Estava quase a entrar em desespero quando, na garagem do centro comercial, por um mero acaso, daqueles que só podem acontecer: a) na vida real (e aí, de facto, ocorrem constantemente; ou: b) numa história escrita por um autor medíocre, com dificuldades em encontrar soluções complexas -, por um mero acaso viu a senhora entrando para um carro enorme, de cor grená. A partir daí, foi simples; seguiu-a. Montou uma vigilância apertada, acompanhando-a por um par de binóculos, colocando escutas na sua casa; estava, pois, preparado para perceber que o livro ia ser oferecido. Seguiu-a de novo, no dia dos meus anos. Montou um aparato de vigilância diante de minha casa. Viu-me, pelos mesmos binóculos, receber o livro.
Quando lhe repeti que o dinheiro me desaparecera por entre os dedos como berlindes (estou a tentar redimir-me da «coincidência» com que resolvi o problema lá em cima, procurando agora imagens literárias pouco usuais...), respondeu-me que ficava muito triste. Mais do que isso: o fulano com ar de porquinho, que estava tão atento à nossa conversa, acrescentou o baixote, apontando-o discretamente, era alguém a quem ele, por sua vez, devia todo aquele dinheiro; pertencia a um grupo perigosíssimo, e que marcara com ele um encontro para dali a meia hora. Percebi que o baixote não era mau. Alguém tão encalacrado como eu, simplesmente. Os preços da gasolina aumentavam (piscar de olho realista ao quotidiano português), as pessoas metiam-se em todos os expedientes para sobreviver, vendiam a alma ao diabo e depois...! O homem chorava diante de mim.
Prometi-lhe precipitadamente que ia fazer tudo o que estava ao meu alcance para reaver o dinheiro. Vi-o a agradecer-me, segurando-me a mão com as duas mãos muito rechonchudas e peludas. Combinámos prazos. Retirei-me, preocupado.
A verdade é que não fazia a menor ideia do que poderia decidir para produzir cinquenta mil euros em duas semanas. Como gastá-los, sim, sobre isso tinha ideias claras. Mas «ganhá-los»...!
Quando descia pelo tapete rolante, fui ultrapassado por uma criança que fugia aos pais. Tudo se deu então muito velozmente. O casal vinha atrás, com um carrinho com algumas compras, não muitas porque ninguém, hoje em dia, compra muito (segundo piscar de olhos realista), mas foi o suficiente para, na aflição que se seguiu, me atropelarem, pisarem, esmagarem. A boa notícia é que conseguiram salvar a criança antes que lhe acontecesse algo de ruim. A má notícia também não é inteiramente uma má notícia. Mais do que o carrinho, o peso enorme do pai da criança, aterrando elefantasticamente sobre o meu peito para segurar o menino no ar, foi-me fatal.
A notícia não é má porque, na verdade, a morte salvou-me de um problema que eu não saberia resolver em vida: ganhar cinquenta mil euros em duas semanas!
Fico um pouco atormentado, porque sei que a vida não irá ser fácil, nos próximos tempos, para o meu recente amigo, baixote, careca e caixa-de-óculos.
Mas não muito atormentado porque, neste campo onde acabo de penetrar, sinto que todos os problemas se transformam, ganham contornos diferentes e um outro ar. Nada do que nos afligia na terra tem demasiada importância. Em contrapartida, simples questões que nunca nos haviam ocorrido tornam-se, repentinamente, substanciais, como: espero que, para onde terei de me dirigir, não haja ninguém a tocar harpa. Não eternamente, pelo menos!!!
Tenho de ir, seja lá como for. Há uma luz a acenar-me, lá ao longe...
quarta-feira, junho 11, 2008
quarta-feira, junho 04, 2008
O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [V]
A leitura do jornal despertou-me com tamanha força o espírito confundido, que não me restaram quaisquer dúvidas a propósito da evidência de estar morto. (Tinha havido, até, em vida, momentos em que eu estivera menos certo de me encontrar vivo do que, agora, estava certo de ter morrido).
Ao mesmo tempo, por efeito deste choque, a memória devolveu-me o filme dos últimos acontecimentos:
O baixote contara-me, enquanto eu me voltava para ele com o nariz completamente encervejado, que, um dia, estava ele na posse daquele dinheiro - cuja proveniência desonesta não interessa aqui esmiuçar - quando se apercebeu de que uns agentes da lei o perseguiam. Não podia ser interceptado com cinquenta mil euros num volume que já aqui chamei «pacote» e também já chamei «sobrescrito», mas, em suma, era muito menos espesso do que aquilo que se pudesse imaginar! Desesperado, tentou despistá-los: entrava em lojas de roupa cujos nomes não sugeriam roupa, como Mango ou Escada, escondendo-se nas barraquinhas de prova, escapando-se por portas dos fundos, mas os agentes não se afastavam nem um milímetro. Entrou na Bulhosa. Chocou com uma senhora idosa: ajudou-a a apanhar do chão uns embrulhos, mais um livro que ela se preparava para pedir que embrulhassem para oferta e, sorrateiramente, introduziu o dinheiro entre as páginas deste. Pediu desculpas e desandou, sentindo-se o homem mais livre e mais leve da História da Humanidade!
A polícia apanhou-o, por fim, à porta da livraria, revistou-o ali mesmo mas, como é bom de ver, nada achou! Dava-se ao luxo de ser irónico, fazer humor, raiar o sarcasmo, «Os senhores perderam alguma coisa? Posso ajudar?», certo de que o dinheiro...
Aliás, onde estava o dinheiro!? Diacho! No livro da velha, sim, mas onde raio se metera, entretanto, a velha? Perdera-a completamente de vista...
[CONTINUA]
Ao mesmo tempo, por efeito deste choque, a memória devolveu-me o filme dos últimos acontecimentos:
O baixote contara-me, enquanto eu me voltava para ele com o nariz completamente encervejado, que, um dia, estava ele na posse daquele dinheiro - cuja proveniência desonesta não interessa aqui esmiuçar - quando se apercebeu de que uns agentes da lei o perseguiam. Não podia ser interceptado com cinquenta mil euros num volume que já aqui chamei «pacote» e também já chamei «sobrescrito», mas, em suma, era muito menos espesso do que aquilo que se pudesse imaginar! Desesperado, tentou despistá-los: entrava em lojas de roupa cujos nomes não sugeriam roupa, como Mango ou Escada, escondendo-se nas barraquinhas de prova, escapando-se por portas dos fundos, mas os agentes não se afastavam nem um milímetro. Entrou na Bulhosa. Chocou com uma senhora idosa: ajudou-a a apanhar do chão uns embrulhos, mais um livro que ela se preparava para pedir que embrulhassem para oferta e, sorrateiramente, introduziu o dinheiro entre as páginas deste. Pediu desculpas e desandou, sentindo-se o homem mais livre e mais leve da História da Humanidade!
A polícia apanhou-o, por fim, à porta da livraria, revistou-o ali mesmo mas, como é bom de ver, nada achou! Dava-se ao luxo de ser irónico, fazer humor, raiar o sarcasmo, «Os senhores perderam alguma coisa? Posso ajudar?», certo de que o dinheiro...
Aliás, onde estava o dinheiro!? Diacho! No livro da velha, sim, mas onde raio se metera, entretanto, a velha? Perdera-a completamente de vista...
[CONTINUA]
domingo, junho 01, 2008
O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [IV]
Acordei, nessa tarde, em casa. Estava estendido na cama, sentindo o corpo estranhamente flutuante, e não me lembrava quase de nada do que me sucedera. Imagens vagas de um cara-de-porquinho confundiam-se com as de um caixa-de-óculos baixote, calvo e mau; mas, como nos sonhos, as minhas memórias compunham, decompunham e recompunham diversos aspectos de ambas as personagens, de modo que eu já não sabia que traço era realmente de quem.
Uma coisa em que reparei foi que não estava ferido.
Soube somente no dia seguinte, pelos jornais, que eu tinha morrido.
E então, de repente, tudo se me afinou e aclarou no espírito.
(CONTINUA)
Uma coisa em que reparei foi que não estava ferido.
Soube somente no dia seguinte, pelos jornais, que eu tinha morrido.
E então, de repente, tudo se me afinou e aclarou no espírito.
(CONTINUA)
quarta-feira, maio 28, 2008
O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [III]
Em que gastara eu cinquenta mil euros?! Mal sei: a maioria do dinheiro, suponho, foi-se quando tomei a imponderada decisão de encher o depósito com gasolina. O certo é que, pouco depois de umas comprinhas, estava com o sobrescrito vazio.
O baixote prendeu-me o cotovelo e conduziu-me à zona de cafés. «Temos de ter uma conversa muito séria!», rosnou-me ele. «Há coisas que não estás a compreender...» - ia mudando o tratamento, de um «você» que mantinha uma distância atemorizadora, para o «tu» que me reduzia, por antecipação, à insignificância a que me reduziriam, fisicamente, talvez dali a um momento...
Sentámo-nos.
Perguntou-me, com uma delicadeza fria, o que queria tomar. Pedi uma imperial. (Não devia, talvez, por causa do meu problema com a bebida!)
Na mesa ao lado, o cara-de-porquinho seguia-me atentamente, procurava-me, agora, com o mesmo olhar que tanto me escapara antes.
O baixote voltou, com duas imperiais.
Senti o meu nariz, demasiado grande para ficar fora do copo, mergulhar na cerveja fria. (Não sei se já tinha explicado que é nisso que consiste o meu problema com a bebida...)
CONTINUA
O baixote prendeu-me o cotovelo e conduziu-me à zona de cafés. «Temos de ter uma conversa muito séria!», rosnou-me ele. «Há coisas que não estás a compreender...» - ia mudando o tratamento, de um «você» que mantinha uma distância atemorizadora, para o «tu» que me reduzia, por antecipação, à insignificância a que me reduziriam, fisicamente, talvez dali a um momento...
Sentámo-nos.
Perguntou-me, com uma delicadeza fria, o que queria tomar. Pedi uma imperial. (Não devia, talvez, por causa do meu problema com a bebida!)
Na mesa ao lado, o cara-de-porquinho seguia-me atentamente, procurava-me, agora, com o mesmo olhar que tanto me escapara antes.
O baixote voltou, com duas imperiais.
Senti o meu nariz, demasiado grande para ficar fora do copo, mergulhar na cerveja fria. (Não sei se já tinha explicado que é nisso que consiste o meu problema com a bebida...)
CONTINUA
sexta-feira, maio 23, 2008
O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [II]
Muito nervoso, amedrontado mesmo, com a imaginação excitada, a mente a trabalhar num velocíssimo desfiar de hipóteses, a verdade é que no dia marcado, à hora exacta, lá estava eu no local que as coordenadas me indicavam.
Sentei-me no banco metálico, que era desconfortável, sem costas - e contra o qual, alguns segundos antes da minha chegada, um senhor idoso (e, possivelmente, com péssima visão) esbarrara, provocando um ruído horroroso, o qual me sobressaltara como o estampido de uma arma.
Agora, mais calmo mas, infelizmente, não muito mais calmo, ouvindo a mulher que ralhava ao senhor idoso, «És sempre o mesmo, cum camandro! Mas não viste o banco ó quê?! Precisas dum cão de guarda ó quê?», deixei-me estar sentado, de pernas juntas, joelhos unidos, como se estivesse de saia, e com o livro pousado no regaço.
Ainda nem um minuto passara, quando reparei em um rapaz que se me sentara ao lado. Cabelo armado num edifício de gel, nariz arrebitado, ar de porquinho. Não se tratava propriamente do género «facínora» que eu esperava e que a minha imaginação compusera. Num certo sentido, não sei dizer se me senti aliviado, se frustrado...
Tentei chamar-lhe discretamente a atenção.
Tamborilei insistentemente com um dedo sobre o livro. Depois, com os cinco dedos, um por um, de uma forma enervante: trrrlic, trrrlic. Sacudia a perna, num movimento nervoso. Sorri-lhe. Pisquei-lhe o olho, como num tique. Vi-o olhar-me fixamente. Mas sentia-o embaraçado, incomodado. A desviar os olhos. Quanto mais eu lhe procurava o olhar, mais o dele me fugia. E, finalmente, para minha estupefacção, o porquinho levantou-se e foi-se embora. Já só se avistava a poupa de gel lá na linha do horizonte, prestes a desaparecer...
Que fazer? Devia segui-lo? Começara até a desconfiar de que não se tratava da pessoa que eu tinha de encontrar, mas que ocorrera um terrível equívoco.
Nesse momento, a voz gutural soou-me nas costas.
- Traz o livro?
Voltei-me. Era um homem baixo, completamente calvo, de óculos extremamente graduados. A uma primeira impressão, não atemorizava. Mas a uma impressão mais detida, algo nele se tornava rapidamente aterrorizador: era um daqueles indivíduos exageradamente baixos que, por via de um preconceito politicamente incorrecto, imaginamos capazes de tudo, das piores violências, dos crimes mais hediondos.
Entreguei-lhe o livro, com as mãos a tremer.
Passou rapidamente as páginas, sem encontrar nada entre elas.
- Está a brincar? Quer brincar, é?
Eu sabia que ele queria o dinheiro - que diacho me passara pela cabeça quando o começara a gastar e, em poucas horas, percebera que já não tinha nada, rigorosamente, literalmente - nada..?!
(CONTINUA)
Sentei-me no banco metálico, que era desconfortável, sem costas - e contra o qual, alguns segundos antes da minha chegada, um senhor idoso (e, possivelmente, com péssima visão) esbarrara, provocando um ruído horroroso, o qual me sobressaltara como o estampido de uma arma.
Agora, mais calmo mas, infelizmente, não muito mais calmo, ouvindo a mulher que ralhava ao senhor idoso, «És sempre o mesmo, cum camandro! Mas não viste o banco ó quê?! Precisas dum cão de guarda ó quê?», deixei-me estar sentado, de pernas juntas, joelhos unidos, como se estivesse de saia, e com o livro pousado no regaço.
Ainda nem um minuto passara, quando reparei em um rapaz que se me sentara ao lado. Cabelo armado num edifício de gel, nariz arrebitado, ar de porquinho. Não se tratava propriamente do género «facínora» que eu esperava e que a minha imaginação compusera. Num certo sentido, não sei dizer se me senti aliviado, se frustrado...
Tentei chamar-lhe discretamente a atenção.
Tamborilei insistentemente com um dedo sobre o livro. Depois, com os cinco dedos, um por um, de uma forma enervante: trrrlic, trrrlic. Sacudia a perna, num movimento nervoso. Sorri-lhe. Pisquei-lhe o olho, como num tique. Vi-o olhar-me fixamente. Mas sentia-o embaraçado, incomodado. A desviar os olhos. Quanto mais eu lhe procurava o olhar, mais o dele me fugia. E, finalmente, para minha estupefacção, o porquinho levantou-se e foi-se embora. Já só se avistava a poupa de gel lá na linha do horizonte, prestes a desaparecer...
Que fazer? Devia segui-lo? Começara até a desconfiar de que não se tratava da pessoa que eu tinha de encontrar, mas que ocorrera um terrível equívoco.
Nesse momento, a voz gutural soou-me nas costas.
- Traz o livro?
Voltei-me. Era um homem baixo, completamente calvo, de óculos extremamente graduados. A uma primeira impressão, não atemorizava. Mas a uma impressão mais detida, algo nele se tornava rapidamente aterrorizador: era um daqueles indivíduos exageradamente baixos que, por via de um preconceito politicamente incorrecto, imaginamos capazes de tudo, das piores violências, dos crimes mais hediondos.
Entreguei-lhe o livro, com as mãos a tremer.
Passou rapidamente as páginas, sem encontrar nada entre elas.
- Está a brincar? Quer brincar, é?
Eu sabia que ele queria o dinheiro - que diacho me passara pela cabeça quando o começara a gastar e, em poucas horas, percebera que já não tinha nada, rigorosamente, literalmente - nada..?!
(CONTINUA)
sábado, maio 17, 2008
O MISTÉRIO DA PRENDA COM PRENDA OCULTA [I]
Numa altura da minha vida em que o dinheiro escasseava (o que é vago: isto poderia, portanto, ter-se passado em qualquer ponto da minha vida...), uma tia de bom coração ofereceu-me certa prenda. Já vão ver que há aqui um mistério: interpretei-o do seguinte modo - como ela julgasse que eu nunca aceitaria uma oferta em «dinheiro» propriamente dito (ah, como as pessoas me conhecem mal), presenteava-me com um livro. Mas, eis o mistério, dentro do livro, discretamente, encontrava-se um pacote contendo... leiam com calma... cinquenta mil Euros.
Que raio teria passado pela cabeça à senhora minha tia? Que, quando eu viesse a descobrir, pensaria que era dinheiro meu, que não me lembrava de ter guardado ali?! Ou que me ocorreria que ela se esquecera ali das notas, e que acabasse ficando com elas para mim, em vez de as devolver...?! (Deus do céu! Como mesmo as pessoas que me conhecem mal em alguns aspectos me conhecem tão bem noutros...)
Seja como for, estas ou outras possíveis interpretações para o estranho facto só me surgiram muito mais tarde. Eu não dera logo pelo misterioso pacote! A verdade é que o livro nunca me interessou. Não o abri, sequer. Deixei-o em cima de uma estante, sujeito ao paciente trabalho do pó, da traça e das aranhas!
Bem via que a minha tia, visitando-me, me perguntava, de vez em quando, se eu gostara do livro. E em que parte ia. Ora eu mentia-lhe com quantos dentes possuo. Que era muito interessante, sim, e já estava quase no fim... falava-lhe de personagens recambolescas, de aventuras bizarras, na esperança de que a minha própria tia nunca tivesse lido o romance em causa.
Há precisamente uma semana, o livro abriu-se. Não o abri; abriu-se. Por acaso, por acidente. Na verdade, caiu ao chão, revelando-me pela primeira vez o sobrescrito e, no interior deste, os cinquenta mil Euros!
Fiquei interdito. Não compreendia. Peguei nas notas, contei-as, recontei-as.
Nesse momento, ou por coincidência ou porque me vigiavam, recebi um telefonema.
E uma voz gutural, que não era, certamente, a da minha tia, disse-me com rispidez:
- Trata de ir entregar o livro no Oeiras Parque. Ponto de encontro: a cadeirinha metálica em frente da perfumaria. Ao lado da Bulhosa. Domingo, às quinze. Não faltes!
(CONTINUA)
Que raio teria passado pela cabeça à senhora minha tia? Que, quando eu viesse a descobrir, pensaria que era dinheiro meu, que não me lembrava de ter guardado ali?! Ou que me ocorreria que ela se esquecera ali das notas, e que acabasse ficando com elas para mim, em vez de as devolver...?! (Deus do céu! Como mesmo as pessoas que me conhecem mal em alguns aspectos me conhecem tão bem noutros...)
Seja como for, estas ou outras possíveis interpretações para o estranho facto só me surgiram muito mais tarde. Eu não dera logo pelo misterioso pacote! A verdade é que o livro nunca me interessou. Não o abri, sequer. Deixei-o em cima de uma estante, sujeito ao paciente trabalho do pó, da traça e das aranhas!
Bem via que a minha tia, visitando-me, me perguntava, de vez em quando, se eu gostara do livro. E em que parte ia. Ora eu mentia-lhe com quantos dentes possuo. Que era muito interessante, sim, e já estava quase no fim... falava-lhe de personagens recambolescas, de aventuras bizarras, na esperança de que a minha própria tia nunca tivesse lido o romance em causa.
Há precisamente uma semana, o livro abriu-se. Não o abri; abriu-se. Por acaso, por acidente. Na verdade, caiu ao chão, revelando-me pela primeira vez o sobrescrito e, no interior deste, os cinquenta mil Euros!
Fiquei interdito. Não compreendia. Peguei nas notas, contei-as, recontei-as.
Nesse momento, ou por coincidência ou porque me vigiavam, recebi um telefonema.
E uma voz gutural, que não era, certamente, a da minha tia, disse-me com rispidez:
- Trata de ir entregar o livro no Oeiras Parque. Ponto de encontro: a cadeirinha metálica em frente da perfumaria. Ao lado da Bulhosa. Domingo, às quinze. Não faltes!
(CONTINUA)
quinta-feira, maio 15, 2008
DESABAFO PESSIMISTA... OU ENTÃO, ENTENDAM-NO LÁ COMO QUISEREM!
ACERCA DAQUELA ESPÉCIE DE DISTRACÇÃO EM FACE DO QUE É PERFEITO
A perfeição não é tão difícil de se alcançar como isso: basta vigiar os pormenores e exigir que todos se ajustem numa exactidão relojoeira.
O problema da perfeição não é, pois, o da dificuldade no seu cumprimento: e sim o de que, uma vez feitas as coisas perfeitas, ninguém as note. Parecem tão certas, tão «como deviam ser», que nada nelas é notável.
Acreditem em mim: as pessoas só se dignam reparar nas coisas, quando lhes descobrem defeitos - e, então, acordam da sua distracção habitual, propõem-se emendar, dão conselhos e sugestões. Ah! Se fossem elas...!!!
Essa é uma das três razões pelas quais prefiro apostar na imperfeição.
As outras duas? Vou silenciá-las. Também não ando a tentar escrever um texto perfeito...
A perfeição não é tão difícil de se alcançar como isso: basta vigiar os pormenores e exigir que todos se ajustem numa exactidão relojoeira.
O problema da perfeição não é, pois, o da dificuldade no seu cumprimento: e sim o de que, uma vez feitas as coisas perfeitas, ninguém as note. Parecem tão certas, tão «como deviam ser», que nada nelas é notável.
Acreditem em mim: as pessoas só se dignam reparar nas coisas, quando lhes descobrem defeitos - e, então, acordam da sua distracção habitual, propõem-se emendar, dão conselhos e sugestões. Ah! Se fossem elas...!!!
Essa é uma das três razões pelas quais prefiro apostar na imperfeição.
As outras duas? Vou silenciá-las. Também não ando a tentar escrever um texto perfeito...
quarta-feira, maio 14, 2008
ASSALTO À ESQUADRA
O Sargento Sintra - parente afastado da cançonetista Mónica Sintra, que aliás o não conhecia e nunca dele sequer ouvira falar, embora o Sargento tivesse, pelo contrário, um enorme orgulho nessa vaga ligação de sangue - não tinha nem profissão, nem aspecto de homem romântico. Quanto à profissão, era polícia: um digno agente da PSP; quanto ao aspecto, digamos que tinha cerca de dois entroncados metros de altura, nariz partido, cicatrizes no queixo - porque se lhe tornava difícil fazer a barba sem se ferir -, sobrancelhas hirsutas. E todavia, na alma deste homem de rosto e corpo poderosos, quase brutais, ressoavam fios e roldanas de uma delicadeza e de uma sensibilidade insuspeitadas; por tudo lhe vinham lágrimas aos olhos; a sua emoção era forte, constante, prestes a disparar ao menor pretexto...
Estava nesse dia sozinho na esquadra da Rua Alexandre Herculano, regando os seus gerânios, quando o jovem entrou por ali adentro.
O jovem vinha aflito. O Sargento Sintra teve de pousar o regadorzinho, contornar a secretária para se sentar e poder dar-lhe atenção.
- Boa noite. O que deseja?
- Eles bateram-me. Eu quero apresentar queixa!
- Calma, calma, calma! Vamos lá ver. «Eles». «Eles», quem? Hein? Quem são «eles»?
Entretanto, lá fora, principiava a ouvir-se um tumulto. Uma vozearia insistente. Gritos desrespeitosos. Talvez mesmo obscenidades.
- Pelo amor de Deus - gritava o jovem -, chame os seus companheiros. Reúna as forças da esquadra. Acho que vêm aí todos!
- Quais forças, homem? As forças da esquadra somos eu e as minhas flores. Não está cá mais ninguém!
- Mais ninguém?
- Mas o que é que aconteceu, afinal?
- Mais ninguém?
- Calma. Diga-me lá, então...
- Mais ninguém?!
«Mais ninguém», na verdade, foi a última coisa que o jovem pôde pronunciar. Porque uma vintena ou até uma trintena de rapazes, de uma agressividade a rebentar pelas costuras, com uma inacreditável desfaçatez, entrava pela esquadra, aos berros, batendo com os tacões, esmurrando paredes. Eram feios e porcos.
- Anda cá, maricão!
- Vens a fugir para a mamã?
- Mostra-te!
Eles não disseram algumas das palavras por que aqui optei, disseram outras que prefiro não escrever. Por exemplo: «maricão»! É evidente que não chamavam «maricão». Usaram outras expressões de que resguardo o meu textinho.
O polícia poeta não queria crer. Ali. Ali dentro. No santuário da Autoridade! Tentou fazer frente. Não podia. Nem os seus dois metros lhe serviram. Viu, meio oculto, o grupo segurar violentamente no jovem, bater-lhe, espremê-lo, desdentá-lo. Viu-os saindo, a arrastar a pobre criatura pelos pés.
- Não há direito! - exclamou, com lágrimas nos olhos, com lágrimas na voz. - Não respeitam nada. - E, por fim, olhando com uma piedade que lhe chegava do mais profundo do seu: - os meus gerânios!!!
Estava nesse dia sozinho na esquadra da Rua Alexandre Herculano, regando os seus gerânios, quando o jovem entrou por ali adentro.
O jovem vinha aflito. O Sargento Sintra teve de pousar o regadorzinho, contornar a secretária para se sentar e poder dar-lhe atenção.
- Boa noite. O que deseja?
- Eles bateram-me. Eu quero apresentar queixa!
- Calma, calma, calma! Vamos lá ver. «Eles». «Eles», quem? Hein? Quem são «eles»?
Entretanto, lá fora, principiava a ouvir-se um tumulto. Uma vozearia insistente. Gritos desrespeitosos. Talvez mesmo obscenidades.
- Pelo amor de Deus - gritava o jovem -, chame os seus companheiros. Reúna as forças da esquadra. Acho que vêm aí todos!
- Quais forças, homem? As forças da esquadra somos eu e as minhas flores. Não está cá mais ninguém!
- Mais ninguém?
- Mas o que é que aconteceu, afinal?
- Mais ninguém?
- Calma. Diga-me lá, então...
- Mais ninguém?!
«Mais ninguém», na verdade, foi a última coisa que o jovem pôde pronunciar. Porque uma vintena ou até uma trintena de rapazes, de uma agressividade a rebentar pelas costuras, com uma inacreditável desfaçatez, entrava pela esquadra, aos berros, batendo com os tacões, esmurrando paredes. Eram feios e porcos.
- Anda cá, maricão!
- Vens a fugir para a mamã?
- Mostra-te!
Eles não disseram algumas das palavras por que aqui optei, disseram outras que prefiro não escrever. Por exemplo: «maricão»! É evidente que não chamavam «maricão». Usaram outras expressões de que resguardo o meu textinho.
O polícia poeta não queria crer. Ali. Ali dentro. No santuário da Autoridade! Tentou fazer frente. Não podia. Nem os seus dois metros lhe serviram. Viu, meio oculto, o grupo segurar violentamente no jovem, bater-lhe, espremê-lo, desdentá-lo. Viu-os saindo, a arrastar a pobre criatura pelos pés.
- Não há direito! - exclamou, com lágrimas nos olhos, com lágrimas na voz. - Não respeitam nada. - E, por fim, olhando com uma piedade que lhe chegava do mais profundo do seu: - os meus gerânios!!!
terça-feira, maio 06, 2008
E TALVEZ ESTA MENSAGEM QUE EU DESCOBRI EXPLIQUE ALGUMA COISA...!
Aqui onde vivo, em S. Domingos de Rana, Huhuhuhuh, vou-me dedicando a alguma magia cinzenta. Definição: magia que não chega a ser negra, não provoca grandes danos nem males tremendos, é simplesmente embirrenta.
Volto-a sobretudo contra benfiquistas que passam pela rotunda a uma certa hora matinal.
Eu não devia. Os benfiquistas, coitados, já andam com demasiadas tristezas na vida, não precisavam disto. Mas que querem? É irresistível.
A rotunda está enguiçada. Soube que há quem entre em contacto com o Além. Com o Arthur C. Clark inclusivamente.
Deixá-los.
Tenho aqui um «matchbox» pequenino, com um bonequinho lá dentro: o boneco tem asas e umas botas novas. Quando chega a hora aprazada, zás! Prendo a direcção e os pneus.
E divirto-me assim.
Professor Karamba
Volto-a sobretudo contra benfiquistas que passam pela rotunda a uma certa hora matinal.
Eu não devia. Os benfiquistas, coitados, já andam com demasiadas tristezas na vida, não precisavam disto. Mas que querem? É irresistível.
A rotunda está enguiçada. Soube que há quem entre em contacto com o Além. Com o Arthur C. Clark inclusivamente.
Deixá-los.
Tenho aqui um «matchbox» pequenino, com um bonequinho lá dentro: o boneco tem asas e umas botas novas. Quando chega a hora aprazada, zás! Prendo a direcção e os pneus.
E divirto-me assim.
Professor Karamba
sexta-feira, abril 25, 2008
OS RATOS DO GUARDA-FATOS [IV E ÚLTIMO]
Durante três dias e meio, não dei por que houvesse a menor alteração nas nossas vidas.
Na tarde do quarto dia, contudo, os ratos haviam desaparecido.
Rejubilei. Entoeei cânticos, executei a dança da vitória, chorei de tanto rir. Mandei instalar uma nova fechadura no guarda-fatos, calafetei buracos e fendas; lanchei com um apetite que já não conhecia desde o princípio daquela fatídica invasão...
Durante um lento e longo dia, nada de novo aconteceu. Parecia que tinham retornado ao seu planeta. Mais tarde, apercebi-me de que reinava uma inexplicável confusão no quintal do vizinho, o arrogante proprietário de flores; instalei-me, pois, à varanda, meio oculto, confortavelmente sentado numa cadeira reclinável, com um par de binóculos em punho, para não perder os mais minúsculos detalhes (posto que os detalhes são, frequentemente, a parte mais divertida de cenas cómicas), uma mesinha à mão de semear, repleta de pratos de amendoíns, bolachinhas, queijinhos. Ria-me, num quase insuportável gozo íntimo, que me abanava os ombros em frouxos de um riso contínuo e canino. Observava atentamente o caos.
De facto, não entendia o que sucedia. Hoje, pelo contrário, sei-o perfeitamente! Oh, se sei. Amaldiçoo o meu plano, aquela alegria de curta duração: o doido das petúnias tornara-se, não sei como nem graças a que medida, talvez com a ajuda de uma flauta, no incontestado líder das ratazanas. Vejo-os a todos, pelos meus binóculos (e estou sem vontade de continuar comendo amendoíns), vejo-os a construir poderosas e horrorosas armas. O quintal encheu-se de instrumentos bélicos. Que, ou quem, planearão eles invadir? Que acontecerá ao mundo? Pior do que isso: que será da minha casinha, que tanto me tem custado pagar?
Vejo-os, pois, esquecidos das flores, trajando Hugo Boss e Luigi Camapheu, armando perturbadores e suspeitos canhões, tanques e bazukas de raios lazer, naves e helicópteros davincianos.
Preparo a defesa. Guardo mantimentos: amendoíns, bolachinhas, batata frita, queijos. Cerro janelas. Não me matarão facilmente. Enviei Amélia e os garotos para casa da mãe. Espero-os de pé. Com um capacete esverdinhado - prefiro escrever deste modo a palavra, ao invés do sensaborão «esverdeado» - cheio de figuras dos Simpson!
FIM
Na tarde do quarto dia, contudo, os ratos haviam desaparecido.
Rejubilei. Entoeei cânticos, executei a dança da vitória, chorei de tanto rir. Mandei instalar uma nova fechadura no guarda-fatos, calafetei buracos e fendas; lanchei com um apetite que já não conhecia desde o princípio daquela fatídica invasão...
Durante um lento e longo dia, nada de novo aconteceu. Parecia que tinham retornado ao seu planeta. Mais tarde, apercebi-me de que reinava uma inexplicável confusão no quintal do vizinho, o arrogante proprietário de flores; instalei-me, pois, à varanda, meio oculto, confortavelmente sentado numa cadeira reclinável, com um par de binóculos em punho, para não perder os mais minúsculos detalhes (posto que os detalhes são, frequentemente, a parte mais divertida de cenas cómicas), uma mesinha à mão de semear, repleta de pratos de amendoíns, bolachinhas, queijinhos. Ria-me, num quase insuportável gozo íntimo, que me abanava os ombros em frouxos de um riso contínuo e canino. Observava atentamente o caos.
De facto, não entendia o que sucedia. Hoje, pelo contrário, sei-o perfeitamente! Oh, se sei. Amaldiçoo o meu plano, aquela alegria de curta duração: o doido das petúnias tornara-se, não sei como nem graças a que medida, talvez com a ajuda de uma flauta, no incontestado líder das ratazanas. Vejo-os a todos, pelos meus binóculos (e estou sem vontade de continuar comendo amendoíns), vejo-os a construir poderosas e horrorosas armas. O quintal encheu-se de instrumentos bélicos. Que, ou quem, planearão eles invadir? Que acontecerá ao mundo? Pior do que isso: que será da minha casinha, que tanto me tem custado pagar?
Vejo-os, pois, esquecidos das flores, trajando Hugo Boss e Luigi Camapheu, armando perturbadores e suspeitos canhões, tanques e bazukas de raios lazer, naves e helicópteros davincianos.
Preparo a defesa. Guardo mantimentos: amendoíns, bolachinhas, batata frita, queijos. Cerro janelas. Não me matarão facilmente. Enviei Amélia e os garotos para casa da mãe. Espero-os de pé. Com um capacete esverdinhado - prefiro escrever deste modo a palavra, ao invés do sensaborão «esverdeado» - cheio de figuras dos Simpson!
FIM
terça-feira, abril 22, 2008
OS RATOS DO GUARDA-FATOS [III]
De maneira que tive de urdir um plano.
Comecei a tecê-lo, com a pérfida minúcia e a paciência da aranha, num dia em que o um dos vizinhos me veio devolver, por uma orelha, o meu próprio filho que, segundo ele, lhe amassara as petúnias - julgo que seriam petúnias... - sob a inclemente roda da bicicleta.
Ora bem! Sinto uma extrema comoção quando vejo o meu filho montando a sua bicicleta colorida. Dá-me uma dor funda no peito, algo como piedade, sempre que o miudo passa, diante dos meus olhos, com um absurdo capacete às três pancadas. Poquê piedade, porquê um tão deslocado sentimento? Talvez porque haja, naquele capacete esverdinhado, com figuras dos Simpson estampadas, qualquer coisa de ridículo e profundamente infantil, que faz chegarem-me as lágrimas aos olhos. (O menino tem quinze anos, que diabo!) Mas como explicar isto a um vizinho implicativo? Não são capazes de mo dizer? «Amassou-me as petúnias!», grita ele. (Ou seriam begónias?!) Poderia eu, acaso, responder-lhe: «Sim, é possível, coitadinho, mas já reparou no ridículo capacete que traz enfiado na cabeça? Já observou bem os bonecos dos Simpsons? Deixe-o lá estar, pobre puto...!»
De modo que aceitei a entrega do rapaz, jurei ao vizinho que ralharia convenientemente, prontifiquei-me a pagar as flores, fossem lá elas o que fossem, mas mais tarde, assim que topei o homem distraído, fotografei-lhe o rosto infame, a malvada fuça; depois, fui recortando roupas que achei em páginas das revistas de moda masculina, colei belíssimos casacos Hugo Boss, ou camisolas Benneton, em papel lustroso, ao corpo fotografado do vizinho, fiz daquilo cartazes, e colei os ditos nas paredes do meu quarto, de frente para o guarda-fatos, chamando a atenção dos ratos, como quem insinua: «Gostam de roupas? Hum?! Das boas, das caras, hein? Já viram quem tem disso? Vejam, ora vejam. Olhem para este senhor na fotografia. Não me dizem nada? O casaco cintado? A calça em estilo italiano? A peúga axadrezada?»
Partindo do princípio de que aqueles ratos eram, de facto, seres inteligentes, coloquei ainda, de modo muito visível, ao lado da série de fotos do senhor Ronaldo, um diagrama do caminho mais curto para lhe chegarem a casa.
Ri-me. (Ah, eu sou terrível, sei que sim, sei que consigo tornar-me quase excessivamente mau).
E aguardei!
(CONTINUA)
Comecei a tecê-lo, com a pérfida minúcia e a paciência da aranha, num dia em que o um dos vizinhos me veio devolver, por uma orelha, o meu próprio filho que, segundo ele, lhe amassara as petúnias - julgo que seriam petúnias... - sob a inclemente roda da bicicleta.
Ora bem! Sinto uma extrema comoção quando vejo o meu filho montando a sua bicicleta colorida. Dá-me uma dor funda no peito, algo como piedade, sempre que o miudo passa, diante dos meus olhos, com um absurdo capacete às três pancadas. Poquê piedade, porquê um tão deslocado sentimento? Talvez porque haja, naquele capacete esverdinhado, com figuras dos Simpson estampadas, qualquer coisa de ridículo e profundamente infantil, que faz chegarem-me as lágrimas aos olhos. (O menino tem quinze anos, que diabo!) Mas como explicar isto a um vizinho implicativo? Não são capazes de mo dizer? «Amassou-me as petúnias!», grita ele. (Ou seriam begónias?!) Poderia eu, acaso, responder-lhe: «Sim, é possível, coitadinho, mas já reparou no ridículo capacete que traz enfiado na cabeça? Já observou bem os bonecos dos Simpsons? Deixe-o lá estar, pobre puto...!»
De modo que aceitei a entrega do rapaz, jurei ao vizinho que ralharia convenientemente, prontifiquei-me a pagar as flores, fossem lá elas o que fossem, mas mais tarde, assim que topei o homem distraído, fotografei-lhe o rosto infame, a malvada fuça; depois, fui recortando roupas que achei em páginas das revistas de moda masculina, colei belíssimos casacos Hugo Boss, ou camisolas Benneton, em papel lustroso, ao corpo fotografado do vizinho, fiz daquilo cartazes, e colei os ditos nas paredes do meu quarto, de frente para o guarda-fatos, chamando a atenção dos ratos, como quem insinua: «Gostam de roupas? Hum?! Das boas, das caras, hein? Já viram quem tem disso? Vejam, ora vejam. Olhem para este senhor na fotografia. Não me dizem nada? O casaco cintado? A calça em estilo italiano? A peúga axadrezada?»
Partindo do princípio de que aqueles ratos eram, de facto, seres inteligentes, coloquei ainda, de modo muito visível, ao lado da série de fotos do senhor Ronaldo, um diagrama do caminho mais curto para lhe chegarem a casa.
Ri-me. (Ah, eu sou terrível, sei que sim, sei que consigo tornar-me quase excessivamente mau).
E aguardei!
(CONTINUA)
domingo, abril 20, 2008
OS RATOS DO GUARDA-FATOS [II]
Sobre os ratos - e está assente que continuarei a tratá-los por «ratos» -, diversas teorias me desabaram em cima.
Uma, a da minha sobrinha doida, que vinha contando, desde há muitos anos, a perturbadora narração de como uns extra-terrestres a teriam sugado para uma nave espacial e depois, na nave, «sugado» fisicamente - desculpem-me a grosseria da linguagem - de todas as formas imagináveis e inimagináveis, consistia em que estes seres, que haviam nidificado no meu guarda-fatos, seriam nada mais do que os extra-terrestres violadores, que a vinham buscar para novas experiências sexuais.
- Desculpa lá, Deolinda - estranhava eu -, mas tu não dizias que os ET que te violaram repetidamente tinham o aspecto do Brad Pitt, do George Clooney etc? Estes são ratos, menina. Com óculos e carecas, é certo, mas ratos!
- Ratos?! Hum...!
Outra teoria, a do meu psicólogo - porque eu andei no psicólogo, é verdade, mas só porque passei por um período particularmente fatigante na minha vida... - resumia-se à tese de que estes ratos seriam, no fundo, uma projecção minha: tratar-se-ia do modo como eu corporizara os meus medos, as minhas angústias, ou o terror, que aliás me vinha obcecando, de que a minha vida ruía por todos os lados...
- Mas então não existem, é isso? - perguntava-lhe eu, pouco convencido. - São uma espécie de delírio, uma fantasia? Só que repare, Dr. Fraude, não fui eu quem os descobriu. Foi a minha mulher. Como é que Amélia poderia ter visto, no guarda-fatos, as minhas fantasias?
- Não disse que eram fantasias suas. Admitamos que as suas angústias, os seus terrores, têm tanta energia, que tomam efectivamente forma. Eles existem. A sua mente criou-os, mas eles libertaram-se e andam por aí...
Parecia-me uma explicação, como dizer?, pouco plausível, sim, mas não menos plausível do que o próprio facto, em si, de haver ratos carecas e caixa-de-óculos no meu guarda-fatos.
Só pus esta teoria de parte quando, entretanto, o Dr. Augusto Fraude foi internado, completamente maluco, e maluco furioso!
Por outro lado, houve várias tentativas de me libertar dos ratos.
Amélia dirigiu-se-lhes, uma vez, de guarda-chuva em punho. Queria expulsá-los, ou matá-los, nem sei. Mas haviam de ver a reacção do chefe. Aqueles dentes, o seu rosnar, o seu bufar, o seu hálito, a sua ira, ali de pé, agitando as patas ameaçadoras, cheias de garras! Livra!
Claro, telefonei, nessa mesma tarde, ao Implacável Exterminador. O Implacável Exterminador era um Schwarzenegger à portuguesa, com falas mansas, um bigodinho lustroso, muitos músculos que lhe serviam de terreno a magníficas tatuagens, evocativas da guerra da Guiné e do amor aos pais, e que descia, de uma carrinha, com um impressionante e sinistro manancial de aparelhos.
Na verdade, nem o senhor Cavaco Silva - por mera casualidade, assim se chamava o senhor, semelhantemente ao nosso Presidente - conseguiu pôr cobro à infestação.
Vimo-lo entrar em casa, confiante. Aguardávamos cá fora. E vimo-lo sair, chorando.
- Peço desculpa, senhor Albuquerque. Não posso! É verdade que sou um bruto, um selvagem, fiz a guerra, matei pretos às centenas mas... isto não sou capaz! Não posso matar um rato de fato e gravata!
- Deus do céu! O fato?! O meu único fato? Já andam com o fato que me serve para os casamentos, para os baptizados, para todas as festas? Dê cá esse aparelho. Eu próprio dou cabo deles...
- Lamento, senhor Albuquerque. Eu não sou capaz. Adeus.
E a minha última esperança foi-se embora, numa nuvem de pó.
(CONTINUA)
Uma, a da minha sobrinha doida, que vinha contando, desde há muitos anos, a perturbadora narração de como uns extra-terrestres a teriam sugado para uma nave espacial e depois, na nave, «sugado» fisicamente - desculpem-me a grosseria da linguagem - de todas as formas imagináveis e inimagináveis, consistia em que estes seres, que haviam nidificado no meu guarda-fatos, seriam nada mais do que os extra-terrestres violadores, que a vinham buscar para novas experiências sexuais.
- Desculpa lá, Deolinda - estranhava eu -, mas tu não dizias que os ET que te violaram repetidamente tinham o aspecto do Brad Pitt, do George Clooney etc? Estes são ratos, menina. Com óculos e carecas, é certo, mas ratos!
- Ratos?! Hum...!
Outra teoria, a do meu psicólogo - porque eu andei no psicólogo, é verdade, mas só porque passei por um período particularmente fatigante na minha vida... - resumia-se à tese de que estes ratos seriam, no fundo, uma projecção minha: tratar-se-ia do modo como eu corporizara os meus medos, as minhas angústias, ou o terror, que aliás me vinha obcecando, de que a minha vida ruía por todos os lados...
- Mas então não existem, é isso? - perguntava-lhe eu, pouco convencido. - São uma espécie de delírio, uma fantasia? Só que repare, Dr. Fraude, não fui eu quem os descobriu. Foi a minha mulher. Como é que Amélia poderia ter visto, no guarda-fatos, as minhas fantasias?
- Não disse que eram fantasias suas. Admitamos que as suas angústias, os seus terrores, têm tanta energia, que tomam efectivamente forma. Eles existem. A sua mente criou-os, mas eles libertaram-se e andam por aí...
Parecia-me uma explicação, como dizer?, pouco plausível, sim, mas não menos plausível do que o próprio facto, em si, de haver ratos carecas e caixa-de-óculos no meu guarda-fatos.
Só pus esta teoria de parte quando, entretanto, o Dr. Augusto Fraude foi internado, completamente maluco, e maluco furioso!
Por outro lado, houve várias tentativas de me libertar dos ratos.
Amélia dirigiu-se-lhes, uma vez, de guarda-chuva em punho. Queria expulsá-los, ou matá-los, nem sei. Mas haviam de ver a reacção do chefe. Aqueles dentes, o seu rosnar, o seu bufar, o seu hálito, a sua ira, ali de pé, agitando as patas ameaçadoras, cheias de garras! Livra!
Claro, telefonei, nessa mesma tarde, ao Implacável Exterminador. O Implacável Exterminador era um Schwarzenegger à portuguesa, com falas mansas, um bigodinho lustroso, muitos músculos que lhe serviam de terreno a magníficas tatuagens, evocativas da guerra da Guiné e do amor aos pais, e que descia, de uma carrinha, com um impressionante e sinistro manancial de aparelhos.
Na verdade, nem o senhor Cavaco Silva - por mera casualidade, assim se chamava o senhor, semelhantemente ao nosso Presidente - conseguiu pôr cobro à infestação.
Vimo-lo entrar em casa, confiante. Aguardávamos cá fora. E vimo-lo sair, chorando.
- Peço desculpa, senhor Albuquerque. Não posso! É verdade que sou um bruto, um selvagem, fiz a guerra, matei pretos às centenas mas... isto não sou capaz! Não posso matar um rato de fato e gravata!
- Deus do céu! O fato?! O meu único fato? Já andam com o fato que me serve para os casamentos, para os baptizados, para todas as festas? Dê cá esse aparelho. Eu próprio dou cabo deles...
- Lamento, senhor Albuquerque. Eu não sou capaz. Adeus.
E a minha última esperança foi-se embora, numa nuvem de pó.
(CONTINUA)
OS RATOS DO GUARDA-FATOS [I]
Eram ratos, mas não eram bem ratos. Claro que, de início, me enganaram: Amélia dissera-me, uma tarde, com um trejeito de nojo, que o meu guarda-fatos fora invadido por ratos; pareceu-me um manifesto exagero. Fui investigar e dei, realmente, de caras com aqueles animais peludos, de dentes grandes e longas caudas aneladas, que julguei imediatamente que sim, que se tratava, afinal, de um ninho de meros ratos. Só mais tarde é que alguns pormenores me obrigaram a questionar a ideia: para começar, embora tivessem o corpo coberto de pêlos, tinham maior quantidade de pêlo na cabeça, exactamente como se fosse cabelo; curiosamente, o chefe deles era careca: viam-se-lhe reservas de pilosidade na cabeça, na nuca e em torno das orelhas, mas o alto rebrilhava numa pérfida calvície. Por outro lado, também me não parecia normal que os ratos tivessem óculos: o chefe tinha-os. De aros pretos, de massa, grossos, com lentes graduadíssimas.
O comportamento também se mostrava atípico: levei tempo a compreender que o que eles faziam no guarda-fatos não era propriamente comer tecido. Escolhiam roupa. Onde estava o meu casaco de cabedal? Lá passava um destes bicharocos diante dos meus olhos incrédulos, envergando-o com estilo, embora, notoriamente, lhe ficasse demasiado largo nos ombros e as mangas fossem muito compridas para ele. Mas as camisas, sobretudo as camisas constituíam, para os roedores, um objecto de fascínio e experimentação. E as gravatas!
Os meus leitores hão-de pensar, ou que eu estou a mentir: e não estou. Ou que estou a enveredar por caminhos tortuosos e falhados de ficção, inspirado pela «Metamorfose», de Kafka, e também não estou. Ou que sonhei. Os ratos poderiam ser personagens do meu mais recente pesadelo. Bem, isso também eu pensei. Ou tentei reduzir tudo a essa simplicidade, lutanto por salvar uma réstea de lógica na minha vida. E quem me dera, quem me dera! Mas não. Não se tratava de sonho algum!
(CONTINUA)
O comportamento também se mostrava atípico: levei tempo a compreender que o que eles faziam no guarda-fatos não era propriamente comer tecido. Escolhiam roupa. Onde estava o meu casaco de cabedal? Lá passava um destes bicharocos diante dos meus olhos incrédulos, envergando-o com estilo, embora, notoriamente, lhe ficasse demasiado largo nos ombros e as mangas fossem muito compridas para ele. Mas as camisas, sobretudo as camisas constituíam, para os roedores, um objecto de fascínio e experimentação. E as gravatas!
Os meus leitores hão-de pensar, ou que eu estou a mentir: e não estou. Ou que estou a enveredar por caminhos tortuosos e falhados de ficção, inspirado pela «Metamorfose», de Kafka, e também não estou. Ou que sonhei. Os ratos poderiam ser personagens do meu mais recente pesadelo. Bem, isso também eu pensei. Ou tentei reduzir tudo a essa simplicidade, lutanto por salvar uma réstea de lógica na minha vida. E quem me dera, quem me dera! Mas não. Não se tratava de sonho algum!
(CONTINUA)
sexta-feira, abril 18, 2008
O COLETE REFLECTOR E O BONÉ DE ORELHAS
Domingos Paciência era um sujeito de natureza bondosa, que uma educação sensível e atenta só veio melhorar, limando-lhe e aplainando-lhe o coração.
Sua mãe costumava dizer, talvez com algum exagero, que o menino Domingos nunca tivera as manifestações de egoísmo e mesquinhez que são comuns nas crianças. Nunca fizera uma birra. Nunca recusara a sopa. Nunca.
Quando esta história vai ao seu encontro, Domingos é já um homem feito, de uma trintena de anos. Segue pela A5, de manhã, enfiado numa fila desesperada de automóveis, onde só deparamos com rostos agrestes e conflituosos, onde só se vêem condutores prontos a buzinar, a insultar, à espera de um minúsculo pretexto para deixar por um instante a viatura, com o fito de oferecer uma ensinadela ao condutor de trás (leia-se: um par de murros): em todos os carros, raiva mal contida, com a excepção - que os meus leitores previam, certamente - de Domingos Paciência.
O nosso herói ouve rádio, gargalha com as piadas matinais dos locutores, trauteia a última música da Duffy. Domingos Paciência, ah, sim: o apelido adequa-se-lhe como uma luva.
A dado momento, Paciência repara num carro muito velho e sujo, que tivera de estacionar na berma da via. De pé, ao lado desse automóvel, uma mulher idosa, curvada, vestindo, ridiculamente, um colete reflector, parece não saber o que fazer à vida. E no interior do veículo, um homem ainda mais idoso - pelo menos de aparência -, mais enrugado do que Matusalém, com um boné de orelhas enterrado na cabeça, agita-se numa espécie de estertor aflito.
Ninguém, naquela multidão nervosa, quer perder tempo com aqueles dois, ninguém lhes liga, ninguém sabe nem quer saber.
Domingos Paciência não resiste ao triste espectáculo da velhice desamparada. Dir-se-ia que dois pormenores, sobretudo, o obrigam a estacionar ao pé do trágico casal para lhes levar conforto e ajuda: o colete reflector, muito verde, mal amanhado sobre a corcunda da senhora, e o boné de orelhas descaídas pela cabeça do homem abaixo.
Não hesita.
Pára o seu automóvel a pouca distância deles.
Abre a porta. Dirige-se ao casal.
Pelo caminho, observando a expressão bizarra dos dois, a linguagem corporal deles, que lhe parece de receio, pensa: «Querem ver que eles se assustam comigo? Ainda pensam que os vou assaltar...! Coitados! Ao que este mundo chegou. Estão de tal modo longe de imaginar que alguém se preocupe com eles, que...»
E, pensando assim, agita os braços no ar, procurando acalmá-los, sem deixar de se aproximar:
- Calma, amigos! Vou ajudá-los! Então, que se passa?
A gestualidade dos velhos parece-lhe, cada vez mais, de uma estranhíssima e inexplicável angústia. A mulher berra-lhe algo. Por causa do vento, não lhe entende a voz frágil. De modo que Domingos Paciência não vê alternativa senão continuar gritando:
- Calma, amigos! Calma, amigos! Eu ajudo-vos!
É já quando está muito próximo, a três, quatro passos, que descobre, em primeiro lugar, que a senhora lhe aponta o que pode bem ser uma arma; e em segundo lugar, que as suas palavras são estas:
- Passa para cá tudo. Dinheiro, telemóvel, anéis, jóias. Vá, rápido.
Ao mesmo tempo, o velho do chapéu de orelhas, que tanto o havia comovido, sai do automóvel, empunhando uma espingarda de canos curtos; o homem tem a boca aberta sobre um negrume sem dentes, e acrescenta:
- E passa para cá a placa!
Sua mãe costumava dizer, talvez com algum exagero, que o menino Domingos nunca tivera as manifestações de egoísmo e mesquinhez que são comuns nas crianças. Nunca fizera uma birra. Nunca recusara a sopa. Nunca.
Quando esta história vai ao seu encontro, Domingos é já um homem feito, de uma trintena de anos. Segue pela A5, de manhã, enfiado numa fila desesperada de automóveis, onde só deparamos com rostos agrestes e conflituosos, onde só se vêem condutores prontos a buzinar, a insultar, à espera de um minúsculo pretexto para deixar por um instante a viatura, com o fito de oferecer uma ensinadela ao condutor de trás (leia-se: um par de murros): em todos os carros, raiva mal contida, com a excepção - que os meus leitores previam, certamente - de Domingos Paciência.
O nosso herói ouve rádio, gargalha com as piadas matinais dos locutores, trauteia a última música da Duffy. Domingos Paciência, ah, sim: o apelido adequa-se-lhe como uma luva.
A dado momento, Paciência repara num carro muito velho e sujo, que tivera de estacionar na berma da via. De pé, ao lado desse automóvel, uma mulher idosa, curvada, vestindo, ridiculamente, um colete reflector, parece não saber o que fazer à vida. E no interior do veículo, um homem ainda mais idoso - pelo menos de aparência -, mais enrugado do que Matusalém, com um boné de orelhas enterrado na cabeça, agita-se numa espécie de estertor aflito.
Ninguém, naquela multidão nervosa, quer perder tempo com aqueles dois, ninguém lhes liga, ninguém sabe nem quer saber.
Domingos Paciência não resiste ao triste espectáculo da velhice desamparada. Dir-se-ia que dois pormenores, sobretudo, o obrigam a estacionar ao pé do trágico casal para lhes levar conforto e ajuda: o colete reflector, muito verde, mal amanhado sobre a corcunda da senhora, e o boné de orelhas descaídas pela cabeça do homem abaixo.
Não hesita.
Pára o seu automóvel a pouca distância deles.
Abre a porta. Dirige-se ao casal.
Pelo caminho, observando a expressão bizarra dos dois, a linguagem corporal deles, que lhe parece de receio, pensa: «Querem ver que eles se assustam comigo? Ainda pensam que os vou assaltar...! Coitados! Ao que este mundo chegou. Estão de tal modo longe de imaginar que alguém se preocupe com eles, que...»
E, pensando assim, agita os braços no ar, procurando acalmá-los, sem deixar de se aproximar:
- Calma, amigos! Vou ajudá-los! Então, que se passa?
A gestualidade dos velhos parece-lhe, cada vez mais, de uma estranhíssima e inexplicável angústia. A mulher berra-lhe algo. Por causa do vento, não lhe entende a voz frágil. De modo que Domingos Paciência não vê alternativa senão continuar gritando:
- Calma, amigos! Calma, amigos! Eu ajudo-vos!
É já quando está muito próximo, a três, quatro passos, que descobre, em primeiro lugar, que a senhora lhe aponta o que pode bem ser uma arma; e em segundo lugar, que as suas palavras são estas:
- Passa para cá tudo. Dinheiro, telemóvel, anéis, jóias. Vá, rápido.
Ao mesmo tempo, o velho do chapéu de orelhas, que tanto o havia comovido, sai do automóvel, empunhando uma espingarda de canos curtos; o homem tem a boca aberta sobre um negrume sem dentes, e acrescenta:
- E passa para cá a placa!
terça-feira, abril 08, 2008
AUTORIDADE OU AUTORIDADE?!
Todos perceberam, no decorrer de um pretérito «Prós e Contras», que a Dra. Joana Amaral Dias, carregada de pergaminhos académicos como algumas senhoras-bem carregam os dedos de cachuchos, transporta, lá no fundo, sob aquela prosápia, poucas ideias, quase nenhuma interessante, e muitos mitos. Sobre a «autoridade» dos professores? Bem esprimido esse tópico, o que ela tem a ensinar-nos, e de graça, é esta pérola: em si, a autoridade seria um instrumento ideológico através do qual a burguesia se impõe. Vale a pena acrescentar algo? Não, pois não? Está bem, adeus!
Ao lado dela, ora se sentava, ora se acocorava um pouco sobre a cadeira para dizer umas quantas coisas, o eminente filósofo português José Gil, segurando sempre uma misteriosa folha na mão, folha essa que ninguém chegou a perceber o que era ou para que servia.
Acho alguma piada quando se dão ao incómodo de convidar um ilustre pensador para, com a devida reverência, o vermos e ouvirmos desfiar um rosário de banalidades. Pois o quê, que perorou, o autor de «Portugal, o Medo de Existir», acerca da autoridade? Em que consistiu, em suma, a lição do senhor sobre o assunto? Nisto. Que a autoridade se ganha. Que se conquista! Que emana de uma aura que certas pessoas têm - os verdadeiros professores!
Ora bolas. É uma banalidade digna de Mário Soares, o maior banalão que o nosso triste país de banalões e banalonas já foi capaz de dar à luz.
No meio, ficou completamente esmagado um senhor professor que tentara defender, contra os ventos e as marés dos grandes doutos, a simples ideia de que a autoridade dos professores lhes é delegada pelo Estado. Ponto. Estatuída pelo ministério da Educação de um governo legitimamente eleito.
Não?! Afinal não? A autoridade é unicamente um dom psicológico? Não tem contornos legais nem jurídicos? Não tem qualquer carácter institucional? É um poder de hipnotizar e ganhar o respeito pela simples presença?
Sejamos sérios. As duas autoridades existem. E não se confundem, embora uma possa estar mais ameaçada do que outra, nestes tempos conturbados.
O ensinante que conquista a turma pela sua força interior ou pela própria personalidade, será, certamente, um excelente mestre.
Mas era o que faltava que, aos que não têm esse sublime poder do olhar, da voz ou das ideias, ou aos que o têm mas, por acaso, se esqueceram dele ou não o encontram num dia mau, só restasse estarem, por força, sujeitos ao achincalhamento de garotos a quem os pais não ensinam quaisquer rudimentos de civismo e de civilidade.
Por mim, gosto sempre de me ficar a imaginar as Joanas Amaral Dias e os Josés Gil deste Portugalzinho de mentes estreitas a exercer a sua fascinante autoridade interior junto de umas turmas que eu cá sei...
Ao lado dela, ora se sentava, ora se acocorava um pouco sobre a cadeira para dizer umas quantas coisas, o eminente filósofo português José Gil, segurando sempre uma misteriosa folha na mão, folha essa que ninguém chegou a perceber o que era ou para que servia.
Acho alguma piada quando se dão ao incómodo de convidar um ilustre pensador para, com a devida reverência, o vermos e ouvirmos desfiar um rosário de banalidades. Pois o quê, que perorou, o autor de «Portugal, o Medo de Existir», acerca da autoridade? Em que consistiu, em suma, a lição do senhor sobre o assunto? Nisto. Que a autoridade se ganha. Que se conquista! Que emana de uma aura que certas pessoas têm - os verdadeiros professores!
Ora bolas. É uma banalidade digna de Mário Soares, o maior banalão que o nosso triste país de banalões e banalonas já foi capaz de dar à luz.
No meio, ficou completamente esmagado um senhor professor que tentara defender, contra os ventos e as marés dos grandes doutos, a simples ideia de que a autoridade dos professores lhes é delegada pelo Estado. Ponto. Estatuída pelo ministério da Educação de um governo legitimamente eleito.
Não?! Afinal não? A autoridade é unicamente um dom psicológico? Não tem contornos legais nem jurídicos? Não tem qualquer carácter institucional? É um poder de hipnotizar e ganhar o respeito pela simples presença?
Sejamos sérios. As duas autoridades existem. E não se confundem, embora uma possa estar mais ameaçada do que outra, nestes tempos conturbados.
O ensinante que conquista a turma pela sua força interior ou pela própria personalidade, será, certamente, um excelente mestre.
Mas era o que faltava que, aos que não têm esse sublime poder do olhar, da voz ou das ideias, ou aos que o têm mas, por acaso, se esqueceram dele ou não o encontram num dia mau, só restasse estarem, por força, sujeitos ao achincalhamento de garotos a quem os pais não ensinam quaisquer rudimentos de civismo e de civilidade.
Por mim, gosto sempre de me ficar a imaginar as Joanas Amaral Dias e os Josés Gil deste Portugalzinho de mentes estreitas a exercer a sua fascinante autoridade interior junto de umas turmas que eu cá sei...
segunda-feira, abril 07, 2008
O RETORNADO
Deixei de falar acerca do meu cão Dunga. A razão é bem simples: se, ao princípio, ele e a minha recém-nascida filha se cheiravam mutuamente, com uma medrosa curiosidade, aos poucos a relação entre ambos foi-se tornando mais tensa. Suponho que é pelo facto de o Dunga ser, por natureza, um vira-latas: não apreciava que a petiza lhe batesse com a pazinha de plástico no focinho. Chegou a ganir de dor, o monstro.
Não tivemos alternativa senão abandoná-lo um dia. Estava a brincar; escrevi isto só para fazer estremecer os meus leitores mais sensíveis! Ai que divertido! Não. O que fiz foi, um dia em que a minha tia, chorosa, me veio molhar de lágrimas o ombro pela perda da sua delicada e dedicada cadela, propor-lhe, generosamente, que ficasse com o Dunga. Estávamos dispostos ao sacrifício. Eu estava preparado para o terrível sacrifício de não ter de andar a tropeçar todos os dias num cão lãzudo, de não o ver pisgar-se-me nas barbas mal apanhava uma fresta de portão aberto, de não ter de andar, à noite, por São Domingos de Rana, sozinho, de lanterna em punho, à procura dele e, sobretudo, de não ter de o separar da minha filha quando a meiga criança lhe arreava um pontapé no focinho ou lhe puxava os bigodes!
O cão foi passar uma temporada à tia Glorinha.
E deu-se bem, o malandro. Engordava, acalmava a olhos vistos, tornava-se o verdadeiro homem naquela casa de mulheres.
Às vezes, a tia Glorinha trazia-o para ele nos visitar. (Tinha de ser, nunca conseguimos convencê-la que escusava de se incomodar...) O Dunga portava-se bem. Só afinava, se e quando temia que o quiséssemos guardar connosco no momento em que a tia se despedia de nós. A suspeita de que a minha mulher o fosse arrancar ao carro da tia, onde já se instalara para se ir embora, bastou, um dia, para lhe desatar a ladrar.
A temporada foi-se alargando. Não era só o Dunga que acalmava. Longe dele, eu próprio comecei a andar mais calmo. Já não pensávamos em que ele voltasse. Sacrificávamo-nos, pois!
O problema surgiu, agora, porque a tia Glorinha e a filha resolveram ir visitar o meu primo, que se mudara para os Estados Unidos. Com quem ficaria o Dunga? Com quem está a ficar? Adivinhem!!!
A tia e o Dunga chegaram, portanto. Eu estava estupidamente frio nesse dia em que recebi o melhor amigo do homem!
Houve muitas recomendações.
Dizia-nos a tia:
- Desta vez, pelo amor de Deus, tenham muito cuidado com o portão. Não se esqueçam dele aberto! Temo sobretudo pela mulher-a-dias. A vossa rapariga é meio-esgroviada. Com ela, o Dunguinha foge sempre. Anda cá, Dunguinha. Dá um beijo à dona. Portas-te bem, não portas? Vou ter saudades tuas. E tu, ouviste, Gil? Pelo amor de Deus, querido, cuidado com o portão!!!
Dizendo isto e acrescentando, a isto, mais cento e dez recomendações deste jaez, a tia Glorinha desandou com uma lágrima ao canto do olho. Esqueceu-se do portão aberto. Parece mentira? Não é mentira!
Deixei o Dunga ir ao quintal beber água; o Dunga viu o portão aberto; pensou: «Olha!?»; raspou-se...
Quando lhe estranhei o silêncio e a demora, saí, por minha vez, de casa, chamando, pobre e inocente tolo, «Dunga?! Dunga...?!», notei o portão escancarado, pensei, também eu, «Olha!», amaldiçoei o mundo, a vida, as tias, as filhas, os animais de estimação em geral, o Dunga em particular.
E parti à procura dele - que, entretanto, se enrolara já com o cão do vizinho.
Não me quis meter entre dois cães. Cobardemente, mandei o meu filho.
O qual regressou depressa:
- Eu não o trago. Que nojo! Estava a lamber a pila do cão do vizinho.
- Sabes perfeitamente que não quero que digas essas palavras!
- O quê, «lamber»?!
- E não se faça engraçadinho, senhor Duarte. Percebeu-me perfeitamente, não se arme em esperto.
Em suma: vão ser quinze dias disto.
Não tivemos alternativa senão abandoná-lo um dia. Estava a brincar; escrevi isto só para fazer estremecer os meus leitores mais sensíveis! Ai que divertido! Não. O que fiz foi, um dia em que a minha tia, chorosa, me veio molhar de lágrimas o ombro pela perda da sua delicada e dedicada cadela, propor-lhe, generosamente, que ficasse com o Dunga. Estávamos dispostos ao sacrifício. Eu estava preparado para o terrível sacrifício de não ter de andar a tropeçar todos os dias num cão lãzudo, de não o ver pisgar-se-me nas barbas mal apanhava uma fresta de portão aberto, de não ter de andar, à noite, por São Domingos de Rana, sozinho, de lanterna em punho, à procura dele e, sobretudo, de não ter de o separar da minha filha quando a meiga criança lhe arreava um pontapé no focinho ou lhe puxava os bigodes!
O cão foi passar uma temporada à tia Glorinha.
E deu-se bem, o malandro. Engordava, acalmava a olhos vistos, tornava-se o verdadeiro homem naquela casa de mulheres.
Às vezes, a tia Glorinha trazia-o para ele nos visitar. (Tinha de ser, nunca conseguimos convencê-la que escusava de se incomodar...) O Dunga portava-se bem. Só afinava, se e quando temia que o quiséssemos guardar connosco no momento em que a tia se despedia de nós. A suspeita de que a minha mulher o fosse arrancar ao carro da tia, onde já se instalara para se ir embora, bastou, um dia, para lhe desatar a ladrar.
A temporada foi-se alargando. Não era só o Dunga que acalmava. Longe dele, eu próprio comecei a andar mais calmo. Já não pensávamos em que ele voltasse. Sacrificávamo-nos, pois!
O problema surgiu, agora, porque a tia Glorinha e a filha resolveram ir visitar o meu primo, que se mudara para os Estados Unidos. Com quem ficaria o Dunga? Com quem está a ficar? Adivinhem!!!
A tia e o Dunga chegaram, portanto. Eu estava estupidamente frio nesse dia em que recebi o melhor amigo do homem!
Houve muitas recomendações.
Dizia-nos a tia:
- Desta vez, pelo amor de Deus, tenham muito cuidado com o portão. Não se esqueçam dele aberto! Temo sobretudo pela mulher-a-dias. A vossa rapariga é meio-esgroviada. Com ela, o Dunguinha foge sempre. Anda cá, Dunguinha. Dá um beijo à dona. Portas-te bem, não portas? Vou ter saudades tuas. E tu, ouviste, Gil? Pelo amor de Deus, querido, cuidado com o portão!!!
Dizendo isto e acrescentando, a isto, mais cento e dez recomendações deste jaez, a tia Glorinha desandou com uma lágrima ao canto do olho. Esqueceu-se do portão aberto. Parece mentira? Não é mentira!
Deixei o Dunga ir ao quintal beber água; o Dunga viu o portão aberto; pensou: «Olha!?»; raspou-se...
Quando lhe estranhei o silêncio e a demora, saí, por minha vez, de casa, chamando, pobre e inocente tolo, «Dunga?! Dunga...?!», notei o portão escancarado, pensei, também eu, «Olha!», amaldiçoei o mundo, a vida, as tias, as filhas, os animais de estimação em geral, o Dunga em particular.
E parti à procura dele - que, entretanto, se enrolara já com o cão do vizinho.
Não me quis meter entre dois cães. Cobardemente, mandei o meu filho.
O qual regressou depressa:
- Eu não o trago. Que nojo! Estava a lamber a pila do cão do vizinho.
- Sabes perfeitamente que não quero que digas essas palavras!
- O quê, «lamber»?!
- E não se faça engraçadinho, senhor Duarte. Percebeu-me perfeitamente, não se arme em esperto.
Em suma: vão ser quinze dias disto.
segunda-feira, março 31, 2008
A PROPÓSITO DE AVALIAÇÕES
Para que eu me tornasse no professor que agora se quer, de novo, avaliar - o que é justo, desde que se trate de uma avaliação justa -, tive de estudar muito; entreguei-me à filosofia, li Platão, Kant e Hegel, discuti teses, apresentei dissertações, fui classificado, licenciei-me, mestrei-me, doutorei-me.
Se tivesse querido ser médico, ou engenheiro, teria tido igualmente de me preparar. Seria testado, examinado, classificado sobre anos de empenho e trabalho.
Curiosamente, para se ser político, não me parece que o candidato tenha de se preparar grandemente: sob o argumento um pouco débil de que os políticos são avaliados pelo povo, nas urnas, a democracia não considera a política como matéria de estudo e reflexão. Esquece que seria importante fazer-se uma ideia, mesmo pálida, sobre o que o senhor A ou o senhor B compreenderam da posição de Aristóteles, de Rousseau ou de John Locke, de Maquiavel, de Hegel, Saint-Simon, Proudhon ou Bakunine, Marx, Engels, Popper ou Rawls - e abrevio, limitando-me a juntar estes poucos nomes só para recordar que, se não conseguimos imaginar Mendes Bota, Luís Filipe Meneses ou José Sócrates a pronunciarem-se acerca das teorias que estão associadas a esses pensadores, é porque, no fundo, temos noção de que para se ser político não é necessário estar-se preparado, ou seja, haver-se estudado minimamente História, Geografia, Sociologia e Filosofia Política: basta ter-se lábia; ingressar-se, na altura certa, numa juventude partidária; ligar-se aos pesos pesados do partido escolhido; e aguardar a sua vez. É isto!
É próprio da democracia a ideia de que a política não deve estar reservada a especialistas; ou que deve ser algo tão simples e acessível a todos, que uma cozinheira ou uma mulher-a-dias (sem desprimor) seriam capazes de a exercer: e, mais, teriam direito a fazê-lo. O problema está no seguinte: as cozinheiras ou as mulheres-a-dias não se dedicam à política; dedicam-se-lhe, em contrapartida, uns senhores e umas senhoras que se tornam profissionais do parasitismo: espécimens, em geral, de uma ignorância atroz e de uma ambição ignara. Bem sabem que não têm de mostrar o que compreenderam do assunto; bem sabem que lhes basta ser hábeis.
Eu serei avaliado. Pela sexta ou sétima vez na minha vida. Certo.
Mas, na verdade, os políticos que se instalaram na 5 de Outubro deveriam, em algum momento, ter respondido a algum tipo de teste, feito um qualquer exame de Política, de Pedagogia, de Cultura ou de Educação; se tivessem sido avaliados em devido tempo, não assistiríamos à sua penosa incapacidade para encontrarem os meios certos e justos para avaliarem os outros...
Se tivesse querido ser médico, ou engenheiro, teria tido igualmente de me preparar. Seria testado, examinado, classificado sobre anos de empenho e trabalho.
Curiosamente, para se ser político, não me parece que o candidato tenha de se preparar grandemente: sob o argumento um pouco débil de que os políticos são avaliados pelo povo, nas urnas, a democracia não considera a política como matéria de estudo e reflexão. Esquece que seria importante fazer-se uma ideia, mesmo pálida, sobre o que o senhor A ou o senhor B compreenderam da posição de Aristóteles, de Rousseau ou de John Locke, de Maquiavel, de Hegel, Saint-Simon, Proudhon ou Bakunine, Marx, Engels, Popper ou Rawls - e abrevio, limitando-me a juntar estes poucos nomes só para recordar que, se não conseguimos imaginar Mendes Bota, Luís Filipe Meneses ou José Sócrates a pronunciarem-se acerca das teorias que estão associadas a esses pensadores, é porque, no fundo, temos noção de que para se ser político não é necessário estar-se preparado, ou seja, haver-se estudado minimamente História, Geografia, Sociologia e Filosofia Política: basta ter-se lábia; ingressar-se, na altura certa, numa juventude partidária; ligar-se aos pesos pesados do partido escolhido; e aguardar a sua vez. É isto!
É próprio da democracia a ideia de que a política não deve estar reservada a especialistas; ou que deve ser algo tão simples e acessível a todos, que uma cozinheira ou uma mulher-a-dias (sem desprimor) seriam capazes de a exercer: e, mais, teriam direito a fazê-lo. O problema está no seguinte: as cozinheiras ou as mulheres-a-dias não se dedicam à política; dedicam-se-lhe, em contrapartida, uns senhores e umas senhoras que se tornam profissionais do parasitismo: espécimens, em geral, de uma ignorância atroz e de uma ambição ignara. Bem sabem que não têm de mostrar o que compreenderam do assunto; bem sabem que lhes basta ser hábeis.
Eu serei avaliado. Pela sexta ou sétima vez na minha vida. Certo.
Mas, na verdade, os políticos que se instalaram na 5 de Outubro deveriam, em algum momento, ter respondido a algum tipo de teste, feito um qualquer exame de Política, de Pedagogia, de Cultura ou de Educação; se tivessem sido avaliados em devido tempo, não assistiríamos à sua penosa incapacidade para encontrarem os meios certos e justos para avaliarem os outros...
sábado, março 22, 2008
SKINNY [III]
Pensei que não ia adormecer, que nunca mais na vida tornaria a conseguir dormir.
Enganei-me redondamente.
Queria gritar por Skinny. Via-os retirarem-se e abri a boca com o seu nome desenhado nos lábios. Mas enganava-me de novo. Não me saiu voz e o cansaço era tamanho que mergulhei numa escuridão enorme. Depois, acordei. E readormeci. E acordei novamente, por breves instantes, e tornei a cair num sono não reparador, um sono angustiado e infeliz.
Só despertei uma última vez com a invasão do corpo policial. Eram cinco ou seis. Gritavam ordens, disparavam armas, moviam-se pelos quartos, prendiam pessoas, libertavam-me, agasalhavam-me num cobertor, punham-me entre as mãos dormentes um chávena de uma bebida amarga, fumegante.
Eu só queria saber de Skinny. Perguntei ao inspector se haviam prendido o chefe do bando. Que sim. Se era um miúdo franzino. Que não. Não havia nenhum menino franzino. O chefe era um jovem de bom aspecto. Não falava. Nenhum falava, aliás. Haviam sofrido um tratamento que os fizera esquecer tudo. Ou um tratamento ou, alternativamente, marteladas na cabeça. Nenhum dos homens sabia dizer fosse o que fosse. A não ser «Bllllgh» e «rhmmmm» ou assim. Com olhos esgaseados.
Também me haviam feito algo. Tenho um corte na cabeça. Fechado com agrafos. Julgo que algo me foi implantado no cérebro. Riem-se. Todos. Ou ficam tristes, têm pena. Já há quem fale em internar-me. («Numa casa de repouso», sugerem, «só para descansar por uns tempos...»)
Às vezes pergunto-me se não sonhei. Mas, então, que é feito de Skinny? Também me pergunto se ele era realmente o chefe, ou se os convencera de algum modo a segui-lo (o miúdo é muito esperto, tem lábia; comigo, sempre a teve...) num estranho plano para, depois, me salvar. Teria batido, no meio da confusão, com um martelo nas cabeças deles? Mas, então, por que não aparecia?
Outras vezes, penso que ele era o chefe, sim. E que me implantaram qualquer coisa na cabeça. E vem-me à ideia: um dispositivo para me tornar um pai mais calmo?! Menos nervoso? Menos irascível? Porque, agora, me tenho sentido um excelente pai. Claro, talvez isso se deva ao facto de o meu filho ter desaparecido...
Em todo o caso, não tenho com quem discutir esta última ideia. É, aliás, quando a refiro, sempre que a refiro, que sacodem compungidamente a cabeça. E falam em internar-me!
FIM
Enganei-me redondamente.
Queria gritar por Skinny. Via-os retirarem-se e abri a boca com o seu nome desenhado nos lábios. Mas enganava-me de novo. Não me saiu voz e o cansaço era tamanho que mergulhei numa escuridão enorme. Depois, acordei. E readormeci. E acordei novamente, por breves instantes, e tornei a cair num sono não reparador, um sono angustiado e infeliz.
Só despertei uma última vez com a invasão do corpo policial. Eram cinco ou seis. Gritavam ordens, disparavam armas, moviam-se pelos quartos, prendiam pessoas, libertavam-me, agasalhavam-me num cobertor, punham-me entre as mãos dormentes um chávena de uma bebida amarga, fumegante.
Eu só queria saber de Skinny. Perguntei ao inspector se haviam prendido o chefe do bando. Que sim. Se era um miúdo franzino. Que não. Não havia nenhum menino franzino. O chefe era um jovem de bom aspecto. Não falava. Nenhum falava, aliás. Haviam sofrido um tratamento que os fizera esquecer tudo. Ou um tratamento ou, alternativamente, marteladas na cabeça. Nenhum dos homens sabia dizer fosse o que fosse. A não ser «Bllllgh» e «rhmmmm» ou assim. Com olhos esgaseados.
Também me haviam feito algo. Tenho um corte na cabeça. Fechado com agrafos. Julgo que algo me foi implantado no cérebro. Riem-se. Todos. Ou ficam tristes, têm pena. Já há quem fale em internar-me. («Numa casa de repouso», sugerem, «só para descansar por uns tempos...»)
Às vezes pergunto-me se não sonhei. Mas, então, que é feito de Skinny? Também me pergunto se ele era realmente o chefe, ou se os convencera de algum modo a segui-lo (o miúdo é muito esperto, tem lábia; comigo, sempre a teve...) num estranho plano para, depois, me salvar. Teria batido, no meio da confusão, com um martelo nas cabeças deles? Mas, então, por que não aparecia?
Outras vezes, penso que ele era o chefe, sim. E que me implantaram qualquer coisa na cabeça. E vem-me à ideia: um dispositivo para me tornar um pai mais calmo?! Menos nervoso? Menos irascível? Porque, agora, me tenho sentido um excelente pai. Claro, talvez isso se deva ao facto de o meu filho ter desaparecido...
Em todo o caso, não tenho com quem discutir esta última ideia. É, aliás, quando a refiro, sempre que a refiro, que sacodem compungidamente a cabeça. E falam em internar-me!
FIM
segunda-feira, março 17, 2008
SKINNY [II]
Quando despertei num quarto húmido, com ervas ruins a subir pelas paredes e graffitis em vez de quadros, não precisei de muito tempo para me lembrar do que sucedera.
Estava deitado sobre uma enxerga que cheirava a mofo, em tronco nu, com as pernas e os braços amarrados por uma espécie de cintos. O corpo doía-me por todo o lado.
A seguir, percebi que um rosto, que me pareceu angustiado, se debruçava sobre mim. Skinny. Sorri-lhe, com terríveis dores na boca, como se a rasgasse. Sorria-lhe para o sossegar; fez efeito. Imediatamente vi a angústia transformar-se em alegria.
- Pai!
- Skinny!
Relanceei o olhar pelo quarto. O grupo estava reunido junto à porta. O rapaz que me injectara aproximou-se. Temi por Skinny. Tentei soerguer-me, mas debalde.
- Deixem-no em paz! -, gritei. - Ouviram? Façam de mim o que quiserem, mas deixem o meu filho em paz!
Houve gargalhadas. Preso, não consegui abraçar o meu filho, protegê-lo, ampará-lo, defendê-lo.
- Bem, vamos deixar-te descansar um pouco, pai. Não te preocupes, está tudo bem! -, disse Skinny. Para meu grande espanto, ordenou ao bando: - Toca a sair, rapazes!
E para meu espanto ainda maior, o grupo respondeu-lhe, em coro:
- Sim, chefe!
(CONTINUA)
Estava deitado sobre uma enxerga que cheirava a mofo, em tronco nu, com as pernas e os braços amarrados por uma espécie de cintos. O corpo doía-me por todo o lado.
A seguir, percebi que um rosto, que me pareceu angustiado, se debruçava sobre mim. Skinny. Sorri-lhe, com terríveis dores na boca, como se a rasgasse. Sorria-lhe para o sossegar; fez efeito. Imediatamente vi a angústia transformar-se em alegria.
- Pai!
- Skinny!
Relanceei o olhar pelo quarto. O grupo estava reunido junto à porta. O rapaz que me injectara aproximou-se. Temi por Skinny. Tentei soerguer-me, mas debalde.
- Deixem-no em paz! -, gritei. - Ouviram? Façam de mim o que quiserem, mas deixem o meu filho em paz!
Houve gargalhadas. Preso, não consegui abraçar o meu filho, protegê-lo, ampará-lo, defendê-lo.
- Bem, vamos deixar-te descansar um pouco, pai. Não te preocupes, está tudo bem! -, disse Skinny. Para meu grande espanto, ordenou ao bando: - Toca a sair, rapazes!
E para meu espanto ainda maior, o grupo respondeu-lhe, em coro:
- Sim, chefe!
(CONTINUA)
domingo, março 16, 2008
SKINNY: um conto minimalista
Skinny, meu filho menor, estava particularmente desobediente, o que não costumava acontecer quando - e era o caso - eu vinha de o recompensar, pelo bom desempenho escolar, com uma ida ao cinema.
Mais: ao cinema e a seu modo, com tudo o que eu habitualmente negoceio ou recuso - as pipocas, a coca-cola, etc. etc. etc.
Por que raio me lixava agora o puto desta forma? Eu chamava-o e ele não ligava; afastava-se demasiado; atravessava ruas a correr. Furibundava-me. Dei comigo a berrar, por entre cabeças de transeuntes que se voltavam para mim, surpreendidos e assustados.
Quando Skinny enfiou por um beco estreito e estranho, pejado de graffitis e malta da pesada em todos os recantos, considerei que era tempo de pôr cobro a uma atitude tão inaceitável. Decidi-me a mostrar quem mandava ali, embora tivesse algumas dúvidas sobre quem realmente seria. Meti-me pelo beco, capaz de puxar o garotão por uma orelha, de lhe assentar um par de biscoitos nas nádegas, de lhe dar dois gritos que lhe chegassem efectivamente ao cérebro atrofiado. Falava comigo mesmo, como os malucos. «Tu vais ver! Tu vais ver!» e «Anormal duma figa!»
Naquela fúria despropositada, não cheguei a reparar que me cruzava com grupos de mau aspecto, bandos de barbas por fazer e capuzes.
Skinny desaparecera. Só o voltei a ver muito adiante, em cima de um telhado, de onde me acenava alegremente. Subira por um cano, balançava as pernas magras e não reparava, dali, nos óbvios indícios do meu estado apoplético.
Mas, para mim, era muito tarde. Porque um bando já me rodeara.
O tipo que me falou nem tinha particularmente mau ar.
Caí imediatamente em mim. Esqueci Skinny. A raiva transmutou-se-me em genuína cobardia. Lembro-me de que lhe disse, ao sujeito:
«Não tenho nada!» -, e acrescentei, num sopro de voz, «man», para me mostrar da mesma laia, como um previsível compincha, um potencial companheirão.
«Nós também não queremos nada», respondeu. «A não ser a ti».
Mais rapidamente do que o tempo de que eu dispus para narrar todo este acontecimento, ergueu-me a manga do braço direito e, perante a minha estupefacta inércia, introduziu uma agulha na minha veia.
Vi o produto da seringa descendo no interior do vidro, passando-se-me para o sangue, ouvi, vagamente, como num sonho, a voz de Skinny, e mais nada.
(CONTINUA)
Mais: ao cinema e a seu modo, com tudo o que eu habitualmente negoceio ou recuso - as pipocas, a coca-cola, etc. etc. etc.
Por que raio me lixava agora o puto desta forma? Eu chamava-o e ele não ligava; afastava-se demasiado; atravessava ruas a correr. Furibundava-me. Dei comigo a berrar, por entre cabeças de transeuntes que se voltavam para mim, surpreendidos e assustados.
Quando Skinny enfiou por um beco estreito e estranho, pejado de graffitis e malta da pesada em todos os recantos, considerei que era tempo de pôr cobro a uma atitude tão inaceitável. Decidi-me a mostrar quem mandava ali, embora tivesse algumas dúvidas sobre quem realmente seria. Meti-me pelo beco, capaz de puxar o garotão por uma orelha, de lhe assentar um par de biscoitos nas nádegas, de lhe dar dois gritos que lhe chegassem efectivamente ao cérebro atrofiado. Falava comigo mesmo, como os malucos. «Tu vais ver! Tu vais ver!» e «Anormal duma figa!»
Naquela fúria despropositada, não cheguei a reparar que me cruzava com grupos de mau aspecto, bandos de barbas por fazer e capuzes.
Skinny desaparecera. Só o voltei a ver muito adiante, em cima de um telhado, de onde me acenava alegremente. Subira por um cano, balançava as pernas magras e não reparava, dali, nos óbvios indícios do meu estado apoplético.
Mas, para mim, era muito tarde. Porque um bando já me rodeara.
O tipo que me falou nem tinha particularmente mau ar.
Caí imediatamente em mim. Esqueci Skinny. A raiva transmutou-se-me em genuína cobardia. Lembro-me de que lhe disse, ao sujeito:
«Não tenho nada!» -, e acrescentei, num sopro de voz, «man», para me mostrar da mesma laia, como um previsível compincha, um potencial companheirão.
«Nós também não queremos nada», respondeu. «A não ser a ti».
Mais rapidamente do que o tempo de que eu dispus para narrar todo este acontecimento, ergueu-me a manga do braço direito e, perante a minha estupefacta inércia, introduziu uma agulha na minha veia.
Vi o produto da seringa descendo no interior do vidro, passando-se-me para o sangue, ouvi, vagamente, como num sonho, a voz de Skinny, e mais nada.
(CONTINUA)
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