sexta-feira, janeiro 26, 2007

COISAS SÉRIAS E COISAS AINDA MAIS SÉRIAS

Não sei o que vos dirá acerca da minha maturidade e da forma como envergo a roupa de adulto, a confissão de que trato algumas das minhas amigas por «Lara Croft», «Mulher Elástica» ou «Rainha de Inglaterra». Na verdade, se me perguntarem, de repente, qual o verdadeiro nome de cada uma delas, posso embatucar. Verdadeiro nome!? Então elas não são «Lara Croft», «Mulher Elástica», «Rainha de Inglaterra»?

Mas algo de muito sério perpassa no grupo, quando nos reunimos. Mais sério ainda do que as teatradas, com perucas e óculos, à mesa do restaurante, mais sério do que as gargalhadas filtradas pelo tinto, tão sério como a «Lara Croft» me ter surpreendido com a afirmação de que os meus textos transmitem um espírito muito forte na reacção ao azar e à tristeza. Embatuco novamente. É um elogio que me esmaga. A que sou, por uma vez, incapaz de reagir.

Tão sério como isso? Que será? Silêncio absoluto. Pela minha boca não saberão que «Lara Croft» está em missão, às ordens da «Rainha de Inglaterra». Não. Não é por mim que o saberão.

sábado, janeiro 13, 2007

A FUGA

Miguel choramingava, enquanto ia enfiando num lenço vermelho alguns dos seus pertences: uma camisola, um par de cuecas, um de peúgas, cinco carrinhos que a avó lhe oferecera e os cromos dos lutadores de wresteling.
O pai estava furioso: era terrível de se ver, àquela hora da manhã, em roupão, com a barba a despontar como picos de um cacto, o cabelo revolto, um pé enfiado numa pantufa, outro descalço desde que, algures, muitos meses atrás, perdera a segunda pantufa.
A mãe estava zangada, falando muito depressa, à esquina de um ataque de nervos, levantando muito os braços, em camisa de noite mas, curiosamente, cheirando já a perfume.
E a razão de tanta zanga resumia-se a isto: Miguel não tinha fome de manhã. Queriam dar-lhe flocos, mas enjoara-se de todos os tipos de flocos - nem os chocapics, nem os nesquiks, nem as estrelitas, nem os chocolocos, nem os nogat's pillows... Leite simples não tinha graça. Pão, nem pensar. Poderia apetecer-lhe outra coisa, com boa vontade - mas tudo o que lhe poderia apetecer dava trabalho, confusão, exigia uma demorada fabricação: sumo de laranja, papinha de banana e kiwi esmagados minuciosamente com um garfo sobre o prato, maçã ralada com bolacha Maria esmigalhadinha...
O pai argumentava. Primeiro, com toda a calma. Fornecia alternativas. A mãe procurava na despensa. Nada! Miguel parava diante do frigorífico aberto. O pai esgotava a paciência. A mãe percorria a casa de um lado para o outro, desorientada, asmática, triste.
- Come qualquer coisa, Miguel! Qualquer coisa normal! Como os outros meninos!!! Todas as crianças comem pães, comem... comem... comem...
As vozes levantavam-se. A altercação instalava-se, vinha para ficar, os vizinhos ouviam gritos e desapareciam das respectivas próprias casas, ou escondiam-se no mais recôndito delas, um pouco temerosos. Miguel chorava. Não queria. Nada lhe interessava, a não ser...!
O pai entrava, por fim, no capítulo dos disparates. Que estava farto dele. Que ele ia ser responsável pela sua morte. Que a tensão vinha disparando... Pudera!!!
A mãe fechava-se na casa de banho.
Mandavam-no, pois, de castigo para o quarto. Não sairia enquanto não viesse com a disposição de comer qualquer coisa normal... pouco, podia até ser pouco, umas colheradas, umas goladas mas, sobretudo, qualquer coisa «normal».

No quarto, tomada a decisão, preparada a sua trouxa, saiu pela janela. Era um infeliz. Mas a vida esperava por ele, saturada dessa felicidade que os pais lhe negavam sistematicamente, pronta a abraçá-lo com centenas de aventuras e descobertas. Ainda haveria piratas? O pai costumava responder-lhe: «Há, se há! Cada vez mais, filho!» - talvez o aceitassem...? Ou infiltrar-se-ia clandestinamente? Terras por descobrir, mulheres por amar! A Teresinha iria ter saudades dele? E lembrando-se de Tereseninha, por quem se apaixonara destravadamente mas que, alertada por um terceiro, lhe fora dizer, cheia de sardas, mais bonita do que nunca, «Olha, Miguel, vamos ser só amigos, tá bem?» - lembrando-se dela, não aguentou mais e desatou a chorar com lágrimas grossas. Sentia-se triste, sentia fúria, estava pronto a revoltar-se com o mundo inteiro, a tornar-se muçulmano, pilotando aviões contra prédios, sentia uma melncolia no peito, ou na barriga, sentia... o quê, fome!?

Regressou a casa.
Pôs leite na sua caneca, encheu-a de flocos. Comeu. Partiria depois...

A MÁQUINA

Estava Lebranche do meu lado direito, Slovsky do meu lado esquerdo.
Lebranche, a quem chamávamos o anticartesiano metódico, era um homem alto e esguio, com um nariz abatatado e um queixo sumido, praticamente inexistente, que fazia da dúvida um incitamento para a descoberta da verdade, mas por um caminho oposto ao de Descartes. Argumentava ele: «Pá, aquilo de que se duvida é, no fundo, aquilo que poderia muito bem ser. E num mundo de contrariedades e de frustrações, isto é, em que quase tudo me parece impossível (e cada vez mais impossível à medida que envelheço), que haja ainda coisas possíveis, de que até podemos duvidar, mas que são, por isso mesmo, possíveis... torna-as quase verdadeiras. Eis a minha filosofia toda numa simples frase: o duvidoso é quase sempre verdadeiro!»
Slovsky, por outro lado, era um céptico. Mais: tratava-se do pior tipo de céptico. O céptico trocista. Baixinho, careca, com uns óculos redondos, de aros dourados, não refutava, não rebatia. Encolhia os ombros, com um sorriso torto, que nos esmagava mais rapidamente do que toneladas de argumentos.
E diante de nós estava o Engenheiro, a que não me referirei, aqui, senão pela sua inicial: K.

K. esperava-nos, sentado sobre o que me parecia uma sanita com um volante. «Grande invenção», segredou o temível Slovsky. «Se vamos a andar de carro e nos dá uma súbita vontade de evacuar...»
Nem eu nem Lebranche rimos. K. olhava-nos, com um sorriso contido e pacífico.
- Então, isso é que é a máquina do tempo? - perguntei, curioso.
- Isto é que é a máquina do tempo - respondeu, sem desfazer a tranquilidade. - Anos de estudo, de investigação...
- ... para atingir uma sanita volante! - resmungou Slovsky.
- E como se procede, senhor Engenheiro?

E, aí, aconteceu a tragédia. K. ligou um interruptor, uma faisca rasgou o ar, houve um monumental barulho, que nos assustou - a mim e a Lebranche, porque Slovsky ainda perguntou: «Será o autoclismo?» -, e, quando menos esperávamos, o sistema pegava fogo. As labaredas lambiam o tapete, o cortinado, ouvia-se o ruído aflitivo da madeira a transformar-se em carvão. Slovsky sentou-se numa das cadeiras, talvez a única, que não era pasto do incêndio. Eu e Lebranche corremos para a cozinha, tentando encher os nossos chapéus com água que, a seguir, vertíamos sobre o fogo. Era já muito tarde. Foi Slovsky que, no meio da confusão, se lembrou de telefonar aos bombeiros.

Assisti, mais tarde, a este diálogo entre os meus dois amigos:

S: As sanitas podem ser muito perigosas.
L: Não acreditas que tivessemos estado perante a máquina do tempo?
S: Só no sentido em que, para certas pessoas, a sanita é um local onde se passa muito tempo. Levam revistas, refugiam-se do mundo... E no futuro, quando descobrirem as sanitas, hão-de perguntar-se a que espécie de Deus dedicávamos aquele santuário...
L: Pois eu, pelo contrário, estou convencido que o Engenheiro tinha descoberto uma máquina que nos levaria ao futuro.
S: Duvido muito.
L: Mas era possível, não era? Era possível, não era? Responde-me só: era uma possiblidade...?
S: Bem...!
L: Ora aí está. É a prova que me basta: aquilo era mesmo a máquina do tempo.

Eu não sei. Aprendi a desconfiar das aparências. E pergunto-me o que poderia realmente ocultar-se sob a aparência um pouco ridícula de uma sanita com um volante.

terça-feira, janeiro 09, 2007

ASSUMIR A ESCOLHA SIGNIFICA: NÃO SIMPLIFICÁ-LA

A verdade é sempre revolucionária, asseverava Gramsci. Não sei se o é. Sou, aliás, tão mais limitado, que começo por não saber o que seja «a verdade». Às vezes, permito-me desconfiar que esteja ao meu alcance; permito-me farejá-la: percebo, suspeito que não andará longe. Mas, imediatamente a seguir, posso duvidar. Não metodicamente - não há, nesta dúvida, razões de método, só mesmo uma tremenda insegurança...

Agora, custa-me, isso sim, que a «minha» verdade - ainda que momentânea - tenha de ser rodeada, ou retocada, ou calada, em nome seja do que for. Em nome de razões políticas, de virtude, de correcção ou de oportunidade. Detesto as razões de oportunidade ou conveniência. Detesto que argumentem: «Talvez até seja verdade, mas este não é o momento certo para a divulgar, para a mencionar sequer...!»

É o caso. Eu, que vou votar «Sim» neste referendo, eu, que já fiz mesmo um aborto - na medida em que partilho inteira e completamente a responsabilidade do aborto decidido e feito, em conjunto, pela mulher que engravidei e por mim próprio -, eu, que seria de uma hipocrisia sem precedentes se me abstivesse e ficasse a assobiar para o lado, não posso deixar, contudo, de expor a «minha» verdade: e a «minha» verdade é que me dói e custa, como talvez nenhum outro, a assunção deste acto, desta cruz que irei marcar no boletim.

Não tenho escolha: eu que abortei porque não poderia não ter abortado, que conheço as razões por que o fazem milhares de mulheres, e as circunstâncias em que o fazem, eu que não aceito - nem posso aceitar - que as persigam e punam por essa escolha tantas vezes trágica, não posso deixar de levar coerentemente a minha solidariedade até ao limite. Mas não me queiram convencer de que não faz mal; não me queiram convencer de que é outra coisa que não o mal menor - sendo que o mal menor, naturalmente, não é um bem: é, ainda, um mal. Não me queiram fazer esquecer que estou a lidar com a vida. Com vidas. Nem queiram reduzir a vida fetal a uma não-vida. Não me digam que o aborto não é, na melhor das hipóteses, um défice civilizacional e um défice moral. (Como o é - de um modo pior, e mais grave -, uma lei que não permita essa escolha, como se a escolha não fosse, em si mesma, complexa e terrível).

Não queiram simplificar as coisas, porque não seria digno. Nem sério.

Será que eu não devia afirmá-lo «agora»? Que, sobretudo, não neste momento? Que Devia fazê-lo só depois do referendo? Ah! Mas não consigo ser maniqueista. Nem fingir que o sou por razões de conveniência. Vou votar «Sim». Mas este voto a que não tenho o direito de fugir, por razões morais, precisamente, é um voto que me dilacera. Por razões morais, também: precisamente.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

REGRAS KAOSTICAS CONTRA O CÁLCULO DE PROBABILIDADES

1. Entre os professores, como em todas as profissões, há bons e maus profissionais

2. Em regra, os maus são os professores dos nossos filhos

3. A mesma regra se aplica, mutatis mutandis, às mulheres-a-dias. No caso, deverá ser enunciada como se segue: «Há, certamente, mulheres-a-dias que fazem um bom trabalho e mulheres-a-dias que fazem um mau trabalho. Em minha casa nunca entrou uma mulher-a-dias da primeira categoria».

4. Estas regras podem parecer triviais. Mesmo patetas. O seu alcance, porém, é assombroso: se repararem bem, elas vêm pôr completamente em causa a credibilidade e a serventia do cálculo de probabilidades...

5. Ou seja: na sua aparente simplicidade, preparam uma revolução qualquer no estádio do conhecimento humano.

domingo, dezembro 24, 2006

SIMPLESMENTE UM CONTO SACRÍLEGO

1.
Deus Pai Todo Poderoso tinha um gnomo, seu braço direito, que o ajudava diligentemente. A razão pela qual se não fala, hoje, desse apoio é esta: a mais simples referência a ele foi completa e sucessivamente expurgada, suprimida de todos os textos sagrados. Tomás de Aquino, chamado «O Boi», perguntava-se, a esse propósito, eloquententemente: «Por que haveria Deus, O Todo Poderoso, de carecer de um ajudante? E porquê um anão? Por que não um gigante?» [Summa Theologica, 6-3]

2.
O trabalho do gnomo de Deus era monótono e, francamente, o pobre ser ressentia-se muito disso, dessa sua tarefa que consistia em garantir, antes ainda de serem depositadas nos corpos, que determinadas almas afins haveriam, depois, de se encontrar: estavam, digamos, predestinadas umas às outras; a virem a ligar-se, mais tarde, na vida terrena, por laços de afecto diverso: estes dois iriam amar-se, aqueles outros iriam ser amigos para a vida, outros mais, mestre e aprendiz, ou professor e aluno, ou...

3.
Trabalho importante, mas tão cansativo!
O gnomo de Deus tinha pouco tempo vago ao longo da longa eternidade. Porém, devido a uma curiosidade insana, pouco cristã, semelhante à que viria a perder Adão e Eva, o pequeno espírito aproveitava as suas horas vagas para ler a obra completa de Lucifer, que lhe havia sido recomendada pela alma, ao tempo ainda descarnada, de Pacheco Pereira. A obra completa de Lucifer era tremenda, terrível, temível. Escrevia Lucifer, a dado passo: «Eu não simbolizo o Mal, mas, simplesmente, um ponto de vista diferente. Por que diabo há-de ser tão custoso a Deus admitir que haja outros pontos de vista para além do seu??? Que intolerância!» E, noutro passo: «É fundamental que se entenda que, sob o colorido do Céu, que a todos atrai, existem operários que se dedicam a um trabalho ingrato, monótono, que nunca é compensado a não ser em harmonia celeste: por outras palavras, o único salário dos trabalhadores de Deus, é que Deus não se zangue com eles. A pretexto de que são puros espíritos, não têm necessidades nem carências de ordem alguma, nada mais se lhes paga».

4.
Quanto mais o gnomo lia, nas horas vagas, aquelas páginas incendiárias, carregadas de uma fúria rebelde, mais a sua situação lhe parecia injusta, mais o seu Patrão lhe parecia gozar de um prestígio imerecido, mais lhe apetecia contrariá-lo, defraudá-lo, desobedecer-lhe, desencadear a luta de classes...

5.
Ah, mas tinha medo. Muito medo.

6.
Até que um dia, mergulhado nas suas cogitações revolucionárias, por engano, por puro engano, por mero acidente, destinou para um encontro para toda a vida terrestre duas almas incompatíveis, completamente avessas. Primeiro, ficou aflito. Quis corrigir, contudo era tarde. Prevenir Deus, porém não teve coragem. Mas, curiosamente, percebeu que o erro passava. Que nem Deus, o próprio Deus, o Grande Deus, se apercebia...

7.
Então repetiu, agora deliberadamente, imperdoavelmente, o mesmo tipo de erro. Sempre impunemente. E mais uma vez, e outra, satisfeito consigo mesmo, sentindo correr-lhe nas veias espirituais um sangue de vingança: semeava conflitos, preparava para se encontrarem e juntarem para sempre naturezas opostas, seres que nunca se compreenderiam, laços de ódio e de conflito.

8.
Desse momento em diante, era já muito tarde para reverter o que quer que fosse. Almas fabricadas para se predestinarem, nunca se encontrariam. Em contrapartida, pessoas que só por humor negro poderiam viver juntas, essas, juntavam-se sob o mesmo tecto, completamente iludidas, rapidamente desiludidas, procriando, em constante guerrilha, filhos que, depois, odiavam, que os odiavam...

9.
Algures, noutra parte, impossível de vir a ser encontrada por cada um, o seu par, o seu verdadeiro par, o seu encaixe (o professor que o entusiasmaria, o amigo que o compreenderia...) - vivia uma vida impossível, encaixado, por sua vez, em alguém que odiava e a quem odiava.

10.
Esta é a verdade. Entretanto, por quanto tempo vos parece que se poderia enganar Deus Pai Todo Poderoso? A fraude do gnomo foi descoberta. O gnomo foi lançado no inferno, onde arde juntamente com Marx, Freud, Nietzsche, Darwin e outros.

11.
Deus trabalha, hoje, sozinho. Nunca mais aceitou braços direitos. Tudo indica, porém que, quanto mais não seja por piada ou, então, porque a burocracia se instalou irreversivelmente, continue a baralhar as peças, a promover encontros falsos, impossíveis, e a semear ligações perigosas!

sábado, dezembro 23, 2006

AS BOAS SURPRESAS SÃO SEMPRE POSSÍVEIS

Para mim, que sou um imparável leitor e um constante re-leitor de Eça de Queirós, com quem tenho querido aprender a ironia, o humor, a escrita até, foi um momento saturado de melancolia, talvez de angústia, aquele em que descobri que o esgotara. Isto é: que poderia continuar a relê-lo, que iria certamente relê-lo pela vida fora, mas, morto que estava o escritor, completada que estava a obra, não me tornaria a ser dado o prazer de abrir pela primeira vez mais algum livro da sua autoria.

E era com nostalgia que me recordava de como, há uns quantos anos, quando já pensava tê-lo esgotado (quando senti esse primeiro baque), viria a descobrir, com uma surpresa encantada, que, afinal, nunca tinha lido, vá-se lá saber porquê, um seu texto fundamental: nada mais nada menos do que o delicioso A Capital.

Lembro-me da alegria com que o comprei na fnac, a impaciência com que corri para casa com ele num saco cor-de-laranja, o leve receio da desilusão, o gosto com que me detive na capa trivial, igual a todas as capas da sua obra, a tremente curiosidade com que fui mergulhando, passando as páginas, soltando-me do nervosismo, fruindo, reencontrando o meu Eça de sempre...

Mas, para uma suspresa dessas, não há bis. Era já bem bom que me tivesse caído do céu essa breve suspensão do destino, esse admirável adiamento do fecho. Lido A Capital, agora sim, esgotara realmente o meu querido autor...

Isto, se não mencionar, claro, um outro texto seu, que nunca me interessara, que me tinham oferecido há uns Natais mas eu nunca quisera sequer iniciar: A Tragédia da Rua das Flores, de que tão mal ouvira falar. Que era um rascunho, um borrão, uma coisa menoríssima, com repetições, contradições, personagens cujo nome não se conserva ao longo das páginas, absurdos vários!

Foi só por descargo de consciência, ou em busca de um substituto, mesmo menor, para um vício arreigado, que, por estes dias, me debrucei, contudo, sobre a «Tragédia». E, caramba, não faço mais suspense - lá estava o Eça: sob as debilidades de uma obra que o autor não levara muito a sério, que deixara para trás, ao abandono, enjeitada, ali se erguia e brilhava, e se ergue!, e brilha!, tudo o que nele me entusiasma, me apura o espírito crítico, me afina o sarcasmo.

Ando, pois, a ler, repimpadíssimo, como diria o próprio Eça, A Tragédia da Rua das Flores.

Este post pode servir para uma ou duas coisas: a) aconselhá-lo vivamente a quem tenha passado pela mesma nostalgia de «haver esgotado um autor que já não volta a escrever», a quem, por coincidência, este livro passasse, também, ao lado; b) acrescentar, como nota natalícia, este optimismo moral: às vezes, por impossível que pareça, mesmo o prazer que não voltará de certeza, pode voltar... (e, até, mais do que uma vez!)

Bom Natal!

sexta-feira, dezembro 22, 2006

UM REGULAMENTO INTERNO A PENSAR NAQUILO COM QUE SE COMPRAM OS MELÕES

A minha filha, pobre garota, anda num infantário. Para que não subsistam dúvidas, escrevo-lhe já o nome: Colégio D. João de Castro.
O Colégio D. João de Castro tem um Regulamento Interno, o que é louvável.
Do Regulamento Interno do Colégio D. João de Castro, respigo uns quantos excertos:

«A todas as crianças que permaneçam no Colégio após a hora do fecho, será cobrado o valor de 10 Euros diários, por cada fracção de quinze minutos, de prolongamento.»

«Os Passeios e Colónia têm carácter obrigatório, pelo seu acentuado valor pedagógico [nem nos passava pela cabeça que fosse por outra razão], estão integrados no Plano Anual de Actividades e serão avisados com 8 dias de atecedência, o seu pagamento terá que ser feito na respectiva sala ou secretaria. As crianças que não forem aos Passeios ou Colónia não poderão frequentar o Colégio. A colónia [repentinamente com minúscula] realiza-se na 2ª quinzena de Junho e terá um custo de 75 euros [agora com minúscula, também]»

«Os pagamentos das mensalidades devem ser efectuados na secretaria ou na sala por adiantado, entre os dias 28 e 5 de cada mês. Após o prazo estipulado será cobrada uma taxa diária de 10 euros.»

«Todos os Encarregados de Educação estão obrigados ao pagamento de 12 mensalidades, no valor de 285 euros, quer o aluno frequente ou não o Colégio [como???], com a excepção do berçário [de onde expulsaram rapidamente a minha filha, com catorze meses] que poderá optar pela mensalidade sem alimentação, no valor de 255 euros, sendo o mês de Agosto repartido pelos meses de Outubro, Novembro, Dezembro, no valor de 95 euros.»

«Só serão aceites desistências com aviso prévio de um mês, sem o que terá que pagar a próxima mensalidade. Não serão aceites desistências a partir do mês de Maio inclusivé.»

«A Inscrição/Renovação e Seguro serão pagos e não serão devolvidos em caso algum. O seguro [bruscamente, com minúscula] é pago em Setembro e a renovação em Março, às crianças que não renovam a matrícula, é cobrado oo mês de Julho fraccionado pelos meses de Abril e Maio.»

«Será cobrado trimestralmente o valor de 15 euros para desgaste de material didáctico, nos meses de Outubro, Janeiro, Abril.»

«As desistências dos Passeios e Colónias de férias depois de pagos não serão reemblsados em caso algum [ou seja, mais vale não pagar!]»

«O uso da farda, bibe e chapéu são obrigatórios, de uso diário e custeados pelos pais [que os deverão comprar no «Corte Inglês»]

«Todas as crianças poderão ter uma falta mensal de fardamento [obrigado, obrigado, obrigado!], quando ultrapassada essa falta, poderá a direcção do Colégio vestir a peça em falta e debitá-la no recibo do mês seguinte.»

Nunca vi um Regulamento Interno assim. Nunca nenhum documento me pareceu tão óbvio na intenção exclusiva de planear a mínima forma de fazer dinheiro. Sobretudo, não me lembro de haver lido algum outro conjunto de regras de um estabelecimento de educação de crianças, privado ou público, que assumisse, tão escandalosamente, essa exclusiva inclinação economicista.

Poderão perguntar-me: Por que mantém então o senhor, que está assim tão zangado, a sua filha neste colégio?

Como essa pergunta só poderia ser-me dirigida por parte de quem não tem crianças em infantários, nem faz a menor ideia da luta vã por uma vaga, eu escuso-me de responder. Não iriam acreditar em mim.

sábado, dezembro 02, 2006

A CADERNETA ESCOLAR

Existe, até ao 9º ano, uma instituição que deveria garantir a ligação entre os professores e os encarregados de educação, que é a caderneta.
A caderneta, como não poderia deixar de escrever se isto fosse uma redacção virtuosa, é muito útil; tal como a vaca nos dá o leite, a caderneta permite-nos acompanhar de perto o desempenho dos nossos filhos, de forma a que os possamos corrigir e ajudar...

Sejamos sérios: a caderneta funciona, pelo que tenho visto, como uma espécie de bode expiatório, isto é, uma forma de os professores (os mesmos que detestam sentir os pais demasiado próximos, vasculhando e vigiando), poderem, de vez em quando, atirar-lhes com as culpas da sua própria incompetência: «O Manuel não tem feito os trabalhos de casa», «O João anda muito desatento e conversador nas aulas», «O Paulo deverá estudar», ou aquela pérola, pela mão do professor de EVT do meu próprio rebento, «Fulano tem tido atitudes impropriadas nas aulas». Impropriadas, escreve-me o professor do meu filho - ao que me apetecia responder: Bolas! Mesmo tratando-se de um professor de EVT... (no que estaria sendo injusto e preconceituoso).

Sabemos que os pais podem e devem acompanhar os filhos no seu trabalho de casa, como sabemos que nem sempre isso é possível porque, desde pais que não têm habilitação para o efeito até aos que não têm tempo, a situação dos alunos nem sempre pode ser solucionada em casa. Não querem os professores preservar a sua independência? Não se queixam de que os pais não são aptos para os avaliarem? Então porque recorrem tão frequentemente a eles e, aqui é que bate o ponto, tão arrogantemente, como quem lhes diz: Já viu bem a prenda que produziu? Veja lá se consegue fazer qualquer coisa com ele porque nós, professores, aqui, só vamos é depois avaliar...!

De algum modo, a caderneta transformou-se num instrumento de registo de males, de erros e inabilidades do aluno, uma selecção de depreciações. Se pensamos em como é pedagogicamente importante o reforço positivo, espantamo-nos de que tal elemento de ligação casa-escola nunca sirva para apreciar positivamente, para registar progressos e melhorias, parabéns, incentivos.

A caderneta do meu filho é um dos meus pesadelos. Sonho que me persegue. Quando espero pelo miudo à porta da escola e o vejo, com a caderneta meio escondida atrás das costas, lágrimas no rosto, já sei que temos drama.

Por mim, abomino a caderneta.

sábado, novembro 25, 2006

RESPOSTA A UM COMENTÁRIO QUE JÁ CÁ NÃO ESTÁ

Eu, que não recebia comentários há vários meses e me conformei ou quase, ou que, pelo menos, me desabituei de clamar chorosamente por eles, tinha, ontem ou anteontem, umas linhas em inglês: um tal Unjava ou qualquer coisa assim - não sei, não me lembro (espero que se não tratasse do jovem e promissor escritor angolano Ondjaaki) -, exprimia, tratando-me por «Gil», o seu apreço pelos artigos do meu site, com o qual aprendia muito. Tudo aquilo - o nome, o inglês, o elogio sem mais... - me soaram tão pouco credíveis, tão a «vírus» ou a «vendas», que optei por eliminar esse primeiro comentário - ainda para mais apologético - de há vários meses. Agora, claro, arrependo-me. E choramingo um pouco. E se...?

Não deixo, contudo, de me interrogar; sobretudo porque o referido comentário me era deixado a propósito do post «Leis Kaosticas». Preocupo-me, pois: será que alguém que, em referência directa a uma explicação estúpida para as buzinadelas diante dos semáforos, diz que «aprende muito com o meu blogue», me terá levado a sério? Isto é: mais a sério do que se pretendia? Será que poderá dar-se o caso - imaginemos que é um estudante -, de ele vir a apresentar, num trabalho académico, a teoria de que a mudança do vermelho para o verde é percebida mais rapidamente pelos condutores que se encontram, na bicha, mais longe do lugar imediatamente diante do semáforo? Diacho!

Porque há duas hipóteses: ou este leitor é uma fera do sarcasmo, ou tem estado de facto a «aprender» com os meus textos. E isso faz-me pensar quão maléfico poderá ter sido, por um absurdo efeito perverso, senão por um efeito perverso absurdo, o impacto do kaostico entre leitores mais jovens e particularmente fechados à ironia: não acabarei como Sócrates ou, vá lá, para salvaguardar as distâncias devidas, um Sócrates de trazer por casa?

Ó Undjave, ou lá como te assinas: olha que, no kaostico, raramente se tenta ensinar. O meu negócio é mais o de desensinar. And a good day to you too, my friend.

quarta-feira, novembro 15, 2006

LEIS KAÓSTICAS

Quando se forma uma bicha diante de um semáforo vermelho e, após uma longa espera, a luz muda para verde, esta transição é sempre apercebida, pelos condutores na bicha, tanto mais rapidamente quanto mais longe se encontram do primeiro lugar, mesmo em frente do semáforo.

O primeiro da bicha é sempre o último a perceber que já pode arrancar.

O último da bicha é sempre o primeiro a perceber que o primeiro já deveria ter arrancado há vários segundos.

E assim sucessivamente, numa compreensão cuja rapidez é sempre inversamente proporcional ao lugar que se ocupa na bicha.

Daí, as buzinadelas.

segunda-feira, novembro 13, 2006

A ESCOLA E OS MAUS ALUNOS

Sabemos, por pouco marxistas que sejamos, em que medida a «escola pública» é uma instituição de cariz ideológico, que visa formar os jovens, desde cedo, como cidadãos, isto é, de acordo com a visão e as regras que convêm ao poder instituído.

A escola democrática assenta num princípio que é, quanto a mim, o principal equívoco da democracia. A igualdade. Deixem-me dizê-lo: querendo conciliar a ideia da «igualdade» com a necessidade de avaliar e classificar, que se lhe opõe inteiramente, que resultado se obtém? Bom: obtém-se a ideia perniciosa e pateta de que todos os «objectivos» são, por igual, alcançáveis pelos alunos. Como a prática se encarrega de mostrar sistematicamente que isso não sucede, tendem a abrir-se duas hipóteses para explicar por que diabo tais objectivos, teoricamente alcançáveis, raramente são, de facto, alcançados por todos: segundo uma delas, a culpa é dos alunos. A maioria dos professores, como é evidente, prefere esta explicação. Há alunos que não querem, não se esforçam, não se aplicam, não se interessam - ou, na sua formulação mais benigna, menos chocante, politicamente correcta, alguns alunos vivem em condições socio-culturais que os colocam em má posição na corrida: não têm pais formados, ou empenhados em ajudá-los, não têm computador, ou são oriundos de uma cultura que não valoriza a leitura, por exemplo...; segundo a outra hipótese, que é a preferida pelos alunos, pelos pais, pelos sucessivos ministros da Educação, pela sociedade em geral, a culpa é dos professores. De acordo com esta ideia, só há negativas e insucesso porque há maus professores. Que não motivam. Que não usam as estratégias adequadas - qualquer turma e qualquer aluno poderá corresponder desde que tenha o professor capaz de.

Do meu ponto de vista, ambas as hipóteses estão erradas. É o princípio em que assenta a escola democrática, que não pode ser levado a sério. O mito da «igualdade» nunca fez grande sentido: as competências, as capacidades, os talentos, as inteligências até, são muito diferentes nos diversos adolescentes. Pensar sempre que um aluno com «capacidades» que não as «aproveita» o não faz porque «não quer», porque «não trabalha mais», é laborar num erro: as pessoas são formáveis e «transformáveis», sim, mas o tipo de «transformação» que a escola exige, sem levar em consideração a singularidade de cada aluno, sem tentar fazer brilhar aquilo em que cada um é excelente ao mesmo tempo que o faz conviver e familiarizar-se, sem medo nem traumas, com aquilo em que é menos bom, é um funil castrante e esmagador.

Olho para alunos cheios de «capacidades», cujos resultados são, porém, sofríveis, e penso: Ele poderia. Se «estudasse mais», se tivesse «método», se criasse «hábitos de trabalho». (são sempre estes os termos que repetimos nas actas). Raios, por que é que ele não se esforça? Está na mão dele, é esperto, escreve bem...! Mas - e se a sua ausência de método for simplesmente a presença de um outro tipo de método, invisível do ponto de vista dos critérios e dos padrões de eficácia da escola? E se a sua desadequação, a sua inaptidão, a sua, às vezes quase me apetece dizer: estupidez!, não fosse senão a expressão de talentos e aptidões com que a escola não trabalha, nunca trabalhou, não saberia trabalhar?

Podem dizer-me: Pobre homem, ficou-se na mensagem dos Pink Floyd! Que anos setenta! Eu não me importo. E não, não, não penso que a solução fosse a escola relativista, sem regras (para não traumatizar), sem classificações nem exigência. Não, não, não penso que a solução fosse o reino da pura singularidade. Mas não tenho dúvidas de que o aliciante para mim, como professor, será sempre, sem cair na relatividade e na anarquia do indivíduo, sem prescindir de critérios universais nem de uma predominância do colectivo, ter sempre presente que o colectivo não é a soma nem a média de elementos idênticos, que a forma e o talento próprios de cada um são um enriquecimento do grupo, não uma excrecência, nunca um lixo que se deva eliminar.

A ministra, sempre tão preocupada com o insucesso, não seria capaz de entender a minha linguagem. Suspeito que os Pink Floyd, no fundo, também não.

Mas, muitos séculos atrás, Aristóteles abria esta senda.

quinta-feira, novembro 02, 2006

COMO EMENDAR CLIENTES DE QUE SE NÃO GOSTA

Não é que eu não aprecie comer um bife pouco saudável no «Portugália» - com molho de mostarda, batatas fritas, etc. Aprecio. O que, de facto, não me agrada no «Portugália», é um certo género de empregados que faz questão de mostrar que sabe mais do que o cliente - e nunca se coibe de o educar.

Um exemplo: há precisamente uma semana, estávamos eu e o meu filho sentados a uma mesa do restaurante, e fazíamos o nosso pedido a um senhor muito alto, muito hirto, demasiado sério, pouco dado a brincadeiras. O meu filho, criança irrequieta, activa, quase no limiar da hiperactividade, ia rodando, entretanto, a faca sobre a mesa. Até que o tal empregado hirto, neurótico, não podendo resistir mais, lhe arrancou a faca e a acertou no lugar devido, junto ao prato.
O miudo, espantado mas ainda com uma réstea de energia para esgotar, iniciou, então, uma rotação com o garfo sobre a mesa, rotação essa imediatamente interrompida pelo senhor. Mas como parecesse que o Duarte não se dera ainda por satisfeito, o homem teve, de repente, uma espécie de iluminação; sussurrou, na sua entoação brasileira, «Cê quer hambúrger no pão, né mesmo? Então não vai precisar disso aí»; pegou nos talheres, e levou-os para longe...

O que me irrita é este tipo de superioridade dos empregados de certos restaurantes, não só, aliás, do «Portugália» (embora, aí, pareçam ter frequentado todos uma Acção de Formação sobre como pôr os clientes na linha).

O que me faz reviver uma outra situação, de uma vez em que eu e a minha mulher almoçávamos num lugar aprazível, com uma vista soberba sobre a Baía de Cascais, e a Adelaide achou que o que lhe apetecia, naquele momento, era precisamente um menu infantil.
Ao que a empregada, uma de óculos grossos e rictus de permanente zanga com o mundo, contestou, friamente:
- Peço desculpa, mas não vejo aqui nenhuma criança.
A Adelaide ainda pensou que se tratasse de uma brincadeira. Ainda pensou, coitada, que poderia responder com uma outra brincadeira. E atirou:
- Há uma criança dentro e cada um de nós, não é verdade?
- Ah, pois é - fechou a mulher, sem a sombra de um sorriso -, mas essa criança que há dentro da senhora não tem direito a menu infantil.

sábado, outubro 28, 2006

AINDA SOBRE AS AULAS DE SUBSTITUIÇÃO

Não deixa de me espantar que a Ministra de Educação insista tão firmemente em braços-de-ferro em relação a medidas que, ainda que fossem acertadas, nunca iriam longe deste modo, sem a compreensão e a aceitação por parte dos seus alvos.

Sucede que, para mais, a maioria das medidas é errada. O problema não é só o de os professores não gostarem delas, ou se sentirem agredidos por elas - o que não seria um pormenor despiciendo -, mas de estarmos ante graves perversões pedagógicas.

Estou a pensar, concretamente, nas «aulas de substituição» (que afinal, não o são necessariamente mas, apenas, «actividades de acompanhamento»).

A ideia de que os alunos não podem estar fora de uma sala de aula quando falta um professor, que devem ter uma «actividade» qualquer, em que serão «acompanhados» por um outro professor, não satisfaz ninguém. Não satisfaz os alunos, que não aceitam o docente-substituto de bom-grado, nem percebem a lógica dessa substituição e, portanto, o hostilizam. Não satisfaz o professor chamado a passar noventa minutos com uma turma que não conhece, num território que não é o seu, num encontro que só pode ser episódico, que dificilmente terá qualquer tipo de continuidade...
Satisfará os pais dos alunos? Algum pai irá suspirar de alívio por saber que o seu filho fica guardado, leia-se, enjaulado e convenientemente vigiado durante a ausência do professor que faltou? Talvez, talvez. Sabe-se lá.

Mas se eu quiser retornar à minha adolescência e à minha juventude, poderei lembrar que as «borlas», isto é, não haver aulas por falta de um professor, preenchiam uma indispensável função de socialização: correspondiam ao momento privilegiado em que os alunos se juntavam para explorar a escola ou o espaço próximo, jogando à bola, uns, reunindo-se num café, outros, conversando, conhecendo-se, interagindo de um modo mais completo, que os dez ou quinze minutos dos intervalos não permitiam. Havia uma liberdade essencial, tão importante para a nossa formação como os curricula das disciplinas.

Conheço as objecções: os professores faltam muito; deixar os alunos à solta durante demasiado tempo pode ser pernicioso e, sobretudo, não parece «rendível»: seria deixá--los brincar durante um tempo em que deveriam estar aprendendo. (Seria habituá-los a tirar partido do desleixo, em vez de o corrigirem).

Sejamos sérios: esta última objecção é a mais absurda de todas. A mais ridícula. Numa aula de substituição, ou numa actividade de acompanhamento, ou como lhe queiram chamar, não se trata de aprendizagem: trata-se de manter meninos ocupados - ou, quanto mais não seja, fechados. Não se trata de rigor, nem de promover a disciplina e o gosto pelo trabalho - mas de fomentar o azedume, a frustração, o mal-estar. Não se trata de prevenir os perigos da liberdade - mas de gerar os perigos da falta da liberdade, da atrofia, típicos da escola vista como uma grande fábrica. Entra-se por aqui, sai-se por ali. Não há tempos mortos. Existem sempre uma porca ou um parafuso sendo apertados. Tudo rende, tudo rende, tudo rende. Não há «borlas». Não se respira. A ida à casa de banho é cronometrada.

segunda-feira, outubro 09, 2006

AFORISMOS OCIOSOS

A beleza nunca se cumpre. É, no melhor dos casos, uma promessa. No pior, uma ameaça.

Há problemas evitáveis: infelizmente, nunca é possível evitá-los.

A fazer alguma coisa, é sempre mais fácil destruir do que construir: eis uma lição sobre a natureza humana que me é dada pela minha filha bebé, que desmonta, sistemática e minuciosamente, as torres da «Lego» que eu vou continuando a montar...

quinta-feira, setembro 28, 2006

UMAS FÉRIAS NA PRAIA

Embora eu esteja muito, muito mas muito longe de consentir que me confundam com um fanático da praia, lembro-me de que me deixara convencer (arrastar, enfim) para uma semana de férias numa terreola de pescadores. Por causa, obviamente, da... praia!
Tinham-se unido vários grupos nessa grotesca excursão: a) eu e a minha esposa, casados de fresco e que insistíamos, vá-se lá perceber porquê, em fazer daquela semana uma segunda lua-de-mel; b) os Fonsecas, pais e filha - uma daquelas meninas irritantes, demasiado sérias e sábias, que, quando discutem com os adultos, o fazem esgrimindo argumentos imbatíveis, e que escrevem poesia - e, c) os Guimarães, um pai e uma mãe mais duas crianças - um menino gordo que era uma fonte permanente de agitação e ruído e um menino enfezado e triste, como se o primeiro se alimentasse da energia do outro...
Estvámos todos na mesma pensão, a «Pensão Alegria», repartidos por três quartos. Por que me deixara eu convencer (ou arrastar, enfim) para uma férias desta natureza surrealista, já não recordo (ou fiz por esquecer, para não me odiar). Devia estar apaixonado: tão apaixonado que, se calhar, nem ouvira bem o projecto quando a minha fresca esposa mo expusera. Aceitara sem perceber todos os pormenores ou todas as implicações!

O primeiro dia de praia, começou por ser um dia de chuva imensa. Imparável. Africana.
Tínhamos acordado cedíssimo (porventura para escapar aos Fonseca e aos Guimarães) e arrancado animadamente, ou quase animadamente, em direcção à praia - eu carregando guarda-sol, toalhas, cestos, chapéus e uma espécie de frigorífico portátil, de que, aliás, sempre troçara como o cúmulo da saloíce, quando o via à responsabilidade de outras pessoas... - mas, a meio caminho, a chuvada desabara, inclemente, pérfida, implacável. Africana.
Regressámos precipitadamente à pensão, evitando fazer barulho para não atrairmos a atenção dos Fonseca e dos Guimarães - apesar de os meus chinelos de praia, encharcadíssimos, emitirem um enervante «fuenc, fuenc» -, pousámos a tralha no quarto e preparámo-nos para o almoço, como uma espécie de compensação que nos oferecíamos, apesar de nem ainda onze horas serem...

Na pensão, porém, nesse dia o almoço resumia-se a um prato único: cozido!

Eu não sei se a minha leitora (ou as minhas duas leitoras, ao que parece!) nutrem pelo chamado cozido à portuguesa o mesmo asco que eu. Sim, na altura eu estaria completamente apaixonado - ou não iria passar uma semana na praia numa pensão com a família Fonseca e a família Guimarães em quartos próximos - mas, se podemos dizer que até as mais desenfreadas paixões têm um limite, o meu limite era o cozido à portuguesa.

Fomos, pois, enfrentando mais um pedaço de chuva, até ao restaurante manhoso ali da frente.
Mas ali à frente não era bem tão «ali à frente» como eu julgara. E, sobretudo à chuva, ainda de chinelos e de camiseta florida, o «ali à frente» tornara-se num caminho horrendo, imenso, desabrigado...

Para o restaurante, entrava-se, por um portão verde, para uma espécie de quintal com um alpendre confortável. Era engraçado! Romântico. Delicioso.
Ali estávamos, portanto, já no quintal, protegidos sob o abençoado alpendre, quando, que susto!, reparámos numa figurinha que transpunha, por sua vez, o portão da entrada.
Era a menina Fonseca. A sábia-junior. Lá vinha a chatinha, carregando duas enciclopédias, já muito molhadas, com o cartão das capas a desfazer-se. Vinha compenetrada, sem esboçar um sorriso de cumprimento como, aliás, nunca fazia.
- Os meus pais viram-vos vir em direcção ao restaurante. Querem que eu almoce convosco porque têm de fazer não sei quê...
Eu sei o que os Fonseca queriam fazer - no quarto, num dia de chuva, a sós, sem a menina sábia e chata a atrapalhar.
Conformava-me. Fiz-lhe até uma espécie de vaga e breve carícia nos cabelos molhados.
Nessa altura, do outro lado do portão, a senhora Guimarães, sem chegar a abri-lo, passava o menino gordo por cima e dava-lhe instruções no sentido de se dirigir a nós. O enfezadinho vinha depois.
- Mas quem é que esta gente pensa que nós somos? - sussurrei eu à minha mulher. - Os baby-sitters? Uma agência de dar almoços à criançada?
A Guimarães gritava-nos de lá qualquer coisa que não entendíamos. E ia-se embora.
- Estou pior que estragado! - vociferei.
- Deixa lá - sossegou-me a minha mulher. - O Paulinho e o Frederico (o gordo e o enfezado) já almoçaram, com certeza, comem sempre muito cedo. Vêm só para brincar com a Mariana. Ficam aqui a brincar enquanto nós vamos lá para dentro, não fiques assim...
- Não, não - intrometeu-se rapidamente o Paulinho gordo -, nós não almoçámos não, eu tou cheio de fome...!

sexta-feira, setembro 01, 2006

ANJO GORDO

Azael sentia-se infeliz - o que é um sentimento humano.
E com um princípio de ressentimento azul, que tenderia a provocar chispas de raiva avermelhada e, mais tarde, poderia abrir janelas a um ódio púrpura - tudo sentimentos humanos que, quando penentram em almas angélicas, as alimentam de uma força que nem os homens terão alguma vez experimentado.
Azael, o anjo, não podia compreender por que Deus o teria concebido como um «anjo gordo». Os anjos são puro espírito. Não têm carne. Os seus corpos espirituais, etéreos, são de uma elegância perfeita, luminosa, leve, no limiar da translucidez. Que sentido faz um anjo gordo!? Um anjo gordo para quê??? Que diabo pensava Deus - passe a expressão -, que tinha Deus na sua mente omnisciente quando o concebera e criara assim?

Por um estranho e perverso efeito, apesar de ser todo espírito, como os demais, essa sua espiritualidade gorda assumia algumas das características da gordura física: lentidão, cansaço, vergonha de si.
Sentou-se sobre uma pedra.
Gostaria de ver Deus. Não de o enfrentar - não teria coragem para se rebelar, bastava a trágica história de Lúcifer para o dissuadir. Mas perguntar-lhe. Porquê, Meu Deus? Que querias tu provar? Para que te sirvo assim?

Viu passar um menino gordo. E, por um instante, pareceu-lhe que compreendia a sua missão, a sua qualquer coisa. Não? Por um instante pensou que talvez se tratasse de o aproximar de um certo grupo de seres humanos - complexados, doentes, tristes - e de lhes mostrar que até entre os anjos pode haver gordos, que o aspecto não tem qualquer importância, que...
Em suma, talvez Deus o tivesse criado por uma intenção «politicamente correcta».

E pôs-se de pé. Diante do menino atónito. Em toda a extensão das suas asas e da sua gordura descomunal.
E sorriu ao menino. Luminosamente.
E a tristeza passava-lhe, agora que se imbuía da sua missão.
Afinal.

Até que o menino, o próprio menino, ele próprio gordo, exclamou, de dedo humilhantemente apontado:
- Ena pá! Um gordo com asas!

E, então, a irremediável tristeza de Azael regressou por inteiro.
E o anjo gordo sentou-se de novo sobre a pedra.
E suspirou.

quarta-feira, agosto 30, 2006

HISTÓRIA BREVE DOS VÍCIOS DE SIMÕES

O Simões, coitado, era, aos trinta anos de idade, o que se chama um virgem: mas virgem de corpo e alma, e virgem em relação a praticamente tudo o que prenuncie prazer. O Simões não tinha vícios: não fumava, não bebia, não praticava sexo; não tomava café, porque temia as palpitações e as insónias; não sabia conduzir nem sabia nadar; nunca andara de bicileta; de moto, muito menos; não amava, nunca se apaixonara; é certo que trabalhava muito: o trabalho equivalia, no Simões, a quase um vício. Era, talvez, o que disso mais se aproximava.

O ponto é que nem aos trinta, nem aos quarenta, talvez em idade nenhuma se tem a vida completamente fechada, inteiramente imune a surpresas.
E, como a prová-lo, um dia, o Simões apaixonou-se.
Ou seja: dera-lhe uma espécie de explosão epilética em face de uma mulher de cinquenta e três anos mas com aspecto de menina, aspecto esse mantido, aliás, pelo aparelho «teen-ager» que usava nos dentes e pelas camisolinhas que lhe revelavam um belo umbigo num estômago que ela se esforçava por encolher.
A mulher, Alda Bobone, tinha rugas no rosto - que o Simões, de resto, adorava: eram as rugas mais belas que ele já vira, em todos os pontos certos, num subtil jogo de ramificações, numa maravilhosa teia que lhe fazia lembrar relâmpagos riscando o céu numa noite de trovoada.

Como o Simões nunca estivera antes apaixonado, tornou-se demasiado óbvio: suspirava, revirava os olhos, palidejava quando a via. Punha um ar de sofrimento, como se estivesse com os sapatos apertados ou dor de dentes. Não dormia. O rosto ia-se-lhe escavando até se fixar nos contornos dramáticos da caveira. Não comia. As calças principiavam a cair-lhe, apertava o cinto, tornava-se de uma magreza neo-Gótica.

Alda Bobone percebeu rapidamente que aquele jovem com ar vagamente de poeta começara a desfazer-se por causa dela. E comportou-se como se lhe tivesse saído a taluda, e com razão: aos cinquenta e três anos, ainda despertava paixões...!
Nunca os seus requebros foram tão ostensivos, os seus decotes tão profundos, o aparelho nos dentes tão faiscante, nunca o seu modo de se sentar, cruzando a perna, destapando a coxa, fora tão sensual.
Ao fim de umas curtas semanas durante as quais ensaiou todos os passos da sua dança de sedução, e não querendo prolongar essa fase, não fosse o jovem, cada dia mais aflito, agonizar de vez, dona Alda passou ao ataque. Num só dia apanhou-o a sós, beijou-o como se lhe sugasse a alma, desencadeando-lhe um dos seus piores ataques de asma, e levou-o dali para a cama, ainda com a respiração descontrolada.

Nesse único dia, Simões somou, ao tenebroso vício da paixão, dois novos vícios: em primeiro lugar, o sexo. Não precisou de se esforçar, porque dona Alda fazia tudo praticamente sozinha: ela tratou dos preliminares, pôs-se-lhe debaixo, pôs-se-lhe por cima, comprimindo-o na sua celulite, gemeu, arfou, gritou. Ora bem. Em segundo lugar, o tabaco. Porque, inexperiente como era, virgem como fora sempre, não tendo do sexo senão as imagens e os clichês dos filmes, Simões julgava que fazia parte do próprio acto concluí-lo com umas passas num cigarro, o corpo nu enrolado num lençol, enquanto lançava, para o ar, sopros de fumo e algumas reflexões vagamente filosóficas.

Dona Alda era incansável. Queria mais, queria sempre, todos os dias, se não a todas as horas. E o Simões, que no início da paixão parecera rejubilar, ganhar novas cores e uma nova vitalidade, depressa retomou a marcha para a decadência física, para a magreza, para o ar tenebroso e neo-Gótico.

E, principalmente, fumava muito. Fumava de todas as vezes que fazia sexo. Entretanto, descobriu que dona Alda era casada com um certo engenheiro Bobone, que o procurava agora por todo o lado e lhe fazia esperas, com uma machadinha escondida no bolso. Simões deu, pois, em fugir. E em fumar cada vez mais. Fugia do marido dela, obviamente, mas também da mulher do marido. Já não fumava meramente como um ritual pós-coito, fumava, agora, para relembrar o sexo de que fugia, mas também para tentar esquecê-lo, ou simplesmente para se acalmar, ou fosse pelo que fosse.

A sua asma não melhorou. Pelo contrário. Quando não estava com um cigarro nos lábios, estava com uma bomba enfiada na boca, aspirando com um estertor moribundo.

Com trinta e dois anos, Simões morreu de complicações que eu, que não sou médico, não saberia descrever.

Várias hipóteses de moral seriam retiráveis deste conto, algumas talhadas para as campanhas anti-tabagistas.

A única que me apetece extrair, com a dor e a melancolia de quem tem de extrair um dente, é esta: Mais vale uma vida breve por causa de um vício, do que uma vida demorada sem vício nenhum.

terça-feira, agosto 22, 2006

O MITO DO OBSERVADOR INVISÍVEL

Nós, que nos ufanamos de ser do género «observador», gente perspicaz a quem nada falha, meticulosos sugadoiros do mundo em todos os seus aspectos, temos um pouco a noção (ou a mania) de que nunca somos observados: estamos do outro lado, como se fossemos de cristal; a nossa condição de pessoas que tudo vêem torna-nos, de certo modo, invisíveis.

Gosto de observar. Como aspirante a romancista (eterno e eternamente impublicado aspirante a romancista) tomo nota mental dos gestos e dos actos dos outros, sento-me numa mesa de café, meio encoberto por um jornal, oiço as conversas que me não dizem respeito, atento nas discussões, imagino histórias com que visto as pessoas que me passam ao lado, tornando-as personagens de futuros romances.

Observo, no comboio, os meninos prepotentes que fazem o que querem dos avós impotentes e indefesos: «Quero ir à janela! Com a janela aberta!», «Não, Quinzinho, não, não, é muito perigoso, olha lá, e se passa um comboio em sentido contrário...?», «Mas eu quero, eu quero, eu quero!!!», «Pronto, vá lá, só um bocadinho...»

Sei histórias dos carteiros, da porteira, da mulher-a-dias, do senhor que vende jornais no quiosque, dos vizinhos, dos bombeiros. De tentativas de suicídio ou de murros imprevistos, de cenas de ciúme e ódio; assisti por um triz à zanga da Elsa Raposo, à sua saída da casa do ex-namorado, cheia de malas, provocando um ajuntamento.

Tenho, na minha varanda, um posto privilegiado. Ao mínimo ruído de altercação, à noite, ao mínimo sinal de briga entre bêbedos, ao travar de uma ambulância que vem buscar alguém ao prédio da frente, assomo logo ao meu posto, seguro da minha invisibilidade, a coberto da escuridão.

Uma destas noites, precisamente, assomei atraído pelos gritos de uma velha prostituta que batia desapiedadamente num velho; partiu-lhe os óculos, partia-o todo, aos gritos de «Posso ser puta, mas pelo menos não sou tua mãe, que era pior!»

Na manhã seguinte, quando, por acaso, me cruzei com a mulher - eu a entrar para um café de onde ela saía -, rosnou-me, com uma agressividade que nunca lhe vira.
E já ela ia a dobrar a esquina, ainda lhe ouvi, obviamente para mim:
«E tu vais espreitar a tua prima lá da tua varanda, ó cabrão!»

Nunca me tinha falado antes. Fala-me, agora, sempre: e sempre com os mesmos modos desabridos, de quem me odeia, de quem me não perdoa o que eu vi nessa noite. Ela é que não perdoa o que eu vi, percebem? Porque ela sabe que a vi. Ela viu que eu vira tudo...

Foi, também, o fim de um mito: o do homem de cristal - o do observador invisível.

domingo, agosto 20, 2006

LITERATURA E MARKETING

Não me digam que a literatura não está tão sujeita ao marketing como todos os outros objectos compráveis. E não me digam que, no caso da literatura, não é isso que conta, não é isso o que mais importa...

E é realmente de literatura que falo, não simplesmente de livros, nem de escrita pimba, nem de escrita pop, nem de escrita light.

Se, por exemplo, não tivesse começado a ler «Em Busca do Tempo Perdido» já completamente rendido ao efeito mítico dessa obra imensa, escrita por um homossexual histérico e asmático (pode parecer insultuoso mas, se relerem, vão perceber que nenhum dos termos empregues tem necessariamente uma carga pejorativa), tocada por um halo que me impregnara antecipadamente, isto é, antes de o ter principiado a ler, se não me tivessem já criado essa espécie de fantasia em torno do autor, da personagem, da obra, da memória e do papel da memória, se o meu avô não me tivesse já descrito, abundante e deliciosamente, o célebre episódio da «madalena», eu teria ido ao encontro da obra, tê-la-ia deixado vir ao meu encontro, tê-la-ia deixado tornar-se, paulatinamente (e já tarde) a obra da minha vida?

Faço estas considerações a propósito de um conto longo (uma novela, no fundo) que Vasco Graça Moura escreveu propositadamente para ser comprado em conjunto com um certo número da revista «Visão» (por mais três euros e tal).

Pensam que se não se tratasse de Vasco Graça Moura, para já, esse intelectual encartado do nosso país, esse tradutor reconhecido e premiado, esse poeta cantado e recantado (e requintado... e, já agora, requentado...!), de quem apreciei anteriores escritos, o livro me teria sorrido?
Pensam que se não fosse aquela capa - em que, numa fotografia, Vasco Graça Moura, com um polo Lacoste azul celeste, nos sorri, diante da sua magnífica biblioteca, repousando o cotovelo sobre o degrau superior de um escadote para alcançar os livros das prateleiras superiores - eu me teria detido sobre o objecto? Pensam que uma fotografia do Vasco Graça Moura a lamber um sorvete, ou a acenar-nos, ou a passear um cão, ou a correr para um autocarro, teriam surtido o mesmo efeito, esse efeito quase sagrado da proximidade dos livros, do seu escritório (que imaginamos mais do que realmente vemos), do seu trabalho intelectual (que invejamos mais do que realmente admiramos)?

Finalmente, pensam que se o título não fosse «Duas mulheres em Novembro», evocando de imediato um romance do narrador com duas senhoras, em pleno Inverno, um pouco à maneira de David Mourão-Ferreira, eu teria tido tanta pressa de o comprar?

Mas o marketing é sempre ilusório.
Para que conste, não há qualquer triângulo amoroso: as «duas mulheres» do título são, simplesmente, duas mulheres que se encontram (em Novembro, obviamente) no consultório de um médico que não há modo de as atender, e conversam ao longo das páginas mais chatas que já li em dias de minha vida.
O Graça Moura é uma seca. É um pim pam pum.
E a biblioteca da fotografia, se calhar, é um logro. Como este livro. Pft!