segunda-feira, agosto 30, 2010

AMERICA'S NOTEBOOK

1. Passe o pretensiosismo do nome, o meu objectivo é extremamente simples; longe de fazer teoria acerca dos Estados Unidos da América, o que retenho é somente o conjunto de surpresas, ideias feitas que se desfizeram, o que observei aqui, o que me chocou ali. Nada de muito fundamentado. Mas, pelo menos a mim, estas descobertas mínimas ensinam-me a penetrar no país.

2. Meu primo, que é o meu Virgílio na visita aos círculos do inferno capitalista, diz-me que, aqui, se define a pobreza como a incapacidade para se manter mais do que um carro. É evidente que muitos americanos nem um automóvel possuem. E, contudo, é certo que vi passar um "homeless", vasculhando no lixo, longas e sujas barbas, roupa estafada... mas com um i-pod!

3. Tudo o que é bom e é mau converge nesta bizarra e contraditória Las Vegas, terra do prazer sem limites, como numa gigantesca Disneyworld para adultos. Luzes intensas, cores por todo o lado, ruído, gente, um grupo de chinesas histéricas numa despedida de solteiro, tipos mascarados de Elvis Presley, restaurantes italianos soberbos, hotéis temáticos (Treasure Island, Circus, Venician, oferecendo uma espectacular Veneza...), onde tudo é falso e, ao mesmo tempo, absolutamente real...

4. Falso porque se diria encenado, como num gigantesco cenário de papel; verdadeiro, porque, efectivamente, o mármore é mármore, a pedra é sólida, os fundamentos revelam-se firmes. (E, numa terceira abordagem, tudo é novamente falso, porque imita, reproduz, reconstitui...).

5. E diz-me, ao jantar, um americano interessante, mas muito contraditório, a que o meu primo me apresentou: "O facto é que, vendo o que quer que se veja da América, fica-se ainda longe de se conhecer a América. Porque qualquer ponto dos EUA é mais diferente de um outro ponto da América, do que, possivelmente, de um qualquer ponto da Europa..."

6. Sei que assim é. Viajando de Houston a Las Vegas, ou de Las Vegas (Nevada) até essas pequenas localidades, em torno dos canyons de Zion, no Estado de Utah, maioritariamente mormon, nada tem que ver com nada: mudamos certamente de paisagem, mas também de ética, mudamos de planeta, passamos de um universo para outro.

quinta-feira, agosto 12, 2010

EU, VERDADEIRO ÍCONE DA MORAL

O local é o infame Oeiras Parque, que já deito pelos olhos.
Sozinho com a Daisy, enquanto o irmão faz uma espécie de vida de jet-set, entre praia, cinema, festas-karaoke, e a mãe dos miúdos continua presa ao trabalho, opto, à hora do almoço, por repartir com ela uma lasanha.

Não o faço por razões financeiras. Poderia ser, mas não. Tão-só por motivos logísticos, se é que a palavra está bem escolhida. Não posso carregar para a mesa dois pratos, que não cabem num tabuleiro, nem dois tabuleiros com um prato cada um. Por outro lado, custa-me deixar a garota sozinha numa mesa, já a comer, enquanto procuro a minha própria refeição. De modo que trago dois pares de talheres, divido a lasanha no prato, que é imensa, Tu comes isto, eu como aquilo!

Faço-o sempre (não é a primeira vez) com alguma vergonha. Não gostaria que me tomassem pelo rei dos somíticos, nem que achassem que roubo restos ao prato da minha filha.

Estamos precisamente ao lado de uma família: pai de braços peludos e óculos à moda, mãe com túnica de praia e chinelos, olhos verdes, miúda de uns dez anos, gorda, de caracóis; percebo, embaraçadíssimo, que seguem a minha operação: logo que a Daisy choraminga «Nã qué maij», deslizo o prato para o pé de mim, desembrulho os meus talheres, manjo, com alguma fome que a minha voracidade deve revelar.

Mas, nessa mesa ao lado, ocorre uma «situação»: a menina está com um prato cheio de bife, batatas fritas, arroz. Não come. E vejo, com estranheza, que os pais é que se envergonham perante mim, perante o meu espírito de economia. Estão furiosos com a filha, que já afirmou, peremptória, que não lhe apetecia mais. Devem estar a pensar «Isto é estragar comida», «Os meninos de Àfrica», «Mimada», esse género de coisas.
- És pior que os pequenitos!, atira-lhe a mãe, num mal contido acesso de fúria.
- Eu não sabia que era assim - lamenta-se a petiza. - Se eu soubesse que o prato era assim, não tinha pedido!

A mãe não sabe o que há-de fazer. O pai finge desaparecer. Estou, pela minha simples existência em torno de um prato de lasanha, representando uma lição de moral. Fico sem saber como me comportar.
Quase me apetecia, para resolver o problema, sentar-me à mesa deles. E, como alguns prisioneiros, no refeitório, perguntar à gorda:
- Não vais comer isso...? Importas-te?
Atirando-me imediatamente ao seu bife com batas fritas...

terça-feira, agosto 10, 2010

ACERCA DE ASSUMIR OU NÃO ASSUMIR: ISTO SOU EU A PENSAR

Eis uma confissão inaceitável do ponto de vista de quem oficializa o que se deve aceitar:
Se eu fosse gay, nunca me assumiria. Por vergonha? Não! Unicamente por não tolerar que um pormenor, no conjunto do que sou, condicionasse o meu modo de olhar o mundo e o modo de os outros me olharem.

Respondem-me: «Aí é que está! Só um não-homossexual poderia considerar a homossexualidade um pormenor. Na sociedade em que vivemos, ser homossexual está longe de constituir meramente um pormenor!»

E, então, reformulo. Sem prejuízo da coragem que penso que essa assunção requer, não me assumiria porque não é tolerável que um pormenor, no conjunto do que sou, fosse tratado como mais do que um pormenor no conjunto do que sou.

Mas isto sou eu a pensar fora da minha realidade, não sou eu a dar lições.

terça-feira, agosto 03, 2010

MAIS UM DISPARATE ANUNCIADO

A mim, não parece estranho o clamor que se tem feito ouvir como consequência da anunciada intenção, da Ministra de Educação, de chumbar os chumbos dos alunos; parece-me estranho, pelo contrário, que as associações de pais e encarregados de educação fossem tão rápidas na aclamação da ideia. Que fossem tão previsíveis! Como se, de facto, uma associação de pais não ousasse considerar, e aprovar ou desaprovar, a não ser pela medida do que apetece aos miúdos e do seu aparente interesse imediato.

Não é que eu faça muito gosto no chumbo. Não é que, bem vistas as coisas, não poderia ser preferível um sistema onde os alunos não tivessem de chumbar. Pessoalmente, como professor, odeio auxiliar na decisão de que um aluno tenha de repetir o ano. Como eu próprio, enquanto aluno, chumbei umas quantas vezes, tenho conhecimento, por dentro, do que isso significa de porrada na autoestima (embora, como dizia Bénard da Costa, também eu seja do tempo em que essa palavra não tinha sido inventada). Mas, dito isto, o problema é o da irresponsabilidade de uma ideia que surge sem se perceberem as consequências e - tanto quanto se diz - por razões fundamentalmente económicas.

A grande questão é a de saber se um aluno está preparado para "passar de ano"; se aprendeu e esgotou o que é importante, nesse ano, como base para futuras aprendizagens. E, tal como o vejo, não há volta a dar a este busílis. É claro que se o aluno transita sem essa aquisição de "saberes" prévios, sem o minimum indispensável, não vai poder dar sentido ao conjunto de novos "saberes" com que terá de lidar. A não ser - ah, a não ser que se façam diferentes turmas para um universo de transitados: turmas de meninos mais lentos, turmas de alunos que, tendo passado, de facto nada sabem, turmas de meninos incompetentes (ou seja: sem as necessárias "competências" adquiridas) e, depois, turmas de alunos mais velozes, mais sábios e mais competentes...

É já um pouco isso, de resto, que se passa - em Inglaterra ou nos EUA -, ao nível das escolas e das universidades. Ninguém fica de fora. Mas nem todos têm habilitação para frequentar as melhores escolas e universidades. Multiplicam-se escolas e universidades para os fracos, para os que não sabem, para os que não compreendem, escolas e universidades que, obviamente, mais tarde, no curriculum dos que por lá passaram, não são nenhum convite a que os contratem...

A pura ideia de fazer, por um passe de magia, desaparecer a reprovação é uma fraude. Uma dessas ideias politicamente correctas, aparentemente para democratizar o sistema e oferecer as mesmas oportunidades a todos, que, na prática, na verdade, dão diferentes oportunidades (só aparentemente iguais) ao universo inteiro. É uma ideia que agrada às crianças e aos pais e permite poupar algum dinheiro, portanto, é claro, está destinada a vencer. É sempre tão mais fácil proporcionar satisfação a curto prazo, mesmo que seja à custa da formação dos jovens do país...

segunda-feira, agosto 02, 2010

SOBRE O CASAMENTO GAY E SOBRE NÃO QUERER CASAR

Estou totalmente a favor do casamento gay: compreendo que se trata da necessidade e da possibilidade de se institucionalizar a relação, de forma a que, depois de anos de comunhão de bens, nenhum dos dois seja penalizado ou traído por famílias invejosas, que nunca aceitaram o "companheiro" do seu menino; e, sobretudo, compreendo a razão da semântica: tratando-se de assumir perante a sociedade uma relação, então por que haveria de se inventar um outro nome, como se "casamento" fosse demasiado sério e demasiado digno para eles?

Não deixa de perturbar, porém. Para mim, que não sou gay e me recusei sempre casar, porque achava a oficialização do nó um gesto fútil e burguês; que o não fiz, consciente e deliberadamente, quando podia ter dado, com esse passo, um enorme prazer à família, é estranho verificar que a atitude revolucionária seja, agora, um certo tipo de casamento.

domingo, agosto 01, 2010

OS PRIMEIROS MINUTOS DE ROBINSON CRUSUOÉ NA ILHA

Eis que lenta, lenta, lenta, lentamente desperta a consciência de Robinson Crusuoé.
Parte do rosto está mergulhado em água; doem-lhe as pernas, os braços: o que teve de nadar para chegar ali, ao princípio da ilha, àquela areia húmida, àquelas rochas aguçadas!
Robinson sabe, ou calcula mas esse cálculo é como um íntimo saber, que ninguém mais sobreviveu no naufrágio.
Soergue-se, vagaroso. Tudo são músculos duros, presos, ineficazes. Olha o céu imenso, de um imenso azul, riscado de pássaros.

Põe-se de pé, obsreva em redor. É quando, pela primeira vez, lhe passa pela cabeça que vai ter de viver sozinho, como um divorciado, recolher despojos, como um trapeiro - despojos do navio naufragado que as ondas lhe entregam. Há madeiras, há ferros, há utensílios. Começa a pensar num universo que terá de construir a partir de nada, ou de quase nada, começa a pensar numa casa que terá de erguer do zero, que o proteja, que o anime, que o abrigue.

Aproxima-se, preso de uma súbita euforia, da costa aonde continuam a chegar materiais vindos do barco afundado. Tenho de me animar, pensa. tenho de trabalhar, pensa.

E, repentinamente, percebe.

«Oh, caraças, estou tramado! Isto vai ter de ser tudo montado ao calhas», soluça, «é tão difícil, nunca se consegue à primeira», chora, infeliz, adivinhando o trabalho que lhe vão dar as peças que lhe chegam à costa, «Nunca conseguirei», chora ele, «Oh, que horror!»

Que trabalho insano, que dias duros, que dificuldades impossíveis...

«Esta merda é toda do IKEA!!!»

sábado, julho 31, 2010

DAISY, OS DUENDES, OS PORQUÊS.

Daisy começou bem, com uma pergunta que me pareceu particularmente interessante:
DAISY: Pai, por que é que os duendes do Noddy são maus?
EU: Porque gostam de fazer partidas.
DAISY: Porquê?
EU: Porque se divertem assim...
DAISY: Porquê?
EU: Porque ninguém gosta deles.
DAISY: Porquê?

Já percebi que não tenho saída. Está, flagrantemente, na fase dos «porquês?». Porquê? Não sei; sei que estou farto. Mas sinto-me inteligente. Opto por uma solução que me parece engenhosa, ehehe.

EU: Daisy, os duendes são maus porque as mães deles eram más.
DAISY: Porquê?
EU: Porque as mães das mães deles eram más.
DAISY: Porquê?
EU: Porque as mães das mães das mães deles eram más.

Divirto-me, mas ela percebeu que não saímos disto. Zanga-se. Inicia uma birra. Pede-me que não continue a responder com as mães.

EU: Sim, Daisy. Então, deixa-me explicar de outra maneira. Isto não tem que ver com as mães, de facto. Os duendes do Noddy são maus porque os pais deles eram maus.
DAISY: Porquê?
EU: Porque os pais dos pais deles eram maus.

Daisy percebe imediatamente o meu caminho. Grita. Já estou irritado.

EU: Pronto. Daisy. Então vou-te dar uma resposta definitiva. Mas não podes perguntar-me porquê. Ficas-te com ela. É isto: os duendes do Noddy são maus porque todos os duendes são maus. Porque é da natureza dos duendes serem maus.
DAISY [furiosa]: Mas isso é uma grande mentira, pai. Os duendes do Pai Natal não são maus. São bons. E ajudam o Pai Natal a dar prendas a todos os meninos. Não são maus, são bons.

Calo-me. E calo-me. E calo-me.

ANTÓNIO FEIO


Era bom e generoso. Como actor, foi capaz de fazer coisas muito más, valha a verdade, mas também do melhor. Os diálogos que mantinha com José Pedro Gomes, como Zezé e Toni, dois pintas típicos, cheios de filosofia barata e espírito de observação contundente, eram verdadeiramente impagáveis. E nunca esqueçamos que Feio, na companhia do mesmo José Pedro Gomes, se abalançou a representar O Que Diz Molero, de Dinis Machado, obra difícil e maior da Literatura Portuguesa.

Agarrava-se à vida com unhas e dentes, uma esperança desesperada, uma obstinação e uma teimosia que lhe eram próprias. Não ganhou.

O país, que não só o perdeu como, ainda por cima, continua com Sócrates e Queirós, está deprimidíssimo.

quinta-feira, julho 22, 2010

O CONCURSO DE VERÃO

DN e JN estão ambos publicando, em conjunto, às 3ªs, 5ªs, sábados e domingos, aquilo a que chamam um conjunto de Autores Clássicos da Literatura.

Poderíamos dizer que, simultaneamente, a lista desses autores seleccionados, e de que vão editando obras-primas, tem de ser encarada como um teste, um passatempo, qualquer coisa ao género de «Descubra o Intruso» ou «Que Objecto Não Pertence a esta Série?».

Poderia explicar melhor, mas basta-me apresentar a série:

Lewis Carroll
Oscar Wilde
Eduardo Pitta
Prosper Mérimée
Machado de Assis
Victor Hugo
Carlos Quiroga
Patrick Süskind
Walter Scott
Eça de Queirós
R. L. Stevenson
Marguerite Duras
Leão Tolstoi
Alexandre Herculano
Enid Meadowcroft
Sheridan Le Fanu
Joseph Conrad
Fialho de Almeida
Herman Broch
Arthur Schnitzler
Fiodor Dostoievski
Antoine Saint-Exupéry
D.H. Lawrence
Edgar Allan Poe
Jorge Luís Borges
Henry James
Bram Stoker.

Se quisermos excluir à partida os autores estrangeiros, ficamos com os seguintes portugueses: Eduardo Pitta, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Fialho de Almeida. O único contemporâneo ou, pelo menos, o autor vivo que consta é, portanto, um senhor chamado Eduardo Pitta. Não Gonçalo M. Tavares (que poderia já ser considerado um «clássico»), não José Luís Peixoto - ou, entre os mais antigos, Mário de Carvalho. (Já não falo de Agustina). Não: Eduardo Pitta. Por que diabo!? A que propósito!? Segundo que critério? Com que argumento!?

Fico indignado. Tento explicar, ao meu filho, a razão desta indignação. «Não vejo outra explicação, senão que o homem tenha sido o próprio responsável pela lista, ou seja amigo ou amante de alguém...»

Meu filho ainda ensaia: «Mas, pai, não pode ser uma questão de gosto? Tu não gostares, mas o senhor que decidiu, achar que é muito bom, tal como tu admitirias o Gonçalo Tavares, que o senhor pode achar que é muito mau?»

Como explicar-lhe que, se o critério é uma lista de "clássicos", Eduardo Pitta não cabe de jeito nenhum, por muitas voltas que se dêem, por critérios dúbios que se inventem? Como explicar-lhe que não faz sentido juntar-se, numa lista de "clássicos" da Literatura, Eduardo Pitta e, por exemplo, Victor Hugo?

«Victor Hugo Cardinalli?», pergunta-me o miúdo. «O dos circos? Olha, eu nem sabia que esse escrevia "clássicos"...»

E eu, frustrado e vencido, calo-me. Calo-me!

quarta-feira, julho 21, 2010

MENTIROSOS

Haroldo P. Frutuoso publicou, em Brasília, nos anos oitenta, uma dissertação académica, na área da sociologia (mas com inescapáveis implicações psicológicas e éticas), acerca da mentira.

A tese é comprometedora. H. P. Frutuoso pega numa afirmação de Kant, segundo a qual «a mentira nunca poderia ser o imperativo categórico», porque uma sociedade «guiada pela mentira», pelo «espírito da mentira», pela aceitação do mentir, como lei absoluta, rapidamente soçobraria. Nunca, numa tal sociedade, se poderia crer numa promessa ou num juramento; nenhum contrato faria sentido ou teria o menor valor. Pega nessa afirmação e inverte-a, perguntando-se: como poderia uma sociedade - qualquer sociedade -, pelo contrário, sobreviver sem a mentira?

A tese faz pensar. Haroldo não defende, naturalmente, que a mentira possa ser aceite como lei. «Isso», escreve na página 130, «seria uma contradição. A natureza da mentira é ser não-lei: sua natureza é, justamente, "enganar", decepcionar a regra, não de frente, mas de modo oculto.»
O que ele, sim, defende, é que um ser que exige, como fundamento último da sua existência, a mentira de um deus que o houvesse criado e o receba em seus braços imateriais após a morte, é um ser que nunca suportaria viver sem a mentira nos diferentes departamentos do seu quotidiano.

Harolodo sustenta que o próprio eu é, reparem, uma "mentira": não existe "eu" senão como mito pessoal de cada um - a consciência que o "sujeito" toma como sendo seu centro e sua sede mais não é do que o frágil bote, mais aparente do que real, em que a pessoa se não sente à mercê de forças inconscientes, a natureza em fúria, o mar agitado. Pede, se estão lembrados, esta imagem emprestada a Schopenhauer.

Mas em termos sociais, pretende Haroldo, todas as relações carecem de um grau maior ou menor de mentira, mais ou menos consciente, para se poderem manter. A verdade é anti-social. A verdade é anti-humana. Se a humanidade inteira coincidisse no cumprimento da regra de "dizer a verdade", e a respeitasse escrupulosamente durante um certo tempo, um instante que fosse, terrível seria o tsunami de catástrofes, suicídios, homicídios que daí adviria...

Espanta-me que se tenha a coragem de publicar uma tese assim. Penso que, a ser o seu conteúdo verdadeiro, preferível seria que nos mentissem acerca disso...

terça-feira, julho 20, 2010

NÃO TEMOS CHEIRO!? AI NÃO!

Por que razão a nossa percepção é, quase automaticamente, imediatamente - racista?

Porque tende a ocultar, de nós mesmos, as nossas próprias características: é o que torna tão evidentes as características dos outros.
Por outras palavras: habituamo-nos à nossa pele, tal como, na casa de banho, nos habituamos ao nosso mau-cheiro, e não temos consciência deste. Porém, o cheiro dos outros impõe-se-nos.

Duvido que pudéssemos ser ainda racistas, se fizéssemos alguma ideia de como realmente cheiramos ao nariz alheio.

segunda-feira, julho 19, 2010

ANARQUISTA, GRAÇAS A DEUS

Porque não sei de nenhum outro nome para qualificar uma pessoa que defende o que defendo, aceito que me considerem anarquista.
Sou um anarquista heterodoxo, claro. (Pensando bem: se me revisse em alguma ortodoxia, dificilmente faria sentido que me intitulasse "anarquista"). Para começar, porque não prescindo da autoridade - no sentido de autoritas, ou seja, não de um poder que se impõe de cima para baixo, mas de um outro que se manifesta a partir de dentro, emanando do sujeito como expressão do que o dignifica e torna respeitável aos olhos dos outros.

O meu anarquismo não projecta a sua existência em qualquer futuro longínquo. Exerce-se agora e aqui. Não preciso de defrontar o poder do Estado ou combater a força da escola ou da igreja. Não sei nem me interessa saber se o anarquismo é viável como política social. O meu anarquismo é realizado diariamente em microclima. Daí que despreze tanto a acéfala tentativa de se esvaziar os micro-contextos. O universo do meu anarquismo é o grupo - os alunos, os colegas, os amigos. Os clubes, os movimentos. Que triste sina a deste micro-anarquismo, de resto, em tempos de se preferir a cultura dos Mega e do Global à cultura do micro...

O meu anarquismo é só indirectamente uma forma de política. É, primária e directamente, uma forma de ética e de cultura. Consiste nisto: em contexto de grupo, turma, comunidade, procuro que não haja um poder formal, que amesquinhe ou submeta os outros. Uma aula de filosofia é um claro exemplo de anarquia - não porque eu não seja o professor, não porque me não assuma como tal, mas porque todo o meu trabalho se dirige à liberdade de cada um, chama por ela, entende-se com ela, procura-a num terreno de convivência entre liberdades.

Dir-me-ão, e justamente, que, em última análise, as notas existem, e que eu as atribuo. E que se trata, de facto, de um exercício de poder. Dir-me-ão que sou eu quem corrige - nem que seja, afinal, os erros de sintaxe. Dir-me-ão que, portanto, aquilo que designo por "anarquismo" encapota, afinal, um poder. Será, então, uma forma de manipulação.

Mas entenda-se que, nas minhas contradições, na medida em que me cinjo ao sistema, estou, no interior do mesmo, como o moscardo socrático, que não deixa descansar, como o elemento que corrói o sistema ou que, pelo menos, procura fazer crescer a consciência para além do que o sistema pode suportar. Não espero, com isso, que o sistema venha, a prazo, a explodir. Não tenho, repito, um projecto a longo prazo. Mas sou, no sistema, uma consciência extra-sistema. Sou, no planeta Terra, um extra-terrestre. Aponto, indico, abro, rasgo. Exerço. Contesto, critico. Exerço. Não estou, senão aparentemente, ao serviço do Ministério. Na realidade, crio cultura. É o que exerço. Nada de especial, é o que qualquer professor pode fazer, se nem todos o fazem. E onde a cultura não está submetida a lógicas de poder - seja a lógica do Estado, a lógica dos bons-costumes, a lógica, sequer, do mercado -, o que existe é uma sociedade insubmissa, espaço da fruição anarquista.

Eis a minha proposta.

domingo, julho 18, 2010

SMALL IS BEAUTIFULL

De que signo serão as pessoas que "reflectem", no Ministério da Educação?
De onde surge este manancial de ideias grotescas, sem estudo, aprofundamento nenhum, entre um "eduquês" ultrapassado em toda a parte e a obsessão da estatística? De onde vem esta gente? Como se faz ouvir e singra? Com que direito liquida, destrói, desconsidera, esvazia, em nome de uns resultados falsos ou de não sei que raio!?

A minha escola, entre erros e insuficiências, defeitos e conflitos, construiu, ao longo de trinta anos, uma cultura singular, uma dinâmica própria, um projecto vivo. Promove a democracia nas relações entre os órgãos e nos laços entre todas as pessoas, os líderes, os professores, os alunos, os funcionários. Une docentes e discentes em torno de projectos que vingam pela sua força, não pela imagem nem para "fazer bonito" em qualquer tipo de avaliação. Tem, há muitos anos, uma revista premiada, recebeu, ao longo do tempo, intelectuais como Agualusa, Gastão Cruz, Gonçalo M. Tavares, Jorge Leitão Ramos, Pedro Mexia. Há um Clube de Cinema, há um fanzine. Convida políticos. Há professores que entusiasmam os rapazes e as raparigas a cultivarem hortas, das quais consumimos os produtos frescos, e professores de matemática empenhados em ideias e projectos para agarrar alunos e auxiliá-los na difícil aprendizagem das matemáticas.

Com que direito se iria fundir este oásis de espírito e cultura num Mega-Agrupamento, sob uma direcção única, abstracta e desconhecedora, segundo um projecto anónimo e desatento às particularidades e às diferenças?

Com que direito, e por que razão, e com que justificação, se encaixariam vários pequenos viveiros numa massa global, inculta, cumprindo objectivos meramente economicistas ou servindo sedes políticas? A que propósito desfazer a virtude do "micro", dos pequenos universos de sentido, em prol de um Sentido Único, devorador, imposto de cima para baixo, numa imparável e cega marcha de agregação?

Recordando Talleyrand: «É que isso é pior do que um crime! É um erro!»

UM DEFEITO DO VIZINHO PERFEITO

Há pessoas, não sei, que parece que, para melhor exibir a luz das suas qualidades, têm de diminuir os outros.

Assim sucede com o meu vizinho M., à parte isso, de facto, muito boa pessoa e homem prestativo.

Porém, quando o apresento a alguém - à minha tia, a algum amigo, a certa visita -, se tenho necessidade de lembrar que é uma «espécie de Salvador da Pátria», e recordar como «foi ele que subiu, por uma escada de madeira, ao primeiro andar, para arrancar à casa de banho a minha filha, que se tinha fechado por dentro à chave», etc, etc, etc, raramente não recebo por resposta qualquer coisa a sublinhar um defeito, uma incompetência, um falhanço meus.

No outro dia, apresentava-o à minha mãe, com o sorriso e as fórmulas do costume, Salvador da Pátria, Um vizinho cheio de recursos, etc, etc, etc - e responde-me ele, mirando com desconfiança os pneus do meu automovelzeco:

«Está com os pneus muito em baixo, vizinho. Tem de ver isso, o vizinho não se preocupa com o carro!? Olhe que eu, o meu...!»

Mas a melhor foi de uma vez em que o apresentava já me nem lembro a quem. Blá, blá, blá, Sempre que estou em apuros, aqui o vizinho, e blá, blá, blá.
E ele, estudando-me fixamente o rosto:

«Ó vizinho. O vizinho não sabe fazer a barba!»

sexta-feira, julho 16, 2010

A SUBTILEZA DOS DINOSSAUROS

Alguns leitores tomarão certamente este título por ironia. Não é o caso.

Há que não subestimar o valor dos dinossauros. Os garotos amam-nos; pedem que lhos comprem em miniaturas maravilhosas, com que encenam terríveis combates; não perdem um filme com os simpáticos monstros pré-históricos. Há miúdos que conhecem os seus variados nomes. Os quartos de todos os putos exibem-nos em posters impressionantes. E não é por obra do acaso que os dinossauros irradiam esse fascínio todo.

Considero-os uma autêntica civilização. Criaram, do ponto de vista da anatomia ou das "competências", quase tudo o que as mais variadas espécies ostentam, hoje, pelo ar, pela terra, pelas águas. Uns quantos puseram-se a voar e, simplifiquemos!, inventaram assim os pássaros; mas havia-os para todos os gostos, até do ponto de vista político, ideológico e filosófico: vegetarianos e carnívoros, senhores e escravos, obesos e anorécticos, com instrumentos e aptidões contrários, aleatoriamente distribuídos, num contínuo teste à adaptação.

Civilizacionalmente, fazem-me lembrar os Antigos Gregos que, no seu tempo, também foram e também inventaram praticamente tudo: sejamos nós cínicos, idealistas, materialistas, sensualistas, atomistas, individualistas ou colectivistas, caramba!, não estamos a fazer nada - como lembra o Adriano de Marguerite Yourcenar - que não tivesse sido, primeiro, uma escolha de algum Antigo Grego.

É por isso que me parece que a evolução não é sempre correcta. Se o progresso tende a simplificar, não estou certo de que essa simplificação seja uma vantagem real: e sei, sobretudo, que aquilo que aparenta ser "demasiado" gigantesco e complicado, como um dinossauro, contém em si uma subtileza, um génio, que a pura eliminação desse todo, ou a sua simplificação, necessariamente farão desaparecer.

Alguém acredita que a música tenha evoluído, de Bach a Luís Represas?

Alguém crê, para além dos criminosos do costume, que a tendência para se acabar com o estudo do Latim, mais os seus casos complicados, que, todavia, apuram e treinam a inteligência e o conhecimento mais profundo da mecânica das línguas vivas, suas herdeiras, pode ser ocupada pelo estudo do Espanhol, agora em voga nas áreas de Línguas e Literaturas?

Alguém está realmente convencido de que, poupar-se, aos jovens estudantes, a leitura obrigatória dos Clássicos da Literatura Portuguesa, na disciplina de Português, seja uma evolução, uma adaptação vantajosa, um progresso real?

Ou que, em resumo, progredimos com a a simplificação rasteira consubstanciada por um acordo ortográfico como este?

Qualquer dinossauro perceberia a estupidez! Mas esses eram mais subtis do que parece. Por isso, em última análise, aliás, desapareceram...

quarta-feira, julho 14, 2010

HÁ QUEM NÃO MEREÇA SER DONO DE UM CAFÉ

«Quanto mais cedo vem, menos faz», rosna a senhora de bom aspecto, co-proprietária do cafézito onde, às vezes, pequeno-almoço. Tem bom ar, a senhora, desde que não fale durante muito tempo: se lhe prestamos atenção, percebemos os "fizestes" e os "prontos" com que tudo estraga.
O tipo a que se refere, o tal que «quanto mais cedo vem, menos faz», é o marido: um trombudo desinteressante, careca e com o nariz cheio de peles de uma psoríase (é assim?) galopante. Quando está só ele, serve-me rapidamente, irritado de que o incomodem, e torna a sentar-se a uma das suas mesas fazendo palavras cruzadas.

As palavras da senhora vieram-me à memória. Faltava-me uma bica, eram praí já umas dez horas, e o café fechado.
Fui a outro, num primeiro andar, com uma varanda-esplanada e uma outra senhora que arranja as sandes de queijo com as mãos nuas.
E quem vejo, sentado na varanda-esplanada, lendo vários jornais, chupando o seu galão e fumando cigarros?
Nem mais. O «Zé». Que não gosta, realmente, de trabalhar - prefere gastar: então, com um café próprio, e vai tomar café a outro lado?

sexta-feira, julho 02, 2010

A CONSPIRAÇÃO

«A mim não me enganam», jura-nos, num café, certa mulher de alguma idade, os óculos refulgindo lúcida e severamente. Não fala com ninguém em particular, pelo que, queira eu ou não, tenho de me considerar, como os demais, um interlocutor em potência. Faço o meu sorriso estúpido destas ocasiões e vou assentindo com a cabeça.

«O Queirós», prossegue ela, «tem qualquer coisa contra Portugal. Aquilo é vingança antiga. Ou então estão a pagar-lhe. Ou as duas coisas, estão a pagar-lhe, e bem!, porque ele estava de candeias às avessas com o país; pagaram-lhe para ele conseguir que a selecção não fosse longe. Não viram os disparates todos que o homem fez? Mandou embora o Deco, pôs o Ronaldo a jogar sempre fora do lugar, quase não metia o levezinho do Sporting, trocou o Hugo Almeida quando ele estava no melhor...»

Pondero, com uma súbita atenção nos ouvidos. E ela, deduzindo com rigor toda a trama da maquiavélica traição de Queirós:
«E eles sabem isso tudo, eles lá sabem uns dos outros, não se lembram de que o Mourinho veio dizer que a selecção não ganhava nem com o Ronaldo a correr a mil a hora? Ora aí está. O Mourinho sabe o que diz, por alguma razão o disse, ele lá sabia qualquer coisa...»

Não deixa de ser uma explicação. E, pensando bem, é talvez mais lógica do que a ideia de que alguém possa, sem qualquer razão, por si só, ser tão mau, tão mau, tão mau como o Queirós foi. Enfim, alguém que ganhe algo com esta derrota!

Eu ando adormecido. Felizmente que, às vezes, aparece um português lúcido para me abrir os olhinhos.

terça-feira, junho 29, 2010

CHIPS, SÓ NOS CÃES!

A quem interesse a minha pindérica e desinformada perspectiva, devo dizer que sou avesso a essa ideia de começar a apoiar tecnologicamente as decisões do árbitro. Televisões e chips para ter a certeza de que a bola entrou ou de que um "atleta" (como diria Scolari) está fora-de-jogo? Valha-me Deus! Começa-se assim e, já agora, eliminem o árbitro. Põe-se um tipo sentado diante de um ecrã, com um computador, a fazer cálculos de trajectórias e de intersecções e a estabelecer medidas irrefutáveis. Epá, não sejam ridículos!

E agora vem o contra-argumento que os amigos da tecnologia têm por irrefutável. Os árbitros cometem erros.
Sim, já sabemos. Sim, temos visto. Alguns deles até são comprados, mas, e depois!? Encarem a coisa assim: os erros dos árbitros fazem parte do jogo, são algumas das incontáveis probabilidades de que ganhe A ou B: são tão apaixonantes como os erros dos jogadores, a bola que foi à trave, o guarda-redes que teve uma crise de estrabismo no momento em que devia saltar para a esquerda.

Um computador? E, nesse caso, a quem chamávamos nomes? Ao computador!?!? «Vê-se mesmo que a tua mãe computa!»? E perdíamos a possibilidade de ver o espectáculo divertido que é um homenzinho, às vezes de alguma idade e de alguma barriga, mas também de calçõezitos, a tirar, do bolso, cartões de cores? E a apitar!?

O futebol que evolua para onde quiser. Mas não substituam os árbitros por instrumentos sofisticados. Um árbitro quer-se assim: sem sofisticação nenhuma e a errar grosseiramente, que é para dar mais alma ao futebol.

domingo, junho 27, 2010

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!

Nunca fui um incondicional adepto de Isabel Alçada. Já me vinha dos seus livros, de que não era grande apreciador. Mas a verdade é que, quando a vi no cargo novo, não pude deixar de pensar para mim próprio: Vai ser outra loiça! É uma escritora! É uma intelectual!

Ao estilo de argumentação do engenheiro Sócrates já me habituara. Dali não se espera a verdade, mas a falácia eficaz, ou seja, sem especiais preocupações de subtileza. Julguei que, pelo menos nesse aspecto, a ministra da Educação viesse a ser diferente.

Descubro que não. Que, no governo, existe uma espécie de contaminação. Que um certo estilo de argumentar, que não hesita em distorcer ou esconder as razões mais óbvias, se impõe rapidamente a todos os membros, com tiques idênticos e quase as mesmas palavras.

A questão não é, aqui, a da política que escolhem. A política parece-me péssima, mas se é a que têm para dar ao povo português, certamente será por um certo número de razões: não precisam de as esconder, apresentem-nas. Deixem que as discutam. São motivos económicos? Digam isso! Dizem respeito à crise? Há que poupar? Digam-no - mas não façam passar essas razões económicas por outras de outra ordem: políticas, éticas, pedagógicas. É feio. É falso.

Já ouviram o discurso da senhora ministra acerca do que a motiva a fechar escolas? É um primor de falácia e falsidade. É uma obra-prima de manipulação.

QUASE TUDO PODE SER UM BOM MOTIVO DE OPTIMISMO

Levo o lixo para reciclar.
Observo que a caixa em que transporto as garrafas (de cerveja e de vinho, principalmente) pesa menos do que aquela em que levo o papel.
Presumo que seja um bom sinal.