamente...
Um vendedor como Jordão Silveira, batalhando duramente ao longo de quase 24 horas, mas não tendo ninguém com quem pudesse partilhar um pique-nique, uma soirée, uma viagem, ninguém com quem nada de nada, tendia a desleixar-se: primeiro, nem valia a pena ir a casa jantar; depois, deixara de tomar banho, ficando-se com o cabelo gorduroso, criando caspa nas golas, sujidade nas unhas. O desleixo infiltrava-se, invadia a sua pessoa e o seu apartamento, com jornais espalhados pelo chão e latas rolando entre pratos cheios de restos, e quantidades de repugnantes maçãs roídas e abandonadas, que são, por si só, uma imagem forte da degradação; e tudo isto coincidia, de facto, com a degradação nas vendas: Jordão Silveira tornava-se, «quiçá», o pior vendedor da Europa.
Às vezes, para se não sentir só, passava a noite no luminoso hall do Casino Estoril. Por ali perambulava, com um copinho entre as mãos, mirando os cartazes, alienando-se nos passantes e no ruído constante, até que se sentava, de perna cruzada, num dos sofás mais confortáveis, e se preparava para dormir três ou quatro horas. Pelas cinco da manhã, despertava. Fazia a barba e lavava sumariamente o rosto e as axilas na casa de banho. A seguir, partia para o trabalho e para a troça dos colegas, adormecendo várias vezes durante o dia, vendendo pouco e perdendo os melhores clientes.
Mas, vamos a mais um lugar comum, há, para cada pessoa, um ponto de rotura, um limite do suportável.
Um dia, Jordão acordou com a sensação de que tocara nesse ponto. Não se dirigiu ao seu serviço. Ao invés, entrou num prédio alto, subiu as escadas, arfando a cada novo degrau, enojado de si, ferido pelo seu ponto de rotura, obcecado pela ideia única de nunca mais voltar a querer ter ideias, nem esperanças, nem desejos, nem vendas, nem nada.
Ao chegar ao quinto andar, deparou com um relógio que o fitava de uma parede. Era um relógio redondo, como devia existir, embora não tivesse reparado em nenhum até esse momento, um por andar.
Mas, mais do que tudo, os ponteiros desenhavam, sob o vidro abaulado, as 11.11: onze horas e onze minutos.
Jordão Silveira teve um estremecimento: como se um número tão exacto, tão repetitivo, tão cheio de «uns», fosse um chamamento das profundezas do universo, um gesto apaziaguador dos deuses, ou de Deus, ou de quem quer que estivesse sentado ao controlo. Como se fosse uma piscadela de olho. Como se fosse uma expressão de cumplicidade.
Logo a seguir, porém, a força do seu azar, da sua imperfeição, do seu cansaço, da contínua degradação da sua vida, da sua tristeza, da sua angústia, do seu mal-estar, a força do limite que atingira e de onde lhe não apetecia continuar a cair (a não ser que se tratasse de cair, literalmente, do prédio abaixo ou da vida para fora) reapossou-se de si e estilhaçou aquele breve momento de quase-paz. Continuou, pois, a subir. Esquecido, logo nos degraus seguintes, daquela comunhão matemática...
Foi quando chegou ao terraço, e se aproximou do muro, com o cabelo agitado por ventanias várias, que se lembrou e, num gesto de derradeira curiosidade, olhou para o relógio de pulso. E, ali, no seu relógio, viu marcadas 11.10. Mas, imediatamente após, como um atrevimento do destino, 11.11.
Por alguma razão, portanto, ou porque o relógio do prédio estivesse adiantado, ou porque o seu relógio se atrasara, tudo ocorria como se os deuses lhe tivessem oferecido um minuto de vida.
Não podia desperdiçá-lo. Não podia ser ingrato a esse ponto. Não tinha o direito de jogar fora a divina oferenda, o minuto miraculoso, jogando-se fora a si próprio. Havia, já não uma coincidência, mas uma dupla coincidência. Uma dupla coincidência não poderia ser mera coincidência. Sentiu lágrimas nos olhos. Talvez as coisas melhorassem. Talvez a mulher regressasse. Talvez principiasse a vender. Sentiu lágrimas nos olhos. (Olha, já tinha escrito isto!). Há insignificâncias maravilhosas, não há?
Nota: demorou mais de dez minutos a descer a escadaria. Mas não reparou nisso!
quinta-feira, novembro 22, 2007
ESCOLA SECUNDÁRIA DE JOSÉ LUCAS
Costuma dizer-se que a memória é curta. Que há alguma hipocrisia no modo como, em face da morte de alguém, se esquece tudo - as zangas, os ressentimentos, os azedumes, os defeitos - para que, de tudo o que era a pessoa que morreu, não restem senão os traços bons, não fique senão um resumo lembrável.
Mas eu penso que não. Que não há, nisto, qualquer hipocrisia. Que, simplesmente, sob a lente crua - e cruel - da morte, tudo se transforma e adquire novas proporções; e a existência humana, subitamente revelada na sua tremenda fragilidade, não possa aguentar nada mais para além daquilo que realmente vale a pena: para quê preocuparmo-nos com as ninharias e as insignificâncias, se o tempo é pouco e, no pouco tempo que nos é dado, há coisas tão belas, tão boas - essenciais?
Na morte de Lucas, o que fica na memória de milhares de pessoas é demasiado grande. Já não há espaço para pormenores. E mesmo as zangas, se as houve, ou as ofensas, se as queremos recordar, tornam-se momentos humanos, mais ou menos dolorosos, que serviram para fortalecer laços e dar um rumo singular à relação. Digo-o porque sei que, no seu posto de Presidente, ao longo de tantos anos, com a «insegura teimosia» e aquela necessidade absoluta de consensos - a que se refere a minha colega Elisa Costa Pinto, num dos textos mais bonitos que eu já li sobre a saudade perante a morte de um amigo... -, Lucas terá cutucado onças, exasperado amigos da onça, discutido, com ou sem razão, e voltado bruscamente as costas. Mas que interessa?
Em Lucas, precisamente, a amizade, a generosidade, a solidariedade, o medo de incomodar (que o fez ser tão discreto e secreto até em relação ao seu mal), o riso, o sorriso, os gestos - que o filho refaz numa semelhança assombrosa, ligeiramente perturbadora -, até a dicção trapalhona, a alegria e a tristeza, o cuidado com os outros, a preocupação com todos, e o amor pela escola, pela sua escola, como uma sua casa, vão perdurar, vão encher a escola, vão estar em cada recanto, em cada corredor, em cada lugar, no espaço inteiro: da escola e da memória de nós, os felizardos que o tivemos, que com ele convivemos!
Ouvi dizer que a eslav vai chamar-se com o seu nome.
Estou comovido. E, como professor da escola, sinto-me honrado.
Até já, Lucas.
Mas eu penso que não. Que não há, nisto, qualquer hipocrisia. Que, simplesmente, sob a lente crua - e cruel - da morte, tudo se transforma e adquire novas proporções; e a existência humana, subitamente revelada na sua tremenda fragilidade, não possa aguentar nada mais para além daquilo que realmente vale a pena: para quê preocuparmo-nos com as ninharias e as insignificâncias, se o tempo é pouco e, no pouco tempo que nos é dado, há coisas tão belas, tão boas - essenciais?
Na morte de Lucas, o que fica na memória de milhares de pessoas é demasiado grande. Já não há espaço para pormenores. E mesmo as zangas, se as houve, ou as ofensas, se as queremos recordar, tornam-se momentos humanos, mais ou menos dolorosos, que serviram para fortalecer laços e dar um rumo singular à relação. Digo-o porque sei que, no seu posto de Presidente, ao longo de tantos anos, com a «insegura teimosia» e aquela necessidade absoluta de consensos - a que se refere a minha colega Elisa Costa Pinto, num dos textos mais bonitos que eu já li sobre a saudade perante a morte de um amigo... -, Lucas terá cutucado onças, exasperado amigos da onça, discutido, com ou sem razão, e voltado bruscamente as costas. Mas que interessa?
Em Lucas, precisamente, a amizade, a generosidade, a solidariedade, o medo de incomodar (que o fez ser tão discreto e secreto até em relação ao seu mal), o riso, o sorriso, os gestos - que o filho refaz numa semelhança assombrosa, ligeiramente perturbadora -, até a dicção trapalhona, a alegria e a tristeza, o cuidado com os outros, a preocupação com todos, e o amor pela escola, pela sua escola, como uma sua casa, vão perdurar, vão encher a escola, vão estar em cada recanto, em cada corredor, em cada lugar, no espaço inteiro: da escola e da memória de nós, os felizardos que o tivemos, que com ele convivemos!
Ouvi dizer que a eslav vai chamar-se com o seu nome.
Estou comovido. E, como professor da escola, sinto-me honrado.
Até já, Lucas.
quinta-feira, novembro 15, 2007
DICAS LITERÁRIAS (SEM PRETENSÕES)
Disse-me, um dia, o Juiz. [Mas quem é o «Juiz», perguntar-se-ão os meus raros leitores]:
«Considero de uma enorme arrogância oferecer-se livros. A mim, não me ofereçam livros!»
Suponho que, para o Juiz, não será certamente arrogância menor aconselhar-se livros.
Mas porque uma amiga e leitora assídua mo pediu, porque não existe qualquer hipótese de que o Juiz esteja entre os leitores deste blogue, porque tenho feito algumas descobertas que gostaria de partilhar, atrevo-me a este gesto pretensioso, embora, na verdade, sem a mínima pretensão.
Duas descobertas que tinha porventura a obrigação de haver feito há muitos séculos, mas que acabei de fazer, são Flannery O'Connor e Dino Buzzati.
Não há que misturá-los. Tudo os separa: o tempo, o país, o género, as referências, as preocupações. Mas se algo os une - o talento -, esse é suficientemente forte para que me refira simultaneamente a ambos.
Há outro factor. Nos dois, comecei - por mero acaso - pelos contos. Os de O'Connor, reunidos no magnífico «Um Bom Homem é Difícil de Encontrar», primam por um estilo delicioso, poético, encantatório na descrição de vidas numa América sulista e rural, onde, a cada passo, surgem os negros, os brancos pobres, as pequeníssimas proprietárias, o vendedor de bíblias, os garotos malandros, que ninguém aceita nem quer - nem mesmo os bons cristãos...! O confronto, e é sempre de de confrontos que se trata, é escalpelizado de uma forma inesperada e, sobretudo, com constantes mudanças de ângulo: ora vemos as coisas do ponto de vista desta personagem, ora de outra; todos têm razão, nenhuma tem razão - todas são compreensíveis nas sua mesquinhez ou crueldade, todas são justificáveis na sua maldade. Mesmo o mais terrível dos assassinos, que mata friamente, aparentemente sem razão.
Buzzati, por outro lado, é autor dos contos reunidos em «Pânico no Scala», onde uma dimensão de estranheza, roçando o surrealismo, está sempre presente, à espreita, abrindo insuspeitadas possibilidades em cada conto, fazendo-nos sorrir amargamente. Reencontro esta mesma atmosfera quase fantástica, sem, no entanto, se perder um esteio permanentemente realista, no seu romance que, entretanto, já comecei a ler, «O Deserto dos Tártaros»...
Para quem pensa que os «clássicos» são, essencialmente, aquelas obras de que nunca se tem a coragem de dizer: «Estou a lê-la», mas, sempre: «Estou a relê-la», é tempo de «reler», rapidamente, Gogol. Na verdade, estou a ler pela primeira vez (confesso) o seu «Contos de São Petersburgo». (Mas que tendência para os contos, observo agora). Que, aliás - para dizer realmente toda a verdade -, comprei, antes de mais, porque se tratava de uma edição de bolso, que me custou menos de sete euros. Posto isto, todos os contos são de facto maravilhosos, mas eu começaria (e comecei) por «O Nariz», verdadeira obra-prima de humor macabro, tortuoso, retorcido que, ao mesmo tempo, nos dá uma riquíssima imagem da Rússia do Século XIX e, mais concretamente, de São Petersburgo. Também o primeiro conto - «Avenida Névski» - é de um virtuosismo estilístico delirante: principia-se por nos descrever a avenida, com as suas lojas e as suas populações habituais, consoante as horas, dispersando-se cinematograficamente até ao momento em que segue uma personagem e o desenvolvimento da sua história...
«Considero de uma enorme arrogância oferecer-se livros. A mim, não me ofereçam livros!»
Suponho que, para o Juiz, não será certamente arrogância menor aconselhar-se livros.
Mas porque uma amiga e leitora assídua mo pediu, porque não existe qualquer hipótese de que o Juiz esteja entre os leitores deste blogue, porque tenho feito algumas descobertas que gostaria de partilhar, atrevo-me a este gesto pretensioso, embora, na verdade, sem a mínima pretensão.
Duas descobertas que tinha porventura a obrigação de haver feito há muitos séculos, mas que acabei de fazer, são Flannery O'Connor e Dino Buzzati.
Não há que misturá-los. Tudo os separa: o tempo, o país, o género, as referências, as preocupações. Mas se algo os une - o talento -, esse é suficientemente forte para que me refira simultaneamente a ambos.
Há outro factor. Nos dois, comecei - por mero acaso - pelos contos. Os de O'Connor, reunidos no magnífico «Um Bom Homem é Difícil de Encontrar», primam por um estilo delicioso, poético, encantatório na descrição de vidas numa América sulista e rural, onde, a cada passo, surgem os negros, os brancos pobres, as pequeníssimas proprietárias, o vendedor de bíblias, os garotos malandros, que ninguém aceita nem quer - nem mesmo os bons cristãos...! O confronto, e é sempre de de confrontos que se trata, é escalpelizado de uma forma inesperada e, sobretudo, com constantes mudanças de ângulo: ora vemos as coisas do ponto de vista desta personagem, ora de outra; todos têm razão, nenhuma tem razão - todas são compreensíveis nas sua mesquinhez ou crueldade, todas são justificáveis na sua maldade. Mesmo o mais terrível dos assassinos, que mata friamente, aparentemente sem razão.
Buzzati, por outro lado, é autor dos contos reunidos em «Pânico no Scala», onde uma dimensão de estranheza, roçando o surrealismo, está sempre presente, à espreita, abrindo insuspeitadas possibilidades em cada conto, fazendo-nos sorrir amargamente. Reencontro esta mesma atmosfera quase fantástica, sem, no entanto, se perder um esteio permanentemente realista, no seu romance que, entretanto, já comecei a ler, «O Deserto dos Tártaros»...
Para quem pensa que os «clássicos» são, essencialmente, aquelas obras de que nunca se tem a coragem de dizer: «Estou a lê-la», mas, sempre: «Estou a relê-la», é tempo de «reler», rapidamente, Gogol. Na verdade, estou a ler pela primeira vez (confesso) o seu «Contos de São Petersburgo». (Mas que tendência para os contos, observo agora). Que, aliás - para dizer realmente toda a verdade -, comprei, antes de mais, porque se tratava de uma edição de bolso, que me custou menos de sete euros. Posto isto, todos os contos são de facto maravilhosos, mas eu começaria (e comecei) por «O Nariz», verdadeira obra-prima de humor macabro, tortuoso, retorcido que, ao mesmo tempo, nos dá uma riquíssima imagem da Rússia do Século XIX e, mais concretamente, de São Petersburgo. Também o primeiro conto - «Avenida Névski» - é de um virtuosismo estilístico delirante: principia-se por nos descrever a avenida, com as suas lojas e as suas populações habituais, consoante as horas, dispersando-se cinematograficamente até ao momento em que segue uma personagem e o desenvolvimento da sua história...
sábado, novembro 10, 2007
UM DIA COM O «DENNIS THE MENACE» NO FEMININO
Oh, como odeio estes sábados em que a minha mulher trabalha, o meu filho se refugia na casa da avó, onde lhe crava revistas, bugigangas, pizzas e coca-cola para o almoço, e eu tenho de passar um dia que não tem com certeza menos do que vinte e seis horas, a sós com um adversário curiácio, um bandido que me persegue, um ser de outro planeta que me investiga minuciosamente: a minha filha de dois anos e poucos meses, que continua sem dizer uma única frase completa!
Esqueçam o duelo Sócrates/Santana.
O duelo mais tremendo dos últimos anos, é este, em que, aliás, não tenho qualquer hipótese: Papá/Daisy. Ela é o «desperado», eu sou o «desesperado»!
A sessão do almoço, sobretudo, é de antologia. Começamos bem. Eu cantarolo, enquanto lhe aqueço a sopinha, o pratinho com franguinho e massinha e, sim, nessa fase ainda acrescento um «inho» a todas as palavras. (Mais tarde, os palavrões que grito já não levarão qualquer «inho»!). A tipa observa, entre curiosa e maquiavélica, com os olhinhos castanhos a brilhar dos planos tortuosos que me esmagarão. Está encarrapitada numa cadeira elevadíssima, uma torre eiffel cheia de cintos de segurança. Sorrio-me. Coitadinha: «És tão linda!»
A primeira escaramuça, mal chega para a aquecer. Quer comer por sua mão. Sei o que isso vai significar. Oh, oh! Mas cedo imediatamente. «Leva lá a colherinha, toma lá o pratinho do ursinho».
Enfia uma colherada de sopa na boca. E zás. Acto contínuo, lança a colher ao chão. O meu sorriso é já amarelo. A voz com que a admoesto é ainda simpática, mas um ouvinte atento e perspicaz descobriria, sem dúvida, uma tremura nervosa que não augura nada de bom. Lavo a colher. Devolvo-a. Mais uma colherada. Zás. Lança novamente a colher ao chão. «Pára com isso, Margarida!» Baixo-me para apanhar a colher. Nem de propósito: é o tempo de que Margarida precisa para cuspir a sopitanga sem que eu possa intervir. Quando me aproximo, estendendo-lhe atrasada e ridiculamente a colher, percebo que fui ultrapassado: ei-la com o babete nojento, o queixo e o ombro cheios do que me parecera uma sopinha mas, agora, já não me parece senão uma pasta viscosa e alaranjada. Limpo-a. Com movimentos bruscos. Irritados. Margarida não quer mais. Eu insisto. «Uma pela avó!» - Enfia a cabeçorra entre os braços, para que eu tenha a certeza de que não há a mais pequena possibilidade de a manipular. Endireito-a à força. Pega no prato, atira-o ao chão. Berro asneiras. Os vizinhos fazem um silêncio absoluto. Margarida olha-me, com os olhos a exprimir, inequivocamente: «Boa! Estou a gostar. Qual vai ser a próxima diversão, tens mais ideias?» (Como ela, mesmo sem palavras, fala tão clara e sofisticadamente com os olhos).
Passa-me pela cabeça que toda esta agitação se deva ao cansaço da menina. Pego nela. Levo-a para a sua caminha. Vou acalmando, enquanto subo a escada. Já me imagino a ver televisão, o som muito baixo para não a acordar, os pés, em peúgas, fatigada mas confortavelmente estendidos sobre uma cadeira, cadernos do Expresso espalhados pelo chão...!
Margarida não dorme. Cansada?! Isso sim! Deito-me numa cama ao lado, esperando que perceba o que tem de fazer. Nada. Bate com os pés no gradeamento da sua caminha. Puxa pelo cordel que põe um urso a tocar uma musicata enervante. Ergue-se, olhando para mim no escuro, o branco dos olhos iluminando o quarto, as mãos apoiadas às grades. Choraminga. Decido não lhe ligar. Perigo! Margarida tenta trepar, sozinha, pelo gradeamento da cama, está já com uma das pernas quase inteiramente do outro lado. Precipito-me.
Em desespero de causa, tomo decisões: Vamos passear! Vamos à Bulhosa. Tomo um café, ofereço-me uma prenda que me anime, o livro que a minha amiga Lara Croft me recomendou. Caramba, preciso desta compensação. Recomeço a sentir-me feliz. Que poderá a miuda fazer, destruir a livraria? Eheheh! Estou eufórico. (Não é normal. Consultar o psiquiatra?!)
Coloco-a na cadeirinha do carro. Amarro-a à vida. Arrancamos.
Margarida adormece dois quarteirões depois.
Regresso a casa. Bolas!
Esqueçam o duelo Sócrates/Santana.
O duelo mais tremendo dos últimos anos, é este, em que, aliás, não tenho qualquer hipótese: Papá/Daisy. Ela é o «desperado», eu sou o «desesperado»!
A sessão do almoço, sobretudo, é de antologia. Começamos bem. Eu cantarolo, enquanto lhe aqueço a sopinha, o pratinho com franguinho e massinha e, sim, nessa fase ainda acrescento um «inho» a todas as palavras. (Mais tarde, os palavrões que grito já não levarão qualquer «inho»!). A tipa observa, entre curiosa e maquiavélica, com os olhinhos castanhos a brilhar dos planos tortuosos que me esmagarão. Está encarrapitada numa cadeira elevadíssima, uma torre eiffel cheia de cintos de segurança. Sorrio-me. Coitadinha: «És tão linda!»
A primeira escaramuça, mal chega para a aquecer. Quer comer por sua mão. Sei o que isso vai significar. Oh, oh! Mas cedo imediatamente. «Leva lá a colherinha, toma lá o pratinho do ursinho».
Enfia uma colherada de sopa na boca. E zás. Acto contínuo, lança a colher ao chão. O meu sorriso é já amarelo. A voz com que a admoesto é ainda simpática, mas um ouvinte atento e perspicaz descobriria, sem dúvida, uma tremura nervosa que não augura nada de bom. Lavo a colher. Devolvo-a. Mais uma colherada. Zás. Lança novamente a colher ao chão. «Pára com isso, Margarida!» Baixo-me para apanhar a colher. Nem de propósito: é o tempo de que Margarida precisa para cuspir a sopitanga sem que eu possa intervir. Quando me aproximo, estendendo-lhe atrasada e ridiculamente a colher, percebo que fui ultrapassado: ei-la com o babete nojento, o queixo e o ombro cheios do que me parecera uma sopinha mas, agora, já não me parece senão uma pasta viscosa e alaranjada. Limpo-a. Com movimentos bruscos. Irritados. Margarida não quer mais. Eu insisto. «Uma pela avó!» - Enfia a cabeçorra entre os braços, para que eu tenha a certeza de que não há a mais pequena possibilidade de a manipular. Endireito-a à força. Pega no prato, atira-o ao chão. Berro asneiras. Os vizinhos fazem um silêncio absoluto. Margarida olha-me, com os olhos a exprimir, inequivocamente: «Boa! Estou a gostar. Qual vai ser a próxima diversão, tens mais ideias?» (Como ela, mesmo sem palavras, fala tão clara e sofisticadamente com os olhos).
Passa-me pela cabeça que toda esta agitação se deva ao cansaço da menina. Pego nela. Levo-a para a sua caminha. Vou acalmando, enquanto subo a escada. Já me imagino a ver televisão, o som muito baixo para não a acordar, os pés, em peúgas, fatigada mas confortavelmente estendidos sobre uma cadeira, cadernos do Expresso espalhados pelo chão...!
Margarida não dorme. Cansada?! Isso sim! Deito-me numa cama ao lado, esperando que perceba o que tem de fazer. Nada. Bate com os pés no gradeamento da sua caminha. Puxa pelo cordel que põe um urso a tocar uma musicata enervante. Ergue-se, olhando para mim no escuro, o branco dos olhos iluminando o quarto, as mãos apoiadas às grades. Choraminga. Decido não lhe ligar. Perigo! Margarida tenta trepar, sozinha, pelo gradeamento da cama, está já com uma das pernas quase inteiramente do outro lado. Precipito-me.
Em desespero de causa, tomo decisões: Vamos passear! Vamos à Bulhosa. Tomo um café, ofereço-me uma prenda que me anime, o livro que a minha amiga Lara Croft me recomendou. Caramba, preciso desta compensação. Recomeço a sentir-me feliz. Que poderá a miuda fazer, destruir a livraria? Eheheh! Estou eufórico. (Não é normal. Consultar o psiquiatra?!)
Coloco-a na cadeirinha do carro. Amarro-a à vida. Arrancamos.
Margarida adormece dois quarteirões depois.
Regresso a casa. Bolas!
sexta-feira, novembro 09, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - VI
Saiu do apartamento, preocupada e com alguma vergonha; desceu pela escada; espreitou, no átrio, antes de se aventurar à rua. Correu, por fim, olhando em todas as direcções, meio perdida, seguindo um mapa diferente do habitual, redesenhado em função de possíveis e súbitos esconderijos por onde pudesse desaparecer rapidamente, se necessário.
Contudo, nenhuma das situações previstas e temidas por Hermengarda viria a ocorrer. Dona Luizita e a Vizinha Maria nunca a confrontaram, nunca sequer se referiram àquele seu quase-encontro por paragens tão longínquas. Porquê? Porque esperavam vê-la regressar ao local do crime, aguardando o momento de a apanharem em flagrante (como julgou durante muito tempo, à medida que os dias passavam e ninguém lhe dizia fosse o que fosse)? Ou simplesmente porque, após confereciarem uma com a outra, teriam concluído que fora tudo um erro de Maria, uma, como se diz?, alucinação, pois não poderia realmente tratar-se de Hermangarda (como, mais tarde, aliviada, principiou a acreditar)?
Também nunca soube o que faziam as duas naquele bairro. Nunca o soube.
Tudo retomava a pavorosa forma da normalidade: a sogra entre medicamentos e cafés que enchia de açucar e mexia com uma colherinha de prata, trling, trling, trling, um ar de beatitude no rosto amarelado; Maria enfiando o nariz aguçado por todas as frinchas - «Boa tarde! Olááá! Posso entrar? Estão a comer? Não incomodo, não?».
Pior que tudo: Hermengarda, seu nome, voltou a colar-se-lhe definitivamente à pele, aos ossos, ao corpo, à alma, à vida.
Durante muito, mas muito tempo, não foi capaz de voltar ao apartamento.
Um dia, voltou. Havia pequenas mudanças na rua, no bairro, que a incomodaram. Coisas indefiníveis.
Chegou a subir - mas desceu imediatamente, claro, quando viu, à porta, um senhor de juba grisalha e uns óculos de aros muito finos. O pintor!
Não reencontrou a solidão.
«Tens sempre de acabar tão mal? Que melancolia!», sopram-me sobre o ombro, acompanhando este fim.
De vez em quando, recorda-se da sua amante. Recorda-se que, por pouco tempo, poucas vezes, a solidão foi sua. A saudade dói. Mas é diferente do que seria se não a tivesse tido nunca.
Mais: quando recorda os seus bons momentos, a sua solidão, a sua amante, dá-lhe, agora, um rosto. Uns olhos curiosos, vagamente trocistas. Um ar sábio, de alguém que tivesse visto e compreendido um segredo.
Sonha com ela, até.
É um amor perdido. Platónico.
É muito pouco. É bom.
FIM
Contudo, nenhuma das situações previstas e temidas por Hermengarda viria a ocorrer. Dona Luizita e a Vizinha Maria nunca a confrontaram, nunca sequer se referiram àquele seu quase-encontro por paragens tão longínquas. Porquê? Porque esperavam vê-la regressar ao local do crime, aguardando o momento de a apanharem em flagrante (como julgou durante muito tempo, à medida que os dias passavam e ninguém lhe dizia fosse o que fosse)? Ou simplesmente porque, após confereciarem uma com a outra, teriam concluído que fora tudo um erro de Maria, uma, como se diz?, alucinação, pois não poderia realmente tratar-se de Hermangarda (como, mais tarde, aliviada, principiou a acreditar)?
Também nunca soube o que faziam as duas naquele bairro. Nunca o soube.
Tudo retomava a pavorosa forma da normalidade: a sogra entre medicamentos e cafés que enchia de açucar e mexia com uma colherinha de prata, trling, trling, trling, um ar de beatitude no rosto amarelado; Maria enfiando o nariz aguçado por todas as frinchas - «Boa tarde! Olááá! Posso entrar? Estão a comer? Não incomodo, não?».
Pior que tudo: Hermengarda, seu nome, voltou a colar-se-lhe definitivamente à pele, aos ossos, ao corpo, à alma, à vida.
Durante muito, mas muito tempo, não foi capaz de voltar ao apartamento.
Um dia, voltou. Havia pequenas mudanças na rua, no bairro, que a incomodaram. Coisas indefiníveis.
Chegou a subir - mas desceu imediatamente, claro, quando viu, à porta, um senhor de juba grisalha e uns óculos de aros muito finos. O pintor!
Não reencontrou a solidão.
«Tens sempre de acabar tão mal? Que melancolia!», sopram-me sobre o ombro, acompanhando este fim.
De vez em quando, recorda-se da sua amante. Recorda-se que, por pouco tempo, poucas vezes, a solidão foi sua. A saudade dói. Mas é diferente do que seria se não a tivesse tido nunca.
Mais: quando recorda os seus bons momentos, a sua solidão, a sua amante, dá-lhe, agora, um rosto. Uns olhos curiosos, vagamente trocistas. Um ar sábio, de alguém que tivesse visto e compreendido um segredo.
Sonha com ela, até.
É um amor perdido. Platónico.
É muito pouco. É bom.
FIM
quinta-feira, novembro 08, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - V
Teve de se segurar, numa vertigem, numa náusea, num pavor, numa aflição - sensações e sentimentos inomináveis, por muito que eu multiplique palavras em busca da mais exacta.
Naquele pouco tempo, não teria sido possível, a Maria, telefonar - digamos - para Dona Luizita, prevenindo-a de que acabara de ver a sua nora, de modo que, logo a seguir, a senhora apanhasse um transporte para se materializar quase imediatamente ali. Não: a explicação tinha de ser outra. Talvez viessem juntas, mas onde iam? Ao médico? Que raio de coincidência! A não ser... a não ser... a não ser... que a seguissem há mais tempo...? Que as suas ausências - breves e espaçadas - as pusessem de sobreaviso? Pensariam, então, mas como pensar diferentemente numa situação tão suspeita?, que Hermengarda tinha um amante. O que era indigno, insultuoso. Não tinha um amante: tinha «uma» amante. Ou uma «amante».
Olhou. Já lá não estavam. Nem uma. Nem outra. Uma visão? Uma, como se chama, como se diz, ai, uma alucinação?!
O seu olhar percorreu as ruas, a seguir foi-se elevando, numa pesquisa confusa. Embateu no prédio em frente. Embateu na janela em frente da janela onde ela se postara. E, aí, descobriu um rosto que a seguia, de uma mulher muito jovem, que sorria, mais para si própria do que para Hermengarda, talvez com curiosidade, mas, sem dúvida, também com uma chama de troça no olhar. Como se tivesse visto tudo, percebido tudo: a sua fuga, o seu medo, como um rato cercado. Como uma presa acossada. E presa.
(CONTINUA)
Naquele pouco tempo, não teria sido possível, a Maria, telefonar - digamos - para Dona Luizita, prevenindo-a de que acabara de ver a sua nora, de modo que, logo a seguir, a senhora apanhasse um transporte para se materializar quase imediatamente ali. Não: a explicação tinha de ser outra. Talvez viessem juntas, mas onde iam? Ao médico? Que raio de coincidência! A não ser... a não ser... a não ser... que a seguissem há mais tempo...? Que as suas ausências - breves e espaçadas - as pusessem de sobreaviso? Pensariam, então, mas como pensar diferentemente numa situação tão suspeita?, que Hermengarda tinha um amante. O que era indigno, insultuoso. Não tinha um amante: tinha «uma» amante. Ou uma «amante».
Olhou. Já lá não estavam. Nem uma. Nem outra. Uma visão? Uma, como se chama, como se diz, ai, uma alucinação?!
O seu olhar percorreu as ruas, a seguir foi-se elevando, numa pesquisa confusa. Embateu no prédio em frente. Embateu na janela em frente da janela onde ela se postara. E, aí, descobriu um rosto que a seguia, de uma mulher muito jovem, que sorria, mais para si própria do que para Hermengarda, talvez com curiosidade, mas, sem dúvida, também com uma chama de troça no olhar. Como se tivesse visto tudo, percebido tudo: a sua fuga, o seu medo, como um rato cercado. Como uma presa acossada. E presa.
(CONTINUA)
quarta-feira, novembro 07, 2007
HERMANGARDA E SUA AMANTE - IV
Não estava ninguém lá em baixo. Nenhuma pessoa conhecida. Maria nenhuma.
Hermangarda sabia, todavia, que se não enganara. Inexplicavelmente, num sítio onde nenhuma razão conhecida colocaria a vizinha Maria, o certo é que a vizinha Maria aparecera, e a vira! E a reconhecera...
Claro que Maria não podia estar absolutamente segura de a ter reconhecido. Ou podia? Se ela lhe falasse mais tarde no assunto, o que Hermengarda tinha de fazer era mostrar um espanto convincente:
«Eu?! No bairro tal? Não! Podia lá ser. Eu, a que propósito...?!» (A vizinha Maria não associaria o bairro ao irmão de Hermengarda. Ninguém, nem mesmo a sua sogra, soubera alguma vez onde vivera ele, com quem nunca se tinha dado.)
Sentia-se mal, uma opressão no peito, uma turvação num prazer tão claro, talvez no único autêntico prazer na sua vida. Não conseguiu relaxar. Dava voltas, sentava-se, levantava-se, mas não era capaz de deixar de ser Hermengarda. Tinha, de resto, o grito de Maria ecoando-lhe ainda nos ouvidos. «Hermengaaarda!»
Não quis mais. (E regressaria? Talvez não já para a semana, mas dali a duas ou três semanas...? Poderia voltar a ser ali feliz...? E, entretanto, o legítimo proprietário não acabaria por aparecer...?) Não suportava nem mais um minuto daquela angústia. Ao fim de dez minutos, se tanto, preparou-se para se ir embora. Pegou na mala e espreitou pela janela, oculta, discreta, quieta.
E viu-a. Ou melhor, viu-as. Maria e sua sogra, lá em baixo. Maria apontava o dedo numa vaga direcção.
(CONTINUA)
Hermangarda sabia, todavia, que se não enganara. Inexplicavelmente, num sítio onde nenhuma razão conhecida colocaria a vizinha Maria, o certo é que a vizinha Maria aparecera, e a vira! E a reconhecera...
Claro que Maria não podia estar absolutamente segura de a ter reconhecido. Ou podia? Se ela lhe falasse mais tarde no assunto, o que Hermengarda tinha de fazer era mostrar um espanto convincente:
«Eu?! No bairro tal? Não! Podia lá ser. Eu, a que propósito...?!» (A vizinha Maria não associaria o bairro ao irmão de Hermengarda. Ninguém, nem mesmo a sua sogra, soubera alguma vez onde vivera ele, com quem nunca se tinha dado.)
Sentia-se mal, uma opressão no peito, uma turvação num prazer tão claro, talvez no único autêntico prazer na sua vida. Não conseguiu relaxar. Dava voltas, sentava-se, levantava-se, mas não era capaz de deixar de ser Hermengarda. Tinha, de resto, o grito de Maria ecoando-lhe ainda nos ouvidos. «Hermengaaarda!»
Não quis mais. (E regressaria? Talvez não já para a semana, mas dali a duas ou três semanas...? Poderia voltar a ser ali feliz...? E, entretanto, o legítimo proprietário não acabaria por aparecer...?) Não suportava nem mais um minuto daquela angústia. Ao fim de dez minutos, se tanto, preparou-se para se ir embora. Pegou na mala e espreitou pela janela, oculta, discreta, quieta.
E viu-a. Ou melhor, viu-as. Maria e sua sogra, lá em baixo. Maria apontava o dedo numa vaga direcção.
(CONTINUA)
domingo, novembro 04, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - III
Tornava-se um vício.
Nunca ia mais do que uma vez por semana, encurtando o tempo destinado às compras.
E nunca ficava mais do que uma hora; chegou a levar despertador que a arrancasse ao seu torpor, à sua paz, ao seu namoro consigo, ou melhor, com a sua almejada solidão.
Até ao dia em que, prestes a entrar para o prédio, ouviu chamar por si. Pelo horroroso «Hermengarda!». Não enfrentou o chamamento, mas olhou de soslaio, vagamente, incertamente, a fingir que não, escondendo-se um pouco entre umas colunas. E topou Maria, uma vizinha sua, que a perdera um pouco de vista mas a procurava, certa de que se não enganara. Que raio faria ali Maria? O seu médico seria para aqueles lados? Doente, sempre muito doente, com a respiração fraca, os pulmões enfermiços, o olhar de cão abandonado, eterna pedinte de umas migalhas de afeição, colando-se às pessoas, aparecendo-lhe em casa, como por acaso, sempre que lhe cheirava a algum jantar de amigos, a alguma festita de anos, Maria era uma pessoa de quem a sua sogra gostava muito, e que convidava amiúde, mas para quem Hermengarda não tinha paciência...
Aproveitou o ar desnorteado da mulher, aquele minuto em que ela a perdera de vista e entrou no prédio. Subiu pela escada, como de costume. (Mais discreta, menos passível de encontros indesejáveis do que o elevador...). Abriu a porta do seu reduto, do seu minúsculo antro, acercou-se da janela, meio escondida pelo cortinado velho, com o olhar em busca de Maria, lá em baixo...
(CONTINUA)
Nunca ia mais do que uma vez por semana, encurtando o tempo destinado às compras.
E nunca ficava mais do que uma hora; chegou a levar despertador que a arrancasse ao seu torpor, à sua paz, ao seu namoro consigo, ou melhor, com a sua almejada solidão.
Até ao dia em que, prestes a entrar para o prédio, ouviu chamar por si. Pelo horroroso «Hermengarda!». Não enfrentou o chamamento, mas olhou de soslaio, vagamente, incertamente, a fingir que não, escondendo-se um pouco entre umas colunas. E topou Maria, uma vizinha sua, que a perdera um pouco de vista mas a procurava, certa de que se não enganara. Que raio faria ali Maria? O seu médico seria para aqueles lados? Doente, sempre muito doente, com a respiração fraca, os pulmões enfermiços, o olhar de cão abandonado, eterna pedinte de umas migalhas de afeição, colando-se às pessoas, aparecendo-lhe em casa, como por acaso, sempre que lhe cheirava a algum jantar de amigos, a alguma festita de anos, Maria era uma pessoa de quem a sua sogra gostava muito, e que convidava amiúde, mas para quem Hermengarda não tinha paciência...
Aproveitou o ar desnorteado da mulher, aquele minuto em que ela a perdera de vista e entrou no prédio. Subiu pela escada, como de costume. (Mais discreta, menos passível de encontros indesejáveis do que o elevador...). Abriu a porta do seu reduto, do seu minúsculo antro, acercou-se da janela, meio escondida pelo cortinado velho, com o olhar em busca de Maria, lá em baixo...
(CONTINUA)
sábado, novembro 03, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE II
Ou talvez não, talvez não fosse assim uma ideia tão perversa. Simplesmente entrar, sentar-se e repousar. Mais nada. Uma meia hora sem ouvir Dona Luizita, um tempo esquecendo-se de que se chamava Hermengarda, namorando a sua preciosa e interdita solidão.
Mas não foi nesse dia. Estivera quase, mas não...
Nem no dia seguinte.
Mas no outro, as mãos tremiam-lhe como se perpetrasse o pior dos crimes, ao tentar penetrar com a chave na fechadura. E o coração batia-lhe descompassadamente. E teve, uma vez entrando, de ficar quase um minuto encostada à porta, respirando fundo, para se acalmar. E não se deixou ficar senão um quartito de hora, e sem prazer, sem qualquer prazer naquela espécie de encontro fortuito com nada nem ninguém.
Foi num outro dia, ainda, que se deixou estar uma hora. Uma hora! E se, ao princípio, existia naquele gesto qualquer coisa de uma violação, de uma transgressão que a magoava até aos ossos, como se, mais do que a criminosa, fosse a vítima, aos poucos foi-se abandonando, deixando de estar tão agudamente consciente do lado doentio e malévolo do seu acto, do lado proibido, para se deixar tombar - é a palavra - num esquecimento tépido, como se estivesse numa banheira cheia de água: já nem se chamava Hermengarda, já nem havia uma sogra, já nem ruído lá fora, já nem peso, já nem ser, já nem coisa nenhuma, já nada senão a solidão que se unia a ela, a completava, a transformava...
(CONTINUA)
Mas não foi nesse dia. Estivera quase, mas não...
Nem no dia seguinte.
Mas no outro, as mãos tremiam-lhe como se perpetrasse o pior dos crimes, ao tentar penetrar com a chave na fechadura. E o coração batia-lhe descompassadamente. E teve, uma vez entrando, de ficar quase um minuto encostada à porta, respirando fundo, para se acalmar. E não se deixou ficar senão um quartito de hora, e sem prazer, sem qualquer prazer naquela espécie de encontro fortuito com nada nem ninguém.
Foi num outro dia, ainda, que se deixou estar uma hora. Uma hora! E se, ao princípio, existia naquele gesto qualquer coisa de uma violação, de uma transgressão que a magoava até aos ossos, como se, mais do que a criminosa, fosse a vítima, aos poucos foi-se abandonando, deixando de estar tão agudamente consciente do lado doentio e malévolo do seu acto, do lado proibido, para se deixar tombar - é a palavra - num esquecimento tépido, como se estivesse numa banheira cheia de água: já nem se chamava Hermengarda, já nem havia uma sogra, já nem ruído lá fora, já nem peso, já nem ser, já nem coisa nenhuma, já nada senão a solidão que se unia a ela, a completava, a transformava...
(CONTINUA)
quinta-feira, novembro 01, 2007
HERMENGARDA E SUA AMANTE - I
Dois erros haviam ocupado, por inteiro, a vida de Hermengarda.
Um, era o seu nome. Não é possível fugir-se a um nome de que se não gosta. Está em todo o lado, suavizado pelas vozes dos que amamos (e não imaginam o mal que nos fazem) ou atirado contra os nossos ouvidos pelas vozes dos outros, ou nas cartas, nos documentos oficiais, nos cheques que assinamos. Mesmo dormindo, mesmo nos sonhos, uma Hermengarda não deixa de ser uma Hermengarda.
O outro, era a sua sogra. Dona Luizita não era idosa - não teria mais do que sessenta e poucos anos -, mas comportava-se como tal, sempre muito queixosa, muito rodeada de medicamentos, muito sem fazer coisa alguma e, sobretudo, muito esperando, e exigindo, que Hermengarda lhe fizesse tudo. Viviam juntos, como um país com excesso de população, sua sogra, seu marido, seu horroroso nome e ela.
Hermengarda tinha um amante. Ou, melhor, «uma» amante. Mas não nos precipitemos. A sua amante era a solidão. E era uma amante, aliás, com quem pouco se cruzava. Em casa, sobretudo, a solidão não era visita frequente, porque Dona Luizita nunca dali despegava, enchendo-se de cafés.
«Isso não lhe faz mal, Dona Luizita?», perguntava-lhe.
Para o que existiam duas respostas possíveis. De resto, contrárias, mas ambas típicas da senhora, ora uma,ora outra, consoante a sua disposição:
a) «Faz. Mas é o meu único consolo, filha. É o prazer que tenho nesta vida...»
b) «Não faz, faz agora! Este café feito em casa não é como as bicas lá fora. Isto não tem nada, é uma água preta...»
Mas um dia, por um bizarro acaso do destino que é a fantasia destravada do autor desta história, calhou a Hermengarda, passando pelo estúdio onde vivera o seu irmão até emigrar, havia cerca de um mês, perceber que esse estúdio, um mero T-zero num bairro-dormitório, ainda não fora ocupado pelo senhor pintor que o comprara. Não teve dúvidas: a desocupação notava-se do exterior; tudo nas janelas, na varanda, cheirava a desabitação; mas chegou a perguntar: «Já mora alguém no 1-L, e tal» e, no cafezito da Dona Tina, entre galões e uma torrada, soube tudo, que o senhor Alfredo começara a transportar as suas telas, os seus pincéis, as tintas, a tralha, mas só dali a um mês faria a mudança definitiva. Pois já captaram, não captaram? Hermengarda trazia, no seu porta-chaves, a chave do apartamentozito, que, na altura em que o seu irmão lá morava, ela mesma se encarregava de limpar uma, duas vezes por semana. De modo que não levou mais do que um instante a tomar conta da sua mente, a mais absurda, perversa, tremenda, imoral das ideias...
(CONTINUA)
Um, era o seu nome. Não é possível fugir-se a um nome de que se não gosta. Está em todo o lado, suavizado pelas vozes dos que amamos (e não imaginam o mal que nos fazem) ou atirado contra os nossos ouvidos pelas vozes dos outros, ou nas cartas, nos documentos oficiais, nos cheques que assinamos. Mesmo dormindo, mesmo nos sonhos, uma Hermengarda não deixa de ser uma Hermengarda.
O outro, era a sua sogra. Dona Luizita não era idosa - não teria mais do que sessenta e poucos anos -, mas comportava-se como tal, sempre muito queixosa, muito rodeada de medicamentos, muito sem fazer coisa alguma e, sobretudo, muito esperando, e exigindo, que Hermengarda lhe fizesse tudo. Viviam juntos, como um país com excesso de população, sua sogra, seu marido, seu horroroso nome e ela.
Hermengarda tinha um amante. Ou, melhor, «uma» amante. Mas não nos precipitemos. A sua amante era a solidão. E era uma amante, aliás, com quem pouco se cruzava. Em casa, sobretudo, a solidão não era visita frequente, porque Dona Luizita nunca dali despegava, enchendo-se de cafés.
«Isso não lhe faz mal, Dona Luizita?», perguntava-lhe.
Para o que existiam duas respostas possíveis. De resto, contrárias, mas ambas típicas da senhora, ora uma,ora outra, consoante a sua disposição:
a) «Faz. Mas é o meu único consolo, filha. É o prazer que tenho nesta vida...»
b) «Não faz, faz agora! Este café feito em casa não é como as bicas lá fora. Isto não tem nada, é uma água preta...»
Mas um dia, por um bizarro acaso do destino que é a fantasia destravada do autor desta história, calhou a Hermengarda, passando pelo estúdio onde vivera o seu irmão até emigrar, havia cerca de um mês, perceber que esse estúdio, um mero T-zero num bairro-dormitório, ainda não fora ocupado pelo senhor pintor que o comprara. Não teve dúvidas: a desocupação notava-se do exterior; tudo nas janelas, na varanda, cheirava a desabitação; mas chegou a perguntar: «Já mora alguém no 1-L, e tal» e, no cafezito da Dona Tina, entre galões e uma torrada, soube tudo, que o senhor Alfredo começara a transportar as suas telas, os seus pincéis, as tintas, a tralha, mas só dali a um mês faria a mudança definitiva. Pois já captaram, não captaram? Hermengarda trazia, no seu porta-chaves, a chave do apartamentozito, que, na altura em que o seu irmão lá morava, ela mesma se encarregava de limpar uma, duas vezes por semana. De modo que não levou mais do que um instante a tomar conta da sua mente, a mais absurda, perversa, tremenda, imoral das ideias...
(CONTINUA)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
