quinta-feira, abril 26, 2007

CRÍTICA TELEVISIVA

Tenho, como aforismo pessoal que a experiência parece insistir em confirmar, a convicção de que as coisas com que mais aprendemos nesta vida não são as coisas bem feitas: são, precisamente pelo contrário, as mal feitas.

Em televisão, o aforismo é continuamente validado.
Há um programa da tarde, com um público-que-aplaude-ao-vivo, construído segundo um conceito que tem como alvo as mulheres idosas e as donas-de-casa, frustradas, de lágrima fácil, e que eu principio sempre por ver ociosamente (e até com aquele ligeiro ar de enfado que, nestas coisas, convém a um intelectual que se preza), mas que, no seguimento, acaba por me prender com a força de um «thriller»; pois bem: afianço-vos que esse programa tem sido, para mim, um verdadeiro poço de ensinamentos.
Para já, ensina-me a que ponto pode descer a tonteria, o desejo de aparecer em televisão, de ganhar uns prémios pindéricos ou a simplicidade com que se consegue fazer rir. Mas mais: depois, a propósito disto ou daquilo, há sempre umas quantas lições a retirar - muitas vezes, carregadas de consequências para outros campos, para outras áreas de interesse.

Neste último programa, tive, diante dos olhos, a razão clara (de que, às vezes, posso esquecer-me no meu dia-a-dia profissional) pela qual um professor nunca deve ir para uma aula sem a ter preparado convenientemente.

Os sucessivos desastres a que a apresentadora foi conduzida pelo facto de não haver preparado as entrevistas com aquelas velhinhas, sobre os «escapes» que tinham encontrado para afugentar os azares e as tristezas da vida.
Assistimos a coisas do género de: «Eu soube que gosta muito de ler», «Ah, quem me dera, não, minha senhora, infelizmente não sei ler», ou: «Já estou a ver que é Alentejana», «Não, sou da Beira-Baixa», ou: «É verdade que não esteve para aturar o seu marido durante muito tempo?», «Ele morreu» (será que foi a senhora que o assassinou, para não o «aturar durante muito tempo»?)

Um programa didáctico, da BBC, poderia ter tido esta força sobre mim, este poder de ilustração e de me colocar perante mim próprio? Duvido.

Bem-haja, TVI.

quinta-feira, abril 12, 2007

UM VULCÃO EM ACTIVIDADE NA ESCOLA

Não planeara participar, com uma turma de dez ou onze alunos, naquela comunicação/debate acerca de imigração. Tratou-se de um convite de última hora e, por «última hora», refiro o intervalo imediatamente anterior ao encontro. Mas porque o momento é, na vida do país, crucial para uma reflexão acerca da imigração e porque a minha pequena turma é constituída, precisamente, por pessoas originárias de Cabo-Verde, Angola e Timor, pareceu-me criminoso perder a oportunidade.

Naturalmente, o que se espera de um encontro deste tipo é, num certo sentido, relativamente pouco e relativamente pobre. Algumas banalidades e algumas ideias feitas, boas intenções e palavras virtuosas, ou seja, o desfiar da habitual cartilha de lugares-comuns «politicamente correctos».

Contudo, o que aconteceu foi outra coisa.

A moderadora, Cristina, muito jovem, que se preparara, talvez, para esse género de conferência «politicamente correcta», virtuosa e moralizadora acerca dos imigrantes, viu-se, bruscamente, confrontada com um vulcão. Natasha, imigrada da ex-Jugoslávia, mãe de duas alunas da escola, esteve presente: entrara tarde, irrompendo e interrompendo exuberantemente, provocando gargalhadas mas, em pouco tempo, conquistando o auditório, intervindo, questionando sistematicamente, interpelando, discordando. E o mais interessante de tudo foi que Cristina que, demasiado jovem, poderia ter-se desequilibrado perante aquela torrente, ou manifestar incómodo, ou remetê-la para o silêncio, soube, pelo contrário e, de facto, brilhantemente, estabelecer o diálogo enriquecedor, aproveitar-lhe as intervenções, criar-lhe o palco, desafiá-la para contar a própria história, para rememorar a própria experiência, as dificuldades com que se debateu num país estranho, a solidão, a saudade.

Natasha fê-lo com um à-vontade e um brilho intensos, com uma luminosidade inenarrável, no seu português desinibido e carregado.
Os mesmos alunos que, como já é hábito, teriam inicialmente a intenção de boicotar a «seca» que se lhes impunha, rindo e brincando a despropósito, calavam-se, estranhamente, muito atentos, tentando seguir a história dramatizada por aquela mulher, aquela actriz fantástica, história que nos rebentava diante dos olhos, num misto de tristeza, de alegria, de humor. Cristina, a sua interlocutora principal, apoiava-a, estimulava-a; ora falava, informando, adiantando dados, ora se retirava, tranquilamente, sem temer que lhe roubassem o protagonismo, delicada, revelando o raro e discreto génio de fazer sobressair os outros, ao invés de querer sobressair a qualquer preço.

Os alunos conversaram, perguntaram, intervieram, Cristina fez ainda ouvir a voz gravada de uma imigrada Cabo-Verdiana, escutada num silêncio religioso, Natasha deu receitas da sua terra e quis ensinar a dançar...

Não diria que foi «informativo», nem «interessante», que também foi; preferiria um adjectivo inabitual para um evento desta natureza: foi belo, foi tudo muito belo; e comovente.

Natasha, que eu já vira representar noutra ocasião, tem sempre o poder, que me embaraça, evidentemente, de me deixar os olhos marejados. É vergonhoso, sobretudo em público e, ainda mais, tratando-se de mim, cultor do cepticismo, da ironia, do sarcasmo e de outras formas de descrença cruel e de pessimismo militante. (Claro, posso usar a velha desculpa: Entrou-me qualquer coisa para o olho...!)

quinta-feira, abril 05, 2007

MAUS ALUNOS E BOAS ALUNAS

Os rapazes e as raparigas da escolaridade obrigatória ou, em resumo, os meninos e as meninas pré-adolescentes e adolescentes são, psicologicamente, muito diferenciáveis. Não só devido a factores de ordem biológica, não só devido a factores de ordem sócio-cultural, mas por uma complexa e intrincadíssima rede de causas orgânicas e educacionais. E os rapazes, que amadurecem com um ritmo próprio (porque desenvolvem aptidões próprias), quer a nível cognitivo, quer a nível afectivo, quer a nível comportamental, estão, por efeito dessas diferenças, destinados a ser os patinhos feios da escola.
O que as instituições do ensino público privilegiam ou, por outras palavras, o que é valorizado pela «escola pública», herdada, no fundo, de um sistema autoritário, apesar de sucessivas e, muitas vezes, caóticas remodelações, é um tipo de «bom aluno» feminino; é um modelo de aluno que só poderia ser uma menina: atenta, tranquila, trabalhadora, cumpridora. Nessas idades, os rapazes dificilmente conseguem corresponder a esse modelo. O seu desenvolvimento é outro, o seu ritmo é diferente - e, em tudo isto, não me parece obra do acaso que as «dislexias», as «hiperactividades» e outras disfunções deste género sejam, em geral, muito mais problemas «masculinos» do que «femininos».
Pergunto-me, diante das minhas turmas, se, de algum modo, os rapazes não são todos, todos eles, naquelas idades, hiperactivos, ou seja, adolescentes incapazes de se concentrar, a não ser parcial e episodicamente, incapazes de se abrir a outrem, incapazes da escuta, ou, simplesmente, de permanecer em silêncio durante muito tempo.
Num regime autoritário, numa escola «à antiga», poderiam sê-lo, naturalmente: estamos a falar da escola salazarista, que molda e modela, que pune e castra. Na escola pós-25 de Abril, em que, por um lado, as relações hierárquicas se modificaram e os valores são, necessariamente, outros (em que, por exemplo, se perdeu o medo em face do poder), mas em que, por outro lado, as expectativas e os critérios dos professores para decidir o que é um «bom aluno» se mantêm inalterados, os rapazes estão em desvantagem.
O sistema não premeia rapazes demasiado rapazes. Não está feito para isso. Varre-os para debaixo do tapete.
O sistema não está preparado para «aturar» outras formas, outros ritmos, outros amadurecimentos, sobretudo se dão maçada aos professores, nem outros interesses, nem um outro tipo de criatividade (que é tipicamente masculina, o que não significa, COMO É EVIDENTE, que não haja uma criatividade feminina) nem uma outra maneira de aprender.
Em termos competitivos (porque o sistema engendra e vive, necessariamente, de uma competição), os rapazes já perderam: os meninos-alunos depreciam-se, não acreditam nas suas capacidades e assumem, à falta de outras saídas, o papel do arruaceiro, do mau aluno orgulhoso de o ser. Abandonam. Só uma minoria - cada vez mais uma minoria - alcança a faculdade.
Os rapazes perderam. O sistema, um sistema que exclui e varre, um sistema feito à medida de um único género, também já perdeu...

domingo, fevereiro 25, 2007

O SAGRADO MOMENTO EM QUE.

Os passarinhos giravam incansavelmente em torno da árvore, pipilando numa autêntica histeria, e eu lembro-me de não ter levado mais do que um minuto a compreender: «Estão a jogar à versão, em pássaro, do jogo das cadeiras. A um sinal, poisam todos nos ramos, e há sempre um que fica de fora...!»

Quando compreendi finalmente o objectivo, atravessei o parque, afastando-me depressa dali. Espirrei. Mau sinal! Ergui a gola do casaco. Não podia apanhar um resfriado neste momento. Não no momento em que entendera o fito dos pássaros, o jogo dos pássaros e, portanto, o sentido do universo.

Entrei na casa velha, de degraus carcomidos, ouvindo uma espécie de eco macabro sob os meus passos incertos. No terceiro andar, sentei-me no chão, exausto, respirando com força, diante da porta esquerda; abracei os meus joelhos, com o queixo fincado neles. Tinha frio. Muito, muito, muito frio. Tremia. Nunca antes, em nenhum outro momento da minha vida, tremera assim. Se eu conseguisse parar o sismo de todo o meu corpo doente e fatigado, se conseguisse pôr-me de pé, se conseguisse bater à porta, tum tum tum, o velho viria abrir-ma, eu contar-lhe-ia o que tinha para lhe contar e talvez (não de certeza mas provavelmente), iria a tempo de salvar o que restava do universo. Caso contrário, seria tarde. Abrir-se-ia, dali a pouco, a outra porta do andar, os vampiros viriam buscar-me, o segredo perder-se-ia.

Levantei-me. Tinha de ser já. Mas, no momento em que, tremente, me preparava para bater à porta, fui acometido por uma derradeira dúvida: «E se me enganei!? E se não era nada disso que os pássaros estavam a fazer...?»

Percebi que se abria uma porta. Era um ruído distinto. Poderia ser a do lado esquerdo, a do velho, que me tivesse ouvido arfar, ou espirrar, ou pensar alto. Ou não. Poderia ser já tarde. Talvez fossem já os vampiros.

Fosse como fosse, fosse quem fosse, lembro-me de ter estabelecido esta regra - talvez última -, naquele momento de indecisão, naquele terrível e pesadíssimo momento em que tudo era ainda possível, ou em que nada era já possível mas eu ainda o não sabia:

REGRA: «Quando se trata de salvar o universo, não devo ter dúvidas, não posso hesitar!»

sábado, fevereiro 10, 2007

UM RESMUNGO A PROPÓSITO DA EXTINÇÃO DE UM PROJECTO PROMISSOR

Repentinamente, descobrimos que a magnífica iniciativa que tanto nos motivava para separar o lixo - que não é propriamente a mais agradável das tarefas, pese embora a sua importância - era uma experiência de curta duração, um teste, um projecto piloto. Chegou ao fim. Não se percebe bem por que razão, já não faz sentido dividirmos a porcaria pelos caixotes que nos tinham oferecido, o amarelo para os plásticos, o azul para o papel, etc etc, e não faz, sobretudo, sentido fixarmos os dias da semana em que devemos pôr cada um dos caixotes à porta para o camião da «Tratolixo» o despejar. Não faz sentido, porque o camião da «Tratolixo» deixará de passar.

Hoje, pela primeira vez em meses, tive de voltar a arcar com um caixote e caminhar com ele, protestando muito, seguido por uma quantidade de cães e de moscas, até ao eco-ponto mais próximo que, tal como as farmácias de serviço quando delas precisamos, nunca é suficientemente perto; e tive de, aí parado, entre dejectos que enchiam o chão em redor do local, pegar no lixo com as mãos para o enfiar, aos poucos, por uma ranhura estreita, como quem coloca sobrescritos num marco de correio. Todo este espectáculo, como se imagina, atentamente observado por um bando de mirones: dois idosos de boina, um deles de bengala, o outro com um palito entre os dentes, e quatro fedelhos encimados por bonés de pala virada para trás. Um dos dos idosos rouquejava qualquer coisa: talvez me desse conselhos. Sobre como pôr melhor os pedaços do lixo? Ao que eu desci...!

O problema não é este. O problema é que, por qualquer razão e com uma explicação que nada explica, se matou, praticamente à nascença, um projecto promissor. Vai regressar? Melhorado, tecnicamente aperfeiçoado? Ousou, no fundo, esperar que sim. Mas ouso, à superfície, duvidar.

Porque a questão portuguesa, a grande questão portuguesa, não é a falta de inteligência: o aparecimento desse projecto mostra-o bem. A questão portuguesa, a grande questão portuguesa, é a estupidez ser menos tímida, estar mais enraizada e esmagar muito cedo o que quer que valha a pena: a extinção desse projecto mostra-o bem

sexta-feira, janeiro 26, 2007

COISAS SÉRIAS E COISAS AINDA MAIS SÉRIAS

Não sei o que vos dirá acerca da minha maturidade e da forma como envergo a roupa de adulto, a confissão de que trato algumas das minhas amigas por «Lara Croft», «Mulher Elástica» ou «Rainha de Inglaterra». Na verdade, se me perguntarem, de repente, qual o verdadeiro nome de cada uma delas, posso embatucar. Verdadeiro nome!? Então elas não são «Lara Croft», «Mulher Elástica», «Rainha de Inglaterra»?

Mas algo de muito sério perpassa no grupo, quando nos reunimos. Mais sério ainda do que as teatradas, com perucas e óculos, à mesa do restaurante, mais sério do que as gargalhadas filtradas pelo tinto, tão sério como a «Lara Croft» me ter surpreendido com a afirmação de que os meus textos transmitem um espírito muito forte na reacção ao azar e à tristeza. Embatuco novamente. É um elogio que me esmaga. A que sou, por uma vez, incapaz de reagir.

Tão sério como isso? Que será? Silêncio absoluto. Pela minha boca não saberão que «Lara Croft» está em missão, às ordens da «Rainha de Inglaterra». Não. Não é por mim que o saberão.

sábado, janeiro 13, 2007

A FUGA

Miguel choramingava, enquanto ia enfiando num lenço vermelho alguns dos seus pertences: uma camisola, um par de cuecas, um de peúgas, cinco carrinhos que a avó lhe oferecera e os cromos dos lutadores de wresteling.
O pai estava furioso: era terrível de se ver, àquela hora da manhã, em roupão, com a barba a despontar como picos de um cacto, o cabelo revolto, um pé enfiado numa pantufa, outro descalço desde que, algures, muitos meses atrás, perdera a segunda pantufa.
A mãe estava zangada, falando muito depressa, à esquina de um ataque de nervos, levantando muito os braços, em camisa de noite mas, curiosamente, cheirando já a perfume.
E a razão de tanta zanga resumia-se a isto: Miguel não tinha fome de manhã. Queriam dar-lhe flocos, mas enjoara-se de todos os tipos de flocos - nem os chocapics, nem os nesquiks, nem as estrelitas, nem os chocolocos, nem os nogat's pillows... Leite simples não tinha graça. Pão, nem pensar. Poderia apetecer-lhe outra coisa, com boa vontade - mas tudo o que lhe poderia apetecer dava trabalho, confusão, exigia uma demorada fabricação: sumo de laranja, papinha de banana e kiwi esmagados minuciosamente com um garfo sobre o prato, maçã ralada com bolacha Maria esmigalhadinha...
O pai argumentava. Primeiro, com toda a calma. Fornecia alternativas. A mãe procurava na despensa. Nada! Miguel parava diante do frigorífico aberto. O pai esgotava a paciência. A mãe percorria a casa de um lado para o outro, desorientada, asmática, triste.
- Come qualquer coisa, Miguel! Qualquer coisa normal! Como os outros meninos!!! Todas as crianças comem pães, comem... comem... comem...
As vozes levantavam-se. A altercação instalava-se, vinha para ficar, os vizinhos ouviam gritos e desapareciam das respectivas próprias casas, ou escondiam-se no mais recôndito delas, um pouco temerosos. Miguel chorava. Não queria. Nada lhe interessava, a não ser...!
O pai entrava, por fim, no capítulo dos disparates. Que estava farto dele. Que ele ia ser responsável pela sua morte. Que a tensão vinha disparando... Pudera!!!
A mãe fechava-se na casa de banho.
Mandavam-no, pois, de castigo para o quarto. Não sairia enquanto não viesse com a disposição de comer qualquer coisa normal... pouco, podia até ser pouco, umas colheradas, umas goladas mas, sobretudo, qualquer coisa «normal».

No quarto, tomada a decisão, preparada a sua trouxa, saiu pela janela. Era um infeliz. Mas a vida esperava por ele, saturada dessa felicidade que os pais lhe negavam sistematicamente, pronta a abraçá-lo com centenas de aventuras e descobertas. Ainda haveria piratas? O pai costumava responder-lhe: «Há, se há! Cada vez mais, filho!» - talvez o aceitassem...? Ou infiltrar-se-ia clandestinamente? Terras por descobrir, mulheres por amar! A Teresinha iria ter saudades dele? E lembrando-se de Tereseninha, por quem se apaixonara destravadamente mas que, alertada por um terceiro, lhe fora dizer, cheia de sardas, mais bonita do que nunca, «Olha, Miguel, vamos ser só amigos, tá bem?» - lembrando-se dela, não aguentou mais e desatou a chorar com lágrimas grossas. Sentia-se triste, sentia fúria, estava pronto a revoltar-se com o mundo inteiro, a tornar-se muçulmano, pilotando aviões contra prédios, sentia uma melncolia no peito, ou na barriga, sentia... o quê, fome!?

Regressou a casa.
Pôs leite na sua caneca, encheu-a de flocos. Comeu. Partiria depois...

A MÁQUINA

Estava Lebranche do meu lado direito, Slovsky do meu lado esquerdo.
Lebranche, a quem chamávamos o anticartesiano metódico, era um homem alto e esguio, com um nariz abatatado e um queixo sumido, praticamente inexistente, que fazia da dúvida um incitamento para a descoberta da verdade, mas por um caminho oposto ao de Descartes. Argumentava ele: «Pá, aquilo de que se duvida é, no fundo, aquilo que poderia muito bem ser. E num mundo de contrariedades e de frustrações, isto é, em que quase tudo me parece impossível (e cada vez mais impossível à medida que envelheço), que haja ainda coisas possíveis, de que até podemos duvidar, mas que são, por isso mesmo, possíveis... torna-as quase verdadeiras. Eis a minha filosofia toda numa simples frase: o duvidoso é quase sempre verdadeiro!»
Slovsky, por outro lado, era um céptico. Mais: tratava-se do pior tipo de céptico. O céptico trocista. Baixinho, careca, com uns óculos redondos, de aros dourados, não refutava, não rebatia. Encolhia os ombros, com um sorriso torto, que nos esmagava mais rapidamente do que toneladas de argumentos.
E diante de nós estava o Engenheiro, a que não me referirei, aqui, senão pela sua inicial: K.

K. esperava-nos, sentado sobre o que me parecia uma sanita com um volante. «Grande invenção», segredou o temível Slovsky. «Se vamos a andar de carro e nos dá uma súbita vontade de evacuar...»
Nem eu nem Lebranche rimos. K. olhava-nos, com um sorriso contido e pacífico.
- Então, isso é que é a máquina do tempo? - perguntei, curioso.
- Isto é que é a máquina do tempo - respondeu, sem desfazer a tranquilidade. - Anos de estudo, de investigação...
- ... para atingir uma sanita volante! - resmungou Slovsky.
- E como se procede, senhor Engenheiro?

E, aí, aconteceu a tragédia. K. ligou um interruptor, uma faisca rasgou o ar, houve um monumental barulho, que nos assustou - a mim e a Lebranche, porque Slovsky ainda perguntou: «Será o autoclismo?» -, e, quando menos esperávamos, o sistema pegava fogo. As labaredas lambiam o tapete, o cortinado, ouvia-se o ruído aflitivo da madeira a transformar-se em carvão. Slovsky sentou-se numa das cadeiras, talvez a única, que não era pasto do incêndio. Eu e Lebranche corremos para a cozinha, tentando encher os nossos chapéus com água que, a seguir, vertíamos sobre o fogo. Era já muito tarde. Foi Slovsky que, no meio da confusão, se lembrou de telefonar aos bombeiros.

Assisti, mais tarde, a este diálogo entre os meus dois amigos:

S: As sanitas podem ser muito perigosas.
L: Não acreditas que tivessemos estado perante a máquina do tempo?
S: Só no sentido em que, para certas pessoas, a sanita é um local onde se passa muito tempo. Levam revistas, refugiam-se do mundo... E no futuro, quando descobrirem as sanitas, hão-de perguntar-se a que espécie de Deus dedicávamos aquele santuário...
L: Pois eu, pelo contrário, estou convencido que o Engenheiro tinha descoberto uma máquina que nos levaria ao futuro.
S: Duvido muito.
L: Mas era possível, não era? Era possível, não era? Responde-me só: era uma possiblidade...?
S: Bem...!
L: Ora aí está. É a prova que me basta: aquilo era mesmo a máquina do tempo.

Eu não sei. Aprendi a desconfiar das aparências. E pergunto-me o que poderia realmente ocultar-se sob a aparência um pouco ridícula de uma sanita com um volante.

terça-feira, janeiro 09, 2007

ASSUMIR A ESCOLHA SIGNIFICA: NÃO SIMPLIFICÁ-LA

A verdade é sempre revolucionária, asseverava Gramsci. Não sei se o é. Sou, aliás, tão mais limitado, que começo por não saber o que seja «a verdade». Às vezes, permito-me desconfiar que esteja ao meu alcance; permito-me farejá-la: percebo, suspeito que não andará longe. Mas, imediatamente a seguir, posso duvidar. Não metodicamente - não há, nesta dúvida, razões de método, só mesmo uma tremenda insegurança...

Agora, custa-me, isso sim, que a «minha» verdade - ainda que momentânea - tenha de ser rodeada, ou retocada, ou calada, em nome seja do que for. Em nome de razões políticas, de virtude, de correcção ou de oportunidade. Detesto as razões de oportunidade ou conveniência. Detesto que argumentem: «Talvez até seja verdade, mas este não é o momento certo para a divulgar, para a mencionar sequer...!»

É o caso. Eu, que vou votar «Sim» neste referendo, eu, que já fiz mesmo um aborto - na medida em que partilho inteira e completamente a responsabilidade do aborto decidido e feito, em conjunto, pela mulher que engravidei e por mim próprio -, eu, que seria de uma hipocrisia sem precedentes se me abstivesse e ficasse a assobiar para o lado, não posso deixar, contudo, de expor a «minha» verdade: e a «minha» verdade é que me dói e custa, como talvez nenhum outro, a assunção deste acto, desta cruz que irei marcar no boletim.

Não tenho escolha: eu que abortei porque não poderia não ter abortado, que conheço as razões por que o fazem milhares de mulheres, e as circunstâncias em que o fazem, eu que não aceito - nem posso aceitar - que as persigam e punam por essa escolha tantas vezes trágica, não posso deixar de levar coerentemente a minha solidariedade até ao limite. Mas não me queiram convencer de que não faz mal; não me queiram convencer de que é outra coisa que não o mal menor - sendo que o mal menor, naturalmente, não é um bem: é, ainda, um mal. Não me queiram fazer esquecer que estou a lidar com a vida. Com vidas. Nem queiram reduzir a vida fetal a uma não-vida. Não me digam que o aborto não é, na melhor das hipóteses, um défice civilizacional e um défice moral. (Como o é - de um modo pior, e mais grave -, uma lei que não permita essa escolha, como se a escolha não fosse, em si mesma, complexa e terrível).

Não queiram simplificar as coisas, porque não seria digno. Nem sério.

Será que eu não devia afirmá-lo «agora»? Que, sobretudo, não neste momento? Que Devia fazê-lo só depois do referendo? Ah! Mas não consigo ser maniqueista. Nem fingir que o sou por razões de conveniência. Vou votar «Sim». Mas este voto a que não tenho o direito de fugir, por razões morais, precisamente, é um voto que me dilacera. Por razões morais, também: precisamente.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

REGRAS KAOSTICAS CONTRA O CÁLCULO DE PROBABILIDADES

1. Entre os professores, como em todas as profissões, há bons e maus profissionais

2. Em regra, os maus são os professores dos nossos filhos

3. A mesma regra se aplica, mutatis mutandis, às mulheres-a-dias. No caso, deverá ser enunciada como se segue: «Há, certamente, mulheres-a-dias que fazem um bom trabalho e mulheres-a-dias que fazem um mau trabalho. Em minha casa nunca entrou uma mulher-a-dias da primeira categoria».

4. Estas regras podem parecer triviais. Mesmo patetas. O seu alcance, porém, é assombroso: se repararem bem, elas vêm pôr completamente em causa a credibilidade e a serventia do cálculo de probabilidades...

5. Ou seja: na sua aparente simplicidade, preparam uma revolução qualquer no estádio do conhecimento humano.

domingo, dezembro 24, 2006

SIMPLESMENTE UM CONTO SACRÍLEGO

1.
Deus Pai Todo Poderoso tinha um gnomo, seu braço direito, que o ajudava diligentemente. A razão pela qual se não fala, hoje, desse apoio é esta: a mais simples referência a ele foi completa e sucessivamente expurgada, suprimida de todos os textos sagrados. Tomás de Aquino, chamado «O Boi», perguntava-se, a esse propósito, eloquententemente: «Por que haveria Deus, O Todo Poderoso, de carecer de um ajudante? E porquê um anão? Por que não um gigante?» [Summa Theologica, 6-3]

2.
O trabalho do gnomo de Deus era monótono e, francamente, o pobre ser ressentia-se muito disso, dessa sua tarefa que consistia em garantir, antes ainda de serem depositadas nos corpos, que determinadas almas afins haveriam, depois, de se encontrar: estavam, digamos, predestinadas umas às outras; a virem a ligar-se, mais tarde, na vida terrena, por laços de afecto diverso: estes dois iriam amar-se, aqueles outros iriam ser amigos para a vida, outros mais, mestre e aprendiz, ou professor e aluno, ou...

3.
Trabalho importante, mas tão cansativo!
O gnomo de Deus tinha pouco tempo vago ao longo da longa eternidade. Porém, devido a uma curiosidade insana, pouco cristã, semelhante à que viria a perder Adão e Eva, o pequeno espírito aproveitava as suas horas vagas para ler a obra completa de Lucifer, que lhe havia sido recomendada pela alma, ao tempo ainda descarnada, de Pacheco Pereira. A obra completa de Lucifer era tremenda, terrível, temível. Escrevia Lucifer, a dado passo: «Eu não simbolizo o Mal, mas, simplesmente, um ponto de vista diferente. Por que diabo há-de ser tão custoso a Deus admitir que haja outros pontos de vista para além do seu??? Que intolerância!» E, noutro passo: «É fundamental que se entenda que, sob o colorido do Céu, que a todos atrai, existem operários que se dedicam a um trabalho ingrato, monótono, que nunca é compensado a não ser em harmonia celeste: por outras palavras, o único salário dos trabalhadores de Deus, é que Deus não se zangue com eles. A pretexto de que são puros espíritos, não têm necessidades nem carências de ordem alguma, nada mais se lhes paga».

4.
Quanto mais o gnomo lia, nas horas vagas, aquelas páginas incendiárias, carregadas de uma fúria rebelde, mais a sua situação lhe parecia injusta, mais o seu Patrão lhe parecia gozar de um prestígio imerecido, mais lhe apetecia contrariá-lo, defraudá-lo, desobedecer-lhe, desencadear a luta de classes...

5.
Ah, mas tinha medo. Muito medo.

6.
Até que um dia, mergulhado nas suas cogitações revolucionárias, por engano, por puro engano, por mero acidente, destinou para um encontro para toda a vida terrestre duas almas incompatíveis, completamente avessas. Primeiro, ficou aflito. Quis corrigir, contudo era tarde. Prevenir Deus, porém não teve coragem. Mas, curiosamente, percebeu que o erro passava. Que nem Deus, o próprio Deus, o Grande Deus, se apercebia...

7.
Então repetiu, agora deliberadamente, imperdoavelmente, o mesmo tipo de erro. Sempre impunemente. E mais uma vez, e outra, satisfeito consigo mesmo, sentindo correr-lhe nas veias espirituais um sangue de vingança: semeava conflitos, preparava para se encontrarem e juntarem para sempre naturezas opostas, seres que nunca se compreenderiam, laços de ódio e de conflito.

8.
Desse momento em diante, era já muito tarde para reverter o que quer que fosse. Almas fabricadas para se predestinarem, nunca se encontrariam. Em contrapartida, pessoas que só por humor negro poderiam viver juntas, essas, juntavam-se sob o mesmo tecto, completamente iludidas, rapidamente desiludidas, procriando, em constante guerrilha, filhos que, depois, odiavam, que os odiavam...

9.
Algures, noutra parte, impossível de vir a ser encontrada por cada um, o seu par, o seu verdadeiro par, o seu encaixe (o professor que o entusiasmaria, o amigo que o compreenderia...) - vivia uma vida impossível, encaixado, por sua vez, em alguém que odiava e a quem odiava.

10.
Esta é a verdade. Entretanto, por quanto tempo vos parece que se poderia enganar Deus Pai Todo Poderoso? A fraude do gnomo foi descoberta. O gnomo foi lançado no inferno, onde arde juntamente com Marx, Freud, Nietzsche, Darwin e outros.

11.
Deus trabalha, hoje, sozinho. Nunca mais aceitou braços direitos. Tudo indica, porém que, quanto mais não seja por piada ou, então, porque a burocracia se instalou irreversivelmente, continue a baralhar as peças, a promover encontros falsos, impossíveis, e a semear ligações perigosas!

sábado, dezembro 23, 2006

AS BOAS SURPRESAS SÃO SEMPRE POSSÍVEIS

Para mim, que sou um imparável leitor e um constante re-leitor de Eça de Queirós, com quem tenho querido aprender a ironia, o humor, a escrita até, foi um momento saturado de melancolia, talvez de angústia, aquele em que descobri que o esgotara. Isto é: que poderia continuar a relê-lo, que iria certamente relê-lo pela vida fora, mas, morto que estava o escritor, completada que estava a obra, não me tornaria a ser dado o prazer de abrir pela primeira vez mais algum livro da sua autoria.

E era com nostalgia que me recordava de como, há uns quantos anos, quando já pensava tê-lo esgotado (quando senti esse primeiro baque), viria a descobrir, com uma surpresa encantada, que, afinal, nunca tinha lido, vá-se lá saber porquê, um seu texto fundamental: nada mais nada menos do que o delicioso A Capital.

Lembro-me da alegria com que o comprei na fnac, a impaciência com que corri para casa com ele num saco cor-de-laranja, o leve receio da desilusão, o gosto com que me detive na capa trivial, igual a todas as capas da sua obra, a tremente curiosidade com que fui mergulhando, passando as páginas, soltando-me do nervosismo, fruindo, reencontrando o meu Eça de sempre...

Mas, para uma suspresa dessas, não há bis. Era já bem bom que me tivesse caído do céu essa breve suspensão do destino, esse admirável adiamento do fecho. Lido A Capital, agora sim, esgotara realmente o meu querido autor...

Isto, se não mencionar, claro, um outro texto seu, que nunca me interessara, que me tinham oferecido há uns Natais mas eu nunca quisera sequer iniciar: A Tragédia da Rua das Flores, de que tão mal ouvira falar. Que era um rascunho, um borrão, uma coisa menoríssima, com repetições, contradições, personagens cujo nome não se conserva ao longo das páginas, absurdos vários!

Foi só por descargo de consciência, ou em busca de um substituto, mesmo menor, para um vício arreigado, que, por estes dias, me debrucei, contudo, sobre a «Tragédia». E, caramba, não faço mais suspense - lá estava o Eça: sob as debilidades de uma obra que o autor não levara muito a sério, que deixara para trás, ao abandono, enjeitada, ali se erguia e brilhava, e se ergue!, e brilha!, tudo o que nele me entusiasma, me apura o espírito crítico, me afina o sarcasmo.

Ando, pois, a ler, repimpadíssimo, como diria o próprio Eça, A Tragédia da Rua das Flores.

Este post pode servir para uma ou duas coisas: a) aconselhá-lo vivamente a quem tenha passado pela mesma nostalgia de «haver esgotado um autor que já não volta a escrever», a quem, por coincidência, este livro passasse, também, ao lado; b) acrescentar, como nota natalícia, este optimismo moral: às vezes, por impossível que pareça, mesmo o prazer que não voltará de certeza, pode voltar... (e, até, mais do que uma vez!)

Bom Natal!

sexta-feira, dezembro 22, 2006

UM REGULAMENTO INTERNO A PENSAR NAQUILO COM QUE SE COMPRAM OS MELÕES

A minha filha, pobre garota, anda num infantário. Para que não subsistam dúvidas, escrevo-lhe já o nome: Colégio D. João de Castro.
O Colégio D. João de Castro tem um Regulamento Interno, o que é louvável.
Do Regulamento Interno do Colégio D. João de Castro, respigo uns quantos excertos:

«A todas as crianças que permaneçam no Colégio após a hora do fecho, será cobrado o valor de 10 Euros diários, por cada fracção de quinze minutos, de prolongamento.»

«Os Passeios e Colónia têm carácter obrigatório, pelo seu acentuado valor pedagógico [nem nos passava pela cabeça que fosse por outra razão], estão integrados no Plano Anual de Actividades e serão avisados com 8 dias de atecedência, o seu pagamento terá que ser feito na respectiva sala ou secretaria. As crianças que não forem aos Passeios ou Colónia não poderão frequentar o Colégio. A colónia [repentinamente com minúscula] realiza-se na 2ª quinzena de Junho e terá um custo de 75 euros [agora com minúscula, também]»

«Os pagamentos das mensalidades devem ser efectuados na secretaria ou na sala por adiantado, entre os dias 28 e 5 de cada mês. Após o prazo estipulado será cobrada uma taxa diária de 10 euros.»

«Todos os Encarregados de Educação estão obrigados ao pagamento de 12 mensalidades, no valor de 285 euros, quer o aluno frequente ou não o Colégio [como???], com a excepção do berçário [de onde expulsaram rapidamente a minha filha, com catorze meses] que poderá optar pela mensalidade sem alimentação, no valor de 255 euros, sendo o mês de Agosto repartido pelos meses de Outubro, Novembro, Dezembro, no valor de 95 euros.»

«Só serão aceites desistências com aviso prévio de um mês, sem o que terá que pagar a próxima mensalidade. Não serão aceites desistências a partir do mês de Maio inclusivé.»

«A Inscrição/Renovação e Seguro serão pagos e não serão devolvidos em caso algum. O seguro [bruscamente, com minúscula] é pago em Setembro e a renovação em Março, às crianças que não renovam a matrícula, é cobrado oo mês de Julho fraccionado pelos meses de Abril e Maio.»

«Será cobrado trimestralmente o valor de 15 euros para desgaste de material didáctico, nos meses de Outubro, Janeiro, Abril.»

«As desistências dos Passeios e Colónias de férias depois de pagos não serão reemblsados em caso algum [ou seja, mais vale não pagar!]»

«O uso da farda, bibe e chapéu são obrigatórios, de uso diário e custeados pelos pais [que os deverão comprar no «Corte Inglês»]

«Todas as crianças poderão ter uma falta mensal de fardamento [obrigado, obrigado, obrigado!], quando ultrapassada essa falta, poderá a direcção do Colégio vestir a peça em falta e debitá-la no recibo do mês seguinte.»

Nunca vi um Regulamento Interno assim. Nunca nenhum documento me pareceu tão óbvio na intenção exclusiva de planear a mínima forma de fazer dinheiro. Sobretudo, não me lembro de haver lido algum outro conjunto de regras de um estabelecimento de educação de crianças, privado ou público, que assumisse, tão escandalosamente, essa exclusiva inclinação economicista.

Poderão perguntar-me: Por que mantém então o senhor, que está assim tão zangado, a sua filha neste colégio?

Como essa pergunta só poderia ser-me dirigida por parte de quem não tem crianças em infantários, nem faz a menor ideia da luta vã por uma vaga, eu escuso-me de responder. Não iriam acreditar em mim.

sábado, dezembro 02, 2006

A CADERNETA ESCOLAR

Existe, até ao 9º ano, uma instituição que deveria garantir a ligação entre os professores e os encarregados de educação, que é a caderneta.
A caderneta, como não poderia deixar de escrever se isto fosse uma redacção virtuosa, é muito útil; tal como a vaca nos dá o leite, a caderneta permite-nos acompanhar de perto o desempenho dos nossos filhos, de forma a que os possamos corrigir e ajudar...

Sejamos sérios: a caderneta funciona, pelo que tenho visto, como uma espécie de bode expiatório, isto é, uma forma de os professores (os mesmos que detestam sentir os pais demasiado próximos, vasculhando e vigiando), poderem, de vez em quando, atirar-lhes com as culpas da sua própria incompetência: «O Manuel não tem feito os trabalhos de casa», «O João anda muito desatento e conversador nas aulas», «O Paulo deverá estudar», ou aquela pérola, pela mão do professor de EVT do meu próprio rebento, «Fulano tem tido atitudes impropriadas nas aulas». Impropriadas, escreve-me o professor do meu filho - ao que me apetecia responder: Bolas! Mesmo tratando-se de um professor de EVT... (no que estaria sendo injusto e preconceituoso).

Sabemos que os pais podem e devem acompanhar os filhos no seu trabalho de casa, como sabemos que nem sempre isso é possível porque, desde pais que não têm habilitação para o efeito até aos que não têm tempo, a situação dos alunos nem sempre pode ser solucionada em casa. Não querem os professores preservar a sua independência? Não se queixam de que os pais não são aptos para os avaliarem? Então porque recorrem tão frequentemente a eles e, aqui é que bate o ponto, tão arrogantemente, como quem lhes diz: Já viu bem a prenda que produziu? Veja lá se consegue fazer qualquer coisa com ele porque nós, professores, aqui, só vamos é depois avaliar...!

De algum modo, a caderneta transformou-se num instrumento de registo de males, de erros e inabilidades do aluno, uma selecção de depreciações. Se pensamos em como é pedagogicamente importante o reforço positivo, espantamo-nos de que tal elemento de ligação casa-escola nunca sirva para apreciar positivamente, para registar progressos e melhorias, parabéns, incentivos.

A caderneta do meu filho é um dos meus pesadelos. Sonho que me persegue. Quando espero pelo miudo à porta da escola e o vejo, com a caderneta meio escondida atrás das costas, lágrimas no rosto, já sei que temos drama.

Por mim, abomino a caderneta.

sábado, novembro 25, 2006

RESPOSTA A UM COMENTÁRIO QUE JÁ CÁ NÃO ESTÁ

Eu, que não recebia comentários há vários meses e me conformei ou quase, ou que, pelo menos, me desabituei de clamar chorosamente por eles, tinha, ontem ou anteontem, umas linhas em inglês: um tal Unjava ou qualquer coisa assim - não sei, não me lembro (espero que se não tratasse do jovem e promissor escritor angolano Ondjaaki) -, exprimia, tratando-me por «Gil», o seu apreço pelos artigos do meu site, com o qual aprendia muito. Tudo aquilo - o nome, o inglês, o elogio sem mais... - me soaram tão pouco credíveis, tão a «vírus» ou a «vendas», que optei por eliminar esse primeiro comentário - ainda para mais apologético - de há vários meses. Agora, claro, arrependo-me. E choramingo um pouco. E se...?

Não deixo, contudo, de me interrogar; sobretudo porque o referido comentário me era deixado a propósito do post «Leis Kaosticas». Preocupo-me, pois: será que alguém que, em referência directa a uma explicação estúpida para as buzinadelas diante dos semáforos, diz que «aprende muito com o meu blogue», me terá levado a sério? Isto é: mais a sério do que se pretendia? Será que poderá dar-se o caso - imaginemos que é um estudante -, de ele vir a apresentar, num trabalho académico, a teoria de que a mudança do vermelho para o verde é percebida mais rapidamente pelos condutores que se encontram, na bicha, mais longe do lugar imediatamente diante do semáforo? Diacho!

Porque há duas hipóteses: ou este leitor é uma fera do sarcasmo, ou tem estado de facto a «aprender» com os meus textos. E isso faz-me pensar quão maléfico poderá ter sido, por um absurdo efeito perverso, senão por um efeito perverso absurdo, o impacto do kaostico entre leitores mais jovens e particularmente fechados à ironia: não acabarei como Sócrates ou, vá lá, para salvaguardar as distâncias devidas, um Sócrates de trazer por casa?

Ó Undjave, ou lá como te assinas: olha que, no kaostico, raramente se tenta ensinar. O meu negócio é mais o de desensinar. And a good day to you too, my friend.

quarta-feira, novembro 15, 2006

LEIS KAÓSTICAS

Quando se forma uma bicha diante de um semáforo vermelho e, após uma longa espera, a luz muda para verde, esta transição é sempre apercebida, pelos condutores na bicha, tanto mais rapidamente quanto mais longe se encontram do primeiro lugar, mesmo em frente do semáforo.

O primeiro da bicha é sempre o último a perceber que já pode arrancar.

O último da bicha é sempre o primeiro a perceber que o primeiro já deveria ter arrancado há vários segundos.

E assim sucessivamente, numa compreensão cuja rapidez é sempre inversamente proporcional ao lugar que se ocupa na bicha.

Daí, as buzinadelas.

segunda-feira, novembro 13, 2006

A ESCOLA E OS MAUS ALUNOS

Sabemos, por pouco marxistas que sejamos, em que medida a «escola pública» é uma instituição de cariz ideológico, que visa formar os jovens, desde cedo, como cidadãos, isto é, de acordo com a visão e as regras que convêm ao poder instituído.

A escola democrática assenta num princípio que é, quanto a mim, o principal equívoco da democracia. A igualdade. Deixem-me dizê-lo: querendo conciliar a ideia da «igualdade» com a necessidade de avaliar e classificar, que se lhe opõe inteiramente, que resultado se obtém? Bom: obtém-se a ideia perniciosa e pateta de que todos os «objectivos» são, por igual, alcançáveis pelos alunos. Como a prática se encarrega de mostrar sistematicamente que isso não sucede, tendem a abrir-se duas hipóteses para explicar por que diabo tais objectivos, teoricamente alcançáveis, raramente são, de facto, alcançados por todos: segundo uma delas, a culpa é dos alunos. A maioria dos professores, como é evidente, prefere esta explicação. Há alunos que não querem, não se esforçam, não se aplicam, não se interessam - ou, na sua formulação mais benigna, menos chocante, politicamente correcta, alguns alunos vivem em condições socio-culturais que os colocam em má posição na corrida: não têm pais formados, ou empenhados em ajudá-los, não têm computador, ou são oriundos de uma cultura que não valoriza a leitura, por exemplo...; segundo a outra hipótese, que é a preferida pelos alunos, pelos pais, pelos sucessivos ministros da Educação, pela sociedade em geral, a culpa é dos professores. De acordo com esta ideia, só há negativas e insucesso porque há maus professores. Que não motivam. Que não usam as estratégias adequadas - qualquer turma e qualquer aluno poderá corresponder desde que tenha o professor capaz de.

Do meu ponto de vista, ambas as hipóteses estão erradas. É o princípio em que assenta a escola democrática, que não pode ser levado a sério. O mito da «igualdade» nunca fez grande sentido: as competências, as capacidades, os talentos, as inteligências até, são muito diferentes nos diversos adolescentes. Pensar sempre que um aluno com «capacidades» que não as «aproveita» o não faz porque «não quer», porque «não trabalha mais», é laborar num erro: as pessoas são formáveis e «transformáveis», sim, mas o tipo de «transformação» que a escola exige, sem levar em consideração a singularidade de cada aluno, sem tentar fazer brilhar aquilo em que cada um é excelente ao mesmo tempo que o faz conviver e familiarizar-se, sem medo nem traumas, com aquilo em que é menos bom, é um funil castrante e esmagador.

Olho para alunos cheios de «capacidades», cujos resultados são, porém, sofríveis, e penso: Ele poderia. Se «estudasse mais», se tivesse «método», se criasse «hábitos de trabalho». (são sempre estes os termos que repetimos nas actas). Raios, por que é que ele não se esforça? Está na mão dele, é esperto, escreve bem...! Mas - e se a sua ausência de método for simplesmente a presença de um outro tipo de método, invisível do ponto de vista dos critérios e dos padrões de eficácia da escola? E se a sua desadequação, a sua inaptidão, a sua, às vezes quase me apetece dizer: estupidez!, não fosse senão a expressão de talentos e aptidões com que a escola não trabalha, nunca trabalhou, não saberia trabalhar?

Podem dizer-me: Pobre homem, ficou-se na mensagem dos Pink Floyd! Que anos setenta! Eu não me importo. E não, não, não penso que a solução fosse a escola relativista, sem regras (para não traumatizar), sem classificações nem exigência. Não, não, não penso que a solução fosse o reino da pura singularidade. Mas não tenho dúvidas de que o aliciante para mim, como professor, será sempre, sem cair na relatividade e na anarquia do indivíduo, sem prescindir de critérios universais nem de uma predominância do colectivo, ter sempre presente que o colectivo não é a soma nem a média de elementos idênticos, que a forma e o talento próprios de cada um são um enriquecimento do grupo, não uma excrecência, nunca um lixo que se deva eliminar.

A ministra, sempre tão preocupada com o insucesso, não seria capaz de entender a minha linguagem. Suspeito que os Pink Floyd, no fundo, também não.

Mas, muitos séculos atrás, Aristóteles abria esta senda.

quinta-feira, novembro 02, 2006

COMO EMENDAR CLIENTES DE QUE SE NÃO GOSTA

Não é que eu não aprecie comer um bife pouco saudável no «Portugália» - com molho de mostarda, batatas fritas, etc. Aprecio. O que, de facto, não me agrada no «Portugália», é um certo género de empregados que faz questão de mostrar que sabe mais do que o cliente - e nunca se coibe de o educar.

Um exemplo: há precisamente uma semana, estávamos eu e o meu filho sentados a uma mesa do restaurante, e fazíamos o nosso pedido a um senhor muito alto, muito hirto, demasiado sério, pouco dado a brincadeiras. O meu filho, criança irrequieta, activa, quase no limiar da hiperactividade, ia rodando, entretanto, a faca sobre a mesa. Até que o tal empregado hirto, neurótico, não podendo resistir mais, lhe arrancou a faca e a acertou no lugar devido, junto ao prato.
O miudo, espantado mas ainda com uma réstea de energia para esgotar, iniciou, então, uma rotação com o garfo sobre a mesa, rotação essa imediatamente interrompida pelo senhor. Mas como parecesse que o Duarte não se dera ainda por satisfeito, o homem teve, de repente, uma espécie de iluminação; sussurrou, na sua entoação brasileira, «Cê quer hambúrger no pão, né mesmo? Então não vai precisar disso aí»; pegou nos talheres, e levou-os para longe...

O que me irrita é este tipo de superioridade dos empregados de certos restaurantes, não só, aliás, do «Portugália» (embora, aí, pareçam ter frequentado todos uma Acção de Formação sobre como pôr os clientes na linha).

O que me faz reviver uma outra situação, de uma vez em que eu e a minha mulher almoçávamos num lugar aprazível, com uma vista soberba sobre a Baía de Cascais, e a Adelaide achou que o que lhe apetecia, naquele momento, era precisamente um menu infantil.
Ao que a empregada, uma de óculos grossos e rictus de permanente zanga com o mundo, contestou, friamente:
- Peço desculpa, mas não vejo aqui nenhuma criança.
A Adelaide ainda pensou que se tratasse de uma brincadeira. Ainda pensou, coitada, que poderia responder com uma outra brincadeira. E atirou:
- Há uma criança dentro e cada um de nós, não é verdade?
- Ah, pois é - fechou a mulher, sem a sombra de um sorriso -, mas essa criança que há dentro da senhora não tem direito a menu infantil.

sábado, outubro 28, 2006

AINDA SOBRE AS AULAS DE SUBSTITUIÇÃO

Não deixa de me espantar que a Ministra de Educação insista tão firmemente em braços-de-ferro em relação a medidas que, ainda que fossem acertadas, nunca iriam longe deste modo, sem a compreensão e a aceitação por parte dos seus alvos.

Sucede que, para mais, a maioria das medidas é errada. O problema não é só o de os professores não gostarem delas, ou se sentirem agredidos por elas - o que não seria um pormenor despiciendo -, mas de estarmos ante graves perversões pedagógicas.

Estou a pensar, concretamente, nas «aulas de substituição» (que afinal, não o são necessariamente mas, apenas, «actividades de acompanhamento»).

A ideia de que os alunos não podem estar fora de uma sala de aula quando falta um professor, que devem ter uma «actividade» qualquer, em que serão «acompanhados» por um outro professor, não satisfaz ninguém. Não satisfaz os alunos, que não aceitam o docente-substituto de bom-grado, nem percebem a lógica dessa substituição e, portanto, o hostilizam. Não satisfaz o professor chamado a passar noventa minutos com uma turma que não conhece, num território que não é o seu, num encontro que só pode ser episódico, que dificilmente terá qualquer tipo de continuidade...
Satisfará os pais dos alunos? Algum pai irá suspirar de alívio por saber que o seu filho fica guardado, leia-se, enjaulado e convenientemente vigiado durante a ausência do professor que faltou? Talvez, talvez. Sabe-se lá.

Mas se eu quiser retornar à minha adolescência e à minha juventude, poderei lembrar que as «borlas», isto é, não haver aulas por falta de um professor, preenchiam uma indispensável função de socialização: correspondiam ao momento privilegiado em que os alunos se juntavam para explorar a escola ou o espaço próximo, jogando à bola, uns, reunindo-se num café, outros, conversando, conhecendo-se, interagindo de um modo mais completo, que os dez ou quinze minutos dos intervalos não permitiam. Havia uma liberdade essencial, tão importante para a nossa formação como os curricula das disciplinas.

Conheço as objecções: os professores faltam muito; deixar os alunos à solta durante demasiado tempo pode ser pernicioso e, sobretudo, não parece «rendível»: seria deixá--los brincar durante um tempo em que deveriam estar aprendendo. (Seria habituá-los a tirar partido do desleixo, em vez de o corrigirem).

Sejamos sérios: esta última objecção é a mais absurda de todas. A mais ridícula. Numa aula de substituição, ou numa actividade de acompanhamento, ou como lhe queiram chamar, não se trata de aprendizagem: trata-se de manter meninos ocupados - ou, quanto mais não seja, fechados. Não se trata de rigor, nem de promover a disciplina e o gosto pelo trabalho - mas de fomentar o azedume, a frustração, o mal-estar. Não se trata de prevenir os perigos da liberdade - mas de gerar os perigos da falta da liberdade, da atrofia, típicos da escola vista como uma grande fábrica. Entra-se por aqui, sai-se por ali. Não há tempos mortos. Existem sempre uma porca ou um parafuso sendo apertados. Tudo rende, tudo rende, tudo rende. Não há «borlas». Não se respira. A ida à casa de banho é cronometrada.

segunda-feira, outubro 09, 2006

AFORISMOS OCIOSOS

A beleza nunca se cumpre. É, no melhor dos casos, uma promessa. No pior, uma ameaça.

Há problemas evitáveis: infelizmente, nunca é possível evitá-los.

A fazer alguma coisa, é sempre mais fácil destruir do que construir: eis uma lição sobre a natureza humana que me é dada pela minha filha bebé, que desmonta, sistemática e minuciosamente, as torres da «Lego» que eu vou continuando a montar...