domingo, junho 07, 2009

A FINTA

Guardo no meu espírito o momento mais glorioso de toda a minha vida.

Eu era um razoável jogador de basquete: aprendera a enganar os adversários, fingindo que ia passar a bola para o companheiro daqui e passando-a, afinal, para o dali. O meu problema, se bem me lembro, é que, frequentemente, acabava enganando também os colegas de equipa. Como entortava os olhos e fazia «bluff», aquele a quem acabava por passar nunca estava à espera da bola e perdia-a, irremediavelmente.

Mas se, pelo menos, no basquete tinha uma certa graça, ainda que pudesse não ser eficaz, no futebol fui sempre um desastre. Um sismo. O terror, mas o terror do meu grupo!

Essa é a razão por que não posso deixar de recordar, maravilhado, o dia em que, em pleno jogo, fugia eu com a bola ao Rui Lagartixo - reverenciado por todos como uma espécie de Cristiano Ronaldo -, aquele se aproximou de mim, eu passei a bola do meu pé direito para o meu esquerdo, mas, logo após, quando o Rui a procurava no pé esquerdo, a tornei a passar para o direito, tudo num movimento tão despropositado em mim, tão inadvertido, tão, aliás, sem eu o querer nem saber bem como o estava a fazer, que o Rui Lagartixo se atrapalhou e caiu redondo no chão.

Lembro-me, como se estivesse a ver num filme, da multidão que enchia o ginásio (ou será a minha memória que acrescenta essa multidão...?) a pôr-se de pé, ovacionando-me, incrédula, ansiosa por me levar em ombros. Havia lágrimas. De espanto, só podiam ser de espanto.

Nunca mais fui capaz de repetir uma tal finta. Nem com os garotos de três anos, na praia...

ORIENTAÇÃO

Devemos ter na vida, diz-me o senhor Azevedo, pelo menos uma certeza: nem que seja uma ideia suficientemente segura para nos nortear os passos.
Penso que tenho uma certeza:
O uísque, para mim, deve ser sempre com cinco pedras de gelo.

HÁ QUEM DIGA QUE PODE ATÉ PERDOAR, MAS NÃO ESQUECE...

... Eu, pelo contrário, posso esquecer.
Na minha idade, é mesmo perfeitamente natural que esqueça.
Mas não perdoo.

Deve ser precisamente por essa razão que chego a este ponto do meu percurso com uma longa lista de questões que me recuso a perdoar, embora, para ser sincero, não me lembre muito bem em que consistiu cada uma dessas questões.

quarta-feira, junho 03, 2009

um caso

O macambúzio senhor Portugal não consegue tirar do espírito a vizinha Espanha...

NOVIDADES

É só para dizer, queridos amigos, que o meu silêncio neste blogue nada tem de preocupante. Acontece tão somente que me tenho distribuído por alguns outros blogues, nomeadamente um sobre cinema (em conjunto com o grupo de cinema da eslav, o Gostos Discutem-se), outro de poesia, mais um de textos do Caradanjo...

Entretanto, no blogue do Clube de Cinema, aventurei-me a aprender a usar os recursos tecnológicos que tenho à minha disposição. Reparem. Por exemplo, cliquem realmente no nome em causa.Viram? É um exemplo. Outro? Cá vai.





Vamo-nos vendo por aí...

quinta-feira, maio 28, 2009

AFORISMO SENTIDO

Os gostos comuns e partilhados, quase sempre nos dividem e separam profundamente.
Tanto como os gostos diferentes podem aproximar as pessoas...

sexta-feira, maio 22, 2009

terça-feira, maio 19, 2009

UMA HISTÓRIA CADA VEZ MENOS RECOMENDÁVEL

O senhor T. soube imediatamente da maledicência. No bairro social tudo se sabia, se não pelo sapateiro coxo, pela viúva dos galões com torradinha, se não por ela, pelo drogado que não largava os transeuntes enquanto lhe não aviassem uns trocos.
O senhor T. ficou furibundo.
E um dia, telefonou a Dona B. que, quando lhe reconheceu a voz esqueceu tudo, o ressentimento e o rancor, a tristeza.
Contudo, o senhor T. vinha seco como... como... não sei, por ora só me ocorrem comparações sem lustro: vinha com uma voz seca, enfim.
- Dona B . - regougou ele -, se eu sei que a senhora diz mais uma palavra, uma que seja, acerca de mim, da minha mãe, dos meus sobrinhos, garanto-lhe que eu conto o seu segredo à polícia!

Dona B. não tinha qualquer segredo. Se tinha, não se lembrava. Que seria? Mas o certo é que aquelas palavras a atingiram como se o tivesse. A verdade é que acreditou que tinha um segredo grave e profundo que, por qualquer razão, a polícia gostaria de saber. Ou não gostaria de saber. Estava confusa. E culpada, sentia-se terrivelmente culpada por carregar um segredo tão terrível e tão oculto que até ela o ignorava.

Eis a origem de tudo: foi a partir daqui que decidiu - e principiou a planear meticulosamente - o assassínio do senhor T.

Havia que preservar o seu segredo.

segunda-feira, maio 18, 2009

UMA HISTÓRIA POUCO RECOMENDÁVEL

Dona B. devia ao padeiro e devia na mercearia.
Não devia à sorte, não devia à natureza, que lhe fora madrasta, não devia à saúde (embora devesse na farmácia) e nada devia à bondade. É até aceitável que uma pessoa como Dona B. nada devesse à bondade: uma criatura minada por uma doença maligna, com uma corcunda que se desenvolvera tragicamente nos últimos anos, feia como os palavrões mais obscenos, que diabo!, teria alguma razão para ser bondosa?

Houve um período curto e brilhante de equívoco na vida, quando julgou que uma família de vizinhos seus (uma idosa e o filho mais os netos dela e sobrinhos dele) se interessava pela sua pessoa. Os meninos, por exemplo, procuravam-na para lhe oferecerem desenhos - que ela aceitava, comovida, dizendo «Ah, que lindo! Vou já pendurar na parede» e que retribuía com uma notita de cinco euros, sem perceber que os garotos não lhos ofertavam senão por causa dos cinco euros...

Mas, mais que os meninos, havia o senhor T., barbudo e bondoso, que a levava a passear, a pé, por tardes soalheiras, conversando muito com ela, perguntando-lhe pela saúde, conduzindo-a, depois de um cafezito, de regresso à porta.

Um dia, o idílico equívoco explodiu em fragmentos duros.
Dona B. já nem se lembrava bem do que sucedera. Seria porque uma vez não tinha à mão cinco euros para os garotos? Ou porque estes não lhe haviam feito um recado? Ou a avó dos miúdos, Madame Márcia, afiançara, ofensivamente, que era mais doente do que a própria Dona B? Alguém da família lhe recusara uma das prendas com que, no fundo, Dona B. lhes comprava o interesse e o carinho...? Já nem sabia. O pior foi que, como numa corrente de peças do dominó a fazer tombar sucessivamente a seguinte, também o senhor T., filho adulto de Madame Márcia e tio dos garotos, que vivia com esta e com estes, começou a não ter tempo, ou a não ter paciência para as conversas e para os passeios com Dona B.

O que Dona B. não lhe perdoou: e, portanto, começou a dizer mal da família vizinha em geral mas, principalmente, do senhor T.

sexta-feira, maio 08, 2009

CONVERSA ACABADINHA DE SUCEDER

No Bar da escola:
EU - Já cá está? Cedíssimo, caramba. E mora longe, não é? Então a que horas é que acorda?!
DONA - Ai, às cinco horas da manhã, professor...
EU - Cinco? Mas com certeza que se deita com as galinhas...
DONA - Nem por isso, é conforme. Olhe, quando joga o Benfica é até às tantas..! [A chorar no pós-jogo, penso eu, mas não digo, mas não digo...]
EU - Ah, estou a ver. Mas sabe, precisar de poucas horas de sono é próprio dos génios. Por exemplo, o Professor Marcelo...
DONA - Ah, não é o meu caso. Eu sou Sagitário!

domingo, abril 26, 2009

AS PESSOAS BRILHANTES PODEM ATRASAR-SE À VONTADE

Tinha jurado à minha pessoa que traçaria uma clara fronteira entre o conteúdo deste meu blogue e o exercício da profissão que exerço. Política cabe aqui bem, vida familiar - que é, aliás, uma forma de política, com revoluções e rápidas mudanças de breves democracias para longas ditaduras... entre irrupções de anarquia a torto e a direito - também cabe, ou comentário sobre cinema e literatura: profissão é que não, vá-se lá saber porquê.

No entanto, tenho de reconhecer que a maioria das histórias mais pitorescas que sofro se passam comigo na minha qualidade de professor. E portanto, como todas as regras, também esta não faz sentido se eu a não quebrar sempre que haja um motivo mais forte do que ela...

Para inclusão num conjunto de actividades ligadas ao Humor que, ao longo de uma semana, constituiriam a Semana do Humor (O Humor Vem à Escola), decidi convidar o brilhantíssimo A. T., actor, realizador e contador de engraçadíssimas histórias populares...

Combinei com ele que o iria buscar ao comboio, a Algés, às duas e meia, de forma a chegarmos à escola às três, hora aprazada - e anunciadíssima - para o início da sua sessão.
Por volta da uma hora, recebo um telefonema. «Vou chegar um pouco atrasado. Não te plantes em Algés às duas e meia: eu telefono-te quando estiver a chegar...»

Devo confessar que tenho, precisamente, um problema psicológico em relação às horas. Sou o tal que uma vez combinou ir a casa de um professor ao meio-dia e, chegando ao local às onze horas, ficou a dar voltas ao bairro de modo a poder, exactamente ao meio-dia, estar a com o dedo sobre a campaínha da porta. Aberta seguidamente pelo senhor, que me sorria, um pouco perplexo: «Gil Duarte! Mas isto é pontualidade britânica...»
Portanto, o telefonema de A. não me acalmou. E, ansioso como sou, precisamente às duas e meia, contra as indicações, lá me «plantei em Algés» esperando por novidades.

Eram duas e trinta e cinco e nada, duas e quarenta e nada. Passavam alguns pretos, mas nada do meu preto!
Eram dez para as três e nada.
O tempo apertava-se. Sentia um nó no estômago: devia ser o tempo a esmagar-me.
Às três horas, comecei a imaginar, na escola, os professores e os alunos que se preparavam para assistir à sessão, sentando-se, tossicando, conversando animadamente com o colega do lado.
Às três e cinco, nada de telefonema.
Às três e dez, já só imaginava as primeiras impaciências, o desgosto de professores a quem eu pedira que não dessem a sua aula para poderem estar antes presentes com a turma: que fossem antes ver e ouvir o magnífico A.T.
Às três e quinze, telefonei-lhe: tinha o telemóvel desligado.
Às três e vinte já só me povoavam a cabeça imagens de revolta, alunos gritando, pessoas pateando, livros sendo arremessados, todos insultando-me mentalmente, todos cortando mentalmente relações comigo...

Às três e trinta e cinco, recebo um telefonema de A.: que sabia que estava atrasado; que se encontrava ainda em Lisboa; que já não ia a Algés; que se metia num táxi e seguia directamente para a escola. Que, aliás, já estava no táxi. Que eu lhe desse a morada.

E, no meio da atrapalhação, dos nervos, gaguejando muito, pedi-lhe que informasse o senhor taxista que fosse então, por favor, ter à Escola Secundária de Linda-a-velha, vagamente não muito longe do Pingo-doce.
E, acrescento, subitamente lúcido: «Rua Luísa Todi. É na rua Luísa Todi».

Desligamos. Falo para alguém que, na escola, me possa dizer qualquer coisa sobre a situação: os alunos estão a aguentar, respondem-me, os professores tomam café, mas, perguntam-me, que se passa, está tudo bem?
Explico que o senhor se meteu num táxi e segue já. Assalta-me uma dúvida:
«A escola é na rua Luísa Todi não é?»
Não era. Não é. A Escola Secundária de Linda-a-velha está, desde há muitos anos, na mesma Rua Carolina Michaëlis de sempre...

Quero tornar a entrar em contacto com o A. Já não lhe encontro o número. Peço, por favor, a alguém da escola que lhe telefone e faça a correcção.

De toda esta história, interessa a conclusão:
A. T. chegou. Atrasado é dizer pouco. Principiou a falar. Espirravam os primeiros risos. Depois, gargalhadas. Falou ininterruptamente durante mais de uma hora, criando permanentemente, em torno, aquele delicioso ruído do riso colectivo.

A. T., como sempre, foi brilhante. Brilhante!

quinta-feira, abril 23, 2009

MENTES PODEROSAS - III























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quinta-feira, abril 16, 2009

MENTES PODEROSAS - II






















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segunda-feira, abril 13, 2009

GRAN TORINO

Uma grande obra - seja um romance ou um poema, uma pintura ou, como é aqui o caso, um filme - não é necessariamente uma obra isenta de erros, mas uma que, na visão de conjunto que instaura, no todo que é, consegue que a própria grandeza torne perfeitamente irrelevantes todos os seus erros. Diria que uma obra-prima precisa de falhas para se medir com elas: é grande na medida em que lhes sobrevive, as torna esquecíveis, as converte em pormenores que nada do essencial diminuem.


Gran Torino tem erros: desde o início, o óbvio tende a impor-se demasiado. Considero quase uma desconsideração, por exemplo, que o protagonista, Kowalski, um velho e intratável norte-americano de origem polaca, que nunca conseguiu compreender ou ser compreendido pelos filhos e pelas famílias que estes constituíram, agarrado a uma solitária autonomia desabridamente reforçada pelo que ele percepciona como a invasão do seu bairro por grupos de vizinhos das mais diversas etnias, precise de manter aquela espécie de solilóquio permanente, que pode ir do rosnar até uma série de frases que permitem, ao espectador, ir-se inteirando dos seus preconceitos, dos seus estados de alma, das suas raivas; do mesmo modo, todos os pequenos diálogos entre outras personagens - como o dos dois filhos, na igreja, ou entre um dos filhos e a esposa, no seu jipe «japonês» - enfermam do mesmo vício: percebe-se que se trata de ir, de forma pouco subtil, informando o espectador, apresentando-lhe os dados com que interpretará os caracteres em jogo.


As improbabilidades abundam. Por muito que Clint Eastwood queira assumir o papel de um homem idoso mas extremamente duro, duvidamos sempre do fundamento da sua capacidade para impor respeito a um gang - mesmo de pistola em punho - ou, pior ainda, para tirar da casa para fora, a murro, um jovem e possante elemento de um outro gang. Afinal, já não se trata de Dirty Harry, mas de um homem no fim da linha.


Também a ironia poética daquela sala de espera carregada de pacientes, todos eles indianos, chineses ou negros, antecâmara do anúncio proferido pela trágica profetiza do destino, precisamente uma médica chinesa, padece do mesmo tipo de excessiva linearidade. (E não é verdade que, paradoxalmente, se trata, nessa sua mesma simplicidade, de uma cena muito, muito bela e muito, muito eficaz? Importará então, realmente, que não satisfaça de imediato o nosso desejo de complexidade...?)


Poderíamos prosseguir, quase indefinidamente, a enumeração de pormenores menos convincentes, mas para quê? A partir de certo momento, nenhuma dessas falhas, essas superficialidades, essas formas fáceis e óbvias de simbolizar ou exibir tem a menor importância: porque o filme voou sobre todos os pormenores, bons ou maus, que o vão construindo como uma história perfeita: uma tragédia acerca de como, numa América rasgada entre culturas que colidem, o que importa - e faz toda a diferença - é o espaço que sobra ou se conquista para a liberdade.

Liberdade como derradeira resistência ao que o meio determina que sejamos; liberdade como ponto de fuga a todas as programações que a tradição-e-a-vida-e-os-obstáculos-e-a-aparente-ausência-de-saídas se unem para nos impor. Pode alguém como Thao não se tornar um futuro gangster, quando tudo o condiciona e empurra? Não parece provável. É, contudo, possível. Pode alguém como Kowalski, mais do que aprender a conviver com os seus vizinhos estrangeiros (questão menor), escolher, numa situação limite, inesperadamente? Optar de outro modo: como em princípio ninguém se lembraria...? Procurar ainda uma alternativa que não seja a imediata, a oferecida, a ou uma das pré-determinadas? Nem a vingança nem a indiferença? Não parece provável. Mas que é possível, que é sempre possível uma diferente maneira, um imprevisível caminho resgatador e regenerador , será, porventura, o grande trunfo e o grande segredo desta pastoral americana (para retomar a ironia de um título conhecido). É, portanto, em tudo, o contrário da escolha fascizante de um Dirty Harry. (Mas será ainda justo, depois de uma sucessão de realizações maiores, que um filme de Clint Eastwood traga, ainda que invertendo-o, o peso - ou o contrapeso - desse polícia arruaceiro que lhe marcou o início da carreira?)

Gran Torino, nome também aparentemente mal escolhido, que só ao vermos o filme percebemos que nunca poderia ser outro - é o nome matematicamente exacto - simboliza ainda, por fim (uma vez mais, demasiado linearmente? Sei lá...) esse mesmo ponto de fuga e de liberdade a que uma leitora minha chamava, há muito tempo, a «possibilidade improvável»...

quinta-feira, abril 09, 2009

DESVENTURAS DE UM HUMORISTA COBARDOLA

O meu humor é um animal perverso e neurótico. Como eu próprio. E se, no humor bem conseguido, se trata sempre de um equilíbrio entre o racional e o irracional, então, no caso destes dois animais (eu e o meu humor), o mínimo que se deve dizer é que o equilíbrio tende a revelar-se bastante desequilibrado.

Às vezes, saem-me frases catastróficas. Depois, arrependo-me. Na altura, só consigo perceber a graça da matéria: que fira, ou que choque, ou que estrague, tudo são, infelizmente, consequências que não prevejo, situadas para além do que sou capaz de visualizar no momento em que me faço de engraçadinho...

Por exemplo, no blogue de uma amiga (clique aqui) fazia-se alusão ao alter-ego de diversos caixas-de-óculos. O que se dizia (para quem não tenha clicado ali) era, basicamente, e numa discreta alusão a um post meu, que alguns caixas-de-óculos conhecidos (como o Clark Kent, o Peter Parker etc.) são nada mais nada menos do que... autênticos super-heróis.

Alguém, num comentário, sugeria à autora que fizesse o favor de retirar da lista o «palonço do Homem-Aranha!»

E, num gesto de uma agressividade triste e gratuita, insinuei que o autor daquela comentário tinha de ser um caixa-de-óculos totó cujo alter-ego seria um caixa-de-óculos ainda mais totó. (Bem, foi levemente mais do que uma «insinuação»: foi isto mesmo que acabaram de ler o que literalmente eu escrevi!). A ideia, em si, temos de concordar, tem alguma graça. Pelo menos, pareceu-me... parecia-me...!

Muito mais tarde, caí em mim. Muito mais tarde. À noite, mais precisamente, tive um pesadelo que ainda agora me causa arrepios. No horroroso sonho, Angel, super-heroína e autora do post sobre os caixas-de-óculos, insistia, num telefonema seco, em que eu me fosse encontrar com ela a um café, onde me esperava uma surpresa. A surpresa era, tchan-tchan, o seu irmão (e a sua mãe), sendo que o irmão, que no meu sonho envergava um kispo azul e vinha de canadianas por causa de uma perna engessada, era precisamente o autor do dito comentário. (Talvez Freud nos ensinasse que a perna fracturada funcionava como subtil referência aos danos que o meu comentário ao seu comentário teriam provocado).

Do que eu enevoadamente consigo recordar, o senhor estava empenhado em bater-me com uma das canadianas, perante o veemente aplauso da mãe e da irmã.

Escusado será acrescentar que acordei perlado em suor, com o telemóvel na mão, teclando uma nervosa mensagem à minha amiga Angel no sentido de que, se ela achasse que o autor do comentário fosse pessoa «ofendidiça», capaz de reagir mal ao «meu comentário sobre o seu comentário», pois que o eliminasse.

E, para que não restassem quaisquer equívocos, esclarecia: «Eliminar o meu comentário, não eliminar o teu irmão!»

QUE SIGNIFICA «PAIZAR»?

A resposta à pergunta enunciada no título dá-se numa única linha: «paizar» significa ser pai da Daisy e do Dudu.
Às vezes, perguntam-me que faço quando não «paizo», ou seja, durante as folgas que me caibam na tarefa de tomar conta dos meus filhos.
Gosto de dar a resposta politicamente correcta: Ah, e tal, quando não estou com eles, e tal, dedico-me a desejar estar novamente com eles.
Claro que não é sincero. A resposta certa seria: «Quando não estou com eles, dedico-me a planear malfeitorias para tortura de quem me faça uma pergunta tão difícil». Mas a resposta ainda mais certa, a definitiva, seria: «Quando não estou com eles, caio imediatamente a dormir!»

O problema nunca é quando não estou com eles. Parece óbvio. O problema é: quando estou com eles.
E o que eu faço nessas ocasiões é, em geral, gritar.
Claro que não acho bem fazê-lo amiúde. E, mesmo não sendo crente, peço muitas vezes a Deus que me dê forças para ter paciência e não desatar aos gritos com os petizes. A oração completa, aliás, é assim: «Dá-me forças, Deus meu, para não gritar com estas crianças! Mas não precisas de te apressar. Deixa-me só dar, primeiro, uns gritos...»

Em certas ocasiões, é maravilhoso estar com os meus filhos. Ocorre sempre que estão a dormir. Contemplar aqueles rostos calmos, na penumbra, vê-los tapadinhos até ao queixo, aspirar o silêncio da casa, revitaliza-me, rejuvenesce-me.

Perguntam-me: estás a ser irónico, não estás? É um texto exagerado, não é? Uma caricatura, pois sim?
Claro que exagero. Há muitos outros momentos em que adoro estar com eles. Por exemplo, mesmo quando estão a dormir sem estarem tapados até ao queixo...

segunda-feira, abril 06, 2009

VELHICE

Claro, caramba!, que também não é caso para se ver o envelhecimento propriamente como um drama. É uma tragédia.

Mas caso, amigo leitor, estas palavras lhe parecem cruéis, pessimistas e, portanto, politicamente incorrectas, sempre posso esclarecê-las melhor: não é a velhice em si que me preocupa. É a velhice em mim.

Dou incontornavelmente de caras com ela, com a velhice em mim, quando a oftalmologista me aconselha uns óculos com janelinhas para ver ao perto. Ou seja, uns óculos para ver ao longe com janelinhas por onde devo olhar quando estiver, por exemplo, a ler. O que é sempre complicado. Imaginem a situação em que eu tenha de olhar bem de frente, olhos nos olhos, uma pessoa próxima - seja um inimigo que se prepara para investir, seja a mulher amada que se prepara para investir...
Bem! Aparentemente, terei então de baixar os olhos (e não alinhá-los numa linha recta com o olhar de quem me olha), de forma a que os nossos olhares se enfrentem, sim, mas enquadrados nas minhas janelinhas...

Mas não, nem foi tanto essa proposta o que mais me incomodou: mas a maneira como a rapariga, muito novinha, me tratava.
«Bem, senhor Duarte, então vamos lá espreitar para esse olhinho, sim? Hmm, estou a ver. Tem de descansar a vistinha, senhor Duarte. Sabe o que lhe está a contecer? Eu já lhe digo, tenho ali uns bonecos muito bonitos que explicam tudo!»
E, de repente, já não tenho mãos, tenho mãozinhas, não tenho queixo, tenho queixinho, ou testinha: «Encoste o queixinho e a testinha neste aparelho, sim, senhor Duarte, vá lá!»

E enquanto eu recusava, num assomo serôdio de dignidade, numa réstea atrasada de juventude, os óculos de lentes progressivas, a menina insistia cada vez nas suas inúmeras vantagens.

Estive quase para lhe perguntar: «Mas para diabo que insiste? Há alguma promoção com a idade, é?»

domingo, abril 05, 2009

ENSAIO SOBRE A NEUROSE

Sempre achara curioso e entusiasmante o facto de ter uma tia mais nova do que ele.
Hoje, iria conhecê-la.
Tinha pena de que o tempo fosse tão curto, atendendo a que:

a) havia que deixar o pai, muito idoso e tremente, mais as três dezenas de comprimidos de cores variadas, na casa da senhora marquesa, que não prescindia da sua visita - na verdade, era a senhora quem visitava o velhinho doente: só que, tratando-se de uma marquesa, insistia em que fosse o idoso a deslocar-se à sua residência...

b) seguidamente, encontrar-se-ia com a tia para a conhecer mas que, depois, cerca de três quartos de hora mais tarde, teria de:

c) conduzir ao aeroporto - mas tendo, entretanto, passado de novo pela casa da senhora marquesa, aonde iria buscar o pai.

Uma vez no aeroporto, a tia mais nova do que ele, seu sobrinho, dir-lhe-ia adeus e rumaria para as antípodas. Que diacho: ser sobrinho mais velho do que uma tia que vivia nas antípodas de si.

No plano confuso, mal enjorcado, só a custo conseguindo prever as demoras do pai, primeiro a sair do carro, muito tremente, e a seguir, três quartos de hora mais tarde, reentrando no carro, sempre muito tremente, nesse plano fazia-lhe particular impressão ter de contar com este pormenor: existia um traço contínuo que o impedia de fazer a manobra que mais lhe convinha para chegar à casa da marquesa: em vez disso, tinha de seguir mais quase uns cinco ou seis minutos até ao fim da rua para, contornando a rotunda, voltar para trás e, em sentido contrário poder, finalmente, virar para a ruazinha da senhora marquesa. Cinco ou seis minutos desperdiçados!

Chegaram. O pai saiu. «Leva os remédios, pai?». Não lhe respondeu. Também não esperara resposta, tinha perguntado porque sim. O mordomo ajudava o senhor. Margarida, de carrapito e avental branco sobre o vestido negro, ajudava-o, do outro lado. E, sem se preocupar mais, disparou.

A sua tia era uma repariga de dezanove anos. Tímida. De cabeça baixa. Olhava-o de soslaio. Falava pouco, com a pronúncia típica das antípodas. Ofereceu-lhe chá. Ele não se sentia bem pelo facto de estar constantemente a olhar para o relógio de pulso, como certos médicos já esgotados com a persistência de alguns pacientes demasiado faladores. Mas não tinha alternativa. Mais do que o pai, havia o pormenor da traço contínuo,do desvio pela rotunda. Cinco minutos. Se fosse atrás de uma lesma, como sucede frequentemente, poderia ser atraso de dez minutos.

Quando achou que era chegada a hora, advertiu-a. A tia levava poucas malas. Carregou-as, com a ajuda do porteiro, um senhor com dedos amarelos de nicotina e hálito de urso.
Entraram no carro. Voou.

Levou quase um quarto de hora até à malfadada rotunda, porque houvera um acidente e se formara uma pequena fila. Refreava-se, diante da tia, para não buzinar, para não olhar para as horas, para não gritar impropérios. Suava abundantemente, martelava, nervoso, com o pé sobre o pedal, tamborilava na mudança.

Feita a rotunda, já à vista da casa da marquesa, reparou na criada Margarida, que corria em direcção ao carro, acenando muito.
«O seu pai, senhor Donato. O seu pai. O seu pai morreu!»
Deu um suspiro de alívio: poupava uns minutos com a entrada do pai no carro.

Seguiu em direcção ao aeroporto.

HOJE AINDA VENHO COM MENOS PACIÊNCIA, DO QUE O COSTUME, PARA ERROS ROMÂNTICOS

Aos idiotas que, num assomo de pieguice democrática, continuam a repetir que «o Génio consiste em 99% de transpiração e 1% de inspiração», há que lembrar: Sim! Mas a diminuta percentagem de inspiração é que conta: é aquilo que realmente faz a diferença!

Do mesmo modo, aos que, romanticamente, se não cansam de lembrar que, na escola, Einstein fora um péssimo aluno, há que explicar: Sim! Mas nem todos os maus alunos na escola virão, forçosamente, a ser futuros Einsteins!

DIÁRIO DO OBSERVADOR

3 de Abril de 2057

A minha missão é peculiar. E, como os Dupondt, diria mesmo mais: trata-se de uma missão peculiar, a minha.

A frase que devo ter sempre em mente é esta: «Todas as coisas carecem de um novo passado».
Quando ouvi pronunciá-la pela primeira vez, pensei que o Mestre estivesse a dizer poesia. Pareceu-me um verso particularmente belo. O mestre tinha um copo, suponho que de Whisky, na mão muito peluda e, fazendo-o reflectir à luz do candeeiro, prosseguiu: «Este copo carece de um novo passado». Olhou em redor; apontou uma rosa numa jarra: «Esta flor precisa de um novo passado». Imbuía-me da ideia. A frase, chamemos-lhe assim, agarrou-me, primeiramente, pela sua beleza. Só mais tarde me agarrou pela minha inteligência. Ou talvez não: talvez ainda me não tenha agarrado completamente pela inteligência. Talvez ainda a não compreenda perfeitamente.

Mas estou estritamente subordinado ao protocolo que se encontra em todas as estórias de ficção científica: viajando no tempo, não tenho o poder de interferir. Recuando ao passado, não posso salvar as vítimas, ajudar os indefesos, seduzir ou deixar-me seduzir. Todos sabem que os actos de um ser futuro no passado provocariam rearranjos inesperados e, naturalmente, catastróficos.

Sou, portanto, um observador. Um mero observador. Vejo, por exemplo, o grupo de patos que pratica bullying sobre um patinho menor, sem poder espantá-los, nem levar comigo o pato que sofre as investidas dos que dele abusam.

O segredo está em que toda a observação é já, de algum modo, uma interferência. (Se têm dúvidas, perguntem ao gato). E, portanto, observando diferentemente, não actuando sobre coisa alguma, mantendo em relação a tudo a distância rigorosamente exigida, mas, repito, observando diferentemente, espero poder descobrir no emaranhado de linhas que constitui o passado, sem lhes tocar, desenhos possíveis, combinações melhores.

Do mesmo modo que posso olhar para uma pintura de Kandinsky e ver outra coisa, surpreendentemente diversa daquilo que o título sugeria, e com que se pretenderia influenciar-me o olhar.

O Mestre parece crer que é quanto basta para se conseguir, para cada uma das coisas do presente, um passado novo em folha, que as redima. Sem haver tocado em coisa alguma, sem manipular física e materialmente seja o que for.

O Mestre pode ou não estar enganado. A mim, custa muito ver os patos enormes, de bicos ferozes, praticando bullying sobre o patinho feio, e não poder intervir!

quarta-feira, abril 01, 2009

MENTES PODEROSAS - I






















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sábado, março 28, 2009

CORAGEM

Não sou católico. Rasguei o cartão e desvinculei-me do catolicismo ainda jovem, assim que desatei a perceber que a sua essência obrigava a que eu acreditasse: a) na existência de Deus; b) na do Pai Natal; c) na de um homem - Cristo - que não era obcecado por sexo. Ora esta última hipótese parecia-me altamente improvável...

Isto dito, devo confessar que, do seio da igreja católica apostólica romana portuguesa tenho visto sair, nos últimos tempos, posições de uma coragem que merece referência e vénia. Faço a referência. A vénia não posso senão muito levemente, e só com a cabeça, porque estou sentado ao computador.

Por um lado, ao Bispo de Viseu, que teve a ousadia de vir dizer, contra as palavras de Sua Santidade, que o preservativo é importante: que, mais, há situações em que se torna até um imperativo moral.

Por outro lado, a um senhor pároco, o qual (num assomo de indignação contra o jogo em que um árbitro resolveu roubar o Sporting, perante a passividade da polícia - e a do Benfica, de resto, que pouco se mexeu durante os noventa minutos...), gritou, em plena homilia, que não baptizaria, doravante, nenhuma criança com o nome do mesmo árbitro: que se os pais insistissem nesse impronunciável nome, mil vezes maldito, fossem baptizar o filho à Luz!

Não quero que me tomem por algum irresponsável, que coloca tão diferentes atitudes no mesmo saco e ao mesmo nível. Não sou nenhum idiota, não sou nenhum inconsciente. Sei ver que a segunda posição é muito mais corajosa do que a primeira: ambas poderão sofrer represálias, é certo, mas as represálias dirigidas contra o Bispo de Viseu hão-de vir, afinal, simplesmente do Papa: e o Papa é um velhinho de saias.
Quanto ao pároco, talvez tenha de se haver com os Diabos Vermelhos. E parece-me que, para um padre, isso não é bom!!!

sexta-feira, março 27, 2009

UM INSTANTE NO ENTARDECER

toda a viuvez do universo se materializou,
de súbito,
no vazio da janela e, por um momento, toda a viuvez era
a velha que aí assomava, de lenço preto preto
e uma bondade bruta
na alma
oculta sob a carta astrológica de rugas
prevendo-lhe o passado inteiro.

dentro do entardecer: um passeio de pedra, escadinhas tortuosas,
uma parede branca e a ferida
da janela
atirando, pequeninamente, para a grandeza trágica
da viuvez toda,
resumida toda num rosto e num lenço,
tais eram as partes do instante em que flutuava um tum tum tum,
se ouvia flutuar o tum tum tum
de sucessivos toques de um pé numa bola.

Sob a atenção agrestemente carinhosa do rosto de preto preto
na ferida da janela
(e tudo isto envolto pelo ferimento do entardecer),
uma neta miúda de cabelos em desequilíbrio
mantinha a bola no ar, sobre a ponta da sandalinha,
em vez de saltar à corda, pensei eu, estupidamente,
tum tum tum,
ou de brincar com bonecas:
tum tum tum.

E era triste que a tarde acabasse por matar tudo aquilo.

terça-feira, março 24, 2009

QUASE ALGUÉM MAIS

Ardekura Saikaro estava sentado, com a cabeça tombando, sonolenta, sobre uma pilha de testes por corrigir.
Era, portanto, um professor.
Mas, nos insterstícios da sua estranha, pesada e anormal sonolência vinha-lhe, por vezes, uma espécie de intuição; talvez nem fosse bem uma intuição: uma vaga vaga de sensações - não me enganei: era uma vaga, sim, só que não se tratava de uma nítida vaga e sim de uma vaga um tanto vaga -, um rápido, difuso e minúsculo advir de impressões, «impressões» que não tinham a força de «memórias», não chegava a ser um conjunto de memórias, mas que o remetiam para uma outra identidade, um heterónimo, um outro eu que as tivesse experimentado. Não percebia se era já um deslizar para o sono. Sonhava que era outro? Mas não lhe parecia. Sentia-se quase acordado. Sensações de um sonho incompleto que lhe povoavam a quase vigília, a meia vigília?
Ardekura Saikaro sentiu, portanto, que era outro. Que havia, nele, um outro. E estava quase a apropriar-se do seu heterónimo, quando, como se acordasse, o perdeu de vez.
«O cérebro prega-nos partidas», pensou.

O certo, é que nunca mais tornou a ser tão definitiva e completamente Adekura Saikaro.
Como se houvesse a possibilidade de o não ser.
E dizia a si mesmo:
«Sou Ardekura Saikaro ferido da suspeição de que poderei não ser Ardekura Saikaro...»

sexta-feira, março 20, 2009

COISAS, IDEIAS, DEFINIÇÕES, INVENÇÕES

Contra a praga de rapazes que andam aí furtando veículos, tenho andado a pensar num engenho que, simultanemente, colocaria os carros alheios, diante dos seus olhos, como fruta tentadora, obrigando-os a escolher entre o caminho do Bem e o do Mal, e trataria de punir no mesmo momento os que preferissem o caminho do Mal. Em que consiste? Numa chave que deixaríamos propositadamente na ranhura da porta do automóvel, com todo o ar de que o condutor aí a tivesse deixado por esquecimento (como às vezes me sucede): o ladrãozeco que pensasse «Olha, este facilita-me a vida» e tocasse na chave sofreria, de imediato, uma descarga eléctrica de que se não esqueceria.

Esta boa ideia pode ter uma previsível má consequência: esquecido como sou, pensaria muitas vezes «Olha, lá me esqueci outra vez da chave na porta do carro», e zzzzzzzzzzzzzzzt!!!

A Daisy dizia-me, no outro dia «Pai, caí!»; perguntei-lhe: «Caíste, filha? Onde?»; resposta: «Na rua!»; estranhando que pudesse ter ido à rua nesse dia, quis saber: «Ah sim? E que estavas tu a fazer na rua?»; retorquiu-me: «A cair!»

O que me faz recordar uma outra vez em que, em Espanha, tentando perceber se Daisy identificava o país onde se encontrava, o meu amigo M. lhe perguntou: «Olha, olha, diz lá! Onde tás tu?!»; ao que ela respondeu, com toda a simplicidade: «Aqui!»

O gosto é a coisa mais bem partilhada do mundo. Não conheço ninguém que não tenha gosto: trata-se, na maior parte dos casos, de mau gosto.

Redacção: O Dia do Pai.

Ontem, Dia do Pai, haviam-me pedido que fosse buscar mais cedo a Daisy ao infantário para «brincar com ela».
Fui.
Pelo caminho, cruzei-me com um pai de orelhas de cavalo em cartão e o filho cavalgando-lhe às costas. Vinham, justamente, do infantário. Havia outros pais em semelhantes figuras. Andavam numa espécie de Rally-pepper. Principiei a ver a minha vida a andar para trás.

Entrando corajosamente no antro, deparei com uma mesa carregada de comida. Aproximei-me, esfregando as mãos.
Uma Educadora barrou-me, mal-educadamente, o caminho:
«Isto é para os pais da sala M».

Retirei-me, envergonhado, em busca de Daisy.
Daisy fugiu de mim, assim que me viu.
Uma Educadora enfiou-me um garruço de lã e um cachecol. Fomos fazer um boneco de neve num tecido branco. Para a fotografia.
Depois, noutro local, colocaram-me uma boina, um colete e uma faixa e pediram-me que fosse dançarinhar com a minha filha. Para a fotografia.
Fui. Tirando que a minha filha não queria dançar. E fugia-me, enquanto a senhora esperava, pacientemente, de máquina em riste, e eu a caçava, de boina, colete e faixa.
Cheguei a casa um bocado arrasado.

terça-feira, março 10, 2009

WATCHMEN

Antes que a Angel e o Angelito, seu sobrinho cinéfilo, desatem a falar acerca de: Watchmen, The Movie (que não acredito que não tenham já ido ver), aproveito para tentar ser, no conjunto destes blogues amigos, o primeiro a fazê-lo.

Em primeiro lugar, porque fui.

Em segundo lugar, porque não gostei tanto como isso - e suponho que, nesta posição de espectador insatisfeito, irei estar, com toda a certeza, mais solitário do que Dr. Manhattan retirado em Marte para meditação.

Devo dizer, para já, que me havia tornado rapidamente em um fanático de: Watchmen: The Comic - referenciado há algum tempo pela Janota, seguido de muito perto pela Angel, que ia postando muito material que me arrepiava de prazer, comentado por Nuno Markl, descoberto, enfim, por mim na Biblioteca de Oeiras, comprado mais tarde na Fnac, este extraordinário romance gráfico tomou conta do leitor entusiasmado que posso ser: na linha de Neil Gaimon, recuperando porventura o melhor do espírito da DC e da Marvel - com o selo da DC Comics , precisamente -, inventando super-heróis credíveis num mundo que já perdeu a inocência de crer em super-heróis, explorando referências clássicas (está lá, por exemplo, algo como o acidente científico que originou The Incredible Hulk, ou o universo sombrio e neo-gótico onde a justiça depende do trabalho e do sofistacadíssimo material de um jovem milionário e sedento de vingança, que é Batman, ou, claro, o Surfista Prateado e a sua dificuldade em compreender a natureza humana, a qual, no entanto, tanto o perturba e comove), The Watchmen é uma Banda Desenhada completa, riquíssima, violenta q.b., com desenhos «clássicos» mas belíssimos, rigorosos e muito intensos.

Talvez em virtude desta incondicional paixão, a expectativa era elevada. Não dormia, mal comia, deixava crescer a barba enquanto o filme não chegava. Prevenia os meus alunos que não perdessem esta oportunidade única de compreenderem a Crítica da Razão Pura, de Kant, através da percepção do espaço e do tempo reveladas por uma personagem central, Dr. Manhattan, um ser de pura energia atómica que, nessa medida, não estaria sujeito às formas espacio-temporais que, segundo Kant, nos condicionam a priori.



E o filme veio. E eu fui com o meu filho. E, por uma vez, não resmunguei ante nada do que ele me propunha: aceitei comprar pipocas, coca-cola, aceitei jantar post-cine no MacDonald, fazer uma visita às lojas da moda, etc.

Não gostei.
Não gostei.
Claro que tem interesse observar até que ponto o realizador se procura aproximar do original: Rorschach é quase exactamente o Rorschach da BD, pequenino, ruivo, sardento, Nite Owl é idêntico, já para não falar do Comedian. O veículo de Nite Owl reproduz sem falhas o das imagens no álbum. Os diálogos são sedentamente bebidos da fonte: reparem, por exemplo, no impressionante monólogo de Rorschach que tanto me fascinou, na sua voz rouca e cínica. «Hão-de erguer a cabeça, e suplicar-me: Salva-nos! E eu olharei para baixo, e sussurrarei: Não!» Tudo é, aparentemente, a expressão, em cinema, da essência de Watchmen.

Contudo, aquela violência levada ao extremo visual, no filme, incomoda e, simultaneamente, banaliza: estamos perante uma espécie de Kill Bill.
Por outro lado, o que na BD se mantém credível tende a descair, em cinema, para o ridículo: um homem correndo, mascarado, pelas ruas, não salta, sem perder alguma coisa, das páginas das histórias em quadrinhos para a tela. Dou um único exemplo: podemos ver, em filme, sem esconder um frouxo de riso, a heroína que quebra pernas e arranca braços aos malfeitores, vestida num fato-de-banho amarelo, em latex, com meias de ligas e sapatos de salto alto? Ou: como nos sentimos em face de um ser azul, todo ele pura energia atómica, o extraordinário Dr. Manhattan que, no filme, parece ter olheiras, pés-de-galinha e papada?

Finalmente - e isto é decisivo -, aquele romance complexo, em que o tempo se adensa e multiplica num desafio constante às leis da Física, saltando para diante, recuando ao passado, numa espécie de cubismo temporal onde a regra é mais a simultaneidade do que a sucessão, funciona no álbum de Banda Desenhada: o leitor apropria-se vagarosamente, impõe o seu próprio ritmo, avança e, se não percebe, recua, torna ao princípio ou pára quando está já demasiado fatigado. Mas não se adapta à lógica de um filme onde tudo se torna, então, confuso, e o que se perdeu se torna, de algum modo, definitivamente irrecuperável, instalando o caos.

Força, Angel. Contra-ataca. Não deixes que eu mine o universo da consonância cinéfila através desta minha opinião. Destrói-me de uma vez. Como diria Rorschach, «Por que esperas? Mata-me!»

segunda-feira, março 09, 2009

OS PONTOS NOS II

1. É fácil, cómodo e apetecível criticar o governo como se este não estivesse equipado com o mínimo tipo de virtude. A verdade, porém, é que as últimas sondagens, como as anteriores e as de antes, continuam a prever uma nova maioria-PS: e isso obriga-nos a reconhecer, da parte do governo e do partido que o sustenta, um esforço denodado, rigoroso e vigoroso em duas áreas a que os portugueses se mostram sensíveis: a manipulação e a censura.

2. Por outro lado, o governo trata-nos da saúde. Em sentido figurado, mas também literal: impede-nos de progredir nas carreiras, não vamos nós ganhar o que gastaríamos em gorduras; torna as salas de espera dos hospitais locais infectos, com o sábio propósito de evitar que as pessoas se multipliquem nas Urgências de cada vez que são pisados por uma vizinha gorda. (Se assim fosse, iriam certamente ser aí contaminadas com novas doenças...). E, last but not the least, legisla sobre a quantidade de sal que deve ser usado no pão.

3. O pão português é pior do que o tabaco. Só conheço uma coisa pior do que o pão português. É... é... não consigo, aliás, lembrar-me do que seja, em virtude de andar a comer tanto pão. A minha tia Glorinha acha muito bem que o senhor Genheiro Sócrates (um Genheiro é alguém que não chegou a Engenheiro) garanta a qualidade do pão português. Este é tão mau como quase todos os portugueses, e tão pouco saudável que, da última vez que comi uma carcaça, ia-me afogando: talvez por não saber nadar; mas é também admissível que a carcaça pudesse ter alguma relação com o assunto...

4. Por fim, há que não esquecer que, o governo, dotou Todos os meninos (sendo que «todos» significa, na linguagem do governo: «Muito poucos») de computadores Magalhães.
Queixam-se, agora, alguns insatisfeitos - porque há sempre gente difícil de contentar -, de que existem, no Magalhães, aplicações, ou funções, ou programas, ou lá como é que se chama isso, que estão escritos em mau português, com erros ortográficos, de sintaxe, etc.
Ora, isso já é mesmo vontade de denegrir. Queixinhas! Penso que há má vontade ( se não má-fé) em que se simule tanto espanto. Ou, então, falta de informação.
Por mim, estou informado e não me espanto nada:
Quem já leu Despachos assinados pela sra. D. Margarida Moreira, como eu li, não iria certamente espantar-se com erros de português associados ao Ministério da Educação!

domingo, março 08, 2009

FERA NOCTÍVAGA

De manhã, ao acordar, vejo no tecto do meu quarto as pegadas sanguinolentas da fera que durante toda a noite por ali se passeou, desafiando as leis da gravidade.

Não tenho medo. Por enquanto. Sei que, à noite, durmo e sei - já percebi - que a fera não detecta seres que dormem. O seu faro busca vida, busca vigília, busca o pavor daqueles que não sejam capazes de pregar olho. (Imagino que me não baste «fingir» que durmo; imagino que ela se não deixaria enganar, como os leões não são enganados pela falsa coragem de um domador intimamente medroso...)

Às vezes, ao puxar o cobertor para cima, antes de apagar o candeeiro, penso: «Se acordar durante a noite, estou perdido!» ou «Se tiver insónias, acabarei caçado...»

Faltam-me dados: como é este ser de cabeça para baixo, deslocando-se no tecto, devoraria uma pessoa como eu, numa cama sobre o chão? Sugar-me-ia até si? Saltaria lestamente para me abocanhar e voltar ao tecto, com o meu corpo entre as suas presas? Como uma águia que pica, apanha o atemorizado coelho e sobe, de novo, com ele aprisionado nas garras?

Nada sei.

Sei que esta manhã, quando acordei, uma vez mais, lá estavam as pegadas: a forma das garras bem estampada, a sangue, no tecto.

sexta-feira, março 06, 2009

O PRESIDENTE QUE MANDOU PROIBIR TODA A MÚSICA: TRÊS

Conduzido à presença do presidente, começou a tremer.
O homem olhava-o, muito velho mas muito vivo, curioso de saber quem se atrevera a desafiá-lo.
Não fez q1ualquer pergunta. Mirava-o, simplesmente.
Ilídio queria sacar a flauta, mas tremia demasiado. Pensou: Estou perdido! Por um pouco - por um pouco não me salvo! Era só conseguir pegar na flauta, só isso, era só chegá-la aos lábios, só isso, mais nada, e soprar, só. Mas como conseguir com as mãos tremendo assim...?
Odiava-se por estar tão perto de mudar completamente a situação e não ser capaz de o fazer.
Passaram segundos. Minutos. Não havia tempo.

E de repente, lutando contra si mesmo, Ilídio segurou com força na flauta.
Viu o espanto acudir aos olhos do velho.
Se não lhe dessem um tiro, se o não abatessem, se conseguisse mais um pouco, um pouco mais, talvez...
Chegou a flauta aos lábios.
Ia conseguir: era só soprar e deixar que os dedos, sobre os buracos, manipulassem o som. Faltava tão pouco. Soprou. E, repentinamente, o seu sopro não era um sopro, era uma melodia ondeando, um fio de ar belíssimo, um desenho nos ouvidos...

Olhou para o presidente.
O espanto transformara-se. Em encantamento?
Não.
Em ironia.
E na distância que aquela ironia criava, Ilídio percebeu um vazio que a música não conseguia transpor, como se o presidente lhe fosse insensível, como se o presidente lhe estivesse fechado.
E o semblante do presidente fechava-se mais, como numa casa em que vemos cerrar com fúria janelas e portas. Já não era ironia, era raiva.

Ilídio não percebia.
Ilídio não percebia aquela fúria.
Ilídio percebeu.
De súbito.
O presidente não o podia ouvir. Ensurdecera; fechara-se completamente para a música, ele que tanto a amara.
O presidente era surdo.

A música não o salvaria, afinal.
Pelo contrário, perdia-o.

Deixou cair a flauta no chão.

FIM

quinta-feira, março 05, 2009

O PRESIDENTE QUE MANDOU PROIBIR TODA A MÚSICA: DOIS

Mas sucede que, de facto, Ilídio era escutado.
E ele, que sempre achara que, se o escutassem, se deixariam render ao poder da música, ele que julgava intimamente que só quem não ouvia música poderia proibi-la e, pelo contrário, quem ouvisse nem que fosse um trecho, não seria capaz de lutar contra ela, percebeu, um dia, que estava enganado.
Ilídio, que pensava que devia fazer tudo para que o não ouvissem, mas crendo, no fundo, que, se o ouvissem, não seriam capazes de fazer mal ao autor de algo tão belo, percebeu, um dia, que estava enganado.
Ilídio, um dia, viu a extensão do seu engano. Alguém o ouvira. Um vizinho, quem sabe, uma velha que passava na rua, um gato. Alguém ouvira. E se queixara, certa noite. E nessa mesma noite o vieram prender.

Mas quando soube que o presidente fazia questão de o ver pessoalmente, sentiu, de novo, espreguiçar-se a esperança: o presidente gostara de música, era sabido; o presidente, que devia ser muito velho (porque já era presidente, lembrem-se, quando o seu pai tinha seis anos), o presidente, que acompanhara, financiara, patrocinara orquestras e compositores, deixara, por alguma razão, de apreciar música, mas tinha certamente, no interior de si, uma reserva qualquer de curiosidade, uma melodia a correr-lhe ainda nas veias, uma nostalgia, um secreto desejo de harmonias sonoras.
E, portanto, Ilídio levou no bolso, para a entrevista com o senhor presidente, a sua flauta.
Escondida, mas pronta a disparar.
Escondida: mas, se tivesse tempo, se soubesse aproveitar o momento - estava certo - não havia como não conseguir acordar o senhor presidente, não havia como não fazê-lo recordar uma longínqua maravilha algures num recôndito ponto da sua memória, não havia como não salvar-se...

Escondida, mas pronta a salvá-lo e a salvar a música e a salvar a pátria, num bolso, a flauta.
Escondida, num bolso, a flauta.
A flauta, escondida.
Escondida, a flauta.
Ah: num bolso!

quarta-feira, março 04, 2009

O PRESIDENTE QUE MANDOU PROIBIR TODA A MÚSICA: UM

Tocava em segredo.
A flauta fora-lhe oferecida pelo pai; curiosamente, o segredo da sua música fora uma condição imposta pelo pai.
É estranho que se fale de música secreta: um livro pode ser lido em silêncio; um desenho pode ficar oculto; quase toda a forma de arte, que me lembre, pode permanecer fechada. Há gavetas, há pastas, há chaves. Para quase toda a obra é possível inventar-se uma tampa. Para quase toda. Mas para a música, dificilmente, porque a partir do momento em que eu sopre ou dedilhe uma nota, não garanto que não haja, algures, algum ouvido pronto a captá-la. Não há gavetas para as notas, não há tampas, não há chaves.

Ilídio compreendia, no entanto, o seu pai.
O pai ainda vivera o tempo em que o seu pequeno país era considerado a pátria da música. Em que os grandes compositores e os grandes músicos eram respeitados e amados. Em que podiam ouvir cânticos entoados pelas ruas. Em que todos os dias havia espectáculos.
Um bisavô de Ilídio fora músico. A música era o seu sangue. Ouvia-a no interior do seu corpo. Tinha até mais força do que o sangue, porque nunca ouvira o sangue a correr nas veias.

O pai de Ilídio não teria mais do que seis anos, quando a música começara a ser proibida pelo presidente.
Quase com raiva. O que era estranho, posto que o próprio presidente fora, durante anos, um melómano, um defensor das Artes e enorme patrono da música.
Abria salas, mandava construir coretos, financiava orquestras.
Depois, começaram a surgir as proibições.
E as perseguições.

Ilídio recebera uma flauta, pois, numa época em que não havia flautas e ninguém saberia o que fazer com elas.
Numa altura em que, na antiga pátria da música, a música era interdita.
Teve de aprender a tocá-la sozinho.
Soprando. Desafinando. Descobrindo. Afinando. Assobiando leve, leve, leve e docemente por um canudo em madeira.
Mas tinha de o fazer em segredo.

(Tinha sempre o medo e a esperança - o medo mesclado com a esperança - de que, algures, fosse onde fosse, alguém ouvisse a melodia que tirava do nada, ou de quase nada, de um simples pau com alguns buracos...)

terça-feira, fevereiro 24, 2009

CARNAVAL ALENTEJANO

Não sei por que me pareceu boa ideia ir passar a terça-feira gorda a uma aldeia alentejana.
De lá, da dita aldeia (já cidade, aliás) garantiam-me, com a esperada entoação cantada: «Anda, vás vêr que o corso carnavalêsco é aqui muito engraçadú!».
E eu fui. Fiz pior: convidei amigos. O inefável M., coitado, para que fosse com a sua família juntar-se, na citada aldeia já cidade, à minha prória família (o que é castigo bastante: convidar alguém que não haja cometido qualquer crime nem tenha contribuído para a fabricação dos meus filhos - que se saiba! -, a conviver com eles ...)

Tínhamos combinado, sob as ordens irrevogáveis da senhora dona sogra, que, saindo de Reguengos, íamos todos almoçar à bela Monsaraz, gozando a paisagem que se nos estenderia das ameias do castelo abaixo, enquanto degustávamos umas migas ou uma carne de porco, regadas com um tinto. Mas tínhamos de estar de regresso a Reguengos às catorze horas, nem um minuto mais, de forma a podermos assistir à saída de um corso que, segundo a sogra, não ficava atrás do que de melhor se faz no Rio de Janeiro ou mesmo em Loulé.

Assim se fez.
À entrada em Monsaraz, ainda se nos ouviam maravilhados e comovidos «Ahs», «Ohs» e «Uiiiiiiiiiiiiiins» (estes últimos, obviamente, da goela da petiza...)
A tragédia só principiou a mostrar as unhas no momento em que tentámos o primeiro restaurante. Não sei como, quando nos contámos, éramos treze! Queríamos uma mesa para treze pessoas - em Monsaraz - à hora do almoço - na terça-feira gorda. Receberam-nos, evidentemente, com desprezo e troça. Em pronúncia alentejana, que faz soar ainda mais despreziva e trocista o desprezo e a troça. Não nos levaram, talvez, a sério. Gritaram-nos, por fim, «Nem pensari!».

No segundo restaurante, igual recepção.
O mesmo no terceiro.
Andámos às cabeçadas, à torreira do sol, de restaurante em restaurante, deparando com todos eles a abarrotar de gente que se regalava com as migas e a carne de porco.

Percebemos que, se insistíssemos em comer, não poderia ser em Monsaraz.
Novos planos da sogra. Reenfiámo-nos, então, nas viaturas. Procurámos uma aldeia adiante. O parque de estacionamento, com carros em cima uns dos outros, fez-nos entender que nem merecia a pena parar.

Entretanto, eram catorze e trinta. A lírica ideia de estarmos às duas em Reguengos já passara de moda. Íamos à cata de tascas, tabernas, fosse o que fosse. Na aldeia mais à frente também não conseguimos convencer proprietários nem empregados façanhudos.

Voltámos a Reguengos a estoirar de fome. Vamos ao «Barril»? Boa! É do baril!

No «Barril», já, portanto, em Reguengos, tivemos de nos dividir por duas mesas.
Um jovem de buço mal semeado veio tomar notas, mas éramos muitos, estávamos cheios de fome, o calor apertava, falávamos ao mesmo tempo, o rapaz enervava-se, desapareceu e não tornou a aparecer. Veio, em seu lugar, um quase adulto que nos pediu desculpa, mas que o mocito se sentira indisposto e, portanto, teríamos de refazer todos os pedidos.

Entre diversas e confusas exigências, um de nós encomendara uma picanha, mas ressalvando, talvez preocupado com a linha ou com a saúde, que não trouxessem batatas fritas. «Em vez disso, por favor, veja lá, por exemplo um arrozito...»

A comida demorava a chegar. Não deixei de reparar, mais tarde, que a picanha do dito veio, finalmente, carregada. De batatas fritas.
Chamámos o quase adulto, explicámos-lhe que se preferia realmente arroz.
Voltou dali a pouco. Explicou que o arroz acabara mas, entretanto, tomara a liberdade de mandar fritar mais umas batatitas que, aliás, eram literalmente três ou quatro palitos num pirezinho de tremoços.

Na parte das sobremesas, então, parecia nada haver já. A não ser o doce da casa. «E isso é bom?» Oh, sim, oh, sim, delicioso. E o quase adulto esmerava-se na explicação convincente, apurava-se na descrição dos ingredientes e dos processos. Estávamos rendidos. Saiu por um instante. Ei-lo: Tinha-se enganado, já não havia doce da casa!

Saímos atrás de uma música roufenha, que nos acenava lá de fora. «Querem ver que o corso não anda longe?» Era, de facto, o corso: uns alentejanos vestidos de mulher, muitos miúdos mascarados de palhaço, cornetas e papelinhos.

No Brasil não há disto!

Nem em Loulé!

domingo, fevereiro 15, 2009

UM RAIO DE UM DOMINGO

1. Hoje de manhã, tendo decidido passear ao sol com a pequenina Daisy, vi-me bruscamente obrigado - com ela ao colo - a esperar que passasse, primeiro, toda uma série de corredores de alguma maratona amadora. Ansiava por ver entre eles, a qualquer momento, a figura bem conservada de José Sócrates, que um jornal de comediantes espanhóis, atrevidos, conseguiu convencer que era o sexto homem mais elegante do mundo. Eu esperava-o ali, porque penso que, em Portugal (e, como se sabe, mesmo fora de Portugal), nem são permitidas maratonas sem a presença de Sócrates em calção de lycra. Mas, desta vez, nada feito. Não o vi...


Passavam umas meninas a arfar, uns velhos a cair da tripeça, escarrando ruidosamente pelo caminho, uns jovens de grande arcabouço, mas que se mostravam, vergonhosamente, com sérias dificuldade para ultrapassar dois ou três velhinhos rijos (daqueles que, certamente, treinam todas as manhãs a chegar primeiro do que nós às caixas multibanco, só para nos fazer aguardar, quando mais temos urgência, que eles paguem não sei quantas facturas...)

Dei por mim a matutar acerca do que podia levar aquela gente, sem ganhar nada de especial com isso, nem sequer, se calhar, uma medalha, a puxar assim pelo corpo, sob os raios do sol (ainda de inverno, é certo, mas qualquer das maneiras...!) Era difícil que me apanhassem num tamanho cansaço, correndo por gosto entre outros malucos. A não ser que me dessem a escolher. Por exemplo: entre isso ou levar a minha filha a um circo.

2. Como não tive tal escolha, durante a tarde coube-me levar os meus dois rebentos... ao circo!
Tratava-se, de resto, de um cirquinho pobre.
O Duarte tinha-me perguntado se eu achava que haveria animais.
Respondi-lhe que só animais de pequeno porte. Piolhos e pulgas haveria de ter, com certeza.
«Ai sim?», quis saber, excitado. «Também treinam piolhos?»
Santa inocência adolescente. Ou sarcasmo precoce?
Devo dizer que o número mais arriscado daquele circo pobre foi o das bailarinas que não conseguiam acertar com as coreografias. À parte isso, o verdadeiro risco foi vivido por nós, mergulhados num paciente público, sentados nuns periclitantes madeiros de bancada - particularmente eu, com uma adesiva Daisy ao colo e um saco (que se partiu, por fim) contendo uma merenda de iogurtes e bolachinhas.

Houve aquela parte - também arriscada para mim, que a vivi de respiração suspensa - em que o palhaço procurava, entre as pessoas do gentil público, algumas dispostas a ir até à pista fazer figuras tristes. Mas escapei-me.
Saímos muito, muito, muito fatigados. Completamente derreados.

E não havia animais.
Ou por outra, não posso jurar: tenho sentido muita comichão na cabeça!!!

sábado, fevereiro 14, 2009

A SURPRESA DO DIA DOS NAMORADOS

Klaus Constantin era um caso sério de incompreensão do feminino.



Para ele, tudo o que vagamente soasse a feminino, pertencia a uma espécie de castelo belo mas cerrado, luminoso, perfumado e palpitante de vida, mas rodeado por um lago de crocodilos; era um templo brilhante, que o atraía, evidentemente, mas em cujo sentido era incapaz de penetrar: ele lembrava, diante desse mundo secreto, certos meninos pobres que, nas noites de consoada, se postam, tristemente, à janela de mansões festivas aonde nunca terão acesso.



Os amigos conheciam-lhe essa faceta e riam-se dela. Havia histórias perfeitamente ridículas - que eles gostavam de repetir até ao ribombar asmático de gargalhadas - acerca do total desajustamento e da infeliz cegueira de Constatin para o sentido do mundo feminino.

Mais do que os amigos, a mulher de Klaus, Olga Constatin, era a primeira a pensar que o seu marido nunca, nunca, nunca seria capaz de perceber de que substância material e espiritual era uma mulher feita.



Foi talvez por esse motivo que, no dia dos namorados, Klaus Constatin jurou a si mesmo que estaria à altura.

(Essa preocupação - pensou - era já até, talvez, um início da compreensão: pois é precisamente por essa atenção amorosa - pensou - que se principia, talvez, a entender a mulher...)



Jurou que a surpreenderia e, por extensão, aos seus amigos trocistas.

Levou uma semana a preparar a surpresa, mudando de ideias, reajustando formas. Achou que deveria acordar muito cedo de maneira a que, quando Olga chegasse à mesa da cozinha, deparasse com uma rosa junto a um pequeno-almoço...

Mas foi desistindo das várias hipóteses. Nenhuma lhe parecia vir aninhar-se na secreta e estranha essência daquilo que uma mulher realmente deseja!



Até que, na véspera do Dia dos Namorados, tinha chegado ao plano indubitável. Como duvidar do seu poder?

No dia 14 de Fevereiro, cuidou de que, quando a esposa entrasse em casa, fosse encontrar, insinuantemente espalhadas pelo chão, as várias peças de roupa que ele fora despindo num strip-tease que, ao mesmo tempo, desenharia o rasto que Olga tinha de seguir, as calças aqui, a camisa adiante, a camisola interior no primeiro degrau da escada, uma peúga mais acima, outra já próxima do quarto, as cuecas à porta, a porta entreaberta, de maneira a que, no fim do trilho de roupa despida, o visse a ele, esperando-a, nu, nu, nu, num leito cheio de pétalas de rosa...


Havia mesmo um levíssimo perfume a sândalo no ar.


E teve de se apressar quando ouviu o carro chegar, regressado das compras.


Entrou na cama, nervoso, ansioso, treinando poses sensuais, rindo-se por dentro da surpresa, quando ouviu a voz agreste de Olga, gritando-lhe de baixo:

- Mas és maluco, ou quê? Agora já nem pões as tuas porcarias no cesto da roupa suja? Pfff, que pivete! Este cheiro é das cuecas, ou quê?! Sou sempre eu a arrumar, sempre eu a arrumar. Olha para isto, tudo espalhado. Até me apetece chorar! Não és nenhuma criança, que diabo! Já não tens idade para te comportar com tanta falta de cuidado. Não há direito. Mas que merda de vida! Sou uma escrava. Sou uma escrava.



Antes que Olga o visse naqueles preparos, recolheu as pétalas e escondeu-se na casa-de-banho do quarto.

Estava frio. Não tinha roupa, só poderia sair quando ela não andasse a rondar.



Não. Não, de facto: ainda não principiara a perceber o mundo das mulheres.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O REGRESSO DE D.J. CARA DANJO A PROPÓSITO DO BICENTENÁRIO DE UM SENHOR

a minha prófe de bilogia dís k çe condecóra ôje o bissentnário do çenhôr xárles dárling. condecorársse o bissentnário kér dizêr k çe o çenhôr fôusse vivo fazía ôje bissentos ânos. cômo o mén não é vivo não pudêmos típo dárle os parabéins e iço mas cômo gustâmos bué de féstas e cômo túdo nos çérve para festejár lá festejâmos o bissentnário dêste gáijo k inda purssima não fêz náda de ispessiál a não çêr dizêr tipo k o pái dêle éra un macáco. óra dizêr iço do çêu peróperio cóta não me parésse tipo un ganda avãço na siênssia. bêm sei k ás x taméin me açusto quando vêijo o mêu cóta de manhã ao levãtár da câma con a bárba por fazêr e iço. mas não me atrêvo a dizêr típo k êle é um macáco. éra o fín da macacáda.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

PLANTADO EM NADA

Depois do ruído que o apavorara ao longo da noite inteira, o vento a soprar desmedido, a chuva a torrenciar, árvores desabando, após aquele tempo em que lhe parecera que o mundo tinha mergulhado no caos, acordava de um sono brevíssimo e percebeu que fora despertado pelo silêncio.

Ah, mas a palavra silêncio é, ainda, muito ruidosa. A palavra silêncio não transmite, nem de longe, aquele perfeito vazio sonoro, aquela absolutíssima ausência. Tocou com os dedos nas orelhas, para se certificar de que as tinha. O silêncio era real. Um silêncio de nada haver. Um silêncio: não de falta de ouvidos, mas de não haver o que ouvir...

Aproximou-se da janela com um estranho pressentimento. Um estranho e silencioso pressentimento. Abriu-a. E viu

que não existia nada. Que a tempestade medonha arrastara para algures tudo o que o rodeara até então, o passeio, o chão, as casas, os passarinhos, os cães, os cocós de cão, as grades, os carros, o café do senhor Eliodoro, o senhor Eliodoro do café, a mulher do senhor Eliodoro, os cabos, os risos, os parapeitos, os brincos, as nuvens, os tijolos, os túmulos, os caixotes para a reciclagem, os refrigerantes,

os portões, os gatos, os muros, as palmeiras, os triciclos, os aparelhos de rádio, os ladrões, a Ministra da Educação, os ministros, a voz, os ralhos, as vassouras, as pás de lixo, a roupa estendida, os blogues, os vampiros e as bruxas...

Não se tratava de ele, em sua casa, ter voado para longe. Ele mantinha-se na sua casa que se mantinha no mesmo sítio. Não havia era sítio algum. A casa mantinha-se firmemente no nada.

Sentou-se sobre a cama.

E perguntou-se: Bolas! E agora?!

LÍNGUA PORTUGUESA: PEQUENO DICIONÁRIO DE NOVAS PALAVRAS E DE FRASES POPULARES RECICLADAS

Termo com que se designam guerras familiares provocadas pelo álcool: conflitro

Expressão popular com que se dá a entender que, ao contrário do que parece, em Alfama não há assim tanto sexo, droga e rock n roll (é mais sexo, droga e fado): É mais Alfama do que o proveito

Provérbio com que se recusa, a uma criança, que ela coma, de uma vez, todas as gomas que se encontram no saco que acabámos de comprar: Goma e Pavia não se fizeram num dia

quarta-feira, janeiro 28, 2009

UMA IDEIA PARA RECUPERAR EM TEMPOS DE CRISE... (OU, SE CALHAR, NÃO!)

Jonathan W. Ford, do Massassuchets, sempre fora uma criança com um verdadeiro dom para construções em papel e cartão. Contam os jornais da época - anos 50 -, que, desde ele muito novo, se lhe viam nascer nas mãos, pelo efeito mágico de uma tesoura sobre a cartolina, magníficas flores, magníficas casas, ou meninos, ou automóveis...

Em 1957 (geograficamente muito longe, no entanto, de um parto que iria trazer ao mundo alguém - que a minha proverbial modéstia me impede de nomear, mas constitui a outra razão pela qual o ano de 57 é, claramente, um ano maior...), Jonathan Ford concebeu um negócio engenhoso. Tinha uma família a sustentar, de modo que decidiu aproveitar o seu talento para fabricar sapatos...

... de cartão!

Os sapatos eram, aparentemente, tão bem desenhados, tão bem pintados e perfeitos, que ninguém suspeitaria que fossem de cartão. Deviam ser especialmente bonitos e desejáveis. E baratos. De todos os pontos de vista, óptimos: até à chuvada seguinte, como é evidente.

Ford não chegava a abrir propriamente lojas. (Não lhe convinha estar plantado no mesmo sítio quando viessem reclamar!). Montava uma espécie de tenda-sapataria: vendia, vendia, vendia. Desmontava, desaparecia dali. Seguia viagem.

As coisas correram-lhe mal por causa da celeridade com que as notícias voam. Consta que, quando chegou a uma insignificante vilória e aí montou a tenda, num dia aziago, a população, que já ouvira falar do genial embuste e, digamos assim, estava à sua espera, quase que o matou. Era uma população sem criatividade: não julgo que tivessem sido capazes de inventar matracas em cartão para bater nele; suponho que usaram mesmo paus tacos de madeira ou barras de ferro!

Alguém escreveu que, depois de sovado, Jonathan Ford foi o último exemplo de um homem que, nos Estados Unidos, se viu expulso da vila, montado sobre um carril, com o corpo coberto de alcatrão e penas.

Alguma coisa em Jonathan Ford, porém, faz com que eu o considere mais um mártir do que um trafulha. Mais um génio do que um ladrão. E, de algum modo, um herói no «desenrasca» - digno de um artista português!

domingo, janeiro 25, 2009

VIDAS PASSADAS E SUPER-HERÓIS

Não deixa de ser curioso observar como - se quiserem fazer o favor de comparar os posts em que se fala sobre vidas passadas, nestes três blogues que são seguidores uns dos outros (clique lá: o kaostico, mais este e este, ehehehehe; confesso que é impagável imaginar-vos clicando insistentemente...) - observar como (dizia), sou eu, dos três, o que tem a visão mais estreita e estritamente burguesa.

Enquanto a Angel se imagina um antigo Shaman e, Janota, um antigo monge copista medieval, o máximo que eu consegui foi recuar a um burguês anafado, com brilhantina no cabelo e livros empoeirados. Raios! E com uma coisa no pulmão...

Mas se quisesse humilhar-vos, diria que este senhor foi unicamente o da última das minhas vidas anteriores. Porque eu também fui Napoleão. Sim! E sinto, muitas vezes, que Napoleão não anda longe de mim: a perspicácia, a audácia, a eficácia - que frequentemente tento contrabalançar esforçando-me por me mostrar um tanto lerdo, cobardão (sobretudo quando se aproxima o «administrador da rua», de óculos, barba cerrada e má catadura) e totalmente ineficaz perante as coisas da vida...

Tenho de evitar insistir nesta ideia de que Napoleão e eu somos o mesmo. Já deixei até de usar, pelo menos quando saio à rua, o chapéu à Napoleão que mandei fazer à Dona Pilar; e também vou evitando enfiar a mão entre os botões da camisa, sobre o peito: o meu psiquiatra andou muito estranho, quando lhe falei nesta identificação. E repetia, pesaroso: «Um clássico! Um clássico!»...

Mas devo dizer que, entretanto, ando a planear uma banda desenhada, à maneira das «graphic novels», em que aparecerei como um vibrante super-herói. Em futuros posts falarei, pois, dos super-poderes que me parece que conseguiria ou conseguirei facilmente desenvolver. (A invisibilidade seria claramente um deles: há dias em que, lá na escola, ninguém me liga nenhuma. Como se, com efeito, me não vissem...)

Se quiserem começar a pensar nos vossos possíveis super-poderes, queridos leitores, expondo-mos em posts que me sejam acessíveis ou em comentários, talvez haja lugar para vós na minha próxima banda desenhada.

Mas apressem-se. Suspeito que o mundo terá de ser salvo muito em breve

quinta-feira, janeiro 22, 2009

UM PROJECTO FABULOSO

Incontornável em tantas das minhas estórias, Dudu, extremoso filho meu, vai mostrando parecer-se cada vez mais comigo quando tinha a sua idade.

Se não, vejamos:

Teve uma excelente ideia para um trabalho em Educação Tecnológica: conceber e fabricar um carrinho de rolamentos; depois, esqueceu-se do assunto. Precisava de rolamentos, mas não voltou a pensar nisso; precisava de madeira, mas nunca mais se lembrou - a não ser na véspera da aula, à noite, quando arrumava a mochila.

Não digo que se pareça comigo no facto de haver tido uma ideia brilhante. Admito que, aí, possa sair à mãe; mas sai certamente a mim no pormenor de não se ter voltado a lembrar, de se haver esquecido completamente, a não ser, por acaso, na noite anterior à aula.

Perguntou à mãe: «Trouxeste-me rolamentos?». Também aí reconheço algo de meu: não tendo feito nada pelo seu projecto, esperar que, pelo menos, alguém possa arcar com as culpas. A mãe, que não fora avisada, respondeu-lhe que não tinha nenhuma loja de rolamentos. Houve choro.



Na ausência e na impossibilidade de fazer aparecer de um dia para o outro as mafaldadas peças, haveria a possibilidade de, para ele não se confrontar com o professor de mãos vazias, levar, ao menos, madeira. Mas que madeira???

Tentou tudo: perguntou-me se podia ser uma estante, uma porta velha, uma cadeira. Não. Não. Também não. Houve choro.



Zangámo-nos todos. Aproveitámos para nos mostrar didácticos, recordando-lhe que era muito bem feito, que aprendesse com os seus próprios erros, que, para a próxima, já sabia.

Adormeceu soluçando.

De manhã (dia de ser eu a levar as duas crianças, os inefáveis Dudu e Daisy, às respectivas escolas), acordo e sou posto perante a hipótese de se ir pedir ao vizinho uma das muitas madeiras que ele colecciona num espaço ao lado de sua casa. Não é que a ideia seja má, pelo contrário: é que o vizinho em causa, que hei-de já ter por aqui mencionado em anteriores posts, é um de óculos grossos e barba cerrada, alentejano de má catadura, que se intitula a si próprio «uma espécie de administrador da rua» e que, a esse título, vai criando conflitos com a restante vizinhança. Há que continuar a ser didáctico com o meu filho. Tenho, pois, de dizer-lhe:
- Vai lá tu falar com ele, então!
O Dudu quase cai de quatro. «Não vais tu, pai?!». Não, e tal, faz parte da lição de vida que tem estado a receber, e tal, ele é que se esqueceu de tudo e, portanto, a ele é que cabe patati-patatá.
- Mas não podemos ir juntos, pai?
Hesito. Mas a imagem do vizinho vem-me à cabeça: óculos grossos, barba cerrada, má catadura. Ná, há que ser didáctico: faz parte da lição de vida desenrascar-se sozinho das alhadas em que se meteu por causa da sua imaturidade, e tal...

Tudo isto sempre sob uma chuva abundante. (Talvez as tábuas do vizinho lhe servissem para construir uma nova Arca de Noé...). Pego na Daisy, levo-a para o carro, encho-a de cintos que ela vai desatando.
Vejo que Dudu arrasta uma pesada tábua. Não é uma tábua, é um estrado.
- Falaste com o vizinho?
- Não. Toquei, mas ele não atende. Falamos depois, não é?
Aquele «falamos» não me agrada. Entretanto, onde enfiar o estrado? Tento na bagageira: não cabe! Está ensopadíssimo, é pesadíssimo, enorme, quase maior do que a totalidade do carro.
Tentamos enfiá-lo dentro do veículo. Dudu e Daisy, sentados atrás, vêem os meus esforços e ouvem os meus palavrões no exercício de, à chuva, colocar o estrado lá atrás, entre o banco deles e os bancos da frente, aos seus pés...
Daisy chora.

Arrancamos vagarosamente. Não os vejo. No meu espelho retrovisor não cabe senão um enorme estrado de madeira, uma pesada fronteira que nos separa.

Chegamos à escola de Dudu. Ele arrasta-se com o estrado lá para dentro. Não o posso ajudar, visto que isso me obrigaria a deixar sozinha a Daisy. Observo o minúsculo petiz, à chuva, derreado ao peso de um monstro, iniciando as explicações à desconfiadíssima porteira. Atrás de mim, carros enervados de pais que largam os seus rebentos e querem partir de imediato para os respectivos serviços, buzinam-me. Dudu desapareceu no interior da escola. Mas eu não posso arrancar porque a mochila dele jaz no automóvel. E, uma vez mais, não posso ir em sua busca porque isso significaria deixar a Daisy sozinha, ou carregar com ela à chuva por uma busca aventureira.
Daisy chora, de novo, do carro.
A mochila chora pelo dono.
Eu próprio estou com vontade de chorar.
O céu ainda não parou de chorar...

Mas eis que se aproxima, sorridente, sob um chapéu magnífico, uma amiga que é professora naquela escola. Vem para me cumprimentar - mas eu, malcriadamente, penduro-lhe a mochila na mão, explicando-lhe que...

São agora vinte e uma horas e trinta e um minutos. É verdade, esqueci-me de falar ao vizinho. Bolas!

Amanhã eu... (hmmm... óculos grossos, barba cerrada, má cat...)... Se calhar, amanhã peço ao Dudu que lhe vá explicar a situação. Para ver se o miudo aprende o que custa a vida!

E O QUÊ ACERCA DA VIDA ANTES DA VIDA?!

Talvez precisamente porque não creio em reencarnação, consigo ver tão precisamente quem fui (ou poderia - ou deveria - ter sido) numa anterior existência.

Não tenho dúvidas de que já era um homem; a minha alma, por muito feminina que seja, é certamente, em qualquer uma das suas vidas, uma alma de homem. (E sou franco: não creio que uma alma de mulher pudesse alguma vez ser assim tão feminina...)

Sei que morri cedo. No máximo, no princípio dos anos vinte. Não teria mais de quarenta anos.

O que retenho com mais nitidez é o meu escritório dessa outra vida. Curiosamente, parece-me uma antítese do meu actual isto a que pomposamente chamo, às vezes, escritório.

Vejo livros, mas não destes que hoje possuo, com a capa em cartolina (livros que, numa livraria que é prudente não mencionar, mas cujo nome obterão por uma sábia mistura de «Bolhão» - como em Mercado do Bolhão - com «rosa», livrous que vou aí desrespeitosamente trocando por livros novos, agora que descobri que é possível fazê-lo sem que me levantem quaisquer problemas, mesmo sem qualquer tipo de talão): os que eu lia então eram livros muito bem encadernados; vejo-me, por exemplo, abrindo um e soltando no ar partículas de poeira que bailam num foco de luz que me entra por uma janela alta.

A minha secretária, algures, não podia senão ser em mogno. Vejo, sobre ela, canetas de aparo e tinteiro. Vejo um mata-borrão delicioso, daqueles em forma de gôndola, com uma pega, que se fazem balançar para a frente e para trás sobre a tinta ainda húmida.

Também vejo no chão, algures, um globo gigante. Há quadros. Há gravuras.

Não uso nunca chapéu, contra as convenções sociais. Mas tenho uns sapatos com arabescos pontilhados.

Penteio-me para trás, com a devida brilhantina. Não creio que fosse míope. (Se hoje o sou, não se trata de uma miopia da alma, mas do corpo que nesta vida se me atribuiu. Mas não me queixo...)

Algum médico me terá convidado, nessa vida, a tornar mais raras as minhas visitas ao escritório, indicação que clara e imprudentemente ignoro: suponho que o pó dos livros me não fizesse bem. Sofria, naturalmente, de qualquer coisa nos pulmões.

Devo ter morrido afogado: não vejo nenhuma outra razão para a ideia de afogamento me impressionar tanto; nem para não ter sido capaz, sequer, de aprender a nadar. Poderiam chamar-lhe «mariquice». Eu acho que estaria ligado a uma tragédia em outra encarnação.

Tirando, é claro, o pormenorzinho de que não creio em nada disto.

E que nada disto interesserá menormente aos meus leitores...

terça-feira, janeiro 13, 2009

LÚCIA, A MULHER-DA-PORTAGEM

O meu nome é Lúcia.
Vivo a maior parte da minha vida naquelas barraquinhas das portagens, à espera de que os atrasados que ainda não aderiram à Via Verde (possivelmente, benfiquistas...) formem demoradas filas enquanto procuram trocos. (Por que não trarão já o dinheiro preparado?). Ou descobrem, bruscamente, que têm de pagar mais cinco cêntimos, que não trazem ali...

Há pessoas, portanto, que, de mim, não conhecem senão um braço que se lhes estende à passagem.
Não tenho grandes alegrias na vida.
A única coisa que me dá prazer é, pois, fixar alguns dos condutores.
Aguardo-os.
Ao antipático que não me dá os bons-dias, por exemplo, gosto de fazer esperar. Conto minuciosamente o troco.
Ao que vem a ouvir música muito alto, gosto de responder elevando ainda mais o volume do meu rádio. São as minhas pequenas vinganças.

Às vezes, é o próprio destino que se encarrega de me vingar.

Houve um tipo que se zangou tanto comigo - já nem sei porquê -, que, antes de arrancar num desespero de ruído e fumo, ainda me atirou:
«Sabe que mais? Uma coisa é certa. A senhora tem o poder de me chatear. Mas depois, fica aí fechada nessa guarita o dia todo. E eu vou ser livre! Adeus! Passe muito bem na sua guarita!»

Não foi ser livre, não. Eram oito da manhã. O helicóptero da Sic bem sobrevoava a bicha na A5. Deve ter ficado sem poder mover nem um milímetro de viatura durante uma boa parte da manhã!

CONTRAFANTASIA

Não esperava, mas devo dizer que um comentário ao que escrevi me trouxe um novo surto de esperança. («Surto» estará aqui bem, ou é só com a gripe?); alguém que, pelos vistos conhecia um caso idêntico ao meu «caso», disse que achava que não fossem os mesmos, porque o rapaz da história dela tem os olhos castanhos, não azuis, e porque a rapariga não é clarifone.
Oh, meu Deus, suponho que os meus olhos podem ser tomados por castanhos! Convenci-me de que eram azuis, é certo, houve namoradas que me disseram que eram azuis, mas essas namoradas, no fundo, não ficaram tempo suficiente para poderem ter a certeza...

Por outro lado, não posso jurar que a rapariga fosse clarifone. Se calhar não era. Quem sabe se não foi um gracioso embuste dela para ter acesso a um remédio caseiro?

Ó minha alminha, por Deus, por Deus, não se vá assim. Contacte-me, que eu tenho a certeza absoluta de que o caso que conhece é o meu próprio caso. Olhos azuis e clarifonices à parte, em quantos elevadores do país terão ficado presos, na noite de fim de ano, uma rapariga bonita e um transportador de limas para uma festa, que se reuniram num beijo de vinte e tal minutos...?

E, por favor, não me responda que, no seu «caso», o beijo foi de dez minutos, ou de dezoito, ou de quarenta. O meu relógio estava parado!!!

sábado, janeiro 10, 2009

CONTRAFANTASIA DE FIM DE ANO

Eu não sou ninguém.

Nunca o fui:

Não acabei o 12º ano, não tirei a carta de condução senão à terceira tentativa e nunca consegui que nenhuma das raparigas que se encantavam dos meus olhos azuis e dos meus lábios sensuais - diziam elas - namorasse comigo durante mais do que quinze dias. O meu record foi uma gorda que chegou a ficar quinze dias e trinta e sete minutos.


Sei perfeitamente - e sei desde os nove anos - que o meu valor no mercado das relações amorosas é fraco.

Mas nunca andei tão triste e tão deprimido, com a auto-estima tão abanada como agora, depois da «cena». (Não sei muito bem o que seja a «auto-estima»; mas é o género de coisa que as pessoas dizem que anda por baixo, sobretudo quando vivem cenas como a «cena» que eu vivi...).


Sei que não tenho um emprego promissor - no fundo, sou simplesmente um moço de fretes -, mas também não esperava que me tratassem assim. Foi um novo record: o namoro mais rápido, se é que lhe posso chamar isso.


Passou-se tudo na noite de Fim de Ano, quando me encontrei, num elevador, com uma rapariga que se dirigia à festa onde eu, por coincidência, deveria entregar uma caixa de limas para que fizessem daquelas bebidas de que os brasileiros tanto gostam. Os brasileiros E a supracitada rapariga: haviam de ver o modo como os lábios se lhe reviraram num alegre sorriso assim que soube a que se destinava a caixa...

Eis senão quando, meus amigos, o elevador teve uma avaria. Nem para cima, nem para baixo.

Fui eu quem serenou a rapariga, que se queixava de ser clarinete, ou clarifone ou assim (como é que se diz quando uma pessoa não suporta espaços fechados?) e que, acrescentando que já se estava a sentir mal, me ia perguntando se haveria ali um pouco de cachaça e açúcar para juntar às limas e fazer uma receita caseira que ela conhecia. (Percebi depois que era especialista em receitas caseiras, umas com whisky, outras com gin...)

Tentando desesperadamente que ela acalmasse, nem sei como é que aquilo aconteceu, mas acabei por beijá-la. E, na verdade, comecei logo a ouvir disparar foguetes, estrelas e faíscas. Até pensei que fosse já a festejar a passagem de ano e olhei para o relógio: não era meia noite. Devia-se tudo ao extraordinário beijo de vinte e três minutos em que nos engalfinhámos...


Infelizmente, nesse momento, talvez devido a uma descarga do eléctrico beijo, o elevador reiniciou a sua marcha...


E quando as portas se abriram e eu me preparava para lhe propor casamento, a miuda desapareceu sem se voltar uma única vez para trás.


Isso não se faz. A mim, claro, não me aceitaram na festa. Aceitaram-me a caixa de limas, isso sim, mas mandaram-me embora com o coração destroçado.


Desde aí, procuro-a todos os dias. Enfio-me no mesmo elevador. Repito a viagem de baixo para cima, de cima para baixo. E nada. Sinto-me infeliz.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

O SINISTRO EPISÓDIO DA PORTA AUTOMÁTICA

Curiosamente, recebi um email insultuoso onde o senhor Joaquim Avelar, tratando-me, en passant, de «cocó de Buffalo Bill» (não me detenho a tentar descodificar o bizarro insulto), ameaçava processar-me por difamação. (Cf. post anterior). As pessoas são ressabiadas. Tudo as incomoda. Mas, pronto, para evitar problemas na Justiça, vou pegar no nome «Avelar» - que, notem, tive o cuidado de pôr sempre entre aspas, para verem que se tratava de um nome fictício - e vou substituí-lo, por exemplo, por «Avelã»; assim, de uma assentada, preservo a identidade de Joaquim Avelar (coitado: deve julgar que é um super-herói, necessitando de uma identidade secreta) e introduzo um elemento de comicidade que me agrada, porque sempre fui um autor muito engraçado. Chamemos-lhe, pois, «Avelã»: não é giro?

Sabemos que, já em criança, este senhor assassinara a própria mãe. Não tinha mais do que sete ou oito anos. Ele, bem entendido, não a mãe!
Hão-de perceber que, neste episódio, repousa uma profundíssima questão psicológica, que posso resumir na seguinte questão: se foi descoberta, ao lado do corpo da senhora, uma faca de cortar papel, por que razão é que o jovem preferira utilizar uma tesoura? É estranho, não é? Possuía uma faca - com uma paisagem da Madeira estampada no cabo - e, contudo, decidira-se por uma tesoura.

Claro que é importante que estes episódios, que vão surgindo, como as cerejas, ao sabor do teclado, não nos afastem do ponto central da vida do «Avelã» (ehehe, foi realmente uma ideia muito engraçada, chamar-lhe «Avelã»! Donde diabo me virá tudo isto???): o qual é, evidentemente, ter batido numa porta de vidro que deveria ter aberto - automaticamente - mas nunca chegou a abrir.

O que o senhor «Avelã» costumava contar - a mim nunca mo contou, falávamos pouco; mas narrou-a, por exemplo, a um cego muito esperto que depois, por sua vez, ma relatou. Sabem aquele cego que, em vez de tocar violino enquanto pedia esmola, ou acordeão ou até gaita de beiços, levava com ele um rádio e punha a música a tocar no máximo, deixando-lhe, tal artimanha, as mãos livres para sacudir a caixa de esmolas à passagem dos transeuntes...? Não foi esse, mas lembrei-me agora dele. Foi outro! - o que o senhor «Avelã» costumava, portanto, contar, é que a porta não abrira porque ele, «Avelã», era tão rápido, tão rápido, tão rápido, que não dera tempo ao desencadear do processo.

Duvido que alguém seja assim tão rápido, tão rápido, tão rápido. A não ser que o mecanismo estivesse emperrado. Ou a funcionar em câmara lenta. Como se a vida fosse um filme, mas um filme em que nem todos os elementos estivessem simultaneamente em câmara lenta, ou onde alguns estariam em câmara mais lenta do que outros.

Julgo que estas dissintonias são possíveis. Nas dobragens, por exemplo, tenho reparado que às vezes se ouve uma voz de mulher quando o homem abre a boca, e que quando a senhora move o seu fácies para responder lhe sai a voz do espanhol que estava a dobrar.
Isso só me incomoda nos filmes pornográficos. Mas não sei se não me estarei outra vez a afastar do tema...

Bem, estas questões filosóficas deixam-me sempre dor de cabeça.

terça-feira, janeiro 06, 2009

ÁGUAS TRANQUILAS OCULTANDO SINISTRAS PROFUNDEZAS

Tenho de vos apresentar, como personagem, a mais banal das figuras:
um pouco sobre o gordo, mas não em demasia, com óculos de massa e pernas mais curtas do que o resto do corpo, o senhor Avelar não tem mais sinais particulares para além de enfiar, compulsiva e regularmente, o dedo no interior do colarinho apertado pela gravata, para se não deixar morrer enforcado (visto que sempre acalentou o sonho de ser tranquilamente apanhado pela morte durante o sono...) e uma certa forma de erguer os olhos ao céu, como se quisesse pedir, a Deus, paciência para aturar os dislates da humanidade, mas que, na verdade, é simplesmente um tique, o qual se compôs em duas fases: primeiramente, tratara-se de erguer os olhos para se certificar de que os seus óculos se encontravam convenientemente encaixados no rosto, formando uma exemplar linha horizontal, perpendicular à cana do nariz e paralela às linhas da cabeça (em cima) e do queixo (em baixo); depois, pela repetição, acabara tornando-se um automatismo, uma obsessão, um gesto que não podia evitar e de que se envergonhava. Não muito: de que se envergonhava ligeiramente...

Por que vos falo desta personagem? Que fascínio pode exercer este rei da banalidade?

As águas tranquilas escondem, por vezes, inesperadas profundidades.
Este homem, que designo discreta e simplesmente por «Avelar» para não vos dizer que ele se chama, na realidade, Joaquim Avelar, teve dois momentos que marcariam, para sempre, a sua vida.
Em primeiro lugar, um dia bateu numa porta de vidro que deveria ter-se aberto automaticamente mas, por alguma enigmática razão, não chegou a fazê-lo.
Em segundo lugar, descobriu a sua homossexualidade, ao apaixonar-se por um sobrinho que animava certo blogue encimado por uma fotografia do autor em tronco nu, e chegou a ter um affaire com ele, que terminou bruscamente quando, não suportando a ideia de ser abandonado, o asssassinou.

Também encontram, nestes factos que menciono, algo que merece ser narrado?
Foi o que pensei. Decidi, pois, escrever uma curta série de posts a propósito desta personagem falsamente banal, em que vos irei contar o episódio, que tanto me intriga, de ele ter ido contra uma porta de vidro que, por algum motivo, não abriu automaticamente, como se esperava...

domingo, janeiro 04, 2009

E A FASCINANTE PESQUISA PROSSEGUE

A imparável aventura tecnológica em que mergulhei, e de que vos falava em «post» anterior, tem-se revelado de um inusitado interesse. Dói-me o dedo, de clicar sobre os títulos. Dói-me a curiosidade, de tão despertada! Dói-me o condão de ainda me surpreender, de tão abanado com os extravagantes resultados.

Por exemplo: se clicar sobre o sublinhado de Os Maias, tido no meu «perfil de blogger» como um dos livros que prefiro, aparece-me de imediato a referência a um senhor cujo blog se denomina... rouxinal do Bernardim; e o autor (que não sei se é o rouxinal, se o Bernardim) surge numa arrepiante fotografia, com um irrepreensível e pretíssimo capachinho contrastando com uma barba brancota. Procuro pelos seus interesses. Ei-los: «Dizer bem do que está bem mas não se demitir do dever da denúncia do que está mal. Omissão de denúncia é cobardia, é traição dos ideais democráticos». Quem escreve assim não é gago. Pode até usar capachinho, mas gago não é.

Não resisto à pesquisa. Quem se atreverá, então, a assumir que aprecia Lolita, um dos meus livros predilectos mas, indiscutivelmente, dos mais suspeitos e malditos, perversos e terríveis?
Há uma Amy Green, cujos interesses cito: « sleep [também eu, quando posso], Peep show [?] smoking, G&Ts.» Ok. Excluamos «G&Ts» que, na minha candura, não faço a menor ideia do que seja e cuja mera referência talvez me envolvesse em complicações com a ASAE. Mas peep show? Numa apreciadora de Lolita? Tratar-se-á, ela própria, de uma lolita procurando chamar a atenção de velhos depravados? Dificilmente: com 67 anos de idade, parece-me simplesmente uma velhinha maluca.

Já em relação à Origem da Tragédia (e escolho agora ao acaso, sem respeitar ordem nenhuma) salta-me a fotografia de um tal de Leandro, brasileiro de signo Peixes, que ostenta uma fotografia, sua, em tronco nú. Está visto que, no Brasil, tem estado muito calor. Era a quarentona de Em Busca do Tempo Perdido, é o senhor Leandro...
Pesquiso entre os seus interesses e deparo com os mesmos que eu. Mostra-se atento à filosofia, à literatura, ao cinema. Tanto interesse em comum com um cara que se fotografa em tronco nú? Bolas (segredam-me os meus imperdoáveis e reaccionários preconceitos), deixa eu fugir aí!
E há, também, um Anjo Cadáver. Livra! Decido. Acrescentarei ao meu programa para 2009: «Deixar de referir em público que a Origem da Tragédia é um dos meus livros preferidos»!

No cinema é que é pior.
Em quase todos os casos, clicando, seja em Aristogatos, seja em Lolita [de Kubrick, mas Lolita de novo: suspeitíssima insistência da minha parte; nem vale a pena sugerir que se trata de uma obra-prima, nem que Kubrick é Kubrick], só me aparece o mesmo único velhote do signo Virgem. Chama-se Gil Duarte. Vai ver que nem sequer é realmente o seu nome...

sexta-feira, janeiro 02, 2009

A PROPÓSITO DOS BLOGGERS QUE GOSTAM MUITO DE PROUST

1. Nas minhas aventuras tecnológicas, clicando aqui, experimentando ali, numa acesa competição com as rainhas da informática e da net, que são a Janota e a Angel (apesar de, pelos nomes, não se ficar com essa ideia...), descobri há pouco que, bem!: vamos por partes para os menos hábeis - coitaditos! - não se perderem:

a) Com um tal arranjo gráfico, isto até até parece um teste sumativo, mas não desanimem, prossigam.

b) Indo, neste mesmo blogue, ao meu perfil...

c) E, aí, à parte onde aparecem os títulos dos meus livros preferidos (ou filmes, ou o que seja)...

d) Observa-se que tais títulos estão sublinhados; e porquê? Sinto-me em condições para vos fornecer a explicação técnica, aliás muito simples: se clicarem (por exemplo, no meu caso, sobre Em Busca do Tempo Perdido), aparecem de imediato referências a outros blogues cujos autores também tivessem escolhido o mesmo livro como sendo um dos seus predilectos (por exemplo, insisto: Em Busca do Tempo Perdido).

2. A primeira referência que aparece é a de uma brasileira quarentona, em cujo blogue vemos destacar-se a arrojada fotografia, penso que dela, em bikini, emergindo das ondas de copacabana, como uma deusa de cabelos molhados. (E noto que, contra as minhas míseras quinhentas «visualizações do perfil», ela tem vinte e uma mil e tantas. Pudera! É capaz de não ser por se tratar de uma apreciadora de Em Busca do Tempo Perdido...); logo após, vem um tal Víctor, que deve ser muito feiínho, visto que usou uma fotografia sua em que está mergulhado, não nas ondas de copacabana, mas em plena penumbra, mal se detectando os contornos do que possa ser um rosto...

3. A seguir, vou experimentar com os filmes, com as músicas e por aí fora...

4. É sempre bom saber que, espalhados pelo mundo, existem estrangeiros que partilham os nossos gostos e os nossos interesses.

5.Talvez devesse fixar, como um programa para 2009, entrar em contacto com os outros amigos de Em Busca do Tempo Perdido!

6. Mas, se calhar, deixo o Víctor para o próximo ano...

quinta-feira, janeiro 01, 2009

MINÚSCULOS EPISÓDIOS DA PASSAGEM DE ANO

1. O primeiro episódio, ocorreu imediatamente aquando dos meus passos iniciais no interior da sala aquecida: um senhor de idade, pai do anfitrião, apertou-me a mão, olhando-me nos olhos como quem procurava sondar os meus pensamentos mais pecaminosos, e largou:
- Boa noite! Cada vez mais baixinho, hein?
Tenho de confessar que este estranho cumprimento me deixou absolutamente perplexo; e que me senti quase ofendido pela manifestação desabrida do reconhecimento de que, de novo ano em novo ano, tenho vindo a envelhecer. Mas não imaginava que tivesse já chegado ao ponto em que principira a minguar. Estou, pois, mirrando. Não é o que nos acontece a todos, a partir de uma certa idade?

Acabei por contar este episódio ao dono da casa, que me explicou, entre o preocupado (com o pai) e o divertido (comigo):
- Eia, bem! O meu velho está completamente taralhouco. Não te reconheceu! A sério, ouve, pá, essa é a piada que ele diz aos netos, percebes? Quando os vê, parece-lhe que eles cresceram mais um pouco. Estão cada vez mais altos, os putos! E o meu pai, como ironia, diz-lhes sempre: «Cada vez mais baixinho, hein?». Tomou-te por um dos netos, pá!

Ao longo da noite, como se imagina, a história tornou a ser contada, suscitando sempre novas gargalhadas. Senti-me rejuvenescido. Não deixa de ser estranho como uma ofensa se transforma, depois de compreendida, em algo que nos soa como o maior dos elogios.
Sinto-me alegre por vos contar este episódio. Infantilidade da minha parte? Deixem lá, ainda estou a crescer...

2. Já acerca da minha recente ida ao médico, por causa da mancha na testa (cf. post anterior...), contei a história a um grupo, porventura insistindo demasiado na parte de me terem cobrado noventa euros para nada...
Uma rapariga, magrita e cabeluda, comentou, com certa graça:
- Deixa lá! Ou preferias ter pago os noventa euros para te dizerem que era grave!?

Postas as coisas assim...