Acordo numa cama. Estou sem memória alguma. Escapa-me quem sou, ou que me aconteceu.
Estou com os olhos enfaixados por ligaduras.
Percebo, por um indefinível ruído, que corre um fio de soro para a minha veia.
É, certamente, um hospital.
Perto, oiço vozes em surdina.
Quando alguém acorda sem memória, num hospital, de olhos cegados por ligaduras,
e escuta vozes que discutem em surdina, isso só pode significar que estão a planear matá-lo.
quinta-feira, setembro 10, 2009
terça-feira, setembro 01, 2009
O CEGO E A BÊBEDA
O cego não teve tempo para dar nem quatro ou cinco passos, riscando a sua bengala ao longo do muro, quando tropeçou na velha agachada diante dele.
«Cruzes! Que é isto?», perguntou.
«Bolas! Já não se pode baixar uma pessoa sossegada.»
«Ó minha senhora! Mas que faz aí toda torcida? Está maldisposta? Deu-lhe algum fanico?»
«Não», respondeu a velha. «Só queria fazer chichi.»
«Pelo amor de Deus! Aqui não, minha senhora. Venha a minha casa. É mesmo aqui ao pé. Venha daí!»
Seguiram. A velha era levada da breca. Perguntou ao cego, depois de se lhe ter servido do wc, se ele não teria qualquer coisa que se bebesse. Estava um calor..!
O cego dispensou-lhe o que tinha: uma garrafa de uísque.
E a mulher, que começou por utilizar um copo, afeiçoou-se de tal modo à garrafa que, por fim, já bebia pelo gargalo. Despachou a beberagem num ápice.
Depois, completamente bêbeda, atirou-se para o sofá.
«Ah! Que isto é muito confortável! Olhe, se não se importa, fico por aqui. Durmo cá em casa...»
E já quase roncava na sua bebedeira absurda, quando o cego se impôs. Tanto, não! Não podia ser! Tinha família - a mulher ciumenta, a filha pequenita - de modo que, se já mijara, se já bebera, que se fosse...
Mas não foi fácil, porque a mulher estava completamente embriagada. O cego é que teve praticamente de a levar aos ombros. Ele sem ver coisa alguma (como é óbvio), tropeçando amiúde, ela esparramando-se-lhe em cima, abrindo os braços, rouquejando umas canções brejeiras, assim sairam, num estranhíssimo pacote humano, e foram caindo até a um banco de jardim, onde ele a depositou - e deixou!
«Cruzes! Que é isto?», perguntou.
«Bolas! Já não se pode baixar uma pessoa sossegada.»
«Ó minha senhora! Mas que faz aí toda torcida? Está maldisposta? Deu-lhe algum fanico?»
«Não», respondeu a velha. «Só queria fazer chichi.»
«Pelo amor de Deus! Aqui não, minha senhora. Venha a minha casa. É mesmo aqui ao pé. Venha daí!»
Seguiram. A velha era levada da breca. Perguntou ao cego, depois de se lhe ter servido do wc, se ele não teria qualquer coisa que se bebesse. Estava um calor..!
O cego dispensou-lhe o que tinha: uma garrafa de uísque.
E a mulher, que começou por utilizar um copo, afeiçoou-se de tal modo à garrafa que, por fim, já bebia pelo gargalo. Despachou a beberagem num ápice.
Depois, completamente bêbeda, atirou-se para o sofá.
«Ah! Que isto é muito confortável! Olhe, se não se importa, fico por aqui. Durmo cá em casa...»
E já quase roncava na sua bebedeira absurda, quando o cego se impôs. Tanto, não! Não podia ser! Tinha família - a mulher ciumenta, a filha pequenita - de modo que, se já mijara, se já bebera, que se fosse...
Mas não foi fácil, porque a mulher estava completamente embriagada. O cego é que teve praticamente de a levar aos ombros. Ele sem ver coisa alguma (como é óbvio), tropeçando amiúde, ela esparramando-se-lhe em cima, abrindo os braços, rouquejando umas canções brejeiras, assim sairam, num estranhíssimo pacote humano, e foram caindo até a um banco de jardim, onde ele a depositou - e deixou!
sexta-feira, agosto 21, 2009
QUALQUER COISA COMO UM AFORISMO TRÁGICO
Pode suceder - e é até, talvez, mais frequente do que se pensaria - possuir-se talento para se ser excelente, mas não se ter vocação para isso.
Acredito que pareça terrível. É, contudo, certamente muito menos dramático do que:
ter-se vocação para se ser excelente
mas não ter talento para isso...
Acredito que pareça terrível. É, contudo, certamente muito menos dramático do que:
ter-se vocação para se ser excelente
mas não ter talento para isso...
sábado, agosto 15, 2009
O FEITIÇO PELA CULATRA III: O «TWIST» FINAL
O homem não era um pedófilo, nem um louco, nem um assassino em série.
Era um cidadão pacato, um pouco nervoso, já careca no alto da cabeça. Era Delegado de Propaganda Médica, não tinha mais do que dois pares de sapatos, uns castanhos e outros negros. Detestava que o confundissem com uma Testemunha de Jeová. O que, regularmente, acontecia: já sucedera, ao todo, mais do que três vezes.
O homem era simplesmente isto. Enervara-se com a chamada. Primeiro, assustara-se: Quem será, e a querer falar-me nesta aflição, a pedir-me que pague o telefonema...? Depois, percebera que eram miúdos. A brincar. E pensou: Vou dar-lhes uma lição!
Só isto. Quando percebeu que o número em causa se mantinha permanentemente desligado, que já o não atendiam, sentiu a alma rejubilar. «Apanharam um susto!» Mas não resistiu - e continuou.
O homem era somente isto.
Como sei?
É que o homem sou eu. De voz cortês. Cidadão pacato.
Mas como prová-lo!? Como prová-lo, agora que me prenderam porque um jovem chamado Nuno se suicidou - por enforcamento, o que é pouco vulgar em jovens - e, investigando no seu telemóvel, deram com as minhas mensagens, dezenas, centenas para não dizer milhares..., perseguindo, ameaçando, terríveis, «Estou perto», «Hoje estaremos frente a frente...», «Apanhei-te»?
Como provar que sou unicamente um homem que não quer da vida senão, para já, um terceiro par de sapatos?
Era um cidadão pacato, um pouco nervoso, já careca no alto da cabeça. Era Delegado de Propaganda Médica, não tinha mais do que dois pares de sapatos, uns castanhos e outros negros. Detestava que o confundissem com uma Testemunha de Jeová. O que, regularmente, acontecia: já sucedera, ao todo, mais do que três vezes.
O homem era simplesmente isto. Enervara-se com a chamada. Primeiro, assustara-se: Quem será, e a querer falar-me nesta aflição, a pedir-me que pague o telefonema...? Depois, percebera que eram miúdos. A brincar. E pensou: Vou dar-lhes uma lição!
Só isto. Quando percebeu que o número em causa se mantinha permanentemente desligado, que já o não atendiam, sentiu a alma rejubilar. «Apanharam um susto!» Mas não resistiu - e continuou.
O homem era somente isto.
Como sei?
É que o homem sou eu. De voz cortês. Cidadão pacato.
Mas como prová-lo!? Como prová-lo, agora que me prenderam porque um jovem chamado Nuno se suicidou - por enforcamento, o que é pouco vulgar em jovens - e, investigando no seu telemóvel, deram com as minhas mensagens, dezenas, centenas para não dizer milhares..., perseguindo, ameaçando, terríveis, «Estou perto», «Hoje estaremos frente a frente...», «Apanhei-te»?
Como provar que sou unicamente um homem que não quer da vida senão, para já, um terceiro par de sapatos?
quinta-feira, agosto 13, 2009
O FEITIÇO PELA CULATRA - II
Mas, repentinamente, Mateus tinha de se ir embora. E a conversa de despedida entre os dois marcou-o profundamente.
- Cê tá frito! - disse-lhe o amigo, ao sair, como se o abandonasse. - Desta vez cê pôs a pata na poça.
«Cê está»!? «Cê Pôs!»? Onde raio estava então o «nós»?
-Cê sabe que agora eu tenho de ir -, rematou Mateus.
Nuno desligou o telemóvel, é claro. Mas, num certo sentido, nunca o telemóvel estivera tão ligado, tão presente, tão aceso como agora. É que ele não podia pensar em nada mais, nada mais. Seria possível que o seu número estivesse «sob vigilância»? De quem? Tinha um cartão vulgar, não associado a nenhum proprietário; quem o vigiaria, e como? Por outro lado, hoje, pensou, existem novos aparelhos, detectores sofisticados: sabia de mulheres que compravam dispositivos certeiros para saber onde se encontravam exactamente os maridos infiéis, ou vice-versa...
A mãe protestou:
- Nuno, estás com o móvel fechado? Sabes que isso me preocupa, quero saber sempre de ti...
Preocupava-se? Ai sim? Pois bem, agora tinha sérias razões para se preocupar. E ele nada lhe podia dizer: nada...
Quando tornou a ligar, no dia seguinte, a medo, viu o seu medo justificado: tinha a caixa cheia de mensagens - escritas e de voz, «Não me escapas», «Vou apanhar-te», «Estou perto, muito perto», «Esconde-te!», «Não adormeças de noite, estarei a ver-te!»
Um pedófilo? Um louco? Um assassino em série?
Chorou.
- Cê tá frito! - disse-lhe o amigo, ao sair, como se o abandonasse. - Desta vez cê pôs a pata na poça.
«Cê está»!? «Cê Pôs!»? Onde raio estava então o «nós»?
-Cê sabe que agora eu tenho de ir -, rematou Mateus.
Nuno desligou o telemóvel, é claro. Mas, num certo sentido, nunca o telemóvel estivera tão ligado, tão presente, tão aceso como agora. É que ele não podia pensar em nada mais, nada mais. Seria possível que o seu número estivesse «sob vigilância»? De quem? Tinha um cartão vulgar, não associado a nenhum proprietário; quem o vigiaria, e como? Por outro lado, hoje, pensou, existem novos aparelhos, detectores sofisticados: sabia de mulheres que compravam dispositivos certeiros para saber onde se encontravam exactamente os maridos infiéis, ou vice-versa...
A mãe protestou:
- Nuno, estás com o móvel fechado? Sabes que isso me preocupa, quero saber sempre de ti...
Preocupava-se? Ai sim? Pois bem, agora tinha sérias razões para se preocupar. E ele nada lhe podia dizer: nada...
Quando tornou a ligar, no dia seguinte, a medo, viu o seu medo justificado: tinha a caixa cheia de mensagens - escritas e de voz, «Não me escapas», «Vou apanhar-te», «Estou perto, muito perto», «Esconde-te!», «Não adormeças de noite, estarei a ver-te!»
Um pedófilo? Um louco? Um assassino em série?
Chorou.
quarta-feira, agosto 12, 2009
O FEITIÇO PELA CULATRA - I
Chegou a ser divertido por um instante.
Estavam os dois, ele e Mateus. A ideia poderia ter sido dele ou de Mateus, seu amigo brasileiro: era indiferente; na verdade, as ideias de um e de outro misturavam-se numa confusão de rios onde se perdia a origem e o proprietário.
Inventaram um número de telemóvel (vodafone), partindo do princípio de que pertenceria certamente a alguém, e recorreram ao serviço vodafone para pedir que o dono do telemóvel aceitasse pagar a chamada.
O homem do número em causa aceitou.
Tinha uma voz máscula, pausada, cortês.
- Sim? - perguntou de lá, másculo, pausado, cortês.
- Como é que o senhor se chama? - inquiriu Nuno.
- Eu!? Essa agora! Diga-me você quem é, por favor. E depressa, que eu estou a pagar...
- Como é que o senhor se chama? - insistiu Nuno, enquanto o amigo Mateus escondia a cabeça sob a almofada para que o não ouvissem rir.
-Oiça - respondeu o homem. - Não me macem. Deve ser engano. Com licença.
E desligou.
Também se tornava difícil recordar quem decidira que deveriam continuar a brincadeira.
Mas, vez após vez, o homem aceitava sempre a chamada e, quando a operadora procedia à ligação, Nuno e Mateus não atendiam.
Uma vez. Duas, três vezes.
Depois, perceberam que o senhor lhes telefonava já por sua própria inciativa.
Não atendiam.
O homem insistia. Tornava à carga.
Quando atenderam, por fim, preparados para responder com vozes de monstro e guinchos, ouviram simplesmente isto:
- Sabe que o seu telefone está sob vigilância?
- Desliga essa porcaria, desliga essa porcaria! - gritou Mateus.
Ainda lhes chegou a voz, menos pausada, mais máscula, absolutamente descortês:
- Eu vou chegar aí. Juro que chego!
Estavam os dois, ele e Mateus. A ideia poderia ter sido dele ou de Mateus, seu amigo brasileiro: era indiferente; na verdade, as ideias de um e de outro misturavam-se numa confusão de rios onde se perdia a origem e o proprietário.
Inventaram um número de telemóvel (vodafone), partindo do princípio de que pertenceria certamente a alguém, e recorreram ao serviço vodafone para pedir que o dono do telemóvel aceitasse pagar a chamada.
O homem do número em causa aceitou.
Tinha uma voz máscula, pausada, cortês.
- Sim? - perguntou de lá, másculo, pausado, cortês.
- Como é que o senhor se chama? - inquiriu Nuno.
- Eu!? Essa agora! Diga-me você quem é, por favor. E depressa, que eu estou a pagar...
- Como é que o senhor se chama? - insistiu Nuno, enquanto o amigo Mateus escondia a cabeça sob a almofada para que o não ouvissem rir.
-Oiça - respondeu o homem. - Não me macem. Deve ser engano. Com licença.
E desligou.
Também se tornava difícil recordar quem decidira que deveriam continuar a brincadeira.
Mas, vez após vez, o homem aceitava sempre a chamada e, quando a operadora procedia à ligação, Nuno e Mateus não atendiam.
Uma vez. Duas, três vezes.
Depois, perceberam que o senhor lhes telefonava já por sua própria inciativa.
Não atendiam.
O homem insistia. Tornava à carga.
Quando atenderam, por fim, preparados para responder com vozes de monstro e guinchos, ouviram simplesmente isto:
- Sabe que o seu telefone está sob vigilância?
- Desliga essa porcaria, desliga essa porcaria! - gritou Mateus.
Ainda lhes chegou a voz, menos pausada, mais máscula, absolutamente descortês:
- Eu vou chegar aí. Juro que chego!
domingo, agosto 02, 2009
BLOGUES & BLOGUES

É qualquer coisa assim:
Gaston pede a um amigo que lhe tome conta do ratinho. Mas, explica, tomar conta do ratinho implica não perder de vista o gato, que vigia, atento e esfomeado, o inocente roedor. Por outro lado, há que fazer atenção à gaivota, que inveja o mesmo rato, podendo, ainda por cima, entrar em luta com o gato de quem tem ciúmes. Em todo o caso, a gaivota tem uma alternativa: o peixinho vermelho; se ela se cansar de vigiar o rato, poderá interessar-se perigosamente pelo peixinho vermelho, chamando, aliás, para este, a atenção do gato. «Percebeste? Tudo bem? Ficas então a tomar conta do meu ratinho, como prometeste?»
Às vezes, a rede de blogues em que me teci recorda-me esta história. Por um lado, porque está aqui o Kaostico. Va bene! Mas, entretanto, dei em participar com grande empenho e prazer no blogue do clube de cinema. Agrada-me que os leitores do kaostico, se ainda os há, espreitem o Gostos Discutem-se, mas não o inverso: afinal, é enquanto professor civilizado e sério que me dedico ao cinema, e não me parece bem que os alunos com quem partilho a feitura do Gostos Discutem-se descubram as minhas facetas kaosticas. Não contente com isso, iniciei o Profissão: Leitor, sobre livros. Que os meus alunos do Clube de Cinema tenham, deste, um link para o Profissão: Leitor, parece-me aceitável. Mas, uma vez mais, não pode haver deste nenhum link para o Kaostico. E quem quero eu que me visite ao blogue de poesia? Bem, não certamente todos os leitores do Kaostico, porque me tem parecido que os há pouco dados a poetices, porque os não quero incomodar e porque me sinto demasiado exposto nos meus poemas. Do Kaostico, gostaria que quem quisesse fosse ao Cara Danjo. Mas, evidentemente, não do Clube de Cinema, não do Profissão: Leitor, não...
Enfim, acaba por se tornar exasperante possuir todas estas facetas que se envergonham umas das outras.
Bem me prevenia o psiquiatra!
quarta-feira, julho 29, 2009
terça-feira, julho 28, 2009
AMOR É DIVINO. SEXO É ANIMAL
Kaostico, como o próprio nome anuncia, foi, de certa forma, o caos original, o húmus primordial, o início de tudo.
Tendo agora começado a multiplicar-me em diversos avatares, em blogues que respectivamente se centram em interesses muito específicos, um de poesia, um de literatura, um de cinema, perguntei-me se não estaria, paulatinamente, a esvaziar o kaostico. Se, daqui para a frente, se me apetecesse falar sobre cinema não iria antes àquele, ou a um outro heterónimo bloguista para publicar um poema...
E, de repente, percebo que não. Que, por alguma razão, nos outros blogues tendo a ser bem-comportado. Que, para falar de livros, me civilizo. Quase a ponto de me tornar aborrecidamente snob. Percebo que, se quero realmente continuar a ser eu, no que tenho de mais instintivo, animal, incorrecto, desagradável, infantil, tempestuoso e irascível, o kaostico será onde desaguo.
E, mais, se nos outros me torno mais instruído, recorrendo às modernas tecnologias, ao que vou aprendendo, dou-me ao luxo de, no kaostico, prescindir de quaisquer meios. Ou quase: é assim que o aprecio, sem preliminares nem açúcar, forte, negro e bom como um abatanado pela manhã.
Nos outros blogues, descubro e partilho amores. É da esfera do Bem.
Neste, faço sexo. É da esfera do Bom.
Ali, sou divino. (Modéstia à parte...!)
Aqui, animal. Como canta Rita Lee.
Tendo agora começado a multiplicar-me em diversos avatares, em blogues que respectivamente se centram em interesses muito específicos, um de poesia, um de literatura, um de cinema, perguntei-me se não estaria, paulatinamente, a esvaziar o kaostico. Se, daqui para a frente, se me apetecesse falar sobre cinema não iria antes àquele, ou a um outro heterónimo bloguista para publicar um poema...
E, de repente, percebo que não. Que, por alguma razão, nos outros blogues tendo a ser bem-comportado. Que, para falar de livros, me civilizo. Quase a ponto de me tornar aborrecidamente snob. Percebo que, se quero realmente continuar a ser eu, no que tenho de mais instintivo, animal, incorrecto, desagradável, infantil, tempestuoso e irascível, o kaostico será onde desaguo.
E, mais, se nos outros me torno mais instruído, recorrendo às modernas tecnologias, ao que vou aprendendo, dou-me ao luxo de, no kaostico, prescindir de quaisquer meios. Ou quase: é assim que o aprecio, sem preliminares nem açúcar, forte, negro e bom como um abatanado pela manhã.
Nos outros blogues, descubro e partilho amores. É da esfera do Bem.
Neste, faço sexo. É da esfera do Bom.
Ali, sou divino. (Modéstia à parte...!)
Aqui, animal. Como canta Rita Lee.
sábado, julho 25, 2009
DONA MARIANA
A Dona Mariana caçou-me num cafezito sem portas secretas nem saídas de emergência, isto é, onde eu não tinha escapatória possível.
Diz a Dona Mariana que me acha mais gordinho.
E pergunto-me eu por que raio se dizem coisas destas às pessoas. Para as manter informadas sobre as notícias vitais? Para fazer conversa, como antes se falava do tempo a quem se não tinha absolutamente mais nada para dizer? Porque eu terei efectivamente engordado tanto que o comentário lhe sai, irresistível e incontrolável como certos arrotos? Ou simplesmente para chatear?
A Dona Mariana tem um cão com um abajur, uma espécie de funil em cartão à roda do pescoço. Para se não coçar nem arranhar numa ferida.
A Dona Mariana diz que o sobrinho está em casa, engripado. Apetece-me logo vingar-me. Mas seria uma crueldade de gordo, não cheguei a esse ponto. Chego só ao ponto, a que também não resisto, de perguntar se tem tido dor de cabeça ou vómitos. E deixo escapar que «eles» aconselham a que se lave muito as mãos. Sinto que ela não percebe o que quero dizer, deixo morrer a conversa.
A Dona Mariana prepara-se para se despedir de mim com beijos estalados, daqueles que me repugnam.
Digo-lhe:
«Está a ver? Sempre há vantagens no engordar: agora fico com mais espaço para os seus beijinhos...»
Desejo-lhe as melhoras ao neto. Que não seja nada de cuidado. E piro-me!
Diz a Dona Mariana que me acha mais gordinho.
E pergunto-me eu por que raio se dizem coisas destas às pessoas. Para as manter informadas sobre as notícias vitais? Para fazer conversa, como antes se falava do tempo a quem se não tinha absolutamente mais nada para dizer? Porque eu terei efectivamente engordado tanto que o comentário lhe sai, irresistível e incontrolável como certos arrotos? Ou simplesmente para chatear?
A Dona Mariana tem um cão com um abajur, uma espécie de funil em cartão à roda do pescoço. Para se não coçar nem arranhar numa ferida.
A Dona Mariana diz que o sobrinho está em casa, engripado. Apetece-me logo vingar-me. Mas seria uma crueldade de gordo, não cheguei a esse ponto. Chego só ao ponto, a que também não resisto, de perguntar se tem tido dor de cabeça ou vómitos. E deixo escapar que «eles» aconselham a que se lave muito as mãos. Sinto que ela não percebe o que quero dizer, deixo morrer a conversa.
A Dona Mariana prepara-se para se despedir de mim com beijos estalados, daqueles que me repugnam.
Digo-lhe:
«Está a ver? Sempre há vantagens no engordar: agora fico com mais espaço para os seus beijinhos...»
Desejo-lhe as melhoras ao neto. Que não seja nada de cuidado. E piro-me!
sexta-feira, julho 24, 2009
quinta-feira, julho 23, 2009
LUA-DE-MEL A SÓS
O padrinho do meu quase casamento era um homem de posses. Oferecera-nos, para a lua-de-mel, uma viagem de sonho a Kashbarrah, onde possuía o único hotel, um hotel de cinco estrelas.
Como não chegou a haver casamento, com aquela vergonha da noiva ter fugido para se casar com outro, o quase-padrinho, condoído, disse-me:
- Ficas na mesma com o meu presente. Não será lua-de-mel, pode ser uma viagem para te esqueceres da vergonha. Formas lá um harém e não pensas mais nessa traidora!
Fiz, portanto, a viagem e, no barco que se destinava a Bagdechd (porto de onde, seguidamente, apanharíamos uma raríssima camioneta para Kashbarrah), primeiro com um sobressalto de irritação e inveja, depois com uma distensão de alívio e regozijo por não ser eu naquela situação, conheci um casal que viajava em lua-de-mel.
Ele era um tipo muito jovem, profundamente antipático, com um cabelo gorduroso, dentes grandes e óculos grossos. Ela, uma rapariga de ar tresloucado, com um princípio de calvície demasiado evidente e brincos de plástico. Mas deste casal fazia ainda parte uma mulher que cedo identifiquei como sendo a mãe dele. A cumplicidade da velha em relação ao rapaz, com quem confereciava constantemente, em surdina, não dava lugar a dúvidas. Eu assistia, intruso miserável e despudorado, a uma enorme discussão entre o recém-marido e a recém-esposa, com gritos de uma agressividade extrema, como berros de gaivota e, depois, quando ela se retirava, humilhada, via o rapaz a queixar-se à mãe, começando sempre da mesma maneira a sua lamúria:
- Já viste isto? «Ela» diz que...
E a velha a acalmá-lo.
Quando chegámos a Bagdeschd, devo confessá-lo, atrelei-me ao casal tridimensional. Não só por curiosidade e por poder banhar-me na permanente alegria de me ter, afinal de contas, libertado de um casamento que não acabaria muito melhor, mas porque o capitão do barco nos pusera de sobreaviso contra os ladrões. Por outro lado, tornava-se importante não perdermos a camioneta: a solução aconselhada passava por não nos perdermos uns dos outros.
Na paragem, iniciou-se outra discussão. À minha frente, como se eu tivesse já passado a fazer parte do casal e, portanto, nada houvesse a esconder-me, notei como passavam a pente fino tópicos de há semanas atrás, frases ditas há muito tempo e que não tinham tido resposta na altura, esquecimentos, faltas, falhas. Ele estava quase à beira de uma apoplexia, mas ela não se calava, com a sua calvície, parecia-me, a ganhar terreno, umas sandálias horrorosas que lhe deixavam marcas e feridas nos calcanhares.
E, nisto, apareceu a camioneta.
Entraram.
Reparei, contudo, que a recém-casada se esquecera, atrás, de um saco de carcaças.
Preocupado, temendo que pudesse ser um tópico mais para acirrar a discussão, desci do degrau em que já me encontrava na camioneta e fui apanhar o saco.
De saco na mão, vi a porta fechar-se. Apressei-me, mas a camioneta arrancava, diante dos meus olhos, fazendo uma poeira na qual me perdia e dissolvia.
Corri, gritando. Iam ouvir-me. O casal ia dar pela minha falta. Alguém me veria, acenando com um saco de carcaças. Não era possível. Não era possível.
Foi possível. Foi assim.
Perguntei a um árabe, que me queria vender um «timex», quando haveria outra camioneta.
Riu, mostrando-me exasperantes dentes de ouro. A próxima, só no mês seguinte.
Como não chegou a haver casamento, com aquela vergonha da noiva ter fugido para se casar com outro, o quase-padrinho, condoído, disse-me:
- Ficas na mesma com o meu presente. Não será lua-de-mel, pode ser uma viagem para te esqueceres da vergonha. Formas lá um harém e não pensas mais nessa traidora!
Fiz, portanto, a viagem e, no barco que se destinava a Bagdechd (porto de onde, seguidamente, apanharíamos uma raríssima camioneta para Kashbarrah), primeiro com um sobressalto de irritação e inveja, depois com uma distensão de alívio e regozijo por não ser eu naquela situação, conheci um casal que viajava em lua-de-mel.
Ele era um tipo muito jovem, profundamente antipático, com um cabelo gorduroso, dentes grandes e óculos grossos. Ela, uma rapariga de ar tresloucado, com um princípio de calvície demasiado evidente e brincos de plástico. Mas deste casal fazia ainda parte uma mulher que cedo identifiquei como sendo a mãe dele. A cumplicidade da velha em relação ao rapaz, com quem confereciava constantemente, em surdina, não dava lugar a dúvidas. Eu assistia, intruso miserável e despudorado, a uma enorme discussão entre o recém-marido e a recém-esposa, com gritos de uma agressividade extrema, como berros de gaivota e, depois, quando ela se retirava, humilhada, via o rapaz a queixar-se à mãe, começando sempre da mesma maneira a sua lamúria:
- Já viste isto? «Ela» diz que...
E a velha a acalmá-lo.
Quando chegámos a Bagdeschd, devo confessá-lo, atrelei-me ao casal tridimensional. Não só por curiosidade e por poder banhar-me na permanente alegria de me ter, afinal de contas, libertado de um casamento que não acabaria muito melhor, mas porque o capitão do barco nos pusera de sobreaviso contra os ladrões. Por outro lado, tornava-se importante não perdermos a camioneta: a solução aconselhada passava por não nos perdermos uns dos outros.
Na paragem, iniciou-se outra discussão. À minha frente, como se eu tivesse já passado a fazer parte do casal e, portanto, nada houvesse a esconder-me, notei como passavam a pente fino tópicos de há semanas atrás, frases ditas há muito tempo e que não tinham tido resposta na altura, esquecimentos, faltas, falhas. Ele estava quase à beira de uma apoplexia, mas ela não se calava, com a sua calvície, parecia-me, a ganhar terreno, umas sandálias horrorosas que lhe deixavam marcas e feridas nos calcanhares.
E, nisto, apareceu a camioneta.
Entraram.
Reparei, contudo, que a recém-casada se esquecera, atrás, de um saco de carcaças.
Preocupado, temendo que pudesse ser um tópico mais para acirrar a discussão, desci do degrau em que já me encontrava na camioneta e fui apanhar o saco.
De saco na mão, vi a porta fechar-se. Apressei-me, mas a camioneta arrancava, diante dos meus olhos, fazendo uma poeira na qual me perdia e dissolvia.
Corri, gritando. Iam ouvir-me. O casal ia dar pela minha falta. Alguém me veria, acenando com um saco de carcaças. Não era possível. Não era possível.
Foi possível. Foi assim.
Perguntei a um árabe, que me queria vender um «timex», quando haveria outra camioneta.
Riu, mostrando-me exasperantes dentes de ouro. A próxima, só no mês seguinte.
quarta-feira, julho 22, 2009
UM TEXTO QUE POUCO SERVE E NADA TRAZ. PARA QUE CONSTE
Como o meu computador apanhou certa virose cujo efeito, que eu veja, consiste unicamente em que os acentos das palavras caem fora das palavras, estou a tentar o desafio de escrever um texto que evite todos os acentos. Se repararem bem, os acentos foram total e sabiamente evitados neste texto. Se eu fosse mais moderno e escrevesse de acordo com o Novo Acordo, suspeito que mais facilmente, ainda, conseguiria escolher palavras sem acentos. Reparem que, de acordo com o Novo Acordo, nem, por exemplo, o termo «cagado» se acentua, ficando-se no entanto na incerteza, caso eu escrevesse «vejo o cagado debaixo da cadeira», acerca do referente da palavra utilizada: estaria a referir-me a um animal, de casa sobre o dorso, oculto sob a cadeira, ou teria acabado de descobrir, sob a mesma cadeira, o produto de um animal irracional - ou de uma pessoa tornada irracional por dar com o wc ocupado? Mas para prescindir mesmo de acentos, melhor do que escrever de acordo com o Novo Acordo, seria escrever de acordo com a senhora dona margarida moreira, que penso que saibam quem seja, e tenho notado tratar-se de uma mulher de tal forma independente, que depende muito, muito, muito pouco do que a escrita portuguesa em geral determina ou aconselha...
Certo, este texto deixa um bocado a desejar. Falta-lhe, porventura, profundidade. Ou interesse. O seu motivo parece fraco. Em todo o caso, como desafio, tem graça. Pouca, mas, enfim, alguma: conseguimos escrever um texto longo - e, chegados aqui, o desafio pode dar-se por vencido: quem escreveu estas inanidades, poderia certamente escrever mais trezentas e cinquenta posts assim... - sem precisar de um acento que fosse.
Isto consola-me um pouco. Porque, a verdade, resume-se a isto: estou furioso!
Certo, este texto deixa um bocado a desejar. Falta-lhe, porventura, profundidade. Ou interesse. O seu motivo parece fraco. Em todo o caso, como desafio, tem graça. Pouca, mas, enfim, alguma: conseguimos escrever um texto longo - e, chegados aqui, o desafio pode dar-se por vencido: quem escreveu estas inanidades, poderia certamente escrever mais trezentas e cinquenta posts assim... - sem precisar de um acento que fosse.
Isto consola-me um pouco. Porque, a verdade, resume-se a isto: estou furioso!
quinta-feira, julho 16, 2009
CRÍTICOS SEM CRITÉRIO
Os quatro vagabundos estavam sentados lado a lado, num banco corrido. Um deles era negro e tinha um boné. Outro era indiano, não tinha boné. Os dois restantes, brancos, embora muito sujos, estavam de calções.
Fixavam atentamente o anão que, diante deles, subiu para cima da mesa de bilhar e, sem uma palavra, desatou a fazer um sapateado.
Depois, saltou para o chão e foi-se embora. Os seus sapatos, próprios para fazer sapateado, ecoavam pelo chão num cada vez mais longínquo toc-toc-toc-toc.
Um dos vagabundos, talvez o negro, perante o silêncio que se instalou, gritou para algures:
«Então e agora? Já podemos ir embora?»
Outro deles tentou a sua sorte:
«E não há aí um naco de pão para o pessoal, chefe?!»
«Com um bocadinho de manteiga?», acrescentou mais um.
Só o silêncio por resposta.
Desandando do estranho palacete, o indiano ainda se voltou para trás:
«Então e um cigarrito? Ao menos um cigarrito, ein, chefe?»
Foram para a rua.
Um dos vagabundos comentou:
«Claro que não é todos os dias que temos direito a um espectáculo destes...»
Algum deles respondeu:
«Pois não. Mesmo assim, acho que preferia uma carcaça com manteiga».
Concordaram.
«Ou um cigarrito...»
Fixavam atentamente o anão que, diante deles, subiu para cima da mesa de bilhar e, sem uma palavra, desatou a fazer um sapateado.
Depois, saltou para o chão e foi-se embora. Os seus sapatos, próprios para fazer sapateado, ecoavam pelo chão num cada vez mais longínquo toc-toc-toc-toc.
Um dos vagabundos, talvez o negro, perante o silêncio que se instalou, gritou para algures:
«Então e agora? Já podemos ir embora?»
Outro deles tentou a sua sorte:
«E não há aí um naco de pão para o pessoal, chefe?!»
«Com um bocadinho de manteiga?», acrescentou mais um.
Só o silêncio por resposta.
Desandando do estranho palacete, o indiano ainda se voltou para trás:
«Então e um cigarrito? Ao menos um cigarrito, ein, chefe?»
Foram para a rua.
Um dos vagabundos comentou:
«Claro que não é todos os dias que temos direito a um espectáculo destes...»
Algum deles respondeu:
«Pois não. Mesmo assim, acho que preferia uma carcaça com manteiga».
Concordaram.
«Ou um cigarrito...»
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sinto aqui um cheirinho a david lynch
domingo, julho 12, 2009
GLÓRIAS NACIONAIS
Afinal, há que lembrar que temos, num país tão pequenininho, dois portugueses de envergadura internacional.
Dois nobéis contemporâneos: o Saramago (Nobel da Literatura) e o Cristiano Ronaldo (Nobel do Futebol).
E, até, mais parecidos um com o outro do que se diria à primeira vista. E se não é no futebol (porque nunca vi o sr. Saramago jogar à bola), é certamente na escrita!
Dois nobéis contemporâneos: o Saramago (Nobel da Literatura) e o Cristiano Ronaldo (Nobel do Futebol).
E, até, mais parecidos um com o outro do que se diria à primeira vista. E se não é no futebol (porque nunca vi o sr. Saramago jogar à bola), é certamente na escrita!
terça-feira, julho 07, 2009
HISTORINHA
Daisy, fingindo de gatinho, deu no outro dia, contra uma estátua em ferro forjado, a maior das cabeçadas que se pode imaginar.
Conclusão: o gatinho pariu um ganda galo!
Conclusão: o gatinho pariu um ganda galo!
sexta-feira, junho 26, 2009
terça-feira, junho 23, 2009
EM BUSCA DO NIRVANA
Realizo penosos exercícios em demanda urgente de um nirvana.
Eis, aliás, uma porta de entrada: por que serei eu este corpo sentado sobre uma cadeira e não esta cadeira sobre a qual pesa um corpo?
Sou uma cadeira. Sou uma cadeira. Sou uma cadeira. Sinto como minha esta perna cinzenta de ferro. O meu coração bate algures no assento de madeira. Aquele pé humano não é o meu. Aquele pé que enverga uma sapatilha castanha comprada numa promoção do Lidl não me pertence. Porque eu sou uma cadeira. Mas o pé humano não deixa de ser vaga e preguiçosamente interessante. A sapatilha tem pontinhos. Serei capaz de os contar? Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, dezasseis, vinte e cinco, trinta e sete. Ora. Estou a aldrabar. Já não me apetece contar. Oiço o tiquetaque de um relógio. Lento, lento, lento. Lento, lento, lento. Não se trata do meu relógio porque, como já assentámos, sou uma cadeira. «Assentámos» é, pois, o mot juste. (Devo ser uma cadeira poligolota.) A menos que tenha deixado de ser cadeira. Sou o tiquetaque. Meu Deus, sou um tiquetaque: é então assim que se sente um tiquetaque: nada de corpo, nada de olhos ou de cabelo, nenhuma comichão nem eczemas ou outras doenças de pele, nenhum sono ou fome, nem pés dormentes...
Uma folha. Se calhar sou uma folha.
Hã?! Folha...?
O quê? Há um diabo de um aluno, na porra interminável que é este exame que estou precisamente a vigiar, que me pede nova folha?
Ainda falta uma hora para o exame acabar? Hora e meia?
Ah! Quem me dera ser tiquetaque...!
Eis, aliás, uma porta de entrada: por que serei eu este corpo sentado sobre uma cadeira e não esta cadeira sobre a qual pesa um corpo?
Sou uma cadeira. Sou uma cadeira. Sou uma cadeira. Sinto como minha esta perna cinzenta de ferro. O meu coração bate algures no assento de madeira. Aquele pé humano não é o meu. Aquele pé que enverga uma sapatilha castanha comprada numa promoção do Lidl não me pertence. Porque eu sou uma cadeira. Mas o pé humano não deixa de ser vaga e preguiçosamente interessante. A sapatilha tem pontinhos. Serei capaz de os contar? Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, dezasseis, vinte e cinco, trinta e sete. Ora. Estou a aldrabar. Já não me apetece contar. Oiço o tiquetaque de um relógio. Lento, lento, lento. Lento, lento, lento. Não se trata do meu relógio porque, como já assentámos, sou uma cadeira. «Assentámos» é, pois, o mot juste. (Devo ser uma cadeira poligolota.) A menos que tenha deixado de ser cadeira. Sou o tiquetaque. Meu Deus, sou um tiquetaque: é então assim que se sente um tiquetaque: nada de corpo, nada de olhos ou de cabelo, nenhuma comichão nem eczemas ou outras doenças de pele, nenhum sono ou fome, nem pés dormentes...
Uma folha. Se calhar sou uma folha.
Hã?! Folha...?
O quê? Há um diabo de um aluno, na porra interminável que é este exame que estou precisamente a vigiar, que me pede nova folha?
Ainda falta uma hora para o exame acabar? Hora e meia?
Ah! Quem me dera ser tiquetaque...!
segunda-feira, junho 22, 2009
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