Primeiro, os dentes.
São sempre os dentes os primeiros. Chama-se pedra, chama-se cáries, chama-se tártaro.
As rugas, como teias. Não, não como teias: como fissuras que se abrem num solo seco.
Ombros que decaem. Feições que decaem. O universo que decai a partir de um corpo.
Há um joelho que principia a estalar. Se ao menos não doesse, mas dói. Ou se se limitasse a doer, se unicamente doesse, mas não: desfaz-se. É o osso que se transforma em caspa, até que um dia não exista joelho, o corpo procure erguer-se de uma cama e as pernas desabem e se acumulem no chão como um monte de roupa velha.
Caem pêlos. Caem ilusões. Os olhos não têm pontaria.
Sente-se fome de momentos de alegria, mas têm de ser breves, não vá o coração insuportá-los. E a verdade é que a menor alegria se sente sobretudo como arritmia.
A gravidade torna-se um problema grave.
Preferia coleccionar neste ecrã tudo o que ainda me faz feliz. Mas receio que os dedos não consigam... chegar... às teclas..........
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terça-feira, junho 12, 2012
quinta-feira, maio 17, 2012
UTOPIA
A célula de uma sociedade é, segundo o meu modelo utópico, o bairro.
Nunca o casal. A experiência tem-se encarregado de me mostrar que um homem e uma mulher não estão fabricados para conviverem quotidianamente. Que se amem, se encontrem, partilhem gloriosos momentos de euforia, muito bem. Mas a coexistência no dia-a-dia é, precisamente, a experiência de uma incompatibilidade permanente: seja o resultado a guerrilha desgastante ou a escravização e a infelicidade de um deles, a verdade é que se trata sempre da morte do sonho e do amor. Se as razões são genéticas, se culturais, ainda não decidi. Para já, basta-me o facto. [E se não se tratar de um casal heterossexual, podem as coisas funcionar melhor? Tenho muitas dúvidas...]
A célula não seria também a família nuclear, com a vinda de filhos que só brevemente não virão desarranjar e complicar o "agregado", com as suas fases, aprendizagens, rebeldias, tiranias, dramas e borbulhas; nem a família mais extensa, agravada pela multiplicação de conflitos geracionais e a óbvia falta de espaço; mas também não creio que a célula fosse, alternativamente, a "comuna": amigos que se reúnem para uma vivência colectiva, com diferentes sensibilidades e horários, diferentes momentos de boa ou de má disposição, partilhando toalhas e giletes. A reunião dos amigos tem de ser um dia de festa, brinde e brincadeira. Copos e conversa. Ritos e risos. Mais do que isto, parece-me excessivo.
O que significa, então, "o bairro"? Que estamos todos perto uns dos outros, mas em espaços demarcados. Que a minha casa não dista da casa da mulher que amo, mas ninguém me vem dar ordens sobre a gestão do espaço ou da economia, mesmo que eu deixe a roupa por apanhar. Neste bairro deverá haver, aliás, lavandarias e engomadorias a uma distância franqueável. As crianças ora estão comigo, ora estão com a mãe, com os avós ou com os nossos amigos - ou com os seus amigos. [E reparo que é um pouco para esse modelo que se encaminham, mas aí, de certa forma, por acaso, as "separações amigáveis"]
Nesta visão de uma sociedade evoluída, formada por bairros com trocas e ligações entre si, teriam de ser abolidas várias instituições sem outra utilidade que não a de engordar e crescer à custa dos cidadãos. O Estado. A Escola. Mas, antes de todas, a instituição que deverá ser abolida imediata e primeiramente é a associação do condomínio.
Nunca o casal. A experiência tem-se encarregado de me mostrar que um homem e uma mulher não estão fabricados para conviverem quotidianamente. Que se amem, se encontrem, partilhem gloriosos momentos de euforia, muito bem. Mas a coexistência no dia-a-dia é, precisamente, a experiência de uma incompatibilidade permanente: seja o resultado a guerrilha desgastante ou a escravização e a infelicidade de um deles, a verdade é que se trata sempre da morte do sonho e do amor. Se as razões são genéticas, se culturais, ainda não decidi. Para já, basta-me o facto. [E se não se tratar de um casal heterossexual, podem as coisas funcionar melhor? Tenho muitas dúvidas...]
A célula não seria também a família nuclear, com a vinda de filhos que só brevemente não virão desarranjar e complicar o "agregado", com as suas fases, aprendizagens, rebeldias, tiranias, dramas e borbulhas; nem a família mais extensa, agravada pela multiplicação de conflitos geracionais e a óbvia falta de espaço; mas também não creio que a célula fosse, alternativamente, a "comuna": amigos que se reúnem para uma vivência colectiva, com diferentes sensibilidades e horários, diferentes momentos de boa ou de má disposição, partilhando toalhas e giletes. A reunião dos amigos tem de ser um dia de festa, brinde e brincadeira. Copos e conversa. Ritos e risos. Mais do que isto, parece-me excessivo.
O que significa, então, "o bairro"? Que estamos todos perto uns dos outros, mas em espaços demarcados. Que a minha casa não dista da casa da mulher que amo, mas ninguém me vem dar ordens sobre a gestão do espaço ou da economia, mesmo que eu deixe a roupa por apanhar. Neste bairro deverá haver, aliás, lavandarias e engomadorias a uma distância franqueável. As crianças ora estão comigo, ora estão com a mãe, com os avós ou com os nossos amigos - ou com os seus amigos. [E reparo que é um pouco para esse modelo que se encaminham, mas aí, de certa forma, por acaso, as "separações amigáveis"]
Nesta visão de uma sociedade evoluída, formada por bairros com trocas e ligações entre si, teriam de ser abolidas várias instituições sem outra utilidade que não a de engordar e crescer à custa dos cidadãos. O Estado. A Escola. Mas, antes de todas, a instituição que deverá ser abolida imediata e primeiramente é a associação do condomínio.
sábado, abril 28, 2012
REGRAS DE UTILIZAÇÃO DO QUARTO
Dudu e Daisy, meus filhos, têm uma interacção (como soi dizer) que me impressiona.
Ele irrita-a. Não consegue não. Ela grita, chora, protesta.
Eu ralho.
Dudu reage contrito, de cabeça baixa - ou, noutras vezes, responde-me: «Mas é assim que é suposto ser, pai». ["Suposto", como sabem, é o neologismo a que todos os jovens recorrem]. «É a relação de irmãos, funciona assim.»
O marmanjo tem dezasseis anos, a princesa seis. O papel dele, como irmão mais velho, pelos vistos, consiste em irritá-la.
O dela, em gritar por socorro. Adoro-os. Adoro-o. A ele também, embora me diga coisas como: «Eu, neste momento, não encontro em ti um pai. Só um Encarregado de Educação!» [Porque só me preocupo com as péssimas notas]
Num destes fins-de-semana foram arrumar o quarto da Daisy.
E quando fui verificar, deparei, na porta, com a seguinte lista de regras de utilização:
«REGRAS:
1) Não dar puns
2) Não estragar as coisas do quarto
3) Não desarrumar o quarto
4) Não entrar no quarto sem autorização
5) Não roubar as coisas do quarto
6) Não arrotar no quarto
7) Não comer nem beber no quarto
8) Descalçar os sapatos sujos da rua antes de entrar no quarto
Beijinhos, Daisy e Dudu»
Dudu é um jovem muito saudável, inteligente, preguiçoso, criativo, desarrumado e cheio de sentido de humor.
Tenho tido alguma dificuldade em conviver com as suas características negativas: a inteligência, a criatividade e o sentido de humor.
Ele irrita-a. Não consegue não. Ela grita, chora, protesta.
Eu ralho.
Dudu reage contrito, de cabeça baixa - ou, noutras vezes, responde-me: «Mas é assim que é suposto ser, pai». ["Suposto", como sabem, é o neologismo a que todos os jovens recorrem]. «É a relação de irmãos, funciona assim.»
O marmanjo tem dezasseis anos, a princesa seis. O papel dele, como irmão mais velho, pelos vistos, consiste em irritá-la.
O dela, em gritar por socorro. Adoro-os. Adoro-o. A ele também, embora me diga coisas como: «Eu, neste momento, não encontro em ti um pai. Só um Encarregado de Educação!» [Porque só me preocupo com as péssimas notas]
Num destes fins-de-semana foram arrumar o quarto da Daisy.
E quando fui verificar, deparei, na porta, com a seguinte lista de regras de utilização:
«REGRAS:
1) Não dar puns
2) Não estragar as coisas do quarto
3) Não desarrumar o quarto
4) Não entrar no quarto sem autorização
5) Não roubar as coisas do quarto
6) Não arrotar no quarto
7) Não comer nem beber no quarto
8) Descalçar os sapatos sujos da rua antes de entrar no quarto
Beijinhos, Daisy e Dudu»
Dudu é um jovem muito saudável, inteligente, preguiçoso, criativo, desarrumado e cheio de sentido de humor.
Tenho tido alguma dificuldade em conviver com as suas características negativas: a inteligência, a criatividade e o sentido de humor.
terça-feira, agosto 16, 2011
sim, bem sei
Citando Millôr Fernandes, um cara absolutamente genial:
«Quando um político grita que outro político engana o povo, você preste atenção: é impossível ele ocultar completamente um leve traço de inveja»
«Quando um político grita que outro político engana o povo, você preste atenção: é impossível ele ocultar completamente um leve traço de inveja»
segunda-feira, agosto 08, 2011
aforismos kaosticos e patéticos... se não patetas...!
sinto que ontem encontrei a metáfora exacta para a vacuidade da vida: estava a tentar varrer as folhas do chão, num quintal ventoso...
segunda-feira, dezembro 20, 2010
COGNOME
Sempre se achou e se disse, na família e na escola, que ele tinha uma grande capacidade. Não se percebe onde lhe pressentiam a «capacidade»: talvez no olhar brilhante a atento, ou numa certa inclinação da cabeça, quando escutava as pessoas; talvez porque fosse fácil amá-lo e o amor é um excelente revelador das capacidades do ser amado. Talvez por causa de algumas frases - tinha frases memoráveis - ou por causa de algumas perguntas - tinha perguntas talentosas. De modo que nunca se discutiu o seu «potencial».
E, contudo, o tempo passava e não havia quaisquer concretizações. Na escola, as classificações eram débeis. O discurso dos professores variava pouco: «Não aproveita as suas capacidades». Suspeito que ele próprio não saberia o que fazer para aproveitá-las. Lá estavam elas, adormecidas, ternas, capazes, como capacidades que eram, mas inconsequentes. Na família também foi não fazendo o que se esperava. Não escreveu, não construiu, não engenhou. Não produziu artigos, nem livros, nem filhos, nem pontes, nem pentes, nem guarda-chuvas, nem plantas, nem filmes, nem ossos, nem danças, nem pinturas, nem bâtons, nem baterias, nem sofás. Nem chuva, nem sol. Era de uma genial, tranquila e ineficiente capacidade.
Hoje, com oitenta e sete anos - fará amanhã, dia 21 de Dezembro, oitenta e oito -, chamam-lhe: «A Promessa».
E, contudo, o tempo passava e não havia quaisquer concretizações. Na escola, as classificações eram débeis. O discurso dos professores variava pouco: «Não aproveita as suas capacidades». Suspeito que ele próprio não saberia o que fazer para aproveitá-las. Lá estavam elas, adormecidas, ternas, capazes, como capacidades que eram, mas inconsequentes. Na família também foi não fazendo o que se esperava. Não escreveu, não construiu, não engenhou. Não produziu artigos, nem livros, nem filhos, nem pontes, nem pentes, nem guarda-chuvas, nem plantas, nem filmes, nem ossos, nem danças, nem pinturas, nem bâtons, nem baterias, nem sofás. Nem chuva, nem sol. Era de uma genial, tranquila e ineficiente capacidade.
Hoje, com oitenta e sete anos - fará amanhã, dia 21 de Dezembro, oitenta e oito -, chamam-lhe: «A Promessa».
terça-feira, outubro 26, 2010
57 RAZÕES PARA PROVAR A VIDA COMO UM GOURMET
Nasci em 1957.
Dei por mim, nestes dias em que parece que uma maré de azar se abateu sobre o meu mundo, a perguntar se encontraria 57 razões para estar vivo: 57 bons motivos para que, mesmo desesperada, a vida contivesse ainda, em si, o estímulo de um brilhante projecto.
Eis o que achei:
1. As sextas-feiras: dia em que me perco do mundo: e o mundo me perde de vista: e ninguém sabe de mim;
2. pegar, uma noite, num dos volumes de Em Busca do Tempo Perdido (qualquer um, menos o II, que emprestei) e sentar-me, sob a luz pálida do candeeiro, folheando e ouvindo o ruído das páginas rijas a passar, enquanto me espreguiço nas palavras de Marcel, que me levam minuciosamente com elas; ler: uma frase, um parágrafo, um capítulo...
3. sair muito cedo de casa, conduzindo pela marginal a uma hora em que não há demasiados carros;
4. os olhos sobrevoando o Tejo, nessa hora em que o sol ainda é só um clarão a lutar;
5. a música que vou ouvindo, concretamente. Sobretudo agora, que descobri a rádio radar;
6. escrever um romance: sentar-me, cheio de ideias, diante do computador, e principiar a desenhá-las sob a forma de caracteres (neste momento não escrevo romance algum, mas hei-de fazê-lo de novo, em breve...);
7. certas aulas: não seguramente todas, mas algumas, muito especiais, em que me sinto voar diante dos olhares estupefactos dos meus alunos;
8. ter amigos: saber que os meus amigos são meus amigos, mesmo se os descuro;
9. o clube de cinema - mais ao princípio, um pouco menos agora, mas ainda;
10. o riso: em qualquer momento do dia ou da vida, o riso. Com um livro (raramente), num filme (raramente, porque já quase não posso ir ao cinema), com amigos (muitas vezes);
11. um copo de uísque, cheio de pedras de gelo; café forte, pela manhã (abatanado);
12. as variações em torno de Bach, por Glenn Gould;
13. Pink Floyd (há quanto tempo os não revisito?)
14. Lou Reed (Walking in the Dark Side);
15. ter blogues; escrever em blogues; descobrir que há quem me leia; multiplicar-me em heterónimos, em pseudónimos, em personagens;
16. conseguir estar absolutamente sozinho em casa;
17. sentir ainda tanto prazer na banda desenhada;
18. fazer uma banda desenhada a meias com o meu filho; juntarmos ideias, compormos os desenhos entre os dois;
19. saber que, quando me não zango com o meu filho, sou uma das poucas pessoas - se não a única - com o poder de o fazer torcer-se literalmente pelo chão, de tanto rir;
20. um abraço da minha filha; um beijo da minha filha; ouvi-la dizer, pronunciando mal: «Pai, ámo-te!»;
21. festas: bebida a correr, gargalhadas a correr, aquela euforia dos grupos em que ninguém se lembra de que, no dia seguinte, provavelmente, voltará ao serviço;
22. trabalhar numa profissão de que, por muito que me cilindrem, gosto muito: alunos que aprecio e me apreciam, colegas que aprecio e me apreciam, uma chefia com que me dou bem, bom ambiente, liberdade;
23. descobrir um livro que me interessa, numa livraria; pensar: «É caro!»; e, logo a seguir: «Que s'a lixe!»; pedir que mo embrulhem, como se fosse para oferecer, e sair rapidamente dali, com o embrulho debaixo do braço e uma agradável sensação de culpa;
24. acreditar que ainda não está tudo terminado para mim; que ainda tenho duas ou três, talvez quatro coisas fundamentais para fazer na vida;
25. saber que vou reencontrar-me com o meu primo: cá, ou lá longe, como ainda há pouco aconteceu. Recordarmos tudo, de fio a pavio, e rirmo-nos sempre por alguma coisa;
26. sonhar com viagens. Arrepender-me de não ter feito nada para as realizar. Estar certo de que, em breve, realizarei alguma;
27. não conhecer, precisamente, dois países que terei de conhecer, aqui mesmo ao lado: Itália, Grécia;
28. Paris. Saber que me espera. Que regressarei;
29. Nova Iorque: saber que estive lá, ainda que provavelmente não torne a ir tão longe;
30. gostar de escrever. Gostar do que escrevo (em geral). Gostar de escrever como escrevo;
31. ver a minha mãe melhorar, vagarosamente, no Hospital; beijá-la e tocar-lhe como já me não lembrava de fazer há muito;
32. trazer o meu irmão para almoçar em minha casa; sentir esta estranheza: Eu tenho um irmão!
33. olhar as horas no meu relógio com o rosto de Corto Maltese no mostrador e seu corpo ao longo da pulseira;
34. comprar t-shirts que as pessoas se espantam que eu seja capaz de usar: Incrível Hulk, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Surfista Prateado;
35. lançar um fanzine com a minha amiga Ana Cristina: tanto, tanto, tanto trabalho para conseguir fazer sair dois magros números por ano: e tanto, tanto, tanto gozo;
36. concretamente, a história do Dancake, que me dá tanto prazer criar a meias com a Ana;
37. rever What's Eating Gilbert Grape?, de que nunca me fartarei;
38. as crónicas do Ricardo Araújo Pereira na Visão;
39. a rubrica do Nuno Markl, na Comercial;
40. O Chato, personagem incontornável de Os Contemporâneos;
41. Law and Order, na TV;
42. Lolita: tanto o livro de Nabokov, como o filme de Stanley Kubrick;
43. The Party, com o impagável/inapagável Peter Sellers;
44. aguardar o inverno com alguma ansiedade, por me permitir tornar a envergar o meu lindíssimo e estiloso sobretudo pêlo de camelo;
45. a filosofia: saber que tenho os livros de Pascal, Montaigne, Kierkegaard ou Nietzsche: lê-los por prazer, discutir com eles, regressar-lhes continuamente, nunca por razões de estudo ou dever de ofício;
46. ser ateu; ser amigo de (muitos) crentes (muito), poder admirar esteticamente a sua crença, mas não me sentir tentado: acreditar na liberdade que isso me confere;
47. ter nascido em Moçambique; ter a minha memória carregada de imagens e de sons. (Não de cheiros. Tenho pouca ou nula lembrança de cheiros: por que será?)
48. Mondigliani. Ter principiado por embirrar com ele, e acabar conquistado e rendido ao seu traço peculiar, deliciosamente imperfeito;
49. Velasquez: perder-me nas labirínticas e inesperadas inversões da sua pintura que o auto-retrata a si próprio no acto de retratar;
50. um livro de Umberto Eco, que me foi carinhosamente oferecido num Natal, e a cujas impressionantes imagens retorno: História do Feio;
51. já falei da banda desenhada, mas referia-me à banda desenhada em geral. Agora, em particular: os álbuns de Tintim: por tudo, absolutamente; principalmente As Jóias de Castafiore;
52. pequenos-almoços em grupo: coscuvilhice, pequena política, humor;
53. óculos de sol: ainda não tenho os Ray-Ban derradeiros, os que contentarão definitivamente e porão termo a todas as buscas: mas, é claro, eles hão-de chegar;
54. ainda haver este calibre e esta intensidade de amor num homem de 53 anos;
55. revistas e jornais estrangeiros;
56. uma t-shirt com um vampiro estampado: brilha no escuro e foi-me oferecido por um grupo de amigas, no meu aniversário;
57. ter, na carteira, um cartão-brinde que me permitirá gastar uma certa quantia (que, por enquanto, desconheço), em roupa, no Corte Ingles; ter sido oferecido por um outro grupo de amigas, no meu aniversário;
e uma, suplementar: sinceramente, sinceramente: ter cinquenta e sete boas razões para me sentir de bem com a vida. Às vezes, infelizmente, não sinto. Pois que esta lista me ajude a perceber por que vale a pena viver.
A quem me seguiu até aqui, numa lista tão pessoal e, por vezes, tão pueril, obrigado pela paciência.
Boa noite.
Dei por mim, nestes dias em que parece que uma maré de azar se abateu sobre o meu mundo, a perguntar se encontraria 57 razões para estar vivo: 57 bons motivos para que, mesmo desesperada, a vida contivesse ainda, em si, o estímulo de um brilhante projecto.
Eis o que achei:
1. As sextas-feiras: dia em que me perco do mundo: e o mundo me perde de vista: e ninguém sabe de mim;
2. pegar, uma noite, num dos volumes de Em Busca do Tempo Perdido (qualquer um, menos o II, que emprestei) e sentar-me, sob a luz pálida do candeeiro, folheando e ouvindo o ruído das páginas rijas a passar, enquanto me espreguiço nas palavras de Marcel, que me levam minuciosamente com elas; ler: uma frase, um parágrafo, um capítulo...
3. sair muito cedo de casa, conduzindo pela marginal a uma hora em que não há demasiados carros;
4. os olhos sobrevoando o Tejo, nessa hora em que o sol ainda é só um clarão a lutar;
5. a música que vou ouvindo, concretamente. Sobretudo agora, que descobri a rádio radar;
6. escrever um romance: sentar-me, cheio de ideias, diante do computador, e principiar a desenhá-las sob a forma de caracteres (neste momento não escrevo romance algum, mas hei-de fazê-lo de novo, em breve...);
7. certas aulas: não seguramente todas, mas algumas, muito especiais, em que me sinto voar diante dos olhares estupefactos dos meus alunos;
8. ter amigos: saber que os meus amigos são meus amigos, mesmo se os descuro;
9. o clube de cinema - mais ao princípio, um pouco menos agora, mas ainda;
10. o riso: em qualquer momento do dia ou da vida, o riso. Com um livro (raramente), num filme (raramente, porque já quase não posso ir ao cinema), com amigos (muitas vezes);
11. um copo de uísque, cheio de pedras de gelo; café forte, pela manhã (abatanado);
12. as variações em torno de Bach, por Glenn Gould;
13. Pink Floyd (há quanto tempo os não revisito?)
14. Lou Reed (Walking in the Dark Side);
15. ter blogues; escrever em blogues; descobrir que há quem me leia; multiplicar-me em heterónimos, em pseudónimos, em personagens;
16. conseguir estar absolutamente sozinho em casa;
17. sentir ainda tanto prazer na banda desenhada;
18. fazer uma banda desenhada a meias com o meu filho; juntarmos ideias, compormos os desenhos entre os dois;
19. saber que, quando me não zango com o meu filho, sou uma das poucas pessoas - se não a única - com o poder de o fazer torcer-se literalmente pelo chão, de tanto rir;
20. um abraço da minha filha; um beijo da minha filha; ouvi-la dizer, pronunciando mal: «Pai, ámo-te!»;
21. festas: bebida a correr, gargalhadas a correr, aquela euforia dos grupos em que ninguém se lembra de que, no dia seguinte, provavelmente, voltará ao serviço;
22. trabalhar numa profissão de que, por muito que me cilindrem, gosto muito: alunos que aprecio e me apreciam, colegas que aprecio e me apreciam, uma chefia com que me dou bem, bom ambiente, liberdade;
23. descobrir um livro que me interessa, numa livraria; pensar: «É caro!»; e, logo a seguir: «Que s'a lixe!»; pedir que mo embrulhem, como se fosse para oferecer, e sair rapidamente dali, com o embrulho debaixo do braço e uma agradável sensação de culpa;
24. acreditar que ainda não está tudo terminado para mim; que ainda tenho duas ou três, talvez quatro coisas fundamentais para fazer na vida;
25. saber que vou reencontrar-me com o meu primo: cá, ou lá longe, como ainda há pouco aconteceu. Recordarmos tudo, de fio a pavio, e rirmo-nos sempre por alguma coisa;
26. sonhar com viagens. Arrepender-me de não ter feito nada para as realizar. Estar certo de que, em breve, realizarei alguma;
27. não conhecer, precisamente, dois países que terei de conhecer, aqui mesmo ao lado: Itália, Grécia;
28. Paris. Saber que me espera. Que regressarei;
29. Nova Iorque: saber que estive lá, ainda que provavelmente não torne a ir tão longe;
30. gostar de escrever. Gostar do que escrevo (em geral). Gostar de escrever como escrevo;
31. ver a minha mãe melhorar, vagarosamente, no Hospital; beijá-la e tocar-lhe como já me não lembrava de fazer há muito;
32. trazer o meu irmão para almoçar em minha casa; sentir esta estranheza: Eu tenho um irmão!
33. olhar as horas no meu relógio com o rosto de Corto Maltese no mostrador e seu corpo ao longo da pulseira;
34. comprar t-shirts que as pessoas se espantam que eu seja capaz de usar: Incrível Hulk, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Surfista Prateado;
35. lançar um fanzine com a minha amiga Ana Cristina: tanto, tanto, tanto trabalho para conseguir fazer sair dois magros números por ano: e tanto, tanto, tanto gozo;
36. concretamente, a história do Dancake, que me dá tanto prazer criar a meias com a Ana;
37. rever What's Eating Gilbert Grape?, de que nunca me fartarei;
38. as crónicas do Ricardo Araújo Pereira na Visão;
39. a rubrica do Nuno Markl, na Comercial;
40. O Chato, personagem incontornável de Os Contemporâneos;
41. Law and Order, na TV;
42. Lolita: tanto o livro de Nabokov, como o filme de Stanley Kubrick;
43. The Party, com o impagável/inapagável Peter Sellers;
44. aguardar o inverno com alguma ansiedade, por me permitir tornar a envergar o meu lindíssimo e estiloso sobretudo pêlo de camelo;
45. a filosofia: saber que tenho os livros de Pascal, Montaigne, Kierkegaard ou Nietzsche: lê-los por prazer, discutir com eles, regressar-lhes continuamente, nunca por razões de estudo ou dever de ofício;
46. ser ateu; ser amigo de (muitos) crentes (muito), poder admirar esteticamente a sua crença, mas não me sentir tentado: acreditar na liberdade que isso me confere;
47. ter nascido em Moçambique; ter a minha memória carregada de imagens e de sons. (Não de cheiros. Tenho pouca ou nula lembrança de cheiros: por que será?)
48. Mondigliani. Ter principiado por embirrar com ele, e acabar conquistado e rendido ao seu traço peculiar, deliciosamente imperfeito;
49. Velasquez: perder-me nas labirínticas e inesperadas inversões da sua pintura que o auto-retrata a si próprio no acto de retratar;
50. um livro de Umberto Eco, que me foi carinhosamente oferecido num Natal, e a cujas impressionantes imagens retorno: História do Feio;
51. já falei da banda desenhada, mas referia-me à banda desenhada em geral. Agora, em particular: os álbuns de Tintim: por tudo, absolutamente; principalmente As Jóias de Castafiore;
52. pequenos-almoços em grupo: coscuvilhice, pequena política, humor;
53. óculos de sol: ainda não tenho os Ray-Ban derradeiros, os que contentarão definitivamente e porão termo a todas as buscas: mas, é claro, eles hão-de chegar;
54. ainda haver este calibre e esta intensidade de amor num homem de 53 anos;
55. revistas e jornais estrangeiros;
56. uma t-shirt com um vampiro estampado: brilha no escuro e foi-me oferecido por um grupo de amigas, no meu aniversário;
57. ter, na carteira, um cartão-brinde que me permitirá gastar uma certa quantia (que, por enquanto, desconheço), em roupa, no Corte Ingles; ter sido oferecido por um outro grupo de amigas, no meu aniversário;
e uma, suplementar: sinceramente, sinceramente: ter cinquenta e sete boas razões para me sentir de bem com a vida. Às vezes, infelizmente, não sinto. Pois que esta lista me ajude a perceber por que vale a pena viver.
A quem me seguiu até aqui, numa lista tão pessoal e, por vezes, tão pueril, obrigado pela paciência.
Boa noite.
sexta-feira, agosto 21, 2009
QUALQUER COISA COMO UM AFORISMO TRÁGICO
Pode suceder - e é até, talvez, mais frequente do que se pensaria - possuir-se talento para se ser excelente, mas não se ter vocação para isso.
Acredito que pareça terrível. É, contudo, certamente muito menos dramático do que:
ter-se vocação para se ser excelente
mas não ter talento para isso...
Acredito que pareça terrível. É, contudo, certamente muito menos dramático do que:
ter-se vocação para se ser excelente
mas não ter talento para isso...
quinta-feira, julho 23, 2009
LUA-DE-MEL A SÓS
O padrinho do meu quase casamento era um homem de posses. Oferecera-nos, para a lua-de-mel, uma viagem de sonho a Kashbarrah, onde possuía o único hotel, um hotel de cinco estrelas.
Como não chegou a haver casamento, com aquela vergonha da noiva ter fugido para se casar com outro, o quase-padrinho, condoído, disse-me:
- Ficas na mesma com o meu presente. Não será lua-de-mel, pode ser uma viagem para te esqueceres da vergonha. Formas lá um harém e não pensas mais nessa traidora!
Fiz, portanto, a viagem e, no barco que se destinava a Bagdechd (porto de onde, seguidamente, apanharíamos uma raríssima camioneta para Kashbarrah), primeiro com um sobressalto de irritação e inveja, depois com uma distensão de alívio e regozijo por não ser eu naquela situação, conheci um casal que viajava em lua-de-mel.
Ele era um tipo muito jovem, profundamente antipático, com um cabelo gorduroso, dentes grandes e óculos grossos. Ela, uma rapariga de ar tresloucado, com um princípio de calvície demasiado evidente e brincos de plástico. Mas deste casal fazia ainda parte uma mulher que cedo identifiquei como sendo a mãe dele. A cumplicidade da velha em relação ao rapaz, com quem confereciava constantemente, em surdina, não dava lugar a dúvidas. Eu assistia, intruso miserável e despudorado, a uma enorme discussão entre o recém-marido e a recém-esposa, com gritos de uma agressividade extrema, como berros de gaivota e, depois, quando ela se retirava, humilhada, via o rapaz a queixar-se à mãe, começando sempre da mesma maneira a sua lamúria:
- Já viste isto? «Ela» diz que...
E a velha a acalmá-lo.
Quando chegámos a Bagdeschd, devo confessá-lo, atrelei-me ao casal tridimensional. Não só por curiosidade e por poder banhar-me na permanente alegria de me ter, afinal de contas, libertado de um casamento que não acabaria muito melhor, mas porque o capitão do barco nos pusera de sobreaviso contra os ladrões. Por outro lado, tornava-se importante não perdermos a camioneta: a solução aconselhada passava por não nos perdermos uns dos outros.
Na paragem, iniciou-se outra discussão. À minha frente, como se eu tivesse já passado a fazer parte do casal e, portanto, nada houvesse a esconder-me, notei como passavam a pente fino tópicos de há semanas atrás, frases ditas há muito tempo e que não tinham tido resposta na altura, esquecimentos, faltas, falhas. Ele estava quase à beira de uma apoplexia, mas ela não se calava, com a sua calvície, parecia-me, a ganhar terreno, umas sandálias horrorosas que lhe deixavam marcas e feridas nos calcanhares.
E, nisto, apareceu a camioneta.
Entraram.
Reparei, contudo, que a recém-casada se esquecera, atrás, de um saco de carcaças.
Preocupado, temendo que pudesse ser um tópico mais para acirrar a discussão, desci do degrau em que já me encontrava na camioneta e fui apanhar o saco.
De saco na mão, vi a porta fechar-se. Apressei-me, mas a camioneta arrancava, diante dos meus olhos, fazendo uma poeira na qual me perdia e dissolvia.
Corri, gritando. Iam ouvir-me. O casal ia dar pela minha falta. Alguém me veria, acenando com um saco de carcaças. Não era possível. Não era possível.
Foi possível. Foi assim.
Perguntei a um árabe, que me queria vender um «timex», quando haveria outra camioneta.
Riu, mostrando-me exasperantes dentes de ouro. A próxima, só no mês seguinte.
Como não chegou a haver casamento, com aquela vergonha da noiva ter fugido para se casar com outro, o quase-padrinho, condoído, disse-me:
- Ficas na mesma com o meu presente. Não será lua-de-mel, pode ser uma viagem para te esqueceres da vergonha. Formas lá um harém e não pensas mais nessa traidora!
Fiz, portanto, a viagem e, no barco que se destinava a Bagdechd (porto de onde, seguidamente, apanharíamos uma raríssima camioneta para Kashbarrah), primeiro com um sobressalto de irritação e inveja, depois com uma distensão de alívio e regozijo por não ser eu naquela situação, conheci um casal que viajava em lua-de-mel.
Ele era um tipo muito jovem, profundamente antipático, com um cabelo gorduroso, dentes grandes e óculos grossos. Ela, uma rapariga de ar tresloucado, com um princípio de calvície demasiado evidente e brincos de plástico. Mas deste casal fazia ainda parte uma mulher que cedo identifiquei como sendo a mãe dele. A cumplicidade da velha em relação ao rapaz, com quem confereciava constantemente, em surdina, não dava lugar a dúvidas. Eu assistia, intruso miserável e despudorado, a uma enorme discussão entre o recém-marido e a recém-esposa, com gritos de uma agressividade extrema, como berros de gaivota e, depois, quando ela se retirava, humilhada, via o rapaz a queixar-se à mãe, começando sempre da mesma maneira a sua lamúria:
- Já viste isto? «Ela» diz que...
E a velha a acalmá-lo.
Quando chegámos a Bagdeschd, devo confessá-lo, atrelei-me ao casal tridimensional. Não só por curiosidade e por poder banhar-me na permanente alegria de me ter, afinal de contas, libertado de um casamento que não acabaria muito melhor, mas porque o capitão do barco nos pusera de sobreaviso contra os ladrões. Por outro lado, tornava-se importante não perdermos a camioneta: a solução aconselhada passava por não nos perdermos uns dos outros.
Na paragem, iniciou-se outra discussão. À minha frente, como se eu tivesse já passado a fazer parte do casal e, portanto, nada houvesse a esconder-me, notei como passavam a pente fino tópicos de há semanas atrás, frases ditas há muito tempo e que não tinham tido resposta na altura, esquecimentos, faltas, falhas. Ele estava quase à beira de uma apoplexia, mas ela não se calava, com a sua calvície, parecia-me, a ganhar terreno, umas sandálias horrorosas que lhe deixavam marcas e feridas nos calcanhares.
E, nisto, apareceu a camioneta.
Entraram.
Reparei, contudo, que a recém-casada se esquecera, atrás, de um saco de carcaças.
Preocupado, temendo que pudesse ser um tópico mais para acirrar a discussão, desci do degrau em que já me encontrava na camioneta e fui apanhar o saco.
De saco na mão, vi a porta fechar-se. Apressei-me, mas a camioneta arrancava, diante dos meus olhos, fazendo uma poeira na qual me perdia e dissolvia.
Corri, gritando. Iam ouvir-me. O casal ia dar pela minha falta. Alguém me veria, acenando com um saco de carcaças. Não era possível. Não era possível.
Foi possível. Foi assim.
Perguntei a um árabe, que me queria vender um «timex», quando haveria outra camioneta.
Riu, mostrando-me exasperantes dentes de ouro. A próxima, só no mês seguinte.
sexta-feira, junho 12, 2009
IMPREVISÃO ou CEGO SURDO E FELIZ
Serei eu uma daquelas sociedades em que a elite brindava ainda ao futuro e à alegria, sem escutar os ensurdecedores sinais do cancro que as extinguiria? a revolução sangrenta a latejar-lhes nas veias? um karakatoa ou um vesúvio prestes a desintegrá-los? uma bomba atómica assobiando dos céus - enquanto a elite (eu, neste caso) ergue ingénua e tolamente aos mesmos céus a flute de champanhe?
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