O Simões, coitado, era, aos trinta anos de idade, o que se chama um virgem: mas virgem de corpo e alma, e virgem em relação a praticamente tudo o que prenuncie prazer. O Simões não tinha vícios: não fumava, não bebia, não praticava sexo; não tomava café, porque temia as palpitações e as insónias; não sabia conduzir nem sabia nadar; nunca andara de bicileta; de moto, muito menos; não amava, nunca se apaixonara; é certo que trabalhava muito: o trabalho equivalia, no Simões, a quase um vício. Era, talvez, o que disso mais se aproximava.
O ponto é que nem aos trinta, nem aos quarenta, talvez em idade nenhuma se tem a vida completamente fechada, inteiramente imune a surpresas.
E, como a prová-lo, um dia, o Simões apaixonou-se.
Ou seja: dera-lhe uma espécie de explosão epilética em face de uma mulher de cinquenta e três anos mas com aspecto de menina, aspecto esse mantido, aliás, pelo aparelho «teen-ager» que usava nos dentes e pelas camisolinhas que lhe revelavam um belo umbigo num estômago que ela se esforçava por encolher.
A mulher, Alda Bobone, tinha rugas no rosto - que o Simões, de resto, adorava: eram as rugas mais belas que ele já vira, em todos os pontos certos, num subtil jogo de ramificações, numa maravilhosa teia que lhe fazia lembrar relâmpagos riscando o céu numa noite de trovoada.
Como o Simões nunca estivera antes apaixonado, tornou-se demasiado óbvio: suspirava, revirava os olhos, palidejava quando a via. Punha um ar de sofrimento, como se estivesse com os sapatos apertados ou dor de dentes. Não dormia. O rosto ia-se-lhe escavando até se fixar nos contornos dramáticos da caveira. Não comia. As calças principiavam a cair-lhe, apertava o cinto, tornava-se de uma magreza neo-Gótica.
Alda Bobone percebeu rapidamente que aquele jovem com ar vagamente de poeta começara a desfazer-se por causa dela. E comportou-se como se lhe tivesse saído a taluda, e com razão: aos cinquenta e três anos, ainda despertava paixões...!
Nunca os seus requebros foram tão ostensivos, os seus decotes tão profundos, o aparelho nos dentes tão faiscante, nunca o seu modo de se sentar, cruzando a perna, destapando a coxa, fora tão sensual.
Ao fim de umas curtas semanas durante as quais ensaiou todos os passos da sua dança de sedução, e não querendo prolongar essa fase, não fosse o jovem, cada dia mais aflito, agonizar de vez, dona Alda passou ao ataque. Num só dia apanhou-o a sós, beijou-o como se lhe sugasse a alma, desencadeando-lhe um dos seus piores ataques de asma, e levou-o dali para a cama, ainda com a respiração descontrolada.
Nesse único dia, Simões somou, ao tenebroso vício da paixão, dois novos vícios: em primeiro lugar, o sexo. Não precisou de se esforçar, porque dona Alda fazia tudo praticamente sozinha: ela tratou dos preliminares, pôs-se-lhe debaixo, pôs-se-lhe por cima, comprimindo-o na sua celulite, gemeu, arfou, gritou. Ora bem. Em segundo lugar, o tabaco. Porque, inexperiente como era, virgem como fora sempre, não tendo do sexo senão as imagens e os clichês dos filmes, Simões julgava que fazia parte do próprio acto concluí-lo com umas passas num cigarro, o corpo nu enrolado num lençol, enquanto lançava, para o ar, sopros de fumo e algumas reflexões vagamente filosóficas.
Dona Alda era incansável. Queria mais, queria sempre, todos os dias, se não a todas as horas. E o Simões, que no início da paixão parecera rejubilar, ganhar novas cores e uma nova vitalidade, depressa retomou a marcha para a decadência física, para a magreza, para o ar tenebroso e neo-Gótico.
E, principalmente, fumava muito. Fumava de todas as vezes que fazia sexo. Entretanto, descobriu que dona Alda era casada com um certo engenheiro Bobone, que o procurava agora por todo o lado e lhe fazia esperas, com uma machadinha escondida no bolso. Simões deu, pois, em fugir. E em fumar cada vez mais. Fugia do marido dela, obviamente, mas também da mulher do marido. Já não fumava meramente como um ritual pós-coito, fumava, agora, para relembrar o sexo de que fugia, mas também para tentar esquecê-lo, ou simplesmente para se acalmar, ou fosse pelo que fosse.
A sua asma não melhorou. Pelo contrário. Quando não estava com um cigarro nos lábios, estava com uma bomba enfiada na boca, aspirando com um estertor moribundo.
Com trinta e dois anos, Simões morreu de complicações que eu, que não sou médico, não saberia descrever.
Várias hipóteses de moral seriam retiráveis deste conto, algumas talhadas para as campanhas anti-tabagistas.
A única que me apetece extrair, com a dor e a melancolia de quem tem de extrair um dente, é esta: Mais vale uma vida breve por causa de um vício, do que uma vida demorada sem vício nenhum.
quarta-feira, agosto 30, 2006
terça-feira, agosto 22, 2006
O MITO DO OBSERVADOR INVISÍVEL
Nós, que nos ufanamos de ser do género «observador», gente perspicaz a quem nada falha, meticulosos sugadoiros do mundo em todos os seus aspectos, temos um pouco a noção (ou a mania) de que nunca somos observados: estamos do outro lado, como se fossemos de cristal; a nossa condição de pessoas que tudo vêem torna-nos, de certo modo, invisíveis.
Gosto de observar. Como aspirante a romancista (eterno e eternamente impublicado aspirante a romancista) tomo nota mental dos gestos e dos actos dos outros, sento-me numa mesa de café, meio encoberto por um jornal, oiço as conversas que me não dizem respeito, atento nas discussões, imagino histórias com que visto as pessoas que me passam ao lado, tornando-as personagens de futuros romances.
Observo, no comboio, os meninos prepotentes que fazem o que querem dos avós impotentes e indefesos: «Quero ir à janela! Com a janela aberta!», «Não, Quinzinho, não, não, é muito perigoso, olha lá, e se passa um comboio em sentido contrário...?», «Mas eu quero, eu quero, eu quero!!!», «Pronto, vá lá, só um bocadinho...»
Sei histórias dos carteiros, da porteira, da mulher-a-dias, do senhor que vende jornais no quiosque, dos vizinhos, dos bombeiros. De tentativas de suicídio ou de murros imprevistos, de cenas de ciúme e ódio; assisti por um triz à zanga da Elsa Raposo, à sua saída da casa do ex-namorado, cheia de malas, provocando um ajuntamento.
Tenho, na minha varanda, um posto privilegiado. Ao mínimo ruído de altercação, à noite, ao mínimo sinal de briga entre bêbedos, ao travar de uma ambulância que vem buscar alguém ao prédio da frente, assomo logo ao meu posto, seguro da minha invisibilidade, a coberto da escuridão.
Uma destas noites, precisamente, assomei atraído pelos gritos de uma velha prostituta que batia desapiedadamente num velho; partiu-lhe os óculos, partia-o todo, aos gritos de «Posso ser puta, mas pelo menos não sou tua mãe, que era pior!»
Na manhã seguinte, quando, por acaso, me cruzei com a mulher - eu a entrar para um café de onde ela saía -, rosnou-me, com uma agressividade que nunca lhe vira.
E já ela ia a dobrar a esquina, ainda lhe ouvi, obviamente para mim:
«E tu vais espreitar a tua prima lá da tua varanda, ó cabrão!»
Nunca me tinha falado antes. Fala-me, agora, sempre: e sempre com os mesmos modos desabridos, de quem me odeia, de quem me não perdoa o que eu vi nessa noite. Ela é que não perdoa o que eu vi, percebem? Porque ela sabe que a vi. Ela viu que eu vira tudo...
Foi, também, o fim de um mito: o do homem de cristal - o do observador invisível.
Gosto de observar. Como aspirante a romancista (eterno e eternamente impublicado aspirante a romancista) tomo nota mental dos gestos e dos actos dos outros, sento-me numa mesa de café, meio encoberto por um jornal, oiço as conversas que me não dizem respeito, atento nas discussões, imagino histórias com que visto as pessoas que me passam ao lado, tornando-as personagens de futuros romances.
Observo, no comboio, os meninos prepotentes que fazem o que querem dos avós impotentes e indefesos: «Quero ir à janela! Com a janela aberta!», «Não, Quinzinho, não, não, é muito perigoso, olha lá, e se passa um comboio em sentido contrário...?», «Mas eu quero, eu quero, eu quero!!!», «Pronto, vá lá, só um bocadinho...»
Sei histórias dos carteiros, da porteira, da mulher-a-dias, do senhor que vende jornais no quiosque, dos vizinhos, dos bombeiros. De tentativas de suicídio ou de murros imprevistos, de cenas de ciúme e ódio; assisti por um triz à zanga da Elsa Raposo, à sua saída da casa do ex-namorado, cheia de malas, provocando um ajuntamento.
Tenho, na minha varanda, um posto privilegiado. Ao mínimo ruído de altercação, à noite, ao mínimo sinal de briga entre bêbedos, ao travar de uma ambulância que vem buscar alguém ao prédio da frente, assomo logo ao meu posto, seguro da minha invisibilidade, a coberto da escuridão.
Uma destas noites, precisamente, assomei atraído pelos gritos de uma velha prostituta que batia desapiedadamente num velho; partiu-lhe os óculos, partia-o todo, aos gritos de «Posso ser puta, mas pelo menos não sou tua mãe, que era pior!»
Na manhã seguinte, quando, por acaso, me cruzei com a mulher - eu a entrar para um café de onde ela saía -, rosnou-me, com uma agressividade que nunca lhe vira.
E já ela ia a dobrar a esquina, ainda lhe ouvi, obviamente para mim:
«E tu vais espreitar a tua prima lá da tua varanda, ó cabrão!»
Nunca me tinha falado antes. Fala-me, agora, sempre: e sempre com os mesmos modos desabridos, de quem me odeia, de quem me não perdoa o que eu vi nessa noite. Ela é que não perdoa o que eu vi, percebem? Porque ela sabe que a vi. Ela viu que eu vira tudo...
Foi, também, o fim de um mito: o do homem de cristal - o do observador invisível.
domingo, agosto 20, 2006
LITERATURA E MARKETING
Não me digam que a literatura não está tão sujeita ao marketing como todos os outros objectos compráveis. E não me digam que, no caso da literatura, não é isso que conta, não é isso o que mais importa...
E é realmente de literatura que falo, não simplesmente de livros, nem de escrita pimba, nem de escrita pop, nem de escrita light.
Se, por exemplo, não tivesse começado a ler «Em Busca do Tempo Perdido» já completamente rendido ao efeito mítico dessa obra imensa, escrita por um homossexual histérico e asmático (pode parecer insultuoso mas, se relerem, vão perceber que nenhum dos termos empregues tem necessariamente uma carga pejorativa), tocada por um halo que me impregnara antecipadamente, isto é, antes de o ter principiado a ler, se não me tivessem já criado essa espécie de fantasia em torno do autor, da personagem, da obra, da memória e do papel da memória, se o meu avô não me tivesse já descrito, abundante e deliciosamente, o célebre episódio da «madalena», eu teria ido ao encontro da obra, tê-la-ia deixado vir ao meu encontro, tê-la-ia deixado tornar-se, paulatinamente (e já tarde) a obra da minha vida?
Faço estas considerações a propósito de um conto longo (uma novela, no fundo) que Vasco Graça Moura escreveu propositadamente para ser comprado em conjunto com um certo número da revista «Visão» (por mais três euros e tal).
Pensam que se não se tratasse de Vasco Graça Moura, para já, esse intelectual encartado do nosso país, esse tradutor reconhecido e premiado, esse poeta cantado e recantado (e requintado... e, já agora, requentado...!), de quem apreciei anteriores escritos, o livro me teria sorrido?
Pensam que se não fosse aquela capa - em que, numa fotografia, Vasco Graça Moura, com um polo Lacoste azul celeste, nos sorri, diante da sua magnífica biblioteca, repousando o cotovelo sobre o degrau superior de um escadote para alcançar os livros das prateleiras superiores - eu me teria detido sobre o objecto? Pensam que uma fotografia do Vasco Graça Moura a lamber um sorvete, ou a acenar-nos, ou a passear um cão, ou a correr para um autocarro, teriam surtido o mesmo efeito, esse efeito quase sagrado da proximidade dos livros, do seu escritório (que imaginamos mais do que realmente vemos), do seu trabalho intelectual (que invejamos mais do que realmente admiramos)?
Finalmente, pensam que se o título não fosse «Duas mulheres em Novembro», evocando de imediato um romance do narrador com duas senhoras, em pleno Inverno, um pouco à maneira de David Mourão-Ferreira, eu teria tido tanta pressa de o comprar?
Mas o marketing é sempre ilusório.
Para que conste, não há qualquer triângulo amoroso: as «duas mulheres» do título são, simplesmente, duas mulheres que se encontram (em Novembro, obviamente) no consultório de um médico que não há modo de as atender, e conversam ao longo das páginas mais chatas que já li em dias de minha vida.
O Graça Moura é uma seca. É um pim pam pum.
E a biblioteca da fotografia, se calhar, é um logro. Como este livro. Pft!
E é realmente de literatura que falo, não simplesmente de livros, nem de escrita pimba, nem de escrita pop, nem de escrita light.
Se, por exemplo, não tivesse começado a ler «Em Busca do Tempo Perdido» já completamente rendido ao efeito mítico dessa obra imensa, escrita por um homossexual histérico e asmático (pode parecer insultuoso mas, se relerem, vão perceber que nenhum dos termos empregues tem necessariamente uma carga pejorativa), tocada por um halo que me impregnara antecipadamente, isto é, antes de o ter principiado a ler, se não me tivessem já criado essa espécie de fantasia em torno do autor, da personagem, da obra, da memória e do papel da memória, se o meu avô não me tivesse já descrito, abundante e deliciosamente, o célebre episódio da «madalena», eu teria ido ao encontro da obra, tê-la-ia deixado vir ao meu encontro, tê-la-ia deixado tornar-se, paulatinamente (e já tarde) a obra da minha vida?
Faço estas considerações a propósito de um conto longo (uma novela, no fundo) que Vasco Graça Moura escreveu propositadamente para ser comprado em conjunto com um certo número da revista «Visão» (por mais três euros e tal).
Pensam que se não se tratasse de Vasco Graça Moura, para já, esse intelectual encartado do nosso país, esse tradutor reconhecido e premiado, esse poeta cantado e recantado (e requintado... e, já agora, requentado...!), de quem apreciei anteriores escritos, o livro me teria sorrido?
Pensam que se não fosse aquela capa - em que, numa fotografia, Vasco Graça Moura, com um polo Lacoste azul celeste, nos sorri, diante da sua magnífica biblioteca, repousando o cotovelo sobre o degrau superior de um escadote para alcançar os livros das prateleiras superiores - eu me teria detido sobre o objecto? Pensam que uma fotografia do Vasco Graça Moura a lamber um sorvete, ou a acenar-nos, ou a passear um cão, ou a correr para um autocarro, teriam surtido o mesmo efeito, esse efeito quase sagrado da proximidade dos livros, do seu escritório (que imaginamos mais do que realmente vemos), do seu trabalho intelectual (que invejamos mais do que realmente admiramos)?
Finalmente, pensam que se o título não fosse «Duas mulheres em Novembro», evocando de imediato um romance do narrador com duas senhoras, em pleno Inverno, um pouco à maneira de David Mourão-Ferreira, eu teria tido tanta pressa de o comprar?
Mas o marketing é sempre ilusório.
Para que conste, não há qualquer triângulo amoroso: as «duas mulheres» do título são, simplesmente, duas mulheres que se encontram (em Novembro, obviamente) no consultório de um médico que não há modo de as atender, e conversam ao longo das páginas mais chatas que já li em dias de minha vida.
O Graça Moura é uma seca. É um pim pam pum.
E a biblioteca da fotografia, se calhar, é um logro. Como este livro. Pft!
sábado, agosto 19, 2006
DIÁLOGOS IMPRESSIONANTES
MINHA MÃE - Estás maluco? Já estou arrependida de te ter contado esta história.
EU (amuado) - E porquê?
MINHA MÃE - Porque dizes que vais pôr isso no teu blogue! Com nomes e tudo!
EU (digníssimo) - E vou! E vou mesmo! O meu blogue é um lugar de denúncia das falsas virtudes, etc. etc. Ninguém me cala...
MINHA MÃE - Pelo amor de Deus, não faças isso, ao menos generaliza, diz que «há pessoas que fazem isto e fazem aquilo...» Não digas que «Fulano faz»...
EU (cada vez mais emocionado com o poder do meu blogue) - Ná, ná, ná! Não estou à venda. Vai tudo escarrapachado para lá. E é já. O meu blogue é um lugar livre e independente... (Depois de uma hesitação)... até porque ninguém o lê...!
EU (amuado) - E porquê?
MINHA MÃE - Porque dizes que vais pôr isso no teu blogue! Com nomes e tudo!
EU (digníssimo) - E vou! E vou mesmo! O meu blogue é um lugar de denúncia das falsas virtudes, etc. etc. Ninguém me cala...
MINHA MÃE - Pelo amor de Deus, não faças isso, ao menos generaliza, diz que «há pessoas que fazem isto e fazem aquilo...» Não digas que «Fulano faz»...
EU (cada vez mais emocionado com o poder do meu blogue) - Ná, ná, ná! Não estou à venda. Vai tudo escarrapachado para lá. E é já. O meu blogue é um lugar livre e independente... (Depois de uma hesitação)... até porque ninguém o lê...!
sexta-feira, agosto 11, 2006
PAIS, FILHOS & PSICÓLOGOS
Educar uma criança é difícil, mas mais fácil do que parece.
A primeira coisa a fazer, é não ligar aos psicólogos. Sobretudo, em Portugal, a pessoas como o Daniel Sampaio ou o Eduardo Sá. Ou o Pedro Strecht - em suma, aqueles que pontificam um pouco por toda a parte. Não é que nos enganem, coitados: eles não enganam ninguém. Basta ouvi-los durante cinco pacientes minutos para se perceber de imediato que não percebem nada destas coisas, que estão para ali a alinhar os mesmos chavões em que se revelam os perigos de uma teoria sem prática.
O que a prática me tem revelado, a mim que não sou psicólogo, é que não existem pais nem famílias que não sejam neuróticos; mais: que, na maior parte dos casos, quanto mais «politicamente correctos», quanto mais «consciencializados», quanto mais atentos e preocupados em agir by the book, isto é, de acordo com os manuais que ensinam os pais a ser pais, mais neuróticos são. (É preciso ser-se valentemente neurótico para se achar, por exemplo, que é possível viver a paternidade segundo os conselhos do senhor Daniel Sampaio).
Não quero que pensem que tenho a mania, ou que julgo saber do assunto mais do quem quer que seja; não quero que pensem que não cometo erros, nem sequer que penso que os não cometo. Cometo inúmeros. Alguns, incorrigíveis: estão-me na massa, na estrutura, no ADN, no que quiserem. Não tenho teorias, ou melhor, vou tentando compreender o que faço, tirando as minhas lições, procurando melhorar. É possível que esteja deformando e estragando o meu filho, que o esteja traumatizando, que lhe vá criando complexos e vícios vários. (Mas também não me preocupo mais do que a minha análise me convide a fazê-lo, porque verifiquei que a maioria dos «complexos» e dos «vícios» são uma invenção que tem rendido a uma certa psicologia...)
A minha aposta consiste simplesmente em confiar que tenho algumas coisas boas, que identifico e tento transmitir, tentando multiplicar as situações que o permitam; em reconhecer que tenho diversos e graves defeitos, cujo impacto menorizo quando posso; e, sobretudo, em esperar que a nossa relação viva e cresça, com bens e males, capaz de cuidar de si mesma, de constituir um rumo e um ritmo próprios, de acreditar em si. Isto não é uma receita. Não creio em receitas. É uma maneira de dizer que os filhos são resistentes: na maior parte dos casos, aprendem a superar o mal que lhes possamos fazer. Não é que isto me de-responsabilize. Nos de-responsabilize. É que se não acreditar nisto, mais vale não ter filhos - ou, então, pedir ao senhor Daniel Sampaio que os eduque por mim.
A primeira coisa a fazer, é não ligar aos psicólogos. Sobretudo, em Portugal, a pessoas como o Daniel Sampaio ou o Eduardo Sá. Ou o Pedro Strecht - em suma, aqueles que pontificam um pouco por toda a parte. Não é que nos enganem, coitados: eles não enganam ninguém. Basta ouvi-los durante cinco pacientes minutos para se perceber de imediato que não percebem nada destas coisas, que estão para ali a alinhar os mesmos chavões em que se revelam os perigos de uma teoria sem prática.
O que a prática me tem revelado, a mim que não sou psicólogo, é que não existem pais nem famílias que não sejam neuróticos; mais: que, na maior parte dos casos, quanto mais «politicamente correctos», quanto mais «consciencializados», quanto mais atentos e preocupados em agir by the book, isto é, de acordo com os manuais que ensinam os pais a ser pais, mais neuróticos são. (É preciso ser-se valentemente neurótico para se achar, por exemplo, que é possível viver a paternidade segundo os conselhos do senhor Daniel Sampaio).
Não quero que pensem que tenho a mania, ou que julgo saber do assunto mais do quem quer que seja; não quero que pensem que não cometo erros, nem sequer que penso que os não cometo. Cometo inúmeros. Alguns, incorrigíveis: estão-me na massa, na estrutura, no ADN, no que quiserem. Não tenho teorias, ou melhor, vou tentando compreender o que faço, tirando as minhas lições, procurando melhorar. É possível que esteja deformando e estragando o meu filho, que o esteja traumatizando, que lhe vá criando complexos e vícios vários. (Mas também não me preocupo mais do que a minha análise me convide a fazê-lo, porque verifiquei que a maioria dos «complexos» e dos «vícios» são uma invenção que tem rendido a uma certa psicologia...)
A minha aposta consiste simplesmente em confiar que tenho algumas coisas boas, que identifico e tento transmitir, tentando multiplicar as situações que o permitam; em reconhecer que tenho diversos e graves defeitos, cujo impacto menorizo quando posso; e, sobretudo, em esperar que a nossa relação viva e cresça, com bens e males, capaz de cuidar de si mesma, de constituir um rumo e um ritmo próprios, de acreditar em si. Isto não é uma receita. Não creio em receitas. É uma maneira de dizer que os filhos são resistentes: na maior parte dos casos, aprendem a superar o mal que lhes possamos fazer. Não é que isto me de-responsabilize. Nos de-responsabilize. É que se não acreditar nisto, mais vale não ter filhos - ou, então, pedir ao senhor Daniel Sampaio que os eduque por mim.
segunda-feira, agosto 07, 2006
FALAS DE AZUL
Devo ter induzido pessoas em erro com um velho «post» em que elogiava o hip-hop que se fazia em Portugal: pus uns quantos leitores (não muitos, mas isso porque não tenho muitos leitores) a pensar que eu seria um grande apreciador do género. Na verdade, não sou: tenho o hip-hop por uma música preguiçosa, mais cantada do que falada, e falada, ainda por cima, sempre quase da mesma forma (embora não com o mesmo conteúdo), com tiques e vícios de estilo por todo o lado. No entanto, surpreendiam-me algumas letras - algumas das tais «falas». Pelo arrojo, pelo português seguro que as sustentava, por uma capacidade admirável de tornar poético um quotidiano suburbano, pela, pasmem!, criatividade!
Mesmo em grupos desconhecidos parecia-me detectar essa estranha criatividade, esse inesperado domínio das palavras, essa expressiva familiaridade com o surrealismo.
Havia, por exemplo, nos «Morangos com Açúcar», uma música cujo nome desconheço, cantada ou falada por um desses grupos, que me obrigava a deter-me diante destas palavras:
«Falas de azul/ Esquece azul... etc, etc.»
Era bonito. Não sabíamos bem o que significava, nem o meu filho nem eu, mas gostávamos da estranha magia daquele «azul», e procurávamos interpretá-lo. Para o meu filho, tratava-se de alguém que «falava (vestida) de azul»: «Falas de azul». E, acrescentava ele, «alguém» que esquecia (o quê, que esquecia ela? - qualquer coisa), mas esquecia-se ainda e sempre vestida de azul: «Esqueces (de) azul»... (Admito que esta segunda parte me parece menos plausível, sobretudo porque eu não ouvia «esqueces» mas «esquece», no imperativo. Mas paciência: o meu filho tem onze anos).
Para mim, era antes com a metáfora que havia que se jogar. Alguém falava acerca de azul, porventura de um ideal, ou de amor, ou de um mundo perfeito, ou seja, de tudo aquilo a que aspiramos e que podemos representar sob essa cor que evoca o céu, o mar....! E, ironicamente, o cantor respondia-lhe, «Esquece azul», como quem diz, deixa-te disso, não vale a pena, não te incomodes, eu já não acredito nos teus sonhos nem nas tuas palavras...
As discussões que esta letra desencadeou, o que ela exigiu do nosso poder de argumentação, do nosso espírito, a dialéctica hermenêutica a que nos obrigou.
Tornámos a ouvir a música, numa destas noites, no rádio do carro; ouvimo-la com uma esforçadíssima atenção. Pois bem: não há ali azul nenhum. Nenhum. O que se diz é simplesmente «Falas disso» (soando como: «Falas dissú!»), «Esquece isso!» («Esquece issú!»).
O meu filho e eu rimo-nos do nosso equívoco. Mas pouco. Era um riso levemente amargo.
Ora bolas!
Mesmo em grupos desconhecidos parecia-me detectar essa estranha criatividade, esse inesperado domínio das palavras, essa expressiva familiaridade com o surrealismo.
Havia, por exemplo, nos «Morangos com Açúcar», uma música cujo nome desconheço, cantada ou falada por um desses grupos, que me obrigava a deter-me diante destas palavras:
«Falas de azul/ Esquece azul... etc, etc.»
Era bonito. Não sabíamos bem o que significava, nem o meu filho nem eu, mas gostávamos da estranha magia daquele «azul», e procurávamos interpretá-lo. Para o meu filho, tratava-se de alguém que «falava (vestida) de azul»: «Falas de azul». E, acrescentava ele, «alguém» que esquecia (o quê, que esquecia ela? - qualquer coisa), mas esquecia-se ainda e sempre vestida de azul: «Esqueces (de) azul»... (Admito que esta segunda parte me parece menos plausível, sobretudo porque eu não ouvia «esqueces» mas «esquece», no imperativo. Mas paciência: o meu filho tem onze anos).
Para mim, era antes com a metáfora que havia que se jogar. Alguém falava acerca de azul, porventura de um ideal, ou de amor, ou de um mundo perfeito, ou seja, de tudo aquilo a que aspiramos e que podemos representar sob essa cor que evoca o céu, o mar....! E, ironicamente, o cantor respondia-lhe, «Esquece azul», como quem diz, deixa-te disso, não vale a pena, não te incomodes, eu já não acredito nos teus sonhos nem nas tuas palavras...
As discussões que esta letra desencadeou, o que ela exigiu do nosso poder de argumentação, do nosso espírito, a dialéctica hermenêutica a que nos obrigou.
Tornámos a ouvir a música, numa destas noites, no rádio do carro; ouvimo-la com uma esforçadíssima atenção. Pois bem: não há ali azul nenhum. Nenhum. O que se diz é simplesmente «Falas disso» (soando como: «Falas dissú!»), «Esquece isso!» («Esquece issú!»).
O meu filho e eu rimo-nos do nosso equívoco. Mas pouco. Era um riso levemente amargo.
Ora bolas!
sábado, julho 29, 2006
TUDO O QUE É MAU FAZ BEM
Num livro que tem sido apresentado como «revolucionário», um autor norte-americano - penso eu, mas talvez erre; será, porventura, um preconceito, mas estas «revoluções» parecem-me tipicamente americanas - sustenta que tudo aquilo praticamente que sempre se pensou ser prejudicial aos adolescentes é, afinal, benéfico para o seu desenvolvimento. O excesso de televisão. Os videogames. Os telemóveis. You name it. Nós, até agora, preocupados com os nossos filhos, evitando parvamente que eles se alienassem com os jogos de computador e outros vícios da cultura de massas e, pelo contrário, os jogos e os vícios a despertar-lhes as mentes, rasgando-lhes fronteiras à inteligência, adestrando-os e aperfeiçoando-os...! O tempo que desperdiçámos a mandá-los estudar aos invés de os deixarmos colados ao ecrã, movendo ruidosamente os polegares sobre os botões da consola para disparar rajadas contra as naves invasoras.
Sei que não há, nesse livro, nada de científico. O registo é o da argumentação. E desconfio muito dessa retórica de que se tecem teorias cómodas. Fujo delas como o diabo da cruz: sofro de um leve enjoo quando oiço um psicólogo pedir «tempo de qualidade» por oposição à «quantidade», querendo convencer-me de que os pais geralmente muito ocupados podem ser melhores do que os outros se forem capazes de fazer do quarto de hora em que estão com os filhos um quarto de hora a sério, de «qualidade», cheio de histórias e brincadeira.
Haverá sempre um psicólogo para entoar loas às virtudes do macDonald's, da coca-cola, das pipocas no cinema. Há-de haver um psicólogo pronto a justificar - pior, a tomar como exemplo salutar - o comportamento desses pais negligentes que atafulham as crianças, as mimam em excesso, lhes não negam nada, lhes oferecem jogos em vez de atenção.
Compensa-se a irresponsabilidade dessas teorias com o tom revolucionário e provocatório que elas ostentam, o irresistível cunho de novidade e, sobretudo, o efeito de desculpabilização para consciências atormentadas de alguns pais.
Para muitos, é um óptimo negócio.
Sei que não há, nesse livro, nada de científico. O registo é o da argumentação. E desconfio muito dessa retórica de que se tecem teorias cómodas. Fujo delas como o diabo da cruz: sofro de um leve enjoo quando oiço um psicólogo pedir «tempo de qualidade» por oposição à «quantidade», querendo convencer-me de que os pais geralmente muito ocupados podem ser melhores do que os outros se forem capazes de fazer do quarto de hora em que estão com os filhos um quarto de hora a sério, de «qualidade», cheio de histórias e brincadeira.
Haverá sempre um psicólogo para entoar loas às virtudes do macDonald's, da coca-cola, das pipocas no cinema. Há-de haver um psicólogo pronto a justificar - pior, a tomar como exemplo salutar - o comportamento desses pais negligentes que atafulham as crianças, as mimam em excesso, lhes não negam nada, lhes oferecem jogos em vez de atenção.
Compensa-se a irresponsabilidade dessas teorias com o tom revolucionário e provocatório que elas ostentam, o irresistível cunho de novidade e, sobretudo, o efeito de desculpabilização para consciências atormentadas de alguns pais.
Para muitos, é um óptimo negócio.
sábado, julho 08, 2006
A HISTERIA
Quando perguntei a uma amiga se tinha sofrido muito com o jogo em que, na noite anterior, a França destruira as lusas ilusões, ela respondeu-me: «Na verdade, fiquei aliviada. Temia que viesse aí uma nova vaga de histeria!»
Eu compreendo que este patriotismo de trazer por casa pareça tão mal, se não chocante, a alguns intelectuais. E não emprego o termo depreciativamente: é, obviamente, entre os intelectuais, como o Barroso, o Pulido Valente ou o Pacheco Pereira, que esta onda de bandeiras invandindo varandas e automóveis soa pindérico, estúpido, misturando valores respeitáveis com ludismos de pacotilha.
Do meu ponto de vista, porém, a questão que aqui se põe não é a do patriotismo foleiro, a do patriotismo fácil, a do patriotismo histérico. Não é, de todo, a questão do patriotismo.
Tenho dificuldade em aceitar que, no interior de um país que se despreza há muitos séculos, que talvez tenha nascido já de um desprezo por si mesmo - com a incompreensível interrupção dos Descobrimentos -, no interior de um país que se viu sempre diminuído em face do resto da Europa, a começar pela enorme e potente Espanha com a qual faz fronteira, no interior de um país que foi vivendo, em grande parte, de emigração, lançando pelo mundo porteiras, trabalhadores das obras e varredores, famílias chutadas para bairros degradados, olhadas de cima, desintegradas, sempre a braços com uma língua que não dominavam, que no interior deste país haja quem não entenda a adesão à selecção nacional, a euforia futebolística, como uma espécie de vingança pequenina contra a nossa condição de portugueses e contra um destino rasca que nos cabe. Que não se veja aqui, que diabo, uma questão de - odiosa palavra, perdoem-ma - «auto-estima».
Resolvemos os nossos problemas? Não. Teríamos solucionado algo do nosso fado, mesmo que o Zinedine Zidane não tivesse jogado ou o árbitro não mandasse marcar a porcaria do penalty? Não. Teria alguma coisa essencial mudado se, no fim, vencêssemos a Itália e fossemos os campeões do mundo?
Não. Andaríamos nas nuvens umas semanas, um mês, uns meses e, depois, tudo voltaria fatalmente ao ramerrão português.
Mas, caramba, que mal faz uma interrupção da tristeza? Um breve período de intensidade e comunhão? Um carnaval em que nos unimos, por uma vez positivamente, neste drama de sermos portugueses?
Histeria? Sem dúvida. Mas eu sempre achei que havia qualquer coisa de profundamente saudável na histeria. Doentes, doentes, eram os psiquiatras e os psicólogos que se debruçavam sobre ela.
Eu compreendo que este patriotismo de trazer por casa pareça tão mal, se não chocante, a alguns intelectuais. E não emprego o termo depreciativamente: é, obviamente, entre os intelectuais, como o Barroso, o Pulido Valente ou o Pacheco Pereira, que esta onda de bandeiras invandindo varandas e automóveis soa pindérico, estúpido, misturando valores respeitáveis com ludismos de pacotilha.
Do meu ponto de vista, porém, a questão que aqui se põe não é a do patriotismo foleiro, a do patriotismo fácil, a do patriotismo histérico. Não é, de todo, a questão do patriotismo.
Tenho dificuldade em aceitar que, no interior de um país que se despreza há muitos séculos, que talvez tenha nascido já de um desprezo por si mesmo - com a incompreensível interrupção dos Descobrimentos -, no interior de um país que se viu sempre diminuído em face do resto da Europa, a começar pela enorme e potente Espanha com a qual faz fronteira, no interior de um país que foi vivendo, em grande parte, de emigração, lançando pelo mundo porteiras, trabalhadores das obras e varredores, famílias chutadas para bairros degradados, olhadas de cima, desintegradas, sempre a braços com uma língua que não dominavam, que no interior deste país haja quem não entenda a adesão à selecção nacional, a euforia futebolística, como uma espécie de vingança pequenina contra a nossa condição de portugueses e contra um destino rasca que nos cabe. Que não se veja aqui, que diabo, uma questão de - odiosa palavra, perdoem-ma - «auto-estima».
Resolvemos os nossos problemas? Não. Teríamos solucionado algo do nosso fado, mesmo que o Zinedine Zidane não tivesse jogado ou o árbitro não mandasse marcar a porcaria do penalty? Não. Teria alguma coisa essencial mudado se, no fim, vencêssemos a Itália e fossemos os campeões do mundo?
Não. Andaríamos nas nuvens umas semanas, um mês, uns meses e, depois, tudo voltaria fatalmente ao ramerrão português.
Mas, caramba, que mal faz uma interrupção da tristeza? Um breve período de intensidade e comunhão? Um carnaval em que nos unimos, por uma vez positivamente, neste drama de sermos portugueses?
Histeria? Sem dúvida. Mas eu sempre achei que havia qualquer coisa de profundamente saudável na histeria. Doentes, doentes, eram os psiquiatras e os psicólogos que se debruçavam sobre ela.
quinta-feira, julho 06, 2006
A FRUSTRAÇÃO DOS D'ZRT
Os D'zrt não são propriamente uns garotos. Embora finjam um pouco que sim: por exemplo, um deles, já quase nos seus gastos trinta anos, fazia, nos MORANGOS COM AÇÚCAR, o papel desadequado de um jovem adolescente apaixonado pela professora de Inglês; o outro, o inefável Zé Milho dos mesmos MORANGOS, também deve ter-se atrasado alguns anos na sua qualidade de miúdo, qualidade que não foi capaz de largar a tempo. E portanto, crescidotes como são, suspeito que, ao formarem uma banda, o sonho deles era serem uns tipos irreverentes, parasitando o hip-hop, com um público de jovens um pouco embriagados fazendo gestos obscenos e sacudindo-se a compasso nos seus concertos.
Observo, na televisão, o verdadeiro público dos D'Zrt: meninas de trancinhas e aparelho nos dentes, às cavalitas dos pais, bebés adormecidos no carrinho ou ao colo da mãe, miúdos de chucha, sardentos, alguns rapazolas com albuns de cromos debaixo do braço. E, aí, atenção: nem todos os rapazes! O meu filho olha com alguma indignação para o CD dos D'zrt que lhe ofereceram nos anos. Detesta-os. Tenho nisso algum orgulho, mas pouca influência. Os meninos que, em quase tudo o mais evoluem mais lentamente do que as meninas, nisto, parecem muito mais lúcidos. Os colegas do Duarte deformam-lhes as letras das músicas, ridicularizando-as divertida e gostosamente. Chego a ter pena do Topé e do Zé Milho!
Não acredito que o sonho dos D'zrt fosse esta multidão de crianças a pedirem-lhes autógrafos, com a caneta numa mão e a Barbie na outra.
Observo, na televisão, o verdadeiro público dos D'Zrt: meninas de trancinhas e aparelho nos dentes, às cavalitas dos pais, bebés adormecidos no carrinho ou ao colo da mãe, miúdos de chucha, sardentos, alguns rapazolas com albuns de cromos debaixo do braço. E, aí, atenção: nem todos os rapazes! O meu filho olha com alguma indignação para o CD dos D'zrt que lhe ofereceram nos anos. Detesta-os. Tenho nisso algum orgulho, mas pouca influência. Os meninos que, em quase tudo o mais evoluem mais lentamente do que as meninas, nisto, parecem muito mais lúcidos. Os colegas do Duarte deformam-lhes as letras das músicas, ridicularizando-as divertida e gostosamente. Chego a ter pena do Topé e do Zé Milho!
Não acredito que o sonho dos D'zrt fosse esta multidão de crianças a pedirem-lhes autógrafos, com a caneta numa mão e a Barbie na outra.
terça-feira, junho 13, 2006
A SAÍDA
Hans não conseguia deixar de olhar pela janela.
Passara os últimos dias olhando fixamente, cheio de fé, de uma fé irrealista que o tornava inapto para as tarefas da casa.
Os outros irritavam-se. Ada, sobretudo, enervava-se muito com a sua atitude:
- Tu não podes esperar que sejamos nós a fazer tudo. É injusto. Estamos juntos nesta situação, precisamos uns dos outros, precisamos de todos.
Clark, que, tacitamente, era visto pelo grupo como o líder, procurava acalmá-la:
- Ele está mal, Ada. Dá-lhe tempo. Deixa-o recompor-se. Foi o que sofreu mais de todos nós. Perdeu os pais, os filhos...
Ada chorava. Não de pena, mas de raiva, de uma raiva mesquinha contra Hans, e do orgulho ferido por Clark, que ela continuava amando secretamente.
- Quanto tempo lhe queres dar, Clark?
- Dá-lhe tempo, Ada, dá-lhe algum tempo. É só do que ele precisa...
Hans via claramente que, no exterior, tudo se recompunha. Não o dizia a ninguém. Mantinha segredo. Os outros ainda lhe agradeceriam, quando ele anunciasse: «Podemos sair, o mundo renasceu lá fora!»
Hans percebia perfeitamente que o cinzento começara a dar lentamente lugar a cores, que algumas flores brotavam do chão; pensava, comovido: «Há flores prontas a regressar à menor oportunidade, mesmo num mundo estragado. E que força! A força com que rompem o alcatrão, com que fendem as estradas...»
Um dia, Hans gritou.
Os outros aproximaram-se, a medo.
Mas o jovem ria-se. Apontava com o dedo pela janela. O mundo regenerara. Por completo. Estava pronto a recebê-los, reanimado, animado da sua eterna pujança.
- Que achas? -, perguntou Lake.
- Acho que ele enlouqueceu -, respondeu Ada.
- Também acho, infelizmente -, confirmou Clark. - A sua fé criou uma espécie de alucinação que, sob efeito das recordações, o faz ver o mundo lá fora como era antes.
- Ele quer sair. Podemos prendê-lo? -, interrogava-se Eva.
- Temos de o convencer -, experimentava Clark.
- Convencê-lo? -, troçava Ada. - Como se convence um louco?
- Temos de admitir outra hipótese -, arriscou Lap. Corou muito perante o silêncio atento que se fez em torno das suas palavras. Depois, nervosamente, com excesso de gestos, prosseguiu. - Temos de admitir a hipótese de que ele tenha razão. De que ele esteja a ver as coisas como elas de facto são, e nós não.
- Todos nós enganados? Loucos? E ele a percepcionar adequadamente? Mas porquê?
- Bem, o facto de ele ter passado tanto tempo à janela pode tê-lo tornado mais sensível para pequenas variações que nos escapam. Estamos demasiado habituados a esta falsa luz, que não sabemos até que ponto altera a nossa visão.
- Lap tem razão.
- Vais deixá-lo sair? A porta terá de se fechar imediatamente. E uma vez fechada, não a conseguiremos abrir senão ao fim de uma hora. E se nada mudou, como resistirá ele lá fora, sob a nuvem tóxica, durante uma hora? Queres usá-lo como cobaia, é isso?
Discutiram durante muito tempo. Com Hans e sem Hans. Para este, não havia dúvidas. Espantava-se de que não vissem tão claramente como ele o mundo renascido, mas o certo é que esse mundo o esperava. Não havia hesitação. Da sua parte, não havia a menor hesitação. E parecia lúcido: argumentava inteligentemente, um pouco excitado mas sem qualquer vestígio de delírio.
Estava à porta. Olhou para os seus companheiros um por um.
Tinha a certeza. Estava seguro. Sabia o que eles pensavam, lia-o nos rostos tensos, dramáticos. «E se o Hans não volta? E se o Hans morre?»
Uma vez saindo, não havia volta. A porta teria de ser imediatamente fechada nas suas costas, e não poderiam abri-la senão ao fim de uma hora. Se não tivesse razão, ao fim de uma hora iriam recolher o seu cadáver.
Tremeu. Não chegou a ser hesitação. Nem frio. Fora uma tremura nervosa.
A porta abriu-se. Hans saiu. A porta fechou-se nas suas costas.
Passara os últimos dias olhando fixamente, cheio de fé, de uma fé irrealista que o tornava inapto para as tarefas da casa.
Os outros irritavam-se. Ada, sobretudo, enervava-se muito com a sua atitude:
- Tu não podes esperar que sejamos nós a fazer tudo. É injusto. Estamos juntos nesta situação, precisamos uns dos outros, precisamos de todos.
Clark, que, tacitamente, era visto pelo grupo como o líder, procurava acalmá-la:
- Ele está mal, Ada. Dá-lhe tempo. Deixa-o recompor-se. Foi o que sofreu mais de todos nós. Perdeu os pais, os filhos...
Ada chorava. Não de pena, mas de raiva, de uma raiva mesquinha contra Hans, e do orgulho ferido por Clark, que ela continuava amando secretamente.
- Quanto tempo lhe queres dar, Clark?
- Dá-lhe tempo, Ada, dá-lhe algum tempo. É só do que ele precisa...
Hans via claramente que, no exterior, tudo se recompunha. Não o dizia a ninguém. Mantinha segredo. Os outros ainda lhe agradeceriam, quando ele anunciasse: «Podemos sair, o mundo renasceu lá fora!»
Hans percebia perfeitamente que o cinzento começara a dar lentamente lugar a cores, que algumas flores brotavam do chão; pensava, comovido: «Há flores prontas a regressar à menor oportunidade, mesmo num mundo estragado. E que força! A força com que rompem o alcatrão, com que fendem as estradas...»
Um dia, Hans gritou.
Os outros aproximaram-se, a medo.
Mas o jovem ria-se. Apontava com o dedo pela janela. O mundo regenerara. Por completo. Estava pronto a recebê-los, reanimado, animado da sua eterna pujança.
- Que achas? -, perguntou Lake.
- Acho que ele enlouqueceu -, respondeu Ada.
- Também acho, infelizmente -, confirmou Clark. - A sua fé criou uma espécie de alucinação que, sob efeito das recordações, o faz ver o mundo lá fora como era antes.
- Ele quer sair. Podemos prendê-lo? -, interrogava-se Eva.
- Temos de o convencer -, experimentava Clark.
- Convencê-lo? -, troçava Ada. - Como se convence um louco?
- Temos de admitir outra hipótese -, arriscou Lap. Corou muito perante o silêncio atento que se fez em torno das suas palavras. Depois, nervosamente, com excesso de gestos, prosseguiu. - Temos de admitir a hipótese de que ele tenha razão. De que ele esteja a ver as coisas como elas de facto são, e nós não.
- Todos nós enganados? Loucos? E ele a percepcionar adequadamente? Mas porquê?
- Bem, o facto de ele ter passado tanto tempo à janela pode tê-lo tornado mais sensível para pequenas variações que nos escapam. Estamos demasiado habituados a esta falsa luz, que não sabemos até que ponto altera a nossa visão.
- Lap tem razão.
- Vais deixá-lo sair? A porta terá de se fechar imediatamente. E uma vez fechada, não a conseguiremos abrir senão ao fim de uma hora. E se nada mudou, como resistirá ele lá fora, sob a nuvem tóxica, durante uma hora? Queres usá-lo como cobaia, é isso?
Discutiram durante muito tempo. Com Hans e sem Hans. Para este, não havia dúvidas. Espantava-se de que não vissem tão claramente como ele o mundo renascido, mas o certo é que esse mundo o esperava. Não havia hesitação. Da sua parte, não havia a menor hesitação. E parecia lúcido: argumentava inteligentemente, um pouco excitado mas sem qualquer vestígio de delírio.
Estava à porta. Olhou para os seus companheiros um por um.
Tinha a certeza. Estava seguro. Sabia o que eles pensavam, lia-o nos rostos tensos, dramáticos. «E se o Hans não volta? E se o Hans morre?»
Uma vez saindo, não havia volta. A porta teria de ser imediatamente fechada nas suas costas, e não poderiam abri-la senão ao fim de uma hora. Se não tivesse razão, ao fim de uma hora iriam recolher o seu cadáver.
Tremeu. Não chegou a ser hesitação. Nem frio. Fora uma tremura nervosa.
A porta abriu-se. Hans saiu. A porta fechou-se nas suas costas.
terça-feira, junho 06, 2006
INCONSCIENTE E MÁ-FÉ
Sartre nunca gostou muito de Freud. À ideia de «inconsciente», respondia com a noção de uma consciência sem zonas obscuras. Não, argumentava ele, o sujeito é pura consciência, uma consciência total e completa, sem estrutura nem qualquer mecanismo ou forma «a priori»; é, afinal, um nada - aquele nada no sentido sartreano (néant), que a língua portuguesa nunca conseguiu traduzir satisfatoriamente.
Mas - perguntava-se-lhe -, se o sujeito é consciência, como pode ignorar tanto de si, dos seus impulsos mais recônditos, como pode haver actos que não é capaz de explicar, cujas razões desconhece ou deturpa?
Ah!, dizia ele, isso é por causa da má-fé.
A má-fé ganhou, com Sartre, foros de conceito filosófico. Tratava-se de pensar uma espécie de truque da consciência, uma capacidade de se enganar a si própria, sem realmente se enganar uma vez que, em última análise, não podia deixar de perceber o jogo com que se mascarava de si para si.
O sujeito conhece os seus impulsos, as suas intenções, as suas motivações: nada lhe é verdadeiramente inconsciente. Mas, eis o segredo, pode actuar como se não soubesse, ou como se não tivesse a certeza, ou como se aceitasse outra explicação ou outra hipótese, levando esse «como se», por vezes, ao extremo ponto de, não acreditando, quase acreditar ou, por momentos, acreditar de facto na sua ignorância.
O exemplo mais conhecido desta atitude da consciência, é-nos oferecido pelo próprio Sartre: a jovem que conversa, à mesa de um café ou de um restaurante, com alguém que intenta seduzi-la. O homem, num determinado momento, pousa a sua mão sobre a mão dela. E ela, que poderia retirar imediatamente a sua, chocada, ou recuar de algum modo, pelo contrário deixa-a estar abandonada sob o suave toque, o peso daqueles dedos, continuando porém a falar acerca de filosofia, ou de religião, ou de temas excelsos, como se não tivesse notado, ou como se não tivesse compreendido, ou não desse nenhuma significação especial ao gesto, ou como se acreditasse na inocência deste...! Como se o tema e a conversa o impregnassem de leveza, de inocência, o esvaziassem de toda a intenção amorosa e de toda a sensualidade.
Há muitos anos, um amigo meu, casado e bom rapaz, tinha sido convidado por uma colega, com quem, obviamente se dava muito bem, para jantar em casa dela. A sós. O pretexto era que se tratava de uma casa nova, para onde ela mudara recentemente e que lhe queria mostrar.
Quando hoje ele se lembra desta situação, tenta sempre acreditar que aceitou inocentemente, sem ler nada nas entrelinhas e achando normal que uma colega, uma quase-amiga, com quem se dava muito bem, o convidasse para jantar em casa dela. Tenta acreditar que era possível, e lhe foi possível, não achar estranho, nem ler no convite para jantar nenhum segundo convite.
Respondemos-lhe: «Não é possível tamanha inocência!»
Do ponto de vista de Sartre, toda a inocência é uma forma de má-fé.
Não garanto que isto supere Freud, que explique os actos mais ou melhor do que o inconsciente explicaria.
Não sei se, aliás, o «inconsciente» e a «má-fé» são contraditórios e, como tal, se excluem mutuamente.
Ambos me parecem fazer todo o sentido.
Mas - perguntava-se-lhe -, se o sujeito é consciência, como pode ignorar tanto de si, dos seus impulsos mais recônditos, como pode haver actos que não é capaz de explicar, cujas razões desconhece ou deturpa?
Ah!, dizia ele, isso é por causa da má-fé.
A má-fé ganhou, com Sartre, foros de conceito filosófico. Tratava-se de pensar uma espécie de truque da consciência, uma capacidade de se enganar a si própria, sem realmente se enganar uma vez que, em última análise, não podia deixar de perceber o jogo com que se mascarava de si para si.
O sujeito conhece os seus impulsos, as suas intenções, as suas motivações: nada lhe é verdadeiramente inconsciente. Mas, eis o segredo, pode actuar como se não soubesse, ou como se não tivesse a certeza, ou como se aceitasse outra explicação ou outra hipótese, levando esse «como se», por vezes, ao extremo ponto de, não acreditando, quase acreditar ou, por momentos, acreditar de facto na sua ignorância.
O exemplo mais conhecido desta atitude da consciência, é-nos oferecido pelo próprio Sartre: a jovem que conversa, à mesa de um café ou de um restaurante, com alguém que intenta seduzi-la. O homem, num determinado momento, pousa a sua mão sobre a mão dela. E ela, que poderia retirar imediatamente a sua, chocada, ou recuar de algum modo, pelo contrário deixa-a estar abandonada sob o suave toque, o peso daqueles dedos, continuando porém a falar acerca de filosofia, ou de religião, ou de temas excelsos, como se não tivesse notado, ou como se não tivesse compreendido, ou não desse nenhuma significação especial ao gesto, ou como se acreditasse na inocência deste...! Como se o tema e a conversa o impregnassem de leveza, de inocência, o esvaziassem de toda a intenção amorosa e de toda a sensualidade.
Há muitos anos, um amigo meu, casado e bom rapaz, tinha sido convidado por uma colega, com quem, obviamente se dava muito bem, para jantar em casa dela. A sós. O pretexto era que se tratava de uma casa nova, para onde ela mudara recentemente e que lhe queria mostrar.
Quando hoje ele se lembra desta situação, tenta sempre acreditar que aceitou inocentemente, sem ler nada nas entrelinhas e achando normal que uma colega, uma quase-amiga, com quem se dava muito bem, o convidasse para jantar em casa dela. Tenta acreditar que era possível, e lhe foi possível, não achar estranho, nem ler no convite para jantar nenhum segundo convite.
Respondemos-lhe: «Não é possível tamanha inocência!»
Do ponto de vista de Sartre, toda a inocência é uma forma de má-fé.
Não garanto que isto supere Freud, que explique os actos mais ou melhor do que o inconsciente explicaria.
Não sei se, aliás, o «inconsciente» e a «má-fé» são contraditórios e, como tal, se excluem mutuamente.
Ambos me parecem fazer todo o sentido.
quarta-feira, maio 31, 2006
A EDUCAÇÃO DA MINISTRA
Por alguma inescrutável razão, associada, certamente, a uma persistente candura da minha parte, tudo isto ainda me espanta. Não deveria: a maturidade tem que ver com um conhecimento tão profundo dos seres humanos, que se não deixe surpreender com o que eles possam fazer. Mas espanto-me.
Que a educação pública (Pulido Valente propunha que se lhe chamasse «instrução», nunca mais do que isso) esteja, em Portugal, nas mãos de uma equipa chefiada - e simbolizada - por uma mulher que não gosta dos professores, os considera privilegiados e preguiçosos, irresponsáveis e desleixados; que entende que há uma reforma a fazer e que essa reforma se esgota em ensinar os professores a ensinar, em discipliná-los e em acusá-los dos males; que o insucesso deve ser abolido - o qual não existe, na sua perspectiva, senão porque os professores o provocam, sendo a solução, portanto... forçá-los a não atribuir negativas, ou penalizá-los quando o fazem; que, finalmente, como se o achincalhamento não fosse já suficiente, como se a quebra sistemática da autoridade, da última réstia de autoridade perante os meninos, não fosse grave e carregada de consequências, se deixe agora adivinhar a possibilidade de que os pais dos alunos avaliem os professores - é tudo de uma tamanha perversão ética e pedagógica, exprime uma tal inversão de valores, uma tão grande capacidade de errar no geral e no particular, uma tão grande capacidade de se enganar nos princípios e no concreto, que se torna praticamente insultuoso.
Não interessa perguntar quais as razões psicológicas - que as haverá - desta política suicida. O que alimenta um tal ódio e uma visão tão desfocada, tão, poderíamos dizer, poderosa e sublime no disparate, é-nos aqui indiferente.
Interessa reconhecer que os professores estão frustrados, que se sentem desprezados e desvalorizados; que este seu desvalor, que era já a parte principal da imagem que a sociedade fabricara da «escola» e dos «docentes», se agrava, nas mãos de uma ministra limitada e teimosa, até ao impossível; que não há alternativas - ou que os professores não têm alternativas que não sejam as sindicais, sendo que os sindicatos, por outro lado, primam pelo envelhecimento, pela falta de imaginação, pela incapacidade de analisar e pensar séria e profundamente.
Interessa perceber que os docentes não estão abatidos (no sentido de deprimidos ou cabisbaixos): abateram-nos (no sentido que a palavra adquire nos matadouros). Os professores foram sistematicamente abatidos.
Tão cedo, a cultura não se recomporá deste ataque.
O que está por detrás da seriedade e da inflexibilidade da ministra é, curiosamente, uma cultura do desleixo e da permissividade. Uma cultura de quebra de exigência no ensino. Porque a essa exigência, onde e quando existe, a ministra chama «produção de insucesso».
Hoje, os meninos agradecem.
Os pais dos meninos, obviamente, também.
Amanhã, ver-se-á!
Que a educação pública (Pulido Valente propunha que se lhe chamasse «instrução», nunca mais do que isso) esteja, em Portugal, nas mãos de uma equipa chefiada - e simbolizada - por uma mulher que não gosta dos professores, os considera privilegiados e preguiçosos, irresponsáveis e desleixados; que entende que há uma reforma a fazer e que essa reforma se esgota em ensinar os professores a ensinar, em discipliná-los e em acusá-los dos males; que o insucesso deve ser abolido - o qual não existe, na sua perspectiva, senão porque os professores o provocam, sendo a solução, portanto... forçá-los a não atribuir negativas, ou penalizá-los quando o fazem; que, finalmente, como se o achincalhamento não fosse já suficiente, como se a quebra sistemática da autoridade, da última réstia de autoridade perante os meninos, não fosse grave e carregada de consequências, se deixe agora adivinhar a possibilidade de que os pais dos alunos avaliem os professores - é tudo de uma tamanha perversão ética e pedagógica, exprime uma tal inversão de valores, uma tão grande capacidade de errar no geral e no particular, uma tão grande capacidade de se enganar nos princípios e no concreto, que se torna praticamente insultuoso.
Não interessa perguntar quais as razões psicológicas - que as haverá - desta política suicida. O que alimenta um tal ódio e uma visão tão desfocada, tão, poderíamos dizer, poderosa e sublime no disparate, é-nos aqui indiferente.
Interessa reconhecer que os professores estão frustrados, que se sentem desprezados e desvalorizados; que este seu desvalor, que era já a parte principal da imagem que a sociedade fabricara da «escola» e dos «docentes», se agrava, nas mãos de uma ministra limitada e teimosa, até ao impossível; que não há alternativas - ou que os professores não têm alternativas que não sejam as sindicais, sendo que os sindicatos, por outro lado, primam pelo envelhecimento, pela falta de imaginação, pela incapacidade de analisar e pensar séria e profundamente.
Interessa perceber que os docentes não estão abatidos (no sentido de deprimidos ou cabisbaixos): abateram-nos (no sentido que a palavra adquire nos matadouros). Os professores foram sistematicamente abatidos.
Tão cedo, a cultura não se recomporá deste ataque.
O que está por detrás da seriedade e da inflexibilidade da ministra é, curiosamente, uma cultura do desleixo e da permissividade. Uma cultura de quebra de exigência no ensino. Porque a essa exigência, onde e quando existe, a ministra chama «produção de insucesso».
Hoje, os meninos agradecem.
Os pais dos meninos, obviamente, também.
Amanhã, ver-se-á!
domingo, maio 28, 2006
EM CERTOS MOMENTOS, É MELHOR SER O RATO DA CIDADE
A vida pode ser vivida serena e tranquilamente. Dispensamos a filosofia, essa espécie de doença obsessiva pela pergunta, esse trabalho paciente e vão de desfazer respostas para refazer novas e constantes questões, mergulhamos num túnel com as dimensões do nosso quotidiano, vamos percorrendo passo a passo esse caminho, não tendo como objectivo senão uma melhoria das condições de vida no interior do túnel e, um dia, percebemos que há um grupo fungando em redor e que esse grupo é constituido, afinal, pelos amigos que vieram chorar a nossa própria morte.
Não digo que a outra forma de vida seja a de estar sempre na corda bamba, sempre num frenesí, numa espécie de pára-quedismo, uma perpétua adolescência, um perpétuo desporto radical.
Não digo que a coragem de preferir outra via se deva exercer sistematicamente, nem que tenha de ser o corte sistemático com todas as amarras tecidas ao longo do túnel, tornando-nos em vagabundos do espaço, viajantes intergalácticos.
Digo, somente, que a vida se encarrega, ela própria, de nos enviar surpresas e nos propor riscos.
Às vezes, riscos que respiram perfeição e luz.
Que nem todos os riscos são aceitáveis, é-me evidente.
Que alguns são imperdíveis, que merecem muito, muito, muito de nós - ou que nos merecem mesmo por inteiro, também me parece claro.
Um risco é, de certa forma, o mundo que vem ao nosso encontro.
Por mim, não quero deixar, de vez em quando - se a a possibilidade me merecer, digo-o sem qualquer vaidade ou arrogância -, de ir ao encontro do mundo.
Não digo que a outra forma de vida seja a de estar sempre na corda bamba, sempre num frenesí, numa espécie de pára-quedismo, uma perpétua adolescência, um perpétuo desporto radical.
Não digo que a coragem de preferir outra via se deva exercer sistematicamente, nem que tenha de ser o corte sistemático com todas as amarras tecidas ao longo do túnel, tornando-nos em vagabundos do espaço, viajantes intergalácticos.
Digo, somente, que a vida se encarrega, ela própria, de nos enviar surpresas e nos propor riscos.
Às vezes, riscos que respiram perfeição e luz.
Que nem todos os riscos são aceitáveis, é-me evidente.
Que alguns são imperdíveis, que merecem muito, muito, muito de nós - ou que nos merecem mesmo por inteiro, também me parece claro.
Um risco é, de certa forma, o mundo que vem ao nosso encontro.
Por mim, não quero deixar, de vez em quando - se a a possibilidade me merecer, digo-o sem qualquer vaidade ou arrogância -, de ir ao encontro do mundo.
domingo, maio 21, 2006
RELEMBRANDO KARL PROTZKA
Karl Protzka é, com certeza absoluta, o escritor mais obscuro do mundo inteiro. Cidadão do Império Austro-Húngaro e de Viena de onde nunca saiu senão por poucos meses, viveu o auge e a decadência imperiais: é aquele mesmo a quem Musil se refere, nos «Diários», como o seu «amigo bizarro».
Eu próprio, que aqui dele falo, conheço-o pelo mero acaso de o meu avô ter sido o tradutor para português, penso que nos anos cinquenta, do único livro a que se resume a sua obra.
Chama-se «O Órgão Invisível». Tentei ler várias vezes o exemplar já velho e meio-carcomido que me veio parar às mãos, depois de ter passado orgulhosamente por várias estantes de familiares. Devo ter querido lê-lo com quinze ou dezasseis anos - que loucura! - e desistido ao fim da terceira ou quarta páginas; retomei-o aos vinte e não avancei muito mais; a seguir talvez aos vinte e tal, por fim aos trinta. Não sei com que idade mergulhei efectivamente naquele estranhíssimo romance que é o contrário de um romance (o meu avô fascinava-me repetindo amiúde estes pormenores, razão principal de todas as minhas tentativas de leitura), ou que é um não-romance se não um anti-romance: Protzka sonhava escrevê-lo mas, aparentemente, buscava, para o iniciar, uma série de condições ideais, desde a cadeira e a secretária ao papel, passando pela luz, pela caneta ou pelo estado de espírito perfeitos; em vez disso, nunca os reunindo, protelava, protelava sempre, mas ia enchendo caixas com apontamentos acerca do mundo que borbulhava em torno de si e do adiado romance: acerca do que os outros pensavam dele próprio e ele dos outros, acerca do que lhe perguntavam sobre o seu romance e de tudo quanto inventava: que estava a escrevê-lo (o que era falso), que o ia publicar, que concluíra o décimo quarto capítulo...!
Já depois de morto, os seus filhos reuniram esta gigantesca massa de apontamentos, organizando-a numa espécie de pararomance sobre o que seria o seu romance e, sobretudo, sobre a estranheza das relações humanas que se moviam à volta de um romance prometido, desejado, idealizado mas incapaz de vir à tona.
Das duas primeiras páginas, cito estas palavras:
«Uma relação - falo de toda e qualquer relação entre duas pessoas, filial ou fraterna, de amizade ou inimizade, erótica ou irónica - é um corpo que mergulha as suas pernas, por vezes até à cintura, por vezes até ao pescoço, no silêncio e no invisível: pois que o corpo de uma relação entre dois sujeitos é composto não principalmente pelo que os dois dizem um ao outro, e sim pelo que, sobretudo, não dizem um ao outro.[...] desse não-dizer transparecem sempre sintomas: mas transparecem mal, incompreendidos, falseados, deturpados. [...] Como essas indicações, que talvez nem o sejam, nunca se dizem, como nunca se esclarecem por palavras, como, na maioria dos casos, são meras ausências, adensam-se, a pouco e pouco, numa atmosfera de equívocos em que respiram todas as relações. Já imaginaram alguém que compreenda os desejos, ou as intenções de outrem, a partir, quase só, desse espelho invisível e deformante? O ter-lhe certa pessoa falado em último lugar numa reunião de amigos, ou o ter passado na rua como se o não visse, ou, pelo contrário, ter-lhe vindo imediatamente ao encontro, ou, durante a conversa, nunca o ter olhado nos olhos? [...] Ou um certo tom de voz (conhecem algo mais indefinível do que um «tom»?)! [...] O meu romance versará, no fundo (e a expressão «no fundo» é bem escolhida) essa trágica impotência: o paradoxo de um incomunicável resíduo de toda a comunicação ser, talvez, a parte mais importante de toda a comunicação.»
Nunca encontrei qualquer exemplar à venda. Em lado nenhum. Que eu saiba, não voltou a ser traduzido. O que releio frequentemente está muito gasto, muito velho. Gostaria de o mandar encadernar. Não tenho ideia de um outro autor tão profundo e tão extraordinário que seja tão profunda e tão extraordinariamente invisível.
Eu próprio, que aqui dele falo, conheço-o pelo mero acaso de o meu avô ter sido o tradutor para português, penso que nos anos cinquenta, do único livro a que se resume a sua obra.
Chama-se «O Órgão Invisível». Tentei ler várias vezes o exemplar já velho e meio-carcomido que me veio parar às mãos, depois de ter passado orgulhosamente por várias estantes de familiares. Devo ter querido lê-lo com quinze ou dezasseis anos - que loucura! - e desistido ao fim da terceira ou quarta páginas; retomei-o aos vinte e não avancei muito mais; a seguir talvez aos vinte e tal, por fim aos trinta. Não sei com que idade mergulhei efectivamente naquele estranhíssimo romance que é o contrário de um romance (o meu avô fascinava-me repetindo amiúde estes pormenores, razão principal de todas as minhas tentativas de leitura), ou que é um não-romance se não um anti-romance: Protzka sonhava escrevê-lo mas, aparentemente, buscava, para o iniciar, uma série de condições ideais, desde a cadeira e a secretária ao papel, passando pela luz, pela caneta ou pelo estado de espírito perfeitos; em vez disso, nunca os reunindo, protelava, protelava sempre, mas ia enchendo caixas com apontamentos acerca do mundo que borbulhava em torno de si e do adiado romance: acerca do que os outros pensavam dele próprio e ele dos outros, acerca do que lhe perguntavam sobre o seu romance e de tudo quanto inventava: que estava a escrevê-lo (o que era falso), que o ia publicar, que concluíra o décimo quarto capítulo...!
Já depois de morto, os seus filhos reuniram esta gigantesca massa de apontamentos, organizando-a numa espécie de pararomance sobre o que seria o seu romance e, sobretudo, sobre a estranheza das relações humanas que se moviam à volta de um romance prometido, desejado, idealizado mas incapaz de vir à tona.
Das duas primeiras páginas, cito estas palavras:
«Uma relação - falo de toda e qualquer relação entre duas pessoas, filial ou fraterna, de amizade ou inimizade, erótica ou irónica - é um corpo que mergulha as suas pernas, por vezes até à cintura, por vezes até ao pescoço, no silêncio e no invisível: pois que o corpo de uma relação entre dois sujeitos é composto não principalmente pelo que os dois dizem um ao outro, e sim pelo que, sobretudo, não dizem um ao outro.[...] desse não-dizer transparecem sempre sintomas: mas transparecem mal, incompreendidos, falseados, deturpados. [...] Como essas indicações, que talvez nem o sejam, nunca se dizem, como nunca se esclarecem por palavras, como, na maioria dos casos, são meras ausências, adensam-se, a pouco e pouco, numa atmosfera de equívocos em que respiram todas as relações. Já imaginaram alguém que compreenda os desejos, ou as intenções de outrem, a partir, quase só, desse espelho invisível e deformante? O ter-lhe certa pessoa falado em último lugar numa reunião de amigos, ou o ter passado na rua como se o não visse, ou, pelo contrário, ter-lhe vindo imediatamente ao encontro, ou, durante a conversa, nunca o ter olhado nos olhos? [...] Ou um certo tom de voz (conhecem algo mais indefinível do que um «tom»?)! [...] O meu romance versará, no fundo (e a expressão «no fundo» é bem escolhida) essa trágica impotência: o paradoxo de um incomunicável resíduo de toda a comunicação ser, talvez, a parte mais importante de toda a comunicação.»
Nunca encontrei qualquer exemplar à venda. Em lado nenhum. Que eu saiba, não voltou a ser traduzido. O que releio frequentemente está muito gasto, muito velho. Gostaria de o mandar encadernar. Não tenho ideia de um outro autor tão profundo e tão extraordinário que seja tão profunda e tão extraordinariamente invisível.
quarta-feira, maio 17, 2006
GRAÇAS E DESGRAÇAS DE UM CÃO DO CARAÇAS (II)
Sempre ouvi dizer que não se escolhe a família. Errado: tenho-a escolhido de tal maneira, que há familiares que vou deixando de frequentar e outros que fazem, cada vez mais, parte quase do meu dia-a-dia.
O que não podemos realmente escolher (senão em teoria) é a vizinhança.
Tenho um vizinho que inventou para si o título pomposo mas vazio de «Administrador da Rua». Na função que se concedeu, manda-me que não estacione o automóvel em determinados sítios ou que não ponha o caixote de lixo demasiado longe do meu portão - tudo isto «porque», quando chegámos «o bairro era já uma "piquena" aldeia, com as suas regras», que não estão escritas em lado nenhum, mas deveríamos acatar «em prol da harmonia da rua».
Este vizinho, de resto, é uma espécie de disléxico em matéria de cores de baldes do lixo previstas para os diferentes dias da semana. Falo do sistema da empresa «Tratolixo»: balde amarelo, para plásticos e metais, recolhido à segunda-feira por exemplo, balde azul, para papel e cartão, noutro dia. Eu e o meu filho inventámos um jogo: damos palpites ao acaso sobre a cor que o vizinho escolherá para cada dia. A única certeza é a de que nunca é a que deveria ser...
Ao lado de nós, partilhando um mesmo muro - um muro baixo, diga-se - está um casal de maus-fígados: um senhor careca e de bigode e uma senhora que oiço sempre aos gritos.
Uma vez, do seu alpendre, via-a vituperando contra um bando de meninas que saíam da escola. Não sei que lhe teriam feito. Mas a mulher dirigia-se, principalmente, à mais alta, garantindo-lhe:
- ... porque tu tens cara para apanhar um par de estalos, percebes!?
Ao que a menina, meio-paralisada, respondia:
- Está bem.
Foi este último casal que arranjou um mini-cão, um bicho pequeno, que se tornará um dia enorme a avaliar pelo tamanho da patorra, mas, entretanto, não passa de uma bolinha peluda.
O Dunga, meu cão de quem vos tenho falado, sentiu-lhe o cheiro no ar, tomou-se de amores, saltou o muro comum - o que nunca antes fizera - e passou a ensaiar surtidas, cada vez mais prolongadas, àquele apetecível quintal.
Estarrecidos, nós gritávamos:
- Dunga! AQUI! JÁ AQUI, DUNGA!!!
Mesmo que o Dunga quisesse, não poderia regressar pelos seus meios: o muro, baixo e fácil de transpor do nosso quintal para o quintal dos vizinhos, é, contudo, absurdamente alto no sentido inverso. Mas o pior é que o Dunga não quer: sexualmente inebriado, tremendo de excitação, tem como ideia única e fixa montar o cachorrinho.
É um espectáculo horroroso.
Lá pedíamos a um dos filhos do casal, assim que o apanhávamos a espreitar o que seria tanta gritaria, que fizesse o favor de pegar no nosso cão e no-lo devolver.
A menina, prestativa, tentava agarrar no Dunga - Dunga esse que, furioso pela interrupção, se tornava ameaçador e ladrava.
O meu filho pedia que o deixassem entrar. Mas o Dunga rosnava-lhe. Foi por isso que o Duarte, um dia, se saiu com esta espécie de poema espontâneo:
- Tenho medo do Dunga. Medo e raiva. Um dia fico tão furioso, que até o meu medo fica com medo de mim...
Quando o Duarte corajosamente o trazia apesar de tudo, prendíamos o cão em casa. E então víamo-lo, inconsolável, pendurado de uma janelinha com vista para o quintal do vizinho, ganindo baixinho, completamente apaixonado.
Quando nos esquecíamos e abríamos a porta, zás, o Dunga que, esse, não se esquecia, passava por nós em voo e mergulhava no quintal dos outros.
O drama repete-se. Ciclicamente. O Duarte chora de nervos. A minha mulher recomeçou a pedir uma caçadeira.
Quando me vê aproximar-me, pela rua, de Dunga pela coleira, a senhora vizinha adverte-me, numa mal contida agressividade:
- Não venha para aqui com essa enguia...
Nem lhe respondo, dignamente ofendido.
O Dunga tem murchado.
Isto é, transposto para o mundo canino, a tragédia de Romeu & Julieta.
Ou melhor, de Romeu & Romeu.
O que não podemos realmente escolher (senão em teoria) é a vizinhança.
Tenho um vizinho que inventou para si o título pomposo mas vazio de «Administrador da Rua». Na função que se concedeu, manda-me que não estacione o automóvel em determinados sítios ou que não ponha o caixote de lixo demasiado longe do meu portão - tudo isto «porque», quando chegámos «o bairro era já uma "piquena" aldeia, com as suas regras», que não estão escritas em lado nenhum, mas deveríamos acatar «em prol da harmonia da rua».
Este vizinho, de resto, é uma espécie de disléxico em matéria de cores de baldes do lixo previstas para os diferentes dias da semana. Falo do sistema da empresa «Tratolixo»: balde amarelo, para plásticos e metais, recolhido à segunda-feira por exemplo, balde azul, para papel e cartão, noutro dia. Eu e o meu filho inventámos um jogo: damos palpites ao acaso sobre a cor que o vizinho escolherá para cada dia. A única certeza é a de que nunca é a que deveria ser...
Ao lado de nós, partilhando um mesmo muro - um muro baixo, diga-se - está um casal de maus-fígados: um senhor careca e de bigode e uma senhora que oiço sempre aos gritos.
Uma vez, do seu alpendre, via-a vituperando contra um bando de meninas que saíam da escola. Não sei que lhe teriam feito. Mas a mulher dirigia-se, principalmente, à mais alta, garantindo-lhe:
- ... porque tu tens cara para apanhar um par de estalos, percebes!?
Ao que a menina, meio-paralisada, respondia:
- Está bem.
Foi este último casal que arranjou um mini-cão, um bicho pequeno, que se tornará um dia enorme a avaliar pelo tamanho da patorra, mas, entretanto, não passa de uma bolinha peluda.
O Dunga, meu cão de quem vos tenho falado, sentiu-lhe o cheiro no ar, tomou-se de amores, saltou o muro comum - o que nunca antes fizera - e passou a ensaiar surtidas, cada vez mais prolongadas, àquele apetecível quintal.
Estarrecidos, nós gritávamos:
- Dunga! AQUI! JÁ AQUI, DUNGA!!!
Mesmo que o Dunga quisesse, não poderia regressar pelos seus meios: o muro, baixo e fácil de transpor do nosso quintal para o quintal dos vizinhos, é, contudo, absurdamente alto no sentido inverso. Mas o pior é que o Dunga não quer: sexualmente inebriado, tremendo de excitação, tem como ideia única e fixa montar o cachorrinho.
É um espectáculo horroroso.
Lá pedíamos a um dos filhos do casal, assim que o apanhávamos a espreitar o que seria tanta gritaria, que fizesse o favor de pegar no nosso cão e no-lo devolver.
A menina, prestativa, tentava agarrar no Dunga - Dunga esse que, furioso pela interrupção, se tornava ameaçador e ladrava.
O meu filho pedia que o deixassem entrar. Mas o Dunga rosnava-lhe. Foi por isso que o Duarte, um dia, se saiu com esta espécie de poema espontâneo:
- Tenho medo do Dunga. Medo e raiva. Um dia fico tão furioso, que até o meu medo fica com medo de mim...
Quando o Duarte corajosamente o trazia apesar de tudo, prendíamos o cão em casa. E então víamo-lo, inconsolável, pendurado de uma janelinha com vista para o quintal do vizinho, ganindo baixinho, completamente apaixonado.
Quando nos esquecíamos e abríamos a porta, zás, o Dunga que, esse, não se esquecia, passava por nós em voo e mergulhava no quintal dos outros.
O drama repete-se. Ciclicamente. O Duarte chora de nervos. A minha mulher recomeçou a pedir uma caçadeira.
Quando me vê aproximar-me, pela rua, de Dunga pela coleira, a senhora vizinha adverte-me, numa mal contida agressividade:
- Não venha para aqui com essa enguia...
Nem lhe respondo, dignamente ofendido.
O Dunga tem murchado.
Isto é, transposto para o mundo canino, a tragédia de Romeu & Julieta.
Ou melhor, de Romeu & Romeu.
MAS ENTÃO SÓ O FREUD É QUE PRECISA DE SER REVISTO, NÃO?
Há alguns anos, quando o Y era ainda meu amigo e acabara de ter uma filha, não pegava na menina ao colo nem via com bons olhos que alguém se atrevesse a fazê-lo, e dizia, peremptório:
- Não se deve fazer isso. Ficam com uma perspectiva completamente distorcida do mundo: centrada neles próprios e vendo tudo e todos de cima para baixo.
Tenho de vos dizer, desculpem, que na altura as palavras de Y, a quem eu devotava uma admiração praticamente ilimitada, faziam para mim muito sentido, como, aliás, todas as suas teorias (Y era um teorizador nato). Neste caso particular, um sentido porventura bizarro e cruel, mas inegável.
Com o tempo, porém, Y passou-se.
Cortou relações comigo e com o resto dos amigos e da família. De mim, dizia que eu o perseguia e o vigiava escondendo-me por trás de caixotes de lixo. Parece que uma vez me terá mesmo visto a espreitá-lo, meio-oculto pelo seu frigorífico. Tudo, aliás, em conluio com a família - e, principalmente com a mãe, que ele acusava de estranhas macumbas.
A minha ideia, segundo ele, era apoderar-me de um programa de computador por si inventado e com o qual projectava tornar-se um segundo Bill Gates.
Pensando em tudo, recordando isto, julgo que terá havido, da minha parte, alguma sabedoria instintiva no facto de nunca ter passado as suas teorias à prática, por muito que me fascinassem; e nunca ter sido capaz de não pegar no meu filho ao colo...
- Não se deve fazer isso. Ficam com uma perspectiva completamente distorcida do mundo: centrada neles próprios e vendo tudo e todos de cima para baixo.
Tenho de vos dizer, desculpem, que na altura as palavras de Y, a quem eu devotava uma admiração praticamente ilimitada, faziam para mim muito sentido, como, aliás, todas as suas teorias (Y era um teorizador nato). Neste caso particular, um sentido porventura bizarro e cruel, mas inegável.
Com o tempo, porém, Y passou-se.
Cortou relações comigo e com o resto dos amigos e da família. De mim, dizia que eu o perseguia e o vigiava escondendo-me por trás de caixotes de lixo. Parece que uma vez me terá mesmo visto a espreitá-lo, meio-oculto pelo seu frigorífico. Tudo, aliás, em conluio com a família - e, principalmente com a mãe, que ele acusava de estranhas macumbas.
A minha ideia, segundo ele, era apoderar-me de um programa de computador por si inventado e com o qual projectava tornar-se um segundo Bill Gates.
Pensando em tudo, recordando isto, julgo que terá havido, da minha parte, alguma sabedoria instintiva no facto de nunca ter passado as suas teorias à prática, por muito que me fascinassem; e nunca ter sido capaz de não pegar no meu filho ao colo...
sábado, maio 13, 2006
GRAÇAS E DESGRAÇAS DE UM CÃO DO CARAÇAS (I)
O Dunga veio pequenino para o seio da nossa família: era um rafeiro meigo e lãzudo, com que procurávamos fazer esquecer, ao nosso filho único, então com cinco anos, a monomania de que lhe oferecessemos «um mano».
Quando, cinco anos mais tarde, o segundo filho acabou por nascer - uma menina -, o Dunga ressentiu-se enormemente: experimentou todos os ciúmes e angústias que haviam passado ao lado do Duarte.
Tornou-se briguento, estúpido e mau. Era uma fonte de permanentes desentendimentos: rosnava, chegou a morder, desobedecia sistematicamente, vingava-se dos ralhos e dos castigos fazendo chichi no tapete ou nos cortinados. Passava entre as grades verdes do quintal e fugia de casa.
Agarrados à ideia simplória de que os humanos são mais inteligentes dos que os canídeos, tapámos com uma rede os intervalos entre as grades por onde ele se escapulia. E ainda estávamos a terminar a obra-prima, já eu pensava precipitadamente: Homens: Um - Cães: Zero. Pois bem: o Dunga aprendeu rapidamente a soltar com os dentes as tirinhas que prendiam a rede às grades; abria espaços; continuou, portanto, a fugir.
Esmagávamo-lo sob uma disciplina espartana, ou esforçávamo-nos diligentemente por isso, mas, entretanto, vinha a minha sogra passar connosco aqueles eternos períodos de tempo imóvel e, nas nossas costas, subvertia as regras, furava as proibições, ria-se de nós em óbvia cumplicidade com o cão.
Em virtude de todo este processo, o Dunga degradava-se: mais velhote, hirsuto, sujo, feio e negligenciado, era como se tivéssemos recolhido um sem-abrigo antipático e de mau feitio. Parecia um trapo.
O Duarte já não tinha tempo nem vontade de brincar com ele, a minha mulher andava sempre à beira de um ataque de nervos, pronunciando palavras que me faziam temer seriamente pelo seu equilíbrio psicológico, como: «Ai, se tivesse aqui uma caçadeira...!» Eu, secretamente, começara a odiar o cão.
Em contrapartida, a minha filha, esse novo e central ser que emergira no meio de nós, dedicava ao cão uma atenção muito fixa. Assustava-se com os latidos despropositados em que o Dunga se estava a especializar, mas interessava-se muito por ele e o seu olhar seguia-o com uma uma curiosidade divertida.
O Dunga, pressentindo ali um aliado, nunca tentou fazer-lhe mal. Queria aproximar-se, cheirá-la, lamber-lhe as mãos.
Decidimos, portanto, levá-lo ao veterinário.
Tomou um fabuloso e exigente banho, foi tosquiado e desparasitado: no regresso, parecia outro.
Sem a sua lã negra e desgrenhada, tornava-se um cão magrinho e ágil, de patas finas, uns olhos lindíssimos, finalmente a descoberto, e uma cauda artisticamente aparada.
Quase instantânea e instintivamente, o amor que recalcáramos por tanto tempo desabou de novo sobre ele.
O interesse da minha filha mantém-se muito vivo. E o carinho que espontaneamente rebrotou, fácil, sem custo, fá-lo feliz e acalma-o como um soporífero.
Parece mesmo um final feliz. Claro que, infelizmente, a história continua - não foi por acaso que acrescentei ao título um «I».
Mas, entretanto, pergunto-me: se é este o poder afrodisíaco de uma simples tosquiadela, não estará na altura de eu próprio ir cortar o cabelo?
Quando, cinco anos mais tarde, o segundo filho acabou por nascer - uma menina -, o Dunga ressentiu-se enormemente: experimentou todos os ciúmes e angústias que haviam passado ao lado do Duarte.
Tornou-se briguento, estúpido e mau. Era uma fonte de permanentes desentendimentos: rosnava, chegou a morder, desobedecia sistematicamente, vingava-se dos ralhos e dos castigos fazendo chichi no tapete ou nos cortinados. Passava entre as grades verdes do quintal e fugia de casa.
Agarrados à ideia simplória de que os humanos são mais inteligentes dos que os canídeos, tapámos com uma rede os intervalos entre as grades por onde ele se escapulia. E ainda estávamos a terminar a obra-prima, já eu pensava precipitadamente: Homens: Um - Cães: Zero. Pois bem: o Dunga aprendeu rapidamente a soltar com os dentes as tirinhas que prendiam a rede às grades; abria espaços; continuou, portanto, a fugir.
Esmagávamo-lo sob uma disciplina espartana, ou esforçávamo-nos diligentemente por isso, mas, entretanto, vinha a minha sogra passar connosco aqueles eternos períodos de tempo imóvel e, nas nossas costas, subvertia as regras, furava as proibições, ria-se de nós em óbvia cumplicidade com o cão.
Em virtude de todo este processo, o Dunga degradava-se: mais velhote, hirsuto, sujo, feio e negligenciado, era como se tivéssemos recolhido um sem-abrigo antipático e de mau feitio. Parecia um trapo.
O Duarte já não tinha tempo nem vontade de brincar com ele, a minha mulher andava sempre à beira de um ataque de nervos, pronunciando palavras que me faziam temer seriamente pelo seu equilíbrio psicológico, como: «Ai, se tivesse aqui uma caçadeira...!» Eu, secretamente, começara a odiar o cão.
Em contrapartida, a minha filha, esse novo e central ser que emergira no meio de nós, dedicava ao cão uma atenção muito fixa. Assustava-se com os latidos despropositados em que o Dunga se estava a especializar, mas interessava-se muito por ele e o seu olhar seguia-o com uma uma curiosidade divertida.
O Dunga, pressentindo ali um aliado, nunca tentou fazer-lhe mal. Queria aproximar-se, cheirá-la, lamber-lhe as mãos.
Decidimos, portanto, levá-lo ao veterinário.
Tomou um fabuloso e exigente banho, foi tosquiado e desparasitado: no regresso, parecia outro.
Sem a sua lã negra e desgrenhada, tornava-se um cão magrinho e ágil, de patas finas, uns olhos lindíssimos, finalmente a descoberto, e uma cauda artisticamente aparada.
Quase instantânea e instintivamente, o amor que recalcáramos por tanto tempo desabou de novo sobre ele.
O interesse da minha filha mantém-se muito vivo. E o carinho que espontaneamente rebrotou, fácil, sem custo, fá-lo feliz e acalma-o como um soporífero.
Parece mesmo um final feliz. Claro que, infelizmente, a história continua - não foi por acaso que acrescentei ao título um «I».
Mas, entretanto, pergunto-me: se é este o poder afrodisíaco de uma simples tosquiadela, não estará na altura de eu próprio ir cortar o cabelo?
quinta-feira, maio 11, 2006
SOBRE O QUE AJUDA E O QUE DESAJUDA
O melhor que pode acontecer a um pensar em formação é deparar, no seu percurso, com um pensar mais forte - suficientemente forte para não desejar dominá-lo, rigoroso, crítico, exigente; o pior que lhe acontecerá, será encontrar e depender de um pensar fraco - tão fraco que anseie por dominá-lo -, superficial e benevolente.
segunda-feira, maio 08, 2006
O QUE NÃO VOLTA MAIS
Compreendo que me tornei, por fim, um homem, no momento em que encontro no sótão poeirento uma banda desenhada da Mafaldinha, corro para a sala para aproveitar o parco tempo que ainda me resta a sós em casa, deliciado, saudoso das personagens que me fizeram rir, e vou passando as páginas, à procura do Manelinho, da Susaninha, do Filipe, da Liberdade - cada vez mais cabisbaixo, esmorecido, voltando ainda atrás, esforçando para mim mesmo um pouco convincente sorriso, ou um sopro que não chega a conseguir passar por riso. Não foi a Mafaldinha que envelheceu: fui eu. Não foi o humor dela que se perdeu: foi o meu que se transformou.
Porque a Mafalda, aliás, a própria, nunca teve sentido de humor. Ríamo-nos das suas afirmações, da sua indignação em face das injustiças,mas a verdade é que nada, nela, era pensado ou dito com o intuito de ter graça. A piada residia precisamente nesse pormenor: a Mafaldinha via realmente o mundo assim, interrogava-o com veemência crítica. De certo modo, não nos ríamos com ela, mas à custa dela e do seu desajustamento de criança precoce num mundo estupidamente adulto.
O que descubro agora é que me enganei em relação a quase todos os meus heróis de adolescência. Por que raio gostava eu tanto do Bip-bip e me solidarizava com ele contra o coiote - quando, hoje, percebo que o Bip-bip é a simples encarnação da velocidade estúpida ou da estupidez veloz, uma ave rápida e sem outros dotes, que leva, contudo, sempre a melhor, sabe-se lá porquê, enquanto o coiote que, esse sim, é o protótipo do engenho e da astúcia, talvez mesmo da inteligência, ou de um magnífico maquiavelismo cheio de recursos, que se multiplica em planos, persistentemente, está destinado a cair de precipícios, a chocar com muros, a ver as suas bombas explodirem-lhe nas patas ou a apanhar com bigornas em cima..?
Hoje, claramente, estaria do lado do coiote. Ao mesmo tempo, reconheço que, sem a inocência que me fazia estar torcendo incondicionalmente pelo mais fraco, pela presa, as histórias fazem-me sentir levemente culpabilizado.
Também no Incrível Hulk tudo se tornou demasiado claro. O que eu apreciava na personagem era uma ambiguidade moral que nunca consegui desvendar e, de certo modo, me fascinava. O Hulk era bom ou era mau? Esta pergunta incómoda, que perturbava a minha natural necessidade de uma clareza maniqueista, trazia um leve travo de angústia. E, no entanto, tratava-se de uma angústia que me abria portas e me fascinava: se ele era bom (e devia ser: estávamos a falar da personagem principal), por que razão o perseguiam os polícias, às vezes o próprio exército? Tinha feito mal a alguém? Este sabor a confusão apaixonava-me. Hoje compreendo o Hulk; mais: compreendo que raramente os polícias e o exército constituem o lado «bom» de uma sociedade. Faz sentido. Mas sem o seu mistério intrínseco, o Hulk nunca mais me pareceu incrível.
Um adulto incapaz de regressar, por um momento que seja, aos heróis infanto-juvenis, e que até usa esta detestável expressão para se lhes referir, é um adulto defraudado.
Um adulto que perdeu de vista um tal segredo está prestes a tornar-se um tipo cinzento.
Um adulto que analisa tudo e olha cerebral e crescidamente para o Homem-Aranha, e que nunca mais voltou a querer ser o Batman, é um adulto que desperdiçou a sua infância.
Porque a Mafalda, aliás, a própria, nunca teve sentido de humor. Ríamo-nos das suas afirmações, da sua indignação em face das injustiças,mas a verdade é que nada, nela, era pensado ou dito com o intuito de ter graça. A piada residia precisamente nesse pormenor: a Mafaldinha via realmente o mundo assim, interrogava-o com veemência crítica. De certo modo, não nos ríamos com ela, mas à custa dela e do seu desajustamento de criança precoce num mundo estupidamente adulto.
O que descubro agora é que me enganei em relação a quase todos os meus heróis de adolescência. Por que raio gostava eu tanto do Bip-bip e me solidarizava com ele contra o coiote - quando, hoje, percebo que o Bip-bip é a simples encarnação da velocidade estúpida ou da estupidez veloz, uma ave rápida e sem outros dotes, que leva, contudo, sempre a melhor, sabe-se lá porquê, enquanto o coiote que, esse sim, é o protótipo do engenho e da astúcia, talvez mesmo da inteligência, ou de um magnífico maquiavelismo cheio de recursos, que se multiplica em planos, persistentemente, está destinado a cair de precipícios, a chocar com muros, a ver as suas bombas explodirem-lhe nas patas ou a apanhar com bigornas em cima..?
Hoje, claramente, estaria do lado do coiote. Ao mesmo tempo, reconheço que, sem a inocência que me fazia estar torcendo incondicionalmente pelo mais fraco, pela presa, as histórias fazem-me sentir levemente culpabilizado.
Também no Incrível Hulk tudo se tornou demasiado claro. O que eu apreciava na personagem era uma ambiguidade moral que nunca consegui desvendar e, de certo modo, me fascinava. O Hulk era bom ou era mau? Esta pergunta incómoda, que perturbava a minha natural necessidade de uma clareza maniqueista, trazia um leve travo de angústia. E, no entanto, tratava-se de uma angústia que me abria portas e me fascinava: se ele era bom (e devia ser: estávamos a falar da personagem principal), por que razão o perseguiam os polícias, às vezes o próprio exército? Tinha feito mal a alguém? Este sabor a confusão apaixonava-me. Hoje compreendo o Hulk; mais: compreendo que raramente os polícias e o exército constituem o lado «bom» de uma sociedade. Faz sentido. Mas sem o seu mistério intrínseco, o Hulk nunca mais me pareceu incrível.
Um adulto incapaz de regressar, por um momento que seja, aos heróis infanto-juvenis, e que até usa esta detestável expressão para se lhes referir, é um adulto defraudado.
Um adulto que perdeu de vista um tal segredo está prestes a tornar-se um tipo cinzento.
Um adulto que analisa tudo e olha cerebral e crescidamente para o Homem-Aranha, e que nunca mais voltou a querer ser o Batman, é um adulto que desperdiçou a sua infância.
domingo, maio 07, 2006
À ESPERA DE AJUDA MASCULINA
Mariana, que não conseguira adormecer por causa de uma sensação de desequilíbrio que não chegava a ser enjoo - a cabeça como se não tivesse corpo, o corpo como se não pudesse distinguir entre estar de pé e estar deitado -, soergueu-se repentinamente na cama, suando muito, como se a alma se quisesse despegar-se-lhe da carne, como se preferisse morrer de uma vez ao sacrifício de uma existência que se confundia com a má-disposição. Ou vomito ou morro, pensou. Ou vomito ou morro. Levantou-se. Correu, descalça, pelo corredor, até à casa de banho. Caiu ao pé da sanita, procurando, com as mãos, o frio do azulejo. Suava tanto. Sentia-se tão mal, tão mal, tão farta de ainda estar viva. Mas não vomitava. Percebeu que a sua ladainha, Ou vomito ou morro, ou vomito ou morro, se tornara inteiramente certa, um princípio religioso. Tenho de vomitar.
Ajoelhou-se, com as pernas a tremer, uma horrorosa fraqueza no corpo, uma fadiga que era o seu único motor vital, ou quase: o verdadeiro motor era a vontade de vomitar.
Baixou-se sobre a sanita. Pairou, como um corpo esvaído.
Introduziu um dedo na boca para forçar a erupção. Mais fundo. Mais. Engasgava-se, mas não mais do que isso.
Bruscamente, coitada, Mariana sentiu que algo, uma força, a empurrava por dentro de si, do estômago até à boca, cada vez mais decidida - um sobressalto, um rompante, uma dor nos músculos, um mal profundo e, sem chegar ao alívio, porque o esforço era enorme e se sobrepunha a tudo, ela vomitou.
Gritava como se parisse.
Uivava.
Estava só. Profundamente só. Não tinha pausas. Logo que uma primeira descarga tinha fim, chegava-lhe outra fúria das entranhas.
Gritava.
Até que ouviu, aí sim, pela primeira vez aliviada, entre os seus próprios urros e estertores, os passos do João, que se aproximava no corredor.
João ia ajudá-la. Segurar-lhe na cabeça que lhe doía. Apoiá-la, confortá-la. «Minha querida, minha querida». Anda, João, despacha-te, não vês que eu estou morrendo? Não vês? Anda, João. Parecia-lhe que o homem demorava uma eternidade a chegar. Ajoelhada, com a boca sobre o buraco da sanita, olhava, atenta, ansiosa, para a porta.
João chegou. Estava à porta. Querido João.
João disse-lhe, ensonado:
- Olha, meu amor, assim não consigo dormir. Amanhã tenho de acordar muito cedo. Vou fechar a porta da casa de banho por causa do barulho, está bem?
Fechou-a.
E regressou ao leito.
Ajoelhou-se, com as pernas a tremer, uma horrorosa fraqueza no corpo, uma fadiga que era o seu único motor vital, ou quase: o verdadeiro motor era a vontade de vomitar.
Baixou-se sobre a sanita. Pairou, como um corpo esvaído.
Introduziu um dedo na boca para forçar a erupção. Mais fundo. Mais. Engasgava-se, mas não mais do que isso.
Bruscamente, coitada, Mariana sentiu que algo, uma força, a empurrava por dentro de si, do estômago até à boca, cada vez mais decidida - um sobressalto, um rompante, uma dor nos músculos, um mal profundo e, sem chegar ao alívio, porque o esforço era enorme e se sobrepunha a tudo, ela vomitou.
Gritava como se parisse.
Uivava.
Estava só. Profundamente só. Não tinha pausas. Logo que uma primeira descarga tinha fim, chegava-lhe outra fúria das entranhas.
Gritava.
Até que ouviu, aí sim, pela primeira vez aliviada, entre os seus próprios urros e estertores, os passos do João, que se aproximava no corredor.
João ia ajudá-la. Segurar-lhe na cabeça que lhe doía. Apoiá-la, confortá-la. «Minha querida, minha querida». Anda, João, despacha-te, não vês que eu estou morrendo? Não vês? Anda, João. Parecia-lhe que o homem demorava uma eternidade a chegar. Ajoelhada, com a boca sobre o buraco da sanita, olhava, atenta, ansiosa, para a porta.
João chegou. Estava à porta. Querido João.
João disse-lhe, ensonado:
- Olha, meu amor, assim não consigo dormir. Amanhã tenho de acordar muito cedo. Vou fechar a porta da casa de banho por causa do barulho, está bem?
Fechou-a.
E regressou ao leito.
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