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terça-feira, novembro 25, 2014
SÓ ARES
Leio que, num artigo extenso, Mário Soares se insurge contra o aparato promovido para a detenção de Sócrates e contra a comunicação social. Afirma que os «democratas estão muito preocupados». Imagino o calibre dos democratas que andam preocupados. Seria a altura de se fazer uma averiguação às contas de outros pretéritos primeiros-ministros?
terça-feira, janeiro 18, 2011
QUEM TE MANDOU A TI, SAPATEIRO, TOCAR RABECÃO?
Lembram-se das Leis de Murphy?
Uma delas determinava que, quando alguém é competente em determinada função, o pior que se pode fazer é promover o sujeito, esperando-se que ele seja igualmente competente em novas funções, responsabilidades, exigências.
As Leis de Murphy são máximas: pega-se numa observação corriqueira, geralmente enervante (como esta, que tenho verificado: quando precisamos de uma farmácia de serviço, a farmácia de serviço não é, provavelmente, a farmácia que está mais próxima de si) e enuncia-se esse precalço como sendo uma lei, com um carácter científico. O efeito é, naturalmente, cómico.
Fernando Nobre, todavia, é uma ilustração da lei que eu enunciava nos parágrafos iniciais. Há, portanto, um homem que prova tudo o que tinha de provar no campo da solidariedade. Corre riscos, partindo, como médico, para países inóspitos e corruptos. Vê miséria e sofre. Minora-a como pode. A sua competência como médico e como herói é absolutamente inquestionável.
O que o faria pensar que os portugueses precisam dele como Presidente? O que o convence de que será um bom Presidente, com a sua voz baça, sem chama, o seu olhar mortiço e - perdoem-me - a sua absoluta falta de preparação política ou a sua confrangedora ausência de ideias? Ouvi-lo entre o «povo» é penoso: este herói também recorre a slogans e a falácias, também vomita frases feitas. Também elabora propaganda, também se deixa vender como um detergente.
Ouvi-lo argumentar, em debates, imbuído da sua superioridade moral - como se o facto de ter visto um menino a correr atrás do grão que uma galinha transportava no bico, para lho roubar e matar a fome, lhe conferisse uma aura indispensável a um Presidente -, é confrangedor. Não sei quem o convenceu de que é indispensável ao país. Sei que, diacho, custa sempre perceber em que se pode transformar, num certo universo, quem estava tão bem, e fazendo tanto, num universo paralelo.
Uma delas determinava que, quando alguém é competente em determinada função, o pior que se pode fazer é promover o sujeito, esperando-se que ele seja igualmente competente em novas funções, responsabilidades, exigências.
As Leis de Murphy são máximas: pega-se numa observação corriqueira, geralmente enervante (como esta, que tenho verificado: quando precisamos de uma farmácia de serviço, a farmácia de serviço não é, provavelmente, a farmácia que está mais próxima de si) e enuncia-se esse precalço como sendo uma lei, com um carácter científico. O efeito é, naturalmente, cómico.
Fernando Nobre, todavia, é uma ilustração da lei que eu enunciava nos parágrafos iniciais. Há, portanto, um homem que prova tudo o que tinha de provar no campo da solidariedade. Corre riscos, partindo, como médico, para países inóspitos e corruptos. Vê miséria e sofre. Minora-a como pode. A sua competência como médico e como herói é absolutamente inquestionável.
O que o faria pensar que os portugueses precisam dele como Presidente? O que o convence de que será um bom Presidente, com a sua voz baça, sem chama, o seu olhar mortiço e - perdoem-me - a sua absoluta falta de preparação política ou a sua confrangedora ausência de ideias? Ouvi-lo entre o «povo» é penoso: este herói também recorre a slogans e a falácias, também vomita frases feitas. Também elabora propaganda, também se deixa vender como um detergente.
Ouvi-lo argumentar, em debates, imbuído da sua superioridade moral - como se o facto de ter visto um menino a correr atrás do grão que uma galinha transportava no bico, para lho roubar e matar a fome, lhe conferisse uma aura indispensável a um Presidente -, é confrangedor. Não sei quem o convenceu de que é indispensável ao país. Sei que, diacho, custa sempre perceber em que se pode transformar, num certo universo, quem estava tão bem, e fazendo tanto, num universo paralelo.
quarta-feira, dezembro 29, 2010
PÃO E CIRCO
Passo os olhos pela Sic: o psicólogo a que, respeitosamente, chamam Professor Quintino, fala, encantado por poder falar, a uma mãe estóica e a um padrasto completamente encharcado em medicamentos. Qual o tema? Vi o Meu Filho de 11 Anos Ser Atropelado.
Mudo, ligeiramente agoniado, para a Tvi. Goucha conversa com uma velha de carrapito, que limpa as lágrimas. Sobre quê? Sobre: Uma Criança que Levou Facadas. Deve ter morrido.
Tudo devém entretenimento. Quanto pior melhor. Ave, César!
Mudo, ligeiramente agoniado, para a Tvi. Goucha conversa com uma velha de carrapito, que limpa as lágrimas. Sobre quê? Sobre: Uma Criança que Levou Facadas. Deve ter morrido.
Tudo devém entretenimento. Quanto pior melhor. Ave, César!
quinta-feira, março 11, 2010
INÊS DE MEDEIROS, PÉROLA DA NOSSA CULTURA
Entrevistada pela revista Sábado, Inês de Medeiros afirmou, a respeito do facto de o Parlamento (e portanto o país, e portanto nós) pagar as suas deslocações a Paris, que as pessoas devem achar que ela vai passear para o Louvre e para a Torre Eiffel. Ficamos a saber que não: vai ajudar os filhos com os trabalhos de escola, vai arrumar a casa, vai preparar a ementa para a semana. Acrescenta - como se estivesse a gozar connosco, ou melhor, gozando efectivamente connosco - que, «se o problema é Paris», podem pagar-lhe então o bilhete até Badajoz.
Como a entrevistadora insista, interrogando-a sobre se, na sua opinião, tratar-se de «Paris não é um problema», responde com uma outra pergunta, verdadeira obra-prima de "desconversa": «Está-me a perguntar se acho imoral viver em Paris? Não acho.».
Mas não a largam. Inquirida acerca de se lhe ocorreu, se lhe ocorreria, se lhe pareceria bem, enfim, prescindir desse pagamento, tem a dizer que não. Fazê-lo seria, isso sim, incorrecto. Estacamos. Incorrecto? Sim, porque ela não está interessada em ser santa nem pura! Ah! Bem, sim. Percebem? Ser santa ou pura, aparentemente, seria incorrecto. Seria demagogia e populismo. E implicaria num tratamento inaceitavelmente diferenciado, uma "discriminação": há que cumprir o que está estipulado pela Assembleia em casos que tais.
Talvez compreendamos melhor a natureza desta estranha psicologia quando, a propósito de Sócrates poder ter mentido ao país, Inês esclarece: «Se mentiu, nem acho que seja muito grave!»
Quase sentimos a perplexidade na voz da jornalista:
«Não acha grave um primeiro-ministro mentir ao Parlamento?».
Segurem-se para a resposta:
Que não. Que até houve outro primeiro-ministro que já mentira ao Parlamento. E aí, sim, fora uma mentira muito grave. «[...] o Dr. Durão Barroso quando veio dizer neste Parlamento que tinha visto as provas das armas de destruição massiva no Iraque.».
Já vimos tudo? Ná!
Sabem em que comissão se encontra esta pérola da intelligentzia portuguesa?
Na Comissão... (aaahahahahaha... desculpem, é esta maldita tosse)... de... de... (ahahaha, raio de gosma)...na Comissão de Ética!
E isto dito, agora sim, talvez já tenhamos visto tudo.
Como a entrevistadora insista, interrogando-a sobre se, na sua opinião, tratar-se de «Paris não é um problema», responde com uma outra pergunta, verdadeira obra-prima de "desconversa": «Está-me a perguntar se acho imoral viver em Paris? Não acho.».
Mas não a largam. Inquirida acerca de se lhe ocorreu, se lhe ocorreria, se lhe pareceria bem, enfim, prescindir desse pagamento, tem a dizer que não. Fazê-lo seria, isso sim, incorrecto. Estacamos. Incorrecto? Sim, porque ela não está interessada em ser santa nem pura! Ah! Bem, sim. Percebem? Ser santa ou pura, aparentemente, seria incorrecto. Seria demagogia e populismo. E implicaria num tratamento inaceitavelmente diferenciado, uma "discriminação": há que cumprir o que está estipulado pela Assembleia em casos que tais.
Talvez compreendamos melhor a natureza desta estranha psicologia quando, a propósito de Sócrates poder ter mentido ao país, Inês esclarece: «Se mentiu, nem acho que seja muito grave!»
Quase sentimos a perplexidade na voz da jornalista:
«Não acha grave um primeiro-ministro mentir ao Parlamento?».
Segurem-se para a resposta:
Que não. Que até houve outro primeiro-ministro que já mentira ao Parlamento. E aí, sim, fora uma mentira muito grave. «[...] o Dr. Durão Barroso quando veio dizer neste Parlamento que tinha visto as provas das armas de destruição massiva no Iraque.».
Já vimos tudo? Ná!
Sabem em que comissão se encontra esta pérola da intelligentzia portuguesa?
Na Comissão... (aaahahahahaha... desculpem, é esta maldita tosse)... de... de... (ahahaha, raio de gosma)...na Comissão de Ética!
E isto dito, agora sim, talvez já tenhamos visto tudo.
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