Lisboa, anos 50.
Lopes era um homem sem metafísica [poderia ter-lhe até chamado Esteves, se não fosse o desacerto da época] nem, aparentemente, sonhos de espécie alguma. A sua opacidade é notória: veste sempre o mesmo fato escuro e gravata e entra todas as manhãs, muito franzino e adunco, num café onde pequeno-almoça ao balcão. A sua mulher, a quem nada pede e de quem nada espera para além dos gestos habituais e de uma relação de rotina, chega ao café uns minutos depois dele. Ela passara entretanto pela papelaria, onde tinha ido buscar um jornal desportivo, que lhe estende e ele lê, sem emoção. Manhã após manhã vemo-los pois entrar, primeiro ele - magro, igual a si ao longo dos anos - e a seguir ela, engordando e tornando-se mais feia e desarranjada.
Uma tarde, Lopes não regressa a casa após um dia de trabalho burocrático. E a aflição da mulher não resolve esta ausência. Procura-se o homem por toda a parte. Ninguém tem ideia de investigar em prisões. [A que propósito estaria o Lopes numa prisão?] Nem o Lopes tinha propriamente «amigos» que pudessem acolhê-lo: apenas colegas. Em contrapartida, da única vizinha que tem telefone, a senhora Lopes faz, muito chorosa, inúmeros telefonemas para hospitais. Teria sofrido um acidente? Tido algum ataque maléfico? Para onde pode desaparecer um homem assim? [Assaltado? Em pleno dia? Na Lisboa dos 50?] Dão-no como morto, ao fim de meses de buscas infrutíferas.
Cinco anos mais tarde, uma outra vizinha, de visita a uns filhos em Moçambique, garante ter encontrado o Lopes. Mas, de certa forma, um "outro" Lopes: marido de uma mulata, pai de três filhos (dois rapazes gémeos, com dois anos, e um bebé de meses); joga [conta-se que perdeu e refez fortunas, em poucos dias], caça feras, em aventuras que narra em grupos de senhoras, entre gargalhadas, sempre de uísque na mão; conta anedotas apimentadas, veste-se de caçador (ou de smoking), como numa perpétua mascarada. Chamam-lhe Dias. A vizinha muda várias vezes de opinião. Será, este Dias, o Lopes que ela conheceu? Poderá tratar-se realmente do mesmo homem?
quarta-feira, outubro 26, 2011
sábado, outubro 15, 2011
A DIFICULDADE INESPERADA DAS DISCIPLINAS FÁCEIS
Há um equívoco de que alguns Encarregados de Educação podem ser vítimas. Previno-os, embora para mim seja já demasiado tarde: fui um dos Encarregados de Educação que se deixaram enganar.
A questão é sempre a mesma. Pensa-se que ao escolher certas disciplinas, aparentemente mais fáceis, se ajuda o respectivo encarregando a ter uma nota razoável e, portanto, a melhorar a média. O problema é que, geralmente, as disciplinas "fáceis" são as que são leccionadas por professores complexados. Os quais levaram anos odiando, primeiramente, o facto de as suas disciplinas serem consideradas "fáceis"; e que se dedicam, quando conseguem, a torná-las mais "rigorosas", "exigentes" e "difíceis" do que as demais.
Isso já acontecia com Educação Física. [Ginástica, no meu tempo]. Cansados de serem professores menores, aqueles a que ninguém ligava nas salas de professores, com os seus fatos de treino e os apitos ao peito, aproveitaram conscienciosamente o facto de a Educação Física ter passado a ser levada a sério, contando para reprovação. Desde aí, alunos de óculos, autênticos ratos de biblioteca, cromos completos, com laboratórios de Física e Química montados no quarto, onde, secretamente, podem ter inventado o meio de viajar no tempo, vêem, apesar de 20 em tudo o mais, a sua média comprometida pelo professor de Educação Física. Um tipo, nos tempos que correm, com doutoramento na Universidade do Mourinho. Que abre calhamaços cheios de gráficos que indicam precisamente por que o brilhante aluno de Ciências não pode ter mais do que 10 a Educação Física...
Sucede o mesmo com o Espanhol. Dios! Não poderia ter optado por Francês, uma língua culta (apesar de já não ser bem o que era...?) Não podia ter optado por Literatura Portuguesa? Por que raio me passou pela cabeça de que todos os portugueses são bons em Espanhol? Que se o meu filho aprendesse a dizer correctamente «Los caramelos de Badajoz son muy buenos» fazia a disciplina com uma classificação elevada?
Apanhou pela frente um professor arrogante e intransigente, que se deliciava a ouvir os alunos [para treinarem a pronúncia castelhana], lendo, em voz alta, páginas da sua dissertação de doutoramento [não sei em quê]; que se ofendia com desvios na acentuação e lhes exigia respostas sem erros em testes que eu próprio não entendia.
Não quero desmerecer a Educação Física (até porque tenho pânico de que um professor de EF leia este post) nem a língua do país onde foi criado o sublime D. Quijote. Mas caramba - têm de ser mais rigorosos e mais sérios do que todos os outros - a Matemática, a Física e Química, a Literatura...?
A questão é sempre a mesma. Pensa-se que ao escolher certas disciplinas, aparentemente mais fáceis, se ajuda o respectivo encarregando a ter uma nota razoável e, portanto, a melhorar a média. O problema é que, geralmente, as disciplinas "fáceis" são as que são leccionadas por professores complexados. Os quais levaram anos odiando, primeiramente, o facto de as suas disciplinas serem consideradas "fáceis"; e que se dedicam, quando conseguem, a torná-las mais "rigorosas", "exigentes" e "difíceis" do que as demais.
Isso já acontecia com Educação Física. [Ginástica, no meu tempo]. Cansados de serem professores menores, aqueles a que ninguém ligava nas salas de professores, com os seus fatos de treino e os apitos ao peito, aproveitaram conscienciosamente o facto de a Educação Física ter passado a ser levada a sério, contando para reprovação. Desde aí, alunos de óculos, autênticos ratos de biblioteca, cromos completos, com laboratórios de Física e Química montados no quarto, onde, secretamente, podem ter inventado o meio de viajar no tempo, vêem, apesar de 20 em tudo o mais, a sua média comprometida pelo professor de Educação Física. Um tipo, nos tempos que correm, com doutoramento na Universidade do Mourinho. Que abre calhamaços cheios de gráficos que indicam precisamente por que o brilhante aluno de Ciências não pode ter mais do que 10 a Educação Física...
Sucede o mesmo com o Espanhol. Dios! Não poderia ter optado por Francês, uma língua culta (apesar de já não ser bem o que era...?) Não podia ter optado por Literatura Portuguesa? Por que raio me passou pela cabeça de que todos os portugueses são bons em Espanhol? Que se o meu filho aprendesse a dizer correctamente «Los caramelos de Badajoz son muy buenos» fazia a disciplina com uma classificação elevada?
Apanhou pela frente um professor arrogante e intransigente, que se deliciava a ouvir os alunos [para treinarem a pronúncia castelhana], lendo, em voz alta, páginas da sua dissertação de doutoramento [não sei em quê]; que se ofendia com desvios na acentuação e lhes exigia respostas sem erros em testes que eu próprio não entendia.
Não quero desmerecer a Educação Física (até porque tenho pânico de que um professor de EF leia este post) nem a língua do país onde foi criado o sublime D. Quijote. Mas caramba - têm de ser mais rigorosos e mais sérios do que todos os outros - a Matemática, a Física e Química, a Literatura...?
quinta-feira, setembro 29, 2011
aforismos kaosticos
Faz tanto sentido dizer que a saúde é um direito, como dizer que a morte é um dever.
MANUAL DE INSTRUÇÃO DAS FADINHAS
1. Muitas meninas pequeninas são fadas e não sabem. As suas asas permanecem invisíveis: só conseguem vê-las pessoas boas - e nem todas as pessoas boas, mas as que crêem em fadas.
2. É-se uma pequenina fada até aos dez anos de idade.
3. Certas meninas poderão continuar fadas, mesmo depois dos dez anos: é necessário que a lua as escolha.
4. As meninas que queiram continuar fadas para sempre deverão aprender a prestar atenção à lua. E dizer-lhe, todas as noites: «Lua, eu gostava de ser uma fada para sempre. Não te posso obrigar, mas por favor, repara em mim, por favor, escolhe-me».
5. As meninas-fada têm de ter muito cuidado com as asas, à noite, quando se deitam. Para isso, bebam três golos de água antes de entrarem para a cama: magicamente, as asas desaparecem durante o sono.
6. As meninas-fada nunca poderão usar os seus poderes para fazer mal. O bem é o seu caminho.
7. Fadas não se dão bem com abelhas - ninguém sabe a razão, mas uma lenda afirma que as abelhas invejam as asas das meninas, mais bonitas e mais brilhantes.
2. É-se uma pequenina fada até aos dez anos de idade.
3. Certas meninas poderão continuar fadas, mesmo depois dos dez anos: é necessário que a lua as escolha.
4. As meninas que queiram continuar fadas para sempre deverão aprender a prestar atenção à lua. E dizer-lhe, todas as noites: «Lua, eu gostava de ser uma fada para sempre. Não te posso obrigar, mas por favor, repara em mim, por favor, escolhe-me».
5. As meninas-fada têm de ter muito cuidado com as asas, à noite, quando se deitam. Para isso, bebam três golos de água antes de entrarem para a cama: magicamente, as asas desaparecem durante o sono.
6. As meninas-fada nunca poderão usar os seus poderes para fazer mal. O bem é o seu caminho.
7. Fadas não se dão bem com abelhas - ninguém sabe a razão, mas uma lenda afirma que as abelhas invejam as asas das meninas, mais bonitas e mais brilhantes.
domingo, setembro 04, 2011
10 MANDAMENTOS DO ASPIRANTE A ESCRITOR
1. Não esperes demasiado dos amigos de que seria lógico esperar algo. [A colega que conhece «demi-monde» e divulgará a tua obra, a parente de um próximo, que se dá com escritores famosos, e promete mostrar-lhes o teu trabalho, o jovem que te fará uma entrevista decisiva: verás que, no momento em que precisas, têm mais em que pensar].
2. Mantém-te atento a todos os de que nada esperarias: subitamente, um deles poderá ser, para a tua obra, a mão eficaz do destino.
3. Nunca te sentes aguardando que uma editora acabe dando por ti: acredita, as editoras têm gente muito estúpida à sua frente. Em geral.
4. Junta dinheiro. Faz um pé-de-meia. Publica à tua custa: esse deve ser o início.
5. Aprende a usar as novas tecnologias: blogues, facebook, sites: gratuitos e chegando longe e a muitos.
6. Persiste. Não consegues ao fim de dez anos? E que são dez anos? Ou vinte? Ou trinta? Um dia, hás-de conseguir.
7. Ou não. Quem sabe? Mas confia em que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
8. Quando espreitar uma ligeira oportunidade, crava nela os dentes. As ligeiras oportunidades - seja uma editora marginal, seja uma proposta modesta - serão, a prazo, porventura, a maior das oportunidades.
9. Não reajas mal às sugestões de quem te leu. À opinião de um amigo ou à de uma editora. Afinal, não é para ti próprio que escreves. Ouve, sonda, aprende com as primeiras leituras.
10. Mas descobre e estabelece a tua fronteira. Afinal, és tu o escritor. Decide qual é, no que escreves, o teu ponto de absoluta não-cedência. E mantém-te fiel a ele.
2. Mantém-te atento a todos os de que nada esperarias: subitamente, um deles poderá ser, para a tua obra, a mão eficaz do destino.
3. Nunca te sentes aguardando que uma editora acabe dando por ti: acredita, as editoras têm gente muito estúpida à sua frente. Em geral.
4. Junta dinheiro. Faz um pé-de-meia. Publica à tua custa: esse deve ser o início.
5. Aprende a usar as novas tecnologias: blogues, facebook, sites: gratuitos e chegando longe e a muitos.
6. Persiste. Não consegues ao fim de dez anos? E que são dez anos? Ou vinte? Ou trinta? Um dia, hás-de conseguir.
7. Ou não. Quem sabe? Mas confia em que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
8. Quando espreitar uma ligeira oportunidade, crava nela os dentes. As ligeiras oportunidades - seja uma editora marginal, seja uma proposta modesta - serão, a prazo, porventura, a maior das oportunidades.
9. Não reajas mal às sugestões de quem te leu. À opinião de um amigo ou à de uma editora. Afinal, não é para ti próprio que escreves. Ouve, sonda, aprende com as primeiras leituras.
10. Mas descobre e estabelece a tua fronteira. Afinal, és tu o escritor. Decide qual é, no que escreves, o teu ponto de absoluta não-cedência. E mantém-te fiel a ele.
quarta-feira, agosto 24, 2011
Pergunta ao Lado
Duda, meu filho já de dezasseis anos [como o tempo passa..!] pergunta-me se acho que ele está preparado para a sua primeira experiência sexual.
Meu filho errou totalmente a questão.
Haveria que me perguntar mas era isto:
«Pai, achas que tu estás preparado para que eu tenha a minha primeira experiência sexual?!»
Meu filho errou totalmente a questão.
Haveria que me perguntar mas era isto:
«Pai, achas que tu estás preparado para que eu tenha a minha primeira experiência sexual?!»
após contar 3 míseros "gosto" num texto absolutamente genial
o parco número de "gostos" que merecem os meus textos mais brilhantes no facebook ilustra bem a frase de cristo: «muitos são os chamados, mas poucos os eleitos»
terça-feira, agosto 23, 2011
não sei se pode chamar-se-lhe teimosia...
Daisy faz tudo o que a mãe diz - mas, em geral, só quando está com o pai; e faz tudo o que o pai diz, mas nunca quando está com este, e sim quando está com a mãe.
Mãe e pai de Daisy são suficientemente diferentes um do outro para que isso seja, por vezes, muito complicado...
Mãe e pai de Daisy são suficientemente diferentes um do outro para que isso seja, por vezes, muito complicado...
terça-feira, agosto 16, 2011
sim, bem sei
Citando Millôr Fernandes, um cara absolutamente genial:
«Quando um político grita que outro político engana o povo, você preste atenção: é impossível ele ocultar completamente um leve traço de inveja»
«Quando um político grita que outro político engana o povo, você preste atenção: é impossível ele ocultar completamente um leve traço de inveja»
domingo, agosto 14, 2011
a importância dos pormenores
Suponho que nunca antes se pensou nisto.
Eu sei que a cor vermelha não é a verdadeira causa da reacção dos touros. Mas não está provado que não seja provocadora de lobos.
Por que raio é que uma menina que quer passar despercebida ao lobo da floresta, levando o lanche à sua avozinha, sozinha, por aqueles caminhos perigosos, haveria de se vestir com um capuchinho Vermelho!? E logo vermelho, uma cor de tão eróticas conotações. Que pouca-vergonha!
A menina era menor? Então e a mãe? Não queria saber de nada disso, mandou-a dali para fora [se calhar para receber um homem em casa], não controlava o que a filha vestia, e, depois, que esperava...?
Há outra coisa que a história não revela explicitamente, mas é fácil reduzir a duas possibilidades.
Uma avó não pode ser confundida com um lobo mau. A não ser que:
a) a menina fosse mais do que míope, quase cega,
ou
b) a avó fosse muito feia (e peluda...)
Não me agradeçam. Fico satisfeito por ter podido lançar uma nova luz sobre pormenores que, pelos vistos, preferem esconder-nos
Eu sei que a cor vermelha não é a verdadeira causa da reacção dos touros. Mas não está provado que não seja provocadora de lobos.
Por que raio é que uma menina que quer passar despercebida ao lobo da floresta, levando o lanche à sua avozinha, sozinha, por aqueles caminhos perigosos, haveria de se vestir com um capuchinho Vermelho!? E logo vermelho, uma cor de tão eróticas conotações. Que pouca-vergonha!
A menina era menor? Então e a mãe? Não queria saber de nada disso, mandou-a dali para fora [se calhar para receber um homem em casa], não controlava o que a filha vestia, e, depois, que esperava...?
Há outra coisa que a história não revela explicitamente, mas é fácil reduzir a duas possibilidades.
Uma avó não pode ser confundida com um lobo mau. A não ser que:
a) a menina fosse mais do que míope, quase cega,
ou
b) a avó fosse muito feia (e peluda...)
Não me agradeçam. Fico satisfeito por ter podido lançar uma nova luz sobre pormenores que, pelos vistos, preferem esconder-nos
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acreditem que não vos contam tudo
segunda-feira, agosto 08, 2011
aforismos kaosticos e patéticos... se não patetas...!
sinto que ontem encontrei a metáfora exacta para a vacuidade da vida: estava a tentar varrer as folhas do chão, num quintal ventoso...
quarta-feira, agosto 03, 2011
ANTÓNIO JOSÉ SEGURO: UMA BIOGRAFIA EXAUSTIVA
Não sei por que razão se tem especializado o PS em dar tiros no pé.
Ao princípio, foi Sócrates. E digo bem: «ao princípio», porque o líder se encarregou de fazer tábua rasa de todo o passado do partido, sobretudo no que, nesse passado, cheirava a esquerda.
Sócrates foi, portanto, como um novo princípio do partido - princípio que, por sinal, era quase o fim do PS.
Neste segundo momento, enquanto Sócrates foi um instantinho a Paris estudar o antigo Sócrates, o partido teve de se decidir entre duas figuras bizarras: Francisco de Assis seria a «continuidade»: em muito mais feio, sempre com a barba por fazer e um horroroso tique no ombro. Despacharam-no, ainda bem.
Restava Seguro. Lamento que o PS fosse, no fundo, chamado a escolher o mal menor. Porque há que não esquecer: o mal menor é sempre, e apesar de tudo, um mal.
Seguro é um «apparatchick». Nunca deu aulas, nem lavou pratos, nem se dedicou ao jornalismo. Não creio que, na adolescência, tenha participado, ao menos, em «trabalho de férias para jovens». Suponho que nunca estudou. Enfiou-se na Juventude do PS e, adequando-se rapidamente às estruturas do aparelho, lá foi percorrendo o seu caminho, vagarosa e prudentemente, sem arremedos nem fantasia, sem riscos nem coragem, sem palavras que se lhe notassem. Esperando, só. Esperando que se chegasse a um ponto em que já não sobejasse mais ninguém para ser escolhido. Faz lembrar um pouco o Pacheco, aquela adorável figura de Eça de Queirós, que de tal modo se mantinha silencioso, que foi gerando, em torno de si, expectativas que o guindavam sempre para mais alto. Pacheco tinha uma testa que falava por si. «É a testa de um pensador!»; Seguro tem aqueles olhos de cão magoado. E, precisamente, fala de afectos e de mudança. Tem tudo para ser um líder vitorioso: sobretudo, a mais total e absoluta ausência de ideias.
Ao princípio, foi Sócrates. E digo bem: «ao princípio», porque o líder se encarregou de fazer tábua rasa de todo o passado do partido, sobretudo no que, nesse passado, cheirava a esquerda.
Sócrates foi, portanto, como um novo princípio do partido - princípio que, por sinal, era quase o fim do PS.
Neste segundo momento, enquanto Sócrates foi um instantinho a Paris estudar o antigo Sócrates, o partido teve de se decidir entre duas figuras bizarras: Francisco de Assis seria a «continuidade»: em muito mais feio, sempre com a barba por fazer e um horroroso tique no ombro. Despacharam-no, ainda bem.
Restava Seguro. Lamento que o PS fosse, no fundo, chamado a escolher o mal menor. Porque há que não esquecer: o mal menor é sempre, e apesar de tudo, um mal.
Seguro é um «apparatchick». Nunca deu aulas, nem lavou pratos, nem se dedicou ao jornalismo. Não creio que, na adolescência, tenha participado, ao menos, em «trabalho de férias para jovens». Suponho que nunca estudou. Enfiou-se na Juventude do PS e, adequando-se rapidamente às estruturas do aparelho, lá foi percorrendo o seu caminho, vagarosa e prudentemente, sem arremedos nem fantasia, sem riscos nem coragem, sem palavras que se lhe notassem. Esperando, só. Esperando que se chegasse a um ponto em que já não sobejasse mais ninguém para ser escolhido. Faz lembrar um pouco o Pacheco, aquela adorável figura de Eça de Queirós, que de tal modo se mantinha silencioso, que foi gerando, em torno de si, expectativas que o guindavam sempre para mais alto. Pacheco tinha uma testa que falava por si. «É a testa de um pensador!»; Seguro tem aqueles olhos de cão magoado. E, precisamente, fala de afectos e de mudança. Tem tudo para ser um líder vitorioso: sobretudo, a mais total e absoluta ausência de ideias.
A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL ANTES DE ESTAR NA MODA
Há séculos, antes, portanto, de se inventar a designação «inteligência emocional», e de se lhe ter definido uma área fundamental no universo da psicologia, e de se terem desatado a escrever tratados acerca da questão, o velho Kant já tinha esgotado o assunto. Para ele não se tratava de um problema «psicológico» nem «emocional», mas de um problema «moral»: sintetizou-o num desígnio, sob uma fórmula simples, que cito de memória: «saber sempre colocar-se no lugar do outro».
terça-feira, agosto 02, 2011
e quando a pior das hipóteses, a que não se prevê, é que se realiza?
Passo estes dias sozinho em casa com meu filho.
Entretanto, meu primo esteve em Portugal para umas curtas férias. Combinámos que ele e a irmã iam, à noite, chez moi tomar um copo.
Como sou um péssimo cozinheiro e ando com o dinheiro contado, gaguejei ao telemóvel que viessem jantados - numa tremenda prova da má-educação a que o desespero pode levar as pessoas. [Não conseguia imaginar-me cozinhando uma refeição aceitável para receber convidados, nem podia gastar demasiado em comida feita: como raio chega um tipo aos cinquenta e tal anos sabendo pouco mais do que grelhar um ovo, se é o que se faz ao ovo...?]
Ficou claro entre nós: «Vamos então para uns copos», serenou-me ele.
Fui com o meu filho ao supermercado comprar umas coizecas para nós dois: um par de espetadas para cada um, que acompanharíamos despretensiosamente com batatas fritas de pacote. [E que pai alimenta assim o filho pelo qual fica responsável?]
Mas a história não conclui aqui.
A minha tia refaz-se de uma operação. Primo e mana visitaram-na, falaram-lhe acerca da combinação feita comigo. Ela não terá percebido bem os pormenores. Quis facilitar-me certamente a vida: telefonou para dizer que, então, o meu primo levaria qualquer coisa para comermos em minha casa. Pareceu-me uma complicação [comida a derramar-se durante a viagem deles, carro ficando com cheiro de alimentos...]
Disse-lhe que não, que eu e Duarte já estávamos a tratar das compras, íamos só tasquinhar, primo & prima que se desenrascassem e aparecessem, como inicialmente planeado, «só para uns copos».
Eis o fim da história: os primos chegam a minha casa pouco depois, cheios de fome, para jantar e sem trazer nada. Porque, para complicar, o que a tia compreendera é que eu estava já a tratar das compras. E disse ela ao meu primo: «Não compres nada, que o rapaz até fica ofendido, diz que está já a tratar de compras. Deve estar a preparar-vos cá um jantar...»
«Mas ele tinha dito que não havia jantar...»
«Ai, isso não sei. Se calhar mudou de ideias.»
«Mas então, nem levo uma garrafa de vinho?»
«Nada, nada, coitado. Ele quer preparar tudo...»
Inútil acrescentar que, quando os primos chegaram, impulsionados pela fome e uma certa curiosidade relativamente ao que lhes «ia preparar», meu filho e eu já tínhamos devorado as espetadas - e as espetadas eram rigorosamente tudo o que havia em casa para comer...
Entretanto, meu primo esteve em Portugal para umas curtas férias. Combinámos que ele e a irmã iam, à noite, chez moi tomar um copo.
Como sou um péssimo cozinheiro e ando com o dinheiro contado, gaguejei ao telemóvel que viessem jantados - numa tremenda prova da má-educação a que o desespero pode levar as pessoas. [Não conseguia imaginar-me cozinhando uma refeição aceitável para receber convidados, nem podia gastar demasiado em comida feita: como raio chega um tipo aos cinquenta e tal anos sabendo pouco mais do que grelhar um ovo, se é o que se faz ao ovo...?]
Ficou claro entre nós: «Vamos então para uns copos», serenou-me ele.
Fui com o meu filho ao supermercado comprar umas coizecas para nós dois: um par de espetadas para cada um, que acompanharíamos despretensiosamente com batatas fritas de pacote. [E que pai alimenta assim o filho pelo qual fica responsável?]
Mas a história não conclui aqui.
A minha tia refaz-se de uma operação. Primo e mana visitaram-na, falaram-lhe acerca da combinação feita comigo. Ela não terá percebido bem os pormenores. Quis facilitar-me certamente a vida: telefonou para dizer que, então, o meu primo levaria qualquer coisa para comermos em minha casa. Pareceu-me uma complicação [comida a derramar-se durante a viagem deles, carro ficando com cheiro de alimentos...]
Disse-lhe que não, que eu e Duarte já estávamos a tratar das compras, íamos só tasquinhar, primo & prima que se desenrascassem e aparecessem, como inicialmente planeado, «só para uns copos».
Eis o fim da história: os primos chegam a minha casa pouco depois, cheios de fome, para jantar e sem trazer nada. Porque, para complicar, o que a tia compreendera é que eu estava já a tratar das compras. E disse ela ao meu primo: «Não compres nada, que o rapaz até fica ofendido, diz que está já a tratar de compras. Deve estar a preparar-vos cá um jantar...»
«Mas ele tinha dito que não havia jantar...»
«Ai, isso não sei. Se calhar mudou de ideias.»
«Mas então, nem levo uma garrafa de vinho?»
«Nada, nada, coitado. Ele quer preparar tudo...»
Inútil acrescentar que, quando os primos chegaram, impulsionados pela fome e uma certa curiosidade relativamente ao que lhes «ia preparar», meu filho e eu já tínhamos devorado as espetadas - e as espetadas eram rigorosamente tudo o que havia em casa para comer...
LÍNGUAS DE BACALHAU
Eu nem sequer sabia que o bacalhau tivesse língua. Para quê? Ele fala? Lambe?
Mas de uma conversa que tive, há dias, com um género de especialista, retirei a ideia de que há um petisco verdadeiramente sublime: línguas de bacalhau!
Curiosamente, segundo o meu primo - a quem, depois, quis convencer da magnificência deste prato - criei uma estranha mitologia em torno das ditas «línguas». Como o especialista me dissesse que se tratava de um alimento excessivamente gordo, brutal para o fígado, e que ele próprio adorava mas evitava, não comendo senão uma ou duas vezes por ano, a ideia que eu construí foi a de que seria um pitéu altamente perigoso.
Um prato único, mas com um terrível poder bélico. De provar e de fugir. De comer uma vez na vida, como se nenhuma vida pudesse considerar-se completa sem essa experiência, mas tendo o cuidado de se não ganhar o vício, nem sequer o hábito, sob pena de perder de uma vez a referida vida.
E, portanto, guardo-me para esse momento. A medo. Tentando ser digno dele, rezando para que me não mate. Um dia provarei as línguas de bacalhau. E depois, poderei morrer - mas espero que não logo, e espero que não disso...
Mas de uma conversa que tive, há dias, com um género de especialista, retirei a ideia de que há um petisco verdadeiramente sublime: línguas de bacalhau!
Curiosamente, segundo o meu primo - a quem, depois, quis convencer da magnificência deste prato - criei uma estranha mitologia em torno das ditas «línguas». Como o especialista me dissesse que se tratava de um alimento excessivamente gordo, brutal para o fígado, e que ele próprio adorava mas evitava, não comendo senão uma ou duas vezes por ano, a ideia que eu construí foi a de que seria um pitéu altamente perigoso.
Um prato único, mas com um terrível poder bélico. De provar e de fugir. De comer uma vez na vida, como se nenhuma vida pudesse considerar-se completa sem essa experiência, mas tendo o cuidado de se não ganhar o vício, nem sequer o hábito, sob pena de perder de uma vez a referida vida.
E, portanto, guardo-me para esse momento. A medo. Tentando ser digno dele, rezando para que me não mate. Um dia provarei as línguas de bacalhau. E depois, poderei morrer - mas espero que não logo, e espero que não disso...
segunda-feira, julho 18, 2011
PIKATCHU!?
Minha filha está numa idade curiosa, em que ouve tudo, tudo absorve - e nada compreende, mas reproduz o que ouviu com a maior das naturalidades. Os resultados são imprevisíveis.
Hoje à noite, quando tentava adormecê-la, perguntou-me:
«Pai, o Pikatchu não evoluiu, pois não?»
Não sei sequer se "Pikatchu" se escreve assim.
Como imaginam, nem percebo esta pergunta, quanto mais ser capaz de uma resposta.
Alguém me diz se o Pikatchu evoluiu, se não?
Alguém me diz, pelo menos, quem é o Pikatchu?
Hoje à noite, quando tentava adormecê-la, perguntou-me:
«Pai, o Pikatchu não evoluiu, pois não?»
Não sei sequer se "Pikatchu" se escreve assim.
Como imaginam, nem percebo esta pergunta, quanto mais ser capaz de uma resposta.
Alguém me diz se o Pikatchu evoluiu, se não?
Alguém me diz, pelo menos, quem é o Pikatchu?
quinta-feira, junho 30, 2011
DE ANTI-EDUQUÊS A MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Em teoria, não há nada de absolutamente disparatado no pensamento de Nuno Crato acerca dos exames.
Em teoria significa: se abstrairmos dos detalhes; se nos colocarmos num mundo puro, de formas platónicas.
O que ele diz é, afinal, isto: os exames são uma entidade externa, a única, aliás, capaz de avaliar friamente os alunos; sem se deixar condoer pelos seus olhos meigos, ou tristes, nem por situações familiares adversas de onde provenham. Ou o aluno sabe, ou o aluno não aprendeu - independentemente da morte dos familiares e independentemente, até, das suas «atitudes».
O corolário desta teoria seria, por sua vez, que os professores devem ser avaliados consoante os resultados dos seus alunos nos exames.
Platonicamente, tudo isto faz sentido.
Se começarmos a introduzir palhinhas e pedrinhas, ou seja, se principiarmos a introduzir a realidade, o sistema falha.
Em primeiro lugar, porque não considera o progresso do aluno. Isto é «eduquês»? Não creio. A palavra "progressão" é suspeita, por isso mesmo a evitei. O meu argumento é elementar. Se um aluno começa por "níveis" (níveis: outra cedência, perdoem-ma) muito baixos, digamos, cinco ou seis, e, porque se dedica e trabalha (evito "empenha"), melhora significativamente, suponhamos que para oito ou nove, parece-me claro que a evolução deste aluno merece ser valorizada - é mais importante que a de um aluno que se manteve no dezasseis, ou que passou de um dezasseis para um dezassete.
É evidente que o problema dos exames é o da sua cegueira. É o do que não podem ver nem ajuizar: o "sabe" ou "não sabe" que se traduz quantitativamente classifica só habilidades intelectuais e/ou de memorização. São elas importantes? É claro. São as únicas importantes? De modo nenhum, de modo nenhum. Por outro lado: «uma» prova será suficiente para demonstrar mesmo unicamente essas habilidades? De maneira nenhuma. Em «uma» prova, um exame, o aluno está nervoso, porventura mal dormido, preocupado e tenso. É irrelevante? Não é, não é...
É absolutamente certo, também, que um horizonte de exames transforma a escola numa gigantesca máquina de «preparação para exames». Com professores que evitam fazer aprofundamentos, ou ligações, ou relações, ou desvios - culturalmente interessantes, formativa e pedagogicamente fundamentais, mas irrelevantes do ponto de vista estrito da examinação final. Enterrei-me em «eduquês»? Os meus argumentos tresandam a isso? Talvez, mas, nesse caso, talvez tenha que ver com a parte mais saudável do eduquês.
Não desminto que sempre considerei Nuno Crato interessante. Mas temo que o ministro da educação seja menos interessante - e que se prepare para deitar fora vários bebés juntamente com a água do banho...
Em teoria significa: se abstrairmos dos detalhes; se nos colocarmos num mundo puro, de formas platónicas.
O que ele diz é, afinal, isto: os exames são uma entidade externa, a única, aliás, capaz de avaliar friamente os alunos; sem se deixar condoer pelos seus olhos meigos, ou tristes, nem por situações familiares adversas de onde provenham. Ou o aluno sabe, ou o aluno não aprendeu - independentemente da morte dos familiares e independentemente, até, das suas «atitudes».
O corolário desta teoria seria, por sua vez, que os professores devem ser avaliados consoante os resultados dos seus alunos nos exames.
Platonicamente, tudo isto faz sentido.
Se começarmos a introduzir palhinhas e pedrinhas, ou seja, se principiarmos a introduzir a realidade, o sistema falha.
Em primeiro lugar, porque não considera o progresso do aluno. Isto é «eduquês»? Não creio. A palavra "progressão" é suspeita, por isso mesmo a evitei. O meu argumento é elementar. Se um aluno começa por "níveis" (níveis: outra cedência, perdoem-ma) muito baixos, digamos, cinco ou seis, e, porque se dedica e trabalha (evito "empenha"), melhora significativamente, suponhamos que para oito ou nove, parece-me claro que a evolução deste aluno merece ser valorizada - é mais importante que a de um aluno que se manteve no dezasseis, ou que passou de um dezasseis para um dezassete.
É evidente que o problema dos exames é o da sua cegueira. É o do que não podem ver nem ajuizar: o "sabe" ou "não sabe" que se traduz quantitativamente classifica só habilidades intelectuais e/ou de memorização. São elas importantes? É claro. São as únicas importantes? De modo nenhum, de modo nenhum. Por outro lado: «uma» prova será suficiente para demonstrar mesmo unicamente essas habilidades? De maneira nenhuma. Em «uma» prova, um exame, o aluno está nervoso, porventura mal dormido, preocupado e tenso. É irrelevante? Não é, não é...
É absolutamente certo, também, que um horizonte de exames transforma a escola numa gigantesca máquina de «preparação para exames». Com professores que evitam fazer aprofundamentos, ou ligações, ou relações, ou desvios - culturalmente interessantes, formativa e pedagogicamente fundamentais, mas irrelevantes do ponto de vista estrito da examinação final. Enterrei-me em «eduquês»? Os meus argumentos tresandam a isso? Talvez, mas, nesse caso, talvez tenha que ver com a parte mais saudável do eduquês.
Não desminto que sempre considerei Nuno Crato interessante. Mas temo que o ministro da educação seja menos interessante - e que se prepare para deitar fora vários bebés juntamente com a água do banho...
sábado, junho 11, 2011
DICAS
No telejornal de ontem, José Alberto de Carvalho, com um fato engelhado, que se adaptava mal à sua postura de quem pede desculpa, falou-nos acerca de um imigrante astucioso que, pelo Norte acima ou abaixo, foi visitando diversas caixas multibanco: tinha um sistema de «clonagem» de cartões, que lhe possibilitou arrecadar uma quantia razoável. (Suponho que o que o senhor fazia era ajustar aos "multibancos" um dispositivo que lia o código do último cartão utilizado, de forma a que pudesse usá-lo a seguir).
O jornalista rematava a notícia dizendo que ia dar aos telespectadores algumas «dicas» (sim, juraria que empregou este termo), algumas «dicas para...»
Abri os ouvidos.
«... ensinar o que nunca se deve fazer, por forma a evitar ser vítima de...»
Suspirei. Que pena. Por um momento, cheguei a pensar que nos ia fornecer umas «dicas» para podermos clonar cartões...
O jornalista rematava a notícia dizendo que ia dar aos telespectadores algumas «dicas» (sim, juraria que empregou este termo), algumas «dicas para...»
Abri os ouvidos.
«... ensinar o que nunca se deve fazer, por forma a evitar ser vítima de...»
Suspirei. Que pena. Por um momento, cheguei a pensar que nos ia fornecer umas «dicas» para podermos clonar cartões...
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ao que um gajo se agarra em tempos de crise
domingo, junho 05, 2011
SURPREENDER-ME
Esta noite tive um sonho que me pôs obviamente em face do não-eu que há em mim, a parcela de mim que não corresponde ao meu padrão e, por isso, me surpreende.
Alucinante: primeiramente, tratou-se de um sonho em que mantive sempre a consciência de estar a sonhar; mas habitualmente, nesses sonhos em que o sonhador sabe estar sonhando, tudo é vago e difuso, quase como se se estivesse a um passo de acordar, ou como se não se estivesse verdadeiramente a dormir. Aqui, não. Era tudo muito nítido e consistente; lembro-me de passear por aqueles corredores apreciando-os devidamente, como alguém que visita os cenários de um estúdio e vai comentando, de si para si: «Sim senhor, sim senhor, muito bem, isto é exactamente como a realidade...»
Estava talvez numa universidade. Um pouco antiga: poderia ter sido construída a partir de um mosteiro. Tectos altos, abobadados, espaços amplos, colunas, escadarias; «isto é fantástico; nem parece um sonho, muito bem feito, muito bem feito». [Não, não estou a plagiar o filme Origem, estou a narrar o meu sonho].
Em baixo, numa espécie de cave, havia uma venda de livros e uma exposição de bonecos. Eram bonecos pequenos, não me recordo se de louça. Penso que não. Dois estavam numa prateleira, um deles de óculos dourados, com algum brilho, o outro de óculos de massa, muito grossos. Não tinham mais do que um palmo de altura, os bonecos.
Tenho noção de que olhei para os livros, os folheei, e pensei: «isto está tão bem feito, é tudo tão consistente e constante, que, se tornar a olhar para os bonecos, os encontro exactamente iguais ao que eram a última vez que os vi, com as mesmas cores, no mesmo sítio...»; e olhei mesmo a tempo de ver que os óculos negros do segundo boneco tinham passado a óculos dourados. Ri-me, como perante uma surpresa e uma boa partida, tornei a desviar os olhos, pensando: «e passado este instante de alucinação, volto a olhar e os óculos negros regressaram...»
Em vez de óculos, negros ou dourados, o boneco tinha agora cravado no rosto uns círculos estranhos, como instrumentos de tortura. Cravados, disse bem: pareciam círculos munidos de dentes que se espetavam na carne, para os fixar. [Como solução para alguém que perdesse frequentemente os seus óculos...]. Tornei a desviar, com uma ligeira angústia - os óculos negros não vão voltar...?
E acordei.
Alucinante: primeiramente, tratou-se de um sonho em que mantive sempre a consciência de estar a sonhar; mas habitualmente, nesses sonhos em que o sonhador sabe estar sonhando, tudo é vago e difuso, quase como se se estivesse a um passo de acordar, ou como se não se estivesse verdadeiramente a dormir. Aqui, não. Era tudo muito nítido e consistente; lembro-me de passear por aqueles corredores apreciando-os devidamente, como alguém que visita os cenários de um estúdio e vai comentando, de si para si: «Sim senhor, sim senhor, muito bem, isto é exactamente como a realidade...»
Estava talvez numa universidade. Um pouco antiga: poderia ter sido construída a partir de um mosteiro. Tectos altos, abobadados, espaços amplos, colunas, escadarias; «isto é fantástico; nem parece um sonho, muito bem feito, muito bem feito». [Não, não estou a plagiar o filme Origem, estou a narrar o meu sonho].
Em baixo, numa espécie de cave, havia uma venda de livros e uma exposição de bonecos. Eram bonecos pequenos, não me recordo se de louça. Penso que não. Dois estavam numa prateleira, um deles de óculos dourados, com algum brilho, o outro de óculos de massa, muito grossos. Não tinham mais do que um palmo de altura, os bonecos.
Tenho noção de que olhei para os livros, os folheei, e pensei: «isto está tão bem feito, é tudo tão consistente e constante, que, se tornar a olhar para os bonecos, os encontro exactamente iguais ao que eram a última vez que os vi, com as mesmas cores, no mesmo sítio...»; e olhei mesmo a tempo de ver que os óculos negros do segundo boneco tinham passado a óculos dourados. Ri-me, como perante uma surpresa e uma boa partida, tornei a desviar os olhos, pensando: «e passado este instante de alucinação, volto a olhar e os óculos negros regressaram...»
Em vez de óculos, negros ou dourados, o boneco tinha agora cravado no rosto uns círculos estranhos, como instrumentos de tortura. Cravados, disse bem: pareciam círculos munidos de dentes que se espetavam na carne, para os fixar. [Como solução para alguém que perdesse frequentemente os seus óculos...]. Tornei a desviar, com uma ligeira angústia - os óculos negros não vão voltar...?
E acordei.
sábado, junho 04, 2011
O ELOGIO DA MEDIOCRIDADE
Sou um tipo terrível. Sei-o perfeitamente. A minha visão sarcástica perturba um pouco; o meu prazer pela observação destrutiva e o meu gosto pelo ridículo raramente são bem-vindos. O sentido de humor que aprecio (e a que recorro implacavelmente) torna-me execrável. E delicioso.
Tentando divulgar, por todos os meios, o romance que escrevi, principiei a colaborar num blogue colectivo, que uma livraria disponibiliza aos autores que se auto-editam. Estou atento às reacções do público. Regresso continuamente ao computador, procuro na página do facebook, associada ao blogue, as reacções dos leitores; conto os «gosto». E é fantástico: um conto policial que tenho vindo a construir, episódio após episódio, e cujas personagens são animais, uma espécie de fábula negra, em suma, raramente consegue 5 ou 6 «gosto». A ideia é original, a fábula é culta: pisca o olho a Blacksad, ao detective Pepe Carvalho, que vai ensaiando receitas culinárias enquanto medita nos crimes, ao imortal Hercule Poirot. Tem humor, tem tensão, mistério. Inútil. 5 «gosto»; «6», na melhor das hipóteses.
Em contrapartida - desculpem-me a franqueza -, escreve no mesmo blogue um jovem, autor de certa saga nórdica, com deusas e deuses, cavalos e talismãs mitológicos. Ele faz desenhos: ora a deusa de que mais gosta, ora o guerreiro temível. A ideia é requentada, desculpem-me, desculpem-me, desculpem-me, mas, sobretudo, este jovem é um desesperante assassino da língua portuguesa. Um Odin cujo martelo se volta sobretudo contra a gramática. Custa ler, não tem interesse, é pesado, previsível - mas já o vi chegar aos 17 «gosto».
Ou então, o caso daquele senhor que se dedica ao que ele chama poesia. Sem sair do mesmo blogue. Ama, rima, associa a chuva ao choro. É paupérrimo. É de uma candura, de uma inocência, não tem talento, é verdade (não se pode ter tudo), mas tem tão boas intenções e uma sensibilidade quase divina (refiro-me à sensibilidade para o lugar comum). Talvez não tenha falado de paz, mas poderia. É o género. Pois não imaginam a catadupa de «gosto», os comentários que lhe garantem «lindo!» ou «que comovente», os :).
Entretanto, os meus episódios policiais prosseguem, entre as frases patéticas do poeta e a saga contra a língua portuguesa. Uma senhora escreve sobre uma menina e a grandeza do seu coração, e trás - dezenas de «gosto». Eu não tenho leitores, vá-se lá saber porquê. A ironia não pega, nem o sarcasmo, nem talvez a cultura. O lugar comum tem sempre leitores - satisfeitos consigo mesmos, prontos a premiar o medíocre. O raro não vinga.
É um post horroroso? Carregado de veneno e ressentimento? Eu sei. Eu sei. Eu sei. Era melhor não o ter escrito. Mas, já que o escrevi, por favor não o leiam.
Tentando divulgar, por todos os meios, o romance que escrevi, principiei a colaborar num blogue colectivo, que uma livraria disponibiliza aos autores que se auto-editam. Estou atento às reacções do público. Regresso continuamente ao computador, procuro na página do facebook, associada ao blogue, as reacções dos leitores; conto os «gosto». E é fantástico: um conto policial que tenho vindo a construir, episódio após episódio, e cujas personagens são animais, uma espécie de fábula negra, em suma, raramente consegue 5 ou 6 «gosto». A ideia é original, a fábula é culta: pisca o olho a Blacksad, ao detective Pepe Carvalho, que vai ensaiando receitas culinárias enquanto medita nos crimes, ao imortal Hercule Poirot. Tem humor, tem tensão, mistério. Inútil. 5 «gosto»; «6», na melhor das hipóteses.
Em contrapartida - desculpem-me a franqueza -, escreve no mesmo blogue um jovem, autor de certa saga nórdica, com deusas e deuses, cavalos e talismãs mitológicos. Ele faz desenhos: ora a deusa de que mais gosta, ora o guerreiro temível. A ideia é requentada, desculpem-me, desculpem-me, desculpem-me, mas, sobretudo, este jovem é um desesperante assassino da língua portuguesa. Um Odin cujo martelo se volta sobretudo contra a gramática. Custa ler, não tem interesse, é pesado, previsível - mas já o vi chegar aos 17 «gosto».
Ou então, o caso daquele senhor que se dedica ao que ele chama poesia. Sem sair do mesmo blogue. Ama, rima, associa a chuva ao choro. É paupérrimo. É de uma candura, de uma inocência, não tem talento, é verdade (não se pode ter tudo), mas tem tão boas intenções e uma sensibilidade quase divina (refiro-me à sensibilidade para o lugar comum). Talvez não tenha falado de paz, mas poderia. É o género. Pois não imaginam a catadupa de «gosto», os comentários que lhe garantem «lindo!» ou «que comovente», os :).
Entretanto, os meus episódios policiais prosseguem, entre as frases patéticas do poeta e a saga contra a língua portuguesa. Uma senhora escreve sobre uma menina e a grandeza do seu coração, e trás - dezenas de «gosto». Eu não tenho leitores, vá-se lá saber porquê. A ironia não pega, nem o sarcasmo, nem talvez a cultura. O lugar comum tem sempre leitores - satisfeitos consigo mesmos, prontos a premiar o medíocre. O raro não vinga.
É um post horroroso? Carregado de veneno e ressentimento? Eu sei. Eu sei. Eu sei. Era melhor não o ter escrito. Mas, já que o escrevi, por favor não o leiam.
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