sábado, julho 12, 2008

GUTERRES E OS OUTROS

Devo uma explicação. Tenho muito prazer.
Num anterior «post» associava, entre parêntesis e sem mais comentários, Ana Drago a Guterres, como exemplo do que é excepcional, pela positiva, no quadro da mediocridade em que se afunda a paisagem partidária portuguesa.
Se, em relação a Ana Drago, não me chegaram ecos de espanto, já em relação a Guterres tive inúmeros sinais da mais profunda estupefacção.

Guterres cometeu, de facto, um tenebroso erro político. Procurou ser um Gentleman, no mais nobre sentido da palavra, num país da treta. Os países da treta não lidam bem com Gentlemen. Não os entendem e, portanto, acabam por não os merecer. E, como dizia Talleyrand: um erro, em política, pode ser pior do que um crime.

Guterres é um homem cultivadíssimo. É engenheiro, o que só lhe fica evidentemente bem, sem que, no seu caso, isso signifique o desenvolvimento de um único hemisfério e o total bloqueio de outro. Ou seja: em Guterres os dois hemisférios cerebrais funcionam em pleno, revelando-nos um homem que sabe de números E de poesia, planeia pontes MAS ouve ópera, raciocina científica MAS TAMBÉM artisticamente, fala línguas e argumenta com uma invulgar agilidade. Basta fazermos a comparação com praticamente qualquer outro líder partidário português para termos a noção de que estamos perante pessoas que jogam em campeonatos diferentes. Pois bem: o que lhe valeu o seu engenho argumentativo foi, entre os portugueses, a imagem de verborreico e o nome de «picareta falante», que lhe inventou o rei da maledicência, do ataque gratuito e dos copos, que é Vasco Pulido Valente!

O grande desígnio de Guterres, se bem se lembram, era o diálogo. Entre todos os sectores e em todas as áreas, esforçou-se denodadamente por incentivar o diálogo. Não é estranho que essa tentativa, porventura ingénua, tenha tão facilmente passado por fraqueza, por falta de convicção ou de firmeza? Não sei se o diálogo terá sido sempre bem conduzido por ele. Se não terá errado. Pôr portugueses a dialogar com seriedade é obra. Mas daí à firmeza a raiar a intolerância com que o seu Delfim de então, José Sócrates, acabou por conquistar o Poder e governar Portugal vai uma diferença que nos permite pôr os dois lado a lado... e chorar de saudades!

Finalmente, e isto é o pior, Guterres ficará na História como o exemplo extremo de cobardia, como se tivesse abandonado o lugar que principiava a tornar-se pantanoso, no momento em que mais se esperaria que tivesse coragem de cumprir a sua missão até ao fim. E considero isso, essa imagem de indignidade, a maior das injustiças que o povo comete em face de um gesto, invulgaríssimo, é certo, entre os políticos portugueses, de verdadeiro desapego pelo Poder. Guetteres deixou o governo para outros, porque «tirou as devidas ilações» do voto dos portugueses, quando o PS perdeu a maioria das Câmaras do país.
Aproveitou a porta aberta? Pois sim. Estava cansado de governar? Talvez. Quem não estaria de um país destes?

VAI TRABALHAR, Ó!

Nuno Lopes é um jovem inteligente e talentoso.
Não é um cómico, no sentido redutor que a palavra tem. Sendo que, em si mesmo, não há mal nenhum em ser-se um cómico: Ricardo Araújo Pereira é-o assumidamente e repete à exaustão que não quer que nele vejam outra coisa; fez, todavia, da comédia em Portugal (e não sejamos injustos: fê-lo na peugada de um Raul Solnado e de um Herman José) uma Arte maior, provocadora, crítica, pensante. Mas RAP é RAP: um caso excepcional no panorama português.

Nuno Lopes não quer ser, ao contrário, um cómico: trata-se de um actor pleno e completo. Na verdade, de um excelente actor e, na minha opinião, um magnífico «gestor» (derrapamos sempre nestes lugares comuns, mas que fazer?) da sua carreira.
Fez telenovela no Brasil, onde outros portugueses, também convidados para outras tantas telenovelas, andaram a desgraçar a imagem de Portugal. Fez um papel discreto, de um jovem português apaixonado e, mesmo para quem não seja apreciador do género, os momentos em que ele surgia eram momentos brilhantes, que davam luz à novela. Valia bem a pena tirar os olhos do jornal ou do livro que estávamos lendo para nos fixarmos nessas suas aparições.

Nuno Lopes faz, sobretudo, teatro.
Nos momentos em que envereda pelo registo humorístico, evita sabiamente tiros no pé, como o «Levanta-te e Ri» ou os «Malucos do Riso».
Ele era impagável no papel de primo de uma personagem representada por Maria Rueff, integrados no que seria um grupo de teatro de uma associação recreativa de um lugarejo; era impagável no programa da Maria, imitando com génio e um invulgar poder de observação o Marco do Big Brother.
A sua última personagem, nos Contemporâneos, que não tem nome e repete incessantemente «Vai mas é trabalhar, ó!» é igualmente impagável.

Pelo que tenho visto por aí, em comentários dispersos, este boneco é um incompreendido e um mal-amado: as pessoas, que às vezes confundem as coisas, sentem-se incomodadas com um indivíduo cheio de tiques e deficiências que, num sarcasmo cortante e delirante, diz mal dos anões ou das velhinhas.

Acontece que a situação cómica pode ter diversas leituras: na minha perspectiva, não se trata de ridicularizar anões ou velhinhas, mas de parodiar uma mentalidade mesquinha e cruel, pretensiosa e invejosa.
A personagem, aliás, é profundamente democrática na sua maledicência: ele, que, por seu lado, não trabalha, canalizando todo o seu tempo e energia para a crítica dos outros, tanto se sente enraivecido com os portugueses bem-sucedidos (Vanessa Fernandes, Pacman: «Vai mas é trabalhar, ó! O que tu queres é aparecer!») como com os deficientes e os miseráveis. E trata-se, neste último caso, de levar ao extremo esta ideia bem portuguesa de que os males dos outros também podem ser matéria de inveja, porque convidam a uma invejável piedade ou a demais benefícios. «Ai eu sou anãozinho, sou tão querido, não sou?, vejam lá, só os anões é que são queridos, os outros não são queridos...» ou «Sou uma velhinha, ai ai, sou uma velhinha, não tenho pensão, o marido morreu-me, os filhos não querem saber de mim - o que tu queres é que tenham pena de ti, vai mas é trabalhar ó».

E mais não digo, porque não vale a pena estragar com excesso de reflexão aquilo que vale pelo seu efeito quando visto.
No blogue da Janota encontram alguns filmezinhos imperdíveis.
No youtube têm uma longa série. São uma vintena ou uma trintena de sketches.

Não gostas, pois não? Claro que não. (Ai, eu sou muito politicamente correcto, sou muito certinho, não é?, não aprecio ver gozar com anõezinhos, as pessoas gostam todas muito de mim, não tenho graça nenhuma, chamo-me Boaventura Sousa Santos ou assim). Tu queres é aparecer, mas é. Se não tens graça devias ir trabalhar para a agência funerária «Agnus Dei», ou então ter a função de fazer «shiiiu» no cinema quando os espectadores parvos se põem a comentar alto ou a rir despropositadamente, sempre eras mais útil à sociedade. Vai mas é trabalhar, ó!

sexta-feira, julho 11, 2008

O QUE FAZ UMA POLÍTICA DE ENSINO-PARA-OS-POBREZINHOS

O senhor Paulo Rangel não me interessa menormente.
O seu discurso gongórico, retoricamente aplainado, ensaiado certamente muitas vezes ao espelho e «dito» (no sentido em que se fala de «dizer» poesia), na Assembleia da República, num falsete anasalado, revela, em geral, pouco interesse. Prestou-se bem aos apartes jocosos e aos sarcasmos das raposas velhas do PS. É bem feito. Que se entredevorem!

Refiro-me aqui ao discurso, «en passant», porque no meio de uma profusão de figuras de estilo, tinha o mérito de, quase por acaso, chamar a atenção para um pormenor frequentemente esquecido:
Pensa-se, dizia Paulo Rangel, que o «facilitismo» é a melhor forma de ajudar os alunos pobres, os meninos das classes mais desfavorecidas - e isso, concluía ele, é um erro crasso!

O «facilitismo» significa, a médio ou a longo prazo, retirar aos estudantes economicamente mais debilitados a única verdadeira oportunidade de se formarem com qualidade e de se tornarem, do ponto de vista cultural, pessoas de excelência: onde, e com quem, teriam oportunidade de aprender o melhor da melhor forma? De conviver com a Poesia e com a Arte, de preferir bom teatro e bom cinema? Onde mais - e com quem - aprenderiam a argumentar e a debater? De que outra maneira apurariam o gosto, conheceriam a delicadeza de não atender o telemóvel numa conferência, durante um filme ou numa sessão seja do que for? Que outras oportunidades teriam e terão, alguma vez, de ganhar bolsas de estudo que lhes permitam ser aceites nas melhores universidades do estrangeiro, em competição com os mais qualificados e promissores jovens do mundo inteiro? Onde e com quem aprenderão a não dizer «sêjamos», «vistes» ou «tem a haver com»...?

Basta olharmos para a qualidade média dos políticos portugueses para nos inteirarmos. Com poucas e honrosas excepções (ocorre-me Ana Drago e Guterres: e, depois, há uma espécie de neblina selectiva na minha memória que me não deixa ser capaz de associar mais ninguém a esse campeonato), da Esquerda à Direita, a «classe» política é um exemplo feroz do mal que o facilitismo escolar pode provocar.

Um Ministério da Educação a sério, bem preparado, de gente culta, veria isto. Mas o Ministério, coitado, é, ele próprio, um exemplo daquilo que o eduquês pode produzir; e tem, é verdade, preocupações mais urgentes: criar uma galeria com as fotografias de todos os ministros que passaram pela 5 de Outubro desde 1962.

domingo, julho 06, 2008

VAMOS A VER O QUE ISTO DÁ [III]

Havia pior do que aquelas. A rainha, que sentia as entranhas devoradas de inveja e ciúme pelo facto de ser eu, tão mais novo, o líder daquela delirante expedição, e fazia menção de nunca pronunciar o meu nome, chamando-me, quando precisava, do alto da sua realeza, com um mero estalar de dedos carregado de superioridade e desprezo.
A discussão de que vos falo só acalmou quando a rainha me estalou, uma vez mais, dois dedos e eu lhe voltei ostensivamente as costas.
O silêncio caiu com uma força quase esmagadora no interior da sala habituada ao ruído...
E no momento seguinte, pareciam todas mais calmas, mais leves, mais suaves, quase doces: era um paradoxo igualmente insuportável, o espectáculo de fêmeas tão feias emitindo aqueles arrulhos, aquelas vozes de veludo, como se lhes escorresse ternura das bocas preparadas para gritar e cuspir.
Soube depois, muito mais tarde, que a rainha passara o resto do dia a chorar. Não vi - estivera fechado no meu próprio cubículo privado a chorar: no meu caso, de raiva por não poder bater-lhes!
O Professor Karamba alertava-me, agora, para os problemas que se abatiam sucessivamente sobre a «nave ronceira», como a designavam os velozes Angelius.
- Acha que são elas? - perguntei. - Tentativas de vingança?
- Se não conscientemente, inconscientemente... mas...
A rainha estalava-me, entretanto, os dedos ossudos. Calámo-nos. Estalou com mais força. Espirrou um humilhante «pssssiu».
Pus-me de pé, enervado.
Aproximei-me dela:
- Oiça! Se... - principiei.
Não tive tempo de acrescentar uma única palavra. Porque a rainha falou, começando imediatamente a chorar:
- Os Glauss! Vão atacar-nos. Estão em todo o lado!

[CONTINUA]

domingo, junho 29, 2008

VAMOS A VER O QUE ISTO DÁ [II]

Lembrava-me bem do início da nossa imensa viagem, e daquela impressionante discussão com Antuneqa e o seu grupo, em que cheguei a perguntar-me se não se trataria de uma revolta para se apoderarem da nave.
Havia ordens claras de Sir Mäix. Eu falara com ele, vendo a sua imagem virtual mesmo diante de mim.
Ninguém gostava de Sir Mäix, e com razão, até com razões inúmeras mas, dessa vez, as suas ordens, algo com a simplicidade de:«Evitem as naves dos Glauss; eles estão em pé de guerra, andam a armar-se furiosamente e vocês têm um armamento muito reduzido e em péssimas condições...», pareciam de uma sensatez indiscutível. No resto, Mäix podia continuar a não ter razão, e eu a opor-me a ele na medida das minhas possibilidades. Podia continuar a ser um líder sem escrúpulos e odiado. Mas teria eu de o contestar, lá porque era Sir Mäix, se, um dia, me dissesse por exemplo: «A Antuneqa é muito feia!»? - E se eu concordasse, faria isso de mim um lambe-botas, um fiel de Sir Mäix???

Tive dificuldade em entender aquele levantamento do grupo de Antuneqa: todas fêmeas do mesmo planeta de onde os machos haviam sido extintos, todas feias - na minha perspectiva, claro, segundo valores e critérios terráqueos -, numas vozes estridentes e contundentes, que optavam pela intensidade em vez de argumentos...
Gyllia, talvez pior do que Antuneqa, berrava:
- Se eu vir uma nave Glauss, garanto que disparo. Desato a disparar, eu. Não me escondo, eu. Nunca me escondi, eu. De nada, de ninguém. Disparo nem que seja com um revólver de luz.
Tive de gritar mais alto, a minha voz possante e treinada quebrando o nevoeiro sonoro.
- Está a dizer, Gyllia, que vai desobedecer às ordens?
- Não... sim... eu... não é bem isso, mas eu... eu...
- Porque se assim for, diga-me já, que tomarei as devidas medidas!
- Não. Mas. Eu. Sim. Não, não, não, não. Mas quero deixar expresso o... o... o meu protesto. A ordem de Sir Mäix não faz sentido.
E redigia já um texto confuso, que riscava e retomava, numa folha já com diversos cortes e rasgões, muito feia, muito triste, muito como o beco sem saída por onde enveredara.

[CONTINUA]

sábado, junho 28, 2008

VAMOS A VER O QUE ISTO DÁ (I)

Na Via Láctea, entre «Cagnia» e «Ugnia», vemos seres que navegam solitariamente, com uma antena, se a têm, ou um tentáculo, ou o correspondente ao dedo polegar, indicando um certo sentido, na expectativa de uma boleia.
Nós raramente damos boleia a estas criaturas em órbita lenta, porque nunca sabemos com que contar. Alguns são assaltantes, há entre estes viajantes de ar inocente verdadeiros «serial killers» que se replicam rapidamente em centenas de militares, capazes de tomar, em poucos segundos, um veículo que os acolhesse.
Nesse dia, porém, aceitámos a bordo aquele viajante solitário: era o Professor Karamba, de Ugnia; não trazia malas, apenas uma mochila rudimentar. Um turbante brilhante cobria-lhe o crânio calvo, as orelhas ponteagudas e as pequenas antenas.
À noite, já refrescado, sentado comigo à mesa, disse-me, com a sua voz pausada, típica de Ugnia:
- Têm-vos acontecido constantes acidentes, não é verdade? Desastres, problemas vários, como se estivessem amaldiçoados...!
Ah, «como se estivéssemos amaldiçoados», como se nos houvessem rogado uma praga, era bem verdade: estas eram as palavras que, ainda há pouco tempo, ouvira da voz gaguejante e arquejante do imediato. Assenti.
- Percebi-o, logo que entrei. Detecto uma energia terrível; julgo que haja mesmo rotundas integalácticas em que a nave chega a perder velocidade, como se forças ocultas se apoderassem dela...
Eu estava boquiaberto. No ponto de Rana, por exemplo, a força parecia esavair-se-nos da nave, deixando-nos praticamente parados.
Professor prosseguiu:
- Só tenho uma coisa para lhe aconselhar. Faço-o gratuitamente, para lhe agradecer a boleia que acaba de me oferecer. Que preste muita atenção àquela criatura. Não sei dizer-lhe o que percebo nela, que mal, que intenso negrume, que luz invertida... mas há qualquer coisa de pouco limpo na sua aura. Preste-lhe muita atenção....
E, com a antena curtinha, como que cortada por uma lâmina, indicava Antuneqa, baixa, feia, corcunda, como todas as fêmeas de Yaúte. («Feia» do meu ponto de vista; em Yaúte, Antuneqa sempre fora muito apreciada...)
Olhei-a.
Antuneqa olhou-me.
Desviei os meus olhos, com um arrepio...

(CONTINUA)

quinta-feira, junho 26, 2008

O MEU EXTRA-TERRESTRE

Para que se perceba, realmente, que a animação segue dentro de momentos, quero advertir-vos que ando a pensar numa saga à maneira de J.R.R. Tolkien.
Na verdade, a saga está atrasada, porque tenho demorado demasiado tempo - exactamente como Tolkien - a engendrar uma língua falada pelos nativos de um certo planeta de um sistema longínquo numa galáxia a anos-luz do ponto em que nos encontramos. Acreditem: se queremos conceber uma linguagem em que até a gramática tenha uma realidade, acabamos perdendo algum tempo...

Neste momento, posso transcrever-vos uma passagem de um tenebroso discurso de certa criatura. Reparem:

«TiLela Kelyaúte. A Cágnia. A Cágnia. Kelyaúte. Tai, tai, pai, tai, pai nom, pai nom. TiLela dá, pai nom, pai nom. A úgnia? A úgnia pai? Cacá? Ontá úgnia? Kelúgnia, kelúgnia! Uhaaam, kelúgnia, ontá úgnia? Kelyaúte!»

Estava a reinar. Não há saga. E esta fala existe, não é uma invenção minha. Na verdade, é a linguagem de uma espécie de criatura tenebrosa, um absoluto extra-terrestre. Apresento-vos a minha filha Margarida, eheheh!

E este discurso tem tradução. Às vezes, torna-se uma tradução arriscada porque, por exemplo, «Cágnia» significa, em geral, «Casa», mas também pode significar «Caixa» ou «Calça», quer no sentido de vestimenta, quer como imperativo do verbo calçar. (Este extra-terrestre é extremamente imperativo...)

Posso arriscar uma tradução desta algaraviada que ela nos berrava no carro, quando vínhamos das compras, com sacos carregados de iogurtes.

«Tia Lela, quero iogurte. Em casa. Em casa. Quero iogurte. Sai, sai, pai, sai, o pai não. A tia Lela é que dá, o pai não, o pai não. A chucha? A chucha, pai? Não está cá? Onde está a chucha? Quero a chucha, quero a chucha, uhaaam, quero a chucha, onde está a chucha? Quero iogurte!»

Há tradutores que traem. Como vêem, não é o meu caso: eu quando traduzo, traduzo mesmo!

O CORPULANTEX HYBRIDUS DE CAVALETE AZUL DA ZONA NORTE DE ALGUEIRÃO SUL

Há períodos assim, em que me apetece tão-só tecer considerações, ensaiar argumentos acerca seja lá do que for, em vez de «historiar», ou melhor (quer dizer: pior, mas mais preciso), «estoriar». Sei que me torno maçudo quando me dá para aí. Avalio-o facilmente: se as minhas «estórias» merecem poucos comentários (os de um gato, os de uma janota e, agora nem isso, os de uma «anja»), os meus «posts» sérios, sobre filosofia, política ou literatura (Prousssst!) não são comentados. De todo.
Tenho este problema de viver em permanente esforço para parecer um tipo leve e divertido aos olhos dos outros, sem conseguir evitar completamente que o meu lado «seca» e pesadão venha por vezes ao de cima, como um dedicado especialista em «corpulantex hybrudus» de cavalete azul da zona norte de Algueirão Sul que, tendo percebido, ao longo de anos, que o seu interesse não é partilhado por ninguém, e quando o menciona provoca de imediato bocejos, distracção e fuga, acaba por aprender a preferir, em público, dizer graças, se possível na Feira Popular, entre copos, amigos e montanhas russas, MAS que... em certos momentos... nem que seja por um instante... por uma fracção de segundo... numa árdua batalha psicológica contra si mesmo, de antemão perdida... não pode... não é capaz de calar uma ou outra frase que lhe saem como um arroto... «Sabes que o corpulantex hybridus tem...?»... - gerando o inevitável silêncio constrangido e compungido, e um olhar desesperado do interlocutor, que só pode interpretar-se como: «Oh, não! Lá começa o maluquinho...!»
Mas, por agora, com o Proussst, já me aliviei.
Não se preocupem. A animação segue dentro de momentos...

quarta-feira, junho 25, 2008

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Interrogo-me com alguma frequência acerca da margem de snobismo e vaidade que haverá nesta minha paixão pela obra de Proust; interrogo-me sobre até que ponto será ele sincero, este deslumbramento em face de sete volumes de uma exasperante minúcia na descrição de pormenores dos pormenores provenientes da precisa memória visual e olfactiva, auditiva, gustativa e, sem dúvida, até táctil, de Marcel (a personagem) e de Marcel (o autor), ou, pelo contrário, até que ponto não servirá principalmente para me exibir, como se eu andasse por aí a dizer: «Adoro Proust! Ai, adoro Proust!»

A resposta a tal interrogação surge em dois pontos.
Numa ordem perfeitamente arbitrária, primeiro, o carácter discreto, se não secreto, do modo como vivo esta paixão, a qual trato como se fosse uma tara de que me não covém falar demasiado. Devo dizer que essa é, aliás, uma das razões que me mais me levam a hesitar em escrever um «post» sobre Proust.
Em seguida, o prazer genuíno, indiscutível, com que releio a obra.
O que julgo ver nela e tanto me entusiasma é, por um lado, uma capacidade (uma «competência», como se diz por aí...) de que sou inteiramente destituído: a facilidade na síntese entre o analítico e o sensitivo. Eu sou capaz de descrever e, obviamente, capaz de sentir. Mas descrever as sensações, as características deste ruído rápido do matraquear sobre as teclas, ou deste zumbido, ou decompor o sabor deste gole de uísque com que faço uma pausa para pensar na frase que se segue, é-me quase doloroso. E, por falar em dor: recordo-me bem da dificuldade que constituía, para mim, quando ia ao médico, descrever «exactamente» o tipo de dor que estava a sentir. «É uma dor fininha?», propunha-me ele. Que significa isso? O que será, por oposição, uma «dor grossa»? Devo dizer que um dos grandes terrores que me perturbavam na antevisão de uma ida ao médico não residia no receio do momento em que o senhor doutor forçaria a abertura da minha boca, puxando a língua para baixo sob a pressão da malfadada espatulazinha e, com isso, quase me fazendo vomitar (sim, tal seria o meu segundo pavor), mas no momento em que ele me perguntaria: «Diz-me lá exactamente o que estás a sentir». Tinha pesadelos, imaginando que a doença poderia ser mal diagnosticada por defeito das minhas descrições, ou por um «sim» leviano, precipitado, à simples questão: «É uma dor fininha?». Ou: «É uma dor que aperta?»

Mas, sobretudo, delicia-me aquela atenção de Proust ao evanescente, ao que está disperso no tempo, ao que passa, ao que não dura, ao que não ficará, ao que já cá não se encontra no preciso momento em que acabo de o apontar; delicia-me aquela atenção ao superficial que é, curiosamente,uma das marcas da profundidade; a subtileza do que muitos vezes não captamos na sua essência à primeira leitura e, portanto, a que teremos de retornar. Extasio-me (como diz o próprio Proust de uma personagem, o escritor Bergotte) com o seu poder de pegar numa percepção por um ângulo tão pouco usual que parece um ângulo errado, produzindo, a partir dele, um sentido originalíssimo, paradoxal, de uma invulgaridade arrepiante.
Entrego-me à sua observação de contradições nos sentimentos, sempre complexos e carregados de cambiantes, em todas as personagens, na evidência reiterada de que nada é simples, de que palavras como «amo» ou «detesto» são meras etiquetas, porque há no amor sensações que se digladiam e chocam, como há no «detestamento» estranhos e inesperados elementos de atracção.

Saio de uma página de Proust completamente rendido e plenamente satisfeito, como se tivesse atingido um cume.

Não é uma experiência de que me ouvirão falar muito. Não por egoísmo, não por pouca vontade de partilha. Mas porque o próprio nome, Mar-cel Proussst, soa a clássico, a pesado.

Saboreiem só, quanto mais não seja, todas as reverbarações deste título. «Em - Busca - do - Tempo - Perdido».
Não é maravilhoso?

terça-feira, junho 24, 2008

NO CONFORTO FAMILIAR

Sento-me ao computador como quem tenta respirar, erguendo a cabeça acima da linha da água que principia a envolver-me, a puxar-me convictamente para baixo, para o fundo.
A água em que me vou enraizando é, sobretudo, uma água sonora: toda feita de ruídos que me povoam a casa invadida por familiares. Oiço o meu sobrinho de pernas peludas que gargalha alentejanamente, lá para baixo. (Sem desprimor, que o gargalhar alentejano não é pior do que os outros...); não lhe oiço a mulher, nortenha discreta, tímida, pálida e loira. Mas, em contrapartida, oiço a minha cunhada, mãe do marmanjão das pernas peludas, que barafusta com ele! «Tira-me já isso daqui! Faz outra dessas e volto já para o Alentejo...» - Sinto-me indeciso: pedir ao dos pêlos que repita seja lá qual for a gracinha, a ver se ela desanda, se desandam todos?
Mas estou sendo injusto! Vieram para me ajudar na vigilância da minha filha, atacada de varicela; vieram para tomar conta dela, uma vez que não posso deixar de ir trabalhar, agora que, na escola, me desabam em cima os exames e as reuniões de notas, nem a Adelaide, que se falha, não vende, se não vende, não ganha!
Estou-lhes, portanto, grato. Claro, podiam não ter trazido o gato e o cão. Mas com quem os deixariam?
A irmãzinha do rapazola, ela já também de pernas peludas, grita. Aliás, grita sempre. Pergunto-me por que raio uma criança falará sempre a gritar, a não ser que seja surda ou que viva entre surdos. (O que, por aqui, em breve será certamente o caso!)
Afundo-me literalmente - na verdade, chamam-me para jantar e, portanto, lá terei de afundar estes dois andares que ainda me separam...
Preparo-me para acabar este post, com um misto de triunfo e de culpabilidade. Sinto-me, realmente, mau como as cobras. Absolutamente maldoso. Vejam: as pessoas que acorrem para me apoiar neste momento conturbado da minha vida, e eu que me escondo no blogue a dizer mal...!
Se ao menos dizer mal não me fizesse tão bem à saúde...
Ou se a criança não falasse tão sempre a gritar...
Ou se não tivessem trazido o gato e o cão...!

quarta-feira, junho 18, 2008

ROBOCOPZINHOS

Como o mundo evolui vertiginosamente e os jovens já não são como éramos, a psicologia trata de os compreender em função de motivações e carências completamente novas.
Acontece que esta ciência é um pouco de tudo o que se quiser. Não sou adversário da psicologia em si. Sou somente muito céptico em relação aos psicólogos. É diferente.

A última teoria que ouvi foi exposta, com uma convicção e uma seriedade perfeitas, por uma senhora de óculos e fita nos cabelos. Era acerca dos adolescentes e dos telemóveis e ecoava ainda, vaga e longinquamente, o triste caso do combate entre uma aluna e uma professora, por causa de um telemóvel, que povoou semanas e semanas de telejornais.
Explicava a psicóloga da fita que os adolescentes criaram uma dependência do aparelho que o torna literalmente uma parte deles, configuradora da sua intimidade e dos seus laços; «têm necessidade de se sentir em rede», em permanente comunicação com o mundo. Cortar essa possibilidades é feri-los num elemento tornado vital enquanto jovens. E, portanto, arrancar-lhes o telemóvel (como a tenebrosa professora teria tentado) seria como arrancar-lhes uma parte de si: «como uma prótese», exemplicava...

Não quero ir declaradamente contra a maré. Vejo-me na contingência, pois, de assumir e digerir estas novas teorias. E portanto, no próximo ano lectivo, terei de ser muito específico:

«Nas minhas aulas», direi a estes novos robocops, rapazes com tecnologia incorporada, «o único tipo de prótese que pode permanecer ligado é o sonotone!»

domingo, junho 15, 2008

SE AMANHÃ LEVAMOS DA ALEMANHA, LÁ NOS CAI A CRUEZA DO PORTUGAL SOCRÁTICO EM CIMA!

Ninguém pergunta: «Está tudo numa boa?»; perdão, minto: há um grupo de pessoas que usa esta expressão. Não são os jovens, são os cotas que anseiam, se não por parecer jovens, pelo menos por mostrar que os entendem muito bem e falam a mesma linguagem, numa espécie de piscadela-de-olho cúmplice. Qualquer jovem identifica imediatamente um, digamos assim, «utente desta expressão», como sendo um não-jovem armado ao pingarelho.
Há uma espécie de película permanente de equívoco nesta angústia «politicamente correcta» de nos entrosarmos, de também falarmos à maneira de.
De certo modo, eu próprio sou uma vítima dessa ansiedade. Enquanto homem que, durante anos, não percebia patavina de futebol, assumindo um irrelevante e inconvicto «sportinguismo», tinha, por vezes, entre machos lusos, necessidade de falar futebolês, dizer que a equipa estava pouco/muito «entrosada». Servia-me de guia o senhor A., contínuo na minha escola que, quando eu entrava, era o primeiro a fazer os comentários que, ao longo do dia, eu tratava de seguir religiosamente - aliás, com pouco sucesso porque a opinião do senhor A., como acabei por descobrir com o tempo, estava longe de constituir uma luz do Além. Era uma opinião do Além, sim, mas num sentido menos lisonjeiro!
Com o tempo, tornei-me um fervoroso adepto e um atento seguidor de alguns jogos. Devo essa reviravaolta, mais do que ao senhor A., à selecção - pense o que pensar do histerismo patrioteiro que a rodeia e, para ser franco, este não me desagrada muito porque há, em mim, um óbvio lado histérico - e, mais do que aos homens, a duas ou três amigas com quem aprendi a entusiasmar-me com um certo futebol.

Neste momento, tenho vindo a discutir com elas se a trapalhada de pés que o Quaresma utilizou no jogo contra a Suíça é, ou não é, a famosa «trivela». Uma das minhas amigas, que sim. Outra, que não. Já não tenho o senhor A. para me tirar dúvidas. Sorte minha. E assim me entroso no entusiasmo pelo euro. Está tudo numa boa!

quarta-feira, junho 11, 2008

O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [VI E ÚLTIMO EPISÓDIO]

Estava quase a entrar em desespero quando, na garagem do centro comercial, por um mero acaso, daqueles que só podem acontecer: a) na vida real (e aí, de facto, ocorrem constantemente; ou: b) numa história escrita por um autor medíocre, com dificuldades em encontrar soluções complexas -, por um mero acaso viu a senhora entrando para um carro enorme, de cor grená. A partir daí, foi simples; seguiu-a. Montou uma vigilância apertada, acompanhando-a por um par de binóculos, colocando escutas na sua casa; estava, pois, preparado para perceber que o livro ia ser oferecido. Seguiu-a de novo, no dia dos meus anos. Montou um aparato de vigilância diante de minha casa. Viu-me, pelos mesmos binóculos, receber o livro.

Quando lhe repeti que o dinheiro me desaparecera por entre os dedos como berlindes (estou a tentar redimir-me da «coincidência» com que resolvi o problema lá em cima, procurando agora imagens literárias pouco usuais...), respondeu-me que ficava muito triste. Mais do que isso: o fulano com ar de porquinho, que estava tão atento à nossa conversa, acrescentou o baixote, apontando-o discretamente, era alguém a quem ele, por sua vez, devia todo aquele dinheiro; pertencia a um grupo perigosíssimo, e que marcara com ele um encontro para dali a meia hora. Percebi que o baixote não era mau. Alguém tão encalacrado como eu, simplesmente. Os preços da gasolina aumentavam (piscar de olho realista ao quotidiano português), as pessoas metiam-se em todos os expedientes para sobreviver, vendiam a alma ao diabo e depois...! O homem chorava diante de mim.

Prometi-lhe precipitadamente que ia fazer tudo o que estava ao meu alcance para reaver o dinheiro. Vi-o a agradecer-me, segurando-me a mão com as duas mãos muito rechonchudas e peludas. Combinámos prazos. Retirei-me, preocupado.

A verdade é que não fazia a menor ideia do que poderia decidir para produzir cinquenta mil euros em duas semanas. Como gastá-los, sim, sobre isso tinha ideias claras. Mas «ganhá-los»...!

Quando descia pelo tapete rolante, fui ultrapassado por uma criança que fugia aos pais. Tudo se deu então muito velozmente. O casal vinha atrás, com um carrinho com algumas compras, não muitas porque ninguém, hoje em dia, compra muito (segundo piscar de olhos realista), mas foi o suficiente para, na aflição que se seguiu, me atropelarem, pisarem, esmagarem. A boa notícia é que conseguiram salvar a criança antes que lhe acontecesse algo de ruim. A má notícia também não é inteiramente uma má notícia. Mais do que o carrinho, o peso enorme do pai da criança, aterrando elefantasticamente sobre o meu peito para segurar o menino no ar, foi-me fatal.

A notícia não é má porque, na verdade, a morte salvou-me de um problema que eu não saberia resolver em vida: ganhar cinquenta mil euros em duas semanas!
Fico um pouco atormentado, porque sei que a vida não irá ser fácil, nos próximos tempos, para o meu recente amigo, baixote, careca e caixa-de-óculos.
Mas não muito atormentado porque, neste campo onde acabo de penetrar, sinto que todos os problemas se transformam, ganham contornos diferentes e um outro ar. Nada do que nos afligia na terra tem demasiada importância. Em contrapartida, simples questões que nunca nos haviam ocorrido tornam-se, repentinamente, substanciais, como: espero que, para onde terei de me dirigir, não haja ninguém a tocar harpa. Não eternamente, pelo menos!!!

Tenho de ir, seja lá como for. Há uma luz a acenar-me, lá ao longe...

quarta-feira, junho 04, 2008

O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [V]

A leitura do jornal despertou-me com tamanha força o espírito confundido, que não me restaram quaisquer dúvidas a propósito da evidência de estar morto. (Tinha havido, até, em vida, momentos em que eu estivera menos certo de me encontrar vivo do que, agora, estava certo de ter morrido).
Ao mesmo tempo, por efeito deste choque, a memória devolveu-me o filme dos últimos acontecimentos:
O baixote contara-me, enquanto eu me voltava para ele com o nariz completamente encervejado, que, um dia, estava ele na posse daquele dinheiro - cuja proveniência desonesta não interessa aqui esmiuçar - quando se apercebeu de que uns agentes da lei o perseguiam. Não podia ser interceptado com cinquenta mil euros num volume que já aqui chamei «pacote» e também já chamei «sobrescrito», mas, em suma, era muito menos espesso do que aquilo que se pudesse imaginar! Desesperado, tentou despistá-los: entrava em lojas de roupa cujos nomes não sugeriam roupa, como Mango ou Escada, escondendo-se nas barraquinhas de prova, escapando-se por portas dos fundos, mas os agentes não se afastavam nem um milímetro. Entrou na Bulhosa. Chocou com uma senhora idosa: ajudou-a a apanhar do chão uns embrulhos, mais um livro que ela se preparava para pedir que embrulhassem para oferta e, sorrateiramente, introduziu o dinheiro entre as páginas deste. Pediu desculpas e desandou, sentindo-se o homem mais livre e mais leve da História da Humanidade!
A polícia apanhou-o, por fim, à porta da livraria, revistou-o ali mesmo mas, como é bom de ver, nada achou! Dava-se ao luxo de ser irónico, fazer humor, raiar o sarcasmo, «Os senhores perderam alguma coisa? Posso ajudar?», certo de que o dinheiro...

Aliás, onde estava o dinheiro!? Diacho! No livro da velha, sim, mas onde raio se metera, entretanto, a velha? Perdera-a completamente de vista...

[CONTINUA]

domingo, junho 01, 2008

O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [IV]

Acordei, nessa tarde, em casa. Estava estendido na cama, sentindo o corpo estranhamente flutuante, e não me lembrava quase de nada do que me sucedera. Imagens vagas de um cara-de-porquinho confundiam-se com as de um caixa-de-óculos baixote, calvo e mau; mas, como nos sonhos, as minhas memórias compunham, decompunham e recompunham diversos aspectos de ambas as personagens, de modo que eu já não sabia que traço era realmente de quem.
Uma coisa em que reparei foi que não estava ferido.
Soube somente no dia seguinte, pelos jornais, que eu tinha morrido.
E então, de repente, tudo se me afinou e aclarou no espírito.

(CONTINUA)

quarta-feira, maio 28, 2008

O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [III]

Em que gastara eu cinquenta mil euros?! Mal sei: a maioria do dinheiro, suponho, foi-se quando tomei a imponderada decisão de encher o depósito com gasolina. O certo é que, pouco depois de umas comprinhas, estava com o sobrescrito vazio.

O baixote prendeu-me o cotovelo e conduziu-me à zona de cafés. «Temos de ter uma conversa muito séria!», rosnou-me ele. «Há coisas que não estás a compreender...» - ia mudando o tratamento, de um «você» que mantinha uma distância atemorizadora, para o «tu» que me reduzia, por antecipação, à insignificância a que me reduziriam, fisicamente, talvez dali a um momento...

Sentámo-nos.
Perguntou-me, com uma delicadeza fria, o que queria tomar. Pedi uma imperial. (Não devia, talvez, por causa do meu problema com a bebida!)

Na mesa ao lado, o cara-de-porquinho seguia-me atentamente, procurava-me, agora, com o mesmo olhar que tanto me escapara antes.
O baixote voltou, com duas imperiais.

Senti o meu nariz, demasiado grande para ficar fora do copo, mergulhar na cerveja fria. (Não sei se já tinha explicado que é nisso que consiste o meu problema com a bebida...)


CONTINUA

sexta-feira, maio 23, 2008

O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [II]

Muito nervoso, amedrontado mesmo, com a imaginação excitada, a mente a trabalhar num velocíssimo desfiar de hipóteses, a verdade é que no dia marcado, à hora exacta, lá estava eu no local que as coordenadas me indicavam.

Sentei-me no banco metálico, que era desconfortável, sem costas - e contra o qual, alguns segundos antes da minha chegada, um senhor idoso (e, possivelmente, com péssima visão) esbarrara, provocando um ruído horroroso, o qual me sobressaltara como o estampido de uma arma.
Agora, mais calmo mas, infelizmente, não muito mais calmo, ouvindo a mulher que ralhava ao senhor idoso, «És sempre o mesmo, cum camandro! Mas não viste o banco ó quê?! Precisas dum cão de guarda ó quê?», deixei-me estar sentado, de pernas juntas, joelhos unidos, como se estivesse de saia, e com o livro pousado no regaço.

Ainda nem um minuto passara, quando reparei em um rapaz que se me sentara ao lado. Cabelo armado num edifício de gel, nariz arrebitado, ar de porquinho. Não se tratava propriamente do género «facínora» que eu esperava e que a minha imaginação compusera. Num certo sentido, não sei dizer se me senti aliviado, se frustrado...
Tentei chamar-lhe discretamente a atenção.
Tamborilei insistentemente com um dedo sobre o livro. Depois, com os cinco dedos, um por um, de uma forma enervante: trrrlic, trrrlic. Sacudia a perna, num movimento nervoso. Sorri-lhe. Pisquei-lhe o olho, como num tique. Vi-o olhar-me fixamente. Mas sentia-o embaraçado, incomodado. A desviar os olhos. Quanto mais eu lhe procurava o olhar, mais o dele me fugia. E, finalmente, para minha estupefacção, o porquinho levantou-se e foi-se embora. Já só se avistava a poupa de gel lá na linha do horizonte, prestes a desaparecer...

Que fazer? Devia segui-lo? Começara até a desconfiar de que não se tratava da pessoa que eu tinha de encontrar, mas que ocorrera um terrível equívoco.

Nesse momento, a voz gutural soou-me nas costas.
- Traz o livro?
Voltei-me. Era um homem baixo, completamente calvo, de óculos extremamente graduados. A uma primeira impressão, não atemorizava. Mas a uma impressão mais detida, algo nele se tornava rapidamente aterrorizador: era um daqueles indivíduos exageradamente baixos que, por via de um preconceito politicamente incorrecto, imaginamos capazes de tudo, das piores violências, dos crimes mais hediondos.
Entreguei-lhe o livro, com as mãos a tremer.
Passou rapidamente as páginas, sem encontrar nada entre elas.
- Está a brincar? Quer brincar, é?
Eu sabia que ele queria o dinheiro - que diacho me passara pela cabeça quando o começara a gastar e, em poucas horas, percebera que já não tinha nada, rigorosamente, literalmente - nada..?!

(CONTINUA)

sábado, maio 17, 2008

O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [I]

Numa altura da minha vida em que o dinheiro escasseava (o que é vago: isto poderia, portanto, ter-se passado em qualquer ponto da minha vida...), uma tia de bom coração ofereceu-me certa prenda. Já vão ver que há aqui um mistério: interpretei-o do seguinte modo - como ela julgasse que eu nunca aceitaria uma oferta em «dinheiro» propriamente dito (ah, como as pessoas me conhecem mal), presenteava-me com um livro. Mas, eis o mistério, dentro do livro, discretamente, encontrava-se um pacote contendo... leiam com calma... cinquenta mil Euros.

Que raio teria passado pela cabeça à senhora minha tia? Que, quando eu viesse a descobrir, pensaria que era dinheiro meu, que não me lembrava de ter guardado ali?! Ou que me ocorreria que ela se esquecera ali das notas, e que acabasse ficando com elas para mim, em vez de as devolver...?! (Deus do céu! Como mesmo as pessoas que me conhecem mal em alguns aspectos me conhecem tão bem noutros...)

Seja como for, estas ou outras possíveis interpretações para o estranho facto só me surgiram muito mais tarde. Eu não dera logo pelo misterioso pacote! A verdade é que o livro nunca me interessou. Não o abri, sequer. Deixei-o em cima de uma estante, sujeito ao paciente trabalho do pó, da traça e das aranhas!

Bem via que a minha tia, visitando-me, me perguntava, de vez em quando, se eu gostara do livro. E em que parte ia. Ora eu mentia-lhe com quantos dentes possuo. Que era muito interessante, sim, e já estava quase no fim... falava-lhe de personagens recambolescas, de aventuras bizarras, na esperança de que a minha própria tia nunca tivesse lido o romance em causa.

Há precisamente uma semana, o livro abriu-se. Não o abri; abriu-se. Por acaso, por acidente. Na verdade, caiu ao chão, revelando-me pela primeira vez o sobrescrito e, no interior deste, os cinquenta mil Euros!

Fiquei interdito. Não compreendia. Peguei nas notas, contei-as, recontei-as.
Nesse momento, ou por coincidência ou porque me vigiavam, recebi um telefonema.
E uma voz gutural, que não era, certamente, a da minha tia, disse-me com rispidez:
- Trata de ir entregar o livro no Oeiras Parque. Ponto de encontro: a cadeirinha metálica em frente da perfumaria. Ao lado da Bulhosa. Domingo, às quinze. Não faltes!

(CONTINUA)

quinta-feira, maio 15, 2008

DESABAFO PESSIMISTA... OU ENTÃO, ENTENDAM-NO LÁ COMO QUISEREM!

ACERCA DAQUELA ESPÉCIE DE DISTRACÇÃO EM FACE DO QUE É PERFEITO

A perfeição não é tão difícil de se alcançar como isso: basta vigiar os pormenores e exigir que todos se ajustem numa exactidão relojoeira.

O problema da perfeição não é, pois, o da dificuldade no seu cumprimento: e sim o de que, uma vez feitas as coisas perfeitas, ninguém as note. Parecem tão certas, tão «como deviam ser», que nada nelas é notável.

Acreditem em mim: as pessoas só se dignam reparar nas coisas, quando lhes descobrem defeitos - e, então, acordam da sua distracção habitual, propõem-se emendar, dão conselhos e sugestões. Ah! Se fossem elas...!!!

Essa é uma das três razões pelas quais prefiro apostar na imperfeição.

As outras duas? Vou silenciá-las. Também não ando a tentar escrever um texto perfeito...

quarta-feira, maio 14, 2008

ASSALTO À ESQUADRA

O Sargento Sintra - parente afastado da cançonetista Mónica Sintra, que aliás o não conhecia e nunca dele sequer ouvira falar, embora o Sargento tivesse, pelo contrário, um enorme orgulho nessa vaga ligação de sangue - não tinha nem profissão, nem aspecto de homem romântico. Quanto à profissão, era polícia: um digno agente da PSP; quanto ao aspecto, digamos que tinha cerca de dois entroncados metros de altura, nariz partido, cicatrizes no queixo - porque se lhe tornava difícil fazer a barba sem se ferir -, sobrancelhas hirsutas. E todavia, na alma deste homem de rosto e corpo poderosos, quase brutais, ressoavam fios e roldanas de uma delicadeza e de uma sensibilidade insuspeitadas; por tudo lhe vinham lágrimas aos olhos; a sua emoção era forte, constante, prestes a disparar ao menor pretexto...

Estava nesse dia sozinho na esquadra da Rua Alexandre Herculano, regando os seus gerânios, quando o jovem entrou por ali adentro.
O jovem vinha aflito. O Sargento Sintra teve de pousar o regadorzinho, contornar a secretária para se sentar e poder dar-lhe atenção.
- Boa noite. O que deseja?
- Eles bateram-me. Eu quero apresentar queixa!
- Calma, calma, calma! Vamos lá ver. «Eles». «Eles», quem? Hein? Quem são «eles»?

Entretanto, lá fora, principiava a ouvir-se um tumulto. Uma vozearia insistente. Gritos desrespeitosos. Talvez mesmo obscenidades.
- Pelo amor de Deus - gritava o jovem -, chame os seus companheiros. Reúna as forças da esquadra. Acho que vêm aí todos!
- Quais forças, homem? As forças da esquadra somos eu e as minhas flores. Não está cá mais ninguém!
- Mais ninguém?
- Mas o que é que aconteceu, afinal?
- Mais ninguém?
- Calma. Diga-me lá, então...
- Mais ninguém?!
«Mais ninguém», na verdade, foi a última coisa que o jovem pôde pronunciar. Porque uma vintena ou até uma trintena de rapazes, de uma agressividade a rebentar pelas costuras, com uma inacreditável desfaçatez, entrava pela esquadra, aos berros, batendo com os tacões, esmurrando paredes. Eram feios e porcos.
- Anda cá, maricão!
- Vens a fugir para a mamã?
- Mostra-te!
Eles não disseram algumas das palavras por que aqui optei, disseram outras que prefiro não escrever. Por exemplo: «maricão»! É evidente que não chamavam «maricão». Usaram outras expressões de que resguardo o meu textinho.
O polícia poeta não queria crer. Ali. Ali dentro. No santuário da Autoridade! Tentou fazer frente. Não podia. Nem os seus dois metros lhe serviram. Viu, meio oculto, o grupo segurar violentamente no jovem, bater-lhe, espremê-lo, desdentá-lo. Viu-os saindo, a arrastar a pobre criatura pelos pés.
- Não há direito! - exclamou, com lágrimas nos olhos, com lágrimas na voz. - Não respeitam nada. - E, por fim, olhando com uma piedade que lhe chegava do mais profundo do seu: - os meus gerânios!!!

terça-feira, maio 06, 2008

E TALVEZ ESTA MENSAGEM QUE EU DESCOBRI EXPLIQUE ALGUMA COISA...!

Aqui onde vivo, em S. Domingos de Rana, Huhuhuhuh, vou-me dedicando a alguma magia cinzenta. Definição: magia que não chega a ser negra, não provoca grandes danos nem males tremendos, é simplesmente embirrenta.
Volto-a sobretudo contra benfiquistas que passam pela rotunda a uma certa hora matinal.
Eu não devia. Os benfiquistas, coitados, já andam com demasiadas tristezas na vida, não precisavam disto. Mas que querem? É irresistível.
A rotunda está enguiçada. Soube que há quem entre em contacto com o Além. Com o Arthur C. Clark inclusivamente.
Deixá-los.
Tenho aqui um «matchbox» pequenino, com um bonequinho lá dentro: o boneco tem asas e umas botas novas. Quando chega a hora aprazada, zás! Prendo a direcção e os pneus.
E divirto-me assim.

Professor Karamba

sexta-feira, abril 25, 2008

OS RATOS DO GUARDA-FATOS [IV E ÚLTIMO]

Durante três dias e meio, não dei por que houvesse a menor alteração nas nossas vidas.
Na tarde do quarto dia, contudo, os ratos haviam desaparecido.
Rejubilei. Entoeei cânticos, executei a dança da vitória, chorei de tanto rir. Mandei instalar uma nova fechadura no guarda-fatos, calafetei buracos e fendas; lanchei com um apetite que já não conhecia desde o princípio daquela fatídica invasão...
Durante um lento e longo dia, nada de novo aconteceu. Parecia que tinham retornado ao seu planeta. Mais tarde, apercebi-me de que reinava uma inexplicável confusão no quintal do vizinho, o arrogante proprietário de flores; instalei-me, pois, à varanda, meio oculto, confortavelmente sentado numa cadeira reclinável, com um par de binóculos em punho, para não perder os mais minúsculos detalhes (posto que os detalhes são, frequentemente, a parte mais divertida de cenas cómicas), uma mesinha à mão de semear, repleta de pratos de amendoíns, bolachinhas, queijinhos. Ria-me, num quase insuportável gozo íntimo, que me abanava os ombros em frouxos de um riso contínuo e canino. Observava atentamente o caos.

De facto, não entendia o que sucedia. Hoje, pelo contrário, sei-o perfeitamente! Oh, se sei. Amaldiçoo o meu plano, aquela alegria de curta duração: o doido das petúnias tornara-se, não sei como nem graças a que medida, talvez com a ajuda de uma flauta, no incontestado líder das ratazanas. Vejo-os a todos, pelos meus binóculos (e estou sem vontade de continuar comendo amendoíns), vejo-os a construir poderosas e horrorosas armas. O quintal encheu-se de instrumentos bélicos. Que, ou quem, planearão eles invadir? Que acontecerá ao mundo? Pior do que isso: que será da minha casinha, que tanto me tem custado pagar?

Vejo-os, pois, esquecidos das flores, trajando Hugo Boss e Luigi Camapheu, armando perturbadores e suspeitos canhões, tanques e bazukas de raios lazer, naves e helicópteros davincianos.

Preparo a defesa. Guardo mantimentos: amendoíns, bolachinhas, batata frita, queijos. Cerro janelas. Não me matarão facilmente. Enviei Amélia e os garotos para casa da mãe. Espero-os de pé. Com um capacete esverdinhado - prefiro escrever deste modo a palavra, ao invés do sensaborão «esverdeado» - cheio de figuras dos Simpson!

FIM

terça-feira, abril 22, 2008

OS RATOS DO GUARDA-FATOS [III]

De maneira que tive de urdir um plano.
Comecei a tecê-lo, com a pérfida minúcia e a paciência da aranha, num dia em que o um dos vizinhos me veio devolver, por uma orelha, o meu próprio filho que, segundo ele, lhe amassara as petúnias - julgo que seriam petúnias... - sob a inclemente roda da bicicleta.
Ora bem! Sinto uma extrema comoção quando vejo o meu filho montando a sua bicicleta colorida. Dá-me uma dor funda no peito, algo como piedade, sempre que o miudo passa, diante dos meus olhos, com um absurdo capacete às três pancadas. Poquê piedade, porquê um tão deslocado sentimento? Talvez porque haja, naquele capacete esverdinhado, com figuras dos Simpson estampadas, qualquer coisa de ridículo e profundamente infantil, que faz chegarem-me as lágrimas aos olhos. (O menino tem quinze anos, que diabo!) Mas como explicar isto a um vizinho implicativo? Não são capazes de mo dizer? «Amassou-me as petúnias!», grita ele. (Ou seriam begónias?!) Poderia eu, acaso, responder-lhe: «Sim, é possível, coitadinho, mas já reparou no ridículo capacete que traz enfiado na cabeça? Já observou bem os bonecos dos Simpsons? Deixe-o lá estar, pobre puto...!»

De modo que aceitei a entrega do rapaz, jurei ao vizinho que ralharia convenientemente, prontifiquei-me a pagar as flores, fossem lá elas o que fossem, mas mais tarde, assim que topei o homem distraído, fotografei-lhe o rosto infame, a malvada fuça; depois, fui recortando roupas que achei em páginas das revistas de moda masculina, colei belíssimos casacos Hugo Boss, ou camisolas Benneton, em papel lustroso, ao corpo fotografado do vizinho, fiz daquilo cartazes, e colei os ditos nas paredes do meu quarto, de frente para o guarda-fatos, chamando a atenção dos ratos, como quem insinua: «Gostam de roupas? Hum?! Das boas, das caras, hein? Já viram quem tem disso? Vejam, ora vejam. Olhem para este senhor na fotografia. Não me dizem nada? O casaco cintado? A calça em estilo italiano? A peúga axadrezada?»

Partindo do princípio de que aqueles ratos eram, de facto, seres inteligentes, coloquei ainda, de modo muito visível, ao lado da série de fotos do senhor Ronaldo, um diagrama do caminho mais curto para lhe chegarem a casa.
Ri-me. (Ah, eu sou terrível, sei que sim, sei que consigo tornar-me quase excessivamente mau).
E aguardei!

(CONTINUA)

domingo, abril 20, 2008

OS RATOS DO GUARDA-FATOS [II]

Sobre os ratos - e está assente que continuarei a tratá-los por «ratos» -, diversas teorias me desabaram em cima.
Uma, a da minha sobrinha doida, que vinha contando, desde há muitos anos, a perturbadora narração de como uns extra-terrestres a teriam sugado para uma nave espacial e depois, na nave, «sugado» fisicamente - desculpem-me a grosseria da linguagem - de todas as formas imagináveis e inimagináveis, consistia em que estes seres, que haviam nidificado no meu guarda-fatos, seriam nada mais do que os extra-terrestres violadores, que a vinham buscar para novas experiências sexuais.
- Desculpa lá, Deolinda - estranhava eu -, mas tu não dizias que os ET que te violaram repetidamente tinham o aspecto do Brad Pitt, do George Clooney etc? Estes são ratos, menina. Com óculos e carecas, é certo, mas ratos!
- Ratos?! Hum...!

Outra teoria, a do meu psicólogo - porque eu andei no psicólogo, é verdade, mas só porque passei por um período particularmente fatigante na minha vida... - resumia-se à tese de que estes ratos seriam, no fundo, uma projecção minha: tratar-se-ia do modo como eu corporizara os meus medos, as minhas angústias, ou o terror, que aliás me vinha obcecando, de que a minha vida ruía por todos os lados...
- Mas então não existem, é isso? - perguntava-lhe eu, pouco convencido. - São uma espécie de delírio, uma fantasia? Só que repare, Dr. Fraude, não fui eu quem os descobriu. Foi a minha mulher. Como é que Amélia poderia ter visto, no guarda-fatos, as minhas fantasias?
- Não disse que eram fantasias suas. Admitamos que as suas angústias, os seus terrores, têm tanta energia, que tomam efectivamente forma. Eles existem. A sua mente criou-os, mas eles libertaram-se e andam por aí...
Parecia-me uma explicação, como dizer?, pouco plausível, sim, mas não menos plausível do que o próprio facto, em si, de haver ratos carecas e caixa-de-óculos no meu guarda-fatos.
Só pus esta teoria de parte quando, entretanto, o Dr. Augusto Fraude foi internado, completamente maluco, e maluco furioso!

Por outro lado, houve várias tentativas de me libertar dos ratos.
Amélia dirigiu-se-lhes, uma vez, de guarda-chuva em punho. Queria expulsá-los, ou matá-los, nem sei. Mas haviam de ver a reacção do chefe. Aqueles dentes, o seu rosnar, o seu bufar, o seu hálito, a sua ira, ali de pé, agitando as patas ameaçadoras, cheias de garras! Livra!

Claro, telefonei, nessa mesma tarde, ao Implacável Exterminador. O Implacável Exterminador era um Schwarzenegger à portuguesa, com falas mansas, um bigodinho lustroso, muitos músculos que lhe serviam de terreno a magníficas tatuagens, evocativas da guerra da Guiné e do amor aos pais, e que descia, de uma carrinha, com um impressionante e sinistro manancial de aparelhos.
Na verdade, nem o senhor Cavaco Silva - por mera casualidade, assim se chamava o senhor, semelhantemente ao nosso Presidente - conseguiu pôr cobro à infestação.
Vimo-lo entrar em casa, confiante. Aguardávamos cá fora. E vimo-lo sair, chorando.
- Peço desculpa, senhor Albuquerque. Não posso! É verdade que sou um bruto, um selvagem, fiz a guerra, matei pretos às centenas mas... isto não sou capaz! Não posso matar um rato de fato e gravata!
- Deus do céu! O fato?! O meu único fato? Já andam com o fato que me serve para os casamentos, para os baptizados, para todas as festas? Dê cá esse aparelho. Eu próprio dou cabo deles...
- Lamento, senhor Albuquerque. Eu não sou capaz. Adeus.
E a minha última esperança foi-se embora, numa nuvem de pó.

(CONTINUA)

OS RATOS DO GUARDA-FATOS [I]

Eram ratos, mas não eram bem ratos. Claro que, de início, me enganaram: Amélia dissera-me, uma tarde, com um trejeito de nojo, que o meu guarda-fatos fora invadido por ratos; pareceu-me um manifesto exagero. Fui investigar e dei, realmente, de caras com aqueles animais peludos, de dentes grandes e longas caudas aneladas, que julguei imediatamente que sim, que se tratava, afinal, de um ninho de meros ratos. Só mais tarde é que alguns pormenores me obrigaram a questionar a ideia: para começar, embora tivessem o corpo coberto de pêlos, tinham maior quantidade de pêlo na cabeça, exactamente como se fosse cabelo; curiosamente, o chefe deles era careca: viam-se-lhe reservas de pilosidade na cabeça, na nuca e em torno das orelhas, mas o alto rebrilhava numa pérfida calvície. Por outro lado, também me não parecia normal que os ratos tivessem óculos: o chefe tinha-os. De aros pretos, de massa, grossos, com lentes graduadíssimas.
O comportamento também se mostrava atípico: levei tempo a compreender que o que eles faziam no guarda-fatos não era propriamente comer tecido. Escolhiam roupa. Onde estava o meu casaco de cabedal? Lá passava um destes bicharocos diante dos meus olhos incrédulos, envergando-o com estilo, embora, notoriamente, lhe ficasse demasiado largo nos ombros e as mangas fossem muito compridas para ele. Mas as camisas, sobretudo as camisas constituíam, para os roedores, um objecto de fascínio e experimentação. E as gravatas!

Os meus leitores hão-de pensar, ou que eu estou a mentir: e não estou. Ou que estou a enveredar por caminhos tortuosos e falhados de ficção, inspirado pela «Metamorfose», de Kafka, e também não estou. Ou que sonhei. Os ratos poderiam ser personagens do meu mais recente pesadelo. Bem, isso também eu pensei. Ou tentei reduzir tudo a essa simplicidade, lutanto por salvar uma réstea de lógica na minha vida. E quem me dera, quem me dera! Mas não. Não se tratava de sonho algum!

(CONTINUA)

sexta-feira, abril 18, 2008

O COLETE REFLECTOR E O BONÉ DE ORELHAS

Domingos Paciência era um sujeito de natureza bondosa, que uma educação sensível e atenta só veio melhorar, limando-lhe e aplainando-lhe o coração.
Sua mãe costumava dizer, talvez com algum exagero, que o menino Domingos nunca tivera as manifestações de egoísmo e mesquinhez que são comuns nas crianças. Nunca fizera uma birra. Nunca recusara a sopa. Nunca.

Quando esta história vai ao seu encontro, Domingos é já um homem feito, de uma trintena de anos. Segue pela A5, de manhã, enfiado numa fila desesperada de automóveis, onde só deparamos com rostos agrestes e conflituosos, onde só se vêem condutores prontos a buzinar, a insultar, à espera de um minúsculo pretexto para deixar por um instante a viatura, com o fito de oferecer uma ensinadela ao condutor de trás (leia-se: um par de murros): em todos os carros, raiva mal contida, com a excepção - que os meus leitores previam, certamente - de Domingos Paciência.
O nosso herói ouve rádio, gargalha com as piadas matinais dos locutores, trauteia a última música da Duffy. Domingos Paciência, ah, sim: o apelido adequa-se-lhe como uma luva.

A dado momento, Paciência repara num carro muito velho e sujo, que tivera de estacionar na berma da via. De pé, ao lado desse automóvel, uma mulher idosa, curvada, vestindo, ridiculamente, um colete reflector, parece não saber o que fazer à vida. E no interior do veículo, um homem ainda mais idoso - pelo menos de aparência -, mais enrugado do que Matusalém, com um boné de orelhas enterrado na cabeça, agita-se numa espécie de estertor aflito.
Ninguém, naquela multidão nervosa, quer perder tempo com aqueles dois, ninguém lhes liga, ninguém sabe nem quer saber.
Domingos Paciência não resiste ao triste espectáculo da velhice desamparada. Dir-se-ia que dois pormenores, sobretudo, o obrigam a estacionar ao pé do trágico casal para lhes levar conforto e ajuda: o colete reflector, muito verde, mal amanhado sobre a corcunda da senhora, e o boné de orelhas descaídas pela cabeça do homem abaixo.

Não hesita.
Pára o seu automóvel a pouca distância deles.
Abre a porta. Dirige-se ao casal.
Pelo caminho, observando a expressão bizarra dos dois, a linguagem corporal deles, que lhe parece de receio, pensa: «Querem ver que eles se assustam comigo? Ainda pensam que os vou assaltar...! Coitados! Ao que este mundo chegou. Estão de tal modo longe de imaginar que alguém se preocupe com eles, que...»
E, pensando assim, agita os braços no ar, procurando acalmá-los, sem deixar de se aproximar:
- Calma, amigos! Vou ajudá-los! Então, que se passa?
A gestualidade dos velhos parece-lhe, cada vez mais, de uma estranhíssima e inexplicável angústia. A mulher berra-lhe algo. Por causa do vento, não lhe entende a voz frágil. De modo que Domingos Paciência não vê alternativa senão continuar gritando:
- Calma, amigos! Calma, amigos! Eu ajudo-vos!

É já quando está muito próximo, a três, quatro passos, que descobre, em primeiro lugar, que a senhora lhe aponta o que pode bem ser uma arma; e em segundo lugar, que as suas palavras são estas:
- Passa para cá tudo. Dinheiro, telemóvel, anéis, jóias. Vá, rápido.
Ao mesmo tempo, o velho do chapéu de orelhas, que tanto o havia comovido, sai do automóvel, empunhando uma espingarda de canos curtos; o homem tem a boca aberta sobre um negrume sem dentes, e acrescenta:
- E passa para cá a placa!

terça-feira, abril 08, 2008

AUTORIDADE OU AUTORIDADE?!

Todos perceberam, no decorrer de um pretérito «Prós e Contras», que a Dra. Joana Amaral Dias, carregada de pergaminhos académicos como algumas senhoras-bem carregam os dedos de cachuchos, transporta, lá no fundo, sob aquela prosápia, poucas ideias, quase nenhuma interessante, e muitos mitos. Sobre a «autoridade» dos professores? Bem esprimido esse tópico, o que ela tem a ensinar-nos, e de graça, é esta pérola: em si, a autoridade seria um instrumento ideológico através do qual a burguesia se impõe. Vale a pena acrescentar algo? Não, pois não? Está bem, adeus!

Ao lado dela, ora se sentava, ora se acocorava um pouco sobre a cadeira para dizer umas quantas coisas, o eminente filósofo português José Gil, segurando sempre uma misteriosa folha na mão, folha essa que ninguém chegou a perceber o que era ou para que servia.
Acho alguma piada quando se dão ao incómodo de convidar um ilustre pensador para, com a devida reverência, o vermos e ouvirmos desfiar um rosário de banalidades. Pois o quê, que perorou, o autor de «Portugal, o Medo de Existir», acerca da autoridade? Em que consistiu, em suma, a lição do senhor sobre o assunto? Nisto. Que a autoridade se ganha. Que se conquista! Que emana de uma aura que certas pessoas têm - os verdadeiros professores!
Ora bolas. É uma banalidade digna de Mário Soares, o maior banalão que o nosso triste país de banalões e banalonas já foi capaz de dar à luz.

No meio, ficou completamente esmagado um senhor professor que tentara defender, contra os ventos e as marés dos grandes doutos, a simples ideia de que a autoridade dos professores lhes é delegada pelo Estado. Ponto. Estatuída pelo ministério da Educação de um governo legitimamente eleito.
Não?! Afinal não? A autoridade é unicamente um dom psicológico? Não tem contornos legais nem jurídicos? Não tem qualquer carácter institucional? É um poder de hipnotizar e ganhar o respeito pela simples presença?

Sejamos sérios. As duas autoridades existem. E não se confundem, embora uma possa estar mais ameaçada do que outra, nestes tempos conturbados.
O ensinante que conquista a turma pela sua força interior ou pela própria personalidade, será, certamente, um excelente mestre.
Mas era o que faltava que, aos que não têm esse sublime poder do olhar, da voz ou das ideias, ou aos que o têm mas, por acaso, se esqueceram dele ou não o encontram num dia mau, só restasse estarem, por força, sujeitos ao achincalhamento de garotos a quem os pais não ensinam quaisquer rudimentos de civismo e de civilidade.

Por mim, gosto sempre de me ficar a imaginar as Joanas Amaral Dias e os Josés Gil deste Portugalzinho de mentes estreitas a exercer a sua fascinante autoridade interior junto de umas turmas que eu cá sei...

segunda-feira, abril 07, 2008

O RETORNADO

Deixei de falar acerca do meu cão Dunga. A razão é bem simples: se, ao princípio, ele e a minha recém-nascida filha se cheiravam mutuamente, com uma medrosa curiosidade, aos poucos a relação entre ambos foi-se tornando mais tensa. Suponho que é pelo facto de o Dunga ser, por natureza, um vira-latas: não apreciava que a petiza lhe batesse com a pazinha de plástico no focinho. Chegou a ganir de dor, o monstro.

Não tivemos alternativa senão abandoná-lo um dia. Estava a brincar; escrevi isto só para fazer estremecer os meus leitores mais sensíveis! Ai que divertido! Não. O que fiz foi, um dia em que a minha tia, chorosa, me veio molhar de lágrimas o ombro pela perda da sua delicada e dedicada cadela, propor-lhe, generosamente, que ficasse com o Dunga. Estávamos dispostos ao sacrifício. Eu estava preparado para o terrível sacrifício de não ter de andar a tropeçar todos os dias num cão lãzudo, de não o ver pisgar-se-me nas barbas mal apanhava uma fresta de portão aberto, de não ter de andar, à noite, por São Domingos de Rana, sozinho, de lanterna em punho, à procura dele e, sobretudo, de não ter de o separar da minha filha quando a meiga criança lhe arreava um pontapé no focinho ou lhe puxava os bigodes!

O cão foi passar uma temporada à tia Glorinha.
E deu-se bem, o malandro. Engordava, acalmava a olhos vistos, tornava-se o verdadeiro homem naquela casa de mulheres.

Às vezes, a tia Glorinha trazia-o para ele nos visitar. (Tinha de ser, nunca conseguimos convencê-la que escusava de se incomodar...) O Dunga portava-se bem. Só afinava, se e quando temia que o quiséssemos guardar connosco no momento em que a tia se despedia de nós. A suspeita de que a minha mulher o fosse arrancar ao carro da tia, onde já se instalara para se ir embora, bastou, um dia, para lhe desatar a ladrar.

A temporada foi-se alargando. Não era só o Dunga que acalmava. Longe dele, eu próprio comecei a andar mais calmo. Já não pensávamos em que ele voltasse. Sacrificávamo-nos, pois!

O problema surgiu, agora, porque a tia Glorinha e a filha resolveram ir visitar o meu primo, que se mudara para os Estados Unidos. Com quem ficaria o Dunga? Com quem está a ficar? Adivinhem!!!

A tia e o Dunga chegaram, portanto. Eu estava estupidamente frio nesse dia em que recebi o melhor amigo do homem!
Houve muitas recomendações.
Dizia-nos a tia:
- Desta vez, pelo amor de Deus, tenham muito cuidado com o portão. Não se esqueçam dele aberto! Temo sobretudo pela mulher-a-dias. A vossa rapariga é meio-esgroviada. Com ela, o Dunguinha foge sempre. Anda cá, Dunguinha. Dá um beijo à dona. Portas-te bem, não portas? Vou ter saudades tuas. E tu, ouviste, Gil? Pelo amor de Deus, querido, cuidado com o portão!!!
Dizendo isto e acrescentando, a isto, mais cento e dez recomendações deste jaez, a tia Glorinha desandou com uma lágrima ao canto do olho. Esqueceu-se do portão aberto. Parece mentira? Não é mentira!
Deixei o Dunga ir ao quintal beber água; o Dunga viu o portão aberto; pensou: «Olha!?»; raspou-se...
Quando lhe estranhei o silêncio e a demora, saí, por minha vez, de casa, chamando, pobre e inocente tolo, «Dunga?! Dunga...?!», notei o portão escancarado, pensei, também eu, «Olha!», amaldiçoei o mundo, a vida, as tias, as filhas, os animais de estimação em geral, o Dunga em particular.

E parti à procura dele - que, entretanto, se enrolara já com o cão do vizinho.
Não me quis meter entre dois cães. Cobardemente, mandei o meu filho.
O qual regressou depressa:
- Eu não o trago. Que nojo! Estava a lamber a pila do cão do vizinho.
- Sabes perfeitamente que não quero que digas essas palavras!
- O quê, «lamber»?!
- E não se faça engraçadinho, senhor Duarte. Percebeu-me perfeitamente, não se arme em esperto.

Em suma: vão ser quinze dias disto.

segunda-feira, março 31, 2008

A PROPÓSITO DE AVALIAÇÕES

Para que eu me tornasse no professor que agora se quer, de novo, avaliar - o que é justo, desde que se trate de uma avaliação justa -, tive de estudar muito; entreguei-me à filosofia, li Platão, Kant e Hegel, discuti teses, apresentei dissertações, fui classificado, licenciei-me, mestrei-me, doutorei-me.
Se tivesse querido ser médico, ou engenheiro, teria tido igualmente de me preparar. Seria testado, examinado, classificado sobre anos de empenho e trabalho.
Curiosamente, para se ser político, não me parece que o candidato tenha de se preparar grandemente: sob o argumento um pouco débil de que os políticos são avaliados pelo povo, nas urnas, a democracia não considera a política como matéria de estudo e reflexão. Esquece que seria importante fazer-se uma ideia, mesmo pálida, sobre o que o senhor A ou o senhor B compreenderam da posição de Aristóteles, de Rousseau ou de John Locke, de Maquiavel, de Hegel, Saint-Simon, Proudhon ou Bakunine, Marx, Engels, Popper ou Rawls - e abrevio, limitando-me a juntar estes poucos nomes só para recordar que, se não conseguimos imaginar Mendes Bota, Luís Filipe Meneses ou José Sócrates a pronunciarem-se acerca das teorias que estão associadas a esses pensadores, é porque, no fundo, temos noção de que para se ser político não é necessário estar-se preparado, ou seja, haver-se estudado minimamente História, Geografia, Sociologia e Filosofia Política: basta ter-se lábia; ingressar-se, na altura certa, numa juventude partidária; ligar-se aos pesos pesados do partido escolhido; e aguardar a sua vez. É isto!

É próprio da democracia a ideia de que a política não deve estar reservada a especialistas; ou que deve ser algo tão simples e acessível a todos, que uma cozinheira ou uma mulher-a-dias (sem desprimor) seriam capazes de a exercer: e, mais, teriam direito a fazê-lo. O problema está no seguinte: as cozinheiras ou as mulheres-a-dias não se dedicam à política; dedicam-se-lhe, em contrapartida, uns senhores e umas senhoras que se tornam profissionais do parasitismo: espécimens, em geral, de uma ignorância atroz e de uma ambição ignara. Bem sabem que não têm de mostrar o que compreenderam do assunto; bem sabem que lhes basta ser hábeis.

Eu serei avaliado. Pela sexta ou sétima vez na minha vida. Certo.
Mas, na verdade, os políticos que se instalaram na 5 de Outubro deveriam, em algum momento, ter respondido a algum tipo de teste, feito um qualquer exame de Política, de Pedagogia, de Cultura ou de Educação; se tivessem sido avaliados em devido tempo, não assistiríamos à sua penosa incapacidade para encontrarem os meios certos e justos para avaliarem os outros...

sábado, março 22, 2008

SKINNY [III]

Pensei que não ia adormecer, que nunca mais na vida tornaria a conseguir dormir.
Enganei-me redondamente.
Queria gritar por Skinny. Via-os retirarem-se e abri a boca com o seu nome desenhado nos lábios. Mas enganava-me de novo. Não me saiu voz e o cansaço era tamanho que mergulhei numa escuridão enorme. Depois, acordei. E readormeci. E acordei novamente, por breves instantes, e tornei a cair num sono não reparador, um sono angustiado e infeliz.

Só despertei uma última vez com a invasão do corpo policial. Eram cinco ou seis. Gritavam ordens, disparavam armas, moviam-se pelos quartos, prendiam pessoas, libertavam-me, agasalhavam-me num cobertor, punham-me entre as mãos dormentes um chávena de uma bebida amarga, fumegante.

Eu só queria saber de Skinny. Perguntei ao inspector se haviam prendido o chefe do bando. Que sim. Se era um miúdo franzino. Que não. Não havia nenhum menino franzino. O chefe era um jovem de bom aspecto. Não falava. Nenhum falava, aliás. Haviam sofrido um tratamento que os fizera esquecer tudo. Ou um tratamento ou, alternativamente, marteladas na cabeça. Nenhum dos homens sabia dizer fosse o que fosse. A não ser «Bllllgh» e «rhmmmm» ou assim. Com olhos esgaseados.

Também me haviam feito algo. Tenho um corte na cabeça. Fechado com agrafos. Julgo que algo me foi implantado no cérebro. Riem-se. Todos. Ou ficam tristes, têm pena. Já há quem fale em internar-me. («Numa casa de repouso», sugerem, «só para descansar por uns tempos...»)

Às vezes pergunto-me se não sonhei. Mas, então, que é feito de Skinny? Também me pergunto se ele era realmente o chefe, ou se os convencera de algum modo a segui-lo (o miúdo é muito esperto, tem lábia; comigo, sempre a teve...) num estranho plano para, depois, me salvar. Teria batido, no meio da confusão, com um martelo nas cabeças deles? Mas, então, por que não aparecia?

Outras vezes, penso que ele era o chefe, sim. E que me implantaram qualquer coisa na cabeça. E vem-me à ideia: um dispositivo para me tornar um pai mais calmo?! Menos nervoso? Menos irascível? Porque, agora, me tenho sentido um excelente pai. Claro, talvez isso se deva ao facto de o meu filho ter desaparecido...

Em todo o caso, não tenho com quem discutir esta última ideia. É, aliás, quando a refiro, sempre que a refiro, que sacodem compungidamente a cabeça. E falam em internar-me!

FIM

segunda-feira, março 17, 2008

SKINNY [II]

Quando despertei num quarto húmido, com ervas ruins a subir pelas paredes e graffitis em vez de quadros, não precisei de muito tempo para me lembrar do que sucedera.
Estava deitado sobre uma enxerga que cheirava a mofo, em tronco nu, com as pernas e os braços amarrados por uma espécie de cintos. O corpo doía-me por todo o lado.
A seguir, percebi que um rosto, que me pareceu angustiado, se debruçava sobre mim. Skinny. Sorri-lhe, com terríveis dores na boca, como se a rasgasse. Sorria-lhe para o sossegar; fez efeito. Imediatamente vi a angústia transformar-se em alegria.
- Pai!
- Skinny!
Relanceei o olhar pelo quarto. O grupo estava reunido junto à porta. O rapaz que me injectara aproximou-se. Temi por Skinny. Tentei soerguer-me, mas debalde.
- Deixem-no em paz! -, gritei. - Ouviram? Façam de mim o que quiserem, mas deixem o meu filho em paz!
Houve gargalhadas. Preso, não consegui abraçar o meu filho, protegê-lo, ampará-lo, defendê-lo.
- Bem, vamos deixar-te descansar um pouco, pai. Não te preocupes, está tudo bem! -, disse Skinny. Para meu grande espanto, ordenou ao bando: - Toca a sair, rapazes!
E para meu espanto ainda maior, o grupo respondeu-lhe, em coro:
- Sim, chefe!

(CONTINUA)

domingo, março 16, 2008

SKINNY: um conto minimalista

Skinny, meu filho menor, estava particularmente desobediente, o que não costumava acontecer quando - e era o caso - eu vinha de o recompensar, pelo bom desempenho escolar, com uma ida ao cinema.
Mais: ao cinema e a seu modo, com tudo o que eu habitualmente negoceio ou recuso - as pipocas, a coca-cola, etc. etc. etc.
Por que raio me lixava agora o puto desta forma? Eu chamava-o e ele não ligava; afastava-se demasiado; atravessava ruas a correr. Furibundava-me. Dei comigo a berrar, por entre cabeças de transeuntes que se voltavam para mim, surpreendidos e assustados.
Quando Skinny enfiou por um beco estreito e estranho, pejado de graffitis e malta da pesada em todos os recantos, considerei que era tempo de pôr cobro a uma atitude tão inaceitável. Decidi-me a mostrar quem mandava ali, embora tivesse algumas dúvidas sobre quem realmente seria. Meti-me pelo beco, capaz de puxar o garotão por uma orelha, de lhe assentar um par de biscoitos nas nádegas, de lhe dar dois gritos que lhe chegassem efectivamente ao cérebro atrofiado. Falava comigo mesmo, como os malucos. «Tu vais ver! Tu vais ver!» e «Anormal duma figa!»

Naquela fúria despropositada, não cheguei a reparar que me cruzava com grupos de mau aspecto, bandos de barbas por fazer e capuzes.
Skinny desaparecera. Só o voltei a ver muito adiante, em cima de um telhado, de onde me acenava alegremente. Subira por um cano, balançava as pernas magras e não reparava, dali, nos óbvios indícios do meu estado apoplético.
Mas, para mim, era muito tarde. Porque um bando já me rodeara.
O tipo que me falou nem tinha particularmente mau ar.
Caí imediatamente em mim. Esqueci Skinny. A raiva transmutou-se-me em genuína cobardia. Lembro-me de que lhe disse, ao sujeito:
«Não tenho nada!» -, e acrescentei, num sopro de voz, «man», para me mostrar da mesma laia, como um previsível compincha, um potencial companheirão.
«Nós também não queremos nada», respondeu. «A não ser a ti».
Mais rapidamente do que o tempo de que eu dispus para narrar todo este acontecimento, ergueu-me a manga do braço direito e, perante a minha estupefacta inércia, introduziu uma agulha na minha veia.
Vi o produto da seringa descendo no interior do vidro, passando-se-me para o sangue, ouvi, vagamente, como num sonho, a voz de Skinny, e mais nada.

(CONTINUA)

sábado, março 15, 2008

APRENDER A DESESCREVER

Sartre foi contemporâneo da introdução do som no cinema. E desdenhava dessa inovação. Pior, muito pior: mostrou-se rigidamente contra uma tal mudança. Passados tantos anos, e conhecendo nós a fortuna que a história posterior reservaria ao cinema sonoro, podemos troçar da ingenuidade de Sartre, ou lamentar a sua ausência do dom da profecia, ou a sua cegueira para todas as possibilidades que a invenção encerrava em si. Podemos. Mas faríamos mal, porque os argumentos do filósofo são de uma inteligência fulgurante e porque, no fundo, ele tinha razão. A história encarregou-se de lha retirar, mas o ponto é: o que ele afirma é verdade.

Alegava Jean-Paul Sartre que o cinema nunca deveria confundir-se com uma tentativa de «copiar» e transportar, para a tela, a realidade, e sim ser visto como arte, isto é, como amplificadora, intensificadora do real, numa transfiguração cujos dispositivos seriam, pela própria natureza dessa arte, o movimento e a expressão; por outras palavras, a linguagem do cinema não é a linguagem oral, mas a linguagem dos corpos e dos rostos.
Deste ponto de vista, a ausência de som, o silêncio intrínseco dos filmes, longe de ser uma perda, seria a exigência da concentração do espectador nos outros elementos. E portanto, da mesma maneira que um cego desenvolve capacidades que em nós são incipientes, o grande realizador e o grande actor trabalhariam talentos cinematográficos, de modo a exprimir, sem a distracção do som e da voz, o essencial.

Recupero este argumento porque me sinto, hoje, numa posição similar à de Sartre.
Sei um pouco mais do que ele: sei, por exemplo, que daqui a trinta anos (ou menos) a História terá demonstrado que eu não tinha razão; sei que se terá criado uma normalidade linguística em face da qual os argumentos reaccionários que exponho hoje só suscitarão risos.
Mas a questão é que não posso senão estar contra o acordo ortográfico que já entretanto se estabeleceu. E que me arrepio à ideia de que, para escrevermos como os nossos irmãos lusófonos, deixaremos cair as sílabas átonas, não podendo (senão pelo contexto, como é evidente) distinguir, digamos, a palavra «facto», da palavra «fato». Tudo serão «fatos».

O meu argumento é perfeitamente aristocrático e, por isso, destinado a perder.
Eu sei que a língua portuguesa é difícil de escrever; sei que a maioria dos portugueses comete erros graves; não gosto, de facto, de ler os textos dos meus alunos que, em geral, são ortograficamente absurdos.Não gosto de os ler, de facto, nem costumo lê-los de fato. (E gravata!)
Mas sustento que, de alguma forma, essa dificuldade é um bem, não um mal. Ela significa: «O universo da leitura e da escrita é um universo rigoroso e exigente, uma espécie de templo reservado a uma espécie de eleitos - os que merecem entrar, quer dizer, em última análise, os que estão dispostos ao sacrifício e ao trabalho de aprender a ler e a escrever, fazendo-o com dedicação e cuidado, com atenção, amor e empenho na coisa amada».

A ideia de que, se Maomé não vai à montanha, a montanha que venha a Maomé, isto é, se os jovens - por exemplo - revelam dificuldades em aprender a escrever, então há que resolver o problema reformulando a escrita, libertando-a de todas as agruras, ou de tudo o que faz dela um material particularmente subtil e superiormente expressivo, sempre me pareceu errada. Está ao nível de toda a política da Educação levada a cabo por este ministério: se as crianças têm insucesso, então, em vez de levarmos os alunos ao sucesso (o que seria demasiado trabalhoso), leve-se o sucesso aos alunos, exigindo-se muito menos, aceitando-se quase tudo, dificultando por todos os meios o acto de reprovar. Do mesmo modo: se os irmãos brasileiros, moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos, são tomenses ou timorenses não lidam bem com os «h» aspirados, os «c» e os acentos que enriquecem o português de Portugal, suprima-se tudo isso.

Gosto muito da objecção segundo a qual, se pensássemos assim, como eu, ainda estaríamos a escrever «pharmacia» ou - na sua versão mais dura - estaríamos hoje falando latim.
É uma objecção (ou «objeção»?) que não faz o menor sentido, ou passa ao lado do problema porque, afinal, a língua irá necessariamente mudando ao longo da História, a ortografia também, e só me parece mal que essa mudança se faça por decreto e num acordo que se estabelece em função de interesses políticos e económicos linearíssimos e pobrezinhos.

Escrever bem deveria ser um orgulho e uma distinção; acredito que aprender a escrever uma língua que tem dificuldades próprias, sem as rasurar nem simplificar, é um empreendimento que estimula a inteligência, que a abre e ramifica, obrigando a mais sinapses e rasgando mais percursos da dinâmica cerebral, do que aprender a escrever na língua do «SMS». :)

quarta-feira, março 12, 2008

A LUTA CONTINUA (APESAR DE SE ME IR ESGOTANDO A ROUPA PRETA...)

Eu bem sei que o Miguel Sousa Tavares e o Emídio Rangel são idiotas. Ponto final.
Não obstante, quando leio os seus artigos a transbordar de peçonha, conduzidos por aquela falta de objectividade que anuncia ressentimentos e raivas de outros carnavais, acabo sempre por me perguntar como diacho veria eu a luta dos professores se, acaso, a não vivesse por dentro. Imagino que sou um cidadão comum, medianamente informado. Um manga-de-alpaca, um vendedor de gelados, um Serafim Lampião que está, à noite, sentado, com a família, diante da televisão, ouvindo a senhora dona Lurdes Rodrigues de mãos postas, os dedos unidos nas pontas, entrevistada por uma Judite de Sousa que lhe não dá réplica («mas ó senhoga ministga, a senhoga não acha que...?»), ou ouvindo o senhor habilidoso da Confederação de pais, ou seguindo sequências rápidas de imagens da manif que juntou cerca de cem mil, dos quais, entretanto, eram focados alguns, cinco ou seis, respondendo, em geral desnorteadamente, à simples pergunta: «Afinal, por que protestam os senhores?!» Imagino que tenho um filho, dois filhos, três filhos na escola pública; imagino que nenhum dos meus filhos fosse um barra, imagino que houvesse negativas aqui e ali e, naturalmente, recados na caderneta; imagino que o mais velho, viciado do telemóvel, advertido várias vezes por um professor - farto de o aturar mais o aparelho sob o tampo da secretária, teclando mensagens de amor durante as aulas -, me chegaria sempre a casa com fúrias e indignações inauditas contra todos os docentes, e histórias das perseguições que lhe moveriam concertadamente. Que pensaria eu da justeza da luta dos professores? Até que ponto compreenderia - eu, Serafim Lampião, adequadamente invejoso dos professores que, tal como os veria, «trabalham pouco, não querem trabalhar mais, têm férias longas» e, pelos vistos, «agora nem sequer querem ser avaliados»?!
Estaria capaz de compreender o sentido desta indignação?
Teria noção de até que ponto este ministério vem escangalhando sistematicamente as mínimas possibilidades de um ensino sério e responsável?
Perceberia as implicações e os estragos inflingidos, quase até ao ponto do não-retorno para os próximos dez ou quinze anos? (Sim, sempre fui um optimista!)
Perceberia, ao menos, a insanidade que constitui admitir que, ainda que as medidas fossem justas e correctas, nunca poderiam ter qualquer razão de ser se incompreendidas e rejeitadas por milhares de professores?
Hesitaria?
Sentir-me-ia perturbado?
Pensaria duas vezes?

A minha pergunta, no fundo, resume-se a este pouco: não será tão obtuso como estar no posto de ministro da Educação CONTRA os professores - o lutar contra as medidas ministeriais sem conquistar a opinião pública, isto é, sem tratar simultaneamente de a conquistar???

E esta pergunta tem, como é evidente, uma alínea: como se ganha um país sistematicamente desinformado?

domingo, março 09, 2008

CARTA ABERTA DE SOLIDARIEDADE AO SENHOR AUGUSTO SANTOS SILVA

Convocada que foi uma reunião de socialistas, encontravam-se à porta do local previsto, à espera dos senhores reunintes, uns quantos professores protestantes, aos gritos de uuuhuuu, uuuhuuu! e acenando com lenços brancos.

O senhor, como igualmente se sabe, deu-se mesmo ao trabalho de ficar ao rubro, apesar de esta ser uma cor de que não gosta. E disse, como pessoa frontal que é, que se tratava de uma manobra intimidatória. Tem Vossa Excelência inteiramente razão. Todos conhecemos o terrífico poder intimidatório de um lenço branco. É feroz! É bárbaro! Aliás, ninguém o compreenderá tão bem como o senhor Camacho, treinador do Benfica, o qual Benfica, ao que dizem os historiadores mais idosos, foi já tão grande como o PS parece ter sido outrora. Pois o senhor Camacho, coitado, esse nem prega olho, imerso em pesadelos de lenços brancos, que tenta afugentar recorrendo a uma fórmula mágica, que lhe posso indicar (embora se tenha provado cientificamente que não vale grande coisa): «Hay que salir a gañar! Hay que salir a gañar!»

Lembrou ainda o senhor, senhor Silva, que o 25 de Abril e a democracia foram feitos por gente do seu campo, como Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre. (Por acaso, três exemplos infelizes no que toca ao apoio «deste» PS, até porque um deles só o poderia apoiar em sessões espíritas, mas não nos percamos nos pormenores); que foram feitos por gente como essa, sim, e não por Álvaro Cunhal (aí, fiquei perturbado com uma levíssima dúvida, por causa de um filme protagonizado pelo senhor Paulo Pires segundo o qual o senhor Álvaro Cunhal teria andado a mexer-se um bocado contra o fascismo: mas há-de ser erro meu; tratarei de reler os meus livros de História recente e nunca mais acreditarei nos filmes do senhor Paulo Pires, que é modelo e não propriamente historiador!). Não por Álvaro Cunhal nem por Mário Nogueira. E mais, muito mais poderia ter dito, o que só não fez por decência ou piedade. Mas eu ponho os pontos nos ii: Mário Nogueira, por exemplo, na altura, que eu saiba, portou-se como um fraco e como um débil mental e político. Era uma criançola ranhosa, é o que é!

Mas deixe-me vir em socorro da sua memória, senhor Silva: o senhor esqueceu até ilustres camaradas seus, que muito têm feito pela democracia. Permita-me referir - já para não mencionar o senhor engenheiro Sócrates -, o imenso e impagável Vitalino Canas, ou aquele senhor cujo nome não recordo mas, entretanto, desposou a lindíssima senhora Dona Bárbara Guimarães, ou o Palhaço Pepito que (revelo-o em primeira mão, uma vez que os maiores heróis são sempre homens discretos) é também um militante activo do PS: são, todos, pessoas que fizeram muito mais pelo humor livre em Portugal do que, digamos, os sobrevalorizados «Gato Fedorento». As graças que têm surgido à conta deles, do Vitalino, o da dona Bárbara, o senhor Coelho e quejandos! Por mim, há que dizê-lo, é raríssimo que apareçam na televisão e que, só de aparecerem, me não dêem imediatamente vontade de rir. (Ou de chorar, o que mostra que, como comediantes, dominam perfeitamente a técnica de fazer passar o espectador do riso ao choro e do choro ao riso, duas reacções tão opostas e, afinal, tão próximas!)

Terminou o senhor afirmando corajosamente, como é seu timbre, que, se for caso disso, o PS estará outra vez nas trincheiras. É de homem! Munidos, calculo eu, de imensas remessas de lenços brancos, arma moderna a que nenhum terrorista resiste.

Para o melhor e para o pior, senhor Silva,

Um Combatente da Primeira Linha

quarta-feira, março 05, 2008

2057 (V)

Um leitor que vinha seguindo aguda e ansiosamente esta história usou a expressão certíssima e certeira: «Não me digas que Lordingham descobriu esta orgia particular!?»

Utilizo a expressão, porque me serve e eu não teria inventado melhor. Orgia particular soa-me bem, agrada-me - sendo que, esta orgia particular teria mais de «particular» do que propriamente de «orgia».

Lap abriu a porta, não a Lordingham, que nunca aparecia em pessoa - a ponto de haver quem duvidasse da sua existência real -, mas a um pequeno grupo de indivíduos vestidos de negro, empunhando pequenos escudos redondos e viseiras que lhes tornavam inidentificável a origem planetária.
Por um microfone situado junto à boca, um dos agentes falou, com aquelas pausas enervantes através de que os polícias se asseguravam que nenhuma palavra escapava ao presumível culpado:
- Os vizinhos... queixaram-se... de risos... e gritos... embriagados... suspeita-se... posse e uso... de substâncias... não recomendáveis, repito: legais, mas não recomendáveis...
«Os vizinhos», pensou Liz, amargamente. Seu pai, professor de História do Período pré-Design (isto é, do tempo até à revolução de 2021), contava-lhe que, outrora, os habitantes de apartamentos se queixavam, frequentemente, de que se ouvia tudo o que acontecia nos apartamentos vizinhos; paredes mal concebidas, lamentavam-se; erros de construção. E pensar que, depois da revolução, o governo dos designers descobrira a virtude das paredes intercomunicativas. Que, de «erro de construção», se tinham elevado à categoria de «paredes não-separadoras», «paredes não-barreira», que não dividiam vizinhos, mas os punham à escuta uns dos outros, os uniam, os ligavam...
- Queira... fazer... o favor... de soprar... aqui.
- É... uma... verificação - acrescentava outro agente. - Simples... rotina.
- Por... favor! - insistiu outro.
- Por... favor -, mais um.
A delicadeza dos polícias era conhecida; mesmo quando agrediam - o que raramente ocorria numa sociedade do design, onde todos eram livres -, mesmo quando agrediam, faziam-no gritando, pelos seus microfones portáteis:
- Perdão.
- Perdão.

Liz estava perdida. Sabia-o. Não era procurada - se o fosse, já teria sido presa há muito - mas encontrava-se referenciada. Por muitos motivos: pela sede da bebida azul, por comportamentos no limiar da rebelião, que transformavam os objectos, recusando-lhes a função e o poder. Não era uma revolucionária, longe disso. Era incómoda. Talvez não chegasse a ser perigosa. Mas era uma pedra no sapato. Mais uma chata do que uma rebelde!
E ninguém a defenderia. Lap, menos do que qualquer outro.
Lap - pobre terrestre tonto -, que mal a conhecia e já fora tão incomodado por ela, dificilmente se ergueria para a defender. Aliás, ele tinha uma casa: ninguém com uma casa se arriscaria a meter-se em sarilhos. Ia acusá-la, portanto, de o ter desencaminhado.
- Por... favor! - insistia o polícia.
O aparelho por onde queriam que ele soprasse, nada tinha de ameaçador. Pelo contrário, era reconfortante. Apetecia entalá-lo na boca e adormecer, como se fosse uma chupeta. Lap aproximava-se. Porém, deteve-se. Olhou-a. Fixamente. Na boca. Na boca de gata.
- Desculpe lá. Eu estava a fazer alguma coisa proibida? - perguntou.
- Nada... é... proibido.
- Sopre... aqui... por favor!
- Por... favor...
Ao invés de o fazer, contudo, Lap beijou-a. Como quem descobre uma escolha que nunca fora escolhida. Como quem descobre um «possível» que sempre estivera escondido ao seu horizonte de possibilidades. Como, por exemplo, preferir um «Blootea» azul. E reivindicá-lo.

Os polícias ficaram sem saber o que fazer. Se aquela escolha fora a conquista de um novo possível para o mundo das possibilidades de Lap, não deixava também de ser, para os polícias, uma revelação: a revelação de uma possibilidade com a qual não sabiam como lidar.
E, desse modo, retiraram-se. Vagarosamente.
Era estranho. Era novo. Para todos.
Liz estava extasiada.
- Ainda há «Blootea» azul? -, perguntou-lhe Lap.

Os polícias regressariam. Com novas instruções ou novas ordens.
Era simplesmente uma pausa.
Mas Lap, mesmo ignorando o que o futuro lhe reservava, entendera e entendia mais, durante aquela curta pausa, do que o que conseguira descobrir ao longo de toda a vida.

2057 seria um ano de que não se esqueceria.

FIM

terça-feira, março 04, 2008

ANA DRAGO vs. DONA LURDES

Ensino aos meus alunos, no 11º ano, que, no acto e no modo de argumentarmos, deveria haver sempre um tal rigor, que, para se convencer outrem, a nossa argumentação não careceria de nada mais para além da sua própria força. Nada senão a solidez no encadeamento dos raciocínios, nada senão a forma como as ilações se imporiam por si.

Era bom, com efeito, que conseguíssemos concentrar-nos sempre nos argumentos. Deste modo, para ser convincente, um discurso nunca deveria depender, por exemplo, de uma voz bem colocada ou atraente. Sê-lo-ia tão-só pela sua lógica interna: ainda que exposto por um sujeito de fraca figura e voz débil, com espuma nos cantos da boca e nódoas na camisa.

Posto isto, devo confessar que me não é indiferente que a voz que defende os professores, no Parlamento, seja sobretudo a de Ana Drago.
Não me é nada indiferente que esta jovem brilhante se tenha tornado o verdadeiro símbolo político da luta dos professores, porque à inteligência dos seus argumentos se aliam coisas tão simples e acessórias como a limpidez e a segurança da sua voz; o pormenor de nos transmitir a ideia de dizer o que pensa, pensado profundamente tudo quanto diz (ao invés de se limitar a repetir o que já ouvíramos a outros, ou de se limitar a ler cábulas, como muitos dos seus colegas na Assembleia); ou até o modo como, delicadamente, conclui o seu discurso onde entende conclui-lo, não deixando que lhe cortem o pio, apesar da sempiterna ameaça de um qualquer Presidente que, no estrito cumprimento do regimento, lhe vai repetindo: «Esgotou o seu tempo, senhora Deputada»; «Faz favor de terminar!». Ana Drago responde «Termino já» ou «E termino, senhor Presidente...», mas prossegue triunfalmente até ao fim, ou até que tenha exposto o que considera essencial.

Esta jovem reconcilia-me com a política. Mostra-me como é, de facto, um preconceito extremo pensar-se que ser deputado significa, necessariamente, ser-se medíocre.
Ela, justamente, nunca o é.

Agradam-me particularmente os frente-a-frente. Os frente-a-frente com a ministra, então, são, para mim, momentos altos.

E mesmo tendo de me penitenciar por fugir ao terreno dos princípios, das ideias e dos argumentos, penitenciando-me por descambar para uma dimensão retórica e, sem dúvida, falaciosa, penitenciando-me por estar a elogiar Ana Drago de um modo que ela própria não veria com bons olhos, deixem-me perguntar: ao nível do simbólico, de que outra forma poderíamos ser tão intensamente postos em face da certeza clara e maniqueista de haver, nesta história, um lado certo e um lado errado, um lado bom e e um lado mau e, mais do que isso, um lado bonito e um lado feio, do que vendo Ana Drago, aqui e, além, a senhora dona ministra da Educação?

Este post não pretende argumentar. Não é racional nem razoável. Não visa convencer. Tomem-no por um desabafo: sinto-me bem representado. Está dito.

domingo, março 02, 2008

2057 (IV)

Entraram em sua casa às 20.02. As «flores-da-noite» abriam-se-lhes, a própria cor se mudara de castanho para um rosa convidativo.

Tendo ido buscar a garrafa de azul, isto é, de «Blootea» azul («Bluetea», afinal), sentiu uma espécie de nojo, incapaz de servir-se do líquido que enchia o interior de uma garrafa em forma de barata. Liz, porém, não parecia impressionar-se. Segurou nessa garrafa com evidente prazer e levou a barata de vidro aos lábios; fez uma careta. Como um gato surpreendido. Tornou a beber: áspero, ácido; depois, a uma terceira golada, o líquido pareceu bruscamente tocar em diferentes zonas da língua, acordar qualquer sentido adormecido no paladar. O olhar da rapariga brilhou.
Controlando o seu asco, Lap imitou-a. Percebeu a repulsa da sua língua impreparada para o sabor estranho, como se tivesse acabado de provar uma substância viscosa, produzida, com efeito, nas entranhas de uma barata. (Desculpem, sim!?) Forçou-se a provar novamente, em busca do mesmo olhar e do mesmo sorriso que Liz já encontrara. E, sim: algo se desanuviava, não só na língua, mas também no peito, nos membros, na mente, no espírito...

Lordingham, chefe do esquadrão que verificava as condições dos bares e dos restaurantes, mandando fechar, violentamente, todos os que não obedeciam, sobretudo, ao «Protocolo do Design», não gostaria de ver um macho e uma fêmea, a sós num apartamento, em torno de um «Bluetea», mas, ahahahah!, que poderia Lordingham fazer?, o apartamento de Lap era o apartamento de Lap, ponto final, não era um bar nem um restaurante, não era um «transporter» nem uma das galerias do ENTRA-4, não era um local público: como raio poderiam os homens de Lordingham saber que, na casa que Lap escolhera livremente - em vez de um veículo, em vez de um videophone -, um homem e uma mulher se entregavam, cada vez mais demoradamente, à experiência, entretanto tornada deliciosa, sublime, de degustar um «Bluetea»?

Estava bêbedo. Estavam bêbedos. Ou seja: eufóricos. Felizes.
- Nunca me senti assim - confessou Lap.
- Sentes-te livre.
- Nããão, não é isso. Livre já eu era. Sempre fui. Agradeço, ao Designer do Universo, ter nascido neste tempo e ter podido viver no glorioso ano de 2057, numa sociedade tão perfeita, tão livre, tão democrática.
- Estás errado - segredou Liz.
- Querias um «Bluetea», não querias? Estás a beber um «Bluetea», não estás? Eu escolhi esta casa, não escolhi?
- Oh, pobre ingénuo, não vês que esse é o segredo da sociedade governada pelos designers?
- «Design é liberdade»! - repetiu Lap o slogan da Confederação (a frase que encimava os templos consagrados ao Grande Designer do Universo).
Liz ria. Com um sentimento de felicidade em que despontava um nódulo de desespero. Ela, filha de professores caídos em desgraça, compreendera que, naquela sociedade livre, em que nada se proibia, os objectos, porém, detinham todo o poder sobre os cidadãos: manipulavam-nos, obrigavam-nos a fazer coisas, a tomar decisões que só aparentemente eram deles, posto que, sob a aparência de «decisões», de caminhos «livres», não haviam sido realmente decididas por eles que julgavam tomá-las...

Nada era proibido porque os objectos, as casas, as cadeiras, os bares, as garrafas de bebida, os bancos de balcão, as pinturas, os postos de venda, tudo-tudo-tudo, tudo coisas concebidas pela Confederação ou aprovadas por esta, faziam fazer o que se esperava que os cidadãos fizessem. Nem mais nem menos. Ele não percebia que as suas próprias cadeiras o impediam de entrar em sua casa antes da hora que se entendia ser conveniente para se entrar em casa, depois de ter trabalhado, bebido um copo, comprado coisas...? Não tnha percebido que até o desconforto dos bancos-de-balcão, longos, sem costas, estava pensado para uma circulação rápida de clientes, que passavam dando de imediato o lugar a outro...?
Alguma vez conseguiria explicá-lo àquele homem generoso, mas tolo?
E valeria a pena?
Oh, Lap, pobre e desgraçado terrestre, tão satisfeito porque escolhera uma casa, em vez de outras coisas, sem perceber que a casa, a própria casa o atraíra, ou seja, lhe dissera, de algum modo, «compra-me», simplesmente porque...

Batiam à porta. Com violência. Com raiva.

(Continuará?)

sábado, março 01, 2008

2057 (III)

Lap tinha, em sua casa, uma garrafa de «Blootea» azul. Por outro lado, não lhe apetecia ir já para casa - nunca antes das 20.00 horas porque, até esse momento, todas as cadeiras que existiam no seu apartamento, sob efeito da luz diurna, como que secavam, se tornavam muito rígidas, de modo que só um considerável tempo após o pôr-de-sol é que essas «flores-da-noite», como lhes chamara o designer, desabrochavam, acolhiam, convidavam, abrindo-se então, amolecendo então, seduzindo então.

A casa fora o grande investimento de Lap: como toda a população do quinto escalão da sociedade, também ele, com o seu ordenado restrito, tivera, aos trinta anos de idade, de fazer a grande escolha da vida: uma casa ou um veículo ou um videophone. Quem optava por habitação, teria de usar «transporters» (veículos públicos)e telefonar de «phoners» (videos de comunicação públicos); os que preferiam o veículo, prescindiam de casa (alguns dormiam no próprio veículo, outros não chegavam a deixar o lar paterno) e, que remédio, comunicavam também de cabines fónicas (os supracitados «phoners»); já os que escolhiam videophone, por fim, faziam grande vista quando o atendiam em pleno «transporter», invejados pelos demais utentes, e dormiam, literalmente, em cemitérios, onde se alugavam túmulos. (Em geral, era o que preferiam: não pareceria bem, ou melhor, pareceria particularmente ridículo e absurdo um possuidor de vp - videophone pessoal - viver ainda em casa dos pais...)

Para matar o tempo, Lap conduziu a sua companheira (a propósito: Liz) a um gigantesco posto de vendas, o ENTRA-4: o anúncio desse posto, «Quatro entradas para uma saída feliz», devia ser tomado à letra. Quatro portas iluminadas e alegres, como bocas de consumidores sorridentes, convidavam pequenas multidões a desaguar nos imensos salões, de onde só saíam, relutantantemente, por uma porta estreita e fria diante da qual, muitas vezes, a pessoa recuava, lembrando-se de que, afinal, talvez ainda fosse muito cedo, preferindo dar mais uma ou duas voltas pelas galerias.
- Mas o que vamos fazer aí? - perguntava a rapariga.
- Comprar coisas.
- Não quero comprar nada. Não preciso de nada!
Lap ficou surpreendido com esta resposta. Era uma alienada, estava visto. Uma focinho-de-gato e, ainda por cima, alienada. Uma pessoa sem liberdade, incapaz de fazer escolhas na vida.
- Devemos ser livres -, admoestou Lap, consciente, senhor de si. - Temos de saber escolher. É importante. Por exemplo, entre uma cadeira ou uma máquina de barbear, um candeeiro ou um vestido de noiva, uma garrafa de refrigerante ou...
- Eu já fiz a minha escolha e estou a ver que não consigo satisfazê-la. Quero um «Blootea». Azul.
- Mas... isso não é normal, isso não...
- Porquê?
- Mas...
- Porquê, bolas!?
(Está visto que continua)