Os meus quatro leitores (vá, cinco nas horas de ponta!) já se aperceberam da minha admiração por Mendes Bota. Confesso que o considero perfeitamente ao nível dos Gato Fedorento. Tem a piada que tem, e sempre com o ar de estar a falar a sério ou a fazer política, o que o torna verdadeiramente hilariante.
Numa destas entrevistas de Verão, que suponho que é o único tipo de entrevista que um jornalista se lembraria de fazer a Mendes Bota, nota-se que ele intui, no fundo, a inveja que muitos comediantes frustrados e sem graça revelam relativamente à sua arte. Daí que principie por dizer que aquilo de que tem mais medo é «a inveja humana».
Mas logo a seguir, abre a veia. Não chega a suicidar-se, limita-se a abrir a veia humorística: afirma, por exemplo, que a sua bebida de eleição é «água, colheita de 2005», e que a sua personagem de ficção preferida é... o Pato Donald!
Como todo o político que se preza, Bota também gosta de fazer promessas. Se pensa cumpri-las, é outro assunto. Mas não deixa de acenar com o sonho de um mundo melhor, ao garantir que já passou «a fase das cantorias» e, agora, nem no duche!
Mais à frente, à banalíssima pergunta «as aparências iludem?», Bota responde com um originalíssimo: «As iludências aparudem.»
Sobre os casamentos gay, confessa que não se encontra preparado psicologicamente para isso: deve ter pensado que o entrevistador já estava a fazer-lhe uma proposta.
E este homem, correndo riscos, quase a transgredir os limites, dedica-se a organizar a célebre Festa do Pontal, e a senhora dona Manuela Ferreira Leite não quer ir?
Que se passa com esta mulher, não aprecia stand-up comedy?
Não gosta de se rir???
terça-feira, agosto 19, 2008
sábado, agosto 16, 2008
MAS DAQUI A UNS ANOS HÁ MAIS...!
Tenho pena de me ver obrigado a ser cruel. Mas, perante esta frustração, como não sê-lo!? Um bocadinho, ao menos...?
Em momentos de competição desportiva internacional, como agora nos Jogos Olímpicos, o povo português deixa-se imbuir de uma inexplicável esperança e de uma tensa expectativa. Sopra sempre um vento em cujas interstícios se ouve: «Desta é que é!»
Devo dizer que o único atleta olímpico que, este ano, conseguiu efectivamente surpreender-nos foi Francis Obykwelu (peço desculpa no caso de não estar a escrever correctamente este nosso tão típico nome!): surpreendeu-nos porque, apesar de ter ficado em sexto lugar nos 100 m., ou seja, num lugar fraquinho, que não lhe permitiu o apuramento, afirmou em Conferência de Imprensa que vinha já embora, nem ficava para correr os 200 m., mais, acabava ali a sua carreira de competições, pedia desculpa, obrigado e adeus! Foi a grande surpresa lusa destes polémicos jogos.
No tiro ao arco, ouvi, na rádio, um rapaz que se mostrava muito contente com um lugar igualmente fracote, porque achava que estas coisas mudam de um momento para o outro. Queixava-se, coitado, e com razão, do vento que o enganara, fazendo-me perceber até que ponto podem ir as manhas e os truques dos chineses..! Vê-se mesmo que a China não é uma democracia, porque se o fosse, o mínimo que se esperaria é que todos os concorrentes estivessem sujeitos aos mesmos ventos, não só o jovem português.
Houve ainda, no meio de tudo isto, uns remadores: foram repescados para a semi-final, e estavam francamente satisfeitos pela «repescagem» que os salvava. Bolas! «Repescados»!? Não é constrangedor??? Julgariam que estavam numa competição de pesca??? Afinal, depois de tudo isto, acabaram - penso - em oitavo lugar. Nada mau; parece que nunca Portugal, que no entanto tantos mundos deu ao mundo, tinha chegado tão longe. Navegámos por toda a parte, é certo, mas na modalidade de barquinho a remos o máximo a que chegámos foi ao oitavo lugar.
Vale a pena falar do Judo? Talvez seja melhor não, hein? Tínhamos ali outra jovem esperança mas... apanhou não sei que golpe, não sei de que adversária, que a fez cair para o tapete - e para o nono lugar, ou coisa que o valha!
Resta-nos esperar pelos para-olímpicos. Em cadeiras de rodas, sem ver coisa alguma, surdos e tudo, esses é que nos trazem sempre oiro, incenso e mirra!
Em momentos de competição desportiva internacional, como agora nos Jogos Olímpicos, o povo português deixa-se imbuir de uma inexplicável esperança e de uma tensa expectativa. Sopra sempre um vento em cujas interstícios se ouve: «Desta é que é!»
Devo dizer que o único atleta olímpico que, este ano, conseguiu efectivamente surpreender-nos foi Francis Obykwelu (peço desculpa no caso de não estar a escrever correctamente este nosso tão típico nome!): surpreendeu-nos porque, apesar de ter ficado em sexto lugar nos 100 m., ou seja, num lugar fraquinho, que não lhe permitiu o apuramento, afirmou em Conferência de Imprensa que vinha já embora, nem ficava para correr os 200 m., mais, acabava ali a sua carreira de competições, pedia desculpa, obrigado e adeus! Foi a grande surpresa lusa destes polémicos jogos.
No tiro ao arco, ouvi, na rádio, um rapaz que se mostrava muito contente com um lugar igualmente fracote, porque achava que estas coisas mudam de um momento para o outro. Queixava-se, coitado, e com razão, do vento que o enganara, fazendo-me perceber até que ponto podem ir as manhas e os truques dos chineses..! Vê-se mesmo que a China não é uma democracia, porque se o fosse, o mínimo que se esperaria é que todos os concorrentes estivessem sujeitos aos mesmos ventos, não só o jovem português.
Houve ainda, no meio de tudo isto, uns remadores: foram repescados para a semi-final, e estavam francamente satisfeitos pela «repescagem» que os salvava. Bolas! «Repescados»!? Não é constrangedor??? Julgariam que estavam numa competição de pesca??? Afinal, depois de tudo isto, acabaram - penso - em oitavo lugar. Nada mau; parece que nunca Portugal, que no entanto tantos mundos deu ao mundo, tinha chegado tão longe. Navegámos por toda a parte, é certo, mas na modalidade de barquinho a remos o máximo a que chegámos foi ao oitavo lugar.
Vale a pena falar do Judo? Talvez seja melhor não, hein? Tínhamos ali outra jovem esperança mas... apanhou não sei que golpe, não sei de que adversária, que a fez cair para o tapete - e para o nono lugar, ou coisa que o valha!
Resta-nos esperar pelos para-olímpicos. Em cadeiras de rodas, sem ver coisa alguma, surdos e tudo, esses é que nos trazem sempre oiro, incenso e mirra!
sexta-feira, agosto 08, 2008
UMA NOITE, EM FÉRIAS, COM MÚSICA DE FUNDO
Interrompo as minhas férias bloguianas para vos contar um episódio, não porque receie esquecê-lo depois - Ah, estou seguro de que nunca o esquecerei... -, mas para me não engasgar com ele.
Nestas férias complicadas, em que minha mulher continua trabalhando e, portanto, me cabe tomar conta dos meus filhos, multiplicando programas que, ao mesmo tempo, sejam baratos e os sosseguem por uns minutos, chego à sexta-feira em bastante mau estado. Cabelo em pé, barba por fazer, olhos encovados. Moscas gravitando.
A minha mulher vê-me, nesta sexta, em condições tão impróprias, que me convida a ir com ela arejar, jantar fora.
«Onde deixamos os miudos?», pergunto imediatamente.
Os olhos faiscam-lhe de raiva. Temos a nossa primeira discussão da noite. Os miudos vêm. É claro.
Seguimos no automóvel, eu ao volante mas cumprindo indicações precisas. Surge a ideia que nos reconcilia a todos: vamos à marina de Oeiras. Espaço, ar fresco, distracções...
Pomos o carro no parque. Seguimos a pé sobre o passadiço de madeira. Brincamos. Estamos todos mais leves. Dirigimo-nos para um restaurante com música ao vivo, quer dizer, onde, cá fora, sobre uma banqueta, um retornado de cabelo penteado em estilo afro, como o Pacman, e também de calções aliás, entoa umas brasileiradas ao som da sua viola.
A Daisy está, entretanto, eufórica. Sentamo-nos a uma mesa da esplanada. Ela não quer. O meu filho repara, discretamente - e pela primeira vez, pelos vistos - que traz as unhas compridas e debruadas a negro. Exige, de repente, um corta-unhas.
Os demais clientes, que gozavam a música brasileira, principiam a olhar para nós. Um casal que degusta vinho verde olha-nos fixamente.
O cantor continua:
«Veja que coisa mais linda, mais cheia de vida, lalala, lalala...»
Daisy salta rapidamente da cadeira onde liricamente a quiséramos sentar, empurra pernas e pés, pisa sandálias, aproxima-se lestamente do cantor, «Gosto muito dji você, leãozinho, parari pararará», que, com um olhar nervoso, não tira os olhos dela, enganando-se numa nota.
Corro a buscar Daisy. Pego-a ao colo. Inicia um espeneanço fantástico, berrando mais alto do que o Pacman brasileiro, que esganiça para tentar fazer-se ouvir, «Lhe dourando a peli...»
«Não tens um corta-unhas, mãe?», pergunta o outro.
Conferenciamos rapidamente. Ali não é possível. E se fôssemos para dentro do restaurante? Escuro, sorumbático, tem, no entanto, a vantagem de apresentar todas as mesas completa e convidativamente vazias...
Entramos. Ao longe, a voz do clone brasileiro do Pacman chega-me aos ouvidos, com uma nítida nota de alívio: «É um barrquinho a navegá, no macio azul do má...»
Lá dentro, tentando segurar a doce Daisy, embato num estranho sistema de floreados de vidro, borboletas e pássaros pendentes do tecto, até à altura precisa da minha cabeça. Queixo-me. Daisy aproveita-se da distracção e zarpa lá para fora: oiço a voz estrangulada do Pacmanzinho. Chega-me um «ai!» que não sei se faz parte da música...
Dirijo-me para fora, furando, meio atordoado, pelo emaranhado de mobiles frágeis e coloridos, ruidosos e aguçados. A minha mulher pergunta-me: «O que é que queres comer!?» - e eu respondo, com um esgar sarcástico: «Veneno!»
Saio, no preciso instante em que vejo uma rapariga de longos cabelos encher a mesa de entradas, azeitonas, carnes frias, queijos...
A minha mulher recebe nas mãos uma ementa enorme - perceberei mais tarde que é o tamanho necessário para lá caberem os preços que apresenta.
Pego, um pouco brutalmente, é verdade, em Daisy que, sentadinha no chão, coitada, se limitava a aplaudir o Pacmanzinho.
Reentro, com Daisy esperneando, no momento exacto em que posso ouvir minha mulher, pegando na mala, para a rapariga que se afadiga a preencher-nos a mesa com acepipes:
- Não, deixe estar, nós vamos embora; ela está muito agitada - e, ao dizer «ela», aponta, com o queixo, Daisy, a qual, esperneando-me entre os braços, me faz acompanhar a música do Pacmanzinho com uns quantos «tlins» produzidos pela cabeça contra uma sucessão de borboletas e flores cor-de-rosa que me esperam, ameaçadoras, do tecto. - Vamos embora, não se preocupe. Era afugentar o resto da clentela...
Percebo que, no fundo, com esta desculpa, a minha mulher, que estivera examinando os preços incomportáveis, encontra o pretexto adequado para desaparecermos dali.
Dirigimo-nos, cabisbaixos, para o carro. O miudo, porque ninguém lhe forneceu um corta-unhas. Ou, alternativamente, uma prancha de surf, porque parece que havia uma loja aberta...
Sentamo-nos.
- Ainda há massa em casa, não há?
Vamos jantar a casa...
Nestas férias complicadas, em que minha mulher continua trabalhando e, portanto, me cabe tomar conta dos meus filhos, multiplicando programas que, ao mesmo tempo, sejam baratos e os sosseguem por uns minutos, chego à sexta-feira em bastante mau estado. Cabelo em pé, barba por fazer, olhos encovados. Moscas gravitando.
A minha mulher vê-me, nesta sexta, em condições tão impróprias, que me convida a ir com ela arejar, jantar fora.
«Onde deixamos os miudos?», pergunto imediatamente.
Os olhos faiscam-lhe de raiva. Temos a nossa primeira discussão da noite. Os miudos vêm. É claro.
Seguimos no automóvel, eu ao volante mas cumprindo indicações precisas. Surge a ideia que nos reconcilia a todos: vamos à marina de Oeiras. Espaço, ar fresco, distracções...
Pomos o carro no parque. Seguimos a pé sobre o passadiço de madeira. Brincamos. Estamos todos mais leves. Dirigimo-nos para um restaurante com música ao vivo, quer dizer, onde, cá fora, sobre uma banqueta, um retornado de cabelo penteado em estilo afro, como o Pacman, e também de calções aliás, entoa umas brasileiradas ao som da sua viola.
A Daisy está, entretanto, eufórica. Sentamo-nos a uma mesa da esplanada. Ela não quer. O meu filho repara, discretamente - e pela primeira vez, pelos vistos - que traz as unhas compridas e debruadas a negro. Exige, de repente, um corta-unhas.
Os demais clientes, que gozavam a música brasileira, principiam a olhar para nós. Um casal que degusta vinho verde olha-nos fixamente.
O cantor continua:
«Veja que coisa mais linda, mais cheia de vida, lalala, lalala...»
Daisy salta rapidamente da cadeira onde liricamente a quiséramos sentar, empurra pernas e pés, pisa sandálias, aproxima-se lestamente do cantor, «Gosto muito dji você, leãozinho, parari pararará», que, com um olhar nervoso, não tira os olhos dela, enganando-se numa nota.
Corro a buscar Daisy. Pego-a ao colo. Inicia um espeneanço fantástico, berrando mais alto do que o Pacman brasileiro, que esganiça para tentar fazer-se ouvir, «Lhe dourando a peli...»
«Não tens um corta-unhas, mãe?», pergunta o outro.
Conferenciamos rapidamente. Ali não é possível. E se fôssemos para dentro do restaurante? Escuro, sorumbático, tem, no entanto, a vantagem de apresentar todas as mesas completa e convidativamente vazias...
Entramos. Ao longe, a voz do clone brasileiro do Pacman chega-me aos ouvidos, com uma nítida nota de alívio: «É um barrquinho a navegá, no macio azul do má...»
Lá dentro, tentando segurar a doce Daisy, embato num estranho sistema de floreados de vidro, borboletas e pássaros pendentes do tecto, até à altura precisa da minha cabeça. Queixo-me. Daisy aproveita-se da distracção e zarpa lá para fora: oiço a voz estrangulada do Pacmanzinho. Chega-me um «ai!» que não sei se faz parte da música...
Dirijo-me para fora, furando, meio atordoado, pelo emaranhado de mobiles frágeis e coloridos, ruidosos e aguçados. A minha mulher pergunta-me: «O que é que queres comer!?» - e eu respondo, com um esgar sarcástico: «Veneno!»
Saio, no preciso instante em que vejo uma rapariga de longos cabelos encher a mesa de entradas, azeitonas, carnes frias, queijos...
A minha mulher recebe nas mãos uma ementa enorme - perceberei mais tarde que é o tamanho necessário para lá caberem os preços que apresenta.
Pego, um pouco brutalmente, é verdade, em Daisy que, sentadinha no chão, coitada, se limitava a aplaudir o Pacmanzinho.
Reentro, com Daisy esperneando, no momento exacto em que posso ouvir minha mulher, pegando na mala, para a rapariga que se afadiga a preencher-nos a mesa com acepipes:
- Não, deixe estar, nós vamos embora; ela está muito agitada - e, ao dizer «ela», aponta, com o queixo, Daisy, a qual, esperneando-me entre os braços, me faz acompanhar a música do Pacmanzinho com uns quantos «tlins» produzidos pela cabeça contra uma sucessão de borboletas e flores cor-de-rosa que me esperam, ameaçadoras, do tecto. - Vamos embora, não se preocupe. Era afugentar o resto da clentela...
Percebo que, no fundo, com esta desculpa, a minha mulher, que estivera examinando os preços incomportáveis, encontra o pretexto adequado para desaparecermos dali.
Dirigimo-nos, cabisbaixos, para o carro. O miudo, porque ninguém lhe forneceu um corta-unhas. Ou, alternativamente, uma prancha de surf, porque parece que havia uma loja aberta...
Sentamo-nos.
- Ainda há massa em casa, não há?
Vamos jantar a casa...
AFORISMO KAOSTICO
Não peço, à vida e ao destino, nada mais, absolutamente mais nada para além de tudo quanto possuo.
Não lhe chamemos gratidão: é que se esta merda é o melhor que a vida consegue fazer, então não peço nada - prefiro não correr mais riscos...
Não lhe chamemos gratidão: é que se esta merda é o melhor que a vida consegue fazer, então não peço nada - prefiro não correr mais riscos...
CURSO RÁPIDO DE AUTOMOBILISMO (LIÇÃO DOIS)
O PISCA-PISCA
Nesta sociedade socrática, em que nos vigiam cada vez de mais perto, cruzando vários dados para saberem sempre em que ponto nos encontramos, já se prevê um chip para o nosso automóvel.
Pois eu, quando vou no meu carro, faço questão de não deixar que saibam para onde me dirijo. Era o que faltava!
Para isso, aliás, me serve o pisca-pisca.
Pisco sempre para a esquerda quando vou virar para a direita. E vice-versa.
Nesta sociedade socrática, em que nos vigiam cada vez de mais perto, cruzando vários dados para saberem sempre em que ponto nos encontramos, já se prevê um chip para o nosso automóvel.
Pois eu, quando vou no meu carro, faço questão de não deixar que saibam para onde me dirijo. Era o que faltava!
Para isso, aliás, me serve o pisca-pisca.
Pisco sempre para a esquerda quando vou virar para a direita. E vice-versa.
sexta-feira, julho 25, 2008
CRÍTICA DA CRIAÇÃO DIVINA
Deus-Pai estava arrasado. «Ah», dir-me-ão, «não pode ser, e tal, Deus não fica arrasado, e tal, que é feito da Omnipotência, e coiso...?»!
Estava, sim. Estava. Precisavam de conhecer a Deusa-Mestra, que há uma Eternidade vinha pondo em causa a Obra divina. Acrescentava sempre, com a delicadeza conveniente, que, do ponto de vista estético, é claro, a Criação de Deus estava perfeita. Per-fei-ta - nem outra coisa se esperaria dEle.
«Acontece», acrescentava a Deusa-Mestra, «que a estética não pode ser pensada a não ser de acordo com a função das coisas. A funcionalidade é a palavra de ordem. Os seres podem ser bonitos, sim senhor, e nisso, Ó Deus, és Deus Único. Mas, e a funcionalidade...???»
Dava exemplos de «ligeiras» alterações que fora fazendo. Que lhe não levasse nada a mal, hã? Não era na substância, nem na estética - era na «funcionalidade», e só, que se deveriam introduzir emendas.
«Vejamos o homem», dizia. «Olha para os dedos; olha para a língua. Não vês o que está errado aqui? Eu explico. Já percebeste que, para provar, o homem vai ter de pôr em contacto, digamos, comida estragada, com a língua, no interior da boca, já dentro do corpo? E se quiser cuspir, não é verdade que certamente uma pequena parte já se escapou pelo sistema abaixo e começou a envenenar-lhe os estômago? Não. O paladar tem de estar na ponta dos dedos. O homem prova com os dedos, percebes? Saboreia com os dedos. Se não gostar, deita fora...»
Deus-Pai estava esgotado...
«E o rabo lá atrás? Olha que lindo. Para que lhe serve o rabo, com aquela forma almofadada, não é para o proteger? Não tem de ser assim uma espécie de pára-choques? Então tem de estar à frente, não é verdade? À frente é que se encontram os órgãos mais importantes, se ele cai de fronte é que se trata de uma queda fatal... o rabo tem de ficar, ou no peito, ou a proteger o sexo...»
Era inútil contra-argumentar.
«E o nariz ao pé da boca??? Em pleno rosto??? Que diacho de ideia. Assim cheira algo de mau cheiro e vomita, parece tudo um órgão único, nariz e boca, uma máquina para cheirar e vomitar, cheirar e vomitar. É disparate, Deus! Se tiramos o rabo lá de trás, passamos para lá o nariz...»
E, considerando, por um fragmento da longa Eternidade que iriam ter de passar juntos, que Deus-Pai pudesse estar a sentir-se ofendido, concluiu:
«É claro que, à parte estes pormenores, a tua Obra está bonita. Ah, muito bonita mesmo. Bonita a valer! Quanto a isso, nada a assinalar: és um espectáculo!»
Estava, sim. Estava. Precisavam de conhecer a Deusa-Mestra, que há uma Eternidade vinha pondo em causa a Obra divina. Acrescentava sempre, com a delicadeza conveniente, que, do ponto de vista estético, é claro, a Criação de Deus estava perfeita. Per-fei-ta - nem outra coisa se esperaria dEle.
«Acontece», acrescentava a Deusa-Mestra, «que a estética não pode ser pensada a não ser de acordo com a função das coisas. A funcionalidade é a palavra de ordem. Os seres podem ser bonitos, sim senhor, e nisso, Ó Deus, és Deus Único. Mas, e a funcionalidade...???»
Dava exemplos de «ligeiras» alterações que fora fazendo. Que lhe não levasse nada a mal, hã? Não era na substância, nem na estética - era na «funcionalidade», e só, que se deveriam introduzir emendas.
«Vejamos o homem», dizia. «Olha para os dedos; olha para a língua. Não vês o que está errado aqui? Eu explico. Já percebeste que, para provar, o homem vai ter de pôr em contacto, digamos, comida estragada, com a língua, no interior da boca, já dentro do corpo? E se quiser cuspir, não é verdade que certamente uma pequena parte já se escapou pelo sistema abaixo e começou a envenenar-lhe os estômago? Não. O paladar tem de estar na ponta dos dedos. O homem prova com os dedos, percebes? Saboreia com os dedos. Se não gostar, deita fora...»
Deus-Pai estava esgotado...
«E o rabo lá atrás? Olha que lindo. Para que lhe serve o rabo, com aquela forma almofadada, não é para o proteger? Não tem de ser assim uma espécie de pára-choques? Então tem de estar à frente, não é verdade? À frente é que se encontram os órgãos mais importantes, se ele cai de fronte é que se trata de uma queda fatal... o rabo tem de ficar, ou no peito, ou a proteger o sexo...»
Era inútil contra-argumentar.
«E o nariz ao pé da boca??? Em pleno rosto??? Que diacho de ideia. Assim cheira algo de mau cheiro e vomita, parece tudo um órgão único, nariz e boca, uma máquina para cheirar e vomitar, cheirar e vomitar. É disparate, Deus! Se tiramos o rabo lá de trás, passamos para lá o nariz...»
E, considerando, por um fragmento da longa Eternidade que iriam ter de passar juntos, que Deus-Pai pudesse estar a sentir-se ofendido, concluiu:
«É claro que, à parte estes pormenores, a tua Obra está bonita. Ah, muito bonita mesmo. Bonita a valer! Quanto a isso, nada a assinalar: és um espectáculo!»
terça-feira, julho 22, 2008
UM CONTO SIMPLESMENTE HOR-RO-RO-SO!
O filho chamou-o, uma vez mais, do quarto pejado de posters de lutadores de wrestling.
Eram cinco horas da manhã. Cinco da matina, porra!
Entrou furibundo, com o seu daïmon, uma espécie de Daniel Sampaio pessoal, segredando-lhe no interior do cérebro: «Calma, calma, calma! Olha que te vais arrepender, vê lá como é que lidas com o miudo, olha, eh, calma, calma, calma!»
Como de costume, sabendo que realmente se arrependeria, apertou, contraindo as paredes do cérebro, o pequeno daïmon até lhe ouvir um estertor, e, diante do filho, berrou-lhe com toda a força:
- Que foi agora, pá!? Que é agora!?
- Não consigo dormir, pai! Vem-me sempre à cabeça a imagem de um menino sem olhos...
- Tou lixado com este gajo. Vais-te voltar para o lado, que são cinco horas da matina, hã?, e eu trabalho, eu tenho de me levantar daqui a pouco, e não tenho paciência, eu já não tenho paciência. Ala!
E regressou à cama.
Pouco tempo depois, ou muito tempo depois, porque tudo se passava naquela indefinição da noite em que o «pouco» e o «muito» perdem o sentido, um menino sem olhos despertou-o. Pensou, inicialmente, que se tratasse de um sonho, mas não. Era real: um menino sem olhos, sentado aos pés da sua cama: apresentou-se-lhe tranquilamente como um feiticeiro, e disse que tinha uma surpresa para ele. Uma terrível surpresa!
- Olha, venho só prevenir-te de que vou lançar um feitiço. O teu filho irá desaparecer...
- Como!? Para sempre...?
- Não, para sempre não. Na verdade, todos os dias o verás durante algum tempo...
- Mas...
- ... À noite... à hora de dormir... cheio de medo, chamando por ti, durante uma hora inteira, a partir das cinco da manhã... todos os dias, todos os dias, todos os dias...
E assim foi.
Podem não acreditar, mas esse tornou-se o momento mais feliz de cada um dos seus dias. Aquele fragmento de tempo que aguarda mais ansiosamente. O Génio não lhe mentira: todas as noites, a partir das cinco da manhã, ouve o apelo do seu filho.
E entra no seu quarto para o apaziguar. Abraça-o, consola-o. Com lágrimas nos olhos. Sabendo que, de manhã, pouco depois do instante em que o miudo, esgotado, por fim acalma e adormece, ele adormecerá também - porque não consegue não adormecer, por mais que lute contra a invasão sorrateira do sono -, e então, de alguma obscura e mágica forma, o menino volatilizar-se-á; e que quando ele acordar, já o não verá; e não tornará a vê-lo senão à noite, à hora dos pavores.
O seu daïmon, mal refeito da tentativa de assassínio que sobre ele perpetrara, segreda-lhe:
- Eu avisei-te!
E ele responde-lhe:
- Cala-te!
E todos os dias anseia pelo pedido de ajuda do seu filho.
Eram cinco horas da manhã. Cinco da matina, porra!
Entrou furibundo, com o seu daïmon, uma espécie de Daniel Sampaio pessoal, segredando-lhe no interior do cérebro: «Calma, calma, calma! Olha que te vais arrepender, vê lá como é que lidas com o miudo, olha, eh, calma, calma, calma!»
Como de costume, sabendo que realmente se arrependeria, apertou, contraindo as paredes do cérebro, o pequeno daïmon até lhe ouvir um estertor, e, diante do filho, berrou-lhe com toda a força:
- Que foi agora, pá!? Que é agora!?
- Não consigo dormir, pai! Vem-me sempre à cabeça a imagem de um menino sem olhos...
- Tou lixado com este gajo. Vais-te voltar para o lado, que são cinco horas da matina, hã?, e eu trabalho, eu tenho de me levantar daqui a pouco, e não tenho paciência, eu já não tenho paciência. Ala!
E regressou à cama.
Pouco tempo depois, ou muito tempo depois, porque tudo se passava naquela indefinição da noite em que o «pouco» e o «muito» perdem o sentido, um menino sem olhos despertou-o. Pensou, inicialmente, que se tratasse de um sonho, mas não. Era real: um menino sem olhos, sentado aos pés da sua cama: apresentou-se-lhe tranquilamente como um feiticeiro, e disse que tinha uma surpresa para ele. Uma terrível surpresa!
- Olha, venho só prevenir-te de que vou lançar um feitiço. O teu filho irá desaparecer...
- Como!? Para sempre...?
- Não, para sempre não. Na verdade, todos os dias o verás durante algum tempo...
- Mas...
- ... À noite... à hora de dormir... cheio de medo, chamando por ti, durante uma hora inteira, a partir das cinco da manhã... todos os dias, todos os dias, todos os dias...
E assim foi.
Podem não acreditar, mas esse tornou-se o momento mais feliz de cada um dos seus dias. Aquele fragmento de tempo que aguarda mais ansiosamente. O Génio não lhe mentira: todas as noites, a partir das cinco da manhã, ouve o apelo do seu filho.
E entra no seu quarto para o apaziguar. Abraça-o, consola-o. Com lágrimas nos olhos. Sabendo que, de manhã, pouco depois do instante em que o miudo, esgotado, por fim acalma e adormece, ele adormecerá também - porque não consegue não adormecer, por mais que lute contra a invasão sorrateira do sono -, e então, de alguma obscura e mágica forma, o menino volatilizar-se-á; e que quando ele acordar, já o não verá; e não tornará a vê-lo senão à noite, à hora dos pavores.
O seu daïmon, mal refeito da tentativa de assassínio que sobre ele perpetrara, segreda-lhe:
- Eu avisei-te!
E ele responde-lhe:
- Cala-te!
E todos os dias anseia pelo pedido de ajuda do seu filho.
domingo, julho 20, 2008
CURSO RÁPIDO DE AUTOMOBILISMO
O TRAÇO CONTÍNUO
Não se devem fazer ultrapassagens pouco firmes quando há um traço contínuo. Este deve servir como uma régua: é precisamente para se fazerem ultrapassagens direitinhas, sem desvios, nem guinadas, nem zigue-zagues - é só seguir a linha!
Não se devem fazer ultrapassagens pouco firmes quando há um traço contínuo. Este deve servir como uma régua: é precisamente para se fazerem ultrapassagens direitinhas, sem desvios, nem guinadas, nem zigue-zagues - é só seguir a linha!
quarta-feira, julho 16, 2008
O REGRESSO DE J. C.
Jesus Cristo regressou à terra no dia 6 de Julho.
Esteve, aliás, em Lisboa. Ao que consta, por volta das quinze horas desse mesmo dia mostrava algum espanto pelo facto de não ter conseguido encontrar pescadores dispostos a segui-lo. (Mas os pescadores preparavam precisamente uma onda de protestos contra a «intransigente política da União Europeia»).
As únicas pessoas que viu capazes de o acompanhar por todo o lado, eram os membros de um casal, mas essa possível colaboração depressa veio a revelar-se um equívoco: tratava-se de Testemunhas de Jeová; queriam acompanhá-lo por todo o lado, sim, mas no sentido aborrecido e irritante da palavra, empenhados em convertê-lo. «Eu estou convertido! Eu sou o filho! Pertenço à Santíssima Trindade», insistia...
Teve de lhes fugir.
Mais tarde, foi inquirido por uns senhores das Finanças que alegavam ter recebido uma denúncia de um tal Fernando Pessoa, que dizia que ele, Jesus Cristo, não pereceberia nada de finanças. E que, portanto - deduziam eles -, não se tinha declarado como mágico, nem pagava imposto sobre milagres.Descobriram até que ponto Pessoa estava certo. Preparavam-se já para lhe confiscar tudo o que possuía. Umas sandálias e, ao que parece, a sua Omnipotência - a qual, contudo, em Portugal esbarra com diversos entraves! E julgo que não pode ser exercida sem a devida autorização e documento comprovativo de divindade, isto na versão simplex...
À noite, quando se orientava de modo a retornar à Pensão Florinda, onde se albergara, foi detido por dois senhores vestidos de negro, com viseira e escudo.
Eram agentes da ASAE: acusavam-no de não ter respeitado as medidas mínimas de higiene e segurança na forma como transformara uma série de pedras e de calhaus, sujíssimos, em sardinhas para uma multidão. Ainda por cima, as referidas sardinhas teriam sido grelhadas em grelhadores de zinco, que também não obedeciam a quaisquer normas.
As últimas pessoas que o viram, relatam estas palavras, que teria pronunciado:
- Pai! Agora é que vais ter de afastar de mim este cálice, que isto está mais bera do que no tempo dos Romanos!
Não tornou a ser visto.
Esteve, aliás, em Lisboa. Ao que consta, por volta das quinze horas desse mesmo dia mostrava algum espanto pelo facto de não ter conseguido encontrar pescadores dispostos a segui-lo. (Mas os pescadores preparavam precisamente uma onda de protestos contra a «intransigente política da União Europeia»).
As únicas pessoas que viu capazes de o acompanhar por todo o lado, eram os membros de um casal, mas essa possível colaboração depressa veio a revelar-se um equívoco: tratava-se de Testemunhas de Jeová; queriam acompanhá-lo por todo o lado, sim, mas no sentido aborrecido e irritante da palavra, empenhados em convertê-lo. «Eu estou convertido! Eu sou o filho! Pertenço à Santíssima Trindade», insistia...
Teve de lhes fugir.
Mais tarde, foi inquirido por uns senhores das Finanças que alegavam ter recebido uma denúncia de um tal Fernando Pessoa, que dizia que ele, Jesus Cristo, não pereceberia nada de finanças. E que, portanto - deduziam eles -, não se tinha declarado como mágico, nem pagava imposto sobre milagres.Descobriram até que ponto Pessoa estava certo. Preparavam-se já para lhe confiscar tudo o que possuía. Umas sandálias e, ao que parece, a sua Omnipotência - a qual, contudo, em Portugal esbarra com diversos entraves! E julgo que não pode ser exercida sem a devida autorização e documento comprovativo de divindade, isto na versão simplex...
À noite, quando se orientava de modo a retornar à Pensão Florinda, onde se albergara, foi detido por dois senhores vestidos de negro, com viseira e escudo.
Eram agentes da ASAE: acusavam-no de não ter respeitado as medidas mínimas de higiene e segurança na forma como transformara uma série de pedras e de calhaus, sujíssimos, em sardinhas para uma multidão. Ainda por cima, as referidas sardinhas teriam sido grelhadas em grelhadores de zinco, que também não obedeciam a quaisquer normas.
As últimas pessoas que o viram, relatam estas palavras, que teria pronunciado:
- Pai! Agora é que vais ter de afastar de mim este cálice, que isto está mais bera do que no tempo dos Romanos!
Não tornou a ser visto.
terça-feira, julho 15, 2008
VAMOS A VER O QUE ISTO DÁ [IV]
Era verdade.
Os Glauss atacavam em massa.
Eram muitos, com aquela particularidade irritante de atacarem do ponto onde não podíamos prever.
A minha nave abanava ronceiramente.
Cruzavam-se raios por todos os lados. Havia explosões e tudo sacudia, como numa sucessão de sismos.
E de um momento para o outro, por frestas e rupturas que se alargavam e multiplicavam, os Glauss entravam, horrendos.
Curiosamente, a rainha e as suas súbditas, que tanto se enraiveciam contra as ordens de Mäix, desapareciam agora em gritos estridentes, cobardes, aflitos e, mais do que aflitos, aflitivos.
Voltei-me para o professor Karamba, enervado:
- Os teus poderes não foram capazes de prever este ataque? Que raio de...?
Não havia qualquer professor Karamba.
Regressado à sua verdadeira forma, já sem antenas minúsculas, encarando-me com uma fixidez sardónica, o Imperador dos Glauss sorria-me.
E falou:
- Não te assustes! Nós viemos simplesmente raptar a rainha e suas fêmeas. Não ofereçam resistência e nós vamos em paz. O nosso povo carece de fêmeas. Estas fêmeas carecem de macho. É tudo.
Sorri, mal crendo na felicidade que me ofereciam.
Quando sairam, levando consigo as Antoneqas da minha nave, mandei gravar, à entrada da cabine, esta frase histórica:
«Às vezes, os inimigos podem ser uma benção!»
FIM
Os Glauss atacavam em massa.
Eram muitos, com aquela particularidade irritante de atacarem do ponto onde não podíamos prever.
A minha nave abanava ronceiramente.
Cruzavam-se raios por todos os lados. Havia explosões e tudo sacudia, como numa sucessão de sismos.
E de um momento para o outro, por frestas e rupturas que se alargavam e multiplicavam, os Glauss entravam, horrendos.
Curiosamente, a rainha e as suas súbditas, que tanto se enraiveciam contra as ordens de Mäix, desapareciam agora em gritos estridentes, cobardes, aflitos e, mais do que aflitos, aflitivos.
Voltei-me para o professor Karamba, enervado:
- Os teus poderes não foram capazes de prever este ataque? Que raio de...?
Não havia qualquer professor Karamba.
Regressado à sua verdadeira forma, já sem antenas minúsculas, encarando-me com uma fixidez sardónica, o Imperador dos Glauss sorria-me.
E falou:
- Não te assustes! Nós viemos simplesmente raptar a rainha e suas fêmeas. Não ofereçam resistência e nós vamos em paz. O nosso povo carece de fêmeas. Estas fêmeas carecem de macho. É tudo.
Sorri, mal crendo na felicidade que me ofereciam.
Quando sairam, levando consigo as Antoneqas da minha nave, mandei gravar, à entrada da cabine, esta frase histórica:
«Às vezes, os inimigos podem ser uma benção!»
FIM
sábado, julho 12, 2008
GUTERRES E OS OUTROS
Devo uma explicação. Tenho muito prazer.
Num anterior «post» associava, entre parêntesis e sem mais comentários, Ana Drago a Guterres, como exemplo do que é excepcional, pela positiva, no quadro da mediocridade em que se afunda a paisagem partidária portuguesa.
Se, em relação a Ana Drago, não me chegaram ecos de espanto, já em relação a Guterres tive inúmeros sinais da mais profunda estupefacção.
Guterres cometeu, de facto, um tenebroso erro político. Procurou ser um Gentleman, no mais nobre sentido da palavra, num país da treta. Os países da treta não lidam bem com Gentlemen. Não os entendem e, portanto, acabam por não os merecer. E, como dizia Talleyrand: um erro, em política, pode ser pior do que um crime.
Guterres é um homem cultivadíssimo. É engenheiro, o que só lhe fica evidentemente bem, sem que, no seu caso, isso signifique o desenvolvimento de um único hemisfério e o total bloqueio de outro. Ou seja: em Guterres os dois hemisférios cerebrais funcionam em pleno, revelando-nos um homem que sabe de números E de poesia, planeia pontes MAS ouve ópera, raciocina científica MAS TAMBÉM artisticamente, fala línguas e argumenta com uma invulgar agilidade. Basta fazermos a comparação com praticamente qualquer outro líder partidário português para termos a noção de que estamos perante pessoas que jogam em campeonatos diferentes. Pois bem: o que lhe valeu o seu engenho argumentativo foi, entre os portugueses, a imagem de verborreico e o nome de «picareta falante», que lhe inventou o rei da maledicência, do ataque gratuito e dos copos, que é Vasco Pulido Valente!
O grande desígnio de Guterres, se bem se lembram, era o diálogo. Entre todos os sectores e em todas as áreas, esforçou-se denodadamente por incentivar o diálogo. Não é estranho que essa tentativa, porventura ingénua, tenha tão facilmente passado por fraqueza, por falta de convicção ou de firmeza? Não sei se o diálogo terá sido sempre bem conduzido por ele. Se não terá errado. Pôr portugueses a dialogar com seriedade é obra. Mas daí à firmeza a raiar a intolerância com que o seu Delfim de então, José Sócrates, acabou por conquistar o Poder e governar Portugal vai uma diferença que nos permite pôr os dois lado a lado... e chorar de saudades!
Finalmente, e isto é o pior, Guterres ficará na História como o exemplo extremo de cobardia, como se tivesse abandonado o lugar que principiava a tornar-se pantanoso, no momento em que mais se esperaria que tivesse coragem de cumprir a sua missão até ao fim. E considero isso, essa imagem de indignidade, a maior das injustiças que o povo comete em face de um gesto, invulgaríssimo, é certo, entre os políticos portugueses, de verdadeiro desapego pelo Poder. Guetteres deixou o governo para outros, porque «tirou as devidas ilações» do voto dos portugueses, quando o PS perdeu a maioria das Câmaras do país.
Aproveitou a porta aberta? Pois sim. Estava cansado de governar? Talvez. Quem não estaria de um país destes?
Num anterior «post» associava, entre parêntesis e sem mais comentários, Ana Drago a Guterres, como exemplo do que é excepcional, pela positiva, no quadro da mediocridade em que se afunda a paisagem partidária portuguesa.
Se, em relação a Ana Drago, não me chegaram ecos de espanto, já em relação a Guterres tive inúmeros sinais da mais profunda estupefacção.
Guterres cometeu, de facto, um tenebroso erro político. Procurou ser um Gentleman, no mais nobre sentido da palavra, num país da treta. Os países da treta não lidam bem com Gentlemen. Não os entendem e, portanto, acabam por não os merecer. E, como dizia Talleyrand: um erro, em política, pode ser pior do que um crime.
Guterres é um homem cultivadíssimo. É engenheiro, o que só lhe fica evidentemente bem, sem que, no seu caso, isso signifique o desenvolvimento de um único hemisfério e o total bloqueio de outro. Ou seja: em Guterres os dois hemisférios cerebrais funcionam em pleno, revelando-nos um homem que sabe de números E de poesia, planeia pontes MAS ouve ópera, raciocina científica MAS TAMBÉM artisticamente, fala línguas e argumenta com uma invulgar agilidade. Basta fazermos a comparação com praticamente qualquer outro líder partidário português para termos a noção de que estamos perante pessoas que jogam em campeonatos diferentes. Pois bem: o que lhe valeu o seu engenho argumentativo foi, entre os portugueses, a imagem de verborreico e o nome de «picareta falante», que lhe inventou o rei da maledicência, do ataque gratuito e dos copos, que é Vasco Pulido Valente!
O grande desígnio de Guterres, se bem se lembram, era o diálogo. Entre todos os sectores e em todas as áreas, esforçou-se denodadamente por incentivar o diálogo. Não é estranho que essa tentativa, porventura ingénua, tenha tão facilmente passado por fraqueza, por falta de convicção ou de firmeza? Não sei se o diálogo terá sido sempre bem conduzido por ele. Se não terá errado. Pôr portugueses a dialogar com seriedade é obra. Mas daí à firmeza a raiar a intolerância com que o seu Delfim de então, José Sócrates, acabou por conquistar o Poder e governar Portugal vai uma diferença que nos permite pôr os dois lado a lado... e chorar de saudades!
Finalmente, e isto é o pior, Guterres ficará na História como o exemplo extremo de cobardia, como se tivesse abandonado o lugar que principiava a tornar-se pantanoso, no momento em que mais se esperaria que tivesse coragem de cumprir a sua missão até ao fim. E considero isso, essa imagem de indignidade, a maior das injustiças que o povo comete em face de um gesto, invulgaríssimo, é certo, entre os políticos portugueses, de verdadeiro desapego pelo Poder. Guetteres deixou o governo para outros, porque «tirou as devidas ilações» do voto dos portugueses, quando o PS perdeu a maioria das Câmaras do país.
Aproveitou a porta aberta? Pois sim. Estava cansado de governar? Talvez. Quem não estaria de um país destes?
VAI TRABALHAR, Ó!
Nuno Lopes é um jovem inteligente e talentoso.
Não é um cómico, no sentido redutor que a palavra tem. Sendo que, em si mesmo, não há mal nenhum em ser-se um cómico: Ricardo Araújo Pereira é-o assumidamente e repete à exaustão que não quer que nele vejam outra coisa; fez, todavia, da comédia em Portugal (e não sejamos injustos: fê-lo na peugada de um Raul Solnado e de um Herman José) uma Arte maior, provocadora, crítica, pensante. Mas RAP é RAP: um caso excepcional no panorama português.
Nuno Lopes não quer ser, ao contrário, um cómico: trata-se de um actor pleno e completo. Na verdade, de um excelente actor e, na minha opinião, um magnífico «gestor» (derrapamos sempre nestes lugares comuns, mas que fazer?) da sua carreira.
Fez telenovela no Brasil, onde outros portugueses, também convidados para outras tantas telenovelas, andaram a desgraçar a imagem de Portugal. Fez um papel discreto, de um jovem português apaixonado e, mesmo para quem não seja apreciador do género, os momentos em que ele surgia eram momentos brilhantes, que davam luz à novela. Valia bem a pena tirar os olhos do jornal ou do livro que estávamos lendo para nos fixarmos nessas suas aparições.
Nuno Lopes faz, sobretudo, teatro.
Nos momentos em que envereda pelo registo humorístico, evita sabiamente tiros no pé, como o «Levanta-te e Ri» ou os «Malucos do Riso».
Ele era impagável no papel de primo de uma personagem representada por Maria Rueff, integrados no que seria um grupo de teatro de uma associação recreativa de um lugarejo; era impagável no programa da Maria, imitando com génio e um invulgar poder de observação o Marco do Big Brother.
A sua última personagem, nos Contemporâneos, que não tem nome e repete incessantemente «Vai mas é trabalhar, ó!» é igualmente impagável.
Pelo que tenho visto por aí, em comentários dispersos, este boneco é um incompreendido e um mal-amado: as pessoas, que às vezes confundem as coisas, sentem-se incomodadas com um indivíduo cheio de tiques e deficiências que, num sarcasmo cortante e delirante, diz mal dos anões ou das velhinhas.
Acontece que a situação cómica pode ter diversas leituras: na minha perspectiva, não se trata de ridicularizar anões ou velhinhas, mas de parodiar uma mentalidade mesquinha e cruel, pretensiosa e invejosa.
A personagem, aliás, é profundamente democrática na sua maledicência: ele, que, por seu lado, não trabalha, canalizando todo o seu tempo e energia para a crítica dos outros, tanto se sente enraivecido com os portugueses bem-sucedidos (Vanessa Fernandes, Pacman: «Vai mas é trabalhar, ó! O que tu queres é aparecer!») como com os deficientes e os miseráveis. E trata-se, neste último caso, de levar ao extremo esta ideia bem portuguesa de que os males dos outros também podem ser matéria de inveja, porque convidam a uma invejável piedade ou a demais benefícios. «Ai eu sou anãozinho, sou tão querido, não sou?, vejam lá, só os anões é que são queridos, os outros não são queridos...» ou «Sou uma velhinha, ai ai, sou uma velhinha, não tenho pensão, o marido morreu-me, os filhos não querem saber de mim - o que tu queres é que tenham pena de ti, vai mas é trabalhar ó».
E mais não digo, porque não vale a pena estragar com excesso de reflexão aquilo que vale pelo seu efeito quando visto.
No blogue da Janota encontram alguns filmezinhos imperdíveis.
No youtube têm uma longa série. São uma vintena ou uma trintena de sketches.
Não gostas, pois não? Claro que não. (Ai, eu sou muito politicamente correcto, sou muito certinho, não é?, não aprecio ver gozar com anõezinhos, as pessoas gostam todas muito de mim, não tenho graça nenhuma, chamo-me Boaventura Sousa Santos ou assim). Tu queres é aparecer, mas é. Se não tens graça devias ir trabalhar para a agência funerária «Agnus Dei», ou então ter a função de fazer «shiiiu» no cinema quando os espectadores parvos se põem a comentar alto ou a rir despropositadamente, sempre eras mais útil à sociedade. Vai mas é trabalhar, ó!
Não é um cómico, no sentido redutor que a palavra tem. Sendo que, em si mesmo, não há mal nenhum em ser-se um cómico: Ricardo Araújo Pereira é-o assumidamente e repete à exaustão que não quer que nele vejam outra coisa; fez, todavia, da comédia em Portugal (e não sejamos injustos: fê-lo na peugada de um Raul Solnado e de um Herman José) uma Arte maior, provocadora, crítica, pensante. Mas RAP é RAP: um caso excepcional no panorama português.
Nuno Lopes não quer ser, ao contrário, um cómico: trata-se de um actor pleno e completo. Na verdade, de um excelente actor e, na minha opinião, um magnífico «gestor» (derrapamos sempre nestes lugares comuns, mas que fazer?) da sua carreira.
Fez telenovela no Brasil, onde outros portugueses, também convidados para outras tantas telenovelas, andaram a desgraçar a imagem de Portugal. Fez um papel discreto, de um jovem português apaixonado e, mesmo para quem não seja apreciador do género, os momentos em que ele surgia eram momentos brilhantes, que davam luz à novela. Valia bem a pena tirar os olhos do jornal ou do livro que estávamos lendo para nos fixarmos nessas suas aparições.
Nuno Lopes faz, sobretudo, teatro.
Nos momentos em que envereda pelo registo humorístico, evita sabiamente tiros no pé, como o «Levanta-te e Ri» ou os «Malucos do Riso».
Ele era impagável no papel de primo de uma personagem representada por Maria Rueff, integrados no que seria um grupo de teatro de uma associação recreativa de um lugarejo; era impagável no programa da Maria, imitando com génio e um invulgar poder de observação o Marco do Big Brother.
A sua última personagem, nos Contemporâneos, que não tem nome e repete incessantemente «Vai mas é trabalhar, ó!» é igualmente impagável.
Pelo que tenho visto por aí, em comentários dispersos, este boneco é um incompreendido e um mal-amado: as pessoas, que às vezes confundem as coisas, sentem-se incomodadas com um indivíduo cheio de tiques e deficiências que, num sarcasmo cortante e delirante, diz mal dos anões ou das velhinhas.
Acontece que a situação cómica pode ter diversas leituras: na minha perspectiva, não se trata de ridicularizar anões ou velhinhas, mas de parodiar uma mentalidade mesquinha e cruel, pretensiosa e invejosa.
A personagem, aliás, é profundamente democrática na sua maledicência: ele, que, por seu lado, não trabalha, canalizando todo o seu tempo e energia para a crítica dos outros, tanto se sente enraivecido com os portugueses bem-sucedidos (Vanessa Fernandes, Pacman: «Vai mas é trabalhar, ó! O que tu queres é aparecer!») como com os deficientes e os miseráveis. E trata-se, neste último caso, de levar ao extremo esta ideia bem portuguesa de que os males dos outros também podem ser matéria de inveja, porque convidam a uma invejável piedade ou a demais benefícios. «Ai eu sou anãozinho, sou tão querido, não sou?, vejam lá, só os anões é que são queridos, os outros não são queridos...» ou «Sou uma velhinha, ai ai, sou uma velhinha, não tenho pensão, o marido morreu-me, os filhos não querem saber de mim - o que tu queres é que tenham pena de ti, vai mas é trabalhar ó».
E mais não digo, porque não vale a pena estragar com excesso de reflexão aquilo que vale pelo seu efeito quando visto.
No blogue da Janota encontram alguns filmezinhos imperdíveis.
No youtube têm uma longa série. São uma vintena ou uma trintena de sketches.
Não gostas, pois não? Claro que não. (Ai, eu sou muito politicamente correcto, sou muito certinho, não é?, não aprecio ver gozar com anõezinhos, as pessoas gostam todas muito de mim, não tenho graça nenhuma, chamo-me Boaventura Sousa Santos ou assim). Tu queres é aparecer, mas é. Se não tens graça devias ir trabalhar para a agência funerária «Agnus Dei», ou então ter a função de fazer «shiiiu» no cinema quando os espectadores parvos se põem a comentar alto ou a rir despropositadamente, sempre eras mais útil à sociedade. Vai mas é trabalhar, ó!
sexta-feira, julho 11, 2008
O QUE FAZ UMA POLÍTICA DE ENSINO-PARA-OS-POBREZINHOS
O senhor Paulo Rangel não me interessa menormente.
O seu discurso gongórico, retoricamente aplainado, ensaiado certamente muitas vezes ao espelho e «dito» (no sentido em que se fala de «dizer» poesia), na Assembleia da República, num falsete anasalado, revela, em geral, pouco interesse. Prestou-se bem aos apartes jocosos e aos sarcasmos das raposas velhas do PS. É bem feito. Que se entredevorem!
Refiro-me aqui ao discurso, «en passant», porque no meio de uma profusão de figuras de estilo, tinha o mérito de, quase por acaso, chamar a atenção para um pormenor frequentemente esquecido:
Pensa-se, dizia Paulo Rangel, que o «facilitismo» é a melhor forma de ajudar os alunos pobres, os meninos das classes mais desfavorecidas - e isso, concluía ele, é um erro crasso!
O «facilitismo» significa, a médio ou a longo prazo, retirar aos estudantes economicamente mais debilitados a única verdadeira oportunidade de se formarem com qualidade e de se tornarem, do ponto de vista cultural, pessoas de excelência: onde, e com quem, teriam oportunidade de aprender o melhor da melhor forma? De conviver com a Poesia e com a Arte, de preferir bom teatro e bom cinema? Onde mais - e com quem - aprenderiam a argumentar e a debater? De que outra maneira apurariam o gosto, conheceriam a delicadeza de não atender o telemóvel numa conferência, durante um filme ou numa sessão seja do que for? Que outras oportunidades teriam e terão, alguma vez, de ganhar bolsas de estudo que lhes permitam ser aceites nas melhores universidades do estrangeiro, em competição com os mais qualificados e promissores jovens do mundo inteiro? Onde e com quem aprenderão a não dizer «sêjamos», «vistes» ou «tem a haver com»...?
Basta olharmos para a qualidade média dos políticos portugueses para nos inteirarmos. Com poucas e honrosas excepções (ocorre-me Ana Drago e Guterres: e, depois, há uma espécie de neblina selectiva na minha memória que me não deixa ser capaz de associar mais ninguém a esse campeonato), da Esquerda à Direita, a «classe» política é um exemplo feroz do mal que o facilitismo escolar pode provocar.
Um Ministério da Educação a sério, bem preparado, de gente culta, veria isto. Mas o Ministério, coitado, é, ele próprio, um exemplo daquilo que o eduquês pode produzir; e tem, é verdade, preocupações mais urgentes: criar uma galeria com as fotografias de todos os ministros que passaram pela 5 de Outubro desde 1962.
O seu discurso gongórico, retoricamente aplainado, ensaiado certamente muitas vezes ao espelho e «dito» (no sentido em que se fala de «dizer» poesia), na Assembleia da República, num falsete anasalado, revela, em geral, pouco interesse. Prestou-se bem aos apartes jocosos e aos sarcasmos das raposas velhas do PS. É bem feito. Que se entredevorem!
Refiro-me aqui ao discurso, «en passant», porque no meio de uma profusão de figuras de estilo, tinha o mérito de, quase por acaso, chamar a atenção para um pormenor frequentemente esquecido:
Pensa-se, dizia Paulo Rangel, que o «facilitismo» é a melhor forma de ajudar os alunos pobres, os meninos das classes mais desfavorecidas - e isso, concluía ele, é um erro crasso!
O «facilitismo» significa, a médio ou a longo prazo, retirar aos estudantes economicamente mais debilitados a única verdadeira oportunidade de se formarem com qualidade e de se tornarem, do ponto de vista cultural, pessoas de excelência: onde, e com quem, teriam oportunidade de aprender o melhor da melhor forma? De conviver com a Poesia e com a Arte, de preferir bom teatro e bom cinema? Onde mais - e com quem - aprenderiam a argumentar e a debater? De que outra maneira apurariam o gosto, conheceriam a delicadeza de não atender o telemóvel numa conferência, durante um filme ou numa sessão seja do que for? Que outras oportunidades teriam e terão, alguma vez, de ganhar bolsas de estudo que lhes permitam ser aceites nas melhores universidades do estrangeiro, em competição com os mais qualificados e promissores jovens do mundo inteiro? Onde e com quem aprenderão a não dizer «sêjamos», «vistes» ou «tem a haver com»...?
Basta olharmos para a qualidade média dos políticos portugueses para nos inteirarmos. Com poucas e honrosas excepções (ocorre-me Ana Drago e Guterres: e, depois, há uma espécie de neblina selectiva na minha memória que me não deixa ser capaz de associar mais ninguém a esse campeonato), da Esquerda à Direita, a «classe» política é um exemplo feroz do mal que o facilitismo escolar pode provocar.
Um Ministério da Educação a sério, bem preparado, de gente culta, veria isto. Mas o Ministério, coitado, é, ele próprio, um exemplo daquilo que o eduquês pode produzir; e tem, é verdade, preocupações mais urgentes: criar uma galeria com as fotografias de todos os ministros que passaram pela 5 de Outubro desde 1962.
domingo, julho 06, 2008
VAMOS A VER O QUE ISTO DÁ [III]
Havia pior do que aquelas. A rainha, que sentia as entranhas devoradas de inveja e ciúme pelo facto de ser eu, tão mais novo, o líder daquela delirante expedição, e fazia menção de nunca pronunciar o meu nome, chamando-me, quando precisava, do alto da sua realeza, com um mero estalar de dedos carregado de superioridade e desprezo.
A discussão de que vos falo só acalmou quando a rainha me estalou, uma vez mais, dois dedos e eu lhe voltei ostensivamente as costas.
O silêncio caiu com uma força quase esmagadora no interior da sala habituada ao ruído...
E no momento seguinte, pareciam todas mais calmas, mais leves, mais suaves, quase doces: era um paradoxo igualmente insuportável, o espectáculo de fêmeas tão feias emitindo aqueles arrulhos, aquelas vozes de veludo, como se lhes escorresse ternura das bocas preparadas para gritar e cuspir.
Soube depois, muito mais tarde, que a rainha passara o resto do dia a chorar. Não vi - estivera fechado no meu próprio cubículo privado a chorar: no meu caso, de raiva por não poder bater-lhes!
O Professor Karamba alertava-me, agora, para os problemas que se abatiam sucessivamente sobre a «nave ronceira», como a designavam os velozes Angelius.
- Acha que são elas? - perguntei. - Tentativas de vingança?
- Se não conscientemente, inconscientemente... mas...
A rainha estalava-me, entretanto, os dedos ossudos. Calámo-nos. Estalou com mais força. Espirrou um humilhante «pssssiu».
Pus-me de pé, enervado.
Aproximei-me dela:
- Oiça! Se... - principiei.
Não tive tempo de acrescentar uma única palavra. Porque a rainha falou, começando imediatamente a chorar:
- Os Glauss! Vão atacar-nos. Estão em todo o lado!
[CONTINUA]
A discussão de que vos falo só acalmou quando a rainha me estalou, uma vez mais, dois dedos e eu lhe voltei ostensivamente as costas.
O silêncio caiu com uma força quase esmagadora no interior da sala habituada ao ruído...
E no momento seguinte, pareciam todas mais calmas, mais leves, mais suaves, quase doces: era um paradoxo igualmente insuportável, o espectáculo de fêmeas tão feias emitindo aqueles arrulhos, aquelas vozes de veludo, como se lhes escorresse ternura das bocas preparadas para gritar e cuspir.
Soube depois, muito mais tarde, que a rainha passara o resto do dia a chorar. Não vi - estivera fechado no meu próprio cubículo privado a chorar: no meu caso, de raiva por não poder bater-lhes!
O Professor Karamba alertava-me, agora, para os problemas que se abatiam sucessivamente sobre a «nave ronceira», como a designavam os velozes Angelius.
- Acha que são elas? - perguntei. - Tentativas de vingança?
- Se não conscientemente, inconscientemente... mas...
A rainha estalava-me, entretanto, os dedos ossudos. Calámo-nos. Estalou com mais força. Espirrou um humilhante «pssssiu».
Pus-me de pé, enervado.
Aproximei-me dela:
- Oiça! Se... - principiei.
Não tive tempo de acrescentar uma única palavra. Porque a rainha falou, começando imediatamente a chorar:
- Os Glauss! Vão atacar-nos. Estão em todo o lado!
[CONTINUA]
domingo, junho 29, 2008
VAMOS A VER O QUE ISTO DÁ [II]
Lembrava-me bem do início da nossa imensa viagem, e daquela impressionante discussão com Antuneqa e o seu grupo, em que cheguei a perguntar-me se não se trataria de uma revolta para se apoderarem da nave.
Havia ordens claras de Sir Mäix. Eu falara com ele, vendo a sua imagem virtual mesmo diante de mim.
Ninguém gostava de Sir Mäix, e com razão, até com razões inúmeras mas, dessa vez, as suas ordens, algo com a simplicidade de:«Evitem as naves dos Glauss; eles estão em pé de guerra, andam a armar-se furiosamente e vocês têm um armamento muito reduzido e em péssimas condições...», pareciam de uma sensatez indiscutível. No resto, Mäix podia continuar a não ter razão, e eu a opor-me a ele na medida das minhas possibilidades. Podia continuar a ser um líder sem escrúpulos e odiado. Mas teria eu de o contestar, lá porque era Sir Mäix, se, um dia, me dissesse por exemplo: «A Antuneqa é muito feia!»? - E se eu concordasse, faria isso de mim um lambe-botas, um fiel de Sir Mäix???
Tive dificuldade em entender aquele levantamento do grupo de Antuneqa: todas fêmeas do mesmo planeta de onde os machos haviam sido extintos, todas feias - na minha perspectiva, claro, segundo valores e critérios terráqueos -, numas vozes estridentes e contundentes, que optavam pela intensidade em vez de argumentos...
Gyllia, talvez pior do que Antuneqa, berrava:
- Se eu vir uma nave Glauss, garanto que disparo. Desato a disparar, eu. Não me escondo, eu. Nunca me escondi, eu. De nada, de ninguém. Disparo nem que seja com um revólver de luz.
Tive de gritar mais alto, a minha voz possante e treinada quebrando o nevoeiro sonoro.
- Está a dizer, Gyllia, que vai desobedecer às ordens?
- Não... sim... eu... não é bem isso, mas eu... eu...
- Porque se assim for, diga-me já, que tomarei as devidas medidas!
- Não. Mas. Eu. Sim. Não, não, não, não. Mas quero deixar expresso o... o... o meu protesto. A ordem de Sir Mäix não faz sentido.
E redigia já um texto confuso, que riscava e retomava, numa folha já com diversos cortes e rasgões, muito feia, muito triste, muito como o beco sem saída por onde enveredara.
[CONTINUA]
Havia ordens claras de Sir Mäix. Eu falara com ele, vendo a sua imagem virtual mesmo diante de mim.
Ninguém gostava de Sir Mäix, e com razão, até com razões inúmeras mas, dessa vez, as suas ordens, algo com a simplicidade de:«Evitem as naves dos Glauss; eles estão em pé de guerra, andam a armar-se furiosamente e vocês têm um armamento muito reduzido e em péssimas condições...», pareciam de uma sensatez indiscutível. No resto, Mäix podia continuar a não ter razão, e eu a opor-me a ele na medida das minhas possibilidades. Podia continuar a ser um líder sem escrúpulos e odiado. Mas teria eu de o contestar, lá porque era Sir Mäix, se, um dia, me dissesse por exemplo: «A Antuneqa é muito feia!»? - E se eu concordasse, faria isso de mim um lambe-botas, um fiel de Sir Mäix???
Tive dificuldade em entender aquele levantamento do grupo de Antuneqa: todas fêmeas do mesmo planeta de onde os machos haviam sido extintos, todas feias - na minha perspectiva, claro, segundo valores e critérios terráqueos -, numas vozes estridentes e contundentes, que optavam pela intensidade em vez de argumentos...
Gyllia, talvez pior do que Antuneqa, berrava:
- Se eu vir uma nave Glauss, garanto que disparo. Desato a disparar, eu. Não me escondo, eu. Nunca me escondi, eu. De nada, de ninguém. Disparo nem que seja com um revólver de luz.
Tive de gritar mais alto, a minha voz possante e treinada quebrando o nevoeiro sonoro.
- Está a dizer, Gyllia, que vai desobedecer às ordens?
- Não... sim... eu... não é bem isso, mas eu... eu...
- Porque se assim for, diga-me já, que tomarei as devidas medidas!
- Não. Mas. Eu. Sim. Não, não, não, não. Mas quero deixar expresso o... o... o meu protesto. A ordem de Sir Mäix não faz sentido.
E redigia já um texto confuso, que riscava e retomava, numa folha já com diversos cortes e rasgões, muito feia, muito triste, muito como o beco sem saída por onde enveredara.
[CONTINUA]
sábado, junho 28, 2008
VAMOS A VER O QUE ISTO DÁ (I)
Na Via Láctea, entre «Cagnia» e «Ugnia», vemos seres que navegam solitariamente, com uma antena, se a têm, ou um tentáculo, ou o correspondente ao dedo polegar, indicando um certo sentido, na expectativa de uma boleia.
Nós raramente damos boleia a estas criaturas em órbita lenta, porque nunca sabemos com que contar. Alguns são assaltantes, há entre estes viajantes de ar inocente verdadeiros «serial killers» que se replicam rapidamente em centenas de militares, capazes de tomar, em poucos segundos, um veículo que os acolhesse.
Nesse dia, porém, aceitámos a bordo aquele viajante solitário: era o Professor Karamba, de Ugnia; não trazia malas, apenas uma mochila rudimentar. Um turbante brilhante cobria-lhe o crânio calvo, as orelhas ponteagudas e as pequenas antenas.
À noite, já refrescado, sentado comigo à mesa, disse-me, com a sua voz pausada, típica de Ugnia:
- Têm-vos acontecido constantes acidentes, não é verdade? Desastres, problemas vários, como se estivessem amaldiçoados...!
Ah, «como se estivéssemos amaldiçoados», como se nos houvessem rogado uma praga, era bem verdade: estas eram as palavras que, ainda há pouco tempo, ouvira da voz gaguejante e arquejante do imediato. Assenti.
- Percebi-o, logo que entrei. Detecto uma energia terrível; julgo que haja mesmo rotundas integalácticas em que a nave chega a perder velocidade, como se forças ocultas se apoderassem dela...
Eu estava boquiaberto. No ponto de Rana, por exemplo, a força parecia esavair-se-nos da nave, deixando-nos praticamente parados.
Professor prosseguiu:
- Só tenho uma coisa para lhe aconselhar. Faço-o gratuitamente, para lhe agradecer a boleia que acaba de me oferecer. Que preste muita atenção àquela criatura. Não sei dizer-lhe o que percebo nela, que mal, que intenso negrume, que luz invertida... mas há qualquer coisa de pouco limpo na sua aura. Preste-lhe muita atenção....
E, com a antena curtinha, como que cortada por uma lâmina, indicava Antuneqa, baixa, feia, corcunda, como todas as fêmeas de Yaúte. («Feia» do meu ponto de vista; em Yaúte, Antuneqa sempre fora muito apreciada...)
Olhei-a.
Antuneqa olhou-me.
Desviei os meus olhos, com um arrepio...
(CONTINUA)
Nós raramente damos boleia a estas criaturas em órbita lenta, porque nunca sabemos com que contar. Alguns são assaltantes, há entre estes viajantes de ar inocente verdadeiros «serial killers» que se replicam rapidamente em centenas de militares, capazes de tomar, em poucos segundos, um veículo que os acolhesse.
Nesse dia, porém, aceitámos a bordo aquele viajante solitário: era o Professor Karamba, de Ugnia; não trazia malas, apenas uma mochila rudimentar. Um turbante brilhante cobria-lhe o crânio calvo, as orelhas ponteagudas e as pequenas antenas.
À noite, já refrescado, sentado comigo à mesa, disse-me, com a sua voz pausada, típica de Ugnia:
- Têm-vos acontecido constantes acidentes, não é verdade? Desastres, problemas vários, como se estivessem amaldiçoados...!
Ah, «como se estivéssemos amaldiçoados», como se nos houvessem rogado uma praga, era bem verdade: estas eram as palavras que, ainda há pouco tempo, ouvira da voz gaguejante e arquejante do imediato. Assenti.
- Percebi-o, logo que entrei. Detecto uma energia terrível; julgo que haja mesmo rotundas integalácticas em que a nave chega a perder velocidade, como se forças ocultas se apoderassem dela...
Eu estava boquiaberto. No ponto de Rana, por exemplo, a força parecia esavair-se-nos da nave, deixando-nos praticamente parados.
Professor prosseguiu:
- Só tenho uma coisa para lhe aconselhar. Faço-o gratuitamente, para lhe agradecer a boleia que acaba de me oferecer. Que preste muita atenção àquela criatura. Não sei dizer-lhe o que percebo nela, que mal, que intenso negrume, que luz invertida... mas há qualquer coisa de pouco limpo na sua aura. Preste-lhe muita atenção....
E, com a antena curtinha, como que cortada por uma lâmina, indicava Antuneqa, baixa, feia, corcunda, como todas as fêmeas de Yaúte. («Feia» do meu ponto de vista; em Yaúte, Antuneqa sempre fora muito apreciada...)
Olhei-a.
Antuneqa olhou-me.
Desviei os meus olhos, com um arrepio...
(CONTINUA)
quinta-feira, junho 26, 2008
O MEU EXTRA-TERRESTRE
Para que se perceba, realmente, que a animação segue dentro de momentos, quero advertir-vos que ando a pensar numa saga à maneira de J.R.R. Tolkien.
Na verdade, a saga está atrasada, porque tenho demorado demasiado tempo - exactamente como Tolkien - a engendrar uma língua falada pelos nativos de um certo planeta de um sistema longínquo numa galáxia a anos-luz do ponto em que nos encontramos. Acreditem: se queremos conceber uma linguagem em que até a gramática tenha uma realidade, acabamos perdendo algum tempo...
Neste momento, posso transcrever-vos uma passagem de um tenebroso discurso de certa criatura. Reparem:
«TiLela Kelyaúte. A Cágnia. A Cágnia. Kelyaúte. Tai, tai, pai, tai, pai nom, pai nom. TiLela dá, pai nom, pai nom. A úgnia? A úgnia pai? Cacá? Ontá úgnia? Kelúgnia, kelúgnia! Uhaaam, kelúgnia, ontá úgnia? Kelyaúte!»
Estava a reinar. Não há saga. E esta fala existe, não é uma invenção minha. Na verdade, é a linguagem de uma espécie de criatura tenebrosa, um absoluto extra-terrestre. Apresento-vos a minha filha Margarida, eheheh!
E este discurso tem tradução. Às vezes, torna-se uma tradução arriscada porque, por exemplo, «Cágnia» significa, em geral, «Casa», mas também pode significar «Caixa» ou «Calça», quer no sentido de vestimenta, quer como imperativo do verbo calçar. (Este extra-terrestre é extremamente imperativo...)
Posso arriscar uma tradução desta algaraviada que ela nos berrava no carro, quando vínhamos das compras, com sacos carregados de iogurtes.
«Tia Lela, quero iogurte. Em casa. Em casa. Quero iogurte. Sai, sai, pai, sai, o pai não. A tia Lela é que dá, o pai não, o pai não. A chucha? A chucha, pai? Não está cá? Onde está a chucha? Quero a chucha, quero a chucha, uhaaam, quero a chucha, onde está a chucha? Quero iogurte!»
Há tradutores que traem. Como vêem, não é o meu caso: eu quando traduzo, traduzo mesmo!
Na verdade, a saga está atrasada, porque tenho demorado demasiado tempo - exactamente como Tolkien - a engendrar uma língua falada pelos nativos de um certo planeta de um sistema longínquo numa galáxia a anos-luz do ponto em que nos encontramos. Acreditem: se queremos conceber uma linguagem em que até a gramática tenha uma realidade, acabamos perdendo algum tempo...
Neste momento, posso transcrever-vos uma passagem de um tenebroso discurso de certa criatura. Reparem:
«TiLela Kelyaúte. A Cágnia. A Cágnia. Kelyaúte. Tai, tai, pai, tai, pai nom, pai nom. TiLela dá, pai nom, pai nom. A úgnia? A úgnia pai? Cacá? Ontá úgnia? Kelúgnia, kelúgnia! Uhaaam, kelúgnia, ontá úgnia? Kelyaúte!»
Estava a reinar. Não há saga. E esta fala existe, não é uma invenção minha. Na verdade, é a linguagem de uma espécie de criatura tenebrosa, um absoluto extra-terrestre. Apresento-vos a minha filha Margarida, eheheh!
E este discurso tem tradução. Às vezes, torna-se uma tradução arriscada porque, por exemplo, «Cágnia» significa, em geral, «Casa», mas também pode significar «Caixa» ou «Calça», quer no sentido de vestimenta, quer como imperativo do verbo calçar. (Este extra-terrestre é extremamente imperativo...)
Posso arriscar uma tradução desta algaraviada que ela nos berrava no carro, quando vínhamos das compras, com sacos carregados de iogurtes.
«Tia Lela, quero iogurte. Em casa. Em casa. Quero iogurte. Sai, sai, pai, sai, o pai não. A tia Lela é que dá, o pai não, o pai não. A chucha? A chucha, pai? Não está cá? Onde está a chucha? Quero a chucha, quero a chucha, uhaaam, quero a chucha, onde está a chucha? Quero iogurte!»
Há tradutores que traem. Como vêem, não é o meu caso: eu quando traduzo, traduzo mesmo!
O CORPULANTEX HYBRIDUS DE CAVALETE AZUL DA ZONA NORTE DE ALGUEIRÃO SUL
Há períodos assim, em que me apetece tão-só tecer considerações, ensaiar argumentos acerca seja lá do que for, em vez de «historiar», ou melhor (quer dizer: pior, mas mais preciso), «estoriar». Sei que me torno maçudo quando me dá para aí. Avalio-o facilmente: se as minhas «estórias» merecem poucos comentários (os de um gato, os de uma janota e, agora nem isso, os de uma «anja»), os meus «posts» sérios, sobre filosofia, política ou literatura (Prousssst!) não são comentados. De todo.
Tenho este problema de viver em permanente esforço para parecer um tipo leve e divertido aos olhos dos outros, sem conseguir evitar completamente que o meu lado «seca» e pesadão venha por vezes ao de cima, como um dedicado especialista em «corpulantex hybrudus» de cavalete azul da zona norte de Algueirão Sul que, tendo percebido, ao longo de anos, que o seu interesse não é partilhado por ninguém, e quando o menciona provoca de imediato bocejos, distracção e fuga, acaba por aprender a preferir, em público, dizer graças, se possível na Feira Popular, entre copos, amigos e montanhas russas, MAS que... em certos momentos... nem que seja por um instante... por uma fracção de segundo... numa árdua batalha psicológica contra si mesmo, de antemão perdida... não pode... não é capaz de calar uma ou outra frase que lhe saem como um arroto... «Sabes que o corpulantex hybridus tem...?»... - gerando o inevitável silêncio constrangido e compungido, e um olhar desesperado do interlocutor, que só pode interpretar-se como: «Oh, não! Lá começa o maluquinho...!»
Mas, por agora, com o Proussst, já me aliviei.
Não se preocupem. A animação segue dentro de momentos...
Tenho este problema de viver em permanente esforço para parecer um tipo leve e divertido aos olhos dos outros, sem conseguir evitar completamente que o meu lado «seca» e pesadão venha por vezes ao de cima, como um dedicado especialista em «corpulantex hybrudus» de cavalete azul da zona norte de Algueirão Sul que, tendo percebido, ao longo de anos, que o seu interesse não é partilhado por ninguém, e quando o menciona provoca de imediato bocejos, distracção e fuga, acaba por aprender a preferir, em público, dizer graças, se possível na Feira Popular, entre copos, amigos e montanhas russas, MAS que... em certos momentos... nem que seja por um instante... por uma fracção de segundo... numa árdua batalha psicológica contra si mesmo, de antemão perdida... não pode... não é capaz de calar uma ou outra frase que lhe saem como um arroto... «Sabes que o corpulantex hybridus tem...?»... - gerando o inevitável silêncio constrangido e compungido, e um olhar desesperado do interlocutor, que só pode interpretar-se como: «Oh, não! Lá começa o maluquinho...!»
Mas, por agora, com o Proussst, já me aliviei.
Não se preocupem. A animação segue dentro de momentos...
quarta-feira, junho 25, 2008
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
Interrogo-me com alguma frequência acerca da margem de snobismo e vaidade que haverá nesta minha paixão pela obra de Proust; interrogo-me sobre até que ponto será ele sincero, este deslumbramento em face de sete volumes de uma exasperante minúcia na descrição de pormenores dos pormenores provenientes da precisa memória visual e olfactiva, auditiva, gustativa e, sem dúvida, até táctil, de Marcel (a personagem) e de Marcel (o autor), ou, pelo contrário, até que ponto não servirá principalmente para me exibir, como se eu andasse por aí a dizer: «Adoro Proust! Ai, adoro Proust!»
A resposta a tal interrogação surge em dois pontos.
Numa ordem perfeitamente arbitrária, primeiro, o carácter discreto, se não secreto, do modo como vivo esta paixão, a qual trato como se fosse uma tara de que me não covém falar demasiado. Devo dizer que essa é, aliás, uma das razões que me mais me levam a hesitar em escrever um «post» sobre Proust.
Em seguida, o prazer genuíno, indiscutível, com que releio a obra.
O que julgo ver nela e tanto me entusiasma é, por um lado, uma capacidade (uma «competência», como se diz por aí...) de que sou inteiramente destituído: a facilidade na síntese entre o analítico e o sensitivo. Eu sou capaz de descrever e, obviamente, capaz de sentir. Mas descrever as sensações, as características deste ruído rápido do matraquear sobre as teclas, ou deste zumbido, ou decompor o sabor deste gole de uísque com que faço uma pausa para pensar na frase que se segue, é-me quase doloroso. E, por falar em dor: recordo-me bem da dificuldade que constituía, para mim, quando ia ao médico, descrever «exactamente» o tipo de dor que estava a sentir. «É uma dor fininha?», propunha-me ele. Que significa isso? O que será, por oposição, uma «dor grossa»? Devo dizer que um dos grandes terrores que me perturbavam na antevisão de uma ida ao médico não residia no receio do momento em que o senhor doutor forçaria a abertura da minha boca, puxando a língua para baixo sob a pressão da malfadada espatulazinha e, com isso, quase me fazendo vomitar (sim, tal seria o meu segundo pavor), mas no momento em que ele me perguntaria: «Diz-me lá exactamente o que estás a sentir». Tinha pesadelos, imaginando que a doença poderia ser mal diagnosticada por defeito das minhas descrições, ou por um «sim» leviano, precipitado, à simples questão: «É uma dor fininha?». Ou: «É uma dor que aperta?»
Mas, sobretudo, delicia-me aquela atenção de Proust ao evanescente, ao que está disperso no tempo, ao que passa, ao que não dura, ao que não ficará, ao que já cá não se encontra no preciso momento em que acabo de o apontar; delicia-me aquela atenção ao superficial que é, curiosamente,uma das marcas da profundidade; a subtileza do que muitos vezes não captamos na sua essência à primeira leitura e, portanto, a que teremos de retornar. Extasio-me (como diz o próprio Proust de uma personagem, o escritor Bergotte) com o seu poder de pegar numa percepção por um ângulo tão pouco usual que parece um ângulo errado, produzindo, a partir dele, um sentido originalíssimo, paradoxal, de uma invulgaridade arrepiante.
Entrego-me à sua observação de contradições nos sentimentos, sempre complexos e carregados de cambiantes, em todas as personagens, na evidência reiterada de que nada é simples, de que palavras como «amo» ou «detesto» são meras etiquetas, porque há no amor sensações que se digladiam e chocam, como há no «detestamento» estranhos e inesperados elementos de atracção.
Saio de uma página de Proust completamente rendido e plenamente satisfeito, como se tivesse atingido um cume.
Não é uma experiência de que me ouvirão falar muito. Não por egoísmo, não por pouca vontade de partilha. Mas porque o próprio nome, Mar-cel Proussst, soa a clássico, a pesado.
Saboreiem só, quanto mais não seja, todas as reverbarações deste título. «Em - Busca - do - Tempo - Perdido».
Não é maravilhoso?
A resposta a tal interrogação surge em dois pontos.
Numa ordem perfeitamente arbitrária, primeiro, o carácter discreto, se não secreto, do modo como vivo esta paixão, a qual trato como se fosse uma tara de que me não covém falar demasiado. Devo dizer que essa é, aliás, uma das razões que me mais me levam a hesitar em escrever um «post» sobre Proust.
Em seguida, o prazer genuíno, indiscutível, com que releio a obra.
O que julgo ver nela e tanto me entusiasma é, por um lado, uma capacidade (uma «competência», como se diz por aí...) de que sou inteiramente destituído: a facilidade na síntese entre o analítico e o sensitivo. Eu sou capaz de descrever e, obviamente, capaz de sentir. Mas descrever as sensações, as características deste ruído rápido do matraquear sobre as teclas, ou deste zumbido, ou decompor o sabor deste gole de uísque com que faço uma pausa para pensar na frase que se segue, é-me quase doloroso. E, por falar em dor: recordo-me bem da dificuldade que constituía, para mim, quando ia ao médico, descrever «exactamente» o tipo de dor que estava a sentir. «É uma dor fininha?», propunha-me ele. Que significa isso? O que será, por oposição, uma «dor grossa»? Devo dizer que um dos grandes terrores que me perturbavam na antevisão de uma ida ao médico não residia no receio do momento em que o senhor doutor forçaria a abertura da minha boca, puxando a língua para baixo sob a pressão da malfadada espatulazinha e, com isso, quase me fazendo vomitar (sim, tal seria o meu segundo pavor), mas no momento em que ele me perguntaria: «Diz-me lá exactamente o que estás a sentir». Tinha pesadelos, imaginando que a doença poderia ser mal diagnosticada por defeito das minhas descrições, ou por um «sim» leviano, precipitado, à simples questão: «É uma dor fininha?». Ou: «É uma dor que aperta?»
Mas, sobretudo, delicia-me aquela atenção de Proust ao evanescente, ao que está disperso no tempo, ao que passa, ao que não dura, ao que não ficará, ao que já cá não se encontra no preciso momento em que acabo de o apontar; delicia-me aquela atenção ao superficial que é, curiosamente,uma das marcas da profundidade; a subtileza do que muitos vezes não captamos na sua essência à primeira leitura e, portanto, a que teremos de retornar. Extasio-me (como diz o próprio Proust de uma personagem, o escritor Bergotte) com o seu poder de pegar numa percepção por um ângulo tão pouco usual que parece um ângulo errado, produzindo, a partir dele, um sentido originalíssimo, paradoxal, de uma invulgaridade arrepiante.
Entrego-me à sua observação de contradições nos sentimentos, sempre complexos e carregados de cambiantes, em todas as personagens, na evidência reiterada de que nada é simples, de que palavras como «amo» ou «detesto» são meras etiquetas, porque há no amor sensações que se digladiam e chocam, como há no «detestamento» estranhos e inesperados elementos de atracção.
Saio de uma página de Proust completamente rendido e plenamente satisfeito, como se tivesse atingido um cume.
Não é uma experiência de que me ouvirão falar muito. Não por egoísmo, não por pouca vontade de partilha. Mas porque o próprio nome, Mar-cel Proussst, soa a clássico, a pesado.
Saboreiem só, quanto mais não seja, todas as reverbarações deste título. «Em - Busca - do - Tempo - Perdido».
Não é maravilhoso?
terça-feira, junho 24, 2008
NO CONFORTO FAMILIAR
Sento-me ao computador como quem tenta respirar, erguendo a cabeça acima da linha da água que principia a envolver-me, a puxar-me convictamente para baixo, para o fundo.
A água em que me vou enraizando é, sobretudo, uma água sonora: toda feita de ruídos que me povoam a casa invadida por familiares. Oiço o meu sobrinho de pernas peludas que gargalha alentejanamente, lá para baixo. (Sem desprimor, que o gargalhar alentejano não é pior do que os outros...); não lhe oiço a mulher, nortenha discreta, tímida, pálida e loira. Mas, em contrapartida, oiço a minha cunhada, mãe do marmanjão das pernas peludas, que barafusta com ele! «Tira-me já isso daqui! Faz outra dessas e volto já para o Alentejo...» - Sinto-me indeciso: pedir ao dos pêlos que repita seja lá qual for a gracinha, a ver se ela desanda, se desandam todos?
Mas estou sendo injusto! Vieram para me ajudar na vigilância da minha filha, atacada de varicela; vieram para tomar conta dela, uma vez que não posso deixar de ir trabalhar, agora que, na escola, me desabam em cima os exames e as reuniões de notas, nem a Adelaide, que se falha, não vende, se não vende, não ganha!
Estou-lhes, portanto, grato. Claro, podiam não ter trazido o gato e o cão. Mas com quem os deixariam?
A irmãzinha do rapazola, ela já também de pernas peludas, grita. Aliás, grita sempre. Pergunto-me por que raio uma criança falará sempre a gritar, a não ser que seja surda ou que viva entre surdos. (O que, por aqui, em breve será certamente o caso!)
Afundo-me literalmente - na verdade, chamam-me para jantar e, portanto, lá terei de afundar estes dois andares que ainda me separam...
Preparo-me para acabar este post, com um misto de triunfo e de culpabilidade. Sinto-me, realmente, mau como as cobras. Absolutamente maldoso. Vejam: as pessoas que acorrem para me apoiar neste momento conturbado da minha vida, e eu que me escondo no blogue a dizer mal...!
Se ao menos dizer mal não me fizesse tão bem à saúde...
Ou se a criança não falasse tão sempre a gritar...
Ou se não tivessem trazido o gato e o cão...!
A água em que me vou enraizando é, sobretudo, uma água sonora: toda feita de ruídos que me povoam a casa invadida por familiares. Oiço o meu sobrinho de pernas peludas que gargalha alentejanamente, lá para baixo. (Sem desprimor, que o gargalhar alentejano não é pior do que os outros...); não lhe oiço a mulher, nortenha discreta, tímida, pálida e loira. Mas, em contrapartida, oiço a minha cunhada, mãe do marmanjão das pernas peludas, que barafusta com ele! «Tira-me já isso daqui! Faz outra dessas e volto já para o Alentejo...» - Sinto-me indeciso: pedir ao dos pêlos que repita seja lá qual for a gracinha, a ver se ela desanda, se desandam todos?
Mas estou sendo injusto! Vieram para me ajudar na vigilância da minha filha, atacada de varicela; vieram para tomar conta dela, uma vez que não posso deixar de ir trabalhar, agora que, na escola, me desabam em cima os exames e as reuniões de notas, nem a Adelaide, que se falha, não vende, se não vende, não ganha!
Estou-lhes, portanto, grato. Claro, podiam não ter trazido o gato e o cão. Mas com quem os deixariam?
A irmãzinha do rapazola, ela já também de pernas peludas, grita. Aliás, grita sempre. Pergunto-me por que raio uma criança falará sempre a gritar, a não ser que seja surda ou que viva entre surdos. (O que, por aqui, em breve será certamente o caso!)
Afundo-me literalmente - na verdade, chamam-me para jantar e, portanto, lá terei de afundar estes dois andares que ainda me separam...
Preparo-me para acabar este post, com um misto de triunfo e de culpabilidade. Sinto-me, realmente, mau como as cobras. Absolutamente maldoso. Vejam: as pessoas que acorrem para me apoiar neste momento conturbado da minha vida, e eu que me escondo no blogue a dizer mal...!
Se ao menos dizer mal não me fizesse tão bem à saúde...
Ou se a criança não falasse tão sempre a gritar...
Ou se não tivessem trazido o gato e o cão...!
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