segunda-feira, agosto 30, 2010

AMERICA'S NOTEBOOK

1. Passe o pretensiosismo do nome, o meu objectivo é extremamente simples; longe de fazer teoria acerca dos Estados Unidos da América, o que retenho é somente o conjunto de surpresas, ideias feitas que se desfizeram, o que observei aqui, o que me chocou ali. Nada de muito fundamentado. Mas, pelo menos a mim, estas descobertas mínimas ensinam-me a penetrar no país.

2. Meu primo, que é o meu Virgílio na visita aos círculos do inferno capitalista, diz-me que, aqui, se define a pobreza como a incapacidade para se manter mais do que um carro. É evidente que muitos americanos nem um automóvel possuem. E, contudo, é certo que vi passar um "homeless", vasculhando no lixo, longas e sujas barbas, roupa estafada... mas com um i-pod!

3. Tudo o que é bom e é mau converge nesta bizarra e contraditória Las Vegas, terra do prazer sem limites, como numa gigantesca Disneyworld para adultos. Luzes intensas, cores por todo o lado, ruído, gente, um grupo de chinesas histéricas numa despedida de solteiro, tipos mascarados de Elvis Presley, restaurantes italianos soberbos, hotéis temáticos (Treasure Island, Circus, Venician, oferecendo uma espectacular Veneza...), onde tudo é falso e, ao mesmo tempo, absolutamente real...

4. Falso porque se diria encenado, como num gigantesco cenário de papel; verdadeiro, porque, efectivamente, o mármore é mármore, a pedra é sólida, os fundamentos revelam-se firmes. (E, numa terceira abordagem, tudo é novamente falso, porque imita, reproduz, reconstitui...).

5. E diz-me, ao jantar, um americano interessante, mas muito contraditório, a que o meu primo me apresentou: "O facto é que, vendo o que quer que se veja da América, fica-se ainda longe de se conhecer a América. Porque qualquer ponto dos EUA é mais diferente de um outro ponto da América, do que, possivelmente, de um qualquer ponto da Europa..."

6. Sei que assim é. Viajando de Houston a Las Vegas, ou de Las Vegas (Nevada) até essas pequenas localidades, em torno dos canyons de Zion, no Estado de Utah, maioritariamente mormon, nada tem que ver com nada: mudamos certamente de paisagem, mas também de ética, mudamos de planeta, passamos de um universo para outro.

quinta-feira, agosto 12, 2010

EU, VERDADEIRO ÍCONE DA MORAL

O local é o infame Oeiras Parque, que já deito pelos olhos.
Sozinho com a Daisy, enquanto o irmão faz uma espécie de vida de jet-set, entre praia, cinema, festas-karaoke, e a mãe dos miúdos continua presa ao trabalho, opto, à hora do almoço, por repartir com ela uma lasanha.

Não o faço por razões financeiras. Poderia ser, mas não. Tão-só por motivos logísticos, se é que a palavra está bem escolhida. Não posso carregar para a mesa dois pratos, que não cabem num tabuleiro, nem dois tabuleiros com um prato cada um. Por outro lado, custa-me deixar a garota sozinha numa mesa, já a comer, enquanto procuro a minha própria refeição. De modo que trago dois pares de talheres, divido a lasanha no prato, que é imensa, Tu comes isto, eu como aquilo!

Faço-o sempre (não é a primeira vez) com alguma vergonha. Não gostaria que me tomassem pelo rei dos somíticos, nem que achassem que roubo restos ao prato da minha filha.

Estamos precisamente ao lado de uma família: pai de braços peludos e óculos à moda, mãe com túnica de praia e chinelos, olhos verdes, miúda de uns dez anos, gorda, de caracóis; percebo, embaraçadíssimo, que seguem a minha operação: logo que a Daisy choraminga «Nã qué maij», deslizo o prato para o pé de mim, desembrulho os meus talheres, manjo, com alguma fome que a minha voracidade deve revelar.

Mas, nessa mesa ao lado, ocorre uma «situação»: a menina está com um prato cheio de bife, batatas fritas, arroz. Não come. E vejo, com estranheza, que os pais é que se envergonham perante mim, perante o meu espírito de economia. Estão furiosos com a filha, que já afirmou, peremptória, que não lhe apetecia mais. Devem estar a pensar «Isto é estragar comida», «Os meninos de Àfrica», «Mimada», esse género de coisas.
- És pior que os pequenitos!, atira-lhe a mãe, num mal contido acesso de fúria.
- Eu não sabia que era assim - lamenta-se a petiza. - Se eu soubesse que o prato era assim, não tinha pedido!

A mãe não sabe o que há-de fazer. O pai finge desaparecer. Estou, pela minha simples existência em torno de um prato de lasanha, representando uma lição de moral. Fico sem saber como me comportar.
Quase me apetecia, para resolver o problema, sentar-me à mesa deles. E, como alguns prisioneiros, no refeitório, perguntar à gorda:
- Não vais comer isso...? Importas-te?
Atirando-me imediatamente ao seu bife com batas fritas...

terça-feira, agosto 10, 2010

ACERCA DE ASSUMIR OU NÃO ASSUMIR: ISTO SOU EU A PENSAR

Eis uma confissão inaceitável do ponto de vista de quem oficializa o que se deve aceitar:
Se eu fosse gay, nunca me assumiria. Por vergonha? Não! Unicamente por não tolerar que um pormenor, no conjunto do que sou, condicionasse o meu modo de olhar o mundo e o modo de os outros me olharem.

Respondem-me: «Aí é que está! Só um não-homossexual poderia considerar a homossexualidade um pormenor. Na sociedade em que vivemos, ser homossexual está longe de constituir meramente um pormenor!»

E, então, reformulo. Sem prejuízo da coragem que penso que essa assunção requer, não me assumiria porque não é tolerável que um pormenor, no conjunto do que sou, fosse tratado como mais do que um pormenor no conjunto do que sou.

Mas isto sou eu a pensar fora da minha realidade, não sou eu a dar lições.

terça-feira, agosto 03, 2010

MAIS UM DISPARATE ANUNCIADO

A mim, não parece estranho o clamor que se tem feito ouvir como consequência da anunciada intenção, da Ministra de Educação, de chumbar os chumbos dos alunos; parece-me estranho, pelo contrário, que as associações de pais e encarregados de educação fossem tão rápidas na aclamação da ideia. Que fossem tão previsíveis! Como se, de facto, uma associação de pais não ousasse considerar, e aprovar ou desaprovar, a não ser pela medida do que apetece aos miúdos e do seu aparente interesse imediato.

Não é que eu faça muito gosto no chumbo. Não é que, bem vistas as coisas, não poderia ser preferível um sistema onde os alunos não tivessem de chumbar. Pessoalmente, como professor, odeio auxiliar na decisão de que um aluno tenha de repetir o ano. Como eu próprio, enquanto aluno, chumbei umas quantas vezes, tenho conhecimento, por dentro, do que isso significa de porrada na autoestima (embora, como dizia Bénard da Costa, também eu seja do tempo em que essa palavra não tinha sido inventada). Mas, dito isto, o problema é o da irresponsabilidade de uma ideia que surge sem se perceberem as consequências e - tanto quanto se diz - por razões fundamentalmente económicas.

A grande questão é a de saber se um aluno está preparado para "passar de ano"; se aprendeu e esgotou o que é importante, nesse ano, como base para futuras aprendizagens. E, tal como o vejo, não há volta a dar a este busílis. É claro que se o aluno transita sem essa aquisição de "saberes" prévios, sem o minimum indispensável, não vai poder dar sentido ao conjunto de novos "saberes" com que terá de lidar. A não ser - ah, a não ser que se façam diferentes turmas para um universo de transitados: turmas de meninos mais lentos, turmas de alunos que, tendo passado, de facto nada sabem, turmas de meninos incompetentes (ou seja: sem as necessárias "competências" adquiridas) e, depois, turmas de alunos mais velozes, mais sábios e mais competentes...

É já um pouco isso, de resto, que se passa - em Inglaterra ou nos EUA -, ao nível das escolas e das universidades. Ninguém fica de fora. Mas nem todos têm habilitação para frequentar as melhores escolas e universidades. Multiplicam-se escolas e universidades para os fracos, para os que não sabem, para os que não compreendem, escolas e universidades que, obviamente, mais tarde, no curriculum dos que por lá passaram, não são nenhum convite a que os contratem...

A pura ideia de fazer, por um passe de magia, desaparecer a reprovação é uma fraude. Uma dessas ideias politicamente correctas, aparentemente para democratizar o sistema e oferecer as mesmas oportunidades a todos, que, na prática, na verdade, dão diferentes oportunidades (só aparentemente iguais) ao universo inteiro. É uma ideia que agrada às crianças e aos pais e permite poupar algum dinheiro, portanto, é claro, está destinada a vencer. É sempre tão mais fácil proporcionar satisfação a curto prazo, mesmo que seja à custa da formação dos jovens do país...

segunda-feira, agosto 02, 2010

SOBRE O CASAMENTO GAY E SOBRE NÃO QUERER CASAR

Estou totalmente a favor do casamento gay: compreendo que se trata da necessidade e da possibilidade de se institucionalizar a relação, de forma a que, depois de anos de comunhão de bens, nenhum dos dois seja penalizado ou traído por famílias invejosas, que nunca aceitaram o "companheiro" do seu menino; e, sobretudo, compreendo a razão da semântica: tratando-se de assumir perante a sociedade uma relação, então por que haveria de se inventar um outro nome, como se "casamento" fosse demasiado sério e demasiado digno para eles?

Não deixa de perturbar, porém. Para mim, que não sou gay e me recusei sempre casar, porque achava a oficialização do nó um gesto fútil e burguês; que o não fiz, consciente e deliberadamente, quando podia ter dado, com esse passo, um enorme prazer à família, é estranho verificar que a atitude revolucionária seja, agora, um certo tipo de casamento.

domingo, agosto 01, 2010

OS PRIMEIROS MINUTOS DE ROBINSON CRUSUOÉ NA ILHA

Eis que lenta, lenta, lenta, lentamente desperta a consciência de Robinson Crusuoé.
Parte do rosto está mergulhado em água; doem-lhe as pernas, os braços: o que teve de nadar para chegar ali, ao princípio da ilha, àquela areia húmida, àquelas rochas aguçadas!
Robinson sabe, ou calcula mas esse cálculo é como um íntimo saber, que ninguém mais sobreviveu no naufrágio.
Soergue-se, vagaroso. Tudo são músculos duros, presos, ineficazes. Olha o céu imenso, de um imenso azul, riscado de pássaros.

Põe-se de pé, obsreva em redor. É quando, pela primeira vez, lhe passa pela cabeça que vai ter de viver sozinho, como um divorciado, recolher despojos, como um trapeiro - despojos do navio naufragado que as ondas lhe entregam. Há madeiras, há ferros, há utensílios. Começa a pensar num universo que terá de construir a partir de nada, ou de quase nada, começa a pensar numa casa que terá de erguer do zero, que o proteja, que o anime, que o abrigue.

Aproxima-se, preso de uma súbita euforia, da costa aonde continuam a chegar materiais vindos do barco afundado. Tenho de me animar, pensa. tenho de trabalhar, pensa.

E, repentinamente, percebe.

«Oh, caraças, estou tramado! Isto vai ter de ser tudo montado ao calhas», soluça, «é tão difícil, nunca se consegue à primeira», chora, infeliz, adivinhando o trabalho que lhe vão dar as peças que lhe chegam à costa, «Nunca conseguirei», chora ele, «Oh, que horror!»

Que trabalho insano, que dias duros, que dificuldades impossíveis...

«Esta merda é toda do IKEA!!!»

sábado, julho 31, 2010

DAISY, OS DUENDES, OS PORQUÊS.

Daisy começou bem, com uma pergunta que me pareceu particularmente interessante:
DAISY: Pai, por que é que os duendes do Noddy são maus?
EU: Porque gostam de fazer partidas.
DAISY: Porquê?
EU: Porque se divertem assim...
DAISY: Porquê?
EU: Porque ninguém gosta deles.
DAISY: Porquê?

Já percebi que não tenho saída. Está, flagrantemente, na fase dos «porquês?». Porquê? Não sei; sei que estou farto. Mas sinto-me inteligente. Opto por uma solução que me parece engenhosa, ehehe.

EU: Daisy, os duendes são maus porque as mães deles eram más.
DAISY: Porquê?
EU: Porque as mães das mães deles eram más.
DAISY: Porquê?
EU: Porque as mães das mães das mães deles eram más.

Divirto-me, mas ela percebeu que não saímos disto. Zanga-se. Inicia uma birra. Pede-me que não continue a responder com as mães.

EU: Sim, Daisy. Então, deixa-me explicar de outra maneira. Isto não tem que ver com as mães, de facto. Os duendes do Noddy são maus porque os pais deles eram maus.
DAISY: Porquê?
EU: Porque os pais dos pais deles eram maus.

Daisy percebe imediatamente o meu caminho. Grita. Já estou irritado.

EU: Pronto. Daisy. Então vou-te dar uma resposta definitiva. Mas não podes perguntar-me porquê. Ficas-te com ela. É isto: os duendes do Noddy são maus porque todos os duendes são maus. Porque é da natureza dos duendes serem maus.
DAISY [furiosa]: Mas isso é uma grande mentira, pai. Os duendes do Pai Natal não são maus. São bons. E ajudam o Pai Natal a dar prendas a todos os meninos. Não são maus, são bons.

Calo-me. E calo-me. E calo-me.

ANTÓNIO FEIO


Era bom e generoso. Como actor, foi capaz de fazer coisas muito más, valha a verdade, mas também do melhor. Os diálogos que mantinha com José Pedro Gomes, como Zezé e Toni, dois pintas típicos, cheios de filosofia barata e espírito de observação contundente, eram verdadeiramente impagáveis. E nunca esqueçamos que Feio, na companhia do mesmo José Pedro Gomes, se abalançou a representar O Que Diz Molero, de Dinis Machado, obra difícil e maior da Literatura Portuguesa.

Agarrava-se à vida com unhas e dentes, uma esperança desesperada, uma obstinação e uma teimosia que lhe eram próprias. Não ganhou.

O país, que não só o perdeu como, ainda por cima, continua com Sócrates e Queirós, está deprimidíssimo.

quinta-feira, julho 22, 2010

O CONCURSO DE VERÃO

DN e JN estão ambos publicando, em conjunto, às 3ªs, 5ªs, sábados e domingos, aquilo a que chamam um conjunto de Autores Clássicos da Literatura.

Poderíamos dizer que, simultaneamente, a lista desses autores seleccionados, e de que vão editando obras-primas, tem de ser encarada como um teste, um passatempo, qualquer coisa ao género de «Descubra o Intruso» ou «Que Objecto Não Pertence a esta Série?».

Poderia explicar melhor, mas basta-me apresentar a série:

Lewis Carroll
Oscar Wilde
Eduardo Pitta
Prosper Mérimée
Machado de Assis
Victor Hugo
Carlos Quiroga
Patrick Süskind
Walter Scott
Eça de Queirós
R. L. Stevenson
Marguerite Duras
Leão Tolstoi
Alexandre Herculano
Enid Meadowcroft
Sheridan Le Fanu
Joseph Conrad
Fialho de Almeida
Herman Broch
Arthur Schnitzler
Fiodor Dostoievski
Antoine Saint-Exupéry
D.H. Lawrence
Edgar Allan Poe
Jorge Luís Borges
Henry James
Bram Stoker.

Se quisermos excluir à partida os autores estrangeiros, ficamos com os seguintes portugueses: Eduardo Pitta, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Fialho de Almeida. O único contemporâneo ou, pelo menos, o autor vivo que consta é, portanto, um senhor chamado Eduardo Pitta. Não Gonçalo M. Tavares (que poderia já ser considerado um «clássico»), não José Luís Peixoto - ou, entre os mais antigos, Mário de Carvalho. (Já não falo de Agustina). Não: Eduardo Pitta. Por que diabo!? A que propósito!? Segundo que critério? Com que argumento!?

Fico indignado. Tento explicar, ao meu filho, a razão desta indignação. «Não vejo outra explicação, senão que o homem tenha sido o próprio responsável pela lista, ou seja amigo ou amante de alguém...»

Meu filho ainda ensaia: «Mas, pai, não pode ser uma questão de gosto? Tu não gostares, mas o senhor que decidiu, achar que é muito bom, tal como tu admitirias o Gonçalo Tavares, que o senhor pode achar que é muito mau?»

Como explicar-lhe que, se o critério é uma lista de "clássicos", Eduardo Pitta não cabe de jeito nenhum, por muitas voltas que se dêem, por critérios dúbios que se inventem? Como explicar-lhe que não faz sentido juntar-se, numa lista de "clássicos" da Literatura, Eduardo Pitta e, por exemplo, Victor Hugo?

«Victor Hugo Cardinalli?», pergunta-me o miúdo. «O dos circos? Olha, eu nem sabia que esse escrevia "clássicos"...»

E eu, frustrado e vencido, calo-me. Calo-me!

quarta-feira, julho 21, 2010

MENTIROSOS

Haroldo P. Frutuoso publicou, em Brasília, nos anos oitenta, uma dissertação académica, na área da sociologia (mas com inescapáveis implicações psicológicas e éticas), acerca da mentira.

A tese é comprometedora. H. P. Frutuoso pega numa afirmação de Kant, segundo a qual «a mentira nunca poderia ser o imperativo categórico», porque uma sociedade «guiada pela mentira», pelo «espírito da mentira», pela aceitação do mentir, como lei absoluta, rapidamente soçobraria. Nunca, numa tal sociedade, se poderia crer numa promessa ou num juramento; nenhum contrato faria sentido ou teria o menor valor. Pega nessa afirmação e inverte-a, perguntando-se: como poderia uma sociedade - qualquer sociedade -, pelo contrário, sobreviver sem a mentira?

A tese faz pensar. Haroldo não defende, naturalmente, que a mentira possa ser aceite como lei. «Isso», escreve na página 130, «seria uma contradição. A natureza da mentira é ser não-lei: sua natureza é, justamente, "enganar", decepcionar a regra, não de frente, mas de modo oculto.»
O que ele, sim, defende, é que um ser que exige, como fundamento último da sua existência, a mentira de um deus que o houvesse criado e o receba em seus braços imateriais após a morte, é um ser que nunca suportaria viver sem a mentira nos diferentes departamentos do seu quotidiano.

Harolodo sustenta que o próprio eu é, reparem, uma "mentira": não existe "eu" senão como mito pessoal de cada um - a consciência que o "sujeito" toma como sendo seu centro e sua sede mais não é do que o frágil bote, mais aparente do que real, em que a pessoa se não sente à mercê de forças inconscientes, a natureza em fúria, o mar agitado. Pede, se estão lembrados, esta imagem emprestada a Schopenhauer.

Mas em termos sociais, pretende Haroldo, todas as relações carecem de um grau maior ou menor de mentira, mais ou menos consciente, para se poderem manter. A verdade é anti-social. A verdade é anti-humana. Se a humanidade inteira coincidisse no cumprimento da regra de "dizer a verdade", e a respeitasse escrupulosamente durante um certo tempo, um instante que fosse, terrível seria o tsunami de catástrofes, suicídios, homicídios que daí adviria...

Espanta-me que se tenha a coragem de publicar uma tese assim. Penso que, a ser o seu conteúdo verdadeiro, preferível seria que nos mentissem acerca disso...

terça-feira, julho 20, 2010

NÃO TEMOS CHEIRO!? AI NÃO!

Por que razão a nossa percepção é, quase automaticamente, imediatamente - racista?

Porque tende a ocultar, de nós mesmos, as nossas próprias características: é o que torna tão evidentes as características dos outros.
Por outras palavras: habituamo-nos à nossa pele, tal como, na casa de banho, nos habituamos ao nosso mau-cheiro, e não temos consciência deste. Porém, o cheiro dos outros impõe-se-nos.

Duvido que pudéssemos ser ainda racistas, se fizéssemos alguma ideia de como realmente cheiramos ao nariz alheio.

segunda-feira, julho 19, 2010

ANARQUISTA, GRAÇAS A DEUS

Porque não sei de nenhum outro nome para qualificar uma pessoa que defende o que defendo, aceito que me considerem anarquista.
Sou um anarquista heterodoxo, claro. (Pensando bem: se me revisse em alguma ortodoxia, dificilmente faria sentido que me intitulasse "anarquista"). Para começar, porque não prescindo da autoridade - no sentido de autoritas, ou seja, não de um poder que se impõe de cima para baixo, mas de um outro que se manifesta a partir de dentro, emanando do sujeito como expressão do que o dignifica e torna respeitável aos olhos dos outros.

O meu anarquismo não projecta a sua existência em qualquer futuro longínquo. Exerce-se agora e aqui. Não preciso de defrontar o poder do Estado ou combater a força da escola ou da igreja. Não sei nem me interessa saber se o anarquismo é viável como política social. O meu anarquismo é realizado diariamente em microclima. Daí que despreze tanto a acéfala tentativa de se esvaziar os micro-contextos. O universo do meu anarquismo é o grupo - os alunos, os colegas, os amigos. Os clubes, os movimentos. Que triste sina a deste micro-anarquismo, de resto, em tempos de se preferir a cultura dos Mega e do Global à cultura do micro...

O meu anarquismo é só indirectamente uma forma de política. É, primária e directamente, uma forma de ética e de cultura. Consiste nisto: em contexto de grupo, turma, comunidade, procuro que não haja um poder formal, que amesquinhe ou submeta os outros. Uma aula de filosofia é um claro exemplo de anarquia - não porque eu não seja o professor, não porque me não assuma como tal, mas porque todo o meu trabalho se dirige à liberdade de cada um, chama por ela, entende-se com ela, procura-a num terreno de convivência entre liberdades.

Dir-me-ão, e justamente, que, em última análise, as notas existem, e que eu as atribuo. E que se trata, de facto, de um exercício de poder. Dir-me-ão que sou eu quem corrige - nem que seja, afinal, os erros de sintaxe. Dir-me-ão que, portanto, aquilo que designo por "anarquismo" encapota, afinal, um poder. Será, então, uma forma de manipulação.

Mas entenda-se que, nas minhas contradições, na medida em que me cinjo ao sistema, estou, no interior do mesmo, como o moscardo socrático, que não deixa descansar, como o elemento que corrói o sistema ou que, pelo menos, procura fazer crescer a consciência para além do que o sistema pode suportar. Não espero, com isso, que o sistema venha, a prazo, a explodir. Não tenho, repito, um projecto a longo prazo. Mas sou, no sistema, uma consciência extra-sistema. Sou, no planeta Terra, um extra-terrestre. Aponto, indico, abro, rasgo. Exerço. Contesto, critico. Exerço. Não estou, senão aparentemente, ao serviço do Ministério. Na realidade, crio cultura. É o que exerço. Nada de especial, é o que qualquer professor pode fazer, se nem todos o fazem. E onde a cultura não está submetida a lógicas de poder - seja a lógica do Estado, a lógica dos bons-costumes, a lógica, sequer, do mercado -, o que existe é uma sociedade insubmissa, espaço da fruição anarquista.

Eis a minha proposta.

domingo, julho 18, 2010

SMALL IS BEAUTIFULL

De que signo serão as pessoas que "reflectem", no Ministério da Educação?
De onde surge este manancial de ideias grotescas, sem estudo, aprofundamento nenhum, entre um "eduquês" ultrapassado em toda a parte e a obsessão da estatística? De onde vem esta gente? Como se faz ouvir e singra? Com que direito liquida, destrói, desconsidera, esvazia, em nome de uns resultados falsos ou de não sei que raio!?

A minha escola, entre erros e insuficiências, defeitos e conflitos, construiu, ao longo de trinta anos, uma cultura singular, uma dinâmica própria, um projecto vivo. Promove a democracia nas relações entre os órgãos e nos laços entre todas as pessoas, os líderes, os professores, os alunos, os funcionários. Une docentes e discentes em torno de projectos que vingam pela sua força, não pela imagem nem para "fazer bonito" em qualquer tipo de avaliação. Tem, há muitos anos, uma revista premiada, recebeu, ao longo do tempo, intelectuais como Agualusa, Gastão Cruz, Gonçalo M. Tavares, Jorge Leitão Ramos, Pedro Mexia. Há um Clube de Cinema, há um fanzine. Convida políticos. Há professores que entusiasmam os rapazes e as raparigas a cultivarem hortas, das quais consumimos os produtos frescos, e professores de matemática empenhados em ideias e projectos para agarrar alunos e auxiliá-los na difícil aprendizagem das matemáticas.

Com que direito se iria fundir este oásis de espírito e cultura num Mega-Agrupamento, sob uma direcção única, abstracta e desconhecedora, segundo um projecto anónimo e desatento às particularidades e às diferenças?

Com que direito, e por que razão, e com que justificação, se encaixariam vários pequenos viveiros numa massa global, inculta, cumprindo objectivos meramente economicistas ou servindo sedes políticas? A que propósito desfazer a virtude do "micro", dos pequenos universos de sentido, em prol de um Sentido Único, devorador, imposto de cima para baixo, numa imparável e cega marcha de agregação?

Recordando Talleyrand: «É que isso é pior do que um crime! É um erro!»

UM DEFEITO DO VIZINHO PERFEITO

Há pessoas, não sei, que parece que, para melhor exibir a luz das suas qualidades, têm de diminuir os outros.

Assim sucede com o meu vizinho M., à parte isso, de facto, muito boa pessoa e homem prestativo.

Porém, quando o apresento a alguém - à minha tia, a algum amigo, a certa visita -, se tenho necessidade de lembrar que é uma «espécie de Salvador da Pátria», e recordar como «foi ele que subiu, por uma escada de madeira, ao primeiro andar, para arrancar à casa de banho a minha filha, que se tinha fechado por dentro à chave», etc, etc, etc, raramente não recebo por resposta qualquer coisa a sublinhar um defeito, uma incompetência, um falhanço meus.

No outro dia, apresentava-o à minha mãe, com o sorriso e as fórmulas do costume, Salvador da Pátria, Um vizinho cheio de recursos, etc, etc, etc - e responde-me ele, mirando com desconfiança os pneus do meu automovelzeco:

«Está com os pneus muito em baixo, vizinho. Tem de ver isso, o vizinho não se preocupa com o carro!? Olhe que eu, o meu...!»

Mas a melhor foi de uma vez em que o apresentava já me nem lembro a quem. Blá, blá, blá, Sempre que estou em apuros, aqui o vizinho, e blá, blá, blá.
E ele, estudando-me fixamente o rosto:

«Ó vizinho. O vizinho não sabe fazer a barba!»

sexta-feira, julho 16, 2010

A SUBTILEZA DOS DINOSSAUROS

Alguns leitores tomarão certamente este título por ironia. Não é o caso.

Há que não subestimar o valor dos dinossauros. Os garotos amam-nos; pedem que lhos comprem em miniaturas maravilhosas, com que encenam terríveis combates; não perdem um filme com os simpáticos monstros pré-históricos. Há miúdos que conhecem os seus variados nomes. Os quartos de todos os putos exibem-nos em posters impressionantes. E não é por obra do acaso que os dinossauros irradiam esse fascínio todo.

Considero-os uma autêntica civilização. Criaram, do ponto de vista da anatomia ou das "competências", quase tudo o que as mais variadas espécies ostentam, hoje, pelo ar, pela terra, pelas águas. Uns quantos puseram-se a voar e, simplifiquemos!, inventaram assim os pássaros; mas havia-os para todos os gostos, até do ponto de vista político, ideológico e filosófico: vegetarianos e carnívoros, senhores e escravos, obesos e anorécticos, com instrumentos e aptidões contrários, aleatoriamente distribuídos, num contínuo teste à adaptação.

Civilizacionalmente, fazem-me lembrar os Antigos Gregos que, no seu tempo, também foram e também inventaram praticamente tudo: sejamos nós cínicos, idealistas, materialistas, sensualistas, atomistas, individualistas ou colectivistas, caramba!, não estamos a fazer nada - como lembra o Adriano de Marguerite Yourcenar - que não tivesse sido, primeiro, uma escolha de algum Antigo Grego.

É por isso que me parece que a evolução não é sempre correcta. Se o progresso tende a simplificar, não estou certo de que essa simplificação seja uma vantagem real: e sei, sobretudo, que aquilo que aparenta ser "demasiado" gigantesco e complicado, como um dinossauro, contém em si uma subtileza, um génio, que a pura eliminação desse todo, ou a sua simplificação, necessariamente farão desaparecer.

Alguém acredita que a música tenha evoluído, de Bach a Luís Represas?

Alguém crê, para além dos criminosos do costume, que a tendência para se acabar com o estudo do Latim, mais os seus casos complicados, que, todavia, apuram e treinam a inteligência e o conhecimento mais profundo da mecânica das línguas vivas, suas herdeiras, pode ser ocupada pelo estudo do Espanhol, agora em voga nas áreas de Línguas e Literaturas?

Alguém está realmente convencido de que, poupar-se, aos jovens estudantes, a leitura obrigatória dos Clássicos da Literatura Portuguesa, na disciplina de Português, seja uma evolução, uma adaptação vantajosa, um progresso real?

Ou que, em resumo, progredimos com a a simplificação rasteira consubstanciada por um acordo ortográfico como este?

Qualquer dinossauro perceberia a estupidez! Mas esses eram mais subtis do que parece. Por isso, em última análise, aliás, desapareceram...

quarta-feira, julho 14, 2010

HÁ QUEM NÃO MEREÇA SER DONO DE UM CAFÉ

«Quanto mais cedo vem, menos faz», rosna a senhora de bom aspecto, co-proprietária do cafézito onde, às vezes, pequeno-almoço. Tem bom ar, a senhora, desde que não fale durante muito tempo: se lhe prestamos atenção, percebemos os "fizestes" e os "prontos" com que tudo estraga.
O tipo a que se refere, o tal que «quanto mais cedo vem, menos faz», é o marido: um trombudo desinteressante, careca e com o nariz cheio de peles de uma psoríase (é assim?) galopante. Quando está só ele, serve-me rapidamente, irritado de que o incomodem, e torna a sentar-se a uma das suas mesas fazendo palavras cruzadas.

As palavras da senhora vieram-me à memória. Faltava-me uma bica, eram praí já umas dez horas, e o café fechado.
Fui a outro, num primeiro andar, com uma varanda-esplanada e uma outra senhora que arranja as sandes de queijo com as mãos nuas.
E quem vejo, sentado na varanda-esplanada, lendo vários jornais, chupando o seu galão e fumando cigarros?
Nem mais. O «Zé». Que não gosta, realmente, de trabalhar - prefere gastar: então, com um café próprio, e vai tomar café a outro lado?

sexta-feira, julho 02, 2010

A CONSPIRAÇÃO

«A mim não me enganam», jura-nos, num café, certa mulher de alguma idade, os óculos refulgindo lúcida e severamente. Não fala com ninguém em particular, pelo que, queira eu ou não, tenho de me considerar, como os demais, um interlocutor em potência. Faço o meu sorriso estúpido destas ocasiões e vou assentindo com a cabeça.

«O Queirós», prossegue ela, «tem qualquer coisa contra Portugal. Aquilo é vingança antiga. Ou então estão a pagar-lhe. Ou as duas coisas, estão a pagar-lhe, e bem!, porque ele estava de candeias às avessas com o país; pagaram-lhe para ele conseguir que a selecção não fosse longe. Não viram os disparates todos que o homem fez? Mandou embora o Deco, pôs o Ronaldo a jogar sempre fora do lugar, quase não metia o levezinho do Sporting, trocou o Hugo Almeida quando ele estava no melhor...»

Pondero, com uma súbita atenção nos ouvidos. E ela, deduzindo com rigor toda a trama da maquiavélica traição de Queirós:
«E eles sabem isso tudo, eles lá sabem uns dos outros, não se lembram de que o Mourinho veio dizer que a selecção não ganhava nem com o Ronaldo a correr a mil a hora? Ora aí está. O Mourinho sabe o que diz, por alguma razão o disse, ele lá sabia qualquer coisa...»

Não deixa de ser uma explicação. E, pensando bem, é talvez mais lógica do que a ideia de que alguém possa, sem qualquer razão, por si só, ser tão mau, tão mau, tão mau como o Queirós foi. Enfim, alguém que ganhe algo com esta derrota!

Eu ando adormecido. Felizmente que, às vezes, aparece um português lúcido para me abrir os olhinhos.

terça-feira, junho 29, 2010

CHIPS, SÓ NOS CÃES!

A quem interesse a minha pindérica e desinformada perspectiva, devo dizer que sou avesso a essa ideia de começar a apoiar tecnologicamente as decisões do árbitro. Televisões e chips para ter a certeza de que a bola entrou ou de que um "atleta" (como diria Scolari) está fora-de-jogo? Valha-me Deus! Começa-se assim e, já agora, eliminem o árbitro. Põe-se um tipo sentado diante de um ecrã, com um computador, a fazer cálculos de trajectórias e de intersecções e a estabelecer medidas irrefutáveis. Epá, não sejam ridículos!

E agora vem o contra-argumento que os amigos da tecnologia têm por irrefutável. Os árbitros cometem erros.
Sim, já sabemos. Sim, temos visto. Alguns deles até são comprados, mas, e depois!? Encarem a coisa assim: os erros dos árbitros fazem parte do jogo, são algumas das incontáveis probabilidades de que ganhe A ou B: são tão apaixonantes como os erros dos jogadores, a bola que foi à trave, o guarda-redes que teve uma crise de estrabismo no momento em que devia saltar para a esquerda.

Um computador? E, nesse caso, a quem chamávamos nomes? Ao computador!?!? «Vê-se mesmo que a tua mãe computa!»? E perdíamos a possibilidade de ver o espectáculo divertido que é um homenzinho, às vezes de alguma idade e de alguma barriga, mas também de calçõezitos, a tirar, do bolso, cartões de cores? E a apitar!?

O futebol que evolua para onde quiser. Mas não substituam os árbitros por instrumentos sofisticados. Um árbitro quer-se assim: sem sofisticação nenhuma e a errar grosseiramente, que é para dar mais alma ao futebol.

domingo, junho 27, 2010

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!

Nunca fui um incondicional adepto de Isabel Alçada. Já me vinha dos seus livros, de que não era grande apreciador. Mas a verdade é que, quando a vi no cargo novo, não pude deixar de pensar para mim próprio: Vai ser outra loiça! É uma escritora! É uma intelectual!

Ao estilo de argumentação do engenheiro Sócrates já me habituara. Dali não se espera a verdade, mas a falácia eficaz, ou seja, sem especiais preocupações de subtileza. Julguei que, pelo menos nesse aspecto, a ministra da Educação viesse a ser diferente.

Descubro que não. Que, no governo, existe uma espécie de contaminação. Que um certo estilo de argumentar, que não hesita em distorcer ou esconder as razões mais óbvias, se impõe rapidamente a todos os membros, com tiques idênticos e quase as mesmas palavras.

A questão não é, aqui, a da política que escolhem. A política parece-me péssima, mas se é a que têm para dar ao povo português, certamente será por um certo número de razões: não precisam de as esconder, apresentem-nas. Deixem que as discutam. São motivos económicos? Digam isso! Dizem respeito à crise? Há que poupar? Digam-no - mas não façam passar essas razões económicas por outras de outra ordem: políticas, éticas, pedagógicas. É feio. É falso.

Já ouviram o discurso da senhora ministra acerca do que a motiva a fechar escolas? É um primor de falácia e falsidade. É uma obra-prima de manipulação.

QUASE TUDO PODE SER UM BOM MOTIVO DE OPTIMISMO

Levo o lixo para reciclar.
Observo que a caixa em que transporto as garrafas (de cerveja e de vinho, principalmente) pesa menos do que aquela em que levo o papel.
Presumo que seja um bom sinal.

ENTRE TALENTO E INSENSATEZ

Duarte dependurou, do gradeamento da varanda, duas gravatas minhas, às quais amarrou um banco de crianças - e assim inventou um baloiço de bonecas para a irmã.
Ainda não decidi se o elogie, se lhe ralhe.

quinta-feira, junho 24, 2010

SARAMAGO & CAVACO

Tão simples como isto: Cavaco não compareceu no funeral de Saramago.
Falo com toda a sinceridade de que disponho: acho bem.

Sucede que, neste caso, Cavaco Silva escolheu sem constrangimentos porque já sabia que, qualquer que fosse a sua decisão, acabaria sendo crucificado em nome dela.
Pôde, assim, optar sem peso, guiando-se unicamente pelos seus motivos e pelas suas razões.
Dir-me-ão: um Presidente da República é mais do que o cidadão concreto Aníbal Cavaco Silva. E a sua ausência enquanto presidente constituiu um derradeiro insulto ao Nobel português.
Não estou de acordo. Primeiramente, porque essa separação não pode ser feita. Quando o presidente comparece a uma cerimónia, não deixou o cidadão Aníbal Cavaco Silva sozinho em casa. Leva-o junto, como certos pais que não têm com quem deixar os filhos. Segundamente, porque não vejo na sua ausência uma diatribe, um acto de desprezo. Mais facilmente veria o cumprimento da úlima vontade do falecido. Pois não fora o próprio Saramago a dizer que, a partir da afronta que lhe haviam feito, nunca mais estaria onde Cavaco estivesse, e cuidaria de fazer com que Cavaco não fosse aonde ele estaria?

Cavaco Silva ter ido ao funeral seria, isso sim, um desrespeito. E um oportunismo. Seria o espectáculo infame de um presidente a usar, como bandeira, e para sua glória pessoal, o nome de uma pessoa que o não suportava.

Não vejo na ausência do Presidente um acto de desprezo. Vejo, pelo contrário, um acto de respeito. Este senhor não gostava de mim, pois não me terá a ensombrar-lhe o funeral.
Cavaco fez bem. Não perdeu com isso o país, não perdeu Saramago, não perdeu Pilar.
E, vá, que a vida continue!

quarta-feira, junho 16, 2010

QUEIROZ

Sejamos justos:
O Queiroz tem tido algum azar.
Tem, basicamente, o azar de ser ele o seleccionador nacional.

quarta-feira, junho 09, 2010

NADA DE NOVO SOB O SOL

Esta noite, sonhei que escrevia no Kaostico.
E, juro-vos, todas as ideias que me vinham à mente eram puramente brilhantes.
Quando acordei, lembrava-me de uma ou duas.
E, juro-vos, nenhuma delas era grande coisa.
Conclusão: o sonho acrescenta fé.

Tive outros sonhos. O sonho não sobrevive à transição para a realidade. Recordo-me, acordado, do que em sonho me entusiasmara tanto, e pergunto-me: O quê, era só isto?
Conclusão: a realidade retira fé.

Talvez não fosse mau vivermos no sonho e, à noite, acordarmos um tempo para repousar.

quinta-feira, junho 03, 2010

VISITANDO UMA CASA

Ao vivo, a cores, a moradia pareceu-me imediatamente mais bonita - o que é um caso raro - do que nas fotografias da agência. Se chegássemos a acordo, seria a primeira casa a sério onde moraríamos juntos, eu, Marta e a criança que, por enquanto, morava gratuitamente em Marta: no interior de seu ventre arredondado.

O senhor da agência, ridículo na minúscula gravata de canários, no suor e na ânsia de agradar, ia desvendando qualidades invisíveis, apontando oportunidades em cada recanto.
A dona da casa lembrava uma estaca, seguindo-nos, colada a nós, como se perguntasse «Será agora? Será desta?»; só o dono, em camisola interior e capachinho, se diria deprimido: era um homem magro e triste, que sorria pouco e a quem a vida pouco devia ter sorrido.
De repente, disse, com uma voz inesperadamente aguda:
- Os senhores fazem um mau negócio. A casa está cheia de humidade. Nem é preciso olhar para as manchas, basta sentir. Não vêem, ou não sentem, que estas paredes são blocos de humidade com uma demão de cal?

Fez-se um silêncio demorado.
Podíamos ter tomado as suas palavras como uma piada, mas não nos atrevemos; ou podíamos simplesmente ter fingido não as haver ouvido, como quando alguém solta um incómodo e inconveniente flato. Todavia, aquele silêncio não deixava dúvidas: ouvíramos bem.

O senhor da agência prosseguiu a caminhada. Os seus sapatos, com solas de borracha, chiavam no chão. Optou, quanto a mim bem - embora através de uma série de disparates - por ir diminuindo o que fora dito pelo outro:
- A humidade é até uma vantagem. As pessoas pensam que não. Era como quando se dizia que o azeite fazia mal, e agora já se percebeu que é um fio de saúde. Pois cada vez mais se sabe que os climas húmidos são os mais saudáveis. E olhem, hã? Que tal? Esta vista!? Que me dizem? Venham, venham, deixem-me abrir... ham... ui... esta janela e, hã?, que vos dizia? Gozem esta paisagem única...
- Não se deixem enganar -, aflautou o dono. - Vão construir prédios à volta! A vista vai desaparecer daqui mais depressa do que uma lebre.
- Desculpe lá, mas não entendo -, agrediu o senhor da agência. - Por acaso enlouqueceu?
- Mário! .- admoestava a mulher, com nítido atraso.
- Se continua nisso, vou-me embora. Assim não posso trabalhar. Nunca vi uma coisa destas. Quer vender? Quer vender? Quer vender ou não? Quer vender?
Novo silêncio.
E o homem, na sua flauta teimosa, mais forte do que ele próprio:
- A casa está mal-assombrada. Nunca consegui cá dormir uma noite completa. Nem pensar. Gostam de fantasmas? Isto está cheio de fantasmas, toda a noite, toda a noite. Fantasmas, fantasmas, fantasmas...

domingo, maio 30, 2010

JANTAR DE DOMINGO

A família é a forma de comunidade que mais eficazmente prepara as pessoas para a vida. Porque a vida familiar se transforma tão cedo num pesadelo, que, quem não morre, sai vacinado e pronto para enfrentar seja o que for.

Ontem à noite, éramos sete para jantar. Tentarei não ser demasiado azedo nas descrições. Uma senhora de oitenta anos, minha mãe, aliás, que ouve cada vez menos; uma tia conhecido pela criativa capacidade de multiplicar desastres; sua filha, que comunica com o Além; eu, atravessando crises, esgotamentos nervosos, cansaços misteriosos, tristezas infinitas; minha mulher, esmagada no serviço, deprimidíssima; um filho numa idade inenarrável, sem modos, respondão e malcriado; uma filha com uma voz estridente, a que um princípio de febre dava uma actividade a roçar o histérico.

Dentro da marisqueira, não havia mesa. Famílias felizes, grupos festejando aniversários, amigos que se reencontravam, juntavam-se alegremente, gritando, fumando, assinalando ruidosamente os golos que a televisão mostrava. Empregados feios moviam-se agilmente entre mesas, com bandejas carregadas de cervejas e sapateiras. Em alternativa, propuseram-nos uma mesa «lá fora».

«Lá fora» era um corredor estreito, vagamente protegido por um plástico translúcido. Numa mesa, um senhor mamava um prato de ameijoas à Bulhão Pato, com muitos estalidos de língua. Noutra, alguém sorvia caracóis. O Dudu afirmou, peremptório: «Quero caracóis e ameijoas!»
Primeira discussão.
Todos sentados numa mesa demasiado pequena para tanta gente, quase ao colo uns dos outros, fizemos os nossos pedidos. Entre discussões e negociações. Chegaram travessas. Não tinha espaço para comer: os meus braços estavam paralisados entre o braço da Titi, que ia fazendo suceder copos de vinho à pressão, e a minha mãe, que, apanhando-nos distraídos, e repetindo que não ia para jantar, que já jantara, tratava de levar à boca as entradas mais caras, o caranguejo, os queijos frescos, os etc.

Daisy zangava-se, gritava. Queria colo, não queria comer. Eu continuava preso. A prima comunicava com o Além. Dudu absorvia o molho directamente da travessa, entornando também um copo de água sobre o conteúdo dos pratos, experimentando novos tiques. Mal consegui comer. Gritava com eles. A tia tentava acalmar-me, pensando fazer-me festinhas no braço, mas paralisados uns contra os outros, podíamos manifestar pouco e mal a afectividade.

Comi pouco. Não tinha braços para muito mais.

Ando a sentir-me tão, tão, tão, mas tão cansado!

sábado, maio 15, 2010

MISSÃO

Sou o perfeito Deus das doenças.

Como um protector dos homens, como um pára-raios, atraio todos os males que os demónios engendram. Um gesto meu é um sintoma; cada ideia minha não é senão como um espirro ou uma crise de tosse. Recebo vírus, bactérias, gérmens. Todas as doenças se alojam no meu corpo de Deus cansado e pouco saudável.

Como raio poderia esperar que o médico compreendesse a minha missão de encaminhar para mim todas as doenças? Estúpido médico! Imbecil, que se limita a dizer, estupefacto:
«A sua hipocondria, meu caro, é um caso muito sério, muuuito sério!»

terça-feira, maio 04, 2010

AFORISMO ÉTICO

A ética é, em poucas palavras, a ideia do que somos obrigados a fazer, quando ninguém ou nada nos podem obrigar a fazê-lo.

quinta-feira, abril 29, 2010

O NÃO-GALO

Uma manhã cedo, inesperadamente, subiu para o parapeito da janela do primeiro andar e pôs-se a imitar um galo.
As vizinhas acordavam, vinham aos quintais, olhavam-no, incrédulas.
Falavam umas com as outras.
«A fazer cocorococó à janela, coitado. Veja bem. Julga que é um galo. Enlouqueceu, está visto!»

Mas a questão, aqui, é que nunca, nem por um momento, ele pensou que fosse um galo.
Acreditava que era um pato que enlouquecera e se pusera a imitar um galo.
E portanto, pelo critério das vizinhas («Julga que é um galo, logo enlouqueceu»), ele, que nunca realmente julgou ser um galo (mas um pato que, na sua loucura, se tomava por um galo), definitivamente não estava louco.

A psiquiatria é uma grande coisa.

terça-feira, abril 27, 2010

AS REGRAS D@ ESTÓIC@

1. Propõe-te objectivos pequeninos e realizáveis. Nada de programas demasiado extensos, de antemão incumpríveis.

2. Encara cada meta mínima cumprida como uma vitória. Festeja em grande os pequenos passos.

3. Periodicamente, olha para trás: observa como a sucessão de minúsculas vitórias, de facto, a prazo mudou algo na tua vida e te fez transitar de nível.

4. Faz do pessimismo uma forma de optimismo: entende-o como o tempo de que careces para descarregar, limpar, purificar a alma. Grita, maldiz. Descrê. E vira a página.

5. Mas divide-te, durante o período de pessimismo. Sê observador de ti próprio. Vê-te ser pessimista como se assiste ao trabalho de um actor. Que o observador seja a tua parte fundamentalmente optimista.

6. Nunca percas de vista a ideia do "depois": se tens uma dor, não te concentres na dor - concentra-te obsessivamente na ideia de que, seja quando for, haverá um tempo pós-dor. Um "depois da dor".

7. Encara os momentos em que não podes fazer o que te apetecia, como momentos propícios para se fazer outras coisas que podes e não sabias, e de que te tinhas esquecido, ou para que nunca havia tempo.

8. Sê estóica: faz das dificuldades um teste em que desafies, apures e treines a tua força e a tua resistência. (A dor, natural e espontaneamente, melhora-te; mas nem sempre tens consciência disso: passa a tê-la. Percebe as tuas forças a crescer e a tua resistência a redobrar...).

sábado, abril 17, 2010

COMPLEXO DE REI DEPOSTO


Acordei hoje com a imagem de um pai que, habituando-se a reconhecer-se na figura de quem tudo ensinava ao filho, repreendendo-o e admoestando-o, sempre superior, imbuído de Passado e Tradição, um pouco indignado por que seu filho nunca estivesse propriamente à altura, um dia, bruscamente, descobre que o filho crescera, o superara, revelava talentos e forças que nunca tinha sido capaz de identificar, tornava-se melhor do que o próprio pai. E, ao invés da alegria, o que esse pai encontra em si é um sentimento de frustração, uma tristeza inexplicável, uma inveja indigna.

É assim que vejo as relações entre Portugal e o Brasil. Não me apraz dizê-lo, mas é desta forma que as vejo. Mantemos a arrogância e um desadequado complexo de superioridade. Falamos ainda dos brasileiros como sendo os gordos eufóricos ou as morenas que vemos, às vezes, passar por aí em havaianas ou fio dental. Os do Carnaval, os da telenovela, os da favela. Os que têm lata e lábia de mais, os abusadores, os vizinhos barulhentos. Respeitamos-lhes o futebol e pouco mais.

Quando uma actorzeca de telenovela, cujo nome nem me vou esforçar para recordar, veio a Portugal e gravou um vídeo inqualificável, tratando-nos como se fossemos todos o "Manuel Padeiro", elevámos o facto praticamente a um assunto de Estado. Sentimo-nos agredidos na nossa superioridade, exigimos desculpas - Deus do céu, a uma pateta que está longe de representar o Brasil ou o povo brasileiro...!

Porque, quanto ao seu melhor, ignoramo-lo. Estupidamente, deixamos passar ao lado tudo aquilo em que o Brasil se tornou maior, e claramente superior a nós: a música, a poesia, a literatura, o teatro, a imprensa.

Curiosamente, é em nome dessa arrogância portuguesa, que os artistas lusos em geral (e dói-me dizer isto, que só não vai suscitar contra mim grandes fúrias porque pouca gente me lê), se lamuriam tanto por causa da "injusta" troca, o "desequilibrado" intercâmbio artístico entre os dois países. E, neste aspecto, os músicos portugueses são terríveis - como se nunca lhes tivesse passado pela cabeça que, se há um grande desnível entre a música brasileira consumida pelos portugueses e a música portuguesa consumida pelos brasileiros, isso se deve, desde logo, e antes de qualquer "injustiça comercial", ao facto de que a música brasileira é uma das melhores e mais belas do mundo, arrojada, inovadora, com letras extraordinárias, um encanto próprio, um ritmo singularíssimo, enquanto que a música portuguesa, com excepção de alguns "casos", não tem uma qualidade que sequer se lhe aproxime.

Não lhes levemos a mal: os músicos portugueses sempre acharam que o problema do seu fraco sucesso pouco tinha que ver com o merecimento do que faziam. Os álibis abundavam, a culpa seria sempre dos outros: as rádios que os preteriam, os ouvintes que não estavam suficientemente educados, e por aí fora. O mesmo em relação ao cinema, o mesmo em relação ao que entendam.

Na minha opinião de pai a quem o filho, um dia há-de certamente ultrapassar em quase tudo, deixem-me que sintetize a minha análise. Ficámos para trás. Repetimo-nos, fechados no nosso orgulho e preconceito. O melhor que fizemos foi no tempo de Fernando Pessoa: foi o próprio Pessoa. Depois disso, somos incapazes de olhar para o espelho, perguntar-lhe «Há alguém mais belo do que eu?», e ouvi-lo responder: «Cara! Brinca comigo não! Cê tá perguntando sério?!»»

quinta-feira, abril 15, 2010

UM PAR DE DIÁLOGOS EXEMPLAR

«DAISY - Tantas formiguinhas. Tenho de ter muita atenção onde ponho os pés, coitadinhas, não é, mano?
DUARTE - Sim, sim. Para ver se não falhas nenhuma!»


«DAISY - Sabes o que aconteceu ao cão do vizinho, pai?
EU (preocupado com o que o irmão lhe possa ter dito) - O que aconteceu, filha?
DAISY - Eu sei. O mano disse-me. Foi para o céu comer ossos...
EU (aliviado) - Ah!
DAISY - O mano disse que os donos eram muito maus e os ossos que lhe davam aqui não prestavam, estavam podres, ele teve de ir procurar outros ao céu...»

domingo, abril 11, 2010

FRASES EXTARORDINÁRIAS

Da Zita:

«Fulano [que é, digamos assim, um amigo em segundo grau] utiliza o portátil com a mesma solenidade com que se usa um computador a sério.»

sábado, março 27, 2010

POR QUE RAIO ESCREVO?

Uma relação secreta, de algum modo incompreensível mas inegável, existe entre a minha desarrumação e a minha produção.
A escrita é-me consequência de ser uma pessoa tão desorganizada. Escrevo sobre livros porque os perco - e, assim, fabrico uma espécie de estante virtual da minha memória; ou porque, vendo o caos desenvolver-se rapidamente onde quer que eu esteja durante cinco segundos, preciso de começar a escrever para sentir que sou capaz de organizar seja o que for: uma frase, um parágrafo, um conto, uma novela.

É claro que, infelizmente, se a escrita me arruma as ideias - não arruma a casa!

sábado, março 20, 2010

SOBRE PANCADAS

É evidente que tenho uma certa pancada.
Hoje, fui de propósito comprar o Expresso a um quiosque agradável.
Regressei sem ter comprado o jornal.
Porquê?
Porque o vendedor estava a comer uma sandes ao balcão.

Sou estranho!

segunda-feira, março 15, 2010

KANT vs. MILL

Eis como, através de uma breve história, me proponho ilustrar a diferença entre a deontologia kantiana e o utilitarismo milliano.
Preparados? Partamos.

Imaginem um robot binário que reage unicamente a dois tipos de estímulo - a: ao carácter de um aluno perturbador, desses que não se aquietam ao longo de uma aula inteira, conversando, irritando, boicotando; e não-a: ao carácter de um professor inteligente e dotado de uma voz potente.

Perante o primeiro tipo de estímulo, a reacção do robot consiste em prender o referido aluno, sufocando-o vagarosa mas implacavelmente. Podemos imaginar que, sob o terrível abraço, o aluno sinta medo. Mas, quanto mais medo sente, mais o seu carácter de criatura estúpida e repulsiva vem ao de cima e, portanto, o medo só precipita o seu fim.

Nada senão a voz potente de um professor, que diga «Pára!», consegue interromper o fatal abraço.

Vamos presumir que o professor - digamos: eu - sabe que, salvando o aluno, terá de o suportar nas suas aulas por um longo futuro, incomodando-o, infectando a turma, prejudicando a maioria e irritando o próprio e perfeito professor.

(E não me venham dizer que o aluno, profundamente grato ao seu salvador, se arrependeria e emendaria. Porque isso seria num conto de fadas, e o meu registo é outro: o de uma hipótese científica, onde, portanto, todos sabemos que um aluno deste género, salvo pelo professor, se tornaria ainda mais insuportável nas suas aulas).

Deve o professor que passa pelo pior dos seus alunos, vendo-o sujeito ao abraço da morte, pronunciar a palavra salvadora? O decisivo «Pára!»?

Kant afirma que sim. Independentemente das consequências. Independentemente de o professor prejudicar o seu futuro e o da maioria das pessoas que merecem a sua preocupação e dedicação (isto é, os alunos bons e interessados daquela turma). O meu dever é o meu dever. Único e inegociável.

Mill, pelo contrário, pensa que o bem é, tão-só, o que se revela mais útil à maioria: o que beneficia o grupo (ainda por cima de rapazes e de raparigas simpáticos, que seguiriam - se a aventesma os não impedisse - atentamente as aulas).

E, perante este dilema, prefiro calar-me!

quinta-feira, março 11, 2010

INÊS DE MEDEIROS, PÉROLA DA NOSSA CULTURA

Entrevistada pela revista Sábado, Inês de Medeiros afirmou, a respeito do facto de o Parlamento (e portanto o país, e portanto nós) pagar as suas deslocações a Paris, que as pessoas devem achar que ela vai passear para o Louvre e para a Torre Eiffel. Ficamos a saber que não: vai ajudar os filhos com os trabalhos de escola, vai arrumar a casa, vai preparar a ementa para a semana. Acrescenta - como se estivesse a gozar connosco, ou melhor, gozando efectivamente connosco - que, «se o problema é Paris», podem pagar-lhe então o bilhete até Badajoz.

Como a entrevistadora insista, interrogando-a sobre se, na sua opinião, tratar-se de «Paris não é um problema», responde com uma outra pergunta, verdadeira obra-prima de "desconversa": «Está-me a perguntar se acho imoral viver em Paris? Não acho.».

Mas não a largam. Inquirida acerca de se lhe ocorreu, se lhe ocorreria, se lhe pareceria bem, enfim, prescindir desse pagamento, tem a dizer que não. Fazê-lo seria, isso sim, incorrecto. Estacamos. Incorrecto? Sim, porque ela não está interessada em ser santa nem pura! Ah! Bem, sim. Percebem? Ser santa ou pura, aparentemente, seria incorrecto. Seria demagogia e populismo. E implicaria num tratamento inaceitavelmente diferenciado, uma "discriminação": há que cumprir o que está estipulado pela Assembleia em casos que tais.

Talvez compreendamos melhor a natureza desta estranha psicologia quando, a propósito de Sócrates poder ter mentido ao país, Inês esclarece: «Se mentiu, nem acho que seja muito grave!»
Quase sentimos a perplexidade na voz da jornalista:
«Não acha grave um primeiro-ministro mentir ao Parlamento?».
Segurem-se para a resposta:
Que não. Que até houve outro primeiro-ministro que já mentira ao Parlamento. E aí, sim, fora uma mentira muito grave. «[...] o Dr. Durão Barroso quando veio dizer neste Parlamento que tinha visto as provas das armas de destruição massiva no Iraque.».

Já vimos tudo? Ná!
Sabem em que comissão se encontra esta pérola da intelligentzia portuguesa?
Na Comissão... (aaahahahahaha... desculpem, é esta maldita tosse)... de... de... (ahahaha, raio de gosma)...na Comissão de Ética!

E isto dito, agora sim, talvez já tenhamos visto tudo.

sábado, fevereiro 27, 2010

NA PERIFERIA DO MEU OLHO MAIS MÍOPE

Deito, distraidamente, o meu olho mais míope à televisão.

Reparo que, em Portugal no Coração, está sendo entrevistado aquele comediante jovem, de barba, sempre com uma boina na cabeça. Tem essa singular característica que faz da comédia portuguesa qualquer coisa que os estrangeiros nunca conseguirão imitar: não tem a mínima graça.

Mas não é o único a ser entrevistado. Vejo, por exemplo, uma rapariga, líder de um grupo musical que terá ganho qualquer prémio ou distinção.
Oiço-a - se não com os ouvidos, com o mesmo olho míope.
Diz ela:

«Queremos explorar a música tradicional, mas numa abordagem
contemporânea».

Oh meu Deus! Por onde se sai daqui?!

CREDIBILIDADES

Só posso dizê-lo assim mesmo, generalizadora e ofensivamente.

Trata-se de uma opinião. (Embora as minhas opiniões sejam correctas).

Perderam a última réstia de credibilidade,

os políticos, os jornalistas, os juízes e os meteorologistas.

Boa noite. Vou dormir hoje serenamente, como há muito tempo não acontecia, porque anunciaram grandes ventos e tempestades tremendas!

domingo, fevereiro 21, 2010

PARA CINISMO, CINISMO E MEIO

A propósito da catástrofe na Madeira, eis Sua Excelência, o senhor Presidente da República, no seu melhor:

«E àqueles que perderam os seus bens e os seus haveres, quero aqui deixar uma palavra de esperança».

Que significa exactamente isso? E que palavra é concretamente essa, que ele deixa aos madeirenses aflitos? Aqueles que «perderam os seus bens e haveres», que raio poderão fazer com uma palavra que lhes fica, para substituir os «bens e os haveres» perdidos?

E já que estamos em matéria de cinismo, perdoem-me os madeirenses que lhes fale, num tom que chegará a parecer demasiado ligeiro, sobre o significado político deste desastre. Para quem já tenha tido tempo de perceber como funciona o maquiavelismo do Primeiro-ministro, senhor José Sócrates, isto foi o melhor que lhe aconteceu. Acusar-me-ão de estar a mover um injusto e miserável processo de intenções, mas pensem melhor: para quem tinha tantos problemas acumulados com o senhor Jardim, poder bruscamente surgir como o Salvador das ilhas, que acorre de imediato, pronto a estender a mão a quem ainda há pouco dele dizia tanto mal, é um maná caído do céu. (Há que não esquecer que Marquês de Pombal, para além de matar nobres e expulsar jesuítas, fez toda a grandeza da sua carreira em torno de uma fantástica tragédia!)

A mão estendida serve para segurar os que caem. Ora uma mão que se estende para segurar não pode ir cheia - deve até, de preferência, estar vazia. Se vejo alguém quase a tombar no precipício e o quero agarrar, não posso ter chaves na mão, nem cartões de crédito, nem carteira.

Assim, a mão que o Continente estende vai, pelo que me parece, pouco cheia. Sobretudo, a avaliar pela resposta do Primeiro-ministro a uma jornalista madeirense, que lhe perguntara se já havia verbas disponíveis:

«Não é altura para estarmos com perguntas mesquinhas!»

Verbas?! Que mesquinhez, de facto! Então o senhor Presidente não lhes tinha deixado já uma palavra?! Queriam mais??? Ingratos!

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

PAIXÕES


No carro, minha filha contava-me já não sei que história, e disse-me:
«Então, paixonaram-se um pro outro.».
Intrigado por esta precocidade aos quatro anos, perguntei:
«Ai sim? E o que é exactamente "paixonarem-se"?».
Resposta:
«É viverem felizes para sempre!»

Santa inocência. A vida ainda vai ter muito que te ensinar.

sábado, fevereiro 13, 2010

O PLANO



A avaliar pelas notícias bombásticas e maldosas que os jornais têm publicado acerca do seu pretenso projecto para dominar a imprensa, duas conclusões se me impõem:

Uma é que, obviamente, o seu plano não deu certo. Salta aos olhos: o homem não dominou a imprensa.

Outra, é que (obviamente, também), tinha, pelos vistos, boas razões para o tentar.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

o poço

a génese do ressentimento está na boca, na barriga e nos braços. depois, irá conspirar nos ombros, nas costas. alimento-o, raivosamente, como a uma fera num poço. nunca nos libertaremos um do outro: o monstro olha a essência do meu olhar que o olha. todo ele é ódio a tudo e a mim. na essência do meu olhar misturam-se terror, inspiração, uma competência cruel, suicida e vingativa. intensamente, o animal viaja o seu viajar sobre si mesmo, que o aprisiona mais. ninguém pode adivinhar esta aliança oculta nas minhas raízes. ninguém pressente a maléfica eternidade de uma memória que feriram. porque a sua viagem nunca cessa: nem mesmo após eu ter perdoado.

sábado, fevereiro 06, 2010

HIBRO

SUBTÍTULO ELUCIDATIVO: UMA HISTÓRIA QUE NÃO SERÁ APRECIADA POR NENHUMA DAS CRISTINAS. NEM POR QUEM QUER SE CHAME «CRISTINA». NEM, É CLARO, POR QUEM TENHA OUTRO NOME QUALQUER.

O resultado dos trabalhos dessa sinistra e frankensteiniana figura, que era o Comendador, consistia, em poucas palavras, na fusão de um cão e de um gato.

O híbrido, a quem o Comendador dera o nome de Hibro, tinha uma cabeça de gato listado e uma outra cabeça de buldogue.

Uma das Cristinas, gémeas de nome, mais propriamente a Cristina, adorava o gato e detestava o cão.

A outra, que era a outra Cristina, odiava o gato e adorava o cão.

Como as Cristinas intuíam que, de facto, não existiam ali propriamente um gato e um cão, mas uma entidade única, um gatocão ou um cãogato, e não queriam perturbar nem ofender nenhuma das metades, tinham todo o cuidado para não desrespeitar a cabeça de animal que lhes desagradava. E, portanto, ambas tratavam muito bem as duas cabeças, principiando até, quem sabe, a desenvolver um certo carinho por qualquer delas.

«O que temos», rejubilava o Comendador, «é que talvez a experiência não tenha sido em vão. Pode ser que conseguíssemos que a Cristina passe a gostar de cães, e a Cristina a gostar de gatos. Ou será ao contrário?»

«Tem toda a razão, Excelência», respondeu Humboldt.
Mas não prestemos a menor atenção à sua resposta. Todos sabemos como Humboldt era um mero bajulador

domingo, janeiro 24, 2010

ENVELHECER É LIXADO

Ontem, na televisão, podíamos ver o espectáculo em que se reuniam os meus ídolos de juventude, Sérgio Godinho, José Mário Branco e Fausto.

E, caramba, tanto brilho que trouxeram ao palco. Infelizmente, julgo que era o brilho das dentaduras postiças...

sábado, janeiro 23, 2010

EPITÁFIO











Se, à data da minha morte, não tiver conseguido publicar a ponta de um corno (o que é bem provável, atendendo aos meus cinquenta e dois anos e ao facto de que as editoras já fogem de mim), agradecia que se esculpisse no meu túmulo este melancólico epitáfio:

Aqui jaz aquele que foi um verdadeiro virtuose do blogue. Lol.

sábado, janeiro 16, 2010

E QUE FAZER QUANDO A REGRA ESTÁ ERRADA?

O maior disparate - e, se não for o maior, está num top ten - é, na minha opinião, existir quem pense que as pessoas que lêem, em fotocópia, um livro (aquelas que lêem um parágrafo que seja); ou as que «sacam» uma música na net; ou os que vêem um filme de que fizeram download, bom, estariam todos, de certa a forma, a roubar alguém.

O primeiro pressuposto absurdo desta ideia é o de que, se não lessem a fotocópia, iriam antes comprar o livro; se não sacassem a música, comprariam o cd; se não obtivessem netianamente o filme, iriam vê-lo ao cinema ou adquiriam o dvd.

Que ignorância! Os verdadeiros leitores, os que foram educados para a leitura e a apreciam, não se contentam com fotocópias. Querem possuir o livro. Os verdadeiros melómanos e os cinéfilos exigentes nunca se contentariam com reproduções manhosas. Esses são os compradores que nunca deixarão de o ser. Portanto, os «fotocopiadores» e os «sacadores» podem ser vistos, quando muito, como possíveis futuros consumidores; na melhor das hipóteses, como apreciadores em formação: e poderão, através, quem sabe, de um texto copiado, de um som ou uma imagem ilicitamente conseguidos, vir a descobrir um autor!, uma obra!, que mais tarde procurarão. E que, por fim, talvez venham a comprar.

Se na escola eu não recorresse a fotocópias, Deus do céu, não teria a menor oportunidade de atingir os meus alunos, de lhes fazer revelações, de lhes propor o que fosse, de os interessar. Aqui entre nós: se não víssemos em conjunto os filmes que lhes levo (e que têm início após uma legenda advertindo contra os criminosos que os exibem em «espaços públicos»), nunca lhes falaria convictamente de cinema. Aqueles miúdos, que não sabem ver nem amar um filme (a não ser com pipocas e partilhando a sua atenção à tela com uma atenção simultânea às mensagens do telemóvel...) nunca teriam do cinema uma outra visão.

E, claro, compreendo que esta infracção, que pratico continuamente, pareça aberrante do ponto de vista das editoras ou das distribuidoras. É o ponto de vista de quem não tem ponto de vista. Só uma obsessão com o que lhes soa à perda imediata de algum dinheiro. A educação-para, a formação, a construção de pessoas sensíveis, um público sólido para o futuro, não são conceitos que entrem nas suas preocupações.

Que os autores - os criadores, aliás despudorada e miseravelmente enganados pelas editoras, produtoras, distribuidoras - entrem nesse coro estúpido; que não entendam que o mais importante é, para já, que lhes acedam, os leiam, os oiçam, os vejam, seja lá em que meio for...
Que os autores - os criadores - não percebam que os instrumentos, actualmente ilícitos, da sua divulgação, são os instrumentos precisos e preciosos para a formação de quem venha a amá-los e comprá-los, isso, isso é mais e é pior do que um crime: é um erro.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

O DUELO

Hans e Karl olham-se perigosamente.

Não se conhecem. Em rigor, nada têm um contra o outro. Noutro lugar, noutras circunstâncias, num tempo diferente, quem sabe?, talvez pudessem ter sido amigos.

Não podem dar-se ao luxo de sondar e perceber que afinidades os ligam. Imaginem que, se começassem a conversar, descobriam que, em miúdos, haviam sido vizinhos e jogado juntos à bola. «Não me digas! Então tu eras o Karl, o que ficava sempre à baliza porque não era capaz de chutar decentemente?». E o outro: «Não era assim tão mau! Aliás, se bem me lembro, tu é que eras o Hans, que só jogava por ser o dono da bola...» - e sob estas palavras de aparente inimizade, dariam palmadas amigáveis no ombro um do outro, desabariam gargalhadas, iriam tomar uma cerveja, algures, recordando e rindo. Quem sabe, quem sabe?

Mas não hoje. Não aqui. Não agora.

Medem-se. Nenhum quer dar o primeiro passo. Nenhum dos dois se quer expor.

Lá fora, a chuva inclemente faz-se ouvir.

Não podem ficar ali eternamente. Algum terá de ser o primeiro a ousar.

É Karl.

Corre.

Hans principia também a mover-se.

Karl é mais lesto:
Pega no solitário guarda-chuva que se encontra no bengaleiro, e não pertence, obviamente, a nenhum dos dois - mas a um desgraçado que ainda não sabe, nesta altura, que ficará sem o seu guarda-chuva -, corre para a porta. Abre-o. Mete-se à chuva.

«Merda!», indigna-se Hans. «Vou apanhar uma molha valente».

quarta-feira, dezembro 23, 2009

NUM BECO - OBVIAMENTE - SEM SAÍDA

Quando o gigante desdentado os encurralou num beco - obviamente - sem saída, tudo o que Alvarinho, de oito anos, se lembrou de dizer para o assustar, consistiu nisto:
«Não se meta connosco. Olhe que aqui o meu amigo é um poderoso feiticeiro...»
Idiotamente, porém, a reacção de Artur, seu companheiro, resumiu-se a:
«Qual teu amigo?!»
«Tu, Artur. És um poderoso feiticeiro, pois és?», (e piscava-lhe o olho, procurando envolvê-lo na artimanha para enganar o gigante).
«Eu?», espantou-se o inocente. O parvo.
«Sim. O senhor afaste-se de nós», mas o gigante aproximava-se, rindo com umas gargalhadas que, expelidas das entranhas, eram lançadas por aquele buraco negro, a sua bocarra sem dentes, «nem mais um passo, eu não torno a avisar», até que, por fim, definitivo, «está perdido!». E exortou: «Vá, Artur, diz as palavras mágicas!»
Nada mais ocorreu a Artur senão:
«Um, dois, três, macaquinho chinês!»
Alvarinho ficou aterrado.
Aterrado. Fora demasiado forte. Chegava a ter pena do gigante, transformado num macaquinho sem dentes e de olhos amendoados.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

DA SÚBITA METAMORFOSE DO MAU EM BOM

A desculpa para as minhas madrugadas é "evitar" o trânsito.
A verdadeira razão, porém, é uma antiga neurose. A esta, associa-se o raro prazer de chegar ao local dos deveres e tarefas, quaisquer que sejam, com uma antecedência longa, sossegada, demorada.

Por estes dias, tenho vindo primeiro a um café.
O sítio é pequeno e esconso. As mesas são particularmente feias.
Há, como fundo, a rádio renascença. Nada, portanto, podia ser pior do que este conjunto de ingredientes. Ouve-se Sarsfield Cabral comentado as finanças do país, e um locutor de voz preciosa deixando «no ar» um enigma. Repito: que poderia ser pior?
Os clientes assustam-me: não tanto o cigano que me olha fixamente, mas a velha que treme, incapaz de me olhar fixamente, de fazer fixamente o que quer que seja.

E, de repente, põem-me o chá a ferver à frente. E na madrugada gelada, a chávena com que aqueço as mãos, com um estranho arrepio de calor, o líquido que sinto molhar-me a língua e descer, como fogo, pelas diversas partes do meu corpo, o jornal a que vou lançando um olhar distraído, a conversa básica, sem o menor interesse ou consequências, que mantenho com o proprietário madeirense, salvam a manhã, justificam o momento, dão um inesperado rascunho de sentido à existência, redimem-me.

Sinto-me forte. Estou salvo e feliz.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

NÃO É?

Deus nos livre dos broncos muito cooperantes.

BRILHANTE DISCURSO NA RECEPÇÃO DE AMIGOS A UMA CASA QUE NÃO FOI LIMPA

«Entrem, entrem, meus amigos. Não reparem, está tudo desarrumado, não aspirei a casa, esta é a minha maneira de vos dizer que sinto, realmente, que estou a receber amigos, para mim não se trata de "visitas", se me tivesse posto a limpar o pó estaria a fazer cerimónia, nada disso, estão em vossa casa, não escorregues nessa pilha de livros, espera, e tu não te sentes em cima das minhas cuecas, se quiserem arrumar vocês, estejam à vontade, a casa é vossa, meus amigos, queridos amigos meus, que saudade!»

quarta-feira, novembro 18, 2009

SOBRE DOIS ASSUNTOS

Primeiro, um comentário sem importância:
Diziam-me, hoje, que Portugal iria ter um grande problema - o mau estado do relvado no estádio em que decorrerá o jogo.
Portugal tem, penso eu, um problema muito maior: que o senhor Queirós esteja a favor da selecção portuguesa.

Seguidamente, um comentário muito sério:
Afirmam pessoas de responsabilidade que não está provada a relação entre a vacinação, contra a gripe A, de mães grávidas, e a morte dos fetos. E, como não está provada essa relação, seria precipitado admiti-la.

Ando eu a ensinar, aos meus alunos do 11º ano, que existe uma falácia chamada «ad ignorantiam», cujo mecanismo consiste em argumentar assim: como ninguém conseguiu provar que isto é de uma certa forma, conclui-se que a inversa é verdadeira.
Alguém demonstrou que Deus existe? Não? Ora muito bem! Isso demonstra que não existe.
Ou:
Alguém provou que a vacina contra a gripe A em grávidas afecta os fetos? Não? Ora aí está. Quer dizer que não afecta.

Que país, caraças! Que país!

segunda-feira, novembro 16, 2009

O QUE ME NÃO ANDA CÁ A CHEIRAR BEM


Bem sei que, para manter a prudência e não arvorar uma atitude desmoralizadora, seria exigível não dizer, ainda, mal da nova ministra da Educação.

Dou de barato que houve um equívoco, e não uma mentira, quando afirmou, de manhã, que não fora convidada para o governo e, nessa mesma tarde, se apresentava ao presidente como nova ministra.
Dou de barato que - a questão de anunciar, como tendo um mestrado (ou doutoramento) realizado numa universidade de Boston o que, pelos vistos, não foi senão um cursozeco de Verão com a duração de dois meses, seja um pormenor de somenos importância.
E agrada-me que receba os sindicalistas com uma postura agradável, distribuindo beijinhos e sentando-se diante deles, ao invés de, como fazia a anterior senhora ministra, se colocar altivamente à cabeceira da mesa.
São gestos, são sinais.
Pelos vistos, funcionam: os sindicalistas saem das reuniões muito satisfeitos, garantindo que este é «o princípio do fim do modelo», que tudo mudou, que a avaliação irá ser substituída.

No entanto, devo confessar, é precisamente essa alegria esfuziante dos sindicalistas que me preocupa. Porque, quando os oiço falar, tudo parece resolvido. Mas quando oiço a ministra, senhora dona Alçada, não detecto, não detectei por enquanto nenhum sinal que explique essa alegria.

Vejo-a simpática, mas não a oiço dizer que o modelo em causa está pronto para ir para o cesto de papéis. Pelo contrário, a senhora afirma que não se pode falar em suspensão; que há que aproveitar o que já está feito...

E, portanto, cheira-me a que, nesta história mal contada, alguém anda a fazer papel de tolo.
Serão os senhores sindicalistas? Ou eu não estou a ver bem?

Por uma vez, preferia que se viesse a perceber que o tolo era eu!

domingo, novembro 15, 2009

A INVASÃO

Surgiu, primeiro, uma delas, muito negra e luzidia. Parecia atarantada. Rodava, rodava pelo soalho, e desapareceu.

Nessa tarde, já se viam duas ou três. «As batedoras», pensei.
Detestamos ter baratas em casa, mas não eram baratas. Detestamos as moscas, pelo verão: não eram moscas; detestamos as melgas, com o seu zumbido suicida, porque previnem as pessoas «Estamos aqui, vá, toca a acordar, enrola um jornal, caça-nos!». Mas também não eram melgas.

Depois, quando ainda as não levávamos sério, deu-se a invasão. Como formigas, mas demasiado grandes para ser formigas, demasiado exactas nos seus movimentos colectivos, demasiado poderosas e seguindo ordens numa linguagem que não entendíamos.

Lição: comer na sala pode provocar uma invasão alienígena.

terça-feira, novembro 03, 2009

DAISY VAI AO SENHOL DOUTOL

Daisy, que tem tido sintomas gripais, foi há poucos dias ao médico.

Já agora, o grande defeito da minha filha, em termos de linguagem, reside, actualmente, na pronúncia do «r».

Durante algum tempo, no lugar do «r» havia um vazio: «Magaída» por «Margarida», «Quato» por «Quarto», «Pato» por «Prato» e, bom, parece-me que já perceberam a ideia.

Mais tarde, trocava-o por um «l»: «Qualto», por exemplo, como se fosse uma chinesinha a falar.

Agora, mais estranho e cada vez mais complicado, já ao nível do poço da morte em termos de linguagem, substitui o «r» por um... «s»; nunca tal ouvira a ninguém: «Quasto» em vez de «Quarto».

O médico, no consultório, fazia-lhe perguntas. E Daisy respondia, conversava, explicava-se - sempre com trapalhadas nos «r», ora um hiato no lugar da consoante, ora uma consoante diferente.

Até que eu, desatento mas preocupado, senti necessidade de clarificar:
- Ela não há maneira de dizer os «r», Sr. Dr...
Resposta do careca:
- Oga, oga! Não se pgeocupe, que com o tempo acabagá pog dizê-los...

OS ASSOCIADOS

O negócio de Gusmão consistia na prestação de serviços sexuais. Não trabalhava sozinho. Ele e sua amiga, Pepita, funcionavam em conjunto. Iam a casa - chegavam discretamente, com óculos escuros, gola levantada, às vezes bigode postiço; recebidos, começavam imediatamente a despir-se. Havia quem os quisesse ver simplesmente a actuar, em delirantes performances de sexo. Outros clientes, faziam questão de participar. Era mais caro - mas, também para eles mais interessante.

Em casa de Gusmão, o que se pensava é que o seu negócio era uma editora com florista incorporada. E quando chegava tarde, quando não vinha dormir, Gusmão justificava-se com excesso de trabalho ou demoradas reuniões com os seus sócios. Seriam cinco sócios - todos homens, segundo Gusmão que, como já perceberam, era um mentiroso bastante inventivo.

Um dia, Judite, sua esposa, fez questão de oferecer, em casa, um jantar para os sócios. Queria conhecê-los, talvez, mas, sobretudo, agradecer-lhes a consideração que mostravam pelo marido, as prendas que às vezes enviavam, as atenções de que cumulavam a família.

Gusmão teve, então, a genial ideia de contratar cinco sem-abrigo, dar-lhes banho, vesti-los, instruí-los e levá-los a jantar em sua casa, fazendo-os passar por seus associados.

Os homens seriam estranhos, admito, mas a escolha estava longe de ser infinita.

O vendedor da revista Cais gostou imediatamente da ideia, desde que pudesse ficar com o fato para si.
O cigano afligia-o - preconceituado e racista, Gusmão não conseguia deixar de pensar que ele tinha um plano para não sair de casa de mãos a abanar.
O negro, mal falava português. Mas isso podia corrigir-se. Gusmão só não sabia como.
Os gémeos siameses, na verdade árabes, tinham sido, em tempos, homens-bomba, mais tarde expulsos da congregação porque entretanto se descobrira, em meio de enorme escândalo, que não lhes apetecia morrer por nenhuma Causa: achavam, talvez estupidamente, que a bomba os não mataria e, em vez disso, poderia separá-los (estavam unidos pela anca e pelo ombro direitos, sem órgãos em comum).

O jantar correu de uma forma absolutamente bizarra.
Judite acreditou em tudo. E apreciou a sucessão de equívocos que a conversa prodigalizou, achando sempre que se tratava do exercício invulgar de humor dos associados do seu marido.
Decidiu que, uma vez por mês, daria um jantar.

E isso só não chegou a suceder porque, antes de passado o primeiro mês, Gusmão encontrou a morte, no decurso de uma acrobacia sexual que um cliente exigente quisera ver posta em prática.

Pepita, por razões compreensíveis, não pôde ir ao funeral.

Os falsos associados estiveram presentes. Havia esparguete e vinho...

DIFICÍLIMOS RECOMEÇOS

Que raio queria eu?

Venho de observar os dados relativos ao número de visitantes deste meu blogue, e percebo que a quantidade caiu a pique. Em certos dias, não houve quem me espreitasse. E noutros dias terei tido um curioso, provavelmente eu mesmo, a ver se já teria postado alguma novidade.

A verdade é que as pessoas têm motivos. O meu blogue não mostra novidades há muitos meses. Preferia que as pessoas acorressem, curiosas, expectantes, para darem depois com a cara em nada?
Bem! Por acaso preferia...!

Tenho de me decidir. Não há desculpas para não escrever. Uma nota, uma mensagem, uma palavra. Literalmente: ao menos uma palavra.

Vou dedicar-me à escrita telegráfica para os dias em que esteja pouco inspirado ou muito ocupado.

Vou recomeçar a escrever.
Se calhar, mesmo recomeçando a haver texto, não tornará contudo a haver leitores tão cedo.
Mas é bem feito.

domingo, outubro 25, 2009

PALHAÇOS-ASSASSINOS


Um amigo de meu filho revelou-me qual é o seu maior terror:
Os palhaços-assassinos!

Não sei muito bem o que seja um Palhaço-assassino. Para mim, seria sempre um palhaço tão engraçado, tão engraçado, tão engraçado, que acabasse por matar o público de riso. Seria um autêntico serial-killer.

Devo dizer que o tal rapaz se arrependeu amargamente da sua confissão. Fiz-lhe desenhos de palhaços-assassinos, inventei anedotas em redor do tema, disparatei indecentemente a propósito do seu medo. Sou um péssimo educador. Às vezes, estou ao nível do Homer Simpson.

Acontece que eu tenho um peixe cujos companheiros de aquário não duram.
Teve sempre peixinhos mais pequeninos - nunca mais do que um de cada vez; vi-o, algumas vezes, às cabeçadas ao colega da altura, ou perseguindo-o, por causa da comida.

E a verdade é que já lá vão três: apareciam muito mortos em belas manhãs, esticadinhos, de ventre para o ar...

E este malandro prossegue. Envelhece bem. Está gordinho e, a não ser que eu o junte a um tubarão, não acho que seja boa ideia continuar a trazer-lhe companhia.

O que me faz pensar, é que... é um peixe-palhaço.

sábado, outubro 24, 2009

SILÊNCIOS QUE JÁ NÃO VÃO DURAR

Meu blogue tem estado desesperadamente abandonado por estas semanas, não sei se meses.
Oiço-o chorar baixinho. Ou será que sou eu que choro baixinho, de saudades?
Mas deixemo-nos de pieguices. Não me zanguei com ninguém. Acontece que que há amarras que se têm cortado sozinhas. E aproveito para dizer, a quem, no meu aniversário, tenha deixado uma mensagem a que não respondi, que não foi por frieza ou por esquecimento - mas porque esse telemóvel deu o berro; comprei outro, da vodafone; e a tmn levantou tantos obstáculos a que eu mantivesse o seu número, que acabei por desistir, mandar a tmn à outra parte, prescindindo de uma parte substancial de contactos, que não consegui recuperar, e do meu passado.

Também este blogue me exige uma disponibilidade que não tenho tido.
Mas não desisto. Nem por sombras. Só compreendo e admitirei que me venha a faltar tempo para escrever, quando me vierem convidar para ser ministro da Educação.
Não do Sócrates, já se sabe. Esse convite, recusei. (Foi por isso que foram buscar, à última da hora, coitada, a sra. D. Isabel Alçada, que, por causa disso, teve de passar por mentirosa...)

quinta-feira, setembro 10, 2009

QUE MAIS PODERIA SIGNIFICAR?

Acordo numa cama. Estou sem memória alguma. Escapa-me quem sou, ou que me aconteceu.
Estou com os olhos enfaixados por ligaduras.
Percebo, por um indefinível ruído, que corre um fio de soro para a minha veia.
É, certamente, um hospital.
Perto, oiço vozes em surdina.

Quando alguém acorda sem memória, num hospital, de olhos cegados por ligaduras,
e escuta vozes que discutem em surdina, isso só pode significar que estão a planear matá-lo.

terça-feira, setembro 01, 2009

O CEGO E A BÊBEDA

O cego não teve tempo para dar nem quatro ou cinco passos, riscando a sua bengala ao longo do muro, quando tropeçou na velha agachada diante dele.
«Cruzes! Que é isto?», perguntou.
«Bolas! Já não se pode baixar uma pessoa sossegada.»
«Ó minha senhora! Mas que faz aí toda torcida? Está maldisposta? Deu-lhe algum fanico?»
«Não», respondeu a velha. «Só queria fazer chichi.»
«Pelo amor de Deus! Aqui não, minha senhora. Venha a minha casa. É mesmo aqui ao pé. Venha daí!»

Seguiram. A velha era levada da breca. Perguntou ao cego, depois de se lhe ter servido do wc, se ele não teria qualquer coisa que se bebesse. Estava um calor..!

O cego dispensou-lhe o que tinha: uma garrafa de uísque.
E a mulher, que começou por utilizar um copo, afeiçoou-se de tal modo à garrafa que, por fim, já bebia pelo gargalo. Despachou a beberagem num ápice.

Depois, completamente bêbeda, atirou-se para o sofá.
«Ah! Que isto é muito confortável! Olhe, se não se importa, fico por aqui. Durmo cá em casa...»
E já quase roncava na sua bebedeira absurda, quando o cego se impôs. Tanto, não! Não podia ser! Tinha família - a mulher ciumenta, a filha pequenita - de modo que, se já mijara, se já bebera, que se fosse...

Mas não foi fácil, porque a mulher estava completamente embriagada. O cego é que teve praticamente de a levar aos ombros. Ele sem ver coisa alguma (como é óbvio), tropeçando amiúde, ela esparramando-se-lhe em cima, abrindo os braços, rouquejando umas canções brejeiras, assim sairam, num estranhíssimo pacote humano, e foram caindo até a um banco de jardim, onde ele a depositou - e deixou!

sexta-feira, agosto 21, 2009

QUALQUER COISA COMO UM AFORISMO TRÁGICO

Pode suceder - e é até, talvez, mais frequente do que se pensaria - possuir-se talento para se ser excelente, mas não se ter vocação para isso.

Acredito que pareça terrível. É, contudo, certamente muito menos dramático do que:

ter-se vocação para se ser excelente

mas não ter talento para isso...

sábado, agosto 15, 2009

O FEITIÇO PELA CULATRA III: O «TWIST» FINAL

O homem não era um pedófilo, nem um louco, nem um assassino em série.
Era um cidadão pacato, um pouco nervoso, já careca no alto da cabeça. Era Delegado de Propaganda Médica, não tinha mais do que dois pares de sapatos, uns castanhos e outros negros. Detestava que o confundissem com uma Testemunha de Jeová. O que, regularmente, acontecia: já sucedera, ao todo, mais do que três vezes.
O homem era simplesmente isto. Enervara-se com a chamada. Primeiro, assustara-se: Quem será, e a querer falar-me nesta aflição, a pedir-me que pague o telefonema...? Depois, percebera que eram miúdos. A brincar. E pensou: Vou dar-lhes uma lição!
Só isto. Quando percebeu que o número em causa se mantinha permanentemente desligado, que já o não atendiam, sentiu a alma rejubilar. «Apanharam um susto!» Mas não resistiu - e continuou.

O homem era somente isto.
Como sei?
É que o homem sou eu. De voz cortês. Cidadão pacato.
Mas como prová-lo!? Como prová-lo, agora que me prenderam porque um jovem chamado Nuno se suicidou - por enforcamento, o que é pouco vulgar em jovens - e, investigando no seu telemóvel, deram com as minhas mensagens, dezenas, centenas para não dizer milhares..., perseguindo, ameaçando, terríveis, «Estou perto», «Hoje estaremos frente a frente...», «Apanhei-te»?

Como provar que sou unicamente um homem que não quer da vida senão, para já, um terceiro par de sapatos?

quinta-feira, agosto 13, 2009

O FEITIÇO PELA CULATRA - II

Mas, repentinamente, Mateus tinha de se ir embora. E a conversa de despedida entre os dois marcou-o profundamente.
- Cê tá frito! - disse-lhe o amigo, ao sair, como se o abandonasse. - Desta vez cê pôs a pata na poça.
«Cê está»!? «Cê Pôs!»? Onde raio estava então o «nós»?
-Cê sabe que agora eu tenho de ir -, rematou Mateus.

Nuno desligou o telemóvel, é claro. Mas, num certo sentido, nunca o telemóvel estivera tão ligado, tão presente, tão aceso como agora. É que ele não podia pensar em nada mais, nada mais. Seria possível que o seu número estivesse «sob vigilância»? De quem? Tinha um cartão vulgar, não associado a nenhum proprietário; quem o vigiaria, e como? Por outro lado, hoje, pensou, existem novos aparelhos, detectores sofisticados: sabia de mulheres que compravam dispositivos certeiros para saber onde se encontravam exactamente os maridos infiéis, ou vice-versa...

A mãe protestou:
- Nuno, estás com o móvel fechado? Sabes que isso me preocupa, quero saber sempre de ti...

Preocupava-se? Ai sim? Pois bem, agora tinha sérias razões para se preocupar. E ele nada lhe podia dizer: nada...

Quando tornou a ligar, no dia seguinte, a medo, viu o seu medo justificado: tinha a caixa cheia de mensagens - escritas e de voz, «Não me escapas», «Vou apanhar-te», «Estou perto, muito perto», «Esconde-te!», «Não adormeças de noite, estarei a ver-te!»

Um pedófilo? Um louco? Um assassino em série?

Chorou.

quarta-feira, agosto 12, 2009

O FEITIÇO PELA CULATRA - I

Chegou a ser divertido por um instante.

Estavam os dois, ele e Mateus. A ideia poderia ter sido dele ou de Mateus, seu amigo brasileiro: era indiferente; na verdade, as ideias de um e de outro misturavam-se numa confusão de rios onde se perdia a origem e o proprietário.
Inventaram um número de telemóvel (vodafone), partindo do princípio de que pertenceria certamente a alguém, e recorreram ao serviço vodafone para pedir que o dono do telemóvel aceitasse pagar a chamada.

O homem do número em causa aceitou.
Tinha uma voz máscula, pausada, cortês.
- Sim? - perguntou de lá, másculo, pausado, cortês.
- Como é que o senhor se chama? - inquiriu Nuno.
- Eu!? Essa agora! Diga-me você quem é, por favor. E depressa, que eu estou a pagar...
- Como é que o senhor se chama? - insistiu Nuno, enquanto o amigo Mateus escondia a cabeça sob a almofada para que o não ouvissem rir.
-Oiça - respondeu o homem. - Não me macem. Deve ser engano. Com licença.
E desligou.

Também se tornava difícil recordar quem decidira que deveriam continuar a brincadeira.
Mas, vez após vez, o homem aceitava sempre a chamada e, quando a operadora procedia à ligação, Nuno e Mateus não atendiam.
Uma vez. Duas, três vezes.
Depois, perceberam que o senhor lhes telefonava já por sua própria inciativa.
Não atendiam.
O homem insistia. Tornava à carga.
Quando atenderam, por fim, preparados para responder com vozes de monstro e guinchos, ouviram simplesmente isto:
- Sabe que o seu telefone está sob vigilância?
- Desliga essa porcaria, desliga essa porcaria! - gritou Mateus.
Ainda lhes chegou a voz, menos pausada, mais máscula, absolutamente descortês:
- Eu vou chegar aí. Juro que chego!

domingo, agosto 02, 2009

BLOGUES & BLOGUES


É qualquer coisa assim:
Gaston pede a um amigo que lhe tome conta do ratinho. Mas, explica, tomar conta do ratinho implica não perder de vista o gato, que vigia, atento e esfomeado, o inocente roedor. Por outro lado, há que fazer atenção à gaivota, que inveja o mesmo rato, podendo, ainda por cima, entrar em luta com o gato de quem tem ciúmes. Em todo o caso, a gaivota tem uma alternativa: o peixinho vermelho; se ela se cansar de vigiar o rato, poderá interessar-se perigosamente pelo peixinho vermelho, chamando, aliás, para este, a atenção do gato. «Percebeste? Tudo bem? Ficas então a tomar conta do meu ratinho, como prometeste?»

Às vezes, a rede de blogues em que me teci recorda-me esta história. Por um lado, porque está aqui o Kaostico. Va bene! Mas, entretanto, dei em participar com grande empenho e prazer no blogue do clube de cinema. Agrada-me que os leitores do kaostico, se ainda os há, espreitem o Gostos Discutem-se, mas não o inverso: afinal, é enquanto professor civilizado e sério que me dedico ao cinema, e não me parece bem que os alunos com quem partilho a feitura do Gostos Discutem-se descubram as minhas facetas kaosticas. Não contente com isso, iniciei o Profissão: Leitor, sobre livros. Que os meus alunos do Clube de Cinema tenham, deste, um link para o Profissão: Leitor, parece-me aceitável. Mas, uma vez mais, não pode haver deste nenhum link para o Kaostico. E quem quero eu que me visite ao blogue de poesia? Bem, não certamente todos os leitores do Kaostico, porque me tem parecido que os há pouco dados a poetices, porque os não quero incomodar e porque me sinto demasiado exposto nos meus poemas. Do Kaostico, gostaria que quem quisesse fosse ao Cara Danjo. Mas, evidentemente, não do Clube de Cinema, não do Profissão: Leitor, não...

Enfim, acaba por se tornar exasperante possuir todas estas facetas que se envergonham umas das outras.

Bem me prevenia o psiquiatra!