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quarta-feira, março 18, 2015

ângulo morto

A verdade em nome da qual há almas que se indignam não é senão uma certa maneira de dar a ver algumas coisas e esconder algumas outras: se fossem reveladas as coisas que se escondem e escondidas as que se dão a ver, talvez que as almas que hoje se indignam tivessem de se justificar.

[Suspeito que qualquer leitor que concorde com o que acaba de ler, concorda porque reconhece outros neste aforismo. Não a si. Peço desculpa por incomodar...]

sexta-feira, novembro 14, 2014

MARISA & PIRES DE LIMA


     Há consensos no país. São tão raros, porém, que tendem a tornar-se absolutos e indiscutíveis.
     Um deles é Marisa. A fadista de quem, ao que ouvi, a própria Amália terá dito um dia: «Já tenho continuadora. Posso morrer descansada.»
     Amália lá morreu. Marisa foi, entretanto, agraciada fora. E diz-se que os portugueses amam de tal forma o que vem «do estrangeiro», que até os produtos nacionais são mais valorizados por nós quando fazem um desvio pelo «estrangeiro», para que os recebamos entre aplausos. Todos gostam de Marisa. Do seu fado, da sua voz rica e cheia. (Há adjectivos, próprios para a voz dos fadistas, estranhamente semelhantes aos que se empregam para o vinho.) Pois a voz de Marisa, envelhecida em casca de carvalho, nunca me entusiasmou. A personagem, muito menos.
     Não quero desmistificar - não tenho a menor razão para explicar o meu ruído, a dificuldade na adesão. Não tenho argumentos.
     Certas inexplicáveis antipatias são mais fortes do que as antipatias razoáveis e sensatas.

     Já agora, o contrário.
     A prestação de Pires de Lima gerou outro consenso: estou agora a ouvir, lá do fundo, uma colega que sublinha o descrédito em que o ministro caiu. Todos concordam no ridículo. No despropósito. A assembleia é uma igreja. [Ahahaha.] Um lugar de reverência. [Ahahahaha.] Discordo. Não sei argumentar: Pires de Lima tornou-se-me simpático e apreciável.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

CRESSENDO CONSIGO

Sou do tempo, como dizem os velhos, em que se esperava que certas funções não fossem realizadas por pessoas que não possuissem detrerminados requisitos, implicitamente considerados importantes para a referida função.
Mais tarde, numa sociedade em mudança acelerada, em que se assistiu a compreensíveis inversões de valores, e outras menos compreensíveis, foi-se percebendo que algumas das características "implicitamente" requeridas tinham que ver com preconceitos.
Que as aeromoças (hospedeiras de bordo) tivessem de ser elegantes e bonitas; que os locutores não pudessem ter pronúncias oriundas de fora de Lisboa; ocorrem-me estes dois exemplos.

Não impede que me arrepie sempre, que a jovem que faz o anúncio a um Banco, não seja capaz de dizer "crescem", na frase: «Valores que crescem consigo».
Ela diz «cressem». Em vários anúncios com ligeiras variantes, a mesma jovem, de resto com excelente voz, insiste: «Valores que cressem consigo!»

Não digo que a despeçam, obviamente. Nem mesmo que a mudem de anúncio.
Não poderiam arranjar-lhe outra palavra?

quarta-feira, junho 27, 2012

DE LENA EM LENA, ATÉ À DERROTA FINAL

A primeira vez em que, na minha fase de vida já adulto e já autónomo, fui viver para uma casa que não pertencia a um bairro camarário, decidi dar-me ao luxo de contratar uma mulher-a-dias.
A mulher-a-dias veio a uma reunião. Chamava-se Lena. Estava tão bem vestida e arranjada com tal bom gosto, que me perguntei qual de nós dois ia ao engano. Ou melhor: qual de nós dois não sabia o que era uma "mulher-a-dias". Não havia engano: aquela jovem de longos cabelos loiros, saia-casaco bege e salto alto, que parecia uma secretária bem paga, veio a ser por muitos anos a mulher-a-dias em que eu confiava plenamente, com quem houve necessidade de ajustes e discussões, mas me deixava sempre a casa num brinco. O que é dizer muito, porque existia então Dunga: o saudoso Dunga, que nunca primou pela higiene e não se esquecia de demarcar regularmente o território.

A Lena foi-se embora quando teve de ir. Quando a vida apertou, o dinheiro ia escasseando, alimentávamos duas crianças e eu já não acreditava que viesse a tornar-me um escritor famoso.

Passados estes anos - dez? quinze? - que mudou na minha vida?
Bem. Continuo a não crer que venha a ser um escritor famoso. [Quando às vezes me vem do fundo da alma uma espécie de fé no futuro, o psiquiatra pergunta-me há quanto tempo não tomo a medicação]. Portanto, não mudei nesse aspecto.
Curiosamente, um outro aspecto em que tudo voltou ao mesmo é que contratei uma mulher-a-dias. E que esta se chama Lena.

A actual Lena sofre de perturbações. Tem um marido que sofre de perturbações. É um homem grande e louro, com voz de trovão, que vem, com maus modos, despejá-la à minha porta, num daqueles carrinhos estranhos, de dois lugares, que não sei a que são movidos.
Esta não veste como uma secretária bem paga. Usa uma t-shirt com a imagem do Incrível Hulk, que me suscitou duas perguntas de mim para mim. A primeira: Mas quem lhe deu a minha camisola? A segunda: Que ser irónico percebeu que a do Incrível Hulk era a t-shirt indicada?

Esta Lena é muito baixa, muito grossa e tem pêlos, como arames, pelas pernas fora.
Sei que acabo de escrever um texto infame de preconceito e cinismo. Mas para quem tenha olhos para ver mais longe, é um estudo científico:
A mudança de uma Lena para outra Lena como mulher-a-dias do que já foi uma família de classe média, quiçá classe média alta, diz mais sobre esta crise do que várias páginas de uma exaustiva dissertação carregada de gráficos...