sexta-feira, novembro 28, 2008

ALGUNS ARGUMENTOS

Com as ineptas tentativas de simplificação de um modelo abstruso e inexequível, o ministério consegue, quanto mais não seja, que os Encarregados de Educação, alguns professores, até, e os portugueses em geral principiem a interrogar-se acerca da classe docente: «O quê?! Ainda não ficaram satisfeitos? Mas então que mais querem? Ora bem, esta cambada não se vai deixar mesmo é avaliar...!»

O problema, naturalmente, é que um modelo tem de ser visto como uma estrutura global, informada por determinados pressupostos e contendo uma filosofia subjacente. Quando é esse conjunto, com os seus supostos pedagógicos e éticos, que está sendo contestado, quaisquer ajustamentos, modificações, simplificaçãozinhas só poderão falhar o essencial, tornando o todo, ao mesmo tempo, um monstro híbrido e descaracterizado, um instrumento coxo e esvaziado.

Este paradigma, para falar à moda - que é já antiga, assombrando-nos desde, pelo menos, que Kuhn a lançou, mas enfim...! - este paradigma está errado na sua essência.
Por um lado, como é óbvio, é errado porque avaliar o trabalho docente segundo objectivos quantificáveis revela-se um disparate. E, como todos os disparates, de uma arbitrariedade absoluta. Estabeleço o «objectivo» de realizar «pelo menos» duas actividades ligadas ao cinema? E se conseguir realizar as duas previstas sou «Bom» - tenham sido elas, na prática, a cagada que forem...? Se tiver realizado três ou quatro - superei o objectivo, tornando-me «Muito Bom» ou «Excelente», ainda que hajam sido exercícios de puro folclore?

(Será que, por essa ordem de ideias, analogamente, do «número» de vezes que, numa sessão, eu retome o acto sexual, é que depende a avaliação da qualidade da minha prestação na cama? «Três? A sério?! És boooom! Quatro? Uau! Que fera!»)

Por outro lado, note-se o absurdo da forma como se prevê o que seja uma aula assistida. Não sou contra a ideia de que venham observar as minhas aulas. Terei muito gosto, se quiserem fazer-me uma visita. Mas porquê três? Que saberão sobre as minhas reais capacidades como professor vindo assistir a três aulas previamente marcadas, que eu hei-de seguramente preparar de um modo atípico, que não revela o que faço e como faço habitualmente?
Dir-me-ão: «Mas aí está precisamente algo de que a ministra precindiu».
Ora, em primeiro lugar não, não prescindiu - não, se eu estiver a apontar para o Muito Bom ou Excelente. Nesse caso, devo chegar-me à frente para que mas venham observar. E já viram as reacções dos meus colegas em face de um tal requerimento, de um tal pedido meu? «Olha, olha, olha aquele a querer fazer-se ao Excelente! Ehehehe! Eu sempre disse que o gajo tem a mania que é o máximo. (Mas olha, na cama, digo-te eu, não vai além de uma vez de cada vez. Coitado!...»). Por outro lado, afirmando «Quem se contente com o «Bom» não tem de se incomodar, deixe-se estar», no quadro deste modelo, ou seja, mantendo-se o paradigma, estamos a colocar-nos ao nível do Jardim, que manda todos os professores madeirenses para casa com uma espécie de «Bom» administrativo...

Finalmente, sempre disse (e, aí, sem qualquer originalidade, mas completamente em sintonia com o discurso dos sindicatos), que a divisão dos professores em Titulares e Meros Professores, e a consequente decisão de que de entre os titulares deverão, digamos, sair os avaliadores dos outros titulares e dos não-titulares, entre pares de profissionais que tomam café juntos, se cruzam todos os dias, formando simpatias e antipatias, amizades, cumplicidades, inimizades, é de uma tão elementar estupidez, que custa ver como não foi já compreendida... caramba... até por aquele senhor de permanente encaracolada, livra!, ou mesmo pelo outro que não pode fazer qualquer tipo de permanente... (Estou a descambar para uma argumentação ad hominem? Pois é. Mas deixem-me então refazer: Custa aceitar que esta estupidez não tenha sido compreendida até pela ministra, mesmo com as suas notórias limitações. Como ela não é um homem, julgo que já não se pode chamar a isto argumento ad hominem... ou sim?! Huuum...!)

terça-feira, novembro 25, 2008

UM ESPECTÁCULO PENOSO

Depois do pedaço que suportei do último Prós e Contras, sobre a avaliação do desempenho dos docentes, quedo-me a pensar, com alguma melancolia, sobre esta disjunção: ou, de facto, quando nos deparamos com programas destes, que juntam professores a falar, percebemos rapidamente como e quão, na generalidade, a nossa classe profissional é medíocre; ou, alternativamente, e por alguma razão que me escapa, devem convidar sempre os piores de entre nós, os mais atados e atabalhoados, os incorrigíveis senhores do dispararate.

E apetece perguntar: Então, realmente, não é justo submeter estes imbecis - e imbecis deste género - a uma qualquer avaliação?

Devo dizer - e com tristeza o digo, como professor de filosofia - que, nos últimos tempos, os ensinantes do Amor pelo Saber, esses, sobretudo, têm dado lições e espectáculos gratuitos de falta de senso (logo eles, que repetem, cartesianamente, que o «bom senso é a coisa mais bem distribuída neste mundo», numa ironia em que se procura deixar claro, pelo contrário, que só a eles coube a distinção de pensar bem). Mas é ver as embrulhadas, as falácias, os penosos exercícios de argumentação sem tom nem som, os erros formais e factuais que arrepiam os seus discursos (e arrepiam os tele-espectadores)...

Ponho-me no lugar de um Encarregado de Educação, de um cidadão anónimo, e grito para mim: Estes tipos não querem é mesmo ser avaliados!

Porque esta é a questão central, e não basta dizê-lo, nem repeti-lo: Nós queremos ser avaliados! - É preciso dar provas de que sim, e de como. É preciso desmontar as vozes que ecoam persistentemente nos nossos ouvidos e que, de Daniel Sampaio a Maria Filomena Mónica (já nem falo do Tavares e do Rangel, esses odiadores encartados dos docentes portugueses), insinuam que, no fundo, os professores constituem a mais fechada das corporações e que, no fundo, nunca verdadeiramente foram avaliados e que, no fundo, estão pouco desejosos de o serem.

Pensar pela própria cabeça é bom. Ser tutela de si mesmo é bom. Ser comité central do próprio espírito, liberta.
Saber o que se quer, procurar sempre saber o que realmente se quer e porquê, é indispensável.
E quando se não sabe, pensa-se melhor, antes de se aceitar o convite para ir ao Prós e Contras.

segunda-feira, novembro 24, 2008

A SORTE GRANDE DE SÓCRATES

Instado a confessar se a indignação e as manifestações dos professores o faziam temer que ficasse definitivamente ameaçada a possibilidade de uma nova maioria absoluta do PS, o primeiro-ministro, senhor José Sócrates, respondeu: «Nós não governamos a pensar em maiorias absolutas».
Ora a isso é que eu chamo não ter medo das palavras. Porque, bem vistas as coisas, José Sócrates disse tudo. Um pouco mais do que tudo, até. Para ser certeiro, bastar-lhe-ia ter explicado: «Nós não governamos a pensar». Ponto.

Mas eu compreendo que a ministra, por seu lado, não saiba para onde se voltar, para onde fugir, para onde recuar, por onde resolver o problema.
E não é por falta de trabalho. Na verdade, tem-se esforçado bastante, tem trabalhado como nunca. Tome-se um exemplo: a última entrevista que lhe foi feita na televisão; era bem notório o imenso, o intenso trabalho em que se empenhou para reformar, em pleno tempo de crise, era nítido o seu radical ímpeto reformador: por uma vez, não aparecia despenteada: é uma reforma no visual; nada de fios soltos na cabeça: uma grande reforma, bolas!; algum pó-de-arroz, uma cor nos lábios. Não se pode ignorar esse esforço reformista. Depois, a moderação na voz. O tom comedido, quase doce. Não conta?
Não digo, vamos lá ver as coisas, que tenha conseguido tornar-se bela. (Embora se, em Portugal, houvesse alguém tão irrazoável e delirante para considerar possível uma tal reforma, esse alguém seria, evidentemente, a ministra da Educação); mas digo que se realizou um esforço honesto, ingente e visível para que ela não estivesse, ali, muito mais feia do que Judite de Sousa.

O problema permanece delicado; mais do que nunca. Como salvar a face? Sim, há faces que não merece a pena salvar. Mas, enfim, como mudar o modelo de avaliação sem dar a entender que se mudou? Ou, pelo contrário, como não mudar dando a aparência de que se mudou? Mais: e como conseguir fazer que o senhor de bigode farto, do sindicato, aceite essas mudanças-que-o-não-são, ou essas não-mudanças-que-o-são-mas-não-interessam?

E, pensa Sócrates, como evitar, no meio disto, a sangria dos votantes? O esvaziamento da maioria absoluta? Resposta dada, portanto: evitando pensar nisso.
Alguém dizia - não foram os Gato Fedorento? -: Bem, Sócrates tem, no fundo, muita sorte. É que Queirós está à frente da selecção, com os resultados que se têm visto.
E, que diabo, num país em crise, não há ovos disponíveis para o Queirós & ministra da Educação.

terça-feira, novembro 04, 2008

A RECONVERSÃO IV (E FIM)

A ideia de uma invasão do planeta por hordas de criaturas de seis dedos com unhas por cortar em cada pé arrepiou-o vivamente. (Mas até algo tão simples como um arrepio era, agora, no seu corpo reconvertido, sentido de um modo novo, diferente, estranho, absurdo).

Subiu, atarantado, aos quartos: queria perceber o que acontecera à mulher e aos filhos; se também eram como ele, e haviam sofrido uma metamorfose idêntica, ou, não sendo, se o podiam de algum modo ouvir, entender, aconselhar, ajudar... (Nem lhe ocorreu que podiam afugentá-lo, expulsá-lo, matá-lo!)

À medida que galgava as escadas, sentia que se apossava cada vez mais do ser em que se reconvertia. Referências antigas, muito antigas, vinham à tona, como acordando de um sono velho. Memórias, imagens, ideias. Uma outra linguagem, de que se esquecera, de que se não lembrara nunca, mas recordava agora, tornava-se-lhe clara na mente, carregada de termos muito exactos, muito mais perfeitos do que as possibilidades oferecidas pelas línguas da terra. Ele era Kal-El. Uma célula adormecida durante anos. Pronta para a acção.

No quarto, a mulher e os gémeos viam-no entrar de sopetão. Olhavam-nos aterrorizados. Com olhos cheios de pavor. Abraçados uns aos outros. Tremendo. Temendo-o.

Foi a menina que o reconheceu. Sob a cor diferente, o aspecto inconcebível, os sextetos de dedos, as escamas em redor do pescoço.
E correu para ele - paradoxalmente, como se fosse proteger-se, nos seus próprios braços, dele mesmo.
- É o pai! É o pai! - repetia ela.

E nesse momento, todas as dúvidas encontraram uma solução.
Cabia-lhe protegê-los. Com seis dedos e escamas ou não. Fosse quem fosse. Ainda que se chamasse Kal-El.
Abraçou-a.

quinta-feira, outubro 30, 2008

A RECONVERSÃO III

Era uma voz desconhecida. E, no entanto, paradoxalmente, reconhecia-a. Mais complicado, ainda: reconhecia-a sem a reconhecer, como se lhe chegasse de um Além onde só estivera em sonho, ou mesmo mais recuada e longínquamente, num sonho de um sonho...

Olhou para o espelho; curiosamente, era dali que a voz familiar-desconhecida lhe soava.
E tornou a reparar no seu estranho rosto reflectido.
Mas não. Não era já o seu rosto. Nem o de sempre, nem aquele em que acabava de se metamorfoser. Via agora no espelho, como se o espelho fosse uma televisão ou um intercomunicador com imagem, o rosto de uma criatura estranha, que lhe falava serenamente. Havia ruído, um pouco de granulado, uma imagem não muito nítida, um pouco desfocada por vezes - e uma pessoa, um ser, um bicho, um monstro, que era aquilo?, que ele não conhecia mas, de algum modo, vagamente reconhecia.
E que lhe repetia:
- Não te assustes, Kal-El! A hora da reconversão chegou! Estás a readquirir o teu corpo, o teu ser. O ataque não tardará. Os humanos estão desesperados. A crise alastra. É agora ou nunca, Kal-El!

domingo, outubro 26, 2008

CONTOS INFANTIS REVISISTADOS: OS TRÊS PORQUINHOS

Era uma vez três porquinhos.

O mais novinho era uma porquinha pequenina e com pouca experiência da vida, chamada Daisy.
O do meio, seu mano, era um porquinho astucioso e adolescente, a quem tratavam por Dudu.
O mais velho e mais experiente, cinquentão, pai dos outros dois, era o Prático.

Os três porquinhos foram, então, construir as respectivas casinhas.

A mais novinha, coitadita, não vos faz pena?, sem experiência de vida, sem consciência das agruras possíveis, previsíveis até, limitou-se a fabricar uma casita de palha.

O outro, ligeiramente mais sabido mas ainda pouco rodado, levantou, não muito longe, uma casa de madeira.

E o Pai Prático, todo lampeiro e esperto, construiu uma moradia de pedra, com dois andares, quintal e até uma piscina com vedação para impedir que os lobos a frequentassem.

Acontece que o Lobão desta história, o Banco, fez, primeiramente, uma visita à Daisy. Bem queria soprar, mas a Daisy, no seu linguajar infantil, limitou-se a dizer:

«Empéstimo?! Qual empéstimo?! Não, eu apagnei uma páglia e fije a cágnia xojinha, xem ajuda nenhuma!» (Tradução: apanhei umas palhas e tratei de fazer a casa sozinha, sem pedir nada a ninguém...)

Em face de Dudu, o Lobão fez também inúmeras tentativas de o encostar à parede. Mas o adolescente, com palavrões típicos de todos os adolescentes, espreitando pela janela, mandou-os passear:

«Qual @3£# de empréstimo qual carapuça! Vão mas é %&/! Tão a brincar??? Não me ?»=}§£$ o juizo!!!»

Quando chegou a vez do Pai Prático, o Lobão vingou-se ferozmente das anteriores frustrações. Soprou desalmadamente. Vimos a casa subir pelos ares, tijolo após tijolo. Desaparecer no firmamento. E o Banco a rir, Agora é que é! Huá Huá Huá! Querias casa? Com o Euribor neste descontrole? Eu dou-te a casa!!!

De modo que o porquinho Prático teve de fugir para casa dos filhos, onde vive hoje muito triste e temeroso, espreitando à janela, paranóico e infeliz.

Aguenta seis meses na casa de palha - e descansa da Daisy, durante outros seis meses, na casa do porquinho Dudu.

segunda-feira, outubro 20, 2008

A RECONVERSÃO II

Naquele princípio de histeria que se apossou dele, lançou um berro. Esperava, talvez, que a família acordasse sobressaltada. Que descessem. Que o ajudassem. Que povoassem novamente o seu mundo de cenas e situações, vozes e gestos familiares e reconhecíveis. Mas ninguém respondeu ao apelo: e, no silêncio, o eco do seu berro, ou a memória do seu berro, assustou-o e obrigou-o a conter-se.
Aproximou-se do espelho, à espera de que fosse este a devolver-lhe, no reflexo do seu próprio rosto, um rasto e um resto de normalidade.
Mas o seu rosto, que o olhava do espelho, era diferente. Ele não era ele: aquela testa demasiado longa nunca fora a sua testa; nem aquela cabeça completamente calva (prenúncios de calvície, sim, fariam parte do reflexo esperado, mas não aquele crânio desértico que via agora); sobretudo aqueles olhos com que se olhava, desesperado, não eram os seus olhos.
Lembrou-se da «Metamorfose». Tranformara-se em quê? Transformava-se em quê? E com que direito se apoderava assim a ficção da sua própria vida?
Ouviu, então, uma voz:
- Calma, Kal-El! Chegou o momento! Não te assustes: chegou o momento!

(CONTINUA)

sexta-feira, outubro 17, 2008

A RECONVERSÃO

A vida não lhe corria bem: os efeitos da crise económica abriam rachas nas menores porções do seu dia-a-dia familiar e profissional. Tudo eram ralhos, dramas, nervos; tudo eram crises e choro; tudo eram contas que rabiscava obssessivamente em folhas reaproveitadas de papel (um talão do multibanco, uma conta da EDP), com um lápis muito comido, muito velhinho.

A casa, então, era um sorvedouro: bonita e grande por fora, com um quintalinho onde plantava couves que faziam as invejas dos vizinhos mas, por dentro, quem diria?, como numa brutal metáfora do estado da sua vida, tudo eram manchas de humidade avançando, alastrando, formando formas trocistas, enormes bocas escancaradas, ou rindo ou para o devorar...

Entrou na casa de banho, madrugada fria, pensando, ou melhor, chorando-se no pensamento. Tomou um duche rápido. Com água fria. E preparou-se para cortar as unhas dos pés - aí estava um aspecto da higiene, pelo menos, que não lhe saía caro...

E, com o pé direito assente sobre o tampo da sanita, atacava já com o corta-unhas quando...
Contou seis dedos. Seis!
Não podia ser. Duas explicações possíveis, uma de duas hipóteses: ou estava a sonhar - era um sonho, e então talvez tudo fosse um sonho, talvez a crise económica fizesse também parte do mesmo horroroso pesadelo...
Ou, mais simplesmente, enganara-se. Contara mal, atabalhoada e nervosamente.
Tornou a contar: seis dedos. Indiscutível: seis, seis, seis. Contou ainda: seis. Seis.
Pousou, nervosamente, o pé direito no chão, assentou o esquerdo sobre o tampo da sanita. Seis dedos, igualmente.
(CONTINUA)

terça-feira, outubro 14, 2008

COISAS MINÚSCULAS À MARGEM DA SUFOCAÇÃO

Como é evidente, o tenebroso processo de avaliação entre pares em que me encontro submerso não conseguiu acabar comigo. Aperta, sufoca, desvitaliza - como, em certos filmes, quando a personagem se encontra num quarto estreito, e descobre que as paredes são móveis, e que deslizam de modo a vir a esmagá-lo se não descobrir uma solução até lá... -; cansa, entristece, deprime. Mas, por isso mesmo, a mínima coisa que se descobre à margem desse processo ganha uma importância e um significado quase resplandecentes.

Nessa medida, tenho vindo a tropeçar em pequenas maravilhas que gozo silenciosamente. Pequenas descobertas que adquirem proporções e significados inesperados; pausas minúsculas, tempos para respirar fundo diante de uma chávena de café, redescobertas constantes.

O café é uma dessas maravilhas. Aderi de uma vez por todas ao abatanado, rodeio-o de rituais e de fórmulas. Gosto dele muito quente e cheio.

Outra, é a leitura. É verdade que o tempo me tem vindo a ser roubado de uma forma inadmissível, mas dez minutos que me sobrem para passar mais uma página de «Detectives Selvagens» - que é grande e não terminarei tão cedo - é um tempo bem empregue. Um humor imprevisível, surrealista e frequentemente obsceno, uma escrita seca e sem floreados mas, paradoxalmente, de uma imensa criatividade, personagens carregadas de defeitos enternecedores de tão humanos, são os nós deste enorme texto.

Em matéria de banda desenhada, tenho a recomendar um blogue - chamemos-lhe assim: gráfico, cuja referência me foi indicada pelo filho de uma amiga minha, de Belas Artes. Fosse eu Janota ou Angel e punha-vos a clicar para voarem até lá. Assim, ponho-vos a escrever: http://imaginarte-imazine.blogspot.com - Olhem! Que espanto! Mal o escrevi, o endereço apareceu em azul; bruscamente, sem eu fazer nada, pronto para que cliquem. Estou a progredir, ein? Por acaso, mas estou, ein?

E assim vou resistindo.

terça-feira, outubro 07, 2008

OLIMPÍADAS DA MALHA

Parece que o nascimento de uma criança deve saudar-se com a mesma alegria devida à doce chegada da Primavera. E eu compreendo: há-de ser porque esse momento, uns dias após o parto, é certamente o único em que o bebé, que já massacrou a mãe para vir ao mundo, ainda, no entanto, não descobriu novas estratégias para continuar a massacrar a mãe e, já agora que está cá fora, também o pai.
Esse curto tempo em que tudo parece agradável e sorridente tem, por isso mesmo, de ser pretexto para festejos e danças. Nos próximos dez anos, pelo menos para os pais, acabaram-se os festejos e a dança é outra!

Nesta base - festejar a pausa que nunca mais voltará - fomos no fim-de-semana a Alverca distribuir uns beijos por um recém-nascido e respectiva família.

Chegados, vimos a menina a dormir docemente. Olhámo-la, enternecidos, trocámos ideias tontas sobre as semelhanças com outros parentes, escondendo caridosamente algumas semelhanças perturbadoras que por acaso pudéssemos ter também detectado.

E, depois, na confusão, fui arrebatado pelo jovem pai e pelo jovem avô para uma taberna de Alverca, onde - a mim, que vinha mal refeito de uma inclemente gripe que atacara com medicação feroz - para uma taberna de Alverca onde, dizia eu, me obrigaram a comer ovos cozidos e a beber uma série de «mines».
«Mas não haverá, não sei, hum, por exemplo uma sanduíche?, apetecia-me uma sanduíche, ou então...», insinuava-me eu a medo, com as pernas ainda doloridas da doença.
Não. Uma taberna não é o Ritz, lembrou-me alguém certeiramente. Ovos e mines.

Sequentemente, tornaram a pegar em mim (que pouca resistência estava capaz de oferecer), e enfiaram-me numa espécie de campeonato de malha, jogo de que não sei absolutamente coisa alguma. Avesso a que me considerem «snob», ciente de que nenhum lema é tão adequado como «Em Roma sê romano», aceitei pôr-me a jogar àquele jogo, com a mesma imprudência e a mesma irresponsabilidade com que uma criança chamada ao quadro, numa aula de matemática, em vez de confessar que não pesca absolutamente nada do assunto, optasse por «resolver» o problema escrevendo por ali uns quaisquer números, absurda e aleatória, mas convictamente. (O que também já me aconteceu!)

Formavam-se equipas renhidas, com tipos de nomes como o Chico Damas, o Preto e o Coxo. E, bruscamente, começou tudo: vi-me apanhado num coro de gritos, num entusiasmo ensurdecedor, com palavras que não percebia, relativamente àquele desporto que, afinal, tinha mais regras do que me parecera. «Truco», dizia um. Acho que era isso. Mas aquilo tinha um significado pré-determinado e, com base nesse grito, fazia-se uma operação demasiado rápida para mim, a partir da qual, de repente, ele me vencia.
Discordava-se. Media-se com um cigarro qual das malhas se encontrava mais próxima de um prego que nunca cheguei a perceber onde estava, que nunca vi. Insultavam-me. O Zé Rabo estava possesso comigo, enervava-se...

Tive de me raspar assim que pude. Deixaram-me ir. Pudera! Devem ter ficado tão aliviados como eu...

Preferi voltar ao círculo feminino, arrulhando, terno, em torno do recém-nascido. Que, por um breve lapso de tempo, até bonito me pareceu!

terça-feira, setembro 30, 2008

Dante's Inferno Test - Impurity, Sin... and Damnation

Este post tem duas virtualidades. Primeira, a de vos exibir a minha nova veia de utilizador das modernas tecnologias! E tomem lá!!!
Segunda, a de permitir que saibam, mediante a realização de um testezito, qual o terrível círculo do inferno que vos espera...
(clique na imagem)

sexta-feira, setembro 26, 2008

POR QUE NÃO VOLTO ÀS HISTÓRIAS!? DEIXEM-ME RIR

Sento-me diante do écrã cinzento, do mesmo modo que os escritores em crise de inspiração falavam, no século XIX, do drama da folha em branco.

Gostava de prosseguir o blogue. Recheá-lo de histórias, narrar episódios diversos, comentar filmes. Sobretudo, gostava de vos oferecer palavras onde clicar para voarem para outras paragens...

Mas, que fazer?, sento-me aqui e não tenho na cabeça senão o que vou ter de fazer para avaliar os meus colegas. Documentos, fichas, estatísticas. Grelhas, registos, objectivos. Listas de verificação. Legislação. Mais legislação. Afundo-me. Escorrego em papelada. Perco material importante. Uso a pen. Não sei da pen. Reencontro-a.

(Tive de pedir a alguém que me ensinasse a tirá-la, em segurança, do computador).

Alguém pensa que tudo vai melhorar. Que as coisas começarão finalmente a funcionar. Que as estatísticas terão um ar bonito, positivo, apresentável. Nada sabem do clima que se vive nos locais; da tensão, dos medos, dos olhos que já se não enfrentam nos corredores. E do que se rouba em energia e criatividade, do que se perde em motivação. Que perversão! Que pobreza! Que estreiteza! Que perfídia! Ou, se não é perfídia, então simplesmente que incompetência, que ignorância, que falta de lucidez...

Estou nisto. Fecho para obras. Oiço, todos os dias, novos jovens que fazem contas para a reforma. Estou nisto, porque não tenho tempo para mais.

Perdoai-lhes, Pai!

Pensando melhor: não, Pai, não lhes perdoes...

quarta-feira, setembro 10, 2008

O NOME DA AVOZINHA

Já devo ter aqui escrito que a minha mãe é uma deliciosa velhinha de oitenta e cinco anos de idade. (Devia evitar espalhar estas informações pela net, bem sei: assim como há pedófilos à espreita, deve haver a correspondente tara por idosos. Ainda por cima usei a expressão «deliciosa» a propósito da senhora, mas enfim, calo-me já).
Chama-se Emília.
A minha filha, no seu linguajar arrevesado, trata-a por Vó Pia.
Sou idiota por não gostar, uma vez que «Pia» até é um nome bonito: existia a rainha Maria Pia, por exemplo, fundadora da Casa Pia (oh Diabo; isto está hoje a correr-me mal...); mas o caso é que aquele «Pia» evocava sempre, para mim, outro género de pias.
Tentei que a minha querida Daisy desse um passo, e começasse a tratar a avó por Mila. Vó Mila, em vez de Vó Pia.
Ensinei. Exaustivamente. Consecutivamente. Incansavelmente.
A Daisy deu, efectivamente, um passo:
Começou a tratá-la por Vó Pila!
Podem imaginar o susto, a tristeza, o horror, a vergonha, a angústia com que, pela primeira vez, a deliciosa velhinha escutou o bem-intencionado tratamente por parte da deliciosa criança: Olá, Vó Pila!
Tenho procurado emendar o erro. Insisto em que ela volte a chamá-la simplesmente Vó Pia. Não é possível. Na vida, nunca se volta atrás.
São diálogos alucinantes:
- Bamos à Vó Pila?
- Vó Pia! Pia! Pia! Vó Pia!!!
- Pila! Vó Pila!
- Não, Daisy. Ouve. Vó Pi-a. Pii-aaa!
- Vó Piii-laaa!

Como andam as coisas, está visto, eu é que vou acabar na prisão...

quinta-feira, setembro 04, 2008

POUCOCHINHO DE CADA VEZ

Regressado ao serviço, mergulho alegremente nos primeiros dias de trabalho, na esperança de descansar das férias!

Na minha derradeira sessão de praia (e, com o que eu aprecio «praia», espero que seja «derradeira» no mais amplo sentido da palavra!) aconteceu que, à semelhança de um dos alarves a que a bondosa e ecológica Janota se refere - clicar aqui, eheheh! - também eu pisei um ser marinho, um jovial e querido... peixe-aranha. Cum caneco! Um oceano tão imenso, tão duramente feito das lágrimas de tantos portugueses (por mim, aliás, contribuí com muitas das minhas próprias lágrimas ali mesmo naquele momento), e logo teria de haver a pavorosa coincidência de nos cruzarmos, eu e peixe-aranha, naquele inesperado cantinho...!

Saí da água com um sorriso amargo, coxeando da minha dor. Família e amigos recebiam-me, na areia, com aquela boa-disposição própria de quem assiste aos acidentes dos outros. Por fim, perceberam que aquilo talvez fosse a sério, porque o meu sorriso estava como que congelado e suponho que cheguei a desmaiar.

Lá tive de subir por um íngreme e pedregoso caminho em direcção ao posto médico, o qual se situava numa espécie de ninho de águias.
Como não podia levar o meu próprio calçado, que me mordia francamente sobre a mordidela do peixe-aranha, optei por umas ridículas havaianas emprestadas. Muito pequeninas e coloridas, deixando-me os calcanhares de fora...! E assim subi, escarranchado sobre o ombro do meu amigo M., que por sinal é asmático e, num dado ponto do percurso, começou a respirar com uma espécie de estertor preocupante.

Foi neste estado e nesta figura que chegámos a uma cabana, com uma cruz vermelha estampada na porta, de onde desalojámos um menino espanhol que se havia cortado, de forma a que os enfermeiros se concentrassem no meu pé.

O meu amigo, completamente exausto, fumava um cigarro à porta para se reanimar do ataque de asma.

Férias? Sim, mas pouco, pouco. Pouco, pouco de cada vez...

terça-feira, agosto 19, 2008

BOTA, LEITE, PONTAL

Os meus quatro leitores (vá, cinco nas horas de ponta!) já se aperceberam da minha admiração por Mendes Bota. Confesso que o considero perfeitamente ao nível dos Gato Fedorento. Tem a piada que tem, e sempre com o ar de estar a falar a sério ou a fazer política, o que o torna verdadeiramente hilariante.

Numa destas entrevistas de Verão, que suponho que é o único tipo de entrevista que um jornalista se lembraria de fazer a Mendes Bota, nota-se que ele intui, no fundo, a inveja que muitos comediantes frustrados e sem graça revelam relativamente à sua arte. Daí que principie por dizer que aquilo de que tem mais medo é «a inveja humana».

Mas logo a seguir, abre a veia. Não chega a suicidar-se, limita-se a abrir a veia humorística: afirma, por exemplo, que a sua bebida de eleição é «água, colheita de 2005», e que a sua personagem de ficção preferida é... o Pato Donald!

Como todo o político que se preza, Bota também gosta de fazer promessas. Se pensa cumpri-las, é outro assunto. Mas não deixa de acenar com o sonho de um mundo melhor, ao garantir que já passou «a fase das cantorias» e, agora, nem no duche!

Mais à frente, à banalíssima pergunta «as aparências iludem?», Bota responde com um originalíssimo: «As iludências aparudem.»

Sobre os casamentos gay, confessa que não se encontra preparado psicologicamente para isso: deve ter pensado que o entrevistador já estava a fazer-lhe uma proposta.

E este homem, correndo riscos, quase a transgredir os limites, dedica-se a organizar a célebre Festa do Pontal, e a senhora dona Manuela Ferreira Leite não quer ir?
Que se passa com esta mulher, não aprecia stand-up comedy?
Não gosta de se rir???

sábado, agosto 16, 2008

MAS DAQUI A UNS ANOS HÁ MAIS...!

Tenho pena de me ver obrigado a ser cruel. Mas, perante esta frustração, como não sê-lo!? Um bocadinho, ao menos...?

Em momentos de competição desportiva internacional, como agora nos Jogos Olímpicos, o povo português deixa-se imbuir de uma inexplicável esperança e de uma tensa expectativa. Sopra sempre um vento em cujas interstícios se ouve: «Desta é que é!»

Devo dizer que o único atleta olímpico que, este ano, conseguiu efectivamente surpreender-nos foi Francis Obykwelu (peço desculpa no caso de não estar a escrever correctamente este nosso tão típico nome!): surpreendeu-nos porque, apesar de ter ficado em sexto lugar nos 100 m., ou seja, num lugar fraquinho, que não lhe permitiu o apuramento, afirmou em Conferência de Imprensa que vinha já embora, nem ficava para correr os 200 m., mais, acabava ali a sua carreira de competições, pedia desculpa, obrigado e adeus! Foi a grande surpresa lusa destes polémicos jogos.

No tiro ao arco, ouvi, na rádio, um rapaz que se mostrava muito contente com um lugar igualmente fracote, porque achava que estas coisas mudam de um momento para o outro. Queixava-se, coitado, e com razão, do vento que o enganara, fazendo-me perceber até que ponto podem ir as manhas e os truques dos chineses..! Vê-se mesmo que a China não é uma democracia, porque se o fosse, o mínimo que se esperaria é que todos os concorrentes estivessem sujeitos aos mesmos ventos, não só o jovem português.

Houve ainda, no meio de tudo isto, uns remadores: foram repescados para a semi-final, e estavam francamente satisfeitos pela «repescagem» que os salvava. Bolas! «Repescados»!? Não é constrangedor??? Julgariam que estavam numa competição de pesca??? Afinal, depois de tudo isto, acabaram - penso - em oitavo lugar. Nada mau; parece que nunca Portugal, que no entanto tantos mundos deu ao mundo, tinha chegado tão longe. Navegámos por toda a parte, é certo, mas na modalidade de barquinho a remos o máximo a que chegámos foi ao oitavo lugar.

Vale a pena falar do Judo? Talvez seja melhor não, hein? Tínhamos ali outra jovem esperança mas... apanhou não sei que golpe, não sei de que adversária, que a fez cair para o tapete - e para o nono lugar, ou coisa que o valha!

Resta-nos esperar pelos para-olímpicos. Em cadeiras de rodas, sem ver coisa alguma, surdos e tudo, esses é que nos trazem sempre oiro, incenso e mirra!

sexta-feira, agosto 08, 2008

UMA NOITE, EM FÉRIAS, COM MÚSICA DE FUNDO

Interrompo as minhas férias bloguianas para vos contar um episódio, não porque receie esquecê-lo depois - Ah, estou seguro de que nunca o esquecerei... -, mas para me não engasgar com ele.

Nestas férias complicadas, em que minha mulher continua trabalhando e, portanto, me cabe tomar conta dos meus filhos, multiplicando programas que, ao mesmo tempo, sejam baratos e os sosseguem por uns minutos, chego à sexta-feira em bastante mau estado. Cabelo em pé, barba por fazer, olhos encovados. Moscas gravitando.

A minha mulher vê-me, nesta sexta, em condições tão impróprias, que me convida a ir com ela arejar, jantar fora.
«Onde deixamos os miudos?», pergunto imediatamente.
Os olhos faiscam-lhe de raiva. Temos a nossa primeira discussão da noite. Os miudos vêm. É claro.

Seguimos no automóvel, eu ao volante mas cumprindo indicações precisas. Surge a ideia que nos reconcilia a todos: vamos à marina de Oeiras. Espaço, ar fresco, distracções...

Pomos o carro no parque. Seguimos a pé sobre o passadiço de madeira. Brincamos. Estamos todos mais leves. Dirigimo-nos para um restaurante com música ao vivo, quer dizer, onde, cá fora, sobre uma banqueta, um retornado de cabelo penteado em estilo afro, como o Pacman, e também de calções aliás, entoa umas brasileiradas ao som da sua viola.

A Daisy está, entretanto, eufórica. Sentamo-nos a uma mesa da esplanada. Ela não quer. O meu filho repara, discretamente - e pela primeira vez, pelos vistos - que traz as unhas compridas e debruadas a negro. Exige, de repente, um corta-unhas.
Os demais clientes, que gozavam a música brasileira, principiam a olhar para nós. Um casal que degusta vinho verde olha-nos fixamente.
O cantor continua:
«Veja que coisa mais linda, mais cheia de vida, lalala, lalala...»
Daisy salta rapidamente da cadeira onde liricamente a quiséramos sentar, empurra pernas e pés, pisa sandálias, aproxima-se lestamente do cantor, «Gosto muito dji você, leãozinho, parari pararará», que, com um olhar nervoso, não tira os olhos dela, enganando-se numa nota.
Corro a buscar Daisy. Pego-a ao colo. Inicia um espeneanço fantástico, berrando mais alto do que o Pacman brasileiro, que esganiça para tentar fazer-se ouvir, «Lhe dourando a peli...»
«Não tens um corta-unhas, mãe?», pergunta o outro.
Conferenciamos rapidamente. Ali não é possível. E se fôssemos para dentro do restaurante? Escuro, sorumbático, tem, no entanto, a vantagem de apresentar todas as mesas completa e convidativamente vazias...

Entramos. Ao longe, a voz do clone brasileiro do Pacman chega-me aos ouvidos, com uma nítida nota de alívio: «É um barrquinho a navegá, no macio azul do má...»
Lá dentro, tentando segurar a doce Daisy, embato num estranho sistema de floreados de vidro, borboletas e pássaros pendentes do tecto, até à altura precisa da minha cabeça. Queixo-me. Daisy aproveita-se da distracção e zarpa lá para fora: oiço a voz estrangulada do Pacmanzinho. Chega-me um «ai!» que não sei se faz parte da música...
Dirijo-me para fora, furando, meio atordoado, pelo emaranhado de mobiles frágeis e coloridos, ruidosos e aguçados. A minha mulher pergunta-me: «O que é que queres comer!?» - e eu respondo, com um esgar sarcástico: «Veneno!»
Saio, no preciso instante em que vejo uma rapariga de longos cabelos encher a mesa de entradas, azeitonas, carnes frias, queijos...
A minha mulher recebe nas mãos uma ementa enorme - perceberei mais tarde que é o tamanho necessário para lá caberem os preços que apresenta.

Pego, um pouco brutalmente, é verdade, em Daisy que, sentadinha no chão, coitada, se limitava a aplaudir o Pacmanzinho.

Reentro, com Daisy esperneando, no momento exacto em que posso ouvir minha mulher, pegando na mala, para a rapariga que se afadiga a preencher-nos a mesa com acepipes:
- Não, deixe estar, nós vamos embora; ela está muito agitada - e, ao dizer «ela», aponta, com o queixo, Daisy, a qual, esperneando-me entre os braços, me faz acompanhar a música do Pacmanzinho com uns quantos «tlins» produzidos pela cabeça contra uma sucessão de borboletas e flores cor-de-rosa que me esperam, ameaçadoras, do tecto. - Vamos embora, não se preocupe. Era afugentar o resto da clentela...
Percebo que, no fundo, com esta desculpa, a minha mulher, que estivera examinando os preços incomportáveis, encontra o pretexto adequado para desaparecermos dali.
Dirigimo-nos, cabisbaixos, para o carro. O miudo, porque ninguém lhe forneceu um corta-unhas. Ou, alternativamente, uma prancha de surf, porque parece que havia uma loja aberta...
Sentamo-nos.
- Ainda há massa em casa, não há?
Vamos jantar a casa...

AFORISMO KAOSTICO

Não peço, à vida e ao destino, nada mais, absolutamente mais nada para além de tudo quanto possuo.

Não lhe chamemos gratidão: é que se esta merda é o melhor que a vida consegue fazer, então não peço nada - prefiro não correr mais riscos...

CURSO RÁPIDO DE AUTOMOBILISMO (LIÇÃO DOIS)

O PISCA-PISCA

Nesta sociedade socrática, em que nos vigiam cada vez de mais perto, cruzando vários dados para saberem sempre em que ponto nos encontramos, já se prevê um chip para o nosso automóvel.

Pois eu, quando vou no meu carro, faço questão de não deixar que saibam para onde me dirijo. Era o que faltava!
Para isso, aliás, me serve o pisca-pisca.
Pisco sempre para a esquerda quando vou virar para a direita. E vice-versa.

sexta-feira, julho 25, 2008

CRÍTICA DA CRIAÇÃO DIVINA

Deus-Pai estava arrasado. «Ah», dir-me-ão, «não pode ser, e tal, Deus não fica arrasado, e tal, que é feito da Omnipotência, e coiso...?»!

Estava, sim. Estava. Precisavam de conhecer a Deusa-Mestra, que há uma Eternidade vinha pondo em causa a Obra divina. Acrescentava sempre, com a delicadeza conveniente, que, do ponto de vista estético, é claro, a Criação de Deus estava perfeita. Per-fei-ta - nem outra coisa se esperaria dEle.

«Acontece», acrescentava a Deusa-Mestra, «que a estética não pode ser pensada a não ser de acordo com a função das coisas. A funcionalidade é a palavra de ordem. Os seres podem ser bonitos, sim senhor, e nisso, Ó Deus, és Deus Único. Mas, e a funcionalidade...???»

Dava exemplos de «ligeiras» alterações que fora fazendo. Que lhe não levasse nada a mal, hã? Não era na substância, nem na estética - era na «funcionalidade», e só, que se deveriam introduzir emendas.

«Vejamos o homem», dizia. «Olha para os dedos; olha para a língua. Não vês o que está errado aqui? Eu explico. Já percebeste que, para provar, o homem vai ter de pôr em contacto, digamos, comida estragada, com a língua, no interior da boca, já dentro do corpo? E se quiser cuspir, não é verdade que certamente uma pequena parte já se escapou pelo sistema abaixo e começou a envenenar-lhe os estômago? Não. O paladar tem de estar na ponta dos dedos. O homem prova com os dedos, percebes? Saboreia com os dedos. Se não gostar, deita fora...»

Deus-Pai estava esgotado...

«E o rabo lá atrás? Olha que lindo. Para que lhe serve o rabo, com aquela forma almofadada, não é para o proteger? Não tem de ser assim uma espécie de pára-choques? Então tem de estar à frente, não é verdade? À frente é que se encontram os órgãos mais importantes, se ele cai de fronte é que se trata de uma queda fatal... o rabo tem de ficar, ou no peito, ou a proteger o sexo...»

Era inútil contra-argumentar.

«E o nariz ao pé da boca??? Em pleno rosto??? Que diacho de ideia. Assim cheira algo de mau cheiro e vomita, parece tudo um órgão único, nariz e boca, uma máquina para cheirar e vomitar, cheirar e vomitar. É disparate, Deus! Se tiramos o rabo lá de trás, passamos para lá o nariz...»

E, considerando, por um fragmento da longa Eternidade que iriam ter de passar juntos, que Deus-Pai pudesse estar a sentir-se ofendido, concluiu:

«É claro que, à parte estes pormenores, a tua Obra está bonita. Ah, muito bonita mesmo. Bonita a valer! Quanto a isso, nada a assinalar: és um espectáculo!»