domingo, março 08, 2009

FERA NOCTÍVAGA

De manhã, ao acordar, vejo no tecto do meu quarto as pegadas sanguinolentas da fera que durante toda a noite por ali se passeou, desafiando as leis da gravidade.

Não tenho medo. Por enquanto. Sei que, à noite, durmo e sei - já percebi - que a fera não detecta seres que dormem. O seu faro busca vida, busca vigília, busca o pavor daqueles que não sejam capazes de pregar olho. (Imagino que me não baste «fingir» que durmo; imagino que ela se não deixaria enganar, como os leões não são enganados pela falsa coragem de um domador intimamente medroso...)

Às vezes, ao puxar o cobertor para cima, antes de apagar o candeeiro, penso: «Se acordar durante a noite, estou perdido!» ou «Se tiver insónias, acabarei caçado...»

Faltam-me dados: como é este ser de cabeça para baixo, deslocando-se no tecto, devoraria uma pessoa como eu, numa cama sobre o chão? Sugar-me-ia até si? Saltaria lestamente para me abocanhar e voltar ao tecto, com o meu corpo entre as suas presas? Como uma águia que pica, apanha o atemorizado coelho e sobe, de novo, com ele aprisionado nas garras?

Nada sei.

Sei que esta manhã, quando acordei, uma vez mais, lá estavam as pegadas: a forma das garras bem estampada, a sangue, no tecto.

sexta-feira, março 06, 2009

O PRESIDENTE QUE MANDOU PROIBIR TODA A MÚSICA: TRÊS

Conduzido à presença do presidente, começou a tremer.
O homem olhava-o, muito velho mas muito vivo, curioso de saber quem se atrevera a desafiá-lo.
Não fez q1ualquer pergunta. Mirava-o, simplesmente.
Ilídio queria sacar a flauta, mas tremia demasiado. Pensou: Estou perdido! Por um pouco - por um pouco não me salvo! Era só conseguir pegar na flauta, só isso, era só chegá-la aos lábios, só isso, mais nada, e soprar, só. Mas como conseguir com as mãos tremendo assim...?
Odiava-se por estar tão perto de mudar completamente a situação e não ser capaz de o fazer.
Passaram segundos. Minutos. Não havia tempo.

E de repente, lutando contra si mesmo, Ilídio segurou com força na flauta.
Viu o espanto acudir aos olhos do velho.
Se não lhe dessem um tiro, se o não abatessem, se conseguisse mais um pouco, um pouco mais, talvez...
Chegou a flauta aos lábios.
Ia conseguir: era só soprar e deixar que os dedos, sobre os buracos, manipulassem o som. Faltava tão pouco. Soprou. E, repentinamente, o seu sopro não era um sopro, era uma melodia ondeando, um fio de ar belíssimo, um desenho nos ouvidos...

Olhou para o presidente.
O espanto transformara-se. Em encantamento?
Não.
Em ironia.
E na distância que aquela ironia criava, Ilídio percebeu um vazio que a música não conseguia transpor, como se o presidente lhe fosse insensível, como se o presidente lhe estivesse fechado.
E o semblante do presidente fechava-se mais, como numa casa em que vemos cerrar com fúria janelas e portas. Já não era ironia, era raiva.

Ilídio não percebia.
Ilídio não percebia aquela fúria.
Ilídio percebeu.
De súbito.
O presidente não o podia ouvir. Ensurdecera; fechara-se completamente para a música, ele que tanto a amara.
O presidente era surdo.

A música não o salvaria, afinal.
Pelo contrário, perdia-o.

Deixou cair a flauta no chão.

FIM

quinta-feira, março 05, 2009

O PRESIDENTE QUE MANDOU PROIBIR TODA A MÚSICA: DOIS

Mas sucede que, de facto, Ilídio era escutado.
E ele, que sempre achara que, se o escutassem, se deixariam render ao poder da música, ele que julgava intimamente que só quem não ouvia música poderia proibi-la e, pelo contrário, quem ouvisse nem que fosse um trecho, não seria capaz de lutar contra ela, percebeu, um dia, que estava enganado.
Ilídio, que pensava que devia fazer tudo para que o não ouvissem, mas crendo, no fundo, que, se o ouvissem, não seriam capazes de fazer mal ao autor de algo tão belo, percebeu, um dia, que estava enganado.
Ilídio, um dia, viu a extensão do seu engano. Alguém o ouvira. Um vizinho, quem sabe, uma velha que passava na rua, um gato. Alguém ouvira. E se queixara, certa noite. E nessa mesma noite o vieram prender.

Mas quando soube que o presidente fazia questão de o ver pessoalmente, sentiu, de novo, espreguiçar-se a esperança: o presidente gostara de música, era sabido; o presidente, que devia ser muito velho (porque já era presidente, lembrem-se, quando o seu pai tinha seis anos), o presidente, que acompanhara, financiara, patrocinara orquestras e compositores, deixara, por alguma razão, de apreciar música, mas tinha certamente, no interior de si, uma reserva qualquer de curiosidade, uma melodia a correr-lhe ainda nas veias, uma nostalgia, um secreto desejo de harmonias sonoras.
E, portanto, Ilídio levou no bolso, para a entrevista com o senhor presidente, a sua flauta.
Escondida, mas pronta a disparar.
Escondida: mas, se tivesse tempo, se soubesse aproveitar o momento - estava certo - não havia como não conseguir acordar o senhor presidente, não havia como não fazê-lo recordar uma longínqua maravilha algures num recôndito ponto da sua memória, não havia como não salvar-se...

Escondida, mas pronta a salvá-lo e a salvar a música e a salvar a pátria, num bolso, a flauta.
Escondida, num bolso, a flauta.
A flauta, escondida.
Escondida, a flauta.
Ah: num bolso!

quarta-feira, março 04, 2009

O PRESIDENTE QUE MANDOU PROIBIR TODA A MÚSICA: UM

Tocava em segredo.
A flauta fora-lhe oferecida pelo pai; curiosamente, o segredo da sua música fora uma condição imposta pelo pai.
É estranho que se fale de música secreta: um livro pode ser lido em silêncio; um desenho pode ficar oculto; quase toda a forma de arte, que me lembre, pode permanecer fechada. Há gavetas, há pastas, há chaves. Para quase toda a obra é possível inventar-se uma tampa. Para quase toda. Mas para a música, dificilmente, porque a partir do momento em que eu sopre ou dedilhe uma nota, não garanto que não haja, algures, algum ouvido pronto a captá-la. Não há gavetas para as notas, não há tampas, não há chaves.

Ilídio compreendia, no entanto, o seu pai.
O pai ainda vivera o tempo em que o seu pequeno país era considerado a pátria da música. Em que os grandes compositores e os grandes músicos eram respeitados e amados. Em que podiam ouvir cânticos entoados pelas ruas. Em que todos os dias havia espectáculos.
Um bisavô de Ilídio fora músico. A música era o seu sangue. Ouvia-a no interior do seu corpo. Tinha até mais força do que o sangue, porque nunca ouvira o sangue a correr nas veias.

O pai de Ilídio não teria mais do que seis anos, quando a música começara a ser proibida pelo presidente.
Quase com raiva. O que era estranho, posto que o próprio presidente fora, durante anos, um melómano, um defensor das Artes e enorme patrono da música.
Abria salas, mandava construir coretos, financiava orquestras.
Depois, começaram a surgir as proibições.
E as perseguições.

Ilídio recebera uma flauta, pois, numa época em que não havia flautas e ninguém saberia o que fazer com elas.
Numa altura em que, na antiga pátria da música, a música era interdita.
Teve de aprender a tocá-la sozinho.
Soprando. Desafinando. Descobrindo. Afinando. Assobiando leve, leve, leve e docemente por um canudo em madeira.
Mas tinha de o fazer em segredo.

(Tinha sempre o medo e a esperança - o medo mesclado com a esperança - de que, algures, fosse onde fosse, alguém ouvisse a melodia que tirava do nada, ou de quase nada, de um simples pau com alguns buracos...)

terça-feira, fevereiro 24, 2009

CARNAVAL ALENTEJANO

Não sei por que me pareceu boa ideia ir passar a terça-feira gorda a uma aldeia alentejana.
De lá, da dita aldeia (já cidade, aliás) garantiam-me, com a esperada entoação cantada: «Anda, vás vêr que o corso carnavalêsco é aqui muito engraçadú!».
E eu fui. Fiz pior: convidei amigos. O inefável M., coitado, para que fosse com a sua família juntar-se, na citada aldeia já cidade, à minha prória família (o que é castigo bastante: convidar alguém que não haja cometido qualquer crime nem tenha contribuído para a fabricação dos meus filhos - que se saiba! -, a conviver com eles ...)

Tínhamos combinado, sob as ordens irrevogáveis da senhora dona sogra, que, saindo de Reguengos, íamos todos almoçar à bela Monsaraz, gozando a paisagem que se nos estenderia das ameias do castelo abaixo, enquanto degustávamos umas migas ou uma carne de porco, regadas com um tinto. Mas tínhamos de estar de regresso a Reguengos às catorze horas, nem um minuto mais, de forma a podermos assistir à saída de um corso que, segundo a sogra, não ficava atrás do que de melhor se faz no Rio de Janeiro ou mesmo em Loulé.

Assim se fez.
À entrada em Monsaraz, ainda se nos ouviam maravilhados e comovidos «Ahs», «Ohs» e «Uiiiiiiiiiiiiiins» (estes últimos, obviamente, da goela da petiza...)
A tragédia só principiou a mostrar as unhas no momento em que tentámos o primeiro restaurante. Não sei como, quando nos contámos, éramos treze! Queríamos uma mesa para treze pessoas - em Monsaraz - à hora do almoço - na terça-feira gorda. Receberam-nos, evidentemente, com desprezo e troça. Em pronúncia alentejana, que faz soar ainda mais despreziva e trocista o desprezo e a troça. Não nos levaram, talvez, a sério. Gritaram-nos, por fim, «Nem pensari!».

No segundo restaurante, igual recepção.
O mesmo no terceiro.
Andámos às cabeçadas, à torreira do sol, de restaurante em restaurante, deparando com todos eles a abarrotar de gente que se regalava com as migas e a carne de porco.

Percebemos que, se insistíssemos em comer, não poderia ser em Monsaraz.
Novos planos da sogra. Reenfiámo-nos, então, nas viaturas. Procurámos uma aldeia adiante. O parque de estacionamento, com carros em cima uns dos outros, fez-nos entender que nem merecia a pena parar.

Entretanto, eram catorze e trinta. A lírica ideia de estarmos às duas em Reguengos já passara de moda. Íamos à cata de tascas, tabernas, fosse o que fosse. Na aldeia mais à frente também não conseguimos convencer proprietários nem empregados façanhudos.

Voltámos a Reguengos a estoirar de fome. Vamos ao «Barril»? Boa! É do baril!

No «Barril», já, portanto, em Reguengos, tivemos de nos dividir por duas mesas.
Um jovem de buço mal semeado veio tomar notas, mas éramos muitos, estávamos cheios de fome, o calor apertava, falávamos ao mesmo tempo, o rapaz enervava-se, desapareceu e não tornou a aparecer. Veio, em seu lugar, um quase adulto que nos pediu desculpa, mas que o mocito se sentira indisposto e, portanto, teríamos de refazer todos os pedidos.

Entre diversas e confusas exigências, um de nós encomendara uma picanha, mas ressalvando, talvez preocupado com a linha ou com a saúde, que não trouxessem batatas fritas. «Em vez disso, por favor, veja lá, por exemplo um arrozito...»

A comida demorava a chegar. Não deixei de reparar, mais tarde, que a picanha do dito veio, finalmente, carregada. De batatas fritas.
Chamámos o quase adulto, explicámos-lhe que se preferia realmente arroz.
Voltou dali a pouco. Explicou que o arroz acabara mas, entretanto, tomara a liberdade de mandar fritar mais umas batatitas que, aliás, eram literalmente três ou quatro palitos num pirezinho de tremoços.

Na parte das sobremesas, então, parecia nada haver já. A não ser o doce da casa. «E isso é bom?» Oh, sim, oh, sim, delicioso. E o quase adulto esmerava-se na explicação convincente, apurava-se na descrição dos ingredientes e dos processos. Estávamos rendidos. Saiu por um instante. Ei-lo: Tinha-se enganado, já não havia doce da casa!

Saímos atrás de uma música roufenha, que nos acenava lá de fora. «Querem ver que o corso não anda longe?» Era, de facto, o corso: uns alentejanos vestidos de mulher, muitos miúdos mascarados de palhaço, cornetas e papelinhos.

No Brasil não há disto!

Nem em Loulé!

domingo, fevereiro 15, 2009

UM RAIO DE UM DOMINGO

1. Hoje de manhã, tendo decidido passear ao sol com a pequenina Daisy, vi-me bruscamente obrigado - com ela ao colo - a esperar que passasse, primeiro, toda uma série de corredores de alguma maratona amadora. Ansiava por ver entre eles, a qualquer momento, a figura bem conservada de José Sócrates, que um jornal de comediantes espanhóis, atrevidos, conseguiu convencer que era o sexto homem mais elegante do mundo. Eu esperava-o ali, porque penso que, em Portugal (e, como se sabe, mesmo fora de Portugal), nem são permitidas maratonas sem a presença de Sócrates em calção de lycra. Mas, desta vez, nada feito. Não o vi...


Passavam umas meninas a arfar, uns velhos a cair da tripeça, escarrando ruidosamente pelo caminho, uns jovens de grande arcabouço, mas que se mostravam, vergonhosamente, com sérias dificuldade para ultrapassar dois ou três velhinhos rijos (daqueles que, certamente, treinam todas as manhãs a chegar primeiro do que nós às caixas multibanco, só para nos fazer aguardar, quando mais temos urgência, que eles paguem não sei quantas facturas...)

Dei por mim a matutar acerca do que podia levar aquela gente, sem ganhar nada de especial com isso, nem sequer, se calhar, uma medalha, a puxar assim pelo corpo, sob os raios do sol (ainda de inverno, é certo, mas qualquer das maneiras...!) Era difícil que me apanhassem num tamanho cansaço, correndo por gosto entre outros malucos. A não ser que me dessem a escolher. Por exemplo: entre isso ou levar a minha filha a um circo.

2. Como não tive tal escolha, durante a tarde coube-me levar os meus dois rebentos... ao circo!
Tratava-se, de resto, de um cirquinho pobre.
O Duarte tinha-me perguntado se eu achava que haveria animais.
Respondi-lhe que só animais de pequeno porte. Piolhos e pulgas haveria de ter, com certeza.
«Ai sim?», quis saber, excitado. «Também treinam piolhos?»
Santa inocência adolescente. Ou sarcasmo precoce?
Devo dizer que o número mais arriscado daquele circo pobre foi o das bailarinas que não conseguiam acertar com as coreografias. À parte isso, o verdadeiro risco foi vivido por nós, mergulhados num paciente público, sentados nuns periclitantes madeiros de bancada - particularmente eu, com uma adesiva Daisy ao colo e um saco (que se partiu, por fim) contendo uma merenda de iogurtes e bolachinhas.

Houve aquela parte - também arriscada para mim, que a vivi de respiração suspensa - em que o palhaço procurava, entre as pessoas do gentil público, algumas dispostas a ir até à pista fazer figuras tristes. Mas escapei-me.
Saímos muito, muito, muito fatigados. Completamente derreados.

E não havia animais.
Ou por outra, não posso jurar: tenho sentido muita comichão na cabeça!!!

sábado, fevereiro 14, 2009

A SURPRESA DO DIA DOS NAMORADOS

Klaus Constantin era um caso sério de incompreensão do feminino.



Para ele, tudo o que vagamente soasse a feminino, pertencia a uma espécie de castelo belo mas cerrado, luminoso, perfumado e palpitante de vida, mas rodeado por um lago de crocodilos; era um templo brilhante, que o atraía, evidentemente, mas em cujo sentido era incapaz de penetrar: ele lembrava, diante desse mundo secreto, certos meninos pobres que, nas noites de consoada, se postam, tristemente, à janela de mansões festivas aonde nunca terão acesso.



Os amigos conheciam-lhe essa faceta e riam-se dela. Havia histórias perfeitamente ridículas - que eles gostavam de repetir até ao ribombar asmático de gargalhadas - acerca do total desajustamento e da infeliz cegueira de Constatin para o sentido do mundo feminino.

Mais do que os amigos, a mulher de Klaus, Olga Constatin, era a primeira a pensar que o seu marido nunca, nunca, nunca seria capaz de perceber de que substância material e espiritual era uma mulher feita.



Foi talvez por esse motivo que, no dia dos namorados, Klaus Constatin jurou a si mesmo que estaria à altura.

(Essa preocupação - pensou - era já até, talvez, um início da compreensão: pois é precisamente por essa atenção amorosa - pensou - que se principia, talvez, a entender a mulher...)



Jurou que a surpreenderia e, por extensão, aos seus amigos trocistas.

Levou uma semana a preparar a surpresa, mudando de ideias, reajustando formas. Achou que deveria acordar muito cedo de maneira a que, quando Olga chegasse à mesa da cozinha, deparasse com uma rosa junto a um pequeno-almoço...

Mas foi desistindo das várias hipóteses. Nenhuma lhe parecia vir aninhar-se na secreta e estranha essência daquilo que uma mulher realmente deseja!



Até que, na véspera do Dia dos Namorados, tinha chegado ao plano indubitável. Como duvidar do seu poder?

No dia 14 de Fevereiro, cuidou de que, quando a esposa entrasse em casa, fosse encontrar, insinuantemente espalhadas pelo chão, as várias peças de roupa que ele fora despindo num strip-tease que, ao mesmo tempo, desenharia o rasto que Olga tinha de seguir, as calças aqui, a camisa adiante, a camisola interior no primeiro degrau da escada, uma peúga mais acima, outra já próxima do quarto, as cuecas à porta, a porta entreaberta, de maneira a que, no fim do trilho de roupa despida, o visse a ele, esperando-a, nu, nu, nu, num leito cheio de pétalas de rosa...


Havia mesmo um levíssimo perfume a sândalo no ar.


E teve de se apressar quando ouviu o carro chegar, regressado das compras.


Entrou na cama, nervoso, ansioso, treinando poses sensuais, rindo-se por dentro da surpresa, quando ouviu a voz agreste de Olga, gritando-lhe de baixo:

- Mas és maluco, ou quê? Agora já nem pões as tuas porcarias no cesto da roupa suja? Pfff, que pivete! Este cheiro é das cuecas, ou quê?! Sou sempre eu a arrumar, sempre eu a arrumar. Olha para isto, tudo espalhado. Até me apetece chorar! Não és nenhuma criança, que diabo! Já não tens idade para te comportar com tanta falta de cuidado. Não há direito. Mas que merda de vida! Sou uma escrava. Sou uma escrava.



Antes que Olga o visse naqueles preparos, recolheu as pétalas e escondeu-se na casa-de-banho do quarto.

Estava frio. Não tinha roupa, só poderia sair quando ela não andasse a rondar.



Não. Não, de facto: ainda não principiara a perceber o mundo das mulheres.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O REGRESSO DE D.J. CARA DANJO A PROPÓSITO DO BICENTENÁRIO DE UM SENHOR

a minha prófe de bilogia dís k çe condecóra ôje o bissentnário do çenhôr xárles dárling. condecorársse o bissentnário kér dizêr k çe o çenhôr fôusse vivo fazía ôje bissentos ânos. cômo o mén não é vivo não pudêmos típo dárle os parabéins e iço mas cômo gustâmos bué de féstas e cômo túdo nos çérve para festejár lá festejâmos o bissentnário dêste gáijo k inda purssima não fêz náda de ispessiál a não çêr dizêr tipo k o pái dêle éra un macáco. óra dizêr iço do çêu peróperio cóta não me parésse tipo un ganda avãço na siênssia. bêm sei k ás x taméin me açusto quando vêijo o mêu cóta de manhã ao levãtár da câma con a bárba por fazêr e iço. mas não me atrêvo a dizêr típo k êle é um macáco. éra o fín da macacáda.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

PLANTADO EM NADA

Depois do ruído que o apavorara ao longo da noite inteira, o vento a soprar desmedido, a chuva a torrenciar, árvores desabando, após aquele tempo em que lhe parecera que o mundo tinha mergulhado no caos, acordava de um sono brevíssimo e percebeu que fora despertado pelo silêncio.

Ah, mas a palavra silêncio é, ainda, muito ruidosa. A palavra silêncio não transmite, nem de longe, aquele perfeito vazio sonoro, aquela absolutíssima ausência. Tocou com os dedos nas orelhas, para se certificar de que as tinha. O silêncio era real. Um silêncio de nada haver. Um silêncio: não de falta de ouvidos, mas de não haver o que ouvir...

Aproximou-se da janela com um estranho pressentimento. Um estranho e silencioso pressentimento. Abriu-a. E viu

que não existia nada. Que a tempestade medonha arrastara para algures tudo o que o rodeara até então, o passeio, o chão, as casas, os passarinhos, os cães, os cocós de cão, as grades, os carros, o café do senhor Eliodoro, o senhor Eliodoro do café, a mulher do senhor Eliodoro, os cabos, os risos, os parapeitos, os brincos, as nuvens, os tijolos, os túmulos, os caixotes para a reciclagem, os refrigerantes,

os portões, os gatos, os muros, as palmeiras, os triciclos, os aparelhos de rádio, os ladrões, a Ministra da Educação, os ministros, a voz, os ralhos, as vassouras, as pás de lixo, a roupa estendida, os blogues, os vampiros e as bruxas...

Não se tratava de ele, em sua casa, ter voado para longe. Ele mantinha-se na sua casa que se mantinha no mesmo sítio. Não havia era sítio algum. A casa mantinha-se firmemente no nada.

Sentou-se sobre a cama.

E perguntou-se: Bolas! E agora?!

LÍNGUA PORTUGUESA: PEQUENO DICIONÁRIO DE NOVAS PALAVRAS E DE FRASES POPULARES RECICLADAS

Termo com que se designam guerras familiares provocadas pelo álcool: conflitro

Expressão popular com que se dá a entender que, ao contrário do que parece, em Alfama não há assim tanto sexo, droga e rock n roll (é mais sexo, droga e fado): É mais Alfama do que o proveito

Provérbio com que se recusa, a uma criança, que ela coma, de uma vez, todas as gomas que se encontram no saco que acabámos de comprar: Goma e Pavia não se fizeram num dia

quarta-feira, janeiro 28, 2009

UMA IDEIA PARA RECUPERAR EM TEMPOS DE CRISE... (OU, SE CALHAR, NÃO!)

Jonathan W. Ford, do Massassuchets, sempre fora uma criança com um verdadeiro dom para construções em papel e cartão. Contam os jornais da época - anos 50 -, que, desde ele muito novo, se lhe viam nascer nas mãos, pelo efeito mágico de uma tesoura sobre a cartolina, magníficas flores, magníficas casas, ou meninos, ou automóveis...

Em 1957 (geograficamente muito longe, no entanto, de um parto que iria trazer ao mundo alguém - que a minha proverbial modéstia me impede de nomear, mas constitui a outra razão pela qual o ano de 57 é, claramente, um ano maior...), Jonathan Ford concebeu um negócio engenhoso. Tinha uma família a sustentar, de modo que decidiu aproveitar o seu talento para fabricar sapatos...

... de cartão!

Os sapatos eram, aparentemente, tão bem desenhados, tão bem pintados e perfeitos, que ninguém suspeitaria que fossem de cartão. Deviam ser especialmente bonitos e desejáveis. E baratos. De todos os pontos de vista, óptimos: até à chuvada seguinte, como é evidente.

Ford não chegava a abrir propriamente lojas. (Não lhe convinha estar plantado no mesmo sítio quando viessem reclamar!). Montava uma espécie de tenda-sapataria: vendia, vendia, vendia. Desmontava, desaparecia dali. Seguia viagem.

As coisas correram-lhe mal por causa da celeridade com que as notícias voam. Consta que, quando chegou a uma insignificante vilória e aí montou a tenda, num dia aziago, a população, que já ouvira falar do genial embuste e, digamos assim, estava à sua espera, quase que o matou. Era uma população sem criatividade: não julgo que tivessem sido capazes de inventar matracas em cartão para bater nele; suponho que usaram mesmo paus tacos de madeira ou barras de ferro!

Alguém escreveu que, depois de sovado, Jonathan Ford foi o último exemplo de um homem que, nos Estados Unidos, se viu expulso da vila, montado sobre um carril, com o corpo coberto de alcatrão e penas.

Alguma coisa em Jonathan Ford, porém, faz com que eu o considere mais um mártir do que um trafulha. Mais um génio do que um ladrão. E, de algum modo, um herói no «desenrasca» - digno de um artista português!

domingo, janeiro 25, 2009

VIDAS PASSADAS E SUPER-HERÓIS

Não deixa de ser curioso observar como - se quiserem fazer o favor de comparar os posts em que se fala sobre vidas passadas, nestes três blogues que são seguidores uns dos outros (clique lá: o kaostico, mais este e este, ehehehehe; confesso que é impagável imaginar-vos clicando insistentemente...) - observar como (dizia), sou eu, dos três, o que tem a visão mais estreita e estritamente burguesa.

Enquanto a Angel se imagina um antigo Shaman e, Janota, um antigo monge copista medieval, o máximo que eu consegui foi recuar a um burguês anafado, com brilhantina no cabelo e livros empoeirados. Raios! E com uma coisa no pulmão...

Mas se quisesse humilhar-vos, diria que este senhor foi unicamente o da última das minhas vidas anteriores. Porque eu também fui Napoleão. Sim! E sinto, muitas vezes, que Napoleão não anda longe de mim: a perspicácia, a audácia, a eficácia - que frequentemente tento contrabalançar esforçando-me por me mostrar um tanto lerdo, cobardão (sobretudo quando se aproxima o «administrador da rua», de óculos, barba cerrada e má catadura) e totalmente ineficaz perante as coisas da vida...

Tenho de evitar insistir nesta ideia de que Napoleão e eu somos o mesmo. Já deixei até de usar, pelo menos quando saio à rua, o chapéu à Napoleão que mandei fazer à Dona Pilar; e também vou evitando enfiar a mão entre os botões da camisa, sobre o peito: o meu psiquiatra andou muito estranho, quando lhe falei nesta identificação. E repetia, pesaroso: «Um clássico! Um clássico!»...

Mas devo dizer que, entretanto, ando a planear uma banda desenhada, à maneira das «graphic novels», em que aparecerei como um vibrante super-herói. Em futuros posts falarei, pois, dos super-poderes que me parece que conseguiria ou conseguirei facilmente desenvolver. (A invisibilidade seria claramente um deles: há dias em que, lá na escola, ninguém me liga nenhuma. Como se, com efeito, me não vissem...)

Se quiserem começar a pensar nos vossos possíveis super-poderes, queridos leitores, expondo-mos em posts que me sejam acessíveis ou em comentários, talvez haja lugar para vós na minha próxima banda desenhada.

Mas apressem-se. Suspeito que o mundo terá de ser salvo muito em breve

quinta-feira, janeiro 22, 2009

UM PROJECTO FABULOSO

Incontornável em tantas das minhas estórias, Dudu, extremoso filho meu, vai mostrando parecer-se cada vez mais comigo quando tinha a sua idade.

Se não, vejamos:

Teve uma excelente ideia para um trabalho em Educação Tecnológica: conceber e fabricar um carrinho de rolamentos; depois, esqueceu-se do assunto. Precisava de rolamentos, mas não voltou a pensar nisso; precisava de madeira, mas nunca mais se lembrou - a não ser na véspera da aula, à noite, quando arrumava a mochila.

Não digo que se pareça comigo no facto de haver tido uma ideia brilhante. Admito que, aí, possa sair à mãe; mas sai certamente a mim no pormenor de não se ter voltado a lembrar, de se haver esquecido completamente, a não ser, por acaso, na noite anterior à aula.

Perguntou à mãe: «Trouxeste-me rolamentos?». Também aí reconheço algo de meu: não tendo feito nada pelo seu projecto, esperar que, pelo menos, alguém possa arcar com as culpas. A mãe, que não fora avisada, respondeu-lhe que não tinha nenhuma loja de rolamentos. Houve choro.



Na ausência e na impossibilidade de fazer aparecer de um dia para o outro as mafaldadas peças, haveria a possibilidade de, para ele não se confrontar com o professor de mãos vazias, levar, ao menos, madeira. Mas que madeira???

Tentou tudo: perguntou-me se podia ser uma estante, uma porta velha, uma cadeira. Não. Não. Também não. Houve choro.



Zangámo-nos todos. Aproveitámos para nos mostrar didácticos, recordando-lhe que era muito bem feito, que aprendesse com os seus próprios erros, que, para a próxima, já sabia.

Adormeceu soluçando.

De manhã (dia de ser eu a levar as duas crianças, os inefáveis Dudu e Daisy, às respectivas escolas), acordo e sou posto perante a hipótese de se ir pedir ao vizinho uma das muitas madeiras que ele colecciona num espaço ao lado de sua casa. Não é que a ideia seja má, pelo contrário: é que o vizinho em causa, que hei-de já ter por aqui mencionado em anteriores posts, é um de óculos grossos e barba cerrada, alentejano de má catadura, que se intitula a si próprio «uma espécie de administrador da rua» e que, a esse título, vai criando conflitos com a restante vizinhança. Há que continuar a ser didáctico com o meu filho. Tenho, pois, de dizer-lhe:
- Vai lá tu falar com ele, então!
O Dudu quase cai de quatro. «Não vais tu, pai?!». Não, e tal, faz parte da lição de vida que tem estado a receber, e tal, ele é que se esqueceu de tudo e, portanto, a ele é que cabe patati-patatá.
- Mas não podemos ir juntos, pai?
Hesito. Mas a imagem do vizinho vem-me à cabeça: óculos grossos, barba cerrada, má catadura. Ná, há que ser didáctico: faz parte da lição de vida desenrascar-se sozinho das alhadas em que se meteu por causa da sua imaturidade, e tal...

Tudo isto sempre sob uma chuva abundante. (Talvez as tábuas do vizinho lhe servissem para construir uma nova Arca de Noé...). Pego na Daisy, levo-a para o carro, encho-a de cintos que ela vai desatando.
Vejo que Dudu arrasta uma pesada tábua. Não é uma tábua, é um estrado.
- Falaste com o vizinho?
- Não. Toquei, mas ele não atende. Falamos depois, não é?
Aquele «falamos» não me agrada. Entretanto, onde enfiar o estrado? Tento na bagageira: não cabe! Está ensopadíssimo, é pesadíssimo, enorme, quase maior do que a totalidade do carro.
Tentamos enfiá-lo dentro do veículo. Dudu e Daisy, sentados atrás, vêem os meus esforços e ouvem os meus palavrões no exercício de, à chuva, colocar o estrado lá atrás, entre o banco deles e os bancos da frente, aos seus pés...
Daisy chora.

Arrancamos vagarosamente. Não os vejo. No meu espelho retrovisor não cabe senão um enorme estrado de madeira, uma pesada fronteira que nos separa.

Chegamos à escola de Dudu. Ele arrasta-se com o estrado lá para dentro. Não o posso ajudar, visto que isso me obrigaria a deixar sozinha a Daisy. Observo o minúsculo petiz, à chuva, derreado ao peso de um monstro, iniciando as explicações à desconfiadíssima porteira. Atrás de mim, carros enervados de pais que largam os seus rebentos e querem partir de imediato para os respectivos serviços, buzinam-me. Dudu desapareceu no interior da escola. Mas eu não posso arrancar porque a mochila dele jaz no automóvel. E, uma vez mais, não posso ir em sua busca porque isso significaria deixar a Daisy sozinha, ou carregar com ela à chuva por uma busca aventureira.
Daisy chora, de novo, do carro.
A mochila chora pelo dono.
Eu próprio estou com vontade de chorar.
O céu ainda não parou de chorar...

Mas eis que se aproxima, sorridente, sob um chapéu magnífico, uma amiga que é professora naquela escola. Vem para me cumprimentar - mas eu, malcriadamente, penduro-lhe a mochila na mão, explicando-lhe que...

São agora vinte e uma horas e trinta e um minutos. É verdade, esqueci-me de falar ao vizinho. Bolas!

Amanhã eu... (hmmm... óculos grossos, barba cerrada, má cat...)... Se calhar, amanhã peço ao Dudu que lhe vá explicar a situação. Para ver se o miudo aprende o que custa a vida!

E O QUÊ ACERCA DA VIDA ANTES DA VIDA?!

Talvez precisamente porque não creio em reencarnação, consigo ver tão precisamente quem fui (ou poderia - ou deveria - ter sido) numa anterior existência.

Não tenho dúvidas de que já era um homem; a minha alma, por muito feminina que seja, é certamente, em qualquer uma das suas vidas, uma alma de homem. (E sou franco: não creio que uma alma de mulher pudesse alguma vez ser assim tão feminina...)

Sei que morri cedo. No máximo, no princípio dos anos vinte. Não teria mais de quarenta anos.

O que retenho com mais nitidez é o meu escritório dessa outra vida. Curiosamente, parece-me uma antítese do meu actual isto a que pomposamente chamo, às vezes, escritório.

Vejo livros, mas não destes que hoje possuo, com a capa em cartolina (livros que, numa livraria que é prudente não mencionar, mas cujo nome obterão por uma sábia mistura de «Bolhão» - como em Mercado do Bolhão - com «rosa», livrous que vou aí desrespeitosamente trocando por livros novos, agora que descobri que é possível fazê-lo sem que me levantem quaisquer problemas, mesmo sem qualquer tipo de talão): os que eu lia então eram livros muito bem encadernados; vejo-me, por exemplo, abrindo um e soltando no ar partículas de poeira que bailam num foco de luz que me entra por uma janela alta.

A minha secretária, algures, não podia senão ser em mogno. Vejo, sobre ela, canetas de aparo e tinteiro. Vejo um mata-borrão delicioso, daqueles em forma de gôndola, com uma pega, que se fazem balançar para a frente e para trás sobre a tinta ainda húmida.

Também vejo no chão, algures, um globo gigante. Há quadros. Há gravuras.

Não uso nunca chapéu, contra as convenções sociais. Mas tenho uns sapatos com arabescos pontilhados.

Penteio-me para trás, com a devida brilhantina. Não creio que fosse míope. (Se hoje o sou, não se trata de uma miopia da alma, mas do corpo que nesta vida se me atribuiu. Mas não me queixo...)

Algum médico me terá convidado, nessa vida, a tornar mais raras as minhas visitas ao escritório, indicação que clara e imprudentemente ignoro: suponho que o pó dos livros me não fizesse bem. Sofria, naturalmente, de qualquer coisa nos pulmões.

Devo ter morrido afogado: não vejo nenhuma outra razão para a ideia de afogamento me impressionar tanto; nem para não ter sido capaz, sequer, de aprender a nadar. Poderiam chamar-lhe «mariquice». Eu acho que estaria ligado a uma tragédia em outra encarnação.

Tirando, é claro, o pormenorzinho de que não creio em nada disto.

E que nada disto interesserá menormente aos meus leitores...

terça-feira, janeiro 13, 2009

LÚCIA, A MULHER-DA-PORTAGEM

O meu nome é Lúcia.
Vivo a maior parte da minha vida naquelas barraquinhas das portagens, à espera de que os atrasados que ainda não aderiram à Via Verde (possivelmente, benfiquistas...) formem demoradas filas enquanto procuram trocos. (Por que não trarão já o dinheiro preparado?). Ou descobrem, bruscamente, que têm de pagar mais cinco cêntimos, que não trazem ali...

Há pessoas, portanto, que, de mim, não conhecem senão um braço que se lhes estende à passagem.
Não tenho grandes alegrias na vida.
A única coisa que me dá prazer é, pois, fixar alguns dos condutores.
Aguardo-os.
Ao antipático que não me dá os bons-dias, por exemplo, gosto de fazer esperar. Conto minuciosamente o troco.
Ao que vem a ouvir música muito alto, gosto de responder elevando ainda mais o volume do meu rádio. São as minhas pequenas vinganças.

Às vezes, é o próprio destino que se encarrega de me vingar.

Houve um tipo que se zangou tanto comigo - já nem sei porquê -, que, antes de arrancar num desespero de ruído e fumo, ainda me atirou:
«Sabe que mais? Uma coisa é certa. A senhora tem o poder de me chatear. Mas depois, fica aí fechada nessa guarita o dia todo. E eu vou ser livre! Adeus! Passe muito bem na sua guarita!»

Não foi ser livre, não. Eram oito da manhã. O helicóptero da Sic bem sobrevoava a bicha na A5. Deve ter ficado sem poder mover nem um milímetro de viatura durante uma boa parte da manhã!

CONTRAFANTASIA

Não esperava, mas devo dizer que um comentário ao que escrevi me trouxe um novo surto de esperança. («Surto» estará aqui bem, ou é só com a gripe?); alguém que, pelos vistos conhecia um caso idêntico ao meu «caso», disse que achava que não fossem os mesmos, porque o rapaz da história dela tem os olhos castanhos, não azuis, e porque a rapariga não é clarifone.
Oh, meu Deus, suponho que os meus olhos podem ser tomados por castanhos! Convenci-me de que eram azuis, é certo, houve namoradas que me disseram que eram azuis, mas essas namoradas, no fundo, não ficaram tempo suficiente para poderem ter a certeza...

Por outro lado, não posso jurar que a rapariga fosse clarifone. Se calhar não era. Quem sabe se não foi um gracioso embuste dela para ter acesso a um remédio caseiro?

Ó minha alminha, por Deus, por Deus, não se vá assim. Contacte-me, que eu tenho a certeza absoluta de que o caso que conhece é o meu próprio caso. Olhos azuis e clarifonices à parte, em quantos elevadores do país terão ficado presos, na noite de fim de ano, uma rapariga bonita e um transportador de limas para uma festa, que se reuniram num beijo de vinte e tal minutos...?

E, por favor, não me responda que, no seu «caso», o beijo foi de dez minutos, ou de dezoito, ou de quarenta. O meu relógio estava parado!!!

sábado, janeiro 10, 2009

CONTRAFANTASIA DE FIM DE ANO

Eu não sou ninguém.

Nunca o fui:

Não acabei o 12º ano, não tirei a carta de condução senão à terceira tentativa e nunca consegui que nenhuma das raparigas que se encantavam dos meus olhos azuis e dos meus lábios sensuais - diziam elas - namorasse comigo durante mais do que quinze dias. O meu record foi uma gorda que chegou a ficar quinze dias e trinta e sete minutos.


Sei perfeitamente - e sei desde os nove anos - que o meu valor no mercado das relações amorosas é fraco.

Mas nunca andei tão triste e tão deprimido, com a auto-estima tão abanada como agora, depois da «cena». (Não sei muito bem o que seja a «auto-estima»; mas é o género de coisa que as pessoas dizem que anda por baixo, sobretudo quando vivem cenas como a «cena» que eu vivi...).


Sei que não tenho um emprego promissor - no fundo, sou simplesmente um moço de fretes -, mas também não esperava que me tratassem assim. Foi um novo record: o namoro mais rápido, se é que lhe posso chamar isso.


Passou-se tudo na noite de Fim de Ano, quando me encontrei, num elevador, com uma rapariga que se dirigia à festa onde eu, por coincidência, deveria entregar uma caixa de limas para que fizessem daquelas bebidas de que os brasileiros tanto gostam. Os brasileiros E a supracitada rapariga: haviam de ver o modo como os lábios se lhe reviraram num alegre sorriso assim que soube a que se destinava a caixa...

Eis senão quando, meus amigos, o elevador teve uma avaria. Nem para cima, nem para baixo.

Fui eu quem serenou a rapariga, que se queixava de ser clarinete, ou clarifone ou assim (como é que se diz quando uma pessoa não suporta espaços fechados?) e que, acrescentando que já se estava a sentir mal, me ia perguntando se haveria ali um pouco de cachaça e açúcar para juntar às limas e fazer uma receita caseira que ela conhecia. (Percebi depois que era especialista em receitas caseiras, umas com whisky, outras com gin...)

Tentando desesperadamente que ela acalmasse, nem sei como é que aquilo aconteceu, mas acabei por beijá-la. E, na verdade, comecei logo a ouvir disparar foguetes, estrelas e faíscas. Até pensei que fosse já a festejar a passagem de ano e olhei para o relógio: não era meia noite. Devia-se tudo ao extraordinário beijo de vinte e três minutos em que nos engalfinhámos...


Infelizmente, nesse momento, talvez devido a uma descarga do eléctrico beijo, o elevador reiniciou a sua marcha...


E quando as portas se abriram e eu me preparava para lhe propor casamento, a miuda desapareceu sem se voltar uma única vez para trás.


Isso não se faz. A mim, claro, não me aceitaram na festa. Aceitaram-me a caixa de limas, isso sim, mas mandaram-me embora com o coração destroçado.


Desde aí, procuro-a todos os dias. Enfio-me no mesmo elevador. Repito a viagem de baixo para cima, de cima para baixo. E nada. Sinto-me infeliz.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

O SINISTRO EPISÓDIO DA PORTA AUTOMÁTICA

Curiosamente, recebi um email insultuoso onde o senhor Joaquim Avelar, tratando-me, en passant, de «cocó de Buffalo Bill» (não me detenho a tentar descodificar o bizarro insulto), ameaçava processar-me por difamação. (Cf. post anterior). As pessoas são ressabiadas. Tudo as incomoda. Mas, pronto, para evitar problemas na Justiça, vou pegar no nome «Avelar» - que, notem, tive o cuidado de pôr sempre entre aspas, para verem que se tratava de um nome fictício - e vou substituí-lo, por exemplo, por «Avelã»; assim, de uma assentada, preservo a identidade de Joaquim Avelar (coitado: deve julgar que é um super-herói, necessitando de uma identidade secreta) e introduzo um elemento de comicidade que me agrada, porque sempre fui um autor muito engraçado. Chamemos-lhe, pois, «Avelã»: não é giro?

Sabemos que, já em criança, este senhor assassinara a própria mãe. Não tinha mais do que sete ou oito anos. Ele, bem entendido, não a mãe!
Hão-de perceber que, neste episódio, repousa uma profundíssima questão psicológica, que posso resumir na seguinte questão: se foi descoberta, ao lado do corpo da senhora, uma faca de cortar papel, por que razão é que o jovem preferira utilizar uma tesoura? É estranho, não é? Possuía uma faca - com uma paisagem da Madeira estampada no cabo - e, contudo, decidira-se por uma tesoura.

Claro que é importante que estes episódios, que vão surgindo, como as cerejas, ao sabor do teclado, não nos afastem do ponto central da vida do «Avelã» (ehehe, foi realmente uma ideia muito engraçada, chamar-lhe «Avelã»! Donde diabo me virá tudo isto???): o qual é, evidentemente, ter batido numa porta de vidro que deveria ter aberto - automaticamente - mas nunca chegou a abrir.

O que o senhor «Avelã» costumava contar - a mim nunca mo contou, falávamos pouco; mas narrou-a, por exemplo, a um cego muito esperto que depois, por sua vez, ma relatou. Sabem aquele cego que, em vez de tocar violino enquanto pedia esmola, ou acordeão ou até gaita de beiços, levava com ele um rádio e punha a música a tocar no máximo, deixando-lhe, tal artimanha, as mãos livres para sacudir a caixa de esmolas à passagem dos transeuntes...? Não foi esse, mas lembrei-me agora dele. Foi outro! - o que o senhor «Avelã» costumava, portanto, contar, é que a porta não abrira porque ele, «Avelã», era tão rápido, tão rápido, tão rápido, que não dera tempo ao desencadear do processo.

Duvido que alguém seja assim tão rápido, tão rápido, tão rápido. A não ser que o mecanismo estivesse emperrado. Ou a funcionar em câmara lenta. Como se a vida fosse um filme, mas um filme em que nem todos os elementos estivessem simultaneamente em câmara lenta, ou onde alguns estariam em câmara mais lenta do que outros.

Julgo que estas dissintonias são possíveis. Nas dobragens, por exemplo, tenho reparado que às vezes se ouve uma voz de mulher quando o homem abre a boca, e que quando a senhora move o seu fácies para responder lhe sai a voz do espanhol que estava a dobrar.
Isso só me incomoda nos filmes pornográficos. Mas não sei se não me estarei outra vez a afastar do tema...

Bem, estas questões filosóficas deixam-me sempre dor de cabeça.

terça-feira, janeiro 06, 2009

ÁGUAS TRANQUILAS OCULTANDO SINISTRAS PROFUNDEZAS

Tenho de vos apresentar, como personagem, a mais banal das figuras:
um pouco sobre o gordo, mas não em demasia, com óculos de massa e pernas mais curtas do que o resto do corpo, o senhor Avelar não tem mais sinais particulares para além de enfiar, compulsiva e regularmente, o dedo no interior do colarinho apertado pela gravata, para se não deixar morrer enforcado (visto que sempre acalentou o sonho de ser tranquilamente apanhado pela morte durante o sono...) e uma certa forma de erguer os olhos ao céu, como se quisesse pedir, a Deus, paciência para aturar os dislates da humanidade, mas que, na verdade, é simplesmente um tique, o qual se compôs em duas fases: primeiramente, tratara-se de erguer os olhos para se certificar de que os seus óculos se encontravam convenientemente encaixados no rosto, formando uma exemplar linha horizontal, perpendicular à cana do nariz e paralela às linhas da cabeça (em cima) e do queixo (em baixo); depois, pela repetição, acabara tornando-se um automatismo, uma obsessão, um gesto que não podia evitar e de que se envergonhava. Não muito: de que se envergonhava ligeiramente...

Por que vos falo desta personagem? Que fascínio pode exercer este rei da banalidade?

As águas tranquilas escondem, por vezes, inesperadas profundidades.
Este homem, que designo discreta e simplesmente por «Avelar» para não vos dizer que ele se chama, na realidade, Joaquim Avelar, teve dois momentos que marcariam, para sempre, a sua vida.
Em primeiro lugar, um dia bateu numa porta de vidro que deveria ter-se aberto automaticamente mas, por alguma enigmática razão, não chegou a fazê-lo.
Em segundo lugar, descobriu a sua homossexualidade, ao apaixonar-se por um sobrinho que animava certo blogue encimado por uma fotografia do autor em tronco nu, e chegou a ter um affaire com ele, que terminou bruscamente quando, não suportando a ideia de ser abandonado, o asssassinou.

Também encontram, nestes factos que menciono, algo que merece ser narrado?
Foi o que pensei. Decidi, pois, escrever uma curta série de posts a propósito desta personagem falsamente banal, em que vos irei contar o episódio, que tanto me intriga, de ele ter ido contra uma porta de vidro que, por algum motivo, não abriu automaticamente, como se esperava...

domingo, janeiro 04, 2009

E A FASCINANTE PESQUISA PROSSEGUE

A imparável aventura tecnológica em que mergulhei, e de que vos falava em «post» anterior, tem-se revelado de um inusitado interesse. Dói-me o dedo, de clicar sobre os títulos. Dói-me a curiosidade, de tão despertada! Dói-me o condão de ainda me surpreender, de tão abanado com os extravagantes resultados.

Por exemplo: se clicar sobre o sublinhado de Os Maias, tido no meu «perfil de blogger» como um dos livros que prefiro, aparece-me de imediato a referência a um senhor cujo blog se denomina... rouxinal do Bernardim; e o autor (que não sei se é o rouxinal, se o Bernardim) surge numa arrepiante fotografia, com um irrepreensível e pretíssimo capachinho contrastando com uma barba brancota. Procuro pelos seus interesses. Ei-los: «Dizer bem do que está bem mas não se demitir do dever da denúncia do que está mal. Omissão de denúncia é cobardia, é traição dos ideais democráticos». Quem escreve assim não é gago. Pode até usar capachinho, mas gago não é.

Não resisto à pesquisa. Quem se atreverá, então, a assumir que aprecia Lolita, um dos meus livros predilectos mas, indiscutivelmente, dos mais suspeitos e malditos, perversos e terríveis?
Há uma Amy Green, cujos interesses cito: « sleep [também eu, quando posso], Peep show [?] smoking, G&Ts.» Ok. Excluamos «G&Ts» que, na minha candura, não faço a menor ideia do que seja e cuja mera referência talvez me envolvesse em complicações com a ASAE. Mas peep show? Numa apreciadora de Lolita? Tratar-se-á, ela própria, de uma lolita procurando chamar a atenção de velhos depravados? Dificilmente: com 67 anos de idade, parece-me simplesmente uma velhinha maluca.

Já em relação à Origem da Tragédia (e escolho agora ao acaso, sem respeitar ordem nenhuma) salta-me a fotografia de um tal de Leandro, brasileiro de signo Peixes, que ostenta uma fotografia, sua, em tronco nú. Está visto que, no Brasil, tem estado muito calor. Era a quarentona de Em Busca do Tempo Perdido, é o senhor Leandro...
Pesquiso entre os seus interesses e deparo com os mesmos que eu. Mostra-se atento à filosofia, à literatura, ao cinema. Tanto interesse em comum com um cara que se fotografa em tronco nú? Bolas (segredam-me os meus imperdoáveis e reaccionários preconceitos), deixa eu fugir aí!
E há, também, um Anjo Cadáver. Livra! Decido. Acrescentarei ao meu programa para 2009: «Deixar de referir em público que a Origem da Tragédia é um dos meus livros preferidos»!

No cinema é que é pior.
Em quase todos os casos, clicando, seja em Aristogatos, seja em Lolita [de Kubrick, mas Lolita de novo: suspeitíssima insistência da minha parte; nem vale a pena sugerir que se trata de uma obra-prima, nem que Kubrick é Kubrick], só me aparece o mesmo único velhote do signo Virgem. Chama-se Gil Duarte. Vai ver que nem sequer é realmente o seu nome...

sexta-feira, janeiro 02, 2009

A PROPÓSITO DOS BLOGGERS QUE GOSTAM MUITO DE PROUST

1. Nas minhas aventuras tecnológicas, clicando aqui, experimentando ali, numa acesa competição com as rainhas da informática e da net, que são a Janota e a Angel (apesar de, pelos nomes, não se ficar com essa ideia...), descobri há pouco que, bem!: vamos por partes para os menos hábeis - coitaditos! - não se perderem:

a) Com um tal arranjo gráfico, isto até até parece um teste sumativo, mas não desanimem, prossigam.

b) Indo, neste mesmo blogue, ao meu perfil...

c) E, aí, à parte onde aparecem os títulos dos meus livros preferidos (ou filmes, ou o que seja)...

d) Observa-se que tais títulos estão sublinhados; e porquê? Sinto-me em condições para vos fornecer a explicação técnica, aliás muito simples: se clicarem (por exemplo, no meu caso, sobre Em Busca do Tempo Perdido), aparecem de imediato referências a outros blogues cujos autores também tivessem escolhido o mesmo livro como sendo um dos seus predilectos (por exemplo, insisto: Em Busca do Tempo Perdido).

2. A primeira referência que aparece é a de uma brasileira quarentona, em cujo blogue vemos destacar-se a arrojada fotografia, penso que dela, em bikini, emergindo das ondas de copacabana, como uma deusa de cabelos molhados. (E noto que, contra as minhas míseras quinhentas «visualizações do perfil», ela tem vinte e uma mil e tantas. Pudera! É capaz de não ser por se tratar de uma apreciadora de Em Busca do Tempo Perdido...); logo após, vem um tal Víctor, que deve ser muito feiínho, visto que usou uma fotografia sua em que está mergulhado, não nas ondas de copacabana, mas em plena penumbra, mal se detectando os contornos do que possa ser um rosto...

3. A seguir, vou experimentar com os filmes, com as músicas e por aí fora...

4. É sempre bom saber que, espalhados pelo mundo, existem estrangeiros que partilham os nossos gostos e os nossos interesses.

5.Talvez devesse fixar, como um programa para 2009, entrar em contacto com os outros amigos de Em Busca do Tempo Perdido!

6. Mas, se calhar, deixo o Víctor para o próximo ano...

quinta-feira, janeiro 01, 2009

MINÚSCULOS EPISÓDIOS DA PASSAGEM DE ANO

1. O primeiro episódio, ocorreu imediatamente aquando dos meus passos iniciais no interior da sala aquecida: um senhor de idade, pai do anfitrião, apertou-me a mão, olhando-me nos olhos como quem procurava sondar os meus pensamentos mais pecaminosos, e largou:
- Boa noite! Cada vez mais baixinho, hein?
Tenho de confessar que este estranho cumprimento me deixou absolutamente perplexo; e que me senti quase ofendido pela manifestação desabrida do reconhecimento de que, de novo ano em novo ano, tenho vindo a envelhecer. Mas não imaginava que tivesse já chegado ao ponto em que principira a minguar. Estou, pois, mirrando. Não é o que nos acontece a todos, a partir de uma certa idade?

Acabei por contar este episódio ao dono da casa, que me explicou, entre o preocupado (com o pai) e o divertido (comigo):
- Eia, bem! O meu velho está completamente taralhouco. Não te reconheceu! A sério, ouve, pá, essa é a piada que ele diz aos netos, percebes? Quando os vê, parece-lhe que eles cresceram mais um pouco. Estão cada vez mais altos, os putos! E o meu pai, como ironia, diz-lhes sempre: «Cada vez mais baixinho, hein?». Tomou-te por um dos netos, pá!

Ao longo da noite, como se imagina, a história tornou a ser contada, suscitando sempre novas gargalhadas. Senti-me rejuvenescido. Não deixa de ser estranho como uma ofensa se transforma, depois de compreendida, em algo que nos soa como o maior dos elogios.
Sinto-me alegre por vos contar este episódio. Infantilidade da minha parte? Deixem lá, ainda estou a crescer...

2. Já acerca da minha recente ida ao médico, por causa da mancha na testa (cf. post anterior...), contei a história a um grupo, porventura insistindo demasiado na parte de me terem cobrado noventa euros para nada...
Uma rapariga, magrita e cabeluda, comentou, com certa graça:
- Deixa lá! Ou preferias ter pago os noventa euros para te dizerem que era grave!?

Postas as coisas assim...

segunda-feira, dezembro 29, 2008

NÃO SE BRINCA COM COISAS SÉRIAS (E EU ESTOU A NARRAR, NÃO ESTOU PROPRIAMENTE A BRINCAR!)

A minha... a minha quê? Principiemos, pois, por aí. Que me é, exactamente, a mulher de um meu primo? Quase-cunhada? Cousin in law, atendendo a que ela é norte-americana?

Enfim, essa mulher optimista, numa noite em que eu os convidara para jantar, olhava-me há já algum tempo com uma fixidez lancinante, incómoda, perturbadora; como ela é americana e tendemos a esperar que os americanos sejam gente de costumes diferentes, já me preparava para o momento constrangedor em que, sob a mesa, ela fizesse deslizar o seu pé descalço ao encontro do meu, quando, bruscamente, percebi o que lhe atraía a atenção. Uma mancha que eu tenho na testa. Uma espécie de sinal em que, por sinal, muitas pessoas têm reparado ultimamente.

A teoria da minha mulher é simples: a mancha sempre cá esteve! O cabelo é que já não vai estando. Por esse motivo, mais descoberta, a dita mancha nota-se agora bem.

Devo dizer que uma tal teoria, que atribui a uma calvície galopante o facto de se começar a reparar
tanto na mancha, não me agrada. Salva-me dela a cousin in law, sempre optimista:
- Não, não é de carreca! Tens que verr isso. I met a guy of your age, and he had a spot exactly like that one. And he died!

Porque estas coisas não são para brincar - e não se deixem enganar pelo meu tom ligeiro -, resolvi levar o aviso muito a sério. Não dormi duas noites e, ao terceiro dia, zarpei para o médico, um senhor de bibe branco que, imediatamente antes de à saída me pedirem que pagasse noventa euros, demorara comigo doze-minutos-doze, nem um mais, para me dizer, com um ar trocista:
- Oh, meu caro! Mas nem sequer é um sinal. [E chamou-lhe outro nome!]. Isso não tem importância. [Mais um pouco, e acrescentava: «Já experimentou lavar com água e sabão?!»]. Se quiser, pode tirar, mas unicamente por razões estéticas. [Por um triz não disse: «Basta puxar, a ver se arranca...»]

Senti-me defraudado.
Foi como se, imaginem, ao entrar no gabinete do médico me tivesse acontecido tossir, e ele me dissesse: «Nem vale a pena sentar-se. O seu mal é tosse. Não se esqueça de pagar à saída...!»

Cá fora, chovia desalmadamente e eu, na escuridão, não sabia já onde diabo estacionara o carro.
Procurando-o, completamente ensopado, agasalhava-me melhor na gabardina, cruzando ambos os braços sobre o peito. («Cruzando ambos os braços» é uma judiciosa escolha de palavras, uma vez que não poderia ter cruzado um único braço).
Passei, nessa grotesca figura, por duas mulheres, uma das quais, a mais velha, explicava à outra, obviamente mais nova (acerca de mim):
- Desvia-te, Catarina, que esse é dos que abrem as gabardinas para mostrar o pirilau!

Topo subitamente o carro, enfio-me no interior e arranco, espirrando!

domingo, dezembro 28, 2008

HÔ-HÔ-HÔ

A prova de que os adultos pouco sabem acerca das crianças reside em que, para as divertir, tenham inventado nada menos do que o palhaço - uma espécie de monstro com o rosto fantasmagoricamente branco, uns lábios de jazzman e um nariz de bêbedo, isto é, redondo, vermelho e grande. Se acrescentarmos a tudo isto aquela sua típica maneira de falar à Luís Figo, percebemos que se trata de uma personagem para infundir terror, nunca para fazer rir.

Um casal de amigos muito meus amigos (contando que não venham a tropeçar neste «post») decidiu, há já alguns anos, comemorar o aniversário da filha com a seguinte surpresa: quando estivessem os meninos concentrados na sala, com as mãos untadas de bolo e alguma coca-cola por perto, eles se encarregariam, digamos, de estragar a alegria da petizada surgindo, mascarados de palhaços, de corneta na beiça e viola em punho. A intenção era boa! Eu estava lá e assisti a tudo. Não assisti propriamente à intenção, que não era visível, mas em cuja bondade deposito uma inquebrantável fé. Fui, todavia, espectador do efeito: crianças a berrar, lágrimas grossas espirrando e arruinando as fatias de bolo, coca-colas derramadas pela carpete do IKEA.

Lembro-me do pai da aniversariante parando, incrédulo, trágico no seu chapéu bicudo, a tristeza estampada no rosto enfarinhado, a virar-se para a mulher (essa de palhaço pobre vestida, com uma meia de cada cor) e perguntando-lhe:
- E agora...? Continuamos?
Não puderam continuar.
É verdade que esperavam risos, não aquele pavor. E não é que não houvesse risos. Houve, e muitos. Mas não houve os esperados: para ser sincero, o único que se ria era eu próprio, que não devia, claro e, até onde possível, tratei até de disfarçar, mas sempre tive um humor imperdoavelmente perverso.

Esta história serve para ilustrar o desconhecimento que os adultos têm acerca do que efectivamente uma criança pode considerar divertido ou engraçado. Por mim falo. Chego, pois, a outra historieta:

A minha filha recebeu, neste Natal, bonecas, peúgas e livrinhos.
Trouxe-as carinhosamente o Pai Natal (um Pai Natal da crise, evidentemente mas, ainda assim, um Pai Natal...), em que me esforcei denodadamente que ela acreditasse.
Falara-lhe tanto do bondoso velhinho das barbas brancas, e das renas, e dos presentes distribuídos pelos meninos bem-comportados (o que nunca pode ser literalmente entendido, porque «meninos bem-comportados» é aquilo a que se chama um paradoxo).

Pois bem: o resultado? Por estes dias, a minha filha não dorme.

E à noite, da sua caminha de grades, repete, com os olhos brilhando muito no escuro, como duas enormes bolas natalícias:
-Nã quéi domiri. Tem medo do Pai Natali!

domingo, dezembro 21, 2008

O FILHO PRÓDIGO

Devo confessar a todos os cristãos com cartão e lugar cativo (no céu), que a Justiça segundo a Bíblia me deixa sempre um tanto dubidativo.
Pegue-se, entre outros, no exemplo do Filho Pródigo.

Imagine-se o leitor, por um momento, no lugar do filho que ficou em casa; eu tento pôr-me muitas vezes nesse lugar. (Deve ser porque me apetece cada vez mais ficar por casa, em vez de andar a tropeçar em gente feia pelos centros comerciais). Ele vê o irmão pedir, ao pai, a percentagem da herança que lhe caberia. Vê-o sair de casa, indiferente às saudades que semeia. Vê o estado em que o pai fica. Acompanha o velho. Ajuda-o no dia-a-dia. Trabalha por dois. Ara a terra. O irmão não está lá para cumprir com a sua parte. Aliás, presumo que um rapaz desse calibre não fosse, mesmo enquanto estava em casa, um exemplo de amor ao trabalho. É de admitir que o próprio pai, por causa da tristeza em que caiu, tenha diminuído no seu rendimento. Em suma, o irmão quedante, quedou-se a trabalhar noite e dia para substituir o pouco que fariam o madraço e o velhote.

Gramou as queixas, Ai ai o teu irmão, que falta me faz, coitadinho, por onde andará ele?, gramou a tristeza que inundou o casarão (pois nunca mais foram capazes de lhe fazer uma festa, nem sequer pelo aniversário...), gramou a solidão. De pé firme.

E um dia, chega a casa (ironia suprema: chega do trabalho!!!) e repara que há luzes, repara que há música, tarã, tarã, tã tã tã tã! Pergunta, como quem não quer a coisa, O que se passa, O que se passa, pensando, no seu íntimo, Querem ver que eu faço anos e desta vez se lembraram...?, e que ouve ele? Que o seu irmão voltara!

Mas esperem, amigos. Há mais ironias nesta edificante história: voltara, porquê?
Resposta: porque gastara a parte da herança que o velho pai lhe havia adiantado. Não é bestial? Não é fabuloso? Não voltara pelas saudades. Não voltou pelos remorsos. Voltou... tenho de fazer uma pequena pausa para respirar fundo... porque tinha gasto o dinheiro.

É que, ao que parece, tiritando de frio, lambendo-se de fome às portas dos restaurantes, tentando alimentar-se do odor das iguarias, lembrara-se, melancolicamente, Em casa do meu pai é que era bom, em casa do meu pai nunca passei fome.
Como diria Freitas do Amaral: É preciso topete!

Ora o irmão quedante ainda teve tempo para ouvir a voz feliz do pai mandando matar um bácoro para festejar o regresso do filho pródigo.
«Mas espera lá! Eu fiquei, trabalhei, amparei tudo e todos e nunca ninguém se lembrou de festejar com um bácoro e vinho a minha contínua presença...! E este foi-se! E quando regressa, tarã tã tã, tarã tã tã...?»

Quando me falam em Justiça Divina, só posso responder, humildemente: Os caminhos do Senhor são insondáveis. A mim - e à minha limitada e terrena compreensão - escapam-me totalmente!

PARA UMA BREVÍSSIMA HISTÓRIA DAS INCURSÕES PORTUGUESAS NO NOBEL

Todos sabemos que um de nós recebeu o prestigiado prémio Nobel: trata-se do senhor Saramago, genuíno representante do português que há em cada um, quer por não ter descansado enquanto não fugiu do cantinho luso, quer porque se comporta, em relação à gramática portuguesa, como os portugueses em geral se comportam em relação ao fisco.

Mas, aos mais distraídos da História de Portugal (isto é, uma vez mais, aos portugueses), gostaria de lembrar que há um outro Nobel nosso. É verdade. Trata-se do Professor Egas Moniz, que se tornou conhecido pelo seu tratamento dos malucos que, à maluquice deles, permitiu adicionar uma espécie de estupidez. E só não falamos mais, hoje em dia, deste FAROL da ciência, porque, infelizmente, um anódino episódio acabou por ficar associado para sempre ao seu nome: decidiu ir de corda ao pescoço, mais a família inteira, apresentar-se ao seu rei.

Eu sei muito bem que as pessoas que já tinham lido este «post» hão-de estar a esfregar os olhos. Porque não era o que vêm de ler que eu tinha originalmente postado. O problema é que confundira o Egas com o Becas, perdão, o senhor Egas Moniz com um outro Moniz, estão lembrados? (E não ter metido no barulho o Moniz da TVI foi um bambúrrio da sorte...! Parece que pertenço ao saco dos «portugueses distraídos da História»... Não fosse a atenta Angel e ainda agora o miserável erro aqui estaria a reluzir...)

Acerca do outro Moniz - já se perderam? -, lembrava eu a morte bizarra, entalado numa porta ali ao Martim Moniz, entalão que, tragicamente, superaria qualquer feito que houvesse efectuado em vida. É triste. Consta que um magote de gente aproveitou a nesga assim aberta para entrar num tropel assassino. O homem a gritar «Ó, por favor, olhem que estou aqui eu, deixem-me sair» e o pessoal a enfiar-se pelo centro comercial que, àquelas horas, tentava fechar as portas. (Uma vez aconteceu-me isso num autocarro: palavra que não é fácil. Eu entalado e uma imensa e inumana mole de seres humanos a aproveitar para entrar, a despeito dos meus protestos...)

Mas todas estas confusões vêm a propósito da minha pretensão. Retornemos à vaca fria. Gostaria muito de propor, para próximo Prémio Nobel, não sei exactamente em que ciência, o meu Vizinho Mário, que inventou uma forma de não ter de se mudar a água na máquina de café de cada vez que se vai fazer outro café. Como a minha mulher já me tinha convencido de que «se-passada-meia-hora-eu-me-preparasse-para-fazer-um-novo-café», tinha por força de trocar a água que ficara no depósito, a operação tornara-se-me pesada e penosa. Já andava até a beber menos café! Ora, em casa do Vizinho Mário, não se procede a troca de água. Como lhe expusesse o problema, respondeu-me o bondoso velhinho: «Que disparate!»

Como a minha mulher tem sempre razão (e o vizinho Mário também) - na perspectiva de um e de outro, a mim é que a razão abandona frequentemente -, suponho que o senhor tenha inventado um sistema com filtros, qualquer coisa capaz de melhorar substancialmente a vida da humanidade.

Não me agradeçam a revelação. Dêem o Nobel ao homem e já me sentirei suficientemente recompensado.

terça-feira, dezembro 16, 2008

ALGUMAS LIÇÕES DE INFORMÁTICA (SIM, SIM, EU OUVI ESSE COMENTÁRIO! LIÇÕES DE INFORMÁTICA DADAS POR MIM, POIS, QUAL É O PROBLEMA?!)

Primeira Lição.

Quando temos dúvidas acerca do código de acesso, e hesitamos entre duas possibilidades, devemos experimentar ambas.

Não ao mesmo tempo, é claro, mas sucessivamente.

Regra geral, a primeira que tentamos está errada.

Frequentemente, a segunda também não era ainda a correcta.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

CAÇADOR DO IMPOSSÍVEL

Chamam-me caçador.
Saio à noite, solitário e melancólico. Melancólico porque sinto que a minha tarefa me torna injusto.
A arma que possuo é o tempo.
E o tempo não é meu amigo, é meu inimigo. Devo ser o único caçador que transporta uma arma que o próprio caçador não ama, mas teme; que o próprio caçador não consegue sentir, cúmplice, no seu braço - antes fria e rancorosa, como se a qualquer momento pudesse virar-se (e vira, por vezes), contra ele: como um instrumento que se não adapta inteiramente à sua mão, que nunca chega a ser uno com esta, que está sempre a mais, sempre inorgânico, sempre incómodo, e de que, no entanto, o caçador inteiramente depende.
Saio. Mato. Com o tempo que desprezo. Me despreza.
E regresso. Eu mesmo mais velho, depois de cada nova morte.
Não renasço em cada morte inflingida. Não me alimento das sucessivas mortes. Suicido-me sem conseguir morrer.
Em cada morte, morro um pouco, sem morrer de uma vez.
E regresso.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

MUNDO DE AVENTURAS

A minha vida, como oiço às vezes à senhora dona sogra, dava um filme. Não será tão espectacular e glamourosa como pode parecer à primeira vista (por exemplo à Sara T., que pergunta: «Mas é mesmo assim...???»), mas mantém uma permanente agitação; se não, vejamos: é verdade que me esqueço frequentemente da chave de casa e tenho de saltar o gradeamento e, a seguir, enfiar-me por uma janela que, do lado de fora, não abre senão o suficiente para me entalar; mas encolho a barriga e estreito-me de forma a fazer passar o meu corpo elástico, aterrando, ao fim de quinze penosos e doridos minutos, sobre os copos de vidro de uma casa de banho. E tudo sem qualquer vaidade; não é por isso que digo, ao apresentar-me: «My name is Duarte, Gil Duarte»...

Também é verdade que, no outro dia, andei fugindo, pelos telhados, de uns ucranianos que queriam eliminar-me: mas não foi nenhuma aventura de maior - não se tratava de agentes da ministra, nem de uma organização criminosa como a ASAE. Eram simplesmente ladrões. E, aliás, exagero um pouco: no fundo, estes ladrões não passavam de um casal honesto, que procurava devolver-me a carteira que eu esquecera sobre o balcão de um café. Eu é que me assustei desnecessariamente. Já agora, para ser rigoroso-rigoroso-rigoroso, também não se pode dizer que tenha chegado a subir exactamente aos telhados. Limitei-me a trepar a um muro. Um muro baixo. (Algumas pessoas chamam-lhe «passeio». Mas o ponto é que, para fugir aos honestos facínoras, fui obrigado a andar sempre pelo passeio...)

Há, portanto, que não desmerecer desta vida aventurosa. Era-o mais, é claro, quando eu tinha um cão. Reparem: o Dunga chegou a morder-me; e, atenção, houve aquele dia em que eu próprio estive vai não vai para morder-lhe. Mas mesmo agora, que ele se foi, existe uma certa agitação na minha vida. Dava um filme.

Nós, os vagabundos dos limbos, sem amarras nem laços, nós, os eternos navegadores do infinito, judeus errantes, temos sempre novas e sumarentas aventuras.

Não é que eu, na minha qualidade de «vagabundo sem amarras nem laços», não tenha de facto amarras. Tenho-as. Mas sempre recusei a obtusa opressão dos laços. Isso nunca. Jurei que nunca usaria laços nem gravata!!!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

NOVA PROFISSÃO: AFIXADOR DE CARTAZES

Como a situação dos professores se encontra mais embrulhada do que nunca - e, mesmo no Natal, «embrulhos» nem sempre são bons... -, aceitei, com as previsíveis reticências do burguês acomodado que sou, o convite para me juntar a um grupo de um movimento em torno da aspiração a uma «escola moderna», a fim de colar uns quantos cartazes, à noite, anunciando um debate sobre o candente tema da avaliação do desempenho docente. (5ª-feira, na Escola de S. João do Estoril, pelas dezanove horas, com a presença de Ana Benavente).

Está frrrrrrio! Deve ser a noite mais fria do ano.
Levo um casaco por baixo de uma camisola de gola alta, e um sobretudo por cima disto tudo. Sou um embrulho.

Chego de carro.
O líder dá-nos indicações precisas. Infelizmente, somos poucos.
- O Camarada X, que é a alma por detrás da organização desta noite de colagens, infelizmente não pôde vir. Foi para a Serra da Estrela. Estão prontos, camaradas?

Seguimos. Vamos numa procissão de automóveis. Teria sido mais fácil reunirmo-nos todos numa carrinha. Ou num carrinho qualquer. Não. Seguem quatro automóveis, cada um dos quais não transporta senão um único condutor. Não sei bem porquê, aceitei levar o balde com a cola e com as trinchas. «Isto não entorna?», pergunto. «Não, camarada. Não vamos fazer gincanas.»
Seguimos. A cada solavanco, sinto que há mais um teste de mais um aluno, no banco de trás, que ganha alguma cola.

Primeira paragem. Saímos. Sobretudos, cachecóis, barretes. Tirito. Levo uma trincha a que não sei o que fazer. Sou um intelectual, que diabo, não estou muito habituado a lidar com trinchas! Os outros movem-se rápida e agilmente - não precisam, para colar uma meia dúzia de cartazes, mais do que o tempo que eu levo a tropeçar no balde e a derramar um pouco de cola nos sapatos.
«Então, camarada, então, há que não desperdiçar...»

Dão-se instruções sobre a próxima paragem. Reentramos nos carros. Conheço o destino, arranco, por uma vez durante a noite seguro de mim. O líder está furioso. Tenta ultrapassar-me: é ele que tem de ir à frente; começo por julgar que é uma brincadeira e acelero. O líder parece doido. Gesticula no interior do seu veículo prateado. Deixo-o passar.

Chegamos ao segundo ponto. Saímos. Colamos cartazes junto a uma escola. O Guarda-nocturno segue os nossos movimentos com uma viva curiosidade.
Encaminhamo-nos de novo para os carros. «Não podemos ir andando a pé?», ainda tento eu. Olham-me com ar de quem está perante um novato nestas andanças. A procissão automobilística reinicia-se, portanto.

Já com o veículo em marcha, observo, perplexo, que o Guarda-nocturno referido supra, se entretém a arrancar os cartazes que viéramos de colar. Calo o bico. Sou um novato, deve fazer parte do procedimento.

Nova paragem. Outra escola. O líder pára para fumar um cigarro que lhe provoca uma tosse de que nunca mais se libertará durante o resto da noite. Estou com o sobretudo manchado de cola. Sou mesmo novato!

Sempre que chegamos, o líder saca de um novo cigarro e de novos acessos de tosse.
Esgotámos os cartazes que, afinal, não eram muitos: três aqui, quatro ali, seis num outro ponto. Unindo sempre os pontos com linhas de carros em procissão.

Regresso a casa, pensativo. Andava a pensar em mudar de profissão. Percebo que, para mim, a de afixador de cartazes não constitui alternativa.

Andei a trabalhar por uma nova escola, ein? Estive ao frio, a dar o couro por vocês, professores e alunos. E corri riscos. Podia ter aparecido a polícia. Ou a ministra. Mas eu sou assim.

Até sempre, camaradas!

segunda-feira, dezembro 08, 2008

REGRESSO DO CÍRCULO GELADO

Às vezes, vale a pena sentirmo-nos mortos e enterrados.
Mortos, por exemplo, para alguém que nos é querido.
Apenas para podermos ter o prazer da ressurreição. Apenas para termos o prazer de descobrir que nos julgávamos mortos mas não estávamos, nos pensávamos esquecidos mas não nos haviam realmente esquecido.
O túmulo é frio. O inferno não tem chamas, é também frio, é gélido.
Acordar, porém, é sempre suave.
Sou Lázaro, venho do círculo mais gelado do inferno; estou vivo: sei do que falo.

sábado, dezembro 06, 2008

PIRIQUITO & BANANA

Chego à creche pisando já a hora-limite para os pais levarem dali os filhos: aquela hora tardia em que as educadoras, esgotadas, desgrenhadas, devolvem as crianças, com um sorriso de circunstância, pensando certamente para os seus botões «Vocês é que os fazem, nós é que os aturamos!», com a mente fixa na banheira de água quente que as espera no lar.

Vou nervoso: antecipo a forma como, entrando na sala, a Daisy, como de costume, fará ostensivamente questão de me desobedecer, fugindo-me enquanto a persigo para a enfiar num sobretudo castanho escuro, desarrumando os tabuleiros de jogos que as senhoras já haviam conseguido arrumar, exigindo bolachas...

É, de facto, o que sucede. Quero impor-me. Pelo menos ali, aos olhos delas. Inicio a minha perseguição. Uma jovem Auxiliar tenta intrometer-se duas, três vezes. Diz-me algo. Ignoro-a rudemente. Tento, com um sucesso mais do que duvidoso, mostrar-lhe que a Daisy não fará hoje de mim gato-sapato. (Interiormente, sopro «miau», sentindo-me, na minha dimensão de «sapato», com os nervos completamente desatados...)

Finalmente, percebo o que a Auxiliar, que não desarma, tem para me dizer, fingindo, retoricamente, que fala para a menina:
- Então, Daisy? Já disseste ao papá quem é que vai hoje para casa com vocês?
Por alguma razão, mesmo a um homem de cinquenta e um anos como eu, habituado a ter passado pelos episódios mais surrealistas do mundo, aquela pergunta soa horrorosamente bizarra, preocupantemente bizarra. Não consigo evitar que a imaginação dispare. Vai alguém connosco para casa?! Um psicólogo, para avaliar se somos os responsáveis pelo comportamento da criança? E se for um psicólogo - perturba-se a minha mente culpabilizada -, que deveremos fazer? Oferecer-lhe de jantar? Dormirá em nossa casa? Fica uma semana? Podemos recusar...?

Daisy explica:
- Os capaínhos, pai. Os capaínhos!
Os capaínhos vão, portanto, connosco hoje. Para nossa casa. Devo preocupar-me? É que não sei quem sejam os capaínhos. Uma família carenciada, por estarmos próximos do Natal?

Os capaínhos, claro, são os passarinhos. Como castigo por ter chegado hoje tão tarde? Ah, não! Toca a vez a cada um dos meninos: ali estão dois passarinhos azuis numa gaiola branca. É a vez da Daisy.

A minha filha insiste em levá-los. Não pode com a gaiola. Bate com ela ruidosamente no chão. Contra as paredes. Os piu-pius nem piam.
Tento impor-me:
- Eu levo, Daisy, eu levo. Olha que os matas!
- Nããããããããão! Nãããããããããão! A mim, a mim, a mim!
Bem, então levamo-los os dois, pode ser? A meias. Esforço-me por pôr em prática o meu plano. Mas a gaiola vai muito inclinada, e tem de ir, a não ser que eu marche de gatas ou completamente dobrado até ao carro.
Digo para a Auxiliar:
- Bem, boa noite. Até segunda!
Responde-me, triunfante:
- Feriado! Até terça, até terça!

Lá vamos, Daisy e eu, com os passarinhos aos trambolhões, tentando não falhar uma parede.
Pergunto:
- E como se chamam eles, Daisy?
- Piquitito e Banana!
Desconfio que não. Mas, pelo menos até terça-feira, a todos os seus tormentos terão de acrescentar este, ainda: chamar-lhes-emos Piriquito e Banana!

sexta-feira, dezembro 05, 2008

POR MIM, NÃO POSSO COM PESSOAS ENCANTADORAS!

Há pessoas assim: algo no seu olhar, no seu sorriso, no todo da sua disposição irradia uma luz permanente; é ao que se chama «encantamento». Elas são, inegavelmente, encantadoras.

Mas quando as conhecemos um poucochinho melhor que seja, percebemos que, precisamente porque se habituaram a encantar, porque se habituaram a que os outros reajam à sua simples presença tornando-se-lhes ilimitadamente prestáveis, porque se habituaram a que ninguém lhes resista - tendem a sentir como um privilégio que concedem aos demais, consentir que estes as sirvam.

E os outros babam-se quando os «encantadores» os usam.

Os encantadores são pessoas que perdem a noção e a medida do que pedem: tudo lhes parece natural. Que haja quem se esforce, quem os substitua, quem, em prejuízo próprio, faça por eles o que lhes competiria.

Não sentem o sacrifício dos outros. Consideram, tácitamente e com ligeireza, que, por elas, todo o sacrifício tem de ser tomado como uma espécie de prazer. Um sorriso pagará tudo. Como o sol que, por ser quem é, sem demasiado trabalho, ilumina o mundo.

Os não-encantadores, como a ministra da Educação e eu mesmo, têm alguma dor de cotovelo. A ministra, que exige arrogante e asperamente, sem olhar a meios, e se mostra perplexa com a saraivada de manifes, greves e ovos com os quais lhe respondem, e eu, que não tenho coragem de pedir, quer porque «pedir» me humilha, quer porque sinto que mereço pouco da vida - lá está o meu lado Kalimero - ficamos, no fundo, espantados por termos de trabalhar tanto (mesmo se trabalhando pessimamente, como no caso da Dona Lurdes Rodrigues) para conseguir o mínimo ou para desconseguir de todo o que ambicionávamos...

Os encantadores, por seu lado, fazem cursos sem precisar de trabalhar!

terça-feira, dezembro 02, 2008

TESTEMUNHA À CHUVA

Ia eu no meu veículo, durante uma noite gelada de Dezembro, sob uma chuva que os limpa para-brisas insistiam debalde em extrair do meu campo de visão, quando, por um breve lapso de tempo, me pareceu ver uma série de vultos, ao abrigo de uma paragem de autocarro, entretidos numa operação frenética e bizarra.

Como eu avançava devagar, muito devagar, à medida que o carro se aproximava pude reparar que eram dois indivíduos, talvez um homem e uma mulher, e que se debruçavam sobre o banco, como se o limpassem. Havia, aos pés deles, um outro vulto estendido, comprido.

Foi pouco tempo; o meu carro, vagaroso ou não, prosseguiu o seu caminho.

Aquilo soava estranho, no entanto; de uma inquietante estranheza: estranho porque a chuva era tão intensa, que o banco da paragem estava obviamente molhado. Por que limpariam eles um banco encharcado, sob uma chuva que continuava caindo torrencialmente? Parecia ridículo. Não fazia sentido.

Depois, pensei melhor: só se estivessem tentando eliminar algum vestígio que a chuva não varresse por completo. Sangue...? Manchas de sangue já seco, incrustadas no banco metálico, que nenhum temporal poderia apagar?
Talvez então - continuei pensando enquanto, ridiculamente, a música dos Abba roufinhava no meu rádio -, aquele volume comprido, a seus pés, fosse um corpo? Ou (demasiado cilíndrico para ser um corpo humano), se tratasse de um tapete enrolado, no interior do qual tivessem enfiado o corpo de que se queriam livrar?

sexta-feira, novembro 28, 2008

ALGUNS ARGUMENTOS

Com as ineptas tentativas de simplificação de um modelo abstruso e inexequível, o ministério consegue, quanto mais não seja, que os Encarregados de Educação, alguns professores, até, e os portugueses em geral principiem a interrogar-se acerca da classe docente: «O quê?! Ainda não ficaram satisfeitos? Mas então que mais querem? Ora bem, esta cambada não se vai deixar mesmo é avaliar...!»

O problema, naturalmente, é que um modelo tem de ser visto como uma estrutura global, informada por determinados pressupostos e contendo uma filosofia subjacente. Quando é esse conjunto, com os seus supostos pedagógicos e éticos, que está sendo contestado, quaisquer ajustamentos, modificações, simplificaçãozinhas só poderão falhar o essencial, tornando o todo, ao mesmo tempo, um monstro híbrido e descaracterizado, um instrumento coxo e esvaziado.

Este paradigma, para falar à moda - que é já antiga, assombrando-nos desde, pelo menos, que Kuhn a lançou, mas enfim...! - este paradigma está errado na sua essência.
Por um lado, como é óbvio, é errado porque avaliar o trabalho docente segundo objectivos quantificáveis revela-se um disparate. E, como todos os disparates, de uma arbitrariedade absoluta. Estabeleço o «objectivo» de realizar «pelo menos» duas actividades ligadas ao cinema? E se conseguir realizar as duas previstas sou «Bom» - tenham sido elas, na prática, a cagada que forem...? Se tiver realizado três ou quatro - superei o objectivo, tornando-me «Muito Bom» ou «Excelente», ainda que hajam sido exercícios de puro folclore?

(Será que, por essa ordem de ideias, analogamente, do «número» de vezes que, numa sessão, eu retome o acto sexual, é que depende a avaliação da qualidade da minha prestação na cama? «Três? A sério?! És boooom! Quatro? Uau! Que fera!»)

Por outro lado, note-se o absurdo da forma como se prevê o que seja uma aula assistida. Não sou contra a ideia de que venham observar as minhas aulas. Terei muito gosto, se quiserem fazer-me uma visita. Mas porquê três? Que saberão sobre as minhas reais capacidades como professor vindo assistir a três aulas previamente marcadas, que eu hei-de seguramente preparar de um modo atípico, que não revela o que faço e como faço habitualmente?
Dir-me-ão: «Mas aí está precisamente algo de que a ministra precindiu».
Ora, em primeiro lugar não, não prescindiu - não, se eu estiver a apontar para o Muito Bom ou Excelente. Nesse caso, devo chegar-me à frente para que mas venham observar. E já viram as reacções dos meus colegas em face de um tal requerimento, de um tal pedido meu? «Olha, olha, olha aquele a querer fazer-se ao Excelente! Ehehehe! Eu sempre disse que o gajo tem a mania que é o máximo. (Mas olha, na cama, digo-te eu, não vai além de uma vez de cada vez. Coitado!...»). Por outro lado, afirmando «Quem se contente com o «Bom» não tem de se incomodar, deixe-se estar», no quadro deste modelo, ou seja, mantendo-se o paradigma, estamos a colocar-nos ao nível do Jardim, que manda todos os professores madeirenses para casa com uma espécie de «Bom» administrativo...

Finalmente, sempre disse (e, aí, sem qualquer originalidade, mas completamente em sintonia com o discurso dos sindicatos), que a divisão dos professores em Titulares e Meros Professores, e a consequente decisão de que de entre os titulares deverão, digamos, sair os avaliadores dos outros titulares e dos não-titulares, entre pares de profissionais que tomam café juntos, se cruzam todos os dias, formando simpatias e antipatias, amizades, cumplicidades, inimizades, é de uma tão elementar estupidez, que custa ver como não foi já compreendida... caramba... até por aquele senhor de permanente encaracolada, livra!, ou mesmo pelo outro que não pode fazer qualquer tipo de permanente... (Estou a descambar para uma argumentação ad hominem? Pois é. Mas deixem-me então refazer: Custa aceitar que esta estupidez não tenha sido compreendida até pela ministra, mesmo com as suas notórias limitações. Como ela não é um homem, julgo que já não se pode chamar a isto argumento ad hominem... ou sim?! Huuum...!)

terça-feira, novembro 25, 2008

UM ESPECTÁCULO PENOSO

Depois do pedaço que suportei do último Prós e Contras, sobre a avaliação do desempenho dos docentes, quedo-me a pensar, com alguma melancolia, sobre esta disjunção: ou, de facto, quando nos deparamos com programas destes, que juntam professores a falar, percebemos rapidamente como e quão, na generalidade, a nossa classe profissional é medíocre; ou, alternativamente, e por alguma razão que me escapa, devem convidar sempre os piores de entre nós, os mais atados e atabalhoados, os incorrigíveis senhores do dispararate.

E apetece perguntar: Então, realmente, não é justo submeter estes imbecis - e imbecis deste género - a uma qualquer avaliação?

Devo dizer - e com tristeza o digo, como professor de filosofia - que, nos últimos tempos, os ensinantes do Amor pelo Saber, esses, sobretudo, têm dado lições e espectáculos gratuitos de falta de senso (logo eles, que repetem, cartesianamente, que o «bom senso é a coisa mais bem distribuída neste mundo», numa ironia em que se procura deixar claro, pelo contrário, que só a eles coube a distinção de pensar bem). Mas é ver as embrulhadas, as falácias, os penosos exercícios de argumentação sem tom nem som, os erros formais e factuais que arrepiam os seus discursos (e arrepiam os tele-espectadores)...

Ponho-me no lugar de um Encarregado de Educação, de um cidadão anónimo, e grito para mim: Estes tipos não querem é mesmo ser avaliados!

Porque esta é a questão central, e não basta dizê-lo, nem repeti-lo: Nós queremos ser avaliados! - É preciso dar provas de que sim, e de como. É preciso desmontar as vozes que ecoam persistentemente nos nossos ouvidos e que, de Daniel Sampaio a Maria Filomena Mónica (já nem falo do Tavares e do Rangel, esses odiadores encartados dos docentes portugueses), insinuam que, no fundo, os professores constituem a mais fechada das corporações e que, no fundo, nunca verdadeiramente foram avaliados e que, no fundo, estão pouco desejosos de o serem.

Pensar pela própria cabeça é bom. Ser tutela de si mesmo é bom. Ser comité central do próprio espírito, liberta.
Saber o que se quer, procurar sempre saber o que realmente se quer e porquê, é indispensável.
E quando se não sabe, pensa-se melhor, antes de se aceitar o convite para ir ao Prós e Contras.

segunda-feira, novembro 24, 2008

A SORTE GRANDE DE SÓCRATES

Instado a confessar se a indignação e as manifestações dos professores o faziam temer que ficasse definitivamente ameaçada a possibilidade de uma nova maioria absoluta do PS, o primeiro-ministro, senhor José Sócrates, respondeu: «Nós não governamos a pensar em maiorias absolutas».
Ora a isso é que eu chamo não ter medo das palavras. Porque, bem vistas as coisas, José Sócrates disse tudo. Um pouco mais do que tudo, até. Para ser certeiro, bastar-lhe-ia ter explicado: «Nós não governamos a pensar». Ponto.

Mas eu compreendo que a ministra, por seu lado, não saiba para onde se voltar, para onde fugir, para onde recuar, por onde resolver o problema.
E não é por falta de trabalho. Na verdade, tem-se esforçado bastante, tem trabalhado como nunca. Tome-se um exemplo: a última entrevista que lhe foi feita na televisão; era bem notório o imenso, o intenso trabalho em que se empenhou para reformar, em pleno tempo de crise, era nítido o seu radical ímpeto reformador: por uma vez, não aparecia despenteada: é uma reforma no visual; nada de fios soltos na cabeça: uma grande reforma, bolas!; algum pó-de-arroz, uma cor nos lábios. Não se pode ignorar esse esforço reformista. Depois, a moderação na voz. O tom comedido, quase doce. Não conta?
Não digo, vamos lá ver as coisas, que tenha conseguido tornar-se bela. (Embora se, em Portugal, houvesse alguém tão irrazoável e delirante para considerar possível uma tal reforma, esse alguém seria, evidentemente, a ministra da Educação); mas digo que se realizou um esforço honesto, ingente e visível para que ela não estivesse, ali, muito mais feia do que Judite de Sousa.

O problema permanece delicado; mais do que nunca. Como salvar a face? Sim, há faces que não merece a pena salvar. Mas, enfim, como mudar o modelo de avaliação sem dar a entender que se mudou? Ou, pelo contrário, como não mudar dando a aparência de que se mudou? Mais: e como conseguir fazer que o senhor de bigode farto, do sindicato, aceite essas mudanças-que-o-não-são, ou essas não-mudanças-que-o-são-mas-não-interessam?

E, pensa Sócrates, como evitar, no meio disto, a sangria dos votantes? O esvaziamento da maioria absoluta? Resposta dada, portanto: evitando pensar nisso.
Alguém dizia - não foram os Gato Fedorento? -: Bem, Sócrates tem, no fundo, muita sorte. É que Queirós está à frente da selecção, com os resultados que se têm visto.
E, que diabo, num país em crise, não há ovos disponíveis para o Queirós & ministra da Educação.

terça-feira, novembro 04, 2008

A RECONVERSÃO IV (E FIM)

A ideia de uma invasão do planeta por hordas de criaturas de seis dedos com unhas por cortar em cada pé arrepiou-o vivamente. (Mas até algo tão simples como um arrepio era, agora, no seu corpo reconvertido, sentido de um modo novo, diferente, estranho, absurdo).

Subiu, atarantado, aos quartos: queria perceber o que acontecera à mulher e aos filhos; se também eram como ele, e haviam sofrido uma metamorfose idêntica, ou, não sendo, se o podiam de algum modo ouvir, entender, aconselhar, ajudar... (Nem lhe ocorreu que podiam afugentá-lo, expulsá-lo, matá-lo!)

À medida que galgava as escadas, sentia que se apossava cada vez mais do ser em que se reconvertia. Referências antigas, muito antigas, vinham à tona, como acordando de um sono velho. Memórias, imagens, ideias. Uma outra linguagem, de que se esquecera, de que se não lembrara nunca, mas recordava agora, tornava-se-lhe clara na mente, carregada de termos muito exactos, muito mais perfeitos do que as possibilidades oferecidas pelas línguas da terra. Ele era Kal-El. Uma célula adormecida durante anos. Pronta para a acção.

No quarto, a mulher e os gémeos viam-no entrar de sopetão. Olhavam-nos aterrorizados. Com olhos cheios de pavor. Abraçados uns aos outros. Tremendo. Temendo-o.

Foi a menina que o reconheceu. Sob a cor diferente, o aspecto inconcebível, os sextetos de dedos, as escamas em redor do pescoço.
E correu para ele - paradoxalmente, como se fosse proteger-se, nos seus próprios braços, dele mesmo.
- É o pai! É o pai! - repetia ela.

E nesse momento, todas as dúvidas encontraram uma solução.
Cabia-lhe protegê-los. Com seis dedos e escamas ou não. Fosse quem fosse. Ainda que se chamasse Kal-El.
Abraçou-a.

quinta-feira, outubro 30, 2008

A RECONVERSÃO III

Era uma voz desconhecida. E, no entanto, paradoxalmente, reconhecia-a. Mais complicado, ainda: reconhecia-a sem a reconhecer, como se lhe chegasse de um Além onde só estivera em sonho, ou mesmo mais recuada e longínquamente, num sonho de um sonho...

Olhou para o espelho; curiosamente, era dali que a voz familiar-desconhecida lhe soava.
E tornou a reparar no seu estranho rosto reflectido.
Mas não. Não era já o seu rosto. Nem o de sempre, nem aquele em que acabava de se metamorfoser. Via agora no espelho, como se o espelho fosse uma televisão ou um intercomunicador com imagem, o rosto de uma criatura estranha, que lhe falava serenamente. Havia ruído, um pouco de granulado, uma imagem não muito nítida, um pouco desfocada por vezes - e uma pessoa, um ser, um bicho, um monstro, que era aquilo?, que ele não conhecia mas, de algum modo, vagamente reconhecia.
E que lhe repetia:
- Não te assustes, Kal-El! A hora da reconversão chegou! Estás a readquirir o teu corpo, o teu ser. O ataque não tardará. Os humanos estão desesperados. A crise alastra. É agora ou nunca, Kal-El!

domingo, outubro 26, 2008

CONTOS INFANTIS REVISISTADOS: OS TRÊS PORQUINHOS

Era uma vez três porquinhos.

O mais novinho era uma porquinha pequenina e com pouca experiência da vida, chamada Daisy.
O do meio, seu mano, era um porquinho astucioso e adolescente, a quem tratavam por Dudu.
O mais velho e mais experiente, cinquentão, pai dos outros dois, era o Prático.

Os três porquinhos foram, então, construir as respectivas casinhas.

A mais novinha, coitadita, não vos faz pena?, sem experiência de vida, sem consciência das agruras possíveis, previsíveis até, limitou-se a fabricar uma casita de palha.

O outro, ligeiramente mais sabido mas ainda pouco rodado, levantou, não muito longe, uma casa de madeira.

E o Pai Prático, todo lampeiro e esperto, construiu uma moradia de pedra, com dois andares, quintal e até uma piscina com vedação para impedir que os lobos a frequentassem.

Acontece que o Lobão desta história, o Banco, fez, primeiramente, uma visita à Daisy. Bem queria soprar, mas a Daisy, no seu linguajar infantil, limitou-se a dizer:

«Empéstimo?! Qual empéstimo?! Não, eu apagnei uma páglia e fije a cágnia xojinha, xem ajuda nenhuma!» (Tradução: apanhei umas palhas e tratei de fazer a casa sozinha, sem pedir nada a ninguém...)

Em face de Dudu, o Lobão fez também inúmeras tentativas de o encostar à parede. Mas o adolescente, com palavrões típicos de todos os adolescentes, espreitando pela janela, mandou-os passear:

«Qual @3£# de empréstimo qual carapuça! Vão mas é %&/! Tão a brincar??? Não me ?»=}§£$ o juizo!!!»

Quando chegou a vez do Pai Prático, o Lobão vingou-se ferozmente das anteriores frustrações. Soprou desalmadamente. Vimos a casa subir pelos ares, tijolo após tijolo. Desaparecer no firmamento. E o Banco a rir, Agora é que é! Huá Huá Huá! Querias casa? Com o Euribor neste descontrole? Eu dou-te a casa!!!

De modo que o porquinho Prático teve de fugir para casa dos filhos, onde vive hoje muito triste e temeroso, espreitando à janela, paranóico e infeliz.

Aguenta seis meses na casa de palha - e descansa da Daisy, durante outros seis meses, na casa do porquinho Dudu.

segunda-feira, outubro 20, 2008

A RECONVERSÃO II

Naquele princípio de histeria que se apossou dele, lançou um berro. Esperava, talvez, que a família acordasse sobressaltada. Que descessem. Que o ajudassem. Que povoassem novamente o seu mundo de cenas e situações, vozes e gestos familiares e reconhecíveis. Mas ninguém respondeu ao apelo: e, no silêncio, o eco do seu berro, ou a memória do seu berro, assustou-o e obrigou-o a conter-se.
Aproximou-se do espelho, à espera de que fosse este a devolver-lhe, no reflexo do seu próprio rosto, um rasto e um resto de normalidade.
Mas o seu rosto, que o olhava do espelho, era diferente. Ele não era ele: aquela testa demasiado longa nunca fora a sua testa; nem aquela cabeça completamente calva (prenúncios de calvície, sim, fariam parte do reflexo esperado, mas não aquele crânio desértico que via agora); sobretudo aqueles olhos com que se olhava, desesperado, não eram os seus olhos.
Lembrou-se da «Metamorfose». Tranformara-se em quê? Transformava-se em quê? E com que direito se apoderava assim a ficção da sua própria vida?
Ouviu, então, uma voz:
- Calma, Kal-El! Chegou o momento! Não te assustes: chegou o momento!

(CONTINUA)

sexta-feira, outubro 17, 2008

A RECONVERSÃO

A vida não lhe corria bem: os efeitos da crise económica abriam rachas nas menores porções do seu dia-a-dia familiar e profissional. Tudo eram ralhos, dramas, nervos; tudo eram crises e choro; tudo eram contas que rabiscava obssessivamente em folhas reaproveitadas de papel (um talão do multibanco, uma conta da EDP), com um lápis muito comido, muito velhinho.

A casa, então, era um sorvedouro: bonita e grande por fora, com um quintalinho onde plantava couves que faziam as invejas dos vizinhos mas, por dentro, quem diria?, como numa brutal metáfora do estado da sua vida, tudo eram manchas de humidade avançando, alastrando, formando formas trocistas, enormes bocas escancaradas, ou rindo ou para o devorar...

Entrou na casa de banho, madrugada fria, pensando, ou melhor, chorando-se no pensamento. Tomou um duche rápido. Com água fria. E preparou-se para cortar as unhas dos pés - aí estava um aspecto da higiene, pelo menos, que não lhe saía caro...

E, com o pé direito assente sobre o tampo da sanita, atacava já com o corta-unhas quando...
Contou seis dedos. Seis!
Não podia ser. Duas explicações possíveis, uma de duas hipóteses: ou estava a sonhar - era um sonho, e então talvez tudo fosse um sonho, talvez a crise económica fizesse também parte do mesmo horroroso pesadelo...
Ou, mais simplesmente, enganara-se. Contara mal, atabalhoada e nervosamente.
Tornou a contar: seis dedos. Indiscutível: seis, seis, seis. Contou ainda: seis. Seis.
Pousou, nervosamente, o pé direito no chão, assentou o esquerdo sobre o tampo da sanita. Seis dedos, igualmente.
(CONTINUA)

terça-feira, outubro 14, 2008

COISAS MINÚSCULAS À MARGEM DA SUFOCAÇÃO

Como é evidente, o tenebroso processo de avaliação entre pares em que me encontro submerso não conseguiu acabar comigo. Aperta, sufoca, desvitaliza - como, em certos filmes, quando a personagem se encontra num quarto estreito, e descobre que as paredes são móveis, e que deslizam de modo a vir a esmagá-lo se não descobrir uma solução até lá... -; cansa, entristece, deprime. Mas, por isso mesmo, a mínima coisa que se descobre à margem desse processo ganha uma importância e um significado quase resplandecentes.

Nessa medida, tenho vindo a tropeçar em pequenas maravilhas que gozo silenciosamente. Pequenas descobertas que adquirem proporções e significados inesperados; pausas minúsculas, tempos para respirar fundo diante de uma chávena de café, redescobertas constantes.

O café é uma dessas maravilhas. Aderi de uma vez por todas ao abatanado, rodeio-o de rituais e de fórmulas. Gosto dele muito quente e cheio.

Outra, é a leitura. É verdade que o tempo me tem vindo a ser roubado de uma forma inadmissível, mas dez minutos que me sobrem para passar mais uma página de «Detectives Selvagens» - que é grande e não terminarei tão cedo - é um tempo bem empregue. Um humor imprevisível, surrealista e frequentemente obsceno, uma escrita seca e sem floreados mas, paradoxalmente, de uma imensa criatividade, personagens carregadas de defeitos enternecedores de tão humanos, são os nós deste enorme texto.

Em matéria de banda desenhada, tenho a recomendar um blogue - chamemos-lhe assim: gráfico, cuja referência me foi indicada pelo filho de uma amiga minha, de Belas Artes. Fosse eu Janota ou Angel e punha-vos a clicar para voarem até lá. Assim, ponho-vos a escrever: http://imaginarte-imazine.blogspot.com - Olhem! Que espanto! Mal o escrevi, o endereço apareceu em azul; bruscamente, sem eu fazer nada, pronto para que cliquem. Estou a progredir, ein? Por acaso, mas estou, ein?

E assim vou resistindo.

terça-feira, outubro 07, 2008

OLIMPÍADAS DA MALHA

Parece que o nascimento de uma criança deve saudar-se com a mesma alegria devida à doce chegada da Primavera. E eu compreendo: há-de ser porque esse momento, uns dias após o parto, é certamente o único em que o bebé, que já massacrou a mãe para vir ao mundo, ainda, no entanto, não descobriu novas estratégias para continuar a massacrar a mãe e, já agora que está cá fora, também o pai.
Esse curto tempo em que tudo parece agradável e sorridente tem, por isso mesmo, de ser pretexto para festejos e danças. Nos próximos dez anos, pelo menos para os pais, acabaram-se os festejos e a dança é outra!

Nesta base - festejar a pausa que nunca mais voltará - fomos no fim-de-semana a Alverca distribuir uns beijos por um recém-nascido e respectiva família.

Chegados, vimos a menina a dormir docemente. Olhámo-la, enternecidos, trocámos ideias tontas sobre as semelhanças com outros parentes, escondendo caridosamente algumas semelhanças perturbadoras que por acaso pudéssemos ter também detectado.

E, depois, na confusão, fui arrebatado pelo jovem pai e pelo jovem avô para uma taberna de Alverca, onde - a mim, que vinha mal refeito de uma inclemente gripe que atacara com medicação feroz - para uma taberna de Alverca onde, dizia eu, me obrigaram a comer ovos cozidos e a beber uma série de «mines».
«Mas não haverá, não sei, hum, por exemplo uma sanduíche?, apetecia-me uma sanduíche, ou então...», insinuava-me eu a medo, com as pernas ainda doloridas da doença.
Não. Uma taberna não é o Ritz, lembrou-me alguém certeiramente. Ovos e mines.

Sequentemente, tornaram a pegar em mim (que pouca resistência estava capaz de oferecer), e enfiaram-me numa espécie de campeonato de malha, jogo de que não sei absolutamente coisa alguma. Avesso a que me considerem «snob», ciente de que nenhum lema é tão adequado como «Em Roma sê romano», aceitei pôr-me a jogar àquele jogo, com a mesma imprudência e a mesma irresponsabilidade com que uma criança chamada ao quadro, numa aula de matemática, em vez de confessar que não pesca absolutamente nada do assunto, optasse por «resolver» o problema escrevendo por ali uns quaisquer números, absurda e aleatória, mas convictamente. (O que também já me aconteceu!)

Formavam-se equipas renhidas, com tipos de nomes como o Chico Damas, o Preto e o Coxo. E, bruscamente, começou tudo: vi-me apanhado num coro de gritos, num entusiasmo ensurdecedor, com palavras que não percebia, relativamente àquele desporto que, afinal, tinha mais regras do que me parecera. «Truco», dizia um. Acho que era isso. Mas aquilo tinha um significado pré-determinado e, com base nesse grito, fazia-se uma operação demasiado rápida para mim, a partir da qual, de repente, ele me vencia.
Discordava-se. Media-se com um cigarro qual das malhas se encontrava mais próxima de um prego que nunca cheguei a perceber onde estava, que nunca vi. Insultavam-me. O Zé Rabo estava possesso comigo, enervava-se...

Tive de me raspar assim que pude. Deixaram-me ir. Pudera! Devem ter ficado tão aliviados como eu...

Preferi voltar ao círculo feminino, arrulhando, terno, em torno do recém-nascido. Que, por um breve lapso de tempo, até bonito me pareceu!