quarta-feira, agosto 29, 2007

FOCO SOBRE A VERDADE

A história é simples. E real.

Estou numa piscina paradisíaca, ainda que de pouco me preste, a mim que não sei nadar nem gosto de enfiar a cabeça debaixo da água. Contudo, já que a paguei, sinto-me no dever de usufruir. Estendido numa cadeira branca, sob um guarda-sol multi-colorido, a barba por fazer, as pernas estranhamente brancas no meio desta tribu de pessoas bronzeadas, vou-me entretendo com um livro policial, bocejo, dormito, o livro esquecido sobre o estômago. Isto é que é vida! (Mas a boa vida pode ser uma seca tão grande!)

Presto atenção à vida que decorre em redor de mim.

Há uma família, aliás, que me obriga a prestar atenção, porque tudo entre eles é tratado em altos gritos. O pai, judicioso e careca, impõe-se frequentemente. A mãe só pára de berrar com alguém, para seguir, numa revista cheia de fotografias dolorosas, as últimas notícias da tragédia da Maddie.
Os miúdos são insuportáveis: querem batatas fritas, molham as outras pessoas com autênticos mergulhos-de-golfinho, fazem exigências exorbitantes - insuportáveis, e sei bem do que falo, porque se parecem muito com o meu próprio filho!

Bruscamente, o escândalo.
Os garotos combinam que vão mergulhar juntos, sim, não, sim outra vez, comprometem-se um com o outro, correm, um trava, o mais velho salta.
Eis que o que saltou regressa, furioso. Têm uma discussão. Trocam-se agressões.
O mais novo, que não saltara, desata a chorar:
«O mano arranhou-me, o mano arranhou-me...»

Mas o pai, careca e judicioso, vira tudo.Intervém:
«Vai-te mas é tratar, ouvistes? Tu tens de ir mas é ó médico dos malucos. Tu não vistes, Susana? Tu não vistes? O gajo arranhou-se a ele próprio, que eu bem topei, o gajo arranhou-se a ele próprio para acusar o irmão... Eu topei! Já vistes? É tramado, hein? Vai-te tratar, pá, vai-te mas é tratar...»

A minha versão é outra. Sim, porque eu também assisti. E, de tudo, sobra-me a seguinte interpretação, da qual extrairia até uma lição, se me permitissem.

O irmão agressivo arranhara, efectivamente, o outro: mas, se se tratava, para este último, de fazer queixa, que provas poderia ele, a vítima, apresentar? Marcas de arranhão não são suficientemente nítidas. Experimento agora sobre mim mesmo. Cá está a confirmação das minhas palavras: nada, praticamente nada. Quando o miúdo se auto-arranhou, não foi, pois, para mentir, mas para sublinhar a verdade, para iluminá-la, para dar-lhe indícios mais notórios.

Às vezes, a verdade não se basta: precisa de ser iluminada. A luz não é algo que lhe acrescento. Simplesmente a expõe.

segunda-feira, agosto 27, 2007

DEUS

O ateismo é uma posição insustentável; considero-me perfeitamente insuspeito para fazer uma afirmação deste teor: na verdade, sou ateu.

O que mostra a existência de Deus não é, certamente, a retórica cartesiana, querendo fazer-se passar por uma pura «demonstração», assumindo como adquirido que um «ser perfeito mas inexistente» seria uma contradição nos termos. Descartes não tem razão: posso estabelecer, por exemplo, um conceito como o dos «mil euros que existem na minha carteira»; é evidente que o conceito de mil euros «existentes» na minha carteira «exige» que estes lá estejam (caso contrário, já não poderia ser o conceito dos «mil euros lá existentes»); mais: eu próprio bem gostaria de poder secundar essa exigência, de a fazer também, mas o facto é que não estão nem nunca lá estiveram, e não sei a que entidade possa endereçar a minha reclamação...

Também me não parece que por via de Pascal se encontre qualquer prova: apostar em Deus, é tudo o que o filósofo tem para aconselhar, numa espécie de piedoso truque - porque qualquer jogador sabe que se apostar em Deus e Ele não existir, paciência!, morro sem me aperceber sequer disso, enquanto que se, pelo contrário, não apostar e Ele existir, irei perder para toda a Eternidade...!
Isto pode fazer-me pensar duas vezes, mas não constitui realmente uma prova...

A única que me parece aceitável, é a mais antiga e a mais simples de todas: não se trata, naturalmente, do facto de o mundo ser perfeito, que, como podemos, aliás, observar facilmente, não é - ou não haveria necessidade de se inventar e produzir milho transgénico -, mas de ser uma construção complexa e, como tal, inteligente. E o homem, como resultado complexo de uma evolução no sentido do cada vez mais complexo, não pode certamente ser o composto arbitrário e darwinista de uma sucessão de acasos guiada unicamente por leis de adaptação. É, com certeza, mais do que isso. Embora, às vezes, baste um bando de energúmenos a destruir convictamente uma plantação de milho, ou a existência de alguém como a Carolina Salgado, para me regressarem as dúvidas...

A única pergunta que me parece, pois, sensata, é: e que Deus seria esse? Um Ser eterno e infinito, separado do mundo, criador desse mundo, ou simplesmente o Deus do panteísmo, o Logos, a dinâmica coerente da própria natureza, a esta imanente, uma força imperfeita mas não inteiramente cega, amoral mas inteligente?

É a única pergunta sensata. Não que a mim, pessoalmente, ela me interesse.
Antes manter-me ateu.

TRAGICOMÉDIA

Dizia-se que era um homem tão ridículo, que todos os seus dramas, imensos e mesquinhos, com os quais queria recolher a compreensão e a solidariedade pesarosa dos outros, nunca fizeram senão arrancar as gargalhadas bem-dispostas de quem o ouvia.

Quando teve a sua única filha e viveu, depois de uma primeira, natural e breve euforia, o período talvez mais negro da sua vida, visto que a criança nunca o deixou dormir tranquilamente uma noite que fosse, contava isto para que o consolassem, muito olheirento, coitado, com um tom olivácio e, na verdade, este drama - comparável, nos efeitos, à tortura da privação do sono enfrentado por certos heróis -, nele, tinha qualquer coisa de cómico a que ninguém resistia.

Suicidou-se.

Infelizmente, até a sua trágica morte teve uma nota falsa: porque, para se enforcar, não arranjou outra corda que não fosse a corda de saltar da sua filha, com joaninhas vermelhas...

quarta-feira, agosto 22, 2007

CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA

Se eu tivesse leitores, iriam certamente admirar-se de que escreva com tanta regularidade acerca da tarefa de separar o lixo, ou melhor, de ir despejar nos respectivos «ões» (o vidrão, o papelão, o pilhão etc.) os dejectos prévia e conscienciosamente separados.

Não é falta de assunto. Talvez porque a minha vida seja demasiado pacata, esta tarefa marca-me particularmente. É o meu grande contributo para a Causa ecológica.

Explico porquê:
Em primeiro lugar, sinto muitas saudades de um camião que passava todas as noites pela minha porta, à segunda levando o contentor amarelo, à terça o castanho, e por aí fora...
Como essa boa ideia morreu, eu deixo os contentores ficarem quase a transbordar e, um dia, levo-os até aos «ões», muitos quarteirões adiante.
Abrem-se-me dilemas, escolhas: levá-los de carro? Essa experiência foi traumatizante, porque estava calor, os plásticos têm sempre uns restos de substâncias viscosas que deixam cheiro e atraem moscas, de modo que o meu carro, que nunca foi um modelo de asseio, andou uns dias pior do que nunca. A ponto de, quando a polícia me mandou parar para me «autuar», o senhor agente do boné periclitante ter, após umas fungadelas, desconfiado que eu levaria um cadáver escondido na mala. Por que outra razão teria ele pedido que a abrisse?

A outra hipótese é carregá-los a pé. Arrastando-me, num penoso convívio com as moscas que não me abandonam e eu já não tenho mãos para enxotar, chego a um lugar sórdido, onde abundam restos de lixo que o desgraçado que eu sou tem de pisar enquanto enfia as coisas pelas ranhuras...

Em segundo lugar, dói-me a assistência. Há ali um banco onde uns velhinhos seguem atentamente o processo. Qualquer que seja a hora, os velhinhos estão lá.
Eu descrevi, um dia, esta cena à minha mulher.
«Os velhos fartam-se de gozar comigo! De cada vez que eu tropeço, ou que não consigo enfiar uma embalagem na ranhura, os tipos riem-se... devem pensar que eu me dou a trabalhos estúpidos, que sou um palhaço, uma criatura absurda...!»
E a minha mulher rebateu-me o pessimismo fácil e macambúzio:
«Pelo contrário! Tu és um exemplo! De cada vez que te vêem, os velhinhos só podem admirar-te por perceber que há pessoas que se dão a tanto trabalho para manter o planeta melhor. Tu comove-los, é o que é...»
«Hummmm...», desconfiei eu, lembrando-me dos rostos enrugados e trocistas, onde nunca li nada que me fizesse crer que os comovia.

Da última vez, hoje, mais precisamente, lá estavam eles.
E eu, orgulhoso, imbuído da minha superioridade sobre estes gajos que atiram papéis para o chão e sacos de lixo em qualquer lado, cheio do meu estatuto de exemplo.

Mas, na verdade, as coisas correram mal. Nada entrava onde devia, o vento trazia-me gargalhadas que me feriam a superioridade, a faziam ceder, o lixo escorregava-me pelo corpo.
Furioso, berrei, para ser ouvido:
- Que se f... a m... da reciclagem!

Depois voltei para casa, cabisbaixo, não me atrevendo a olhar para ninguém, embaraçado, envergonhado.
Até que o meu grito desesperado foi ganhando um significado. Era um elemento de rebelião contra as dificuldades da luta ecológica. Por que não há-de haver um papelão mais próximo? Um plasticão mais limpo? Com ranhuras mais largas???

O meu grito era um grito de luta. O elemento de violência que, ao que parece, deve ser incorporado na luta ecológica em busca de mediatismo.

A continuar assim, qualquer dia estou pronto para ir massacrar umas maçarocas transgénicas.

terça-feira, agosto 21, 2007

UMA VITÓRIA NÍTIDA PARA A ECOLOGIA

E põe-se, de uma vez, termo às hesitações e às incertezas científicas: fica finalmente estabelecido que os alimentos transgénicos são altamente prejudiciais à saúde. Agora, há provas; há uma prova: a primeira vítima notória do milho geneticamente transformado foi o proprietário da plantação que, após o assalto dos jovens ecologistas que lhe massacraram heroicamente uma série de maçarocas, acabou tendo um enfarte.

Há por aí vozes que se erguem, discordantes, contra os bravos ecologistas. Há mesmo quem pretenda que eles erraram o alvo. Que deviam ter atacado empresas multinacionais, ao invés de um velhinho que se dedica à plantação de maçarocas. Erraram o alvo?! Isso foi o que pensaram quando um carro embateu no meu veículo e eu, furioso, tendo de bater forçosamente em alguém, dei um murro num senhor cego que se aproximara para assistir ao espectáculo. Não errei, não: acertei-lhe em cheio! E, vamos lá, quem queriam que agredisse? O homem de quase dois metros e tatuagens nos braços hercúleos que vinha a conduzir o carro que não parou num «stop» e partiu o meu em dois? Está bem, está!

Alguém, cujo nome e cuja importância eu não fixei, argumentou que não concordava com os métodos mas compreendia as razões - e sempre acrescentou que, bem vistas as coisas, a verdade é que, «apesar de tudo», nunca esta questão fora tão mediatizada. Portanto... até os métodos parecem ter qualquer coisa de bom. Se o episódio passa na televisão já quase mais vezes do que o desaparecimento da Maddie e os dislates do Berardo, então é certamente uma vitória.

O senhor Mendes e o senhor Louçã é que estão muito zangados com o governo a propósito do acontecimento. Mas o senhor Mendes e o senhor Louçã estão sempre muito zangados. Devem andar a comer milho estragado!

O HOMEM PERFEITO

- H., anda para a cama, querido - chamava ela com uma nota de ansiedade na voz.
- Já vou, Dulce - respondeu H.
Não podia deitar-se sem lavar a loiça, logo naquele dia em que a máquina pifara.
Pegou nos pratos, foi-os deixando apanhar água sob a torneira que também teria de consertar, esfregou-os minuciosamente com a esponja embebida em detergente, mais água, limpou-os; fez o mesmo com os copos, com os talheres.
- Demoras muito, querido?
- Já não, já não. Vou já já, é já já!
Faltava, porém, engomar a roupa para o dia seguinte; não tanto a dele, que preferia as suas calças de ganga «au naturel», mas a dela: a saia que tinha de se passar com cem mil e cem cuidados, a camisa delicada, com rendas por todo o lado...
Abriu a tábua, colocou as peças sobre esta, aspergiu água, passou a roupa de Dulce, colocou-a, cuidadosamente, sobre uma cadeira.
A voz da mulher impacientava-se:
- Vais inventar mais alguma coisa para não vires para a cama...?
Ela não deixava de ter razão, pensou. Algumas das tarefas que se lhe acumulavam agora poderiam muito bem ter sido despachadas ao longo da tarde, desde que saíra do serviço. Mas tivera de passar por casa da mãe de Dulce para ver se, como habitualmente, não faltava nada a Dona Auzenda que, com oitenta anos, vivia sozinha num estúdio de um típico bairro J. Pimenta.
Subiu, deitou-se-lhe ao lado.
Dulce estava ansiosa por ele, pela sua pele, pelo seu corpo. Beijaram-se. Lançaram-se um ao outro, ou um no outro, numa espécie de luta animal, a que o prolongado grito de satisfação de Dulce pôs termo, ao fim de quase uma hora.
- Outra vez? - perguntou, solícito.
- Não, agora não, obrigada. Estou bem. E fatigada. Boa noite, querido.
Ela voltou-se-lhe de costas, com o habitual ranger de molas do colchão. Desligou o candeeiro da mesinha de cabeceira.
Por falar em «desligar»: H. precisava de carregar a bateria. Literalmente. Para isso, tinha simplesmente de se desligar a si próprio, premindo o minúsculo botão a que o professor Schultz, seu Deus, seu criador, dera a forma de mamilo, o seu mamilo esquerdo. (Nos homens, os mamilos não têm qualquer utilidade. Em H., pelo menos o esquerdo...)
E isso, conseguia fazer: desligar-se.
Mas, e depois? De manhã? Não seria capaz de se ligar a si mesmo, se estava desligado.
Ela seria capaz de o fazer? Fá-lo-ia?
Desligou-se, sem saber se alguma vez voltaria a acordar...

segunda-feira, agosto 20, 2007

A GLORIOSA REUNIÃO DE LÍDERES AFRICANOS

O núcleo duro de tudo aquilo que forma ideológica e simbolicamente a esquerda e, até, une de algum modo as diferentes esquerdas, reflecte-se com alguma segurança na ideia e na prática da descolonização.

Num tempo de repensamento, em que foram sendo sistematicamente postos em causa, por teóricos de esquerda,as chaves da própria esquerda (desde o papel do proletariado à possibilidade da revolução, desde a noção de igualdade à necessidade de liquidar a instituição burguesa que seria «a família»), num derradeiro dogma não vi ainda tocar: a bondade da descolonização, como forma de libertação de povos oprimidos e garantia de progresso para todos.

Uma vez que, à falta de melhor, me considero eventualmente (ainda) de esquerda, até quando a detesto, e mesmo, por vezes, marxista (tendência Groucho Marx), e porque, por outro lado, sou um desenraizado, ou seja, alguém que nasceu e viveu (até aos dezoito anos) em Moçambique,interessa-me profundamente a questão da descolonização.

Olhando para a glamourosa reunião de líderes africanos que Portugal orgulhosamente prepara, não posso deixar de sentir um ligeiro calafrio ante essa mirambolante colecção de ditadores que conseguimos juntar. Desde o senhor José Eduardo dos Santos ao senhor Mugabe, a quem não fomos capazes de negar assento, o espectáculo a que assistimos é, afinal, o dos nossos erros ou o da falência do grande ideal da esquerda: pegou-se em grandes e ricos territórios cujas fronteiras eram, já de si, uma ficção colonial, fazendo tábua rasa de rivalidades e lutas antiquíssimas entre diferentes etnias, esqueceram-se completamente os colonos que, mal ou bem, com direito ou sem ele, tinham investido nessas terras tudo o que eram e tudo o que possuíam, entregou-se o poder a elites formadas unicamente no combate e na guerrilha, esperando que estivessem preparadas para assumir os modelos políticos europeus, como se, por sua vez, estes fossem os únicos possíveis, e os mais indicados, e lavámos daí as nossas mãos.
Em face das insanidades e devaneios dos ditadores que entretanto emergiam, limitávamo-nos a assobiar para o lado, já demasiado assolados pelos nossos próprios complexos de culpa para arcarmos ainda com novas culpas...

Não sejamos lineares: houve, na luta anti-colonial, verdadeiros heróis, homens e mulheres exemplares, de uma força e de uma dignidade extraordinárias? Samora Machel ou Nelson Mandela são símbolos maiores de tudo aquilo em que a África livre poderia ter-se tornado? Sem dúvida.
As condições tiveram excessivo peso? Os países colonizadores não podiam, após anos e anos de dura luta, senão acatar, e nos termos em que o fizeram, a emancipação dos povos colonizados? Essas condições pareciam soprar, fortemente, todas num mesmo sentido, como se não houvesse escolha, como se algo de moira fatal imbuísse o vento da História? Sem dúvida.
Porque, afinal, a História não é uma constante entrada em novos patamares de escolhas. Frequentemente, mesmo o que nos soa como «escolhas» feitas (pelos reis, pelos governantes, por Mário Soares na altura...) são a expressão de teias de condicionalismos demasiado poderosos, que empurram fatidicamente para um ponto determinado.

Mas a conclusão é, então, que o movimento da História está muito longe de se poder representar como um «progresso». (Ah, sim! Essa outra grande e optimista convicção de todas as esquerdas).

Penso nisto, enquanto imagino Robert Mugabe sentando-se no seu lugar, sorrindo à esquerda e à direita, ao mesmo tempo que coloca nas orelhas os fones de tradução simultânea a que, certamente, há-de, também ele, ter direito... (como se compreendesse a tradução de quaisquer ideias que não sejam as suas próprias)...

terça-feira, agosto 07, 2007

COLECÇÃO JOE BERARDO NO CCB: UM PROJECTO SUICIDA

Deixem-me principiar por explicar o título deste meu «post».
O que, em relação à colecção Joe Berardo, se revelou um projecto suicida, foi a peregrina ideia de a visitar em família, ou seja, com uma mulher esgotada pelo facto de terem começado as suas férias, um adolescente de doze anos, misto de homem-aranha e de incrível Hulk, todo ele energia duendia à solta (quer dizer, uma energia de duende, instável, desequilibrada, magnífica) e uma criança de vinte e dois ou vinte e três meses...

Num episódio destes radica todo o surrealismo, a génese do próprio surrealismo, tão caro a Berardo: um pai de óculos, barba por fazer, calções e pernas muito brancas, norteado pela bizarra ideia de interessar a família em pintura, fotografia e escultura; uma mãe que se arrasta, ansiosa por que as recém-iniciadas férias acabem e ela possa regressar depressa à paz do seu serviço; um garoto que, de toda a colecção, se fixou para todo o sempre na escultura de um homem e uma mulher nus, no chão, deitados um sobre o outro; uma bebé gritando, não querendo sair de um rectângulo mais saliente do chão (que foi a única peça que, aliás, interessou a esta exigente crítica de Arte), insistindo em mexer nas obras - nomeadamente numa corda estendida no chão entre dois caixotes... que devo confessar que já não se encontra exactamente na mesma posição em que a vimos quando chegámos: será ainda uma obra de Arte? Uma instalação? Com o mesmo sentido, o mesmo significado, o mesmo desígnio, depois das ligeiras alterações promovidas por uma bebé irrequieta...?

O meu filho fazia, entretanto, cenas de ciumes porque a irmã não o abraçava; a irmã berrava almadamente (ou seja, com toda a sua alma, e não, como se diz, «desalmadamente»); depois, o Duarte aproximava-se de mim, segredava-me, excitadíssimo, lembrando-se do casal nu: «Mas ele não estava com a pila dentro dela, porquê? Não era para estar?» - e queria voltar atrás, e zangava-se com a irmã, e a irmã com ele.
Os seguranças seguiam-nos, num cordão apertado, atento, como se fossemos os ladrões do «Grito», detectados ali. Um deles, muito alto, muito negro, ria-se de tudo aquilo, com uns dentes a brilhar, enormes, alvíssimos. Os outros não riam. Preocupavam-se. Eu sentia que incomodávamos os demais casais, os velhinhos, os visitantes, a todos menos ao segurança negro de dentes brancos, que se divertia com o espectáculo...

O surrealismo, de que a nossa família nasceu, e que nasceu certamente, enquanto corrente artística, de um episódio como esta nossa visita, misturando o quotidiano com o onírico, o normal com o anormal, o bizarro e o impossível, nunca perece. Já nas salas de cima, desculpem-me, a pop-Art cansa, com as suas colagens, a sua confusão entre realismo e banda desenhada...
É a análise possível. Porque, mais à frente, a minha filha se prepara para subir a uma instalação.
Enquanto o meu filho volta à carga, de mãos nos bolsos:
«Mas ela tinha pêlos no pipi?»

domingo, julho 29, 2007

DA INSENSIBILIDADE COMO CATEGORIA POLÍTICA

Pois para festejarmos o modo como este governo clamorosamente agora caiu, e os ministros...

Peço perdão, houve uma troca de rascunhos, pelo que iniciei o presente «post» com uma frase que tenho ciosamente guardada para o devido momento.

Reiniciemos, pois:

Com a sua voz grave e tensa, de quem tem um dramático e permanente segredo para nos revelar, que parece queimar-lhe a garganta, Francisco Louçã confidenciou-nos: «Este governo não gosta das pessoas.»

Francisco Louçã perdeu, nos últimos anos, muito do interesse que me suscitara, mas, por uma vez, acertou no alvo de uma forma que chega a doer.
Em todas as decisões que têm chocado, e sobretudo em zonas tão delicadas como a Educação ou a Saúde, o governo tem revelado uma insensibilidade que nenhum discurso ministerial consegue esconder. Norteia-o a ideia de que há que fazer progredir o país segundo os critérios da Comunidade Europeia, no que toca a números visíveis, mas à custa das pessoas, das famílias, num total desrespeito pelo sofrimento concreto.
Pode o primeiro-ministro confessar-se chocado com as situações, sistematicamente vindas a lume, de recusa de aposentação a professores obrigados, desculpem-me a crueza das palavras, a morrer nas escolas; o certo é que, para que estes factos tenham sido possíveis, e durante tanto tempo - e com conhecimento da ministra da Educação, como a própria afirmou -, não só é necessário que esta espécie de anestesia dos sentimentos tenha crescido e estendido os seus efeitos um pouco por todos os departamentos sob responsabilidade do governo, como, à sua luz, se torna bruscamente compreensível que o governo tenha considerado uma medida aceitável travar e estancar todas as mudanças de escalão dos funcionários públicos e dos professores por um período prolongado, que um senhor seja posto na berlinda pelo uso da sua opinião, com palavras excessivas ou não...
Tudo, as mais dispersas e inesperadas medidas encontram, se não mais, este pequeno mas duro ponto comum, este mínimo mas forte fio condutor.
Irão, certamente, objectar-me que há demasiada subjectividade na minha análise, que algo como a «insensibilidade» não constitui uma categoria política; como é evidente, discordo completamente da objecção: por insensibilidade, entenda-se, não se discute se o primeiro-ministro ou qualquer um dos seus ministros são capazes de se comover em funerais, ou lacrimejar diante de um filme triste; não se discute até que ponto, como pessoa, o senhor José Sócrates, ao tomar conhecimento de alguns casos de professores obrigados a arrastar os respectivos cancros pelas escolas, não será capaz de sentir um aguilhão na consciência ou um aperto no coração. A insensibilidade de que vos falo é perfeitamente objectiva. E política. Tem que ver com um determinado espírito que condiciona as decisões, que determina as prioridades, que hierarquiza o que é importante e que, no momento das escolhas, concentra a atenção em certos aspectos ocultando à nossa atenção os outros - chamemos-lhes pormenores. Não tem conteúdo, não é, em si, um valor, muito menos um programa, mas algo que se aproximaria de uma atitude, sendo que o termo «atitude» é vago e, pessoalmente, lhe prefiro a expressão «forma»: trata-se, portanto, de uma forma de governação assumida pelo governo, multiplicada - e clonada -, por todos os ministros, secretários, sub-secretários, assessores, contínuos, porteiros, presente em todos os ministérios, copiada ao exemplo que vem de cima, natural e espontaneamente espalhada, forma à qual os amigos do governo chamariam «determinação», os inimigos «obstinação» e se apresenta, nos mais diversos casos, como pura «insensibilidade».
É claramente uma categoria política - situada naquele ponto invisível onde a política se cruza com a moral.

sábado, junho 30, 2007

O ESPECTÁCULO MAIS CARO E MAIS BREVE DO MUNDO

A Brigada de Trânsito multou-me. Ou, como eles dizem, autuou-me.
Tinham razão, e eu não: falava despudoradamente ao telemóvel enquanto conduzia, marginal afora. Dei por eles no momento em que me ultrapassaram, vagarosos, como se, de repente, tudo tivesse principiado a mover-se em câmara lenta; tudo, com excepção do meu coração, que disparou a uma velocidade que teria certamente merecido, também, ser «autuada».
Durante algum tempo, não fizeram nada: mantiveram-se à minha frente, rolando com serenidade. Nem gestos, nem sirenes, nem gritos por megafone. Cheguei a pensar, numa ingenuidade digna de uma terceira multa, que talvez não tivessem reparado no pormenor do telemóvel que, entretanto, desligara, e que chamava agora por mim, assinalando o desespero da pessoa a quem eu interrompera a conversa sem pré-aviso. Pensei em ultrapassá-los, por minha vez. Não o fiz. Mantive-me atento, tenso, atrás deles, pisando ovos...
Até que, ao aproximarmo-nos de uma saída, a mão peluda de um dos dois agentes indicou pela janela da viatura, com firmeza, que me queriam atrás deles por aquele desvio.
Saímos. Pararam, parei. Um jovem de óculos escuros e boné periclitante sobre a cabeça dirigiu-se-me. Eu balbuciava desculpas, explicava mentirosamente que não tinha esse hábito, que fora uma emergência, mas o homem limitava-se a insistir pelos meus documentos.

A única parte interessante de toda aquela sessão foi, do meu ponto de vista, constituída pelo momento em que uma rabanada de vento fez voar da cabeça do jovem agente o seu boné, fazendo-me compreender a dureza da sua missão: não é fácil perseguir bandidos com uma mão tendo de pressionar constantemente a tampa de um boné que não encaixa com perfeição na cabeça. Infelizmente, devo confessar que esse momento de humor e relaxamento foi demasiado breve para tamanho preço. Custou-me cento e vinte euros. Suponho que numa revista do Parque Mayer também me poderia ter rido do típico polícia à portuguesa por menos dinheiro...

Se eu fosse uma criança, ou um anarquista, ou um tipo sem moral, incapaz de respeito pela Lei, ter-me-ia dado ao trabalho de congeminar um plano para futuras situações. Por exemplo, passar a andar sempre com dois telemóveis no carro: um normal, o outro completamente avariado.
Mandado parar por falar ao telemóvel durante a condução, esconderia imediatamente o bom; apresentaria, ao agente, o estragado, dizendo-lhe:
- Mas eu não estava a falar ao telemóvel, senhor guarda. Já viu o estado dele? Como é que eu podia falar nisto? Encostara-o simplesmente ao ouvido para tentar perceber se teria arranjo. E não tem, não tem, já viu isto? Foi o meu filho e blá-blá-blá...

Se eu não passasse de um adolescente, claro, desses com aparelho nos dentes e que sangram do nariz por tudo e por nada. Ou de um anarquista. Ou de um Fora-da-lei. Ou se não fosse um professor a trabalhar pelo honroso posto de titular...!

quarta-feira, junho 20, 2007

UMA TEORIA SOBRE A BOA EDUCAÇÃO E OS EQUÍVOCOS QUE GERA

Já percebi muito bem que alguma coisa, no modo como entro numa secretaria ou num qualquer serviço administrativo, envia sinais que os senhores que me atendem interpretam sempre como submissão, receio, inferioridade. Não sei que sinais sejam. Talvez excesso de suor, excesso de gestualidade, excesso de explicações, excesso de delicadeza. Alguma coisa, que não consigo identificar, quanto mais controlar em mim, faz os senhores e as senhoras que se encontram aos balcões das secretarias, puxar da sua arrogância, da sua prepotência, de uns esgares de impaciência e desdém, de uma secura especial em resposta às minhas desajeitadas tentativas de humor.
Falo a sério. Se esses sinais têm tanta importância entre os cães ou entre os lobos, ou mesmo entre os peixes, que não são criaturas conhecidas pela sua inteligência, se é fácil animais da mesma espécie reconhecerem quem lidera, e quem se acoita na subserviência, pelo modo como um deles exibe o ventre vulnerável aos dentes do outro, ou oferece o cachaço, ou espera pacientemente pela sua vez na partilha da presa, como não haveriam os seres humanos de reagir a sinais porventura ainda mais subtis? Não é preciso que eu me estenda no chão, mostrando o meu ventre; há certamente sinais imperceptíveis mas que, a um determinado nível, subliminarmente, não deixam de ter efeito.

Mas eu tenho uma teoria: a democracia, de algum modo, baralhou a lógica e o sentido desses sinais. (O facto parece-me tão evidente e compreensível, que não acredito que haja quem tome por anti-democrática a sua verificação. Enfim, nunca se sabe. Algumas pessoas são realmente muito burras...!)

A delicadeza, a etiqueta, a chamada boa educação, sempre foram a sofisticação da elite: uma pessoa deixar outra passar primeiro pela porta, alguém levantar-se para oferecer o seu lugar, ou descobrir-se diante de outrem, não eram propriamente gestos que indicassem submissão ou inferioridade. Eram, pelo contrário, uma garantia da educação esmerada - e um sinal de reconhecimento de um eleito, de um fidalgo, de um cavalheiro. Hoje, quando frequentamos (ou podemos frequentar) as mesmas escolas, aceder aos mesmos empregos e, pelo menos aparentemente, nos tornámos todos iguais, os sinais tornam-se equívocos - porque se eu deixo o bruto passar-me à frente, o bruto pensa: «Ah, ele reconhece que eu sou mais importante! Primeiro eu, depois ele...!»; se for uma mulher (que não sabe nem perceberia que eu deixo sempre passar primeiro quem quer que esteja comigo, e o não faço unicamente por se tratar de uma mulher), será capaz de me admoestar, como já algumas mo fizeram, do alto do seu assumido e estreito feminismo: «Isso já não se usa!»

São, quem sabe?, esta delicadeza incompreendida e dinossáurica, este dirigir-se ainda às pessoas com «por favor» e «desculpe», este não passar à frente nem pôr-se em bicos de pés, que, para um funcionário de secretaria, se traduzem de imediato como: «Grite-me aos ouvidos, enxovalhe-me, pontapeie-me que eu estou inibido e tenho muito medo de si!»

É a minha teoria

terça-feira, maio 22, 2007

A LIBERDADE DE PROIBIR QUE SE SEJA LIVRE DE FUMAR

Perante este poderoso e virtuoso tsunami que é a tentativa de liquidação dos fumadores, venho sentindo a necessidade de dizer uma, talvez duas coisas. Fá-lo-ei, ainda por cima, na posição imperdoável de traidor à minha classe de origem: a de não-fumador.

Fumar tornou-se, aos olhos moralistas e moralizadores do senso comum contemporâneo, num crime terrível, quase ao nível da pedofilia. De um momento para o outro, a sociedade passou a ver no acto de abrir um maço, puxar de um cigarro, levá-lo à boca, acendê-lo, uma espécie de degradação, misto de suicídio lento e de lento homicídio com alguma responsabilidade também na destruição do ambiente.

Fumar é visto como um acto sujo. Fisicamente sujo, porque se trata de contaminar os pulmões e o ar - e os dentes, e os dedos - mas também moralmente sujo, porque se trata de conformar-se ao vício. Multiplicam-se campanhas, ostentam-se fotografias de órgãos completamente destruídos, fala-se das doenças e, suprema humilhação, adverte-se, nos próprios maços, como se os fumadores o não soubessem ou pudessem esquecê-lo, que o tabaco torna impotente, mata, emporcalha o corpo e a alma.

Finalmente, proíbe-se que se fume: e os portugueses, sondados sobre a questão, acham bem; os portugueses gostariam, porventura, que se fosse mais longe; que os fumadores fossem impedidos de fumar em bares, em salões de fumo, em qualquer lado, em todo o lado...

A tirania espreita sob este ideal de um mundo politicamente correcto, perfeito, sem fumadores, nem touradas, nem circos, nem anedotas sobre Alentejanos, ou loiras, ou pretos; sem escolhas, nem risos, nem discordâncias. A mais tremenda das intolerâncias acoita-se, paradoxalmente, nesta pregação da «tolerância justa», que se poderia traduzir no seguinte lema: temos de ser tolerantes com todos aqueles sujeitos «diferentes» que venham enunciados na nossa cartilha - o que significa, ao mesmo tempo, banir e proscrever os «diferentes» errados, os que são capazes de apreciar (por exemplo) espectáculos bárbaros, ou de apreciar um charuto poluidor, ou os cínicos, ou os descrentes...

No meio de tudo, como não-fumador que não gosta que lhe fumem para ao rosto, é certo, e não se cala quando o cigarro incomoda, por exemplo se almoço num restaurante, mas não aceita que queiram proibir o cigarro como possibilidade, como direito, como escolha, apetece-me recordar que o acto de fumar é um acto cultural e mítico, imbuído de simbolismo e de estilo; que pode ser um acto de uma beleza e de uma sensualidade extremas, que a memória do cinema transporta desde sempre; que não é possível evocarmos determinadas imagens ou pessoas sem que se lhes associe o cigarro, de Bogart a Brando, de Malraux a Guevara, de Lucky Luke a Gainsbourg, passando pela Dietrich ou pela Simone de Beauvoir; que foi - e é - tantas vezes um gesto de rebeldia e provocação, que o foi sempre de emancipação, e de aproximação, de comunicação, sedução; ou, como se tudo não bastasse, que é um prazer, um gosto - antes de ser um vício, ou para além de o ser. Ou: ao mesmo tempo que o é.

Tudo isto se paga? Sem dúvida. Em dinheiro, em saúde, em rupturas. Não sei se compensará. Para alguns, teimosos resistentes, fumadores ferrenhos, parece-me óbvio que sim. Sei, como não-fumador assumido, contudo - e estou perfeitamente consciente de cada uma das palavras que passarei a escrever -, que um mundo do qual o tabaco fosse inteiramente banido, juntamente com a elegância do gesto de puxar de um cigarro, ou o de bater com ele sobre o maço, como que para o endireitar - coisa que já não vejo fazer tão frequentemente como via na minha infância -, ou de o acender com o tremeluzir amarelo-azul da chama de um isqueiro, seria um mundo mais pobre, mais seco, mais triste e mais despojado em termos simbólicos, míticos, culturais.
Sei que um mundo em que proibissem Humphrey Bogart de fumar - ou me proibissem de o evocar mergulhado no fumo ténue do seu eterno cigarro - seria um mundo menos rico. E menos livre.

terça-feira, maio 15, 2007

AFORISMOS

O melhor critério para se identificar um paranóico: a coerência da sua interpretação é inatacável e a história que ele conta explica, efectivamente, os pormenores inexplicáveis...

quinta-feira, abril 26, 2007

CRÍTICA TELEVISIVA

Tenho, como aforismo pessoal que a experiência parece insistir em confirmar, a convicção de que as coisas com que mais aprendemos nesta vida não são as coisas bem feitas: são, precisamente pelo contrário, as mal feitas.

Em televisão, o aforismo é continuamente validado.
Há um programa da tarde, com um público-que-aplaude-ao-vivo, construído segundo um conceito que tem como alvo as mulheres idosas e as donas-de-casa, frustradas, de lágrima fácil, e que eu principio sempre por ver ociosamente (e até com aquele ligeiro ar de enfado que, nestas coisas, convém a um intelectual que se preza), mas que, no seguimento, acaba por me prender com a força de um «thriller»; pois bem: afianço-vos que esse programa tem sido, para mim, um verdadeiro poço de ensinamentos.
Para já, ensina-me a que ponto pode descer a tonteria, o desejo de aparecer em televisão, de ganhar uns prémios pindéricos ou a simplicidade com que se consegue fazer rir. Mas mais: depois, a propósito disto ou daquilo, há sempre umas quantas lições a retirar - muitas vezes, carregadas de consequências para outros campos, para outras áreas de interesse.

Neste último programa, tive, diante dos olhos, a razão clara (de que, às vezes, posso esquecer-me no meu dia-a-dia profissional) pela qual um professor nunca deve ir para uma aula sem a ter preparado convenientemente.

Os sucessivos desastres a que a apresentadora foi conduzida pelo facto de não haver preparado as entrevistas com aquelas velhinhas, sobre os «escapes» que tinham encontrado para afugentar os azares e as tristezas da vida.
Assistimos a coisas do género de: «Eu soube que gosta muito de ler», «Ah, quem me dera, não, minha senhora, infelizmente não sei ler», ou: «Já estou a ver que é Alentejana», «Não, sou da Beira-Baixa», ou: «É verdade que não esteve para aturar o seu marido durante muito tempo?», «Ele morreu» (será que foi a senhora que o assassinou, para não o «aturar durante muito tempo»?)

Um programa didáctico, da BBC, poderia ter tido esta força sobre mim, este poder de ilustração e de me colocar perante mim próprio? Duvido.

Bem-haja, TVI.

quinta-feira, abril 12, 2007

UM VULCÃO EM ACTIVIDADE NA ESCOLA

Não planeara participar, com uma turma de dez ou onze alunos, naquela comunicação/debate acerca de imigração. Tratou-se de um convite de última hora e, por «última hora», refiro o intervalo imediatamente anterior ao encontro. Mas porque o momento é, na vida do país, crucial para uma reflexão acerca da imigração e porque a minha pequena turma é constituída, precisamente, por pessoas originárias de Cabo-Verde, Angola e Timor, pareceu-me criminoso perder a oportunidade.

Naturalmente, o que se espera de um encontro deste tipo é, num certo sentido, relativamente pouco e relativamente pobre. Algumas banalidades e algumas ideias feitas, boas intenções e palavras virtuosas, ou seja, o desfiar da habitual cartilha de lugares-comuns «politicamente correctos».

Contudo, o que aconteceu foi outra coisa.

A moderadora, Cristina, muito jovem, que se preparara, talvez, para esse género de conferência «politicamente correcta», virtuosa e moralizadora acerca dos imigrantes, viu-se, bruscamente, confrontada com um vulcão. Natasha, imigrada da ex-Jugoslávia, mãe de duas alunas da escola, esteve presente: entrara tarde, irrompendo e interrompendo exuberantemente, provocando gargalhadas mas, em pouco tempo, conquistando o auditório, intervindo, questionando sistematicamente, interpelando, discordando. E o mais interessante de tudo foi que Cristina que, demasiado jovem, poderia ter-se desequilibrado perante aquela torrente, ou manifestar incómodo, ou remetê-la para o silêncio, soube, pelo contrário e, de facto, brilhantemente, estabelecer o diálogo enriquecedor, aproveitar-lhe as intervenções, criar-lhe o palco, desafiá-la para contar a própria história, para rememorar a própria experiência, as dificuldades com que se debateu num país estranho, a solidão, a saudade.

Natasha fê-lo com um à-vontade e um brilho intensos, com uma luminosidade inenarrável, no seu português desinibido e carregado.
Os mesmos alunos que, como já é hábito, teriam inicialmente a intenção de boicotar a «seca» que se lhes impunha, rindo e brincando a despropósito, calavam-se, estranhamente, muito atentos, tentando seguir a história dramatizada por aquela mulher, aquela actriz fantástica, história que nos rebentava diante dos olhos, num misto de tristeza, de alegria, de humor. Cristina, a sua interlocutora principal, apoiava-a, estimulava-a; ora falava, informando, adiantando dados, ora se retirava, tranquilamente, sem temer que lhe roubassem o protagonismo, delicada, revelando o raro e discreto génio de fazer sobressair os outros, ao invés de querer sobressair a qualquer preço.

Os alunos conversaram, perguntaram, intervieram, Cristina fez ainda ouvir a voz gravada de uma imigrada Cabo-Verdiana, escutada num silêncio religioso, Natasha deu receitas da sua terra e quis ensinar a dançar...

Não diria que foi «informativo», nem «interessante», que também foi; preferiria um adjectivo inabitual para um evento desta natureza: foi belo, foi tudo muito belo; e comovente.

Natasha, que eu já vira representar noutra ocasião, tem sempre o poder, que me embaraça, evidentemente, de me deixar os olhos marejados. É vergonhoso, sobretudo em público e, ainda mais, tratando-se de mim, cultor do cepticismo, da ironia, do sarcasmo e de outras formas de descrença cruel e de pessimismo militante. (Claro, posso usar a velha desculpa: Entrou-me qualquer coisa para o olho...!)

quinta-feira, abril 05, 2007

MAUS ALUNOS E BOAS ALUNAS

Os rapazes e as raparigas da escolaridade obrigatória ou, em resumo, os meninos e as meninas pré-adolescentes e adolescentes são, psicologicamente, muito diferenciáveis. Não só devido a factores de ordem biológica, não só devido a factores de ordem sócio-cultural, mas por uma complexa e intrincadíssima rede de causas orgânicas e educacionais. E os rapazes, que amadurecem com um ritmo próprio (porque desenvolvem aptidões próprias), quer a nível cognitivo, quer a nível afectivo, quer a nível comportamental, estão, por efeito dessas diferenças, destinados a ser os patinhos feios da escola.
O que as instituições do ensino público privilegiam ou, por outras palavras, o que é valorizado pela «escola pública», herdada, no fundo, de um sistema autoritário, apesar de sucessivas e, muitas vezes, caóticas remodelações, é um tipo de «bom aluno» feminino; é um modelo de aluno que só poderia ser uma menina: atenta, tranquila, trabalhadora, cumpridora. Nessas idades, os rapazes dificilmente conseguem corresponder a esse modelo. O seu desenvolvimento é outro, o seu ritmo é diferente - e, em tudo isto, não me parece obra do acaso que as «dislexias», as «hiperactividades» e outras disfunções deste género sejam, em geral, muito mais problemas «masculinos» do que «femininos».
Pergunto-me, diante das minhas turmas, se, de algum modo, os rapazes não são todos, todos eles, naquelas idades, hiperactivos, ou seja, adolescentes incapazes de se concentrar, a não ser parcial e episodicamente, incapazes de se abrir a outrem, incapazes da escuta, ou, simplesmente, de permanecer em silêncio durante muito tempo.
Num regime autoritário, numa escola «à antiga», poderiam sê-lo, naturalmente: estamos a falar da escola salazarista, que molda e modela, que pune e castra. Na escola pós-25 de Abril, em que, por um lado, as relações hierárquicas se modificaram e os valores são, necessariamente, outros (em que, por exemplo, se perdeu o medo em face do poder), mas em que, por outro lado, as expectativas e os critérios dos professores para decidir o que é um «bom aluno» se mantêm inalterados, os rapazes estão em desvantagem.
O sistema não premeia rapazes demasiado rapazes. Não está feito para isso. Varre-os para debaixo do tapete.
O sistema não está preparado para «aturar» outras formas, outros ritmos, outros amadurecimentos, sobretudo se dão maçada aos professores, nem outros interesses, nem um outro tipo de criatividade (que é tipicamente masculina, o que não significa, COMO É EVIDENTE, que não haja uma criatividade feminina) nem uma outra maneira de aprender.
Em termos competitivos (porque o sistema engendra e vive, necessariamente, de uma competição), os rapazes já perderam: os meninos-alunos depreciam-se, não acreditam nas suas capacidades e assumem, à falta de outras saídas, o papel do arruaceiro, do mau aluno orgulhoso de o ser. Abandonam. Só uma minoria - cada vez mais uma minoria - alcança a faculdade.
Os rapazes perderam. O sistema, um sistema que exclui e varre, um sistema feito à medida de um único género, também já perdeu...

domingo, fevereiro 25, 2007

O SAGRADO MOMENTO EM QUE.

Os passarinhos giravam incansavelmente em torno da árvore, pipilando numa autêntica histeria, e eu lembro-me de não ter levado mais do que um minuto a compreender: «Estão a jogar à versão, em pássaro, do jogo das cadeiras. A um sinal, poisam todos nos ramos, e há sempre um que fica de fora...!»

Quando compreendi finalmente o objectivo, atravessei o parque, afastando-me depressa dali. Espirrei. Mau sinal! Ergui a gola do casaco. Não podia apanhar um resfriado neste momento. Não no momento em que entendera o fito dos pássaros, o jogo dos pássaros e, portanto, o sentido do universo.

Entrei na casa velha, de degraus carcomidos, ouvindo uma espécie de eco macabro sob os meus passos incertos. No terceiro andar, sentei-me no chão, exausto, respirando com força, diante da porta esquerda; abracei os meus joelhos, com o queixo fincado neles. Tinha frio. Muito, muito, muito frio. Tremia. Nunca antes, em nenhum outro momento da minha vida, tremera assim. Se eu conseguisse parar o sismo de todo o meu corpo doente e fatigado, se conseguisse pôr-me de pé, se conseguisse bater à porta, tum tum tum, o velho viria abrir-ma, eu contar-lhe-ia o que tinha para lhe contar e talvez (não de certeza mas provavelmente), iria a tempo de salvar o que restava do universo. Caso contrário, seria tarde. Abrir-se-ia, dali a pouco, a outra porta do andar, os vampiros viriam buscar-me, o segredo perder-se-ia.

Levantei-me. Tinha de ser já. Mas, no momento em que, tremente, me preparava para bater à porta, fui acometido por uma derradeira dúvida: «E se me enganei!? E se não era nada disso que os pássaros estavam a fazer...?»

Percebi que se abria uma porta. Era um ruído distinto. Poderia ser a do lado esquerdo, a do velho, que me tivesse ouvido arfar, ou espirrar, ou pensar alto. Ou não. Poderia ser já tarde. Talvez fossem já os vampiros.

Fosse como fosse, fosse quem fosse, lembro-me de ter estabelecido esta regra - talvez última -, naquele momento de indecisão, naquele terrível e pesadíssimo momento em que tudo era ainda possível, ou em que nada era já possível mas eu ainda o não sabia:

REGRA: «Quando se trata de salvar o universo, não devo ter dúvidas, não posso hesitar!»

sábado, fevereiro 10, 2007

UM RESMUNGO A PROPÓSITO DA EXTINÇÃO DE UM PROJECTO PROMISSOR

Repentinamente, descobrimos que a magnífica iniciativa que tanto nos motivava para separar o lixo - que não é propriamente a mais agradável das tarefas, pese embora a sua importância - era uma experiência de curta duração, um teste, um projecto piloto. Chegou ao fim. Não se percebe bem por que razão, já não faz sentido dividirmos a porcaria pelos caixotes que nos tinham oferecido, o amarelo para os plásticos, o azul para o papel, etc etc, e não faz, sobretudo, sentido fixarmos os dias da semana em que devemos pôr cada um dos caixotes à porta para o camião da «Tratolixo» o despejar. Não faz sentido, porque o camião da «Tratolixo» deixará de passar.

Hoje, pela primeira vez em meses, tive de voltar a arcar com um caixote e caminhar com ele, protestando muito, seguido por uma quantidade de cães e de moscas, até ao eco-ponto mais próximo que, tal como as farmácias de serviço quando delas precisamos, nunca é suficientemente perto; e tive de, aí parado, entre dejectos que enchiam o chão em redor do local, pegar no lixo com as mãos para o enfiar, aos poucos, por uma ranhura estreita, como quem coloca sobrescritos num marco de correio. Todo este espectáculo, como se imagina, atentamente observado por um bando de mirones: dois idosos de boina, um deles de bengala, o outro com um palito entre os dentes, e quatro fedelhos encimados por bonés de pala virada para trás. Um dos dos idosos rouquejava qualquer coisa: talvez me desse conselhos. Sobre como pôr melhor os pedaços do lixo? Ao que eu desci...!

O problema não é este. O problema é que, por qualquer razão e com uma explicação que nada explica, se matou, praticamente à nascença, um projecto promissor. Vai regressar? Melhorado, tecnicamente aperfeiçoado? Ousou, no fundo, esperar que sim. Mas ouso, à superfície, duvidar.

Porque a questão portuguesa, a grande questão portuguesa, não é a falta de inteligência: o aparecimento desse projecto mostra-o bem. A questão portuguesa, a grande questão portuguesa, é a estupidez ser menos tímida, estar mais enraizada e esmagar muito cedo o que quer que valha a pena: a extinção desse projecto mostra-o bem

sexta-feira, janeiro 26, 2007

COISAS SÉRIAS E COISAS AINDA MAIS SÉRIAS

Não sei o que vos dirá acerca da minha maturidade e da forma como envergo a roupa de adulto, a confissão de que trato algumas das minhas amigas por «Lara Croft», «Mulher Elástica» ou «Rainha de Inglaterra». Na verdade, se me perguntarem, de repente, qual o verdadeiro nome de cada uma delas, posso embatucar. Verdadeiro nome!? Então elas não são «Lara Croft», «Mulher Elástica», «Rainha de Inglaterra»?

Mas algo de muito sério perpassa no grupo, quando nos reunimos. Mais sério ainda do que as teatradas, com perucas e óculos, à mesa do restaurante, mais sério do que as gargalhadas filtradas pelo tinto, tão sério como a «Lara Croft» me ter surpreendido com a afirmação de que os meus textos transmitem um espírito muito forte na reacção ao azar e à tristeza. Embatuco novamente. É um elogio que me esmaga. A que sou, por uma vez, incapaz de reagir.

Tão sério como isso? Que será? Silêncio absoluto. Pela minha boca não saberão que «Lara Croft» está em missão, às ordens da «Rainha de Inglaterra». Não. Não é por mim que o saberão.

sábado, janeiro 13, 2007

A FUGA

Miguel choramingava, enquanto ia enfiando num lenço vermelho alguns dos seus pertences: uma camisola, um par de cuecas, um de peúgas, cinco carrinhos que a avó lhe oferecera e os cromos dos lutadores de wresteling.
O pai estava furioso: era terrível de se ver, àquela hora da manhã, em roupão, com a barba a despontar como picos de um cacto, o cabelo revolto, um pé enfiado numa pantufa, outro descalço desde que, algures, muitos meses atrás, perdera a segunda pantufa.
A mãe estava zangada, falando muito depressa, à esquina de um ataque de nervos, levantando muito os braços, em camisa de noite mas, curiosamente, cheirando já a perfume.
E a razão de tanta zanga resumia-se a isto: Miguel não tinha fome de manhã. Queriam dar-lhe flocos, mas enjoara-se de todos os tipos de flocos - nem os chocapics, nem os nesquiks, nem as estrelitas, nem os chocolocos, nem os nogat's pillows... Leite simples não tinha graça. Pão, nem pensar. Poderia apetecer-lhe outra coisa, com boa vontade - mas tudo o que lhe poderia apetecer dava trabalho, confusão, exigia uma demorada fabricação: sumo de laranja, papinha de banana e kiwi esmagados minuciosamente com um garfo sobre o prato, maçã ralada com bolacha Maria esmigalhadinha...
O pai argumentava. Primeiro, com toda a calma. Fornecia alternativas. A mãe procurava na despensa. Nada! Miguel parava diante do frigorífico aberto. O pai esgotava a paciência. A mãe percorria a casa de um lado para o outro, desorientada, asmática, triste.
- Come qualquer coisa, Miguel! Qualquer coisa normal! Como os outros meninos!!! Todas as crianças comem pães, comem... comem... comem...
As vozes levantavam-se. A altercação instalava-se, vinha para ficar, os vizinhos ouviam gritos e desapareciam das respectivas próprias casas, ou escondiam-se no mais recôndito delas, um pouco temerosos. Miguel chorava. Não queria. Nada lhe interessava, a não ser...!
O pai entrava, por fim, no capítulo dos disparates. Que estava farto dele. Que ele ia ser responsável pela sua morte. Que a tensão vinha disparando... Pudera!!!
A mãe fechava-se na casa de banho.
Mandavam-no, pois, de castigo para o quarto. Não sairia enquanto não viesse com a disposição de comer qualquer coisa normal... pouco, podia até ser pouco, umas colheradas, umas goladas mas, sobretudo, qualquer coisa «normal».

No quarto, tomada a decisão, preparada a sua trouxa, saiu pela janela. Era um infeliz. Mas a vida esperava por ele, saturada dessa felicidade que os pais lhe negavam sistematicamente, pronta a abraçá-lo com centenas de aventuras e descobertas. Ainda haveria piratas? O pai costumava responder-lhe: «Há, se há! Cada vez mais, filho!» - talvez o aceitassem...? Ou infiltrar-se-ia clandestinamente? Terras por descobrir, mulheres por amar! A Teresinha iria ter saudades dele? E lembrando-se de Tereseninha, por quem se apaixonara destravadamente mas que, alertada por um terceiro, lhe fora dizer, cheia de sardas, mais bonita do que nunca, «Olha, Miguel, vamos ser só amigos, tá bem?» - lembrando-se dela, não aguentou mais e desatou a chorar com lágrimas grossas. Sentia-se triste, sentia fúria, estava pronto a revoltar-se com o mundo inteiro, a tornar-se muçulmano, pilotando aviões contra prédios, sentia uma melncolia no peito, ou na barriga, sentia... o quê, fome!?

Regressou a casa.
Pôs leite na sua caneca, encheu-a de flocos. Comeu. Partiria depois...