Há um equívoco de que alguns Encarregados de Educação podem ser vítimas. Previno-os, embora para mim seja já demasiado tarde: fui um dos Encarregados de Educação que se deixaram enganar.
A questão é sempre a mesma. Pensa-se que ao escolher certas disciplinas, aparentemente mais fáceis, se ajuda o respectivo encarregando a ter uma nota razoável e, portanto, a melhorar a média. O problema é que, geralmente, as disciplinas "fáceis" são as que são leccionadas por professores complexados. Os quais levaram anos odiando, primeiramente, o facto de as suas disciplinas serem consideradas "fáceis"; e que se dedicam, quando conseguem, a torná-las mais "rigorosas", "exigentes" e "difíceis" do que as demais.
Isso já acontecia com Educação Física. [Ginástica, no meu tempo]. Cansados de serem professores menores, aqueles a que ninguém ligava nas salas de professores, com os seus fatos de treino e os apitos ao peito, aproveitaram conscienciosamente o facto de a Educação Física ter passado a ser levada a sério, contando para reprovação. Desde aí, alunos de óculos, autênticos ratos de biblioteca, cromos completos, com laboratórios de Física e Química montados no quarto, onde, secretamente, podem ter inventado o meio de viajar no tempo, vêem, apesar de 20 em tudo o mais, a sua média comprometida pelo professor de Educação Física. Um tipo, nos tempos que correm, com doutoramento na Universidade do Mourinho. Que abre calhamaços cheios de gráficos que indicam precisamente por que o brilhante aluno de Ciências não pode ter mais do que 10 a Educação Física...
Sucede o mesmo com o Espanhol. Dios! Não poderia ter optado por Francês, uma língua culta (apesar de já não ser bem o que era...?) Não podia ter optado por Literatura Portuguesa? Por que raio me passou pela cabeça de que todos os portugueses são bons em Espanhol? Que se o meu filho aprendesse a dizer correctamente «Los caramelos de Badajoz son muy buenos» fazia a disciplina com uma classificação elevada?
Apanhou pela frente um professor arrogante e intransigente, que se deliciava a ouvir os alunos [para treinarem a pronúncia castelhana], lendo, em voz alta, páginas da sua dissertação de doutoramento [não sei em quê]; que se ofendia com desvios na acentuação e lhes exigia respostas sem erros em testes que eu próprio não entendia.
Não quero desmerecer a Educação Física (até porque tenho pânico de que um professor de EF leia este post) nem a língua do país onde foi criado o sublime D. Quijote. Mas caramba - têm de ser mais rigorosos e mais sérios do que todos os outros - a Matemática, a Física e Química, a Literatura...?
sábado, outubro 15, 2011
quinta-feira, setembro 29, 2011
aforismos kaosticos
Faz tanto sentido dizer que a saúde é um direito, como dizer que a morte é um dever.
MANUAL DE INSTRUÇÃO DAS FADINHAS
1. Muitas meninas pequeninas são fadas e não sabem. As suas asas permanecem invisíveis: só conseguem vê-las pessoas boas - e nem todas as pessoas boas, mas as que crêem em fadas.
2. É-se uma pequenina fada até aos dez anos de idade.
3. Certas meninas poderão continuar fadas, mesmo depois dos dez anos: é necessário que a lua as escolha.
4. As meninas que queiram continuar fadas para sempre deverão aprender a prestar atenção à lua. E dizer-lhe, todas as noites: «Lua, eu gostava de ser uma fada para sempre. Não te posso obrigar, mas por favor, repara em mim, por favor, escolhe-me».
5. As meninas-fada têm de ter muito cuidado com as asas, à noite, quando se deitam. Para isso, bebam três golos de água antes de entrarem para a cama: magicamente, as asas desaparecem durante o sono.
6. As meninas-fada nunca poderão usar os seus poderes para fazer mal. O bem é o seu caminho.
7. Fadas não se dão bem com abelhas - ninguém sabe a razão, mas uma lenda afirma que as abelhas invejam as asas das meninas, mais bonitas e mais brilhantes.
2. É-se uma pequenina fada até aos dez anos de idade.
3. Certas meninas poderão continuar fadas, mesmo depois dos dez anos: é necessário que a lua as escolha.
4. As meninas que queiram continuar fadas para sempre deverão aprender a prestar atenção à lua. E dizer-lhe, todas as noites: «Lua, eu gostava de ser uma fada para sempre. Não te posso obrigar, mas por favor, repara em mim, por favor, escolhe-me».
5. As meninas-fada têm de ter muito cuidado com as asas, à noite, quando se deitam. Para isso, bebam três golos de água antes de entrarem para a cama: magicamente, as asas desaparecem durante o sono.
6. As meninas-fada nunca poderão usar os seus poderes para fazer mal. O bem é o seu caminho.
7. Fadas não se dão bem com abelhas - ninguém sabe a razão, mas uma lenda afirma que as abelhas invejam as asas das meninas, mais bonitas e mais brilhantes.
domingo, setembro 04, 2011
10 MANDAMENTOS DO ASPIRANTE A ESCRITOR
1. Não esperes demasiado dos amigos de que seria lógico esperar algo. [A colega que conhece «demi-monde» e divulgará a tua obra, a parente de um próximo, que se dá com escritores famosos, e promete mostrar-lhes o teu trabalho, o jovem que te fará uma entrevista decisiva: verás que, no momento em que precisas, têm mais em que pensar].
2. Mantém-te atento a todos os de que nada esperarias: subitamente, um deles poderá ser, para a tua obra, a mão eficaz do destino.
3. Nunca te sentes aguardando que uma editora acabe dando por ti: acredita, as editoras têm gente muito estúpida à sua frente. Em geral.
4. Junta dinheiro. Faz um pé-de-meia. Publica à tua custa: esse deve ser o início.
5. Aprende a usar as novas tecnologias: blogues, facebook, sites: gratuitos e chegando longe e a muitos.
6. Persiste. Não consegues ao fim de dez anos? E que são dez anos? Ou vinte? Ou trinta? Um dia, hás-de conseguir.
7. Ou não. Quem sabe? Mas confia em que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
8. Quando espreitar uma ligeira oportunidade, crava nela os dentes. As ligeiras oportunidades - seja uma editora marginal, seja uma proposta modesta - serão, a prazo, porventura, a maior das oportunidades.
9. Não reajas mal às sugestões de quem te leu. À opinião de um amigo ou à de uma editora. Afinal, não é para ti próprio que escreves. Ouve, sonda, aprende com as primeiras leituras.
10. Mas descobre e estabelece a tua fronteira. Afinal, és tu o escritor. Decide qual é, no que escreves, o teu ponto de absoluta não-cedência. E mantém-te fiel a ele.
2. Mantém-te atento a todos os de que nada esperarias: subitamente, um deles poderá ser, para a tua obra, a mão eficaz do destino.
3. Nunca te sentes aguardando que uma editora acabe dando por ti: acredita, as editoras têm gente muito estúpida à sua frente. Em geral.
4. Junta dinheiro. Faz um pé-de-meia. Publica à tua custa: esse deve ser o início.
5. Aprende a usar as novas tecnologias: blogues, facebook, sites: gratuitos e chegando longe e a muitos.
6. Persiste. Não consegues ao fim de dez anos? E que são dez anos? Ou vinte? Ou trinta? Um dia, hás-de conseguir.
7. Ou não. Quem sabe? Mas confia em que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
8. Quando espreitar uma ligeira oportunidade, crava nela os dentes. As ligeiras oportunidades - seja uma editora marginal, seja uma proposta modesta - serão, a prazo, porventura, a maior das oportunidades.
9. Não reajas mal às sugestões de quem te leu. À opinião de um amigo ou à de uma editora. Afinal, não é para ti próprio que escreves. Ouve, sonda, aprende com as primeiras leituras.
10. Mas descobre e estabelece a tua fronteira. Afinal, és tu o escritor. Decide qual é, no que escreves, o teu ponto de absoluta não-cedência. E mantém-te fiel a ele.
quarta-feira, agosto 24, 2011
Pergunta ao Lado
Duda, meu filho já de dezasseis anos [como o tempo passa..!] pergunta-me se acho que ele está preparado para a sua primeira experiência sexual.
Meu filho errou totalmente a questão.
Haveria que me perguntar mas era isto:
«Pai, achas que tu estás preparado para que eu tenha a minha primeira experiência sexual?!»
Meu filho errou totalmente a questão.
Haveria que me perguntar mas era isto:
«Pai, achas que tu estás preparado para que eu tenha a minha primeira experiência sexual?!»
após contar 3 míseros "gosto" num texto absolutamente genial
o parco número de "gostos" que merecem os meus textos mais brilhantes no facebook ilustra bem a frase de cristo: «muitos são os chamados, mas poucos os eleitos»
terça-feira, agosto 23, 2011
não sei se pode chamar-se-lhe teimosia...
Daisy faz tudo o que a mãe diz - mas, em geral, só quando está com o pai; e faz tudo o que o pai diz, mas nunca quando está com este, e sim quando está com a mãe.
Mãe e pai de Daisy são suficientemente diferentes um do outro para que isso seja, por vezes, muito complicado...
Mãe e pai de Daisy são suficientemente diferentes um do outro para que isso seja, por vezes, muito complicado...
terça-feira, agosto 16, 2011
sim, bem sei
Citando Millôr Fernandes, um cara absolutamente genial:
«Quando um político grita que outro político engana o povo, você preste atenção: é impossível ele ocultar completamente um leve traço de inveja»
«Quando um político grita que outro político engana o povo, você preste atenção: é impossível ele ocultar completamente um leve traço de inveja»
domingo, agosto 14, 2011
a importância dos pormenores
Suponho que nunca antes se pensou nisto.
Eu sei que a cor vermelha não é a verdadeira causa da reacção dos touros. Mas não está provado que não seja provocadora de lobos.
Por que raio é que uma menina que quer passar despercebida ao lobo da floresta, levando o lanche à sua avozinha, sozinha, por aqueles caminhos perigosos, haveria de se vestir com um capuchinho Vermelho!? E logo vermelho, uma cor de tão eróticas conotações. Que pouca-vergonha!
A menina era menor? Então e a mãe? Não queria saber de nada disso, mandou-a dali para fora [se calhar para receber um homem em casa], não controlava o que a filha vestia, e, depois, que esperava...?
Há outra coisa que a história não revela explicitamente, mas é fácil reduzir a duas possibilidades.
Uma avó não pode ser confundida com um lobo mau. A não ser que:
a) a menina fosse mais do que míope, quase cega,
ou
b) a avó fosse muito feia (e peluda...)
Não me agradeçam. Fico satisfeito por ter podido lançar uma nova luz sobre pormenores que, pelos vistos, preferem esconder-nos
Eu sei que a cor vermelha não é a verdadeira causa da reacção dos touros. Mas não está provado que não seja provocadora de lobos.
Por que raio é que uma menina que quer passar despercebida ao lobo da floresta, levando o lanche à sua avozinha, sozinha, por aqueles caminhos perigosos, haveria de se vestir com um capuchinho Vermelho!? E logo vermelho, uma cor de tão eróticas conotações. Que pouca-vergonha!
A menina era menor? Então e a mãe? Não queria saber de nada disso, mandou-a dali para fora [se calhar para receber um homem em casa], não controlava o que a filha vestia, e, depois, que esperava...?
Há outra coisa que a história não revela explicitamente, mas é fácil reduzir a duas possibilidades.
Uma avó não pode ser confundida com um lobo mau. A não ser que:
a) a menina fosse mais do que míope, quase cega,
ou
b) a avó fosse muito feia (e peluda...)
Não me agradeçam. Fico satisfeito por ter podido lançar uma nova luz sobre pormenores que, pelos vistos, preferem esconder-nos
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acreditem que não vos contam tudo
segunda-feira, agosto 08, 2011
aforismos kaosticos e patéticos... se não patetas...!
sinto que ontem encontrei a metáfora exacta para a vacuidade da vida: estava a tentar varrer as folhas do chão, num quintal ventoso...
quarta-feira, agosto 03, 2011
ANTÓNIO JOSÉ SEGURO: UMA BIOGRAFIA EXAUSTIVA
Não sei por que razão se tem especializado o PS em dar tiros no pé.
Ao princípio, foi Sócrates. E digo bem: «ao princípio», porque o líder se encarregou de fazer tábua rasa de todo o passado do partido, sobretudo no que, nesse passado, cheirava a esquerda.
Sócrates foi, portanto, como um novo princípio do partido - princípio que, por sinal, era quase o fim do PS.
Neste segundo momento, enquanto Sócrates foi um instantinho a Paris estudar o antigo Sócrates, o partido teve de se decidir entre duas figuras bizarras: Francisco de Assis seria a «continuidade»: em muito mais feio, sempre com a barba por fazer e um horroroso tique no ombro. Despacharam-no, ainda bem.
Restava Seguro. Lamento que o PS fosse, no fundo, chamado a escolher o mal menor. Porque há que não esquecer: o mal menor é sempre, e apesar de tudo, um mal.
Seguro é um «apparatchick». Nunca deu aulas, nem lavou pratos, nem se dedicou ao jornalismo. Não creio que, na adolescência, tenha participado, ao menos, em «trabalho de férias para jovens». Suponho que nunca estudou. Enfiou-se na Juventude do PS e, adequando-se rapidamente às estruturas do aparelho, lá foi percorrendo o seu caminho, vagarosa e prudentemente, sem arremedos nem fantasia, sem riscos nem coragem, sem palavras que se lhe notassem. Esperando, só. Esperando que se chegasse a um ponto em que já não sobejasse mais ninguém para ser escolhido. Faz lembrar um pouco o Pacheco, aquela adorável figura de Eça de Queirós, que de tal modo se mantinha silencioso, que foi gerando, em torno de si, expectativas que o guindavam sempre para mais alto. Pacheco tinha uma testa que falava por si. «É a testa de um pensador!»; Seguro tem aqueles olhos de cão magoado. E, precisamente, fala de afectos e de mudança. Tem tudo para ser um líder vitorioso: sobretudo, a mais total e absoluta ausência de ideias.
Ao princípio, foi Sócrates. E digo bem: «ao princípio», porque o líder se encarregou de fazer tábua rasa de todo o passado do partido, sobretudo no que, nesse passado, cheirava a esquerda.
Sócrates foi, portanto, como um novo princípio do partido - princípio que, por sinal, era quase o fim do PS.
Neste segundo momento, enquanto Sócrates foi um instantinho a Paris estudar o antigo Sócrates, o partido teve de se decidir entre duas figuras bizarras: Francisco de Assis seria a «continuidade»: em muito mais feio, sempre com a barba por fazer e um horroroso tique no ombro. Despacharam-no, ainda bem.
Restava Seguro. Lamento que o PS fosse, no fundo, chamado a escolher o mal menor. Porque há que não esquecer: o mal menor é sempre, e apesar de tudo, um mal.
Seguro é um «apparatchick». Nunca deu aulas, nem lavou pratos, nem se dedicou ao jornalismo. Não creio que, na adolescência, tenha participado, ao menos, em «trabalho de férias para jovens». Suponho que nunca estudou. Enfiou-se na Juventude do PS e, adequando-se rapidamente às estruturas do aparelho, lá foi percorrendo o seu caminho, vagarosa e prudentemente, sem arremedos nem fantasia, sem riscos nem coragem, sem palavras que se lhe notassem. Esperando, só. Esperando que se chegasse a um ponto em que já não sobejasse mais ninguém para ser escolhido. Faz lembrar um pouco o Pacheco, aquela adorável figura de Eça de Queirós, que de tal modo se mantinha silencioso, que foi gerando, em torno de si, expectativas que o guindavam sempre para mais alto. Pacheco tinha uma testa que falava por si. «É a testa de um pensador!»; Seguro tem aqueles olhos de cão magoado. E, precisamente, fala de afectos e de mudança. Tem tudo para ser um líder vitorioso: sobretudo, a mais total e absoluta ausência de ideias.
A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL ANTES DE ESTAR NA MODA
Há séculos, antes, portanto, de se inventar a designação «inteligência emocional», e de se lhe ter definido uma área fundamental no universo da psicologia, e de se terem desatado a escrever tratados acerca da questão, o velho Kant já tinha esgotado o assunto. Para ele não se tratava de um problema «psicológico» nem «emocional», mas de um problema «moral»: sintetizou-o num desígnio, sob uma fórmula simples, que cito de memória: «saber sempre colocar-se no lugar do outro».
terça-feira, agosto 02, 2011
e quando a pior das hipóteses, a que não se prevê, é que se realiza?
Passo estes dias sozinho em casa com meu filho.
Entretanto, meu primo esteve em Portugal para umas curtas férias. Combinámos que ele e a irmã iam, à noite, chez moi tomar um copo.
Como sou um péssimo cozinheiro e ando com o dinheiro contado, gaguejei ao telemóvel que viessem jantados - numa tremenda prova da má-educação a que o desespero pode levar as pessoas. [Não conseguia imaginar-me cozinhando uma refeição aceitável para receber convidados, nem podia gastar demasiado em comida feita: como raio chega um tipo aos cinquenta e tal anos sabendo pouco mais do que grelhar um ovo, se é o que se faz ao ovo...?]
Ficou claro entre nós: «Vamos então para uns copos», serenou-me ele.
Fui com o meu filho ao supermercado comprar umas coizecas para nós dois: um par de espetadas para cada um, que acompanharíamos despretensiosamente com batatas fritas de pacote. [E que pai alimenta assim o filho pelo qual fica responsável?]
Mas a história não conclui aqui.
A minha tia refaz-se de uma operação. Primo e mana visitaram-na, falaram-lhe acerca da combinação feita comigo. Ela não terá percebido bem os pormenores. Quis facilitar-me certamente a vida: telefonou para dizer que, então, o meu primo levaria qualquer coisa para comermos em minha casa. Pareceu-me uma complicação [comida a derramar-se durante a viagem deles, carro ficando com cheiro de alimentos...]
Disse-lhe que não, que eu e Duarte já estávamos a tratar das compras, íamos só tasquinhar, primo & prima que se desenrascassem e aparecessem, como inicialmente planeado, «só para uns copos».
Eis o fim da história: os primos chegam a minha casa pouco depois, cheios de fome, para jantar e sem trazer nada. Porque, para complicar, o que a tia compreendera é que eu estava já a tratar das compras. E disse ela ao meu primo: «Não compres nada, que o rapaz até fica ofendido, diz que está já a tratar de compras. Deve estar a preparar-vos cá um jantar...»
«Mas ele tinha dito que não havia jantar...»
«Ai, isso não sei. Se calhar mudou de ideias.»
«Mas então, nem levo uma garrafa de vinho?»
«Nada, nada, coitado. Ele quer preparar tudo...»
Inútil acrescentar que, quando os primos chegaram, impulsionados pela fome e uma certa curiosidade relativamente ao que lhes «ia preparar», meu filho e eu já tínhamos devorado as espetadas - e as espetadas eram rigorosamente tudo o que havia em casa para comer...
Entretanto, meu primo esteve em Portugal para umas curtas férias. Combinámos que ele e a irmã iam, à noite, chez moi tomar um copo.
Como sou um péssimo cozinheiro e ando com o dinheiro contado, gaguejei ao telemóvel que viessem jantados - numa tremenda prova da má-educação a que o desespero pode levar as pessoas. [Não conseguia imaginar-me cozinhando uma refeição aceitável para receber convidados, nem podia gastar demasiado em comida feita: como raio chega um tipo aos cinquenta e tal anos sabendo pouco mais do que grelhar um ovo, se é o que se faz ao ovo...?]
Ficou claro entre nós: «Vamos então para uns copos», serenou-me ele.
Fui com o meu filho ao supermercado comprar umas coizecas para nós dois: um par de espetadas para cada um, que acompanharíamos despretensiosamente com batatas fritas de pacote. [E que pai alimenta assim o filho pelo qual fica responsável?]
Mas a história não conclui aqui.
A minha tia refaz-se de uma operação. Primo e mana visitaram-na, falaram-lhe acerca da combinação feita comigo. Ela não terá percebido bem os pormenores. Quis facilitar-me certamente a vida: telefonou para dizer que, então, o meu primo levaria qualquer coisa para comermos em minha casa. Pareceu-me uma complicação [comida a derramar-se durante a viagem deles, carro ficando com cheiro de alimentos...]
Disse-lhe que não, que eu e Duarte já estávamos a tratar das compras, íamos só tasquinhar, primo & prima que se desenrascassem e aparecessem, como inicialmente planeado, «só para uns copos».
Eis o fim da história: os primos chegam a minha casa pouco depois, cheios de fome, para jantar e sem trazer nada. Porque, para complicar, o que a tia compreendera é que eu estava já a tratar das compras. E disse ela ao meu primo: «Não compres nada, que o rapaz até fica ofendido, diz que está já a tratar de compras. Deve estar a preparar-vos cá um jantar...»
«Mas ele tinha dito que não havia jantar...»
«Ai, isso não sei. Se calhar mudou de ideias.»
«Mas então, nem levo uma garrafa de vinho?»
«Nada, nada, coitado. Ele quer preparar tudo...»
Inútil acrescentar que, quando os primos chegaram, impulsionados pela fome e uma certa curiosidade relativamente ao que lhes «ia preparar», meu filho e eu já tínhamos devorado as espetadas - e as espetadas eram rigorosamente tudo o que havia em casa para comer...
LÍNGUAS DE BACALHAU
Eu nem sequer sabia que o bacalhau tivesse língua. Para quê? Ele fala? Lambe?
Mas de uma conversa que tive, há dias, com um género de especialista, retirei a ideia de que há um petisco verdadeiramente sublime: línguas de bacalhau!
Curiosamente, segundo o meu primo - a quem, depois, quis convencer da magnificência deste prato - criei uma estranha mitologia em torno das ditas «línguas». Como o especialista me dissesse que se tratava de um alimento excessivamente gordo, brutal para o fígado, e que ele próprio adorava mas evitava, não comendo senão uma ou duas vezes por ano, a ideia que eu construí foi a de que seria um pitéu altamente perigoso.
Um prato único, mas com um terrível poder bélico. De provar e de fugir. De comer uma vez na vida, como se nenhuma vida pudesse considerar-se completa sem essa experiência, mas tendo o cuidado de se não ganhar o vício, nem sequer o hábito, sob pena de perder de uma vez a referida vida.
E, portanto, guardo-me para esse momento. A medo. Tentando ser digno dele, rezando para que me não mate. Um dia provarei as línguas de bacalhau. E depois, poderei morrer - mas espero que não logo, e espero que não disso...
Mas de uma conversa que tive, há dias, com um género de especialista, retirei a ideia de que há um petisco verdadeiramente sublime: línguas de bacalhau!
Curiosamente, segundo o meu primo - a quem, depois, quis convencer da magnificência deste prato - criei uma estranha mitologia em torno das ditas «línguas». Como o especialista me dissesse que se tratava de um alimento excessivamente gordo, brutal para o fígado, e que ele próprio adorava mas evitava, não comendo senão uma ou duas vezes por ano, a ideia que eu construí foi a de que seria um pitéu altamente perigoso.
Um prato único, mas com um terrível poder bélico. De provar e de fugir. De comer uma vez na vida, como se nenhuma vida pudesse considerar-se completa sem essa experiência, mas tendo o cuidado de se não ganhar o vício, nem sequer o hábito, sob pena de perder de uma vez a referida vida.
E, portanto, guardo-me para esse momento. A medo. Tentando ser digno dele, rezando para que me não mate. Um dia provarei as línguas de bacalhau. E depois, poderei morrer - mas espero que não logo, e espero que não disso...
segunda-feira, julho 18, 2011
PIKATCHU!?
Minha filha está numa idade curiosa, em que ouve tudo, tudo absorve - e nada compreende, mas reproduz o que ouviu com a maior das naturalidades. Os resultados são imprevisíveis.
Hoje à noite, quando tentava adormecê-la, perguntou-me:
«Pai, o Pikatchu não evoluiu, pois não?»
Não sei sequer se "Pikatchu" se escreve assim.
Como imaginam, nem percebo esta pergunta, quanto mais ser capaz de uma resposta.
Alguém me diz se o Pikatchu evoluiu, se não?
Alguém me diz, pelo menos, quem é o Pikatchu?
Hoje à noite, quando tentava adormecê-la, perguntou-me:
«Pai, o Pikatchu não evoluiu, pois não?»
Não sei sequer se "Pikatchu" se escreve assim.
Como imaginam, nem percebo esta pergunta, quanto mais ser capaz de uma resposta.
Alguém me diz se o Pikatchu evoluiu, se não?
Alguém me diz, pelo menos, quem é o Pikatchu?
quinta-feira, junho 30, 2011
DE ANTI-EDUQUÊS A MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Em teoria, não há nada de absolutamente disparatado no pensamento de Nuno Crato acerca dos exames.
Em teoria significa: se abstrairmos dos detalhes; se nos colocarmos num mundo puro, de formas platónicas.
O que ele diz é, afinal, isto: os exames são uma entidade externa, a única, aliás, capaz de avaliar friamente os alunos; sem se deixar condoer pelos seus olhos meigos, ou tristes, nem por situações familiares adversas de onde provenham. Ou o aluno sabe, ou o aluno não aprendeu - independentemente da morte dos familiares e independentemente, até, das suas «atitudes».
O corolário desta teoria seria, por sua vez, que os professores devem ser avaliados consoante os resultados dos seus alunos nos exames.
Platonicamente, tudo isto faz sentido.
Se começarmos a introduzir palhinhas e pedrinhas, ou seja, se principiarmos a introduzir a realidade, o sistema falha.
Em primeiro lugar, porque não considera o progresso do aluno. Isto é «eduquês»? Não creio. A palavra "progressão" é suspeita, por isso mesmo a evitei. O meu argumento é elementar. Se um aluno começa por "níveis" (níveis: outra cedência, perdoem-ma) muito baixos, digamos, cinco ou seis, e, porque se dedica e trabalha (evito "empenha"), melhora significativamente, suponhamos que para oito ou nove, parece-me claro que a evolução deste aluno merece ser valorizada - é mais importante que a de um aluno que se manteve no dezasseis, ou que passou de um dezasseis para um dezassete.
É evidente que o problema dos exames é o da sua cegueira. É o do que não podem ver nem ajuizar: o "sabe" ou "não sabe" que se traduz quantitativamente classifica só habilidades intelectuais e/ou de memorização. São elas importantes? É claro. São as únicas importantes? De modo nenhum, de modo nenhum. Por outro lado: «uma» prova será suficiente para demonstrar mesmo unicamente essas habilidades? De maneira nenhuma. Em «uma» prova, um exame, o aluno está nervoso, porventura mal dormido, preocupado e tenso. É irrelevante? Não é, não é...
É absolutamente certo, também, que um horizonte de exames transforma a escola numa gigantesca máquina de «preparação para exames». Com professores que evitam fazer aprofundamentos, ou ligações, ou relações, ou desvios - culturalmente interessantes, formativa e pedagogicamente fundamentais, mas irrelevantes do ponto de vista estrito da examinação final. Enterrei-me em «eduquês»? Os meus argumentos tresandam a isso? Talvez, mas, nesse caso, talvez tenha que ver com a parte mais saudável do eduquês.
Não desminto que sempre considerei Nuno Crato interessante. Mas temo que o ministro da educação seja menos interessante - e que se prepare para deitar fora vários bebés juntamente com a água do banho...
Em teoria significa: se abstrairmos dos detalhes; se nos colocarmos num mundo puro, de formas platónicas.
O que ele diz é, afinal, isto: os exames são uma entidade externa, a única, aliás, capaz de avaliar friamente os alunos; sem se deixar condoer pelos seus olhos meigos, ou tristes, nem por situações familiares adversas de onde provenham. Ou o aluno sabe, ou o aluno não aprendeu - independentemente da morte dos familiares e independentemente, até, das suas «atitudes».
O corolário desta teoria seria, por sua vez, que os professores devem ser avaliados consoante os resultados dos seus alunos nos exames.
Platonicamente, tudo isto faz sentido.
Se começarmos a introduzir palhinhas e pedrinhas, ou seja, se principiarmos a introduzir a realidade, o sistema falha.
Em primeiro lugar, porque não considera o progresso do aluno. Isto é «eduquês»? Não creio. A palavra "progressão" é suspeita, por isso mesmo a evitei. O meu argumento é elementar. Se um aluno começa por "níveis" (níveis: outra cedência, perdoem-ma) muito baixos, digamos, cinco ou seis, e, porque se dedica e trabalha (evito "empenha"), melhora significativamente, suponhamos que para oito ou nove, parece-me claro que a evolução deste aluno merece ser valorizada - é mais importante que a de um aluno que se manteve no dezasseis, ou que passou de um dezasseis para um dezassete.
É evidente que o problema dos exames é o da sua cegueira. É o do que não podem ver nem ajuizar: o "sabe" ou "não sabe" que se traduz quantitativamente classifica só habilidades intelectuais e/ou de memorização. São elas importantes? É claro. São as únicas importantes? De modo nenhum, de modo nenhum. Por outro lado: «uma» prova será suficiente para demonstrar mesmo unicamente essas habilidades? De maneira nenhuma. Em «uma» prova, um exame, o aluno está nervoso, porventura mal dormido, preocupado e tenso. É irrelevante? Não é, não é...
É absolutamente certo, também, que um horizonte de exames transforma a escola numa gigantesca máquina de «preparação para exames». Com professores que evitam fazer aprofundamentos, ou ligações, ou relações, ou desvios - culturalmente interessantes, formativa e pedagogicamente fundamentais, mas irrelevantes do ponto de vista estrito da examinação final. Enterrei-me em «eduquês»? Os meus argumentos tresandam a isso? Talvez, mas, nesse caso, talvez tenha que ver com a parte mais saudável do eduquês.
Não desminto que sempre considerei Nuno Crato interessante. Mas temo que o ministro da educação seja menos interessante - e que se prepare para deitar fora vários bebés juntamente com a água do banho...
sábado, junho 11, 2011
DICAS
No telejornal de ontem, José Alberto de Carvalho, com um fato engelhado, que se adaptava mal à sua postura de quem pede desculpa, falou-nos acerca de um imigrante astucioso que, pelo Norte acima ou abaixo, foi visitando diversas caixas multibanco: tinha um sistema de «clonagem» de cartões, que lhe possibilitou arrecadar uma quantia razoável. (Suponho que o que o senhor fazia era ajustar aos "multibancos" um dispositivo que lia o código do último cartão utilizado, de forma a que pudesse usá-lo a seguir).
O jornalista rematava a notícia dizendo que ia dar aos telespectadores algumas «dicas» (sim, juraria que empregou este termo), algumas «dicas para...»
Abri os ouvidos.
«... ensinar o que nunca se deve fazer, por forma a evitar ser vítima de...»
Suspirei. Que pena. Por um momento, cheguei a pensar que nos ia fornecer umas «dicas» para podermos clonar cartões...
O jornalista rematava a notícia dizendo que ia dar aos telespectadores algumas «dicas» (sim, juraria que empregou este termo), algumas «dicas para...»
Abri os ouvidos.
«... ensinar o que nunca se deve fazer, por forma a evitar ser vítima de...»
Suspirei. Que pena. Por um momento, cheguei a pensar que nos ia fornecer umas «dicas» para podermos clonar cartões...
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ao que um gajo se agarra em tempos de crise
domingo, junho 05, 2011
SURPREENDER-ME
Esta noite tive um sonho que me pôs obviamente em face do não-eu que há em mim, a parcela de mim que não corresponde ao meu padrão e, por isso, me surpreende.
Alucinante: primeiramente, tratou-se de um sonho em que mantive sempre a consciência de estar a sonhar; mas habitualmente, nesses sonhos em que o sonhador sabe estar sonhando, tudo é vago e difuso, quase como se se estivesse a um passo de acordar, ou como se não se estivesse verdadeiramente a dormir. Aqui, não. Era tudo muito nítido e consistente; lembro-me de passear por aqueles corredores apreciando-os devidamente, como alguém que visita os cenários de um estúdio e vai comentando, de si para si: «Sim senhor, sim senhor, muito bem, isto é exactamente como a realidade...»
Estava talvez numa universidade. Um pouco antiga: poderia ter sido construída a partir de um mosteiro. Tectos altos, abobadados, espaços amplos, colunas, escadarias; «isto é fantástico; nem parece um sonho, muito bem feito, muito bem feito». [Não, não estou a plagiar o filme Origem, estou a narrar o meu sonho].
Em baixo, numa espécie de cave, havia uma venda de livros e uma exposição de bonecos. Eram bonecos pequenos, não me recordo se de louça. Penso que não. Dois estavam numa prateleira, um deles de óculos dourados, com algum brilho, o outro de óculos de massa, muito grossos. Não tinham mais do que um palmo de altura, os bonecos.
Tenho noção de que olhei para os livros, os folheei, e pensei: «isto está tão bem feito, é tudo tão consistente e constante, que, se tornar a olhar para os bonecos, os encontro exactamente iguais ao que eram a última vez que os vi, com as mesmas cores, no mesmo sítio...»; e olhei mesmo a tempo de ver que os óculos negros do segundo boneco tinham passado a óculos dourados. Ri-me, como perante uma surpresa e uma boa partida, tornei a desviar os olhos, pensando: «e passado este instante de alucinação, volto a olhar e os óculos negros regressaram...»
Em vez de óculos, negros ou dourados, o boneco tinha agora cravado no rosto uns círculos estranhos, como instrumentos de tortura. Cravados, disse bem: pareciam círculos munidos de dentes que se espetavam na carne, para os fixar. [Como solução para alguém que perdesse frequentemente os seus óculos...]. Tornei a desviar, com uma ligeira angústia - os óculos negros não vão voltar...?
E acordei.
Alucinante: primeiramente, tratou-se de um sonho em que mantive sempre a consciência de estar a sonhar; mas habitualmente, nesses sonhos em que o sonhador sabe estar sonhando, tudo é vago e difuso, quase como se se estivesse a um passo de acordar, ou como se não se estivesse verdadeiramente a dormir. Aqui, não. Era tudo muito nítido e consistente; lembro-me de passear por aqueles corredores apreciando-os devidamente, como alguém que visita os cenários de um estúdio e vai comentando, de si para si: «Sim senhor, sim senhor, muito bem, isto é exactamente como a realidade...»
Estava talvez numa universidade. Um pouco antiga: poderia ter sido construída a partir de um mosteiro. Tectos altos, abobadados, espaços amplos, colunas, escadarias; «isto é fantástico; nem parece um sonho, muito bem feito, muito bem feito». [Não, não estou a plagiar o filme Origem, estou a narrar o meu sonho].
Em baixo, numa espécie de cave, havia uma venda de livros e uma exposição de bonecos. Eram bonecos pequenos, não me recordo se de louça. Penso que não. Dois estavam numa prateleira, um deles de óculos dourados, com algum brilho, o outro de óculos de massa, muito grossos. Não tinham mais do que um palmo de altura, os bonecos.
Tenho noção de que olhei para os livros, os folheei, e pensei: «isto está tão bem feito, é tudo tão consistente e constante, que, se tornar a olhar para os bonecos, os encontro exactamente iguais ao que eram a última vez que os vi, com as mesmas cores, no mesmo sítio...»; e olhei mesmo a tempo de ver que os óculos negros do segundo boneco tinham passado a óculos dourados. Ri-me, como perante uma surpresa e uma boa partida, tornei a desviar os olhos, pensando: «e passado este instante de alucinação, volto a olhar e os óculos negros regressaram...»
Em vez de óculos, negros ou dourados, o boneco tinha agora cravado no rosto uns círculos estranhos, como instrumentos de tortura. Cravados, disse bem: pareciam círculos munidos de dentes que se espetavam na carne, para os fixar. [Como solução para alguém que perdesse frequentemente os seus óculos...]. Tornei a desviar, com uma ligeira angústia - os óculos negros não vão voltar...?
E acordei.
sábado, junho 04, 2011
O ELOGIO DA MEDIOCRIDADE
Sou um tipo terrível. Sei-o perfeitamente. A minha visão sarcástica perturba um pouco; o meu prazer pela observação destrutiva e o meu gosto pelo ridículo raramente são bem-vindos. O sentido de humor que aprecio (e a que recorro implacavelmente) torna-me execrável. E delicioso.
Tentando divulgar, por todos os meios, o romance que escrevi, principiei a colaborar num blogue colectivo, que uma livraria disponibiliza aos autores que se auto-editam. Estou atento às reacções do público. Regresso continuamente ao computador, procuro na página do facebook, associada ao blogue, as reacções dos leitores; conto os «gosto». E é fantástico: um conto policial que tenho vindo a construir, episódio após episódio, e cujas personagens são animais, uma espécie de fábula negra, em suma, raramente consegue 5 ou 6 «gosto». A ideia é original, a fábula é culta: pisca o olho a Blacksad, ao detective Pepe Carvalho, que vai ensaiando receitas culinárias enquanto medita nos crimes, ao imortal Hercule Poirot. Tem humor, tem tensão, mistério. Inútil. 5 «gosto»; «6», na melhor das hipóteses.
Em contrapartida - desculpem-me a franqueza -, escreve no mesmo blogue um jovem, autor de certa saga nórdica, com deusas e deuses, cavalos e talismãs mitológicos. Ele faz desenhos: ora a deusa de que mais gosta, ora o guerreiro temível. A ideia é requentada, desculpem-me, desculpem-me, desculpem-me, mas, sobretudo, este jovem é um desesperante assassino da língua portuguesa. Um Odin cujo martelo se volta sobretudo contra a gramática. Custa ler, não tem interesse, é pesado, previsível - mas já o vi chegar aos 17 «gosto».
Ou então, o caso daquele senhor que se dedica ao que ele chama poesia. Sem sair do mesmo blogue. Ama, rima, associa a chuva ao choro. É paupérrimo. É de uma candura, de uma inocência, não tem talento, é verdade (não se pode ter tudo), mas tem tão boas intenções e uma sensibilidade quase divina (refiro-me à sensibilidade para o lugar comum). Talvez não tenha falado de paz, mas poderia. É o género. Pois não imaginam a catadupa de «gosto», os comentários que lhe garantem «lindo!» ou «que comovente», os :).
Entretanto, os meus episódios policiais prosseguem, entre as frases patéticas do poeta e a saga contra a língua portuguesa. Uma senhora escreve sobre uma menina e a grandeza do seu coração, e trás - dezenas de «gosto». Eu não tenho leitores, vá-se lá saber porquê. A ironia não pega, nem o sarcasmo, nem talvez a cultura. O lugar comum tem sempre leitores - satisfeitos consigo mesmos, prontos a premiar o medíocre. O raro não vinga.
É um post horroroso? Carregado de veneno e ressentimento? Eu sei. Eu sei. Eu sei. Era melhor não o ter escrito. Mas, já que o escrevi, por favor não o leiam.
Tentando divulgar, por todos os meios, o romance que escrevi, principiei a colaborar num blogue colectivo, que uma livraria disponibiliza aos autores que se auto-editam. Estou atento às reacções do público. Regresso continuamente ao computador, procuro na página do facebook, associada ao blogue, as reacções dos leitores; conto os «gosto». E é fantástico: um conto policial que tenho vindo a construir, episódio após episódio, e cujas personagens são animais, uma espécie de fábula negra, em suma, raramente consegue 5 ou 6 «gosto». A ideia é original, a fábula é culta: pisca o olho a Blacksad, ao detective Pepe Carvalho, que vai ensaiando receitas culinárias enquanto medita nos crimes, ao imortal Hercule Poirot. Tem humor, tem tensão, mistério. Inútil. 5 «gosto»; «6», na melhor das hipóteses.
Em contrapartida - desculpem-me a franqueza -, escreve no mesmo blogue um jovem, autor de certa saga nórdica, com deusas e deuses, cavalos e talismãs mitológicos. Ele faz desenhos: ora a deusa de que mais gosta, ora o guerreiro temível. A ideia é requentada, desculpem-me, desculpem-me, desculpem-me, mas, sobretudo, este jovem é um desesperante assassino da língua portuguesa. Um Odin cujo martelo se volta sobretudo contra a gramática. Custa ler, não tem interesse, é pesado, previsível - mas já o vi chegar aos 17 «gosto».
Ou então, o caso daquele senhor que se dedica ao que ele chama poesia. Sem sair do mesmo blogue. Ama, rima, associa a chuva ao choro. É paupérrimo. É de uma candura, de uma inocência, não tem talento, é verdade (não se pode ter tudo), mas tem tão boas intenções e uma sensibilidade quase divina (refiro-me à sensibilidade para o lugar comum). Talvez não tenha falado de paz, mas poderia. É o género. Pois não imaginam a catadupa de «gosto», os comentários que lhe garantem «lindo!» ou «que comovente», os :).
Entretanto, os meus episódios policiais prosseguem, entre as frases patéticas do poeta e a saga contra a língua portuguesa. Uma senhora escreve sobre uma menina e a grandeza do seu coração, e trás - dezenas de «gosto». Eu não tenho leitores, vá-se lá saber porquê. A ironia não pega, nem o sarcasmo, nem talvez a cultura. O lugar comum tem sempre leitores - satisfeitos consigo mesmos, prontos a premiar o medíocre. O raro não vinga.
É um post horroroso? Carregado de veneno e ressentimento? Eu sei. Eu sei. Eu sei. Era melhor não o ter escrito. Mas, já que o escrevi, por favor não o leiam.
terça-feira, maio 17, 2011
INSINUAÇÕES
Um plágio pressupõe, de algum modo, uma história secreta de paixão. Gosta-se tanto de uma música ou de uma ideia, que, afeiçoando-se a elas, um tipo se arrisca a reformulá-las. Inconscientemente. Plagiamos muitas vezes sem querer, sem nos apercebermos desse amor que nos move, dessa inconsciente tendência para repetir o que incorporámos. Influências que ressoam muito próximas, marcas, no que fazemos, que trazem um outro nome inscrito. Torna-se muito difícil determinar o que é ou não um plágio. O que ainda não é e o que já principiou a sê-lo. O que é repulsivo, isso sim, é o roubo: quando passo por meu um texto que sei que o não é. Quando copio e aponho o meu nome no trabalho de outrem..
Descubro, ultimamente, que «plágio» é também uma arma de arremesso. E das mais terríveis, porque insinuando, muitas vezes anonimamente - e quase sempre levianamente - deixamos estragos, minamos credibilidades, depositamos excremências no que é sério e límpido. Actua como um veneno lentíssimo: pode não matar, em todo o caso nunca mata rapidamente, mas influencia, perverte, subverte.
A blogosfera, percebi eu ultimamente, está toda inquinada por estas lutas. Entre leitores de blogues. Anónimos que passam no seu voo lesto, como pombos: deixam o cocó na lapela de um ser humano e desaparecem. (Mas regressarão, certamente). Fazem-no acerca de pessoas que respeito e admiro. E por quem poria as mãos no fogo: basta lê-las bem. O que me custa compreender, para além dos roubos (que nunca compreendi), é a acusação feita assim, de ânimo leve. O que me custa mesmo compreender é a consciência de uma pessoa assim: que alçapões, que caves, que tortuosos labirintos. Que invejas e que ressentimentos encobertos, e a coberto do anonimato.
Descubro, ultimamente, que «plágio» é também uma arma de arremesso. E das mais terríveis, porque insinuando, muitas vezes anonimamente - e quase sempre levianamente - deixamos estragos, minamos credibilidades, depositamos excremências no que é sério e límpido. Actua como um veneno lentíssimo: pode não matar, em todo o caso nunca mata rapidamente, mas influencia, perverte, subverte.
A blogosfera, percebi eu ultimamente, está toda inquinada por estas lutas. Entre leitores de blogues. Anónimos que passam no seu voo lesto, como pombos: deixam o cocó na lapela de um ser humano e desaparecem. (Mas regressarão, certamente). Fazem-no acerca de pessoas que respeito e admiro. E por quem poria as mãos no fogo: basta lê-las bem. O que me custa compreender, para além dos roubos (que nunca compreendi), é a acusação feita assim, de ânimo leve. O que me custa mesmo compreender é a consciência de uma pessoa assim: que alçapões, que caves, que tortuosos labirintos. Que invejas e que ressentimentos encobertos, e a coberto do anonimato.
sexta-feira, maio 06, 2011
SILÊNCIO
Protzka afirma não só que o silêncio é uma forma de comunicação (isso seria evidente), mas que é a principal forma de comunicação.
Pensa que, mesmo quando há palavras, o silêncio que subjaz às palavras diz mais do que as palavras: o silêncio pode desmentir o que se está a dizer - o silêncio que se refugia das palavras para se esconder numa expressão, num relancear de olhos pelo relógio, na geografia e na psicologia do lugar onde me sentei, no tremor das minhas mãos, na palidez do rosto.
Às vezes, não temos indícios sequer para ler o silêncio. Um mail a que não obtenho resposta, que significa? Talvez que o não tenham recebido. Ou que não houvesse - ainda - tempo para lhe prestar atenção. Ou indiferença? Desprezo?
Eu não sou só um leitor de segundos sentidos de frases. (Nisso, tornei-me imbatível). Sou também um excelente leitor de silêncios. Nunca deixo um silêncio por ler. Nunca vejo unicamente ausência e vazio, vejo a estupidez, a maldade (nos piores casos), o complexo de superioridade de quem se acha demasiado importante para dirigir a palavra aos insectos. A um insecto não vale, por vezes, a pena sequer perseguir com um jornal enrolado. Para quê? O silêncio trata dele.
[A não ser que se trate de um tipo particularmente estúpido de insectos incapazes de ler silêncios. Mas eu não sou desses. Suspeito até que já morri...]
Pensa que, mesmo quando há palavras, o silêncio que subjaz às palavras diz mais do que as palavras: o silêncio pode desmentir o que se está a dizer - o silêncio que se refugia das palavras para se esconder numa expressão, num relancear de olhos pelo relógio, na geografia e na psicologia do lugar onde me sentei, no tremor das minhas mãos, na palidez do rosto.
Às vezes, não temos indícios sequer para ler o silêncio. Um mail a que não obtenho resposta, que significa? Talvez que o não tenham recebido. Ou que não houvesse - ainda - tempo para lhe prestar atenção. Ou indiferença? Desprezo?
Eu não sou só um leitor de segundos sentidos de frases. (Nisso, tornei-me imbatível). Sou também um excelente leitor de silêncios. Nunca deixo um silêncio por ler. Nunca vejo unicamente ausência e vazio, vejo a estupidez, a maldade (nos piores casos), o complexo de superioridade de quem se acha demasiado importante para dirigir a palavra aos insectos. A um insecto não vale, por vezes, a pena sequer perseguir com um jornal enrolado. Para quê? O silêncio trata dele.
[A não ser que se trate de um tipo particularmente estúpido de insectos incapazes de ler silêncios. Mas eu não sou desses. Suspeito até que já morri...]
domingo, abril 24, 2011
digestão
o menino gostava da areia da praia. era pequenino e tinha medo de se perder. não queria entrar na água nem verdadeiramente mover-se demasiado, porque a mãe lhe dissera que estava a fazer a digestão. e, portanto, observava. que mal podia fazer à digestão obervar, desde que os olhos não se agitassem de mais? era um mundo de meninas gordas em bikini, abanando a celulite; de homens que mostravam músculos descaídos; de barrigas flácidas, mergulhos que salpicavam, risos. era um mundo maravilhoso que, por vezes, se tornava assustador, quando (por exemplo) um grupo, perseguindo uma bola, se aproximava muito do seu espaço da digestão.
quando começou a temer as senhoras velhas que se sentaram a seu lado, conversando e esmagando-o, decidiu escavar um buraco na areia. o menino era pequenino, não tinha força. além disso, fazia a digestão. mas lentamente, lentamente, para fugir ao riso das duas velhas, foi escavando e refugiando-se no buraco: mas o buraco, estranhamente, grão de areia atrás de grão de areia, crescia, isto é, aprofundava-se. e no momento em que deixou de ouvir as vozes das mulheres, os gritos, as bolas batendo nas raquetes, as ondas, invadiu-o uma paz que nunca ouvira antes em sítio algum em nenhum momento.
a areia começava a estar húmida. agora não podia parar. olhou para cima e já não viu nada senão um buraquinho minúsculo, de longe. ali não o encontrariam. talvez nunca mais. mas não teve medo, pelo contrário. descobriu que o seu desejo secreto era precisamente esse. devia continuar: desde que não perturbasse o processo da digestão.
quando começou a temer as senhoras velhas que se sentaram a seu lado, conversando e esmagando-o, decidiu escavar um buraco na areia. o menino era pequenino, não tinha força. além disso, fazia a digestão. mas lentamente, lentamente, para fugir ao riso das duas velhas, foi escavando e refugiando-se no buraco: mas o buraco, estranhamente, grão de areia atrás de grão de areia, crescia, isto é, aprofundava-se. e no momento em que deixou de ouvir as vozes das mulheres, os gritos, as bolas batendo nas raquetes, as ondas, invadiu-o uma paz que nunca ouvira antes em sítio algum em nenhum momento.
a areia começava a estar húmida. agora não podia parar. olhou para cima e já não viu nada senão um buraquinho minúsculo, de longe. ali não o encontrariam. talvez nunca mais. mas não teve medo, pelo contrário. descobriu que o seu desejo secreto era precisamente esse. devia continuar: desde que não perturbasse o processo da digestão.
sábado, abril 23, 2011
a pergunta à TROIKA
Os observadores do fmi («a troika», como lhes chama a imprensa portuguesa, que adora estas palavras que se colam ao ouvido como pastilha elástica) acham que a tolerância de ponto dá mau aspecto. Os portugueses deviam arregaçar as mangas e atirar-se ao trabalho.
Os senhores estão instalados, entretanto, no hotel ritz. O que, aparentemente, não dá mau aspecto.
Mas eu tenho uma pergunta. É uma estúpida de uma besoura que me anda a azucrinar o ouvido:
Quem paga a vossa estada no hotel?!
Os senhores estão instalados, entretanto, no hotel ritz. O que, aparentemente, não dá mau aspecto.
Mas eu tenho uma pergunta. É uma estúpida de uma besoura que me anda a azucrinar o ouvido:
Quem paga a vossa estada no hotel?!
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a estupidez é arrogante e tende a impor-se
quarta-feira, abril 20, 2011
GOVERNO NO BANCO DOS RÉUS
Os médicos podem ser processados por negligência. Podem não ter feito por mal, ou deliberadamente, que interessa isso ao homem que cegou ou à mulher que nunca mais poderá caminhar? Basta que se prove que o médico não fez tudo o que estava na sua mão para evitar o acidente. Lixa-se a vida a uma pessoa? Presta-se contas.
Mesmo um professor pode ser alvo de procedimento disciplinar. Os alunos queixam-se aos pais, os pais à direcção ou ao ministério. E até um juiz: já viram a ironia? A justiça poética? O juiz poderá ter de prestar contas por uma decisão que arruinou uma vida, se se prova que não foi isento ou imparcial.
Assim, de repente, e com excepção da de árbitro de futebol, a única profissão em que não se é julgado pelos erros que foram cometidos, é a de primeiro-ministro. Lixa-se um povo inteiro, milhares de mulheres e de homens, crianças, idosos, hipoetaca-se um país com séculos de história, e não tem de se responder criminalmente. Um primeiro-ministro e respectivos ministros dão-se ao luxo de destruir uma nação, e não têm de responder em tribunal.
Diz-se: serão julgados nas urnas. Pois!
Mesmo um professor pode ser alvo de procedimento disciplinar. Os alunos queixam-se aos pais, os pais à direcção ou ao ministério. E até um juiz: já viram a ironia? A justiça poética? O juiz poderá ter de prestar contas por uma decisão que arruinou uma vida, se se prova que não foi isento ou imparcial.
Assim, de repente, e com excepção da de árbitro de futebol, a única profissão em que não se é julgado pelos erros que foram cometidos, é a de primeiro-ministro. Lixa-se um povo inteiro, milhares de mulheres e de homens, crianças, idosos, hipoetaca-se um país com séculos de história, e não tem de se responder criminalmente. Um primeiro-ministro e respectivos ministros dão-se ao luxo de destruir uma nação, e não têm de responder em tribunal.
Diz-se: serão julgados nas urnas. Pois!
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sábado, abril 16, 2011
A VELHA ATACA DE NOVO
Tenho a velha de novo em casa, mais o seu crochê. Vemos e ouvimos, na televisão, que desta vez, nas comemorações do dia de portugal (as minúsculas são deliberadas: uma crise é uma crise) não haverá aviões nem carros militares. E eu, que, na verdade, nunca gostei de comemorações nem de aviões nem de carros militares, não resisto, contudo, a exclamar: «Ao que chegámos!» Ao que a velha, pousando o seu trabalho no colo, responde: «Agora é que era atacarem e invadirem a gente. Nem dinheiro temos para pôr gasolina nos tanques e na aviação!»
sexta-feira, abril 15, 2011
zangado com o facebook
Confesso que, efectivamente, não sou amigo pessoal de todas as pessoas que tenho convidado para serem «amigos» no facebook. Um amigo é um amigo. Já um «amigo» é um «amigo». Não os confundo. Obviamente, não desbarato pedidos de amizade. Verifico se as pessoas em causa têm «amigos» comuns - quantos e, já agora, quais. Parece-me bem. Como as minhas intenções não são más, considero-o um comportamento justificado. Já tinha reparado que, em certos convites, apanhava tampa - geralmente, pessoas que se consideram vips. Havia uma nota que me perguntava se estava absolutamente certo de os conhecer pessoalmente, e se não, por favor não insistisse, etc. Mas não liguei. Finalmente, recebo uma admoestação do próprio senhor facebook. Em pessoa. Já me viram isto? Ralha-me: que não posso estar a convidar quem não conheço; que bloqueará durante dois dias os meus pedidos de amizade; e, ao fim desses dois dias, que eu trate de ser prudente e de certificar-me de que conheço efectivamente quem convido. (Se não, temos o caldo entornado!) E ainda me pergunta se compreendo. A minha resposta ao senhor facebook é esta: Tem a certeza de me conhecer pessoalmente? Olhe que eu não o conheço de lado nenhum. Pois, em retaliação, não vou fazer pedidos de amizade: decido bloquear qualquer gesto para pedir amizade durante dois dias - os mesmos, de resto, durante os quais ele me bloqueia -, e vamos lá a ver se lhe serve de lição. Compreende? Para o que eu estava guardado.
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O COCÓ
Considero no mínimo curioso que se refira o socialismo e o comunismo como sendo relíquias teóricas do passado, ideários delirantes e obsoletos. A questão é que essas teorias - por muito que tenham falhado na prática - representam a busca de uma alternativa a um sistema, esse sim, sem qualquer vestígio de ética ou solidariedade, injusto, cruel e ineficaz: rompe por muitos lados mas não cai, alimenta-se de crises que sugam e definham tudo e todos em redor - menos a minoria que enriquece - mas sobrevive-lhes, aplaina pelo nível mais baixo, e chama a essa igualdade sem aspirações «democracia». É um dinossauro tétrico, uma planta carnívora sem sequer graciosidade, é a invasão dos telemóveis, das pipocas e das coca-colas no cinema. É a falta de respeito. É o Obama, a Merkl, o Sócrates e o ex-marido de uma Doce. É - desculpem - esta merda! E ainda se atrevem a dizer, acerca do sonho da mudança: Isso é coisa do passado! Isso é caquético.
domingo, março 20, 2011
MEDIOCRIDADE
Dava eu aulas num liceu lá para os arredores de Sintra (liceu esse de que fiz, vagamente, personagem de um romance) e já o ministério insistia na necessidade de que se apresentassem planificações - de cada aula, de cada semana, cada período, do ano inteiro.
Sempre me incomodou, ainda que compreendesse, essa urgência de se mostrar trabalho. Ou fazer mostrar. E sempre o apresentei, aliás, com a pontualidade requerida. (E se no meu tempo de professor assim era já, contam-me que agora se tornou perfeitamente insuportável o afã de reduzir o mínimo passo a papéis, previsões, traçados de rumo...)
Mas, no meu caso, era um pró-forma. Eu não planifico, interiormente, senão da única maneira que consigo, que é fazendo trabalhar o meu caos pessoal. E não me digam que não há nisso qualquer método: é o único que me faz sentido.
O que eu fazia - e continuo fazendo, em outras áreas de actividade por onde hoje fluo - é, quando sei que terei de falar ou escrever sobre um determinado autor, ou tema, respirar e absorver, sem programa nem objectivo. Procuro ler coisas dele, ou sobre ele ou sobre o assunto, ou reler passagens de que me lembrava e sei que para aí me encaminhem; vou discutindo, vou ouvindo tudo o que me caia e me pareça tocar no ponto; vou pensando, num processo que é, em parte, consciente (visto que sei perfeitamente o que estou a acumular no espírito...), mas, também, até certo ponto inconsciente, uma vez que não domino todas as subtis e (mais significativas ou menos significativas) sinapses que se vão estabelecendo, as ligações que se vão experimentando. Uma «planificação» mataria à nascença este processo.
Há um momento mágico, que não posso prever nem antecipar, em que se solta uma faísca. Algo surge como um centro de gravidade, um elemento articulador, uma chave de agregação, um princípio condutor, uma espécie de código de fluência. Descubro que muitas das coisas sobre que me debruçara empenhadamente, desapareceram, entretanto: não cabiam no sistema que se montou; outras, a que dera importância, reduziam-se a uma pequena nota-de-rodapé. Em contrapartida, ideias que nem achei que tivessem que ver com o assunto e só quase por coincidência e acidente me iam ocupando na mesma altura, irrompiam, decisivas. Às vezes, uma dessas ideias paralelas era precisamente o enfoque que me faltava.
Planificação? Deus do céu! Isto é um processo criativo e imprevisível. Certas vezes a faísca surgia já tarde, na própria aula, no momento em que eu começava a falar. Ou acontecia ser um aluno que o desencadeava, ao fazer uma pergunta que sugava numa determinada direcção tudo o que eu tinha lido, e pensado, e estudado sem ainda saber muito bem como expor. E não me lembro de uma aula - uma única - em que este processo não tenha funcionado perfeitamente. Tive aulas melhores e aulas piores, aulas com incidentes dramáticos e acidentes felizes. Mas em nenhuma senti que algo pudesse ser melhor do que era «se eu tivesse planificado»!
Ou seja: da mesma maneira que a escola pede a todos os alunos exactamente o mesmo, estabelecendo uma norma e uma normalidade em que não cabem os talentos alternativos nem as capacidades singulares, também aos professores se impõe uma norma de trabalho e um método de «preparação de aulas». Com mais computadores ou menos computadores, com mais ou menos «agendas do professor», mais ou menos matrizes disto ou daquilo, o que a escola exige e impõe, a professores e alunos, sob o nome de uniformização, é a mera adaptação à mediocridade.
Sempre me incomodou, ainda que compreendesse, essa urgência de se mostrar trabalho. Ou fazer mostrar. E sempre o apresentei, aliás, com a pontualidade requerida. (E se no meu tempo de professor assim era já, contam-me que agora se tornou perfeitamente insuportável o afã de reduzir o mínimo passo a papéis, previsões, traçados de rumo...)
Mas, no meu caso, era um pró-forma. Eu não planifico, interiormente, senão da única maneira que consigo, que é fazendo trabalhar o meu caos pessoal. E não me digam que não há nisso qualquer método: é o único que me faz sentido.
O que eu fazia - e continuo fazendo, em outras áreas de actividade por onde hoje fluo - é, quando sei que terei de falar ou escrever sobre um determinado autor, ou tema, respirar e absorver, sem programa nem objectivo. Procuro ler coisas dele, ou sobre ele ou sobre o assunto, ou reler passagens de que me lembrava e sei que para aí me encaminhem; vou discutindo, vou ouvindo tudo o que me caia e me pareça tocar no ponto; vou pensando, num processo que é, em parte, consciente (visto que sei perfeitamente o que estou a acumular no espírito...), mas, também, até certo ponto inconsciente, uma vez que não domino todas as subtis e (mais significativas ou menos significativas) sinapses que se vão estabelecendo, as ligações que se vão experimentando. Uma «planificação» mataria à nascença este processo.
Há um momento mágico, que não posso prever nem antecipar, em que se solta uma faísca. Algo surge como um centro de gravidade, um elemento articulador, uma chave de agregação, um princípio condutor, uma espécie de código de fluência. Descubro que muitas das coisas sobre que me debruçara empenhadamente, desapareceram, entretanto: não cabiam no sistema que se montou; outras, a que dera importância, reduziam-se a uma pequena nota-de-rodapé. Em contrapartida, ideias que nem achei que tivessem que ver com o assunto e só quase por coincidência e acidente me iam ocupando na mesma altura, irrompiam, decisivas. Às vezes, uma dessas ideias paralelas era precisamente o enfoque que me faltava.
Planificação? Deus do céu! Isto é um processo criativo e imprevisível. Certas vezes a faísca surgia já tarde, na própria aula, no momento em que eu começava a falar. Ou acontecia ser um aluno que o desencadeava, ao fazer uma pergunta que sugava numa determinada direcção tudo o que eu tinha lido, e pensado, e estudado sem ainda saber muito bem como expor. E não me lembro de uma aula - uma única - em que este processo não tenha funcionado perfeitamente. Tive aulas melhores e aulas piores, aulas com incidentes dramáticos e acidentes felizes. Mas em nenhuma senti que algo pudesse ser melhor do que era «se eu tivesse planificado»!
Ou seja: da mesma maneira que a escola pede a todos os alunos exactamente o mesmo, estabelecendo uma norma e uma normalidade em que não cabem os talentos alternativos nem as capacidades singulares, também aos professores se impõe uma norma de trabalho e um método de «preparação de aulas». Com mais computadores ou menos computadores, com mais ou menos «agendas do professor», mais ou menos matrizes disto ou daquilo, o que a escola exige e impõe, a professores e alunos, sob o nome de uniformização, é a mera adaptação à mediocridade.
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sábado, março 19, 2011
SENTIDOS OCULTOS
Sou um excelente leitor de segundos sentidos nas frases. Modestamente.
Por exemplo, dizem-me que no meu romance «há páginas» muitíssmo bem escritas, do melhor que se fez nos últimos anos em literatura portuguesa, e eu, neste aparente elogio, leio: «As outras páginas, infelizmente, é que são fracotas!»
A propósito de algumas ideias em que me aventurava, quando era professor dos liceus, disseram: «Ah, sim, lá nisso o Gil é uma verdadeira máquina de ideias». E eu prendi-me ao «lá nisso», que significa: «O pior é», uma vez mais, estão a ver o mecanismo?, «o pior é no resto, nisso ele safa-se!»
Dizem-me «acho que sim» e eu detecto a incerteza desta afirmação. A falta de convicção.
Dizem-me «deixa-me pensar», e eu entendo o tempo necessário para se embrulhar a verdade em palavras que me não firam de mais. E por aí fora...
Se eu fosse polícia, seria um sucesso. Daqueles capazes de apanhar os assassinos nas entrelinhas, nos «lá nisso», nos «acho que». Como o Lightman é bom a compreender expressões faciais, sou eu bom a apreender os lapsus linguae, os deslizes, as ironias, os sinais dados pelas palavras deslocadas, desajustadas, reveladoras.
O problema é que não sou polícia. E, nesse caso, torno-me simplesmente um neurótico. Um dos mais chatos, portanto.
Por exemplo, dizem-me que no meu romance «há páginas» muitíssmo bem escritas, do melhor que se fez nos últimos anos em literatura portuguesa, e eu, neste aparente elogio, leio: «As outras páginas, infelizmente, é que são fracotas!»
A propósito de algumas ideias em que me aventurava, quando era professor dos liceus, disseram: «Ah, sim, lá nisso o Gil é uma verdadeira máquina de ideias». E eu prendi-me ao «lá nisso», que significa: «O pior é», uma vez mais, estão a ver o mecanismo?, «o pior é no resto, nisso ele safa-se!»
Dizem-me «acho que sim» e eu detecto a incerteza desta afirmação. A falta de convicção.
Dizem-me «deixa-me pensar», e eu entendo o tempo necessário para se embrulhar a verdade em palavras que me não firam de mais. E por aí fora...
Se eu fosse polícia, seria um sucesso. Daqueles capazes de apanhar os assassinos nas entrelinhas, nos «lá nisso», nos «acho que». Como o Lightman é bom a compreender expressões faciais, sou eu bom a apreender os lapsus linguae, os deslizes, as ironias, os sinais dados pelas palavras deslocadas, desajustadas, reveladoras.
O problema é que não sou polícia. E, nesse caso, torno-me simplesmente um neurótico. Um dos mais chatos, portanto.
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sábado, março 12, 2011
GERAÇÃO À RASCA
Para quem não se lembrava bem, aí está a sucessão de provas em catadupa: o capitalismo é absolutamente infame.
E para quem tinha dúvidas, aí está, em catadupa, a sucessão de provas: o Partido Socialista é tudo menos um partido socialista.
E para quem tinha dúvidas, aí está, em catadupa, a sucessão de provas: o Partido Socialista é tudo menos um partido socialista.
sábado, março 05, 2011
AUTOCONFIANÇA HETEROCRÍTICA
Daisy, lá atrás, do seu banco, no carro, para mim, travestido de condutor:
«Eu sou realmente muito esperta. Sou sim. E sou esperta em tudo, pai, sou muito esperta em tudo. Tu também és esperto, pai, mas tu és esperto só em algumas coisas.»
«Eu sou realmente muito esperta. Sou sim. E sou esperta em tudo, pai, sou muito esperta em tudo. Tu também és esperto, pai, mas tu és esperto só em algumas coisas.»
PACHECO, JOSÉ E DUARTE, GIL
Sabemos muito bem a diferença entre um pseudónimo e um heterónimo.
Um pseudónimo é um nome artístico. Um nome alternativo. A mesma pessoa assina assim quando passa um cheque, e assado quando pinta um quadro. Pronto. Ponto.
Um heterónimo é outra pessoa. Não se confunde com o autor. É um autor ficcional a que o autor real passa o testemunho. É uma personagem fora da obra, que a obra implica mas a que não se refere.
«Gil Duarte» é um heterónimo porque algumas características suas não coincidem com as do senhor José Pacheco.
Em primeiro lugar, na idade. Não sinto que Gil Duarte possa ter mais do que 35 anos.
Por outro lado, se Gil Duarte tem filhos, como José Pacheco, é um pai desses filhos muito mais interessante e completo do que José Pacheco: para este, sobram as agruras, as tristezas, as frustrações, as zangas e os gritos, o desespero de se ser pai.
Gil Duarte é uma encarnação - não que JP tenha morrido, lagarto, lagarto, lagarto, mas no sentido de que em Gil se concentram [e encarnam] os «irrealizados»de José: Gil Duarte viajou certamente mais do que José Pacheco. Conhece, por exemplo, muito bem a Itália, que visita regularmente. Preserva,aliás, uma relação italiana - e, sobre isto, mais não digo.
Gil Duarte está longe da perfeição: se querem saber dos seus problemas, tentou suicidar-se duas vezes (embora haja quem diga que a primeira não passou de uma encenação, com o intuito de se tornar famoso); é um bipolar não diagnosticado e não assumido.
Há, abstraindo das incoincidências, outras coincidências, para além das referidas inicialmente, entre ele e José Pacheco? Mas sem dúvida. Ambos nasceram em Moçambique e ambos trouxeram Moçambique com eles. Para os dois, Moçambique, que é maior do que Portugal, tem cabido mal e com dificuldades no novo espaço. E, já agora, pormenor curioso: ambos são de Inhambane. (Por que não terei conseguido ficcionar o pormenor? Por que raio não poderia ser Gil Duarte da Itália?)
Profissionalmente, são mais diferentes do que se poderia imaginar. José Pacheco é um professor do ensino secundário. Gil Duarte deu aulas durante um certo período da sua vida (basta ver como muitos dos seus posts falam de «alunos»...), mas rompeu decidida e decisivamente com o ensino quando as sucessivas ministras de Sócrates iniciaram a liquidação de tudo o que respeite a «ensinar»; está, actualmente, na carreira diplomática. Como é muito jovem, não passou por postos importantes: é um cônsul menor, num país menor. Não se importa porque, mais do que tudo a que deite mão por razões de sobrevivência, Gil Duarte escreve.
José Pacheco também escreve. Mas um pouco pior do que Gil Duarte.
Um pseudónimo é um nome artístico. Um nome alternativo. A mesma pessoa assina assim quando passa um cheque, e assado quando pinta um quadro. Pronto. Ponto.
Um heterónimo é outra pessoa. Não se confunde com o autor. É um autor ficcional a que o autor real passa o testemunho. É uma personagem fora da obra, que a obra implica mas a que não se refere.
«Gil Duarte» é um heterónimo porque algumas características suas não coincidem com as do senhor José Pacheco.
Em primeiro lugar, na idade. Não sinto que Gil Duarte possa ter mais do que 35 anos.
Por outro lado, se Gil Duarte tem filhos, como José Pacheco, é um pai desses filhos muito mais interessante e completo do que José Pacheco: para este, sobram as agruras, as tristezas, as frustrações, as zangas e os gritos, o desespero de se ser pai.
Gil Duarte é uma encarnação - não que JP tenha morrido, lagarto, lagarto, lagarto, mas no sentido de que em Gil se concentram [e encarnam] os «irrealizados»de José: Gil Duarte viajou certamente mais do que José Pacheco. Conhece, por exemplo, muito bem a Itália, que visita regularmente. Preserva,aliás, uma relação italiana - e, sobre isto, mais não digo.
Gil Duarte está longe da perfeição: se querem saber dos seus problemas, tentou suicidar-se duas vezes (embora haja quem diga que a primeira não passou de uma encenação, com o intuito de se tornar famoso); é um bipolar não diagnosticado e não assumido.
Há, abstraindo das incoincidências, outras coincidências, para além das referidas inicialmente, entre ele e José Pacheco? Mas sem dúvida. Ambos nasceram em Moçambique e ambos trouxeram Moçambique com eles. Para os dois, Moçambique, que é maior do que Portugal, tem cabido mal e com dificuldades no novo espaço. E, já agora, pormenor curioso: ambos são de Inhambane. (Por que não terei conseguido ficcionar o pormenor? Por que raio não poderia ser Gil Duarte da Itália?)
Profissionalmente, são mais diferentes do que se poderia imaginar. José Pacheco é um professor do ensino secundário. Gil Duarte deu aulas durante um certo período da sua vida (basta ver como muitos dos seus posts falam de «alunos»...), mas rompeu decidida e decisivamente com o ensino quando as sucessivas ministras de Sócrates iniciaram a liquidação de tudo o que respeite a «ensinar»; está, actualmente, na carreira diplomática. Como é muito jovem, não passou por postos importantes: é um cônsul menor, num país menor. Não se importa porque, mais do que tudo a que deite mão por razões de sobrevivência, Gil Duarte escreve.
José Pacheco também escreve. Mas um pouco pior do que Gil Duarte.
LIBERTAR DIONÍSIO
O que é politicamente correcto, oh minhas duas seguidoras e alguns leitores avulso, o que é politicamente correcto é dizer que se não gosta do carnaval. Que se odeia o carnaval. E as máscaras, e as brincadeiras idiotas, a indisciplina invadindo e corroendo, que nojo!
Esperando não perder, com isto, as minhas duas seguidoras e os leitores avulso, amo o carnaval. Amo a própria ideia da partida e do logro, amo a euforia e a permissividade que nos permitem recarregar baterias, amo a libertação do lado dionisíaco, amo poder mascarar-me e não ser reconhecido. E até penso que é delicioso que não dure mais do que os três míseros dias que dura - porque, se não, não se constituiria como o contraste que é: em relação às regras do dia-a-dia.
Mais do que isto tudo, considero o carnaval absolutamente essencial ao equilíbrio social. Sim: é o pontual e brevíssimo desequilíbrio indispensável ao equilíbrio da sociedade. E, para terminar: na minha perspectiva, foi o «caso carnaval» que deitou abaixo, há anos já, o governo do senhor doutor Aníbal Cavaco Silva.
Esperando não perder, com isto, as minhas duas seguidoras e os leitores avulso, amo o carnaval. Amo a própria ideia da partida e do logro, amo a euforia e a permissividade que nos permitem recarregar baterias, amo a libertação do lado dionisíaco, amo poder mascarar-me e não ser reconhecido. E até penso que é delicioso que não dure mais do que os três míseros dias que dura - porque, se não, não se constituiria como o contraste que é: em relação às regras do dia-a-dia.
Mais do que isto tudo, considero o carnaval absolutamente essencial ao equilíbrio social. Sim: é o pontual e brevíssimo desequilíbrio indispensável ao equilíbrio da sociedade. E, para terminar: na minha perspectiva, foi o «caso carnaval» que deitou abaixo, há anos já, o governo do senhor doutor Aníbal Cavaco Silva.
quinta-feira, março 03, 2011
CRIMES DIVINOS
Cito, do relatório de um aluno:
«A nossa razão pergunta se há Deus porque precisa de imaginar um culpado de tudo o que existe».
Detenho-me naquele «culpado»; pergunto-lhe: «esta frase é para ser lida ironicamente?»
Não. Não entende sequer a pergunta. «Culpado», no seu vocabulário, significa simplesmente «causador», «o que deu origem a». Sem qualquer conotação negativa.
Que pena.
«A nossa razão pergunta se há Deus porque precisa de imaginar um culpado de tudo o que existe».
Detenho-me naquele «culpado»; pergunto-lhe: «esta frase é para ser lida ironicamente?»
Não. Não entende sequer a pergunta. «Culpado», no seu vocabulário, significa simplesmente «causador», «o que deu origem a». Sem qualquer conotação negativa.
Que pena.
sábado, fevereiro 26, 2011
VASCULHANDO JORNAIS ANTIGOS
«Fernando Pessoa acusa Álvaro de Campos de Plágio.
«"Não há uma única linha do senhor engenheiro Álvaro de Campos", afirmou o poeta, editor e manga-de alpaca, entre dois copinhos, "que não tivesse sido inventada por mim."»
«"Não há uma única linha do senhor engenheiro Álvaro de Campos", afirmou o poeta, editor e manga-de alpaca, entre dois copinhos, "que não tivesse sido inventada por mim."»
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
O GUARDA-CHUVA NOVO
A minha amiga Zita ofereceu-me um guarda-chuva com um computador incorporado.
Bem. Não é verdade. Computador, computador talvez não tivesse. Mas quase: tão sofisticado, com um discreto botão para o suporte aumentar, outros botões para a armação abrir, à chuva, como certas flores abrem ao sol, etc.
O único problema reside em que eu sou uma espécie de troglodita. Não estou habituado à sofisticação. À porta do carro, não podendo entrar com o guarda-chuva aberto, tentando desesperadamente fechá-lo, não percebendo os botões, desafinando tudo, não me protegendo já com ele, mas não sendo capaz de o devolver ao seu estojo, apanhei, naqueles minutos terríveis, mais chuva do que em toda a minha vida - mais chuva, certamente, do que se estivesse sem guarda-chuva.
Não gostava de parecer ingrato. Zita, o guarda-chuva é muito bonito. Muito, muito bonito. Esteticamente, é das coisas mais interessantes que vi, ultimamente, no seu género...
Bem. Não é verdade. Computador, computador talvez não tivesse. Mas quase: tão sofisticado, com um discreto botão para o suporte aumentar, outros botões para a armação abrir, à chuva, como certas flores abrem ao sol, etc.
O único problema reside em que eu sou uma espécie de troglodita. Não estou habituado à sofisticação. À porta do carro, não podendo entrar com o guarda-chuva aberto, tentando desesperadamente fechá-lo, não percebendo os botões, desafinando tudo, não me protegendo já com ele, mas não sendo capaz de o devolver ao seu estojo, apanhei, naqueles minutos terríveis, mais chuva do que em toda a minha vida - mais chuva, certamente, do que se estivesse sem guarda-chuva.
Não gostava de parecer ingrato. Zita, o guarda-chuva é muito bonito. Muito, muito bonito. Esteticamente, é das coisas mais interessantes que vi, ultimamente, no seu género...
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
DESCARTES: UMA DEMOSNTRAÇÃO DA EXISTÊNCIA DE DEUS
1. Duvido (de tudo, de seja o que for: existirão mesmo o chapéu que trago, a vela que vejo, o roupão que visto e sinto, ou poderá ser tudo uma ilusão?);
2. Duvidando, reconheço que de algo, pelo menos, não posso duvidar: de mim próprio, que duvido;
3. Portanto existo. Tal é indiscutível. (É o famoso «Penso, logo existo»);
4. Mas se a minha primeira certeza é uma dúvida, isso significa que sou imperfeito.
5. Ora: como sou capaz de reconhecer a minha imperfeição? Por comparação com uma ideia da perfeição.
6. Mas de onde provém a minha ideia de perfeição?
a) Não certamente do nada, porque do nada não provém coisa alguma.
b) Não se trata de uma ideia adquirida através dos sentidos: nunca tive a experiência de algo perfeito.
c) E também não pode ser uma ideia produzida por mim, que sou imperfeito: não seria capaz de gerar a ideia do que é melhor do que eu próprio.
7. Segue-se que a ideia de perfeito não pode senão ter sido criada pelo Ser Perfeito.
8. Possuo, pois, esta ideia, porque o Ser Perfeito ma imprimiu no espírito.
9. De onde se conclui que O Ser Perfeito existe: É Deus.
O que pergunto aos meus alunos, apresentando-lhes este raciocínio sob a forma aparente de uma demonstração inatacável, é se constitui, de facto, uma demonstração, ou um mero exercício de retórica.
E eles dizem-me: A partir do 4º ponto, não há praticamente um único ponto que não seja discutível. E, até, falacioso.
2. Duvidando, reconheço que de algo, pelo menos, não posso duvidar: de mim próprio, que duvido;
3. Portanto existo. Tal é indiscutível. (É o famoso «Penso, logo existo»);
4. Mas se a minha primeira certeza é uma dúvida, isso significa que sou imperfeito.
5. Ora: como sou capaz de reconhecer a minha imperfeição? Por comparação com uma ideia da perfeição.
6. Mas de onde provém a minha ideia de perfeição?
a) Não certamente do nada, porque do nada não provém coisa alguma.
b) Não se trata de uma ideia adquirida através dos sentidos: nunca tive a experiência de algo perfeito.
c) E também não pode ser uma ideia produzida por mim, que sou imperfeito: não seria capaz de gerar a ideia do que é melhor do que eu próprio.
7. Segue-se que a ideia de perfeito não pode senão ter sido criada pelo Ser Perfeito.
8. Possuo, pois, esta ideia, porque o Ser Perfeito ma imprimiu no espírito.
9. De onde se conclui que O Ser Perfeito existe: É Deus.
O que pergunto aos meus alunos, apresentando-lhes este raciocínio sob a forma aparente de uma demonstração inatacável, é se constitui, de facto, uma demonstração, ou um mero exercício de retórica.
E eles dizem-me: A partir do 4º ponto, não há praticamente um único ponto que não seja discutível. E, até, falacioso.
domingo, fevereiro 13, 2011
O LIXO
Vinham saindo da ópera.
Miró não a apreciara especialmente; a rapariga que tinha vindo de propósito dos Estados Unidos, precedida de uma fama que calava de antemão e de imediato todos os críticos, tinha grão na voz. «Não achaste, D'Annunzio?»
D'Annunzio, que fumava um cigarro, não parecia atento às suas palavras. As esposas riam-se, uns passos atrás, recordando um homem que não as largara, a noite inteira, do balcão, fixando-as, um binóculo de ópera em riste.
Aquela desatenção incomodou Miró.
«Não achaste que, para já, a mulher começa a envelhecer...? E depois, não era?, a voz, não reparaste...?»
Na noite escura, D'Annunzio encantara-se com outra coisa. Aproximou-se de um vulto.
«Chega aqui», disse ele a Miró.
Miró chegou-se. Era o caixote do lixo. Ao lado, um volume enorme, com pernas, talvez uma mesa, ou então...; Miró espremeu os olhos míopes contra a noite. Uma banheira? Antiga? Sim. Com pernas de leão.
«Anda cá», soprou D'Annunzio, excitadíssimo, descalçando as luvas brancas, pousando a cartola no chão. «Consegues? Pega aí desse lado. Se calhar. Força, força. Ó meninas, venham aqui dar uma ajuda».
Lou Salomé e Isadora Duncan vieram ver, rindo ainda muito. Dividiam a banheira por entre a força de todos.
«Mas para que queres tu isso?», perguntava-lhe Miró.
«Estás maluco?», irritou-se D'Annunzio. «Não fales, que ficas sem ar. Vá, vá, todos juntos. É linda, homem. É linda.»
«Aquele rapaz que vem ali talvez... humpf... nos possa ajudar... Olhe lá. Eh, chegue aqui!»
O rapaz, porém, escapuliu.
«Deve ter-se assustado com o nosso aspecto».
«Pois é, pois é. O certo é que amanhã de manhã vou tomar o banho de imersão mais maravilhoso de toda a minha vida. Vamos, força. Conjugados, um dois, três»
Miró não a apreciara especialmente; a rapariga que tinha vindo de propósito dos Estados Unidos, precedida de uma fama que calava de antemão e de imediato todos os críticos, tinha grão na voz. «Não achaste, D'Annunzio?»
D'Annunzio, que fumava um cigarro, não parecia atento às suas palavras. As esposas riam-se, uns passos atrás, recordando um homem que não as largara, a noite inteira, do balcão, fixando-as, um binóculo de ópera em riste.
Aquela desatenção incomodou Miró.
«Não achaste que, para já, a mulher começa a envelhecer...? E depois, não era?, a voz, não reparaste...?»
Na noite escura, D'Annunzio encantara-se com outra coisa. Aproximou-se de um vulto.
«Chega aqui», disse ele a Miró.
Miró chegou-se. Era o caixote do lixo. Ao lado, um volume enorme, com pernas, talvez uma mesa, ou então...; Miró espremeu os olhos míopes contra a noite. Uma banheira? Antiga? Sim. Com pernas de leão.
«Anda cá», soprou D'Annunzio, excitadíssimo, descalçando as luvas brancas, pousando a cartola no chão. «Consegues? Pega aí desse lado. Se calhar. Força, força. Ó meninas, venham aqui dar uma ajuda».
Lou Salomé e Isadora Duncan vieram ver, rindo ainda muito. Dividiam a banheira por entre a força de todos.
«Mas para que queres tu isso?», perguntava-lhe Miró.
«Estás maluco?», irritou-se D'Annunzio. «Não fales, que ficas sem ar. Vá, vá, todos juntos. É linda, homem. É linda.»
«Aquele rapaz que vem ali talvez... humpf... nos possa ajudar... Olhe lá. Eh, chegue aqui!»
O rapaz, porém, escapuliu.
«Deve ter-se assustado com o nosso aspecto».
«Pois é, pois é. O certo é que amanhã de manhã vou tomar o banho de imersão mais maravilhoso de toda a minha vida. Vamos, força. Conjugados, um dois, três»
segunda-feira, janeiro 31, 2011
aforismos kaosticos
Apaixonamo-nos sempre por uma parte da pessoa.
A tragédia, depois, é ter de conviver todos os dias com a pessoa toda.
[E não falo de mim: refiro-me a personagens minhas].
A tragédia, depois, é ter de conviver todos os dias com a pessoa toda.
[E não falo de mim: refiro-me a personagens minhas].
domingo, janeiro 23, 2011
SOLIDARIEDADE E OUTRAS FANTASIAS
Hoje, almoçando com Dudú e Daisy no infame OP, tive o privilégio de ouvir o puto recordar uma história que eu lhe contava na infância, ou na adolescência, com pormenores da sua reacção (e da minha reacção à sua reacção) de que me tinha esquecido por completo.
Era uma série de aventuras. Chamava-se Os Moranguinhos. E as personagens, ou seja, «os moranguinhos», eram o próprio Dudú e alguns amigos da altura (o Francisco Quico, o Pedro Loureiro, o Tomás, de que me recorde...), os quais enfrentavam malvados do piorio, conseguindo vencê-los de uma forma gloriosa.
Mas numa dada época, relembra-me o Dudú, ele principiava a achar o dinheiro muito importante. Devíamos andar a chamar-lhe a atenção para que as coisas que ele queria eram caras, os pais não eram ricos, o consumismo é mau. Devíamos andar a contê-lo na sua fúria gastadora, no seu Compra, compra, compra. E - continuou o miúdo -, numa certa história, os fulanos malvados teriam colocado uma bomba algures no ventre de um centro comercial. Ora os especialistas da polícia, aflitos, não sabiam se haviam de cortar o fio amarelo ou o fio vermelho. [A pergunta não é: Onde é que eu já vi isto?; mas: Onde raio é que ainda não vi isto?]. E, em desespero de causa, telefonaram para os moranguinhos, perguntando-lhes que fio deviam cortar. Lembra-me Dudú que, na ocasião, me interrompeu, para dizer: «Eu acho que os moranguinhos deviam propôr isto: só damos a resposta se vocês nos pagarem um milhão de escudos!»
Dudú contou da minha indignação, da minha fúria, das minhas explicações de cariz pedagógico e moral, «Então estão pessoas na iminência de uma tragédia, poderia morrer muita gente, e os heróicos moranguinhos só ajudavam se lhes pagassem?!»
Rimos muito os dois, a recordar. Não quero parecer cínico (e, juro, não lhe disse hoje uma palavra politicamente incorrecta). Mas na altura do passado em que lhe pespeguei a lição de moral, estava longe de imaginar o rumo que a crise tomaria, e o tipo de país em que acabaríamos, com o próprio governo tentando resolver o problema à custa de um roubo descarado aos funcionários públicos. Agora, neste mundo do salve-se quem puder, sem valores nem princípios, em que Fernando Nobre troca o papel de herói generoso pelo de candidato foleiro à presidência, teria de pensar várias vezes antes de decidir o que os moranguinhos deveriam realmente fazer. Hum! Desculpem, não torno! Pronto. Já me calei, já me calei!
Era uma série de aventuras. Chamava-se Os Moranguinhos. E as personagens, ou seja, «os moranguinhos», eram o próprio Dudú e alguns amigos da altura (o Francisco Quico, o Pedro Loureiro, o Tomás, de que me recorde...), os quais enfrentavam malvados do piorio, conseguindo vencê-los de uma forma gloriosa.
Mas numa dada época, relembra-me o Dudú, ele principiava a achar o dinheiro muito importante. Devíamos andar a chamar-lhe a atenção para que as coisas que ele queria eram caras, os pais não eram ricos, o consumismo é mau. Devíamos andar a contê-lo na sua fúria gastadora, no seu Compra, compra, compra. E - continuou o miúdo -, numa certa história, os fulanos malvados teriam colocado uma bomba algures no ventre de um centro comercial. Ora os especialistas da polícia, aflitos, não sabiam se haviam de cortar o fio amarelo ou o fio vermelho. [A pergunta não é: Onde é que eu já vi isto?; mas: Onde raio é que ainda não vi isto?]. E, em desespero de causa, telefonaram para os moranguinhos, perguntando-lhes que fio deviam cortar. Lembra-me Dudú que, na ocasião, me interrompeu, para dizer: «Eu acho que os moranguinhos deviam propôr isto: só damos a resposta se vocês nos pagarem um milhão de escudos!»
Dudú contou da minha indignação, da minha fúria, das minhas explicações de cariz pedagógico e moral, «Então estão pessoas na iminência de uma tragédia, poderia morrer muita gente, e os heróicos moranguinhos só ajudavam se lhes pagassem?!»
Rimos muito os dois, a recordar. Não quero parecer cínico (e, juro, não lhe disse hoje uma palavra politicamente incorrecta). Mas na altura do passado em que lhe pespeguei a lição de moral, estava longe de imaginar o rumo que a crise tomaria, e o tipo de país em que acabaríamos, com o próprio governo tentando resolver o problema à custa de um roubo descarado aos funcionários públicos. Agora, neste mundo do salve-se quem puder, sem valores nem princípios, em que Fernando Nobre troca o papel de herói generoso pelo de candidato foleiro à presidência, teria de pensar várias vezes antes de decidir o que os moranguinhos deveriam realmente fazer. Hum! Desculpem, não torno! Pronto. Já me calei, já me calei!
quarta-feira, janeiro 19, 2011
E ALGUMAS, ATÉ AO CUBO...
Algumas pessoas - e eu em primeiro lugar, mas conheço algumas mais - deviam treinar a sua faculdade de pensar ao quadrado. Ou seja: pensar duas vezes duas antes de falar.
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minutos de enorme fadiga psicológica
terça-feira, janeiro 18, 2011
QUEM TE MANDOU A TI, SAPATEIRO, TOCAR RABECÃO?
Lembram-se das Leis de Murphy?
Uma delas determinava que, quando alguém é competente em determinada função, o pior que se pode fazer é promover o sujeito, esperando-se que ele seja igualmente competente em novas funções, responsabilidades, exigências.
As Leis de Murphy são máximas: pega-se numa observação corriqueira, geralmente enervante (como esta, que tenho verificado: quando precisamos de uma farmácia de serviço, a farmácia de serviço não é, provavelmente, a farmácia que está mais próxima de si) e enuncia-se esse precalço como sendo uma lei, com um carácter científico. O efeito é, naturalmente, cómico.
Fernando Nobre, todavia, é uma ilustração da lei que eu enunciava nos parágrafos iniciais. Há, portanto, um homem que prova tudo o que tinha de provar no campo da solidariedade. Corre riscos, partindo, como médico, para países inóspitos e corruptos. Vê miséria e sofre. Minora-a como pode. A sua competência como médico e como herói é absolutamente inquestionável.
O que o faria pensar que os portugueses precisam dele como Presidente? O que o convence de que será um bom Presidente, com a sua voz baça, sem chama, o seu olhar mortiço e - perdoem-me - a sua absoluta falta de preparação política ou a sua confrangedora ausência de ideias? Ouvi-lo entre o «povo» é penoso: este herói também recorre a slogans e a falácias, também vomita frases feitas. Também elabora propaganda, também se deixa vender como um detergente.
Ouvi-lo argumentar, em debates, imbuído da sua superioridade moral - como se o facto de ter visto um menino a correr atrás do grão que uma galinha transportava no bico, para lho roubar e matar a fome, lhe conferisse uma aura indispensável a um Presidente -, é confrangedor. Não sei quem o convenceu de que é indispensável ao país. Sei que, diacho, custa sempre perceber em que se pode transformar, num certo universo, quem estava tão bem, e fazendo tanto, num universo paralelo.
Uma delas determinava que, quando alguém é competente em determinada função, o pior que se pode fazer é promover o sujeito, esperando-se que ele seja igualmente competente em novas funções, responsabilidades, exigências.
As Leis de Murphy são máximas: pega-se numa observação corriqueira, geralmente enervante (como esta, que tenho verificado: quando precisamos de uma farmácia de serviço, a farmácia de serviço não é, provavelmente, a farmácia que está mais próxima de si) e enuncia-se esse precalço como sendo uma lei, com um carácter científico. O efeito é, naturalmente, cómico.
Fernando Nobre, todavia, é uma ilustração da lei que eu enunciava nos parágrafos iniciais. Há, portanto, um homem que prova tudo o que tinha de provar no campo da solidariedade. Corre riscos, partindo, como médico, para países inóspitos e corruptos. Vê miséria e sofre. Minora-a como pode. A sua competência como médico e como herói é absolutamente inquestionável.
O que o faria pensar que os portugueses precisam dele como Presidente? O que o convence de que será um bom Presidente, com a sua voz baça, sem chama, o seu olhar mortiço e - perdoem-me - a sua absoluta falta de preparação política ou a sua confrangedora ausência de ideias? Ouvi-lo entre o «povo» é penoso: este herói também recorre a slogans e a falácias, também vomita frases feitas. Também elabora propaganda, também se deixa vender como um detergente.
Ouvi-lo argumentar, em debates, imbuído da sua superioridade moral - como se o facto de ter visto um menino a correr atrás do grão que uma galinha transportava no bico, para lho roubar e matar a fome, lhe conferisse uma aura indispensável a um Presidente -, é confrangedor. Não sei quem o convenceu de que é indispensável ao país. Sei que, diacho, custa sempre perceber em que se pode transformar, num certo universo, quem estava tão bem, e fazendo tanto, num universo paralelo.
domingo, janeiro 16, 2011
ideias minúsculas em letra minúscula
sempre admirei fernando pessoa por se ter tornado um editor capaz de perder dinheiro na publicação das coisas em que acreditava; como editor do meu próprio livro, tenho finalmente a possibilidade de perder dinheiro - que já comecei perdendo, aliás - por uma coisa em que creio.
há uma inteligência das atracções e das repulsas. falava na televisão um certo político pelo qual tenho uma autêntica aversão; mas, num primeiro momento, confundi-o com um outro que me é simpático. contudo, o que sentia era, olhando para ele, uma vaga e inexplicável repulsa. apesar do erro das minhas faculdades de reconhecimento, o instinto que fareja o desprezível raramente se deixa enganar.
num sonho que tive uma destas noites, o meu livro era lançado perante um grupo de idosos, babando-se e desentendendo-me, arrastando garrafas de oxigénio e assoando-se ruidosamente. e não, não foi propriamente um pesadelo: nesse sonho, fazia sentido que me tratassem de «jovem autor».
sexta-feira, janeiro 07, 2011
AS NÓDOAS
Olho amigo detectou e mão amiga (articulada com o olho) apontou uma nódoa que eu tinha na camisola.
Num dia particularmente atarefado e confuso, em que as 24 horas teriam de ser espartilhadas por uma série de actividades urgentes, consegui encontrar, mesmo assim, um grãozinho de tempo para passar por casa e mudar de camisola.
Vesti uma outra, aliás muito mais bonita, que me agrada e conforta.
Depois fui a um Mac. Comprei um hamburger e uma bebida, que levei, num cartucho de papel, para o automóvel, estacionado no parque. E no carro comi, ouvindo música: e no carro fiz, na nova camisola, uma outra nódoa.
Em síntese: posso dizer que tinha ido a casa trocar de nódoa.
Num dia particularmente atarefado e confuso, em que as 24 horas teriam de ser espartilhadas por uma série de actividades urgentes, consegui encontrar, mesmo assim, um grãozinho de tempo para passar por casa e mudar de camisola.
Vesti uma outra, aliás muito mais bonita, que me agrada e conforta.
Depois fui a um Mac. Comprei um hamburger e uma bebida, que levei, num cartucho de papel, para o automóvel, estacionado no parque. E no carro comi, ouvindo música: e no carro fiz, na nova camisola, uma outra nódoa.
Em síntese: posso dizer que tinha ido a casa trocar de nódoa.
segunda-feira, janeiro 03, 2011
FRASES QUE MARCARAM A MINHA PASSAGEM DE ANO
C - «Há um tipo particular de dislexia, que consiste em não ser capaz de ler correctamente as expressões do rosto nos outros. Aliás, cada vez mais me parece que sofro disso.»
T- «O pior com a tensão, não é quando está alta nem quando está baixa; nem quando a medida máxima está demasiado próxima da mínima. O pior é quando a mínima é superior à máxima. Isso nem se detecta, porque tendemos a pensar que a mínima é a máxima.»
C [que estava inspirada] - «Ela põe-se sempre a si mesma no centro de tudo. Eu ponho-me sempre nos lados...»
M - «Já nos despedimos, não foi? Podíamos ir embora, se não a despedida começa a esfriar.»
T- «O pior com a tensão, não é quando está alta nem quando está baixa; nem quando a medida máxima está demasiado próxima da mínima. O pior é quando a mínima é superior à máxima. Isso nem se detecta, porque tendemos a pensar que a mínima é a máxima.»
C [que estava inspirada] - «Ela põe-se sempre a si mesma no centro de tudo. Eu ponho-me sempre nos lados...»
M - «Já nos despedimos, não foi? Podíamos ir embora, se não a despedida começa a esfriar.»
sábado, janeiro 01, 2011
Bad Boy MC Crazy Mother Fucker! Ricardo Araújo Pereira! G.F.
Há vários anos - não posso precisar há quantos, mas ainda se não falava dos Gato Fedorento -, assisti a esta intervenção de Bad Boy MC Crazy Mother Fucker. E esse foi o instante, o exacto instante, em que me apaixonei por Ricardo Araújo Pereira.
paradoxos kaósticos
Que poderia ser tão terrível como um comediante neurótico cuja neurose consistisse em enervar-se com gargalhadas?
sexta-feira, dezembro 31, 2010
POBRES AFORISMOS KAÓSTICOS
A felicidade é um estado de iluminação: a sombra faz, portanto, necessariamente parte dela também.
CULPAS
E a velha que se me pespegou em casa, perante as notícias do telejornal , diz-me, pousando de novo a renda sobre o colo:
«Parece-me que se precisarem de fazer um governo com alguém no país que não tenha nenhuma culpa nesta situação, vão ter de me ir buscar a mim: já não resta mais ninguém.»
A velha ainda me espanta.
«Parece-me que se precisarem de fazer um governo com alguém no país que não tenha nenhuma culpa nesta situação, vão ter de me ir buscar a mim: já não resta mais ninguém.»
A velha ainda me espanta.
quinta-feira, dezembro 30, 2010
PREFERIA ACREDITAR QUE A REALIDADE ERA MELHOR
Pensando bem, gosto que me mintam. Ou melhor, preciso disso.
No fundo, sou rigorosamente um daqueles que tipos que, principiando a perder cabelo no cocuruto da cabeça, ainda perguntam «Achas que estou a ficar careca?», com o desejo de que lhes respondam: «Tu?! Não, que ideia».
E com o desejo de acreditar que acreditam nisso.
No fundo, sou rigorosamente um daqueles que tipos que, principiando a perder cabelo no cocuruto da cabeça, ainda perguntam «Achas que estou a ficar careca?», com o desejo de que lhes respondam: «Tu?! Não, que ideia».
E com o desejo de acreditar que acreditam nisso.
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minutos de enorme fadiga psicológica
OS FELIX
Diz a velha que se me pespegou em casa, pousando a renda sobre o colo, e esticando-me o indicador:
«Sabe que ainda sou da família do Bagão Félix?»
Pergunto, um pouco surpreendido com o despropósito: «Ai sim? Porquê?»
Ela: «Porque a minha avó também se chama Félix.»
Estou atónito. Acabo por não lhe perguntar se haverá ainda alguma ligação da família ao gato Félix.
«Sabe que ainda sou da família do Bagão Félix?»
Pergunto, um pouco surpreendido com o despropósito: «Ai sim? Porquê?»
Ela: «Porque a minha avó também se chama Félix.»
Estou atónito. Acabo por não lhe perguntar se haverá ainda alguma ligação da família ao gato Félix.
SABEMOS O ESSENCIAL SOBRE TUBARÕES?

Esta pergunta de uma garota de cinco anos, para a qual ainda não encontrei resposta:
«Pai, os tubarões mordem aos seus donos?»
quarta-feira, dezembro 29, 2010
PÃO E CIRCO
Passo os olhos pela Sic: o psicólogo a que, respeitosamente, chamam Professor Quintino, fala, encantado por poder falar, a uma mãe estóica e a um padrasto completamente encharcado em medicamentos. Qual o tema? Vi o Meu Filho de 11 Anos Ser Atropelado.
Mudo, ligeiramente agoniado, para a Tvi. Goucha conversa com uma velha de carrapito, que limpa as lágrimas. Sobre quê? Sobre: Uma Criança que Levou Facadas. Deve ter morrido.
Tudo devém entretenimento. Quanto pior melhor. Ave, César!
Mudo, ligeiramente agoniado, para a Tvi. Goucha conversa com uma velha de carrapito, que limpa as lágrimas. Sobre quê? Sobre: Uma Criança que Levou Facadas. Deve ter morrido.
Tudo devém entretenimento. Quanto pior melhor. Ave, César!
segunda-feira, dezembro 27, 2010
UM CONTO DIDÁCTICO DE NATAL
kiko, o coelhinho, viu um dia, num centro comercial, um pai natal que prometia prendas aos meninos. o pequeno entusiasmou-se com aquela pujante barba branca e com os óculos de aros filiformes, dourados. o homem era bem gordo, sinal de que se alimentava bem. e ria muito, o que indica que a vida não lhe corria mal. em tempos de crise, aquela conjugação de sinais parecia-lhe convidativa.
nessa mesma noite abordou com a mãe o assunto. kiko queria ser pai natal. a mãe coelha principiou por sorrir, mas acabou chorando, ao perceber que o menino coelho estava decidido e não via mais nada à frente. «ó kiko, bigode lindo da mamã, o fofo não pode ser pai natal. o pai natal é um ser humano, kiko. oiça, querido, o fofo pode ser tanta coisa, olhe, engenheiro de tocas, como o papá, ou mesmo coelho da páscoa; o coelho da páscoa é uma espécie de pai natal em coelho, fofo...»
mas kiko não queria ser nada mais que não um coelho bem nutrido, de barrete vermelho, barba algodoada, branquinha, óculos e botas pretas. e, percebendo que isso nunca sucederia, o coelhito entrou em greve. numa espécie de greve, digamos. não comia. chorava. chorou dias, depois semanas, meses, estações. quando chegou o natal seguinte, kiko chorava ainda.
então, apercebeu-se de que, a partir de um certo ponto da noite, não era o único a chorar. crianças de todo o mundo choravam com ele, num coro deveras irritante. cessou o seu berreiro. lambeu e engoliu as próprias lágrimas. saiu para o frio, enterrando-se na neve, perguntando «que se passa? que se passa?»
contaram-lhe que esse ano o pai natal não aparecera; não havia prendas para ninguém. por causa da crise?, perguntou-se. e foi andando, com as patinhas deixando marcas fundas na branca neve. andou sem rumo, errado ao ritmo das suas divagações, até que, um pouco mais adiante, encontrou um trenó voltado de cabeça para baixo, vazio. e umas renas estranhas. «estranhas» porque demasiado coradas e com soluços.
ouviu um gemido. atrás de um arbusto, kiko deparou com o próprio pai natal. estendido no chão, ambas as mãos sobre o ventre, como se tivesse apanhado um tiro. e gemendo, gemendo. que se passa?, perguntou de novo, que se passou?
as renas haviam festejado com excessiva euforia. um copo aqui, um copo ali, risos, mais umas taças e, por fim, bebendo directamente das garrafas - tinham-se embriagado. conclusão: vogando depois pelo espaço com a liberalidade típica dos bêbados, descontrolaram-se e chocaram contra uma árvore durante a aterragem. e ali estava o pai natal, incapaz de se levantar, carpindo as suas mágoas e a de todos os meninos que, esse ano, não teriam presentes.
kiko ofereceu-se imediatamente para ser pai. um papá natal já atrasado, mas ainda cheio de prendas. punha o gorro, uma barba postiça, como os pais natal dos centros comerciais, e ia pelas chaminés. assim foi, de facto. e devo dizer que esse foi o melhor de todos os natais. pelo menos para kiko.
já perceberam que esta pequena história encerra uma lição e uma mensagem natalícia, não é verdade, amiguinhos? sim: se conduzir não beba. (pois, como acrescenta a daisy: porque pode entornar!)
nessa mesma noite abordou com a mãe o assunto. kiko queria ser pai natal. a mãe coelha principiou por sorrir, mas acabou chorando, ao perceber que o menino coelho estava decidido e não via mais nada à frente. «ó kiko, bigode lindo da mamã, o fofo não pode ser pai natal. o pai natal é um ser humano, kiko. oiça, querido, o fofo pode ser tanta coisa, olhe, engenheiro de tocas, como o papá, ou mesmo coelho da páscoa; o coelho da páscoa é uma espécie de pai natal em coelho, fofo...»
mas kiko não queria ser nada mais que não um coelho bem nutrido, de barrete vermelho, barba algodoada, branquinha, óculos e botas pretas. e, percebendo que isso nunca sucederia, o coelhito entrou em greve. numa espécie de greve, digamos. não comia. chorava. chorou dias, depois semanas, meses, estações. quando chegou o natal seguinte, kiko chorava ainda.
então, apercebeu-se de que, a partir de um certo ponto da noite, não era o único a chorar. crianças de todo o mundo choravam com ele, num coro deveras irritante. cessou o seu berreiro. lambeu e engoliu as próprias lágrimas. saiu para o frio, enterrando-se na neve, perguntando «que se passa? que se passa?»
contaram-lhe que esse ano o pai natal não aparecera; não havia prendas para ninguém. por causa da crise?, perguntou-se. e foi andando, com as patinhas deixando marcas fundas na branca neve. andou sem rumo, errado ao ritmo das suas divagações, até que, um pouco mais adiante, encontrou um trenó voltado de cabeça para baixo, vazio. e umas renas estranhas. «estranhas» porque demasiado coradas e com soluços.
ouviu um gemido. atrás de um arbusto, kiko deparou com o próprio pai natal. estendido no chão, ambas as mãos sobre o ventre, como se tivesse apanhado um tiro. e gemendo, gemendo. que se passa?, perguntou de novo, que se passou?
as renas haviam festejado com excessiva euforia. um copo aqui, um copo ali, risos, mais umas taças e, por fim, bebendo directamente das garrafas - tinham-se embriagado. conclusão: vogando depois pelo espaço com a liberalidade típica dos bêbados, descontrolaram-se e chocaram contra uma árvore durante a aterragem. e ali estava o pai natal, incapaz de se levantar, carpindo as suas mágoas e a de todos os meninos que, esse ano, não teriam presentes.
kiko ofereceu-se imediatamente para ser pai. um papá natal já atrasado, mas ainda cheio de prendas. punha o gorro, uma barba postiça, como os pais natal dos centros comerciais, e ia pelas chaminés. assim foi, de facto. e devo dizer que esse foi o melhor de todos os natais. pelo menos para kiko.
já perceberam que esta pequena história encerra uma lição e uma mensagem natalícia, não é verdade, amiguinhos? sim: se conduzir não beba. (pois, como acrescenta a daisy: porque pode entornar!)
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sexta-feira, dezembro 24, 2010
UMA CHEGADA PREVISIVELMENTE RUIDOSA

Aceito sugestões que me salvem.
Daisy, minha filha (suponho que instigada por Dudu, seu irmão), propõe-me que espalhe berlindes junto à chaminé: quer que a chegada do Pai Natal, escorregando na berlindada, seja suficientemente barulhenta para que ela acorde e lhe possa dizer: «Pai Natal! És tu!», e o abrace ternamente.
Que faço? Que digo? Que invento?
BOAS FESTAS AOS MEUS QUERIDOS LEITORES: A TODOS OS TRÊS!
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pedidos desesperados de sos aos leitores
quinta-feira, dezembro 23, 2010
O ARTISTA E o artista
Vi-a hoje de manhã; ao longe, não vislumbrava mais do que breves e indistintos traços, que o meu cérebro completou.
E apaixonei-me de uma súbita paixão por essa mulher, em parte criada (ou adivinhada) por mim, a partir de traços semi-vislumbrados. Um passo ágil que, com a cooperação benéfica do vento, lhe entreabria um casaco comprido, cinzento. Uma saia minúscula, que entreaparecia pelo entreaberto do casaco. Um cabelo longo, voador: não apenas esvoaçante.
Reeencontro-a à tarde, no corredor do colégio onde vou buscar a minha filha. É a mesma mulher. Mas não é a mesma mulher, porque a imagem se dissolve em face dos seus olhos esgazeados, os dentes demasiado saídos, o nariz enervantemente arrebitado e a voz com que esganiça contra a sua filha. Caramba. Como eu preferia a minha composição matinal.
Hum. Não digo que não haja Deus.
Só me espanta que, às vezes, eu pareça ser tão melhor artista do que Ele.
E apaixonei-me de uma súbita paixão por essa mulher, em parte criada (ou adivinhada) por mim, a partir de traços semi-vislumbrados. Um passo ágil que, com a cooperação benéfica do vento, lhe entreabria um casaco comprido, cinzento. Uma saia minúscula, que entreaparecia pelo entreaberto do casaco. Um cabelo longo, voador: não apenas esvoaçante.
Reeencontro-a à tarde, no corredor do colégio onde vou buscar a minha filha. É a mesma mulher. Mas não é a mesma mulher, porque a imagem se dissolve em face dos seus olhos esgazeados, os dentes demasiado saídos, o nariz enervantemente arrebitado e a voz com que esganiça contra a sua filha. Caramba. Como eu preferia a minha composição matinal.
Hum. Não digo que não haja Deus.
Só me espanta que, às vezes, eu pareça ser tão melhor artista do que Ele.
SÓ UMA PERGUNTA
Uma pessoa de quem se diz «Estás mesmo divertido», quando a vemos sob o efeito de um certo número de copos, é uma pessoa divertida? Ou será realmente que o álcool lhe empresta talentos que ele não possui?!
segunda-feira, dezembro 20, 2010
COGNOME
Sempre se achou e se disse, na família e na escola, que ele tinha uma grande capacidade. Não se percebe onde lhe pressentiam a «capacidade»: talvez no olhar brilhante a atento, ou numa certa inclinação da cabeça, quando escutava as pessoas; talvez porque fosse fácil amá-lo e o amor é um excelente revelador das capacidades do ser amado. Talvez por causa de algumas frases - tinha frases memoráveis - ou por causa de algumas perguntas - tinha perguntas talentosas. De modo que nunca se discutiu o seu «potencial».
E, contudo, o tempo passava e não havia quaisquer concretizações. Na escola, as classificações eram débeis. O discurso dos professores variava pouco: «Não aproveita as suas capacidades». Suspeito que ele próprio não saberia o que fazer para aproveitá-las. Lá estavam elas, adormecidas, ternas, capazes, como capacidades que eram, mas inconsequentes. Na família também foi não fazendo o que se esperava. Não escreveu, não construiu, não engenhou. Não produziu artigos, nem livros, nem filhos, nem pontes, nem pentes, nem guarda-chuvas, nem plantas, nem filmes, nem ossos, nem danças, nem pinturas, nem bâtons, nem baterias, nem sofás. Nem chuva, nem sol. Era de uma genial, tranquila e ineficiente capacidade.
Hoje, com oitenta e sete anos - fará amanhã, dia 21 de Dezembro, oitenta e oito -, chamam-lhe: «A Promessa».
E, contudo, o tempo passava e não havia quaisquer concretizações. Na escola, as classificações eram débeis. O discurso dos professores variava pouco: «Não aproveita as suas capacidades». Suspeito que ele próprio não saberia o que fazer para aproveitá-las. Lá estavam elas, adormecidas, ternas, capazes, como capacidades que eram, mas inconsequentes. Na família também foi não fazendo o que se esperava. Não escreveu, não construiu, não engenhou. Não produziu artigos, nem livros, nem filhos, nem pontes, nem pentes, nem guarda-chuvas, nem plantas, nem filmes, nem ossos, nem danças, nem pinturas, nem bâtons, nem baterias, nem sofás. Nem chuva, nem sol. Era de uma genial, tranquila e ineficiente capacidade.
Hoje, com oitenta e sete anos - fará amanhã, dia 21 de Dezembro, oitenta e oito -, chamam-lhe: «A Promessa».
domingo, dezembro 19, 2010
O MEU CONTRIBUTO PARA A CIÊNCIA
E se o daltonismo se resumisse a um problema lexical? Não tanto o não distinguir as cores, mas não saber distinguir entre os nomes das cores?
sexta-feira, dezembro 17, 2010
AFORISMOS KAÓSTICOS
Podemos pensar que, ao âmago de certas pessoas demasiado couraçadas, conseguiríamos até chegar (com tempo e desde que elas valessem a pena e o trabalho), dissolvendo-lhes a carapaça, camada após camada. Mas qualquer especialista em limpeza sabe que é um erro pensá-lo: a sujidade entranhada de muitos anos não se arranca de forma alguma.
CONVERSA DE LOCUTORES
LOCUTOR 1: E então, José, quais são as máximas para hoje...?
LOCUTOR 2: As máximas para hoje? Aaaah, olha, por exemplo, «quem tudo quer tudo perde», e...
LOCUTOR 1: Oh, José, pelo amor de Deus. Referia-me à meteorologia. Não tens aí as temperaturas máximas?!
LOCUTOR 2: As máximas para hoje? Aaaah, olha, por exemplo, «quem tudo quer tudo perde», e...
LOCUTOR 1: Oh, José, pelo amor de Deus. Referia-me à meteorologia. Não tens aí as temperaturas máximas?!
quinta-feira, dezembro 16, 2010
A Pensão
A pensão era tramada. Havia um rapaz que me olhava fixamente, à porta, mas não dizia nada, nem sequer quando lhe perguntei se havia quartos vagos. No primeiro dia - e, depois, todos os dias em que ali vivi -, acordou-me às quatro e meia da madrugada, gritando «Um palito para o gorila! Um palito para o gorila! Um palito para o gorila!» [Invejei todos os camponeses que despertam ao canto do galo, enquanto a mim calhava um rapaz de óculos muito graduados, que não me respondia às perguntas, e só percebi que não era mudo porque às quatro da manhã clamava obcecadamente por um certo palito para um determinado gorila...]
A senhora Polina, dona da pensão, também me olhava fixamente. Lambia-se, embora eu não seja fisicamente nada de especial. Talvez fosse um tique. Cheirava a perfume intenso e bebia de um cantil. «Chá», garantia-me, limpando a boca com as costas da mão.
Eu não tinha dinheiro para mais do que aquela pensão. Fugira à família, atrás de uma italiana que me trocou por um alemão. Os disparates que se fazem na vida. A italiana tinha dentes de cavalo, uma voz rouca, exccessiva, que primeiro me fez perder a cabeça (e depois, quando ela insistia em me rouquejar obscenidades, na cama, acabou por me fazer perder qualquer vestígio de excitação...); comia de mais, chamava-me «Berlusconi mio» e arrotava.
Por que deixei tudo por ela? Porque era italiana? Porque me obrigou a acompanhá-la, apontando-me uma pequena pistola à cabeça? Sei lá. Acho graça, em todo o caso, que hoje, quando me queixo, me perguntem, sarcasticamente: «Então, por que diabo foste com ela? Apontou-te alguma pistola à cabeça?»; e pensem que sou tolo, quando respondo: «Olha, por acaso sim.»
Voltemos à pensão. Quando lá cheguei, estava triste e deprimido. Sem dinheiro. Andava com fome e com sono. A senhora dona Polina lambia-se. Fazia crochet, ou seria tricot? Adormecia à lareira, numa cadeira de balanço, ouvindo a história do senhor coronel. Digo bem: «a história», porque era sempre a mesma. E quem me pôs a ideia triste na cabeça foi o Faustino, que vivia na porcaria da pensão. Jogava ao dominó e, enquanto o coronel voltava à mesma eterna história e a velha dormitava, uma noite disse-me: «Essa gaja é podre de rica. Um dia faço um disparate.»
E eu pensei: «Quem faz um disparate sou eu.»
Mas nunca direi ao mundo que disparate quis fazer - e tentei fazer - e quase fiz!
A senhora Polina, dona da pensão, também me olhava fixamente. Lambia-se, embora eu não seja fisicamente nada de especial. Talvez fosse um tique. Cheirava a perfume intenso e bebia de um cantil. «Chá», garantia-me, limpando a boca com as costas da mão.
Eu não tinha dinheiro para mais do que aquela pensão. Fugira à família, atrás de uma italiana que me trocou por um alemão. Os disparates que se fazem na vida. A italiana tinha dentes de cavalo, uma voz rouca, exccessiva, que primeiro me fez perder a cabeça (e depois, quando ela insistia em me rouquejar obscenidades, na cama, acabou por me fazer perder qualquer vestígio de excitação...); comia de mais, chamava-me «Berlusconi mio» e arrotava.
Por que deixei tudo por ela? Porque era italiana? Porque me obrigou a acompanhá-la, apontando-me uma pequena pistola à cabeça? Sei lá. Acho graça, em todo o caso, que hoje, quando me queixo, me perguntem, sarcasticamente: «Então, por que diabo foste com ela? Apontou-te alguma pistola à cabeça?»; e pensem que sou tolo, quando respondo: «Olha, por acaso sim.»
Voltemos à pensão. Quando lá cheguei, estava triste e deprimido. Sem dinheiro. Andava com fome e com sono. A senhora dona Polina lambia-se. Fazia crochet, ou seria tricot? Adormecia à lareira, numa cadeira de balanço, ouvindo a história do senhor coronel. Digo bem: «a história», porque era sempre a mesma. E quem me pôs a ideia triste na cabeça foi o Faustino, que vivia na porcaria da pensão. Jogava ao dominó e, enquanto o coronel voltava à mesma eterna história e a velha dormitava, uma noite disse-me: «Essa gaja é podre de rica. Um dia faço um disparate.»
E eu pensei: «Quem faz um disparate sou eu.»
Mas nunca direi ao mundo que disparate quis fazer - e tentei fazer - e quase fiz!
quarta-feira, dezembro 15, 2010
aforismos kaosticos
Certas verdades só podem ser pronunciadas uma primeira e única vez: quando as repetimos, estão já cheias de pó.
Também algumas paisagens nos mostram a sua verdade só quando as contemplamos pela primeira vez.
Também algumas paisagens nos mostram a sua verdade só quando as contemplamos pela primeira vez.
segunda-feira, dezembro 13, 2010
NÃO LEIAM ISTO SE NÃO QUEREM ENTRAR EM DEPRESSÃO
O túnel do tempo tem a forma de um funil. Um funil que, em dado momento da vida, muda de posição.
Enquanto somos crianças, o nosso passado é ainda estreito e o futuro uma boca larga.
A partir de certa altura, adivinhamos que o funil se inverteu. A boca larga corresponde ao passado - e o futuro estreitou-se.
Antes, tinha saudades do futuro.
Hoje, digamos,
o que era para ser futuro, ou não aconteceu de todo, ou acabou tornando-se passado.
E, portanto, ter saudades do futuro é ter saudades do tempo [já passado] em que ainda tinha muito futuro...
Enquanto somos crianças, o nosso passado é ainda estreito e o futuro uma boca larga.
A partir de certa altura, adivinhamos que o funil se inverteu. A boca larga corresponde ao passado - e o futuro estreitou-se.
Antes, tinha saudades do futuro.
Hoje, digamos,
o que era para ser futuro, ou não aconteceu de todo, ou acabou tornando-se passado.
E, portanto, ter saudades do futuro é ter saudades do tempo [já passado] em que ainda tinha muito futuro...
domingo, dezembro 12, 2010
A CONTENÇÃO
Às vezes, basta uma constatação de muito poucas palavras para se conseguir ser hilariante.
Ontem, no Eixo do Mal, Pedro Mexia limitou-se a chamar a atenção para isto:
«Ouvimos Alberto João Jardim chamar demagogo a Carlos César.»
Não era e não foi preciso acrescentar uma única palavra para fazer a piada ter piada.
Ontem, no Eixo do Mal, Pedro Mexia limitou-se a chamar a atenção para isto:
«Ouvimos Alberto João Jardim chamar demagogo a Carlos César.»
Não era e não foi preciso acrescentar uma única palavra para fazer a piada ter piada.
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delírios políticos,
desorgulhos pátrios
sábado, dezembro 11, 2010
E PASSEMOS A ASSUNTOS MAIS INTERESSANTES, COMO LADY GAGA
Tenho uma opinião sobre a (o?) WikiLeaks (escreva-se como se escrever...).
Em primeiro lugar, julgo que a questão da ameaça à segurança do único país que nos protegeria do eixo do mal e de todos os males, como argumenta Miguel Sousa Tavares, simplesmente se não põe. O «mal» existe, efectivamente, e a preservação do segredo é um aspecto fulcral da diplomacia. Mas o secretismo dos EUA vem sendo sistematicamente posto em causa, e desde há muitos anos, pela opinião pública - mais até do que pela imprensa -, pelo cinema ou pela literatura. Lembrem-se lá de um filme norte-americano dos últimos anos em que os bastidores da Casa Branca, da CIA ou do FBI não tenham sido completamente denegridos. (Com excepção, é claro, dos da Walt Disney).
Que uma fortíssima democracia como a americana resista e sobreviva às suas ameaças internas, aos caricaturistas, aos teorizadores da conspiração, aos objectores de consciência, é um teste que só serve para a fortalecer - mas, sobretudo, para a obrigar a repensar-se e a impor-se limites. Não é arrepiante que os States tenham peritos a «opinar» já não só sobre Israel e Berlusconi, mas sobre Moçambique e Mugabe, a cor das fezes da senhora dona Merkle, as prendas de Natal de Sarkozi? Até que ponto é que tudo pode ser minuciosamente vigiado sem que ninguém saiba, e sem limites nem precalços?
Não creio que Julian Assange (e este, escreve-se assim, ou assado?) seja um herói. Não respeito particularmente a lógica desenfreada da WikiLeaks (escreva-se como se escrever...). Mas que nenhum terrorismo justifica o Big Brother parece-me evidente. Que a fuga de informações é, por vezes, útil e reveladora, parece-me evidente. Que onde há telhados de vidro uma pedrada vem a propósito, parece-me evidente. O resto é paranóia. De Obama, que tem responsabilidades na conduta de uma superpotência. De Miguel Sousa Tavares, que não tem a menor responsabilidade.
Em primeiro lugar, julgo que a questão da ameaça à segurança do único país que nos protegeria do eixo do mal e de todos os males, como argumenta Miguel Sousa Tavares, simplesmente se não põe. O «mal» existe, efectivamente, e a preservação do segredo é um aspecto fulcral da diplomacia. Mas o secretismo dos EUA vem sendo sistematicamente posto em causa, e desde há muitos anos, pela opinião pública - mais até do que pela imprensa -, pelo cinema ou pela literatura. Lembrem-se lá de um filme norte-americano dos últimos anos em que os bastidores da Casa Branca, da CIA ou do FBI não tenham sido completamente denegridos. (Com excepção, é claro, dos da Walt Disney).
Que uma fortíssima democracia como a americana resista e sobreviva às suas ameaças internas, aos caricaturistas, aos teorizadores da conspiração, aos objectores de consciência, é um teste que só serve para a fortalecer - mas, sobretudo, para a obrigar a repensar-se e a impor-se limites. Não é arrepiante que os States tenham peritos a «opinar» já não só sobre Israel e Berlusconi, mas sobre Moçambique e Mugabe, a cor das fezes da senhora dona Merkle, as prendas de Natal de Sarkozi? Até que ponto é que tudo pode ser minuciosamente vigiado sem que ninguém saiba, e sem limites nem precalços?
Não creio que Julian Assange (e este, escreve-se assim, ou assado?) seja um herói. Não respeito particularmente a lógica desenfreada da WikiLeaks (escreva-se como se escrever...). Mas que nenhum terrorismo justifica o Big Brother parece-me evidente. Que a fuga de informações é, por vezes, útil e reveladora, parece-me evidente. Que onde há telhados de vidro uma pedrada vem a propósito, parece-me evidente. O resto é paranóia. De Obama, que tem responsabilidades na conduta de uma superpotência. De Miguel Sousa Tavares, que não tem a menor responsabilidade.
MAS POR QUE SERÁ QUE SÓ EU É QUE PENSO NESTAS COISAS?!
O inqualificável Eanes, desde que deixou de ser Presidente, dedicou-se ao estudo da teoria política. Ele fez mestrados, ele fez doutoramentos. Oiço-o que, na rádio, se pronuncia sobre Camarate. E reparo que continua recorrendo a ditados e expressões idiomáticos portugueses. «Isso é uma faca de dois legumes» ou «águas passadas não moem moínhos» são os meus predilectos.
Posso propor dois ditados que o levem a pensar duas vezes antes de abrir a boca?
«Quem cala, contente»
e
«O silêncio é touro».
Quanto ao acidente/crime de Camarate, eis, graciosamente, a minha opinião: a culpa, como tudo o que é mau neste país, só pode ser do governo.
E não me digam que o actual Primeiro-ministro era, então, demasiado jovem. Nunca ouviram falar de viagens no tempo, não, pobres mentes ingénuas e anti-científicas?
Posso propor dois ditados que o levem a pensar duas vezes antes de abrir a boca?
«Quem cala, contente»
e
«O silêncio é touro».
Quanto ao acidente/crime de Camarate, eis, graciosamente, a minha opinião: a culpa, como tudo o que é mau neste país, só pode ser do governo.
E não me digam que o actual Primeiro-ministro era, então, demasiado jovem. Nunca ouviram falar de viagens no tempo, não, pobres mentes ingénuas e anti-científicas?
quarta-feira, dezembro 08, 2010
QUANDO A EFECTIVAÇÃO ESTRAGA A ESPERA
Aforismava eu, há dias, que, às vezes, esperarmos por alguém que não vem, pode ser bom: porque nos liberta.
Comentava/perguntava Zorbas, o inefável gato, se eu também não reparara que, frequentemente, o grande prazer do reencontro está na antecipação do reencontro.
Curiosamente, na diferença de perspectiva, Zorbas e eu concordamos num ponto:
O encontro propriamente dito tende a ser o que estraga tudo.
Comentava/perguntava Zorbas, o inefável gato, se eu também não reparara que, frequentemente, o grande prazer do reencontro está na antecipação do reencontro.
Curiosamente, na diferença de perspectiva, Zorbas e eu concordamos num ponto:
O encontro propriamente dito tende a ser o que estraga tudo.
CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS ACERCA DA DOCÊNCIA
Historicamente, a origem da figura do professor é a do pedagogo: um escravo culto, que usa o seu saber para o progresso espiritual do jovem amo.
Nesta relação, o poder está inequivocamente do lado do ignorante (e simultaneamente, o mais jovem), que faz do sábio um instrumento da sua evolução.
Esta origem histórica diz tudo acerca do actual estatuto do professor. Diz tudo acerca da visão que dele têm a sociedade, os meninos, os pais dos meninos. Diz tudo acerca do ilimitado poder do Ministério sobre o grupo de escravos cultos que tutela.
Claro que, entretanto, a situação dos actuais professores não é em tudo idêntica à dos antigos pedagogos: alguns professores nem sequer são especialmente cultos.
Nesta relação, o poder está inequivocamente do lado do ignorante (e simultaneamente, o mais jovem), que faz do sábio um instrumento da sua evolução.
Esta origem histórica diz tudo acerca do actual estatuto do professor. Diz tudo acerca da visão que dele têm a sociedade, os meninos, os pais dos meninos. Diz tudo acerca do ilimitado poder do Ministério sobre o grupo de escravos cultos que tutela.
Claro que, entretanto, a situação dos actuais professores não é em tudo idêntica à dos antigos pedagogos: alguns professores nem sequer são especialmente cultos.
terça-feira, dezembro 07, 2010
FÉ & DÚVIDA
Acredito que exista vida inteligente algures neste cosmo imenso. Que a haja na terra é que é duvidoso.
NA PAINATALOLÂNDIA
DUENDE - Pai Natal! Pai Natal! O mano diz que não são nada os pais dos meninos que lhes dão presentes! Diz que não existem «pais dos meninos». Diz que quem dá os presentes és tu...
PAI NATAL - Existem sim senhor. Não acredites no mano, vá lá. Olha. Já escreveste a tua carta para os papás, com a lista das prendas que tu queres? [Raios! Os mitos e as fantasias são postas em causa por duendes cada vez mais jovens...]
PAI NATAL - Existem sim senhor. Não acredites no mano, vá lá. Olha. Já escreveste a tua carta para os papás, com a lista das prendas que tu queres? [Raios! Os mitos e as fantasias são postas em causa por duendes cada vez mais jovens...]
domingo, dezembro 05, 2010
não farás rir todos, a não ser que não tenhas graça
Humorista:
Podes não te preocupar com o humor político.
Mas ai de ti se não levas em conta a política do humor:
E, relativamente à política do humor, isto deves saber: é que ele não é democrático.Não agrada a todos - o humor faz inimigos. E a linha a partir da qual uma graça não gera inimigos é a linha atravessada a qual o humor abdica de si.
Podes ter inimigos sem ter piada. Mas não podes ter piada sem ter inimigos.
Podes não te preocupar com o humor político.
Mas ai de ti se não levas em conta a política do humor:
E, relativamente à política do humor, isto deves saber: é que ele não é democrático.Não agrada a todos - o humor faz inimigos. E a linha a partir da qual uma graça não gera inimigos é a linha atravessada a qual o humor abdica de si.
Podes ter inimigos sem ter piada. Mas não podes ter piada sem ter inimigos.
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sábado, dezembro 04, 2010
O SOL
SERÁ QUE ELA QUE PENSA O PAI NATAL É SURDO?
Daisy vem, em segredo, dizer-me que o Pai Natal ouve tudo o que dizemos e que, se dizemos disparates, ele se vinga. (Foi o irmão, suponho, que lhe deu que pensar...).
Pergunta-me, sempre em segredo, se o Pai Natal consegue ouvir, mesmo que ela me segrede.
Respondo-lhe que depende do tom. Deve haver uma certa qualidade de bichanar que nem mesmo o Pai Natal consegue ouvir.
Proponho-lhe que ensaiemos. Daisy tenta, cada vez mais baixo.
Chegamos à conclusão de que, infelizmente, o tipo de segredo que a Daisy me diz e o Pai Natal já não ouve, é aquele que eu próprio também já não oiço.
Pergunta-me, sempre em segredo, se o Pai Natal consegue ouvir, mesmo que ela me segrede.
Respondo-lhe que depende do tom. Deve haver uma certa qualidade de bichanar que nem mesmo o Pai Natal consegue ouvir.
Proponho-lhe que ensaiemos. Daisy tenta, cada vez mais baixo.
Chegamos à conclusão de que, infelizmente, o tipo de segredo que a Daisy me diz e o Pai Natal já não ouve, é aquele que eu próprio também já não oiço.
!
Posso compreender que se não aprecie particularmente o ponto de exclamação. É um sinal magro e arrogante, demasiado óbvio e quase ofensivo nessa sua ausência de subtileza. Que prescindam dele, muito bem. Formem um movimento literário pós-moderno que faça da ausência do ponto de exclamação o seu efeito forte: muito bem. Até aí chego eu! Agora, que se alimente um movimento para excluí-lo do mercado, discriminando os que o empregam, troçando e proscrevendo a sua aparição, isso tem duas leituras: ou é ironia ou é tontice!!!
Preferia que fosse ironia. (Gosto muito da ironia). Mas vai-me parecendo que é tontice!!! Às vezes, chegando-me de pessoas inteligentes, que admiro e cujos blogues sigo.
E se for tontice!!!, caramba, que grande tontice!!!
Preferia que fosse ironia. (Gosto muito da ironia). Mas vai-me parecendo que é tontice!!! Às vezes, chegando-me de pessoas inteligentes, que admiro e cujos blogues sigo.
E se for tontice!!!, caramba, que grande tontice!!!
quarta-feira, dezembro 01, 2010
VERDADE vs. IRONIA
A ciência é crédula; e dogmática, claro, mesmo quando quer passar por anti-dogmática: confia excessivamente em que o nome mais adequado para a sua representação da realidade é: «verdade».
A filosofia, pelo contrário, sendo impossível, contém, como parte integrante de si, a consciência da sua impossibilidade. O que a move não tem por nome «verdade». Mas ironia.
A filosofia, pelo contrário, sendo impossível, contém, como parte integrante de si, a consciência da sua impossibilidade. O que a move não tem por nome «verdade». Mas ironia.
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A PIOR SITUAÇÃO NEM SEMPRE É A QUE PARECE
Estou sobre o infinito precipício.
Agarro-me a uma ervinha. Sinto que esta se rasga. Rrrrrr!
Não é que não tente voltar ao cimo firme, eu tento, eu tento. Mas não consigo.
E sabem que mais? Se não voltar, então que caia de vez. (Preferencialmente, depressa!)
Aqui, ridiculamente agarrado a uma ervinha, isso é que não.
É que o ridículo também mata. Mais lentamente.
Agarro-me a uma ervinha. Sinto que esta se rasga. Rrrrrr!
Não é que não tente voltar ao cimo firme, eu tento, eu tento. Mas não consigo.
E sabem que mais? Se não voltar, então que caia de vez. (Preferencialmente, depressa!)
Aqui, ridiculamente agarrado a uma ervinha, isso é que não.
É que o ridículo também mata. Mais lentamente.
terça-feira, novembro 30, 2010
CINISMOS SINCEROS
Quando estamos à espera de alguém e alguém não vem, às vezes não é tão mau como isso: que bem nos sabe a frescura da súbita, inesperada solidão da liberdade.
segunda-feira, novembro 29, 2010
AFORISMOS KAÓSTICOS
Não se diga que não há felicidade. O único problema é que esta reside unicamente no passado ou no futuro: não sei porquê, mas salta sempre sobre o presente.
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INKÉRITO-CÉPTICO
Será que nenhum dos «cientistas» que produzem inquéritos e sobre eles trabalham se apercebeu - através do simples recurso à sua experiência pessoal - de que nuncanuncanunca se responde a um inquérito com sinceridade?
Mesmo num inquérito anónimo - a não ser que fôssemos anónimos para a nossa própria consciência, o que não sucede - tendemos a mentir a nós mesmos.
Hoje, respondi a um inquérito; cinco minutos mais tarde, olhei para as respostas e percebi que, se voltasse a fazê-lo, responderia a quase todas diferentemente.
E será que nenhum fabricante de inquéritos distingue entre juízos de facto e juízos de valor? Será que não têm mesmo noção de que as suas perguntas pressupõem «ideias feitas», preconceitos, valores pré-definidos?
Mesmo num inquérito anónimo - a não ser que fôssemos anónimos para a nossa própria consciência, o que não sucede - tendemos a mentir a nós mesmos.
Hoje, respondi a um inquérito; cinco minutos mais tarde, olhei para as respostas e percebi que, se voltasse a fazê-lo, responderia a quase todas diferentemente.
E será que nenhum fabricante de inquéritos distingue entre juízos de facto e juízos de valor? Será que não têm mesmo noção de que as suas perguntas pressupõem «ideias feitas», preconceitos, valores pré-definidos?
domingo, novembro 28, 2010
AFORISMOS KAÓSTICOS
O desapontamento é, por si só, a prova de que alguns erros são muito mais intreressantes do que a realidade.
Ilustro esta afirmação: fiquei triste no dia em que descobri que um certo jogador do Benfica se chamava Saviola (como confirmei lendo o seu nome, impresso) e não Sá Viola (como sempre tinha ouvido...)
Ilustro esta afirmação: fiquei triste no dia em que descobri que um certo jogador do Benfica se chamava Saviola (como confirmei lendo o seu nome, impresso) e não Sá Viola (como sempre tinha ouvido...)
AFORISMOS KAÓSTICOS: SINAIS
Só posso indignar-me, num país em que as pessoas ousam ostentar tantos sinais exteriores de pobreza!
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FREUD ATACA DE NOVO
- O que eu vejo aqui, senhor doutor, é um extraordinário par de mamas!
- Meu caro, tenho de ser sincero. Não devia pôr as coisas assim, mas na fotografia do chapéu de Napoleão o senhor descobriu um pénis, na foto da floresta amazónica descobriu um púbis, nas dunas de uma praia descobre mamas. Estou farto desta sessão! Aliás, isto não é uma sessão, é uma obsessão. A sua obsessão sexual é impressionante!
- Logo vi! «Obsessão sexual»? Bem me tinham dito que os psicanalistas vêem sexo em tudo!
PS: Já agora, antes que desatem a criticar-me a falta de rigor: confesso que a amplitude da liberdade criativa é, aqui, imensa. Bem sei que os psicanalistas não costumam pedir que se interpretem fotografias. Mas, caramba, se a um apetecesse fazê-lo, hein? Não podia, não?!
- Meu caro, tenho de ser sincero. Não devia pôr as coisas assim, mas na fotografia do chapéu de Napoleão o senhor descobriu um pénis, na foto da floresta amazónica descobriu um púbis, nas dunas de uma praia descobre mamas. Estou farto desta sessão! Aliás, isto não é uma sessão, é uma obsessão. A sua obsessão sexual é impressionante!
- Logo vi! «Obsessão sexual»? Bem me tinham dito que os psicanalistas vêem sexo em tudo!
PS: Já agora, antes que desatem a criticar-me a falta de rigor: confesso que a amplitude da liberdade criativa é, aqui, imensa. Bem sei que os psicanalistas não costumam pedir que se interpretem fotografias. Mas, caramba, se a um apetecesse fazê-lo, hein? Não podia, não?!
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A MOSCA E SEU DUPLO
Vejo, pousada num espelho vertical, uma mosca preocupada na sua higiene.
Está mesmo por baixo de um móbil, que também se encontra reflectido no espelho.
Por um efeito curioso, abstraindo da realidade e focando unicamente a imagem especular, dir-se-ia que a mosca suporta aquele estranho objecto.
É mais fácil optar pela convicção de que se trata de uma ilusão de óptica.
A outra possibilidade seria admitir que, do outro lado do espelho, as moscas têm uma força assustadora. (E, carregando uma coisa daquelas, alguma invasão andam a preparar...)
Está mesmo por baixo de um móbil, que também se encontra reflectido no espelho.
Por um efeito curioso, abstraindo da realidade e focando unicamente a imagem especular, dir-se-ia que a mosca suporta aquele estranho objecto.
É mais fácil optar pela convicção de que se trata de uma ilusão de óptica.
A outra possibilidade seria admitir que, do outro lado do espelho, as moscas têm uma força assustadora. (E, carregando uma coisa daquelas, alguma invasão andam a preparar...)
aforismos kaosticos
Por alguma razão - ou então não, talvez seja um facto sem qualquer razão -, a maioria dos amigos coloridos que conheço são amigos cinzentos.
Mais do que «amigos coloridos», o que fazia mesmo falta ao país não era um presidente colorido, um primeiro-ministro colorido e uma oposição colorida?
Uma crise colorida? Um país colorido?
Mais do que «amigos coloridos», o que fazia mesmo falta ao país não era um presidente colorido, um primeiro-ministro colorido e uma oposição colorida?
Uma crise colorida? Um país colorido?
quarta-feira, novembro 24, 2010
TRANSFERÊNCIAS
É arrepiante pensar que, quando procedo a uma transferência bancária, durante um certo lapso de tempo, aquele dinheiro, que já não está na minha conta, mas ainda não chegou à conta destinatária, tem uma existência meramente virtual. E que significa isso? Está no espaço? Nas ondas do éter?
E não é verdade que um gang de vírus poderia interceptá-lo?
E não é verdade que um gang de vírus poderia interceptá-lo?
segunda-feira, novembro 22, 2010
A TRISTE HISTÓRIA - ABSOLUTAMENTE VERÍDICA - DE UM ESCRITOR IMPUBLICADO
Em 2005, Virgílio Caeiro, não tendo conseguido suicidar-se, decidiu não largar mão de todas as possibilidades contidas na ideia do suicídio.
Resolveu, por isso, encenar a sua auto-morte. Pensou, por um lado, que poderia assim ver, de longe, quem é que, afinal, o amava e quem o não amava. Quem o choraria muito, o choraria pouco, o choraria assim assim. E quem não verteria uma única e solitária lágrima. Por outro lado, considerou que, na qualidade trágica de homem que pusera termo à vida - mesmo não tendo posto efectivamente termo à vida -, conseguiria publicar finalmente a sua obra. Ele, que sempre fora desprezado pelas editoras. Que fora cuspido pela sra. dona Zita Seabra, quando lhe quis apresentar o seu manuscrito. Empurrado pelo chefe da Teorema, aquele de óculos e bigode, quando tentou propor-lhe o seu original. Ora bem: depois de morto, sob a aura de um suicídio, atrairia como moscas todos os publicadores. Talvez até espanhóis. E holandeses.
Encenou, portanto, o dito suicídio.
Mas como se faz isso? Tentou experiências, ensaios, desenhos; contratou actores.
Mas.
Enganou-se na faca. Tinha de realizar a performance diante de uma máquina que filmava tudo: ia ser lindo! um hara-kiri, esteticamente perfeito! Só que em vez de usar a faca falsa, utilizou uma, de cozinha, com o imperdoável defeito de ser autêntica.
Aflito, desesperado, experimentando levantar-se e urrar por socorro, amparou-se à mesa de trabalho, derrubou-a, e deixou cair na lareira todos os seus manuscritos - os quais reunira sobre a secretária, para que os descobrissem quando dessem com o seu corpo (que, obviamente, no seu projecto inicial, não deveria ser realmente o seu corpo, mas um boneco que os actores contratados, mascarados de bombeiros, rapidamente fariam desaparecer...). E os textos que cairam na lareira acabaram por arder. Deram, de resto, um bonito lume, não se pode dizer o contrário.
Quando os «bombeiros» chegaram, como combinado, ficaram um pouco surpreendidos. Em vez de um corpo de boneco, encontraram um corpo de boneco e um cadáver real.
Em vez de manuscritos que deveriam salvar e enviar às editoras, acompanhadas de uma folhinha com as últimas palavras do morto, encontraram cinzas. E um belo fogo, isso, realmente, não se pode negar.
Foram-se embora, cabisbaixos. Ninguém lhes pagou.
Em suma, um suicídio nem sempre tem os resultados esperados. Às vezes, um gajo morre mesmo.
Resolveu, por isso, encenar a sua auto-morte. Pensou, por um lado, que poderia assim ver, de longe, quem é que, afinal, o amava e quem o não amava. Quem o choraria muito, o choraria pouco, o choraria assim assim. E quem não verteria uma única e solitária lágrima. Por outro lado, considerou que, na qualidade trágica de homem que pusera termo à vida - mesmo não tendo posto efectivamente termo à vida -, conseguiria publicar finalmente a sua obra. Ele, que sempre fora desprezado pelas editoras. Que fora cuspido pela sra. dona Zita Seabra, quando lhe quis apresentar o seu manuscrito. Empurrado pelo chefe da Teorema, aquele de óculos e bigode, quando tentou propor-lhe o seu original. Ora bem: depois de morto, sob a aura de um suicídio, atrairia como moscas todos os publicadores. Talvez até espanhóis. E holandeses.
Encenou, portanto, o dito suicídio.
Mas como se faz isso? Tentou experiências, ensaios, desenhos; contratou actores.
Mas.
Enganou-se na faca. Tinha de realizar a performance diante de uma máquina que filmava tudo: ia ser lindo! um hara-kiri, esteticamente perfeito! Só que em vez de usar a faca falsa, utilizou uma, de cozinha, com o imperdoável defeito de ser autêntica.
Aflito, desesperado, experimentando levantar-se e urrar por socorro, amparou-se à mesa de trabalho, derrubou-a, e deixou cair na lareira todos os seus manuscritos - os quais reunira sobre a secretária, para que os descobrissem quando dessem com o seu corpo (que, obviamente, no seu projecto inicial, não deveria ser realmente o seu corpo, mas um boneco que os actores contratados, mascarados de bombeiros, rapidamente fariam desaparecer...). E os textos que cairam na lareira acabaram por arder. Deram, de resto, um bonito lume, não se pode dizer o contrário.
Quando os «bombeiros» chegaram, como combinado, ficaram um pouco surpreendidos. Em vez de um corpo de boneco, encontraram um corpo de boneco e um cadáver real.
Em vez de manuscritos que deveriam salvar e enviar às editoras, acompanhadas de uma folhinha com as últimas palavras do morto, encontraram cinzas. E um belo fogo, isso, realmente, não se pode negar.
Foram-se embora, cabisbaixos. Ninguém lhes pagou.
Em suma, um suicídio nem sempre tem os resultados esperados. Às vezes, um gajo morre mesmo.
aforismos
Escrever e, em Portugal, não ter recebido um prémio qualquer, tem de significar qualquer coisa. Possivelmente, que se é muito mau. Provavelmente, que se é demasiado bom.
Não quero com isto dizer que seja o meu caso. Embora, por mera coincidência, seja o meu caso.
E não que isso me preocupe necessariamente.
Preocupa-me desnecessariamente.
Não quero com isto dizer que seja o meu caso. Embora, por mera coincidência, seja o meu caso.
E não que isso me preocupe necessariamente.
Preocupa-me desnecessariamente.
sexta-feira, novembro 19, 2010
OBAMA E CAVACO
Eis a Nato.
Podem tudo. Fecham estradas e fronteiras, brindam com tolerância de ponto a capital de um país em crise.
Vejo, na TV, dois presidentes: Cavaco discursa, Obama ouve-o, com um sorriso suspeito, pela tradução de uns minúsculos fones nos seus ouvidos. Vejo estes dois homens e não posso deixar de me sentir envergonhado pelo país que temos para apresentar e, sobretudo, pelo Presidente que temos para apresentar.
Podia ser pior. Imaginem que estávamos a viver em monarquia. Imaginem que o símbolo humano da pátria era... o rei Dom Duarte!
Mas não me consola. Duvido que Obama esteja a ouvir Cavaco, seria demasiado deprimente. Penso que aquilo é um i-pod; penso que, enquanto o esqueleto vomita banalidades, que eu seria capaz de reproduzir por adivinhação, sem ter ouvido o seu discurso, o Presidente dos EUA se entretém escutando música nas suas orelhas.
Podem tudo. Fecham estradas e fronteiras, brindam com tolerância de ponto a capital de um país em crise.
Vejo, na TV, dois presidentes: Cavaco discursa, Obama ouve-o, com um sorriso suspeito, pela tradução de uns minúsculos fones nos seus ouvidos. Vejo estes dois homens e não posso deixar de me sentir envergonhado pelo país que temos para apresentar e, sobretudo, pelo Presidente que temos para apresentar.
Podia ser pior. Imaginem que estávamos a viver em monarquia. Imaginem que o símbolo humano da pátria era... o rei Dom Duarte!
Mas não me consola. Duvido que Obama esteja a ouvir Cavaco, seria demasiado deprimente. Penso que aquilo é um i-pod; penso que, enquanto o esqueleto vomita banalidades, que eu seria capaz de reproduzir por adivinhação, sem ter ouvido o seu discurso, o Presidente dos EUA se entretém escutando música nas suas orelhas.
sexta-feira, novembro 05, 2010
terça-feira, outubro 26, 2010
57 RAZÕES PARA PROVAR A VIDA COMO UM GOURMET
Nasci em 1957.
Dei por mim, nestes dias em que parece que uma maré de azar se abateu sobre o meu mundo, a perguntar se encontraria 57 razões para estar vivo: 57 bons motivos para que, mesmo desesperada, a vida contivesse ainda, em si, o estímulo de um brilhante projecto.
Eis o que achei:
1. As sextas-feiras: dia em que me perco do mundo: e o mundo me perde de vista: e ninguém sabe de mim;
2. pegar, uma noite, num dos volumes de Em Busca do Tempo Perdido (qualquer um, menos o II, que emprestei) e sentar-me, sob a luz pálida do candeeiro, folheando e ouvindo o ruído das páginas rijas a passar, enquanto me espreguiço nas palavras de Marcel, que me levam minuciosamente com elas; ler: uma frase, um parágrafo, um capítulo...
3. sair muito cedo de casa, conduzindo pela marginal a uma hora em que não há demasiados carros;
4. os olhos sobrevoando o Tejo, nessa hora em que o sol ainda é só um clarão a lutar;
5. a música que vou ouvindo, concretamente. Sobretudo agora, que descobri a rádio radar;
6. escrever um romance: sentar-me, cheio de ideias, diante do computador, e principiar a desenhá-las sob a forma de caracteres (neste momento não escrevo romance algum, mas hei-de fazê-lo de novo, em breve...);
7. certas aulas: não seguramente todas, mas algumas, muito especiais, em que me sinto voar diante dos olhares estupefactos dos meus alunos;
8. ter amigos: saber que os meus amigos são meus amigos, mesmo se os descuro;
9. o clube de cinema - mais ao princípio, um pouco menos agora, mas ainda;
10. o riso: em qualquer momento do dia ou da vida, o riso. Com um livro (raramente), num filme (raramente, porque já quase não posso ir ao cinema), com amigos (muitas vezes);
11. um copo de uísque, cheio de pedras de gelo; café forte, pela manhã (abatanado);
12. as variações em torno de Bach, por Glenn Gould;
13. Pink Floyd (há quanto tempo os não revisito?)
14. Lou Reed (Walking in the Dark Side);
15. ter blogues; escrever em blogues; descobrir que há quem me leia; multiplicar-me em heterónimos, em pseudónimos, em personagens;
16. conseguir estar absolutamente sozinho em casa;
17. sentir ainda tanto prazer na banda desenhada;
18. fazer uma banda desenhada a meias com o meu filho; juntarmos ideias, compormos os desenhos entre os dois;
19. saber que, quando me não zango com o meu filho, sou uma das poucas pessoas - se não a única - com o poder de o fazer torcer-se literalmente pelo chão, de tanto rir;
20. um abraço da minha filha; um beijo da minha filha; ouvi-la dizer, pronunciando mal: «Pai, ámo-te!»;
21. festas: bebida a correr, gargalhadas a correr, aquela euforia dos grupos em que ninguém se lembra de que, no dia seguinte, provavelmente, voltará ao serviço;
22. trabalhar numa profissão de que, por muito que me cilindrem, gosto muito: alunos que aprecio e me apreciam, colegas que aprecio e me apreciam, uma chefia com que me dou bem, bom ambiente, liberdade;
23. descobrir um livro que me interessa, numa livraria; pensar: «É caro!»; e, logo a seguir: «Que s'a lixe!»; pedir que mo embrulhem, como se fosse para oferecer, e sair rapidamente dali, com o embrulho debaixo do braço e uma agradável sensação de culpa;
24. acreditar que ainda não está tudo terminado para mim; que ainda tenho duas ou três, talvez quatro coisas fundamentais para fazer na vida;
25. saber que vou reencontrar-me com o meu primo: cá, ou lá longe, como ainda há pouco aconteceu. Recordarmos tudo, de fio a pavio, e rirmo-nos sempre por alguma coisa;
26. sonhar com viagens. Arrepender-me de não ter feito nada para as realizar. Estar certo de que, em breve, realizarei alguma;
27. não conhecer, precisamente, dois países que terei de conhecer, aqui mesmo ao lado: Itália, Grécia;
28. Paris. Saber que me espera. Que regressarei;
29. Nova Iorque: saber que estive lá, ainda que provavelmente não torne a ir tão longe;
30. gostar de escrever. Gostar do que escrevo (em geral). Gostar de escrever como escrevo;
31. ver a minha mãe melhorar, vagarosamente, no Hospital; beijá-la e tocar-lhe como já me não lembrava de fazer há muito;
32. trazer o meu irmão para almoçar em minha casa; sentir esta estranheza: Eu tenho um irmão!
33. olhar as horas no meu relógio com o rosto de Corto Maltese no mostrador e seu corpo ao longo da pulseira;
34. comprar t-shirts que as pessoas se espantam que eu seja capaz de usar: Incrível Hulk, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Surfista Prateado;
35. lançar um fanzine com a minha amiga Ana Cristina: tanto, tanto, tanto trabalho para conseguir fazer sair dois magros números por ano: e tanto, tanto, tanto gozo;
36. concretamente, a história do Dancake, que me dá tanto prazer criar a meias com a Ana;
37. rever What's Eating Gilbert Grape?, de que nunca me fartarei;
38. as crónicas do Ricardo Araújo Pereira na Visão;
39. a rubrica do Nuno Markl, na Comercial;
40. O Chato, personagem incontornável de Os Contemporâneos;
41. Law and Order, na TV;
42. Lolita: tanto o livro de Nabokov, como o filme de Stanley Kubrick;
43. The Party, com o impagável/inapagável Peter Sellers;
44. aguardar o inverno com alguma ansiedade, por me permitir tornar a envergar o meu lindíssimo e estiloso sobretudo pêlo de camelo;
45. a filosofia: saber que tenho os livros de Pascal, Montaigne, Kierkegaard ou Nietzsche: lê-los por prazer, discutir com eles, regressar-lhes continuamente, nunca por razões de estudo ou dever de ofício;
46. ser ateu; ser amigo de (muitos) crentes (muito), poder admirar esteticamente a sua crença, mas não me sentir tentado: acreditar na liberdade que isso me confere;
47. ter nascido em Moçambique; ter a minha memória carregada de imagens e de sons. (Não de cheiros. Tenho pouca ou nula lembrança de cheiros: por que será?)
48. Mondigliani. Ter principiado por embirrar com ele, e acabar conquistado e rendido ao seu traço peculiar, deliciosamente imperfeito;
49. Velasquez: perder-me nas labirínticas e inesperadas inversões da sua pintura que o auto-retrata a si próprio no acto de retratar;
50. um livro de Umberto Eco, que me foi carinhosamente oferecido num Natal, e a cujas impressionantes imagens retorno: História do Feio;
51. já falei da banda desenhada, mas referia-me à banda desenhada em geral. Agora, em particular: os álbuns de Tintim: por tudo, absolutamente; principalmente As Jóias de Castafiore;
52. pequenos-almoços em grupo: coscuvilhice, pequena política, humor;
53. óculos de sol: ainda não tenho os Ray-Ban derradeiros, os que contentarão definitivamente e porão termo a todas as buscas: mas, é claro, eles hão-de chegar;
54. ainda haver este calibre e esta intensidade de amor num homem de 53 anos;
55. revistas e jornais estrangeiros;
56. uma t-shirt com um vampiro estampado: brilha no escuro e foi-me oferecido por um grupo de amigas, no meu aniversário;
57. ter, na carteira, um cartão-brinde que me permitirá gastar uma certa quantia (que, por enquanto, desconheço), em roupa, no Corte Ingles; ter sido oferecido por um outro grupo de amigas, no meu aniversário;
e uma, suplementar: sinceramente, sinceramente: ter cinquenta e sete boas razões para me sentir de bem com a vida. Às vezes, infelizmente, não sinto. Pois que esta lista me ajude a perceber por que vale a pena viver.
A quem me seguiu até aqui, numa lista tão pessoal e, por vezes, tão pueril, obrigado pela paciência.
Boa noite.
Dei por mim, nestes dias em que parece que uma maré de azar se abateu sobre o meu mundo, a perguntar se encontraria 57 razões para estar vivo: 57 bons motivos para que, mesmo desesperada, a vida contivesse ainda, em si, o estímulo de um brilhante projecto.
Eis o que achei:
1. As sextas-feiras: dia em que me perco do mundo: e o mundo me perde de vista: e ninguém sabe de mim;
2. pegar, uma noite, num dos volumes de Em Busca do Tempo Perdido (qualquer um, menos o II, que emprestei) e sentar-me, sob a luz pálida do candeeiro, folheando e ouvindo o ruído das páginas rijas a passar, enquanto me espreguiço nas palavras de Marcel, que me levam minuciosamente com elas; ler: uma frase, um parágrafo, um capítulo...
3. sair muito cedo de casa, conduzindo pela marginal a uma hora em que não há demasiados carros;
4. os olhos sobrevoando o Tejo, nessa hora em que o sol ainda é só um clarão a lutar;
5. a música que vou ouvindo, concretamente. Sobretudo agora, que descobri a rádio radar;
6. escrever um romance: sentar-me, cheio de ideias, diante do computador, e principiar a desenhá-las sob a forma de caracteres (neste momento não escrevo romance algum, mas hei-de fazê-lo de novo, em breve...);
7. certas aulas: não seguramente todas, mas algumas, muito especiais, em que me sinto voar diante dos olhares estupefactos dos meus alunos;
8. ter amigos: saber que os meus amigos são meus amigos, mesmo se os descuro;
9. o clube de cinema - mais ao princípio, um pouco menos agora, mas ainda;
10. o riso: em qualquer momento do dia ou da vida, o riso. Com um livro (raramente), num filme (raramente, porque já quase não posso ir ao cinema), com amigos (muitas vezes);
11. um copo de uísque, cheio de pedras de gelo; café forte, pela manhã (abatanado);
12. as variações em torno de Bach, por Glenn Gould;
13. Pink Floyd (há quanto tempo os não revisito?)
14. Lou Reed (Walking in the Dark Side);
15. ter blogues; escrever em blogues; descobrir que há quem me leia; multiplicar-me em heterónimos, em pseudónimos, em personagens;
16. conseguir estar absolutamente sozinho em casa;
17. sentir ainda tanto prazer na banda desenhada;
18. fazer uma banda desenhada a meias com o meu filho; juntarmos ideias, compormos os desenhos entre os dois;
19. saber que, quando me não zango com o meu filho, sou uma das poucas pessoas - se não a única - com o poder de o fazer torcer-se literalmente pelo chão, de tanto rir;
20. um abraço da minha filha; um beijo da minha filha; ouvi-la dizer, pronunciando mal: «Pai, ámo-te!»;
21. festas: bebida a correr, gargalhadas a correr, aquela euforia dos grupos em que ninguém se lembra de que, no dia seguinte, provavelmente, voltará ao serviço;
22. trabalhar numa profissão de que, por muito que me cilindrem, gosto muito: alunos que aprecio e me apreciam, colegas que aprecio e me apreciam, uma chefia com que me dou bem, bom ambiente, liberdade;
23. descobrir um livro que me interessa, numa livraria; pensar: «É caro!»; e, logo a seguir: «Que s'a lixe!»; pedir que mo embrulhem, como se fosse para oferecer, e sair rapidamente dali, com o embrulho debaixo do braço e uma agradável sensação de culpa;
24. acreditar que ainda não está tudo terminado para mim; que ainda tenho duas ou três, talvez quatro coisas fundamentais para fazer na vida;
25. saber que vou reencontrar-me com o meu primo: cá, ou lá longe, como ainda há pouco aconteceu. Recordarmos tudo, de fio a pavio, e rirmo-nos sempre por alguma coisa;
26. sonhar com viagens. Arrepender-me de não ter feito nada para as realizar. Estar certo de que, em breve, realizarei alguma;
27. não conhecer, precisamente, dois países que terei de conhecer, aqui mesmo ao lado: Itália, Grécia;
28. Paris. Saber que me espera. Que regressarei;
29. Nova Iorque: saber que estive lá, ainda que provavelmente não torne a ir tão longe;
30. gostar de escrever. Gostar do que escrevo (em geral). Gostar de escrever como escrevo;
31. ver a minha mãe melhorar, vagarosamente, no Hospital; beijá-la e tocar-lhe como já me não lembrava de fazer há muito;
32. trazer o meu irmão para almoçar em minha casa; sentir esta estranheza: Eu tenho um irmão!
33. olhar as horas no meu relógio com o rosto de Corto Maltese no mostrador e seu corpo ao longo da pulseira;
34. comprar t-shirts que as pessoas se espantam que eu seja capaz de usar: Incrível Hulk, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Surfista Prateado;
35. lançar um fanzine com a minha amiga Ana Cristina: tanto, tanto, tanto trabalho para conseguir fazer sair dois magros números por ano: e tanto, tanto, tanto gozo;
36. concretamente, a história do Dancake, que me dá tanto prazer criar a meias com a Ana;
37. rever What's Eating Gilbert Grape?, de que nunca me fartarei;
38. as crónicas do Ricardo Araújo Pereira na Visão;
39. a rubrica do Nuno Markl, na Comercial;
40. O Chato, personagem incontornável de Os Contemporâneos;
41. Law and Order, na TV;
42. Lolita: tanto o livro de Nabokov, como o filme de Stanley Kubrick;
43. The Party, com o impagável/inapagável Peter Sellers;
44. aguardar o inverno com alguma ansiedade, por me permitir tornar a envergar o meu lindíssimo e estiloso sobretudo pêlo de camelo;
45. a filosofia: saber que tenho os livros de Pascal, Montaigne, Kierkegaard ou Nietzsche: lê-los por prazer, discutir com eles, regressar-lhes continuamente, nunca por razões de estudo ou dever de ofício;
46. ser ateu; ser amigo de (muitos) crentes (muito), poder admirar esteticamente a sua crença, mas não me sentir tentado: acreditar na liberdade que isso me confere;
47. ter nascido em Moçambique; ter a minha memória carregada de imagens e de sons. (Não de cheiros. Tenho pouca ou nula lembrança de cheiros: por que será?)
48. Mondigliani. Ter principiado por embirrar com ele, e acabar conquistado e rendido ao seu traço peculiar, deliciosamente imperfeito;
49. Velasquez: perder-me nas labirínticas e inesperadas inversões da sua pintura que o auto-retrata a si próprio no acto de retratar;
50. um livro de Umberto Eco, que me foi carinhosamente oferecido num Natal, e a cujas impressionantes imagens retorno: História do Feio;
51. já falei da banda desenhada, mas referia-me à banda desenhada em geral. Agora, em particular: os álbuns de Tintim: por tudo, absolutamente; principalmente As Jóias de Castafiore;
52. pequenos-almoços em grupo: coscuvilhice, pequena política, humor;
53. óculos de sol: ainda não tenho os Ray-Ban derradeiros, os que contentarão definitivamente e porão termo a todas as buscas: mas, é claro, eles hão-de chegar;
54. ainda haver este calibre e esta intensidade de amor num homem de 53 anos;
55. revistas e jornais estrangeiros;
56. uma t-shirt com um vampiro estampado: brilha no escuro e foi-me oferecido por um grupo de amigas, no meu aniversário;
57. ter, na carteira, um cartão-brinde que me permitirá gastar uma certa quantia (que, por enquanto, desconheço), em roupa, no Corte Ingles; ter sido oferecido por um outro grupo de amigas, no meu aniversário;
e uma, suplementar: sinceramente, sinceramente: ter cinquenta e sete boas razões para me sentir de bem com a vida. Às vezes, infelizmente, não sinto. Pois que esta lista me ajude a perceber por que vale a pena viver.
A quem me seguiu até aqui, numa lista tão pessoal e, por vezes, tão pueril, obrigado pela paciência.
Boa noite.
sábado, outubro 23, 2010
RUPTURA E REENCONTRO DE UM BMW E DE UM MERCEDES
No texto anterior, precipitei-me. Sim, sim, sim, não digam que não, sei perfeitamente que o fiz. Descaí-me, bolas! Insinuei que o Mendes e o Baptista tiveram uma zanga tremenda! Vocês lembram-se do Mendes e do Baptista, não se lembram? E agora, tenho de falar acerca da zanga. Recebi comentários, não, mentira, comentários não. Já viram que tenho até publicado, em alguns posts, os dois comentários que, por engano, me enviam em duplicado, para parecer que me comentam muito. Ora esta última história foi totalmente incomentada. Mas recebi, sei cá, aerogramas, mails, telefonemas, gente a perguntar-me pelo Mendes e pelo Baptista.
Ora, a bem dizer, a «razão» da zanga, o pomo da discórdia, o busílis da questão, passou-me. E eles próprios também já deviam ter-se esquecido. O que ficara fora o sentimento de afronta, a rotina da ofensa, o gesto, a mímica, o desencontro. Nunca mais estiveram juntos no mesmo espaço. E nunca mais os seus carros ficaram estacionados na mesma zona - porque, como eles continuaram a frequentar, até por dever de ofício, os mesmos lugares, quando um deles chegava, partia o outro: e, portanto, aparecia um dos carros, por exemplo o BMW vermelho do Mendes, zarpava o outro em menos de três segundos, digamos: o Mercedes azulão do Baptista.
Um dia, porém, ia eu entrar na Casa do Povo, quando vejo, lado a lado, como namorados carinhosos, o BMW e o Mercedes. Fiquei varado. Num primeiro instante, confesso, quase me senti desapontado: como se um dos fundamentos do movimento do universo tivesse sido quebrado. Aquela zanga fazia parte do nosso mundo. Alguém conseguiria passar sem ela? Sem tê-la como clara, certa, estável?! Nunca mais um carro a chegar e o outro a partir? Depois, lentamente, uma semente de optimismo principiou a percutir-me o peito. E pensei: Tomar um copo, um dia, com os dois juntos: inesperado mas interessante, um impossível que poderia, contudo, vir a realizar-se...
Aos primeiros passos dados, reparei de imediato nos sapatos do Baptista. Daqueles antigos, cheios de arabescos. E nuns pés de meias aos quadrados, enfiados nesses sapatos. E numas pernas magras, em calça de fazenda - tudo isto surgindo sob o Mercedes azulão, como gato escondido com rabo de fora. A princípio, achei graça. Sorri-me para com os meus botões. Mas, logo a seguir, veio-me uma onda de indignação. O Baptista a esconder-se do Mendes, debaixo do próprio carro? Mas que diabo! Precisávamos de chegar a esse ponto? Que criancice. Que parvoíce. Aproximei-me, e não me contive:
«Ó Baptista, homem, parece-lhe que tem idade para essas meninices? Deixe-se disso! Se não quer ver o Mendes, meta-se mas é no carro e pisgue-se, caraças! Como sempre fez, aliás!»
E respondeu-me o outro, numa voz lúgubre e longínqua:
«Isso queria eu! O cabrão do Mercedes não pega, estou aqui há meia hora a ver se o amanho...»
Ora, a bem dizer, a «razão» da zanga, o pomo da discórdia, o busílis da questão, passou-me. E eles próprios também já deviam ter-se esquecido. O que ficara fora o sentimento de afronta, a rotina da ofensa, o gesto, a mímica, o desencontro. Nunca mais estiveram juntos no mesmo espaço. E nunca mais os seus carros ficaram estacionados na mesma zona - porque, como eles continuaram a frequentar, até por dever de ofício, os mesmos lugares, quando um deles chegava, partia o outro: e, portanto, aparecia um dos carros, por exemplo o BMW vermelho do Mendes, zarpava o outro em menos de três segundos, digamos: o Mercedes azulão do Baptista.
Um dia, porém, ia eu entrar na Casa do Povo, quando vejo, lado a lado, como namorados carinhosos, o BMW e o Mercedes. Fiquei varado. Num primeiro instante, confesso, quase me senti desapontado: como se um dos fundamentos do movimento do universo tivesse sido quebrado. Aquela zanga fazia parte do nosso mundo. Alguém conseguiria passar sem ela? Sem tê-la como clara, certa, estável?! Nunca mais um carro a chegar e o outro a partir? Depois, lentamente, uma semente de optimismo principiou a percutir-me o peito. E pensei: Tomar um copo, um dia, com os dois juntos: inesperado mas interessante, um impossível que poderia, contudo, vir a realizar-se...
Aos primeiros passos dados, reparei de imediato nos sapatos do Baptista. Daqueles antigos, cheios de arabescos. E nuns pés de meias aos quadrados, enfiados nesses sapatos. E numas pernas magras, em calça de fazenda - tudo isto surgindo sob o Mercedes azulão, como gato escondido com rabo de fora. A princípio, achei graça. Sorri-me para com os meus botões. Mas, logo a seguir, veio-me uma onda de indignação. O Baptista a esconder-se do Mendes, debaixo do próprio carro? Mas que diabo! Precisávamos de chegar a esse ponto? Que criancice. Que parvoíce. Aproximei-me, e não me contive:
«Ó Baptista, homem, parece-lhe que tem idade para essas meninices? Deixe-se disso! Se não quer ver o Mendes, meta-se mas é no carro e pisgue-se, caraças! Como sempre fez, aliás!»
E respondeu-me o outro, numa voz lúgubre e longínqua:
«Isso queria eu! O cabrão do Mercedes não pega, estou aqui há meia hora a ver se o amanho...»
sexta-feira, outubro 22, 2010
AGOSTINHO
O sr. Tavares tivera, toda a vida, um miserável carro de duas portas. (Aquilo a que os vendedores de automóveis habitualmente chamam «um 3 portas», contando absurdamente com a da bagageira...); tornara-se complicado albergar, num veículo tão minúsculo, uma família numerosa, com crianças de chorar, velhas de bengala, cães com línguas húmidas.
Por isso, no dia em que o sr. Tavares saiu do stand («o stander», dizia ele) na sua carrinha nova, cheia de portas, muito comprida, completamente negra, sentia-se feliz. Dispôs, naquele espaço enorme, a que não estavam habituados, as suas crianças, idosos e cães, e seguiram, ainda um pouco vagarosamente, a dar uma volta pela marginal...
Mas não bastava o passeio. Tinha de ir mostrar a carrinha ao amigo Agostinho! Chegou a pensar que Agostinho, muito adoentado, com graves problemas cardíacos, tão dependente das suas botijas de oxigénio, não só teria prazer em ver o comprido carro preto, como talvez lhe apetecesse passear - distrair-se, em suma...
O Agostinho gostou, efectivamente, de ver a Wolkswagen. Mas não lhe apetecia passear. Estava cansado, cansado. Não perdiam pela demora. Na próxima volta, contassem com ele. («Mas que coisa! Tão grande! É fantástico, de facto. E que confortável. Eu ia, ó Zé, mas olha, pá, tu desculpa, passei a noite aos gritos...»)
Os Tavares foram-se. O carro cruzou-se, à saída, com o Mendes e o Baptista (que, na altura, ainda se davam: passou-se tudo isto, portanto, antes da monumental zanga que os separaria para sempre...), o Mendes e o Baptista, dizia eu: dois empreiteiros que vinham saber de que obras, afinal, carecia a casa.
Abrindo a janela para cumprimentar, o sr. Tavares espantou-se um pouco de que os dois empreiteiros, olhando fixamente a carrinha negra, se descobrissem, e um dissesse para o outro:
«Olha! O Agostinho já foi!»
Mendes e Baptista, coitados, decidiram que iam ser discretos - já imaginavam a casa num alvoroço, a viúva chorando, os gatos-pingados sem mãos a medir. Não quiseram por isso bater à porta principal. Foram pelas traseiras. Tocaram sem alarde.
Bruscamente, o Mendes ouviu um grito do Baptista.
E sacudiu-o:
- Que foi, pá? Hein? Que é que te deu, homem? Estás branco, que é isso?
Agostinho, arrastando uma botija, abria-lhes tranquilamente a porta.
Por isso, no dia em que o sr. Tavares saiu do stand («o stander», dizia ele) na sua carrinha nova, cheia de portas, muito comprida, completamente negra, sentia-se feliz. Dispôs, naquele espaço enorme, a que não estavam habituados, as suas crianças, idosos e cães, e seguiram, ainda um pouco vagarosamente, a dar uma volta pela marginal...
Mas não bastava o passeio. Tinha de ir mostrar a carrinha ao amigo Agostinho! Chegou a pensar que Agostinho, muito adoentado, com graves problemas cardíacos, tão dependente das suas botijas de oxigénio, não só teria prazer em ver o comprido carro preto, como talvez lhe apetecesse passear - distrair-se, em suma...
O Agostinho gostou, efectivamente, de ver a Wolkswagen. Mas não lhe apetecia passear. Estava cansado, cansado. Não perdiam pela demora. Na próxima volta, contassem com ele. («Mas que coisa! Tão grande! É fantástico, de facto. E que confortável. Eu ia, ó Zé, mas olha, pá, tu desculpa, passei a noite aos gritos...»)
Os Tavares foram-se. O carro cruzou-se, à saída, com o Mendes e o Baptista (que, na altura, ainda se davam: passou-se tudo isto, portanto, antes da monumental zanga que os separaria para sempre...), o Mendes e o Baptista, dizia eu: dois empreiteiros que vinham saber de que obras, afinal, carecia a casa.
Abrindo a janela para cumprimentar, o sr. Tavares espantou-se um pouco de que os dois empreiteiros, olhando fixamente a carrinha negra, se descobrissem, e um dissesse para o outro:
«Olha! O Agostinho já foi!»
Mendes e Baptista, coitados, decidiram que iam ser discretos - já imaginavam a casa num alvoroço, a viúva chorando, os gatos-pingados sem mãos a medir. Não quiseram por isso bater à porta principal. Foram pelas traseiras. Tocaram sem alarde.
Bruscamente, o Mendes ouviu um grito do Baptista.
E sacudiu-o:
- Que foi, pá? Hein? Que é que te deu, homem? Estás branco, que é isso?
Agostinho, arrastando uma botija, abria-lhes tranquilamente a porta.
segunda-feira, outubro 18, 2010
UM GAJO FARTA-SE DESTE PAÍS
Hoje, não sei bem que escrever.
A vida está cinzenta; é fantástico como principio a ver a aura das pessoas: parece uma neblina triste que as acompanha. Uma neblina portátil.
Habituei-os a que, no meu blogue, neste meu blogue, preferia fazer rir do que fazer chorar. Eu não sei fazer chorar, nunca tive jeito para isso. Mesmo quando encenava a minha tristeza, tentando ganhar qualquer coisa com ela (por exemplo: o perdão dos pais perante um grande disparate meu...), havia sempre um pormenor esquecido que tornava a tristeza cómica.
Ora a minha tristeza é cada vez menos cómica. A tristeza do país não tem graça. A senhora que, no café, almoça um galão e um pastel de bacalhau, não tem a menor piada. O ministro quer rir à minha custa? À nossa custa? Ai ele é isso?! O Teixeira quer rir? Suas excelências apreciam uma ou duas boas gargalhadas??? Vão ao circo. Eu estou farto de ser o palhaço pobre.
Ainda por cima, mais pobre do que palhaço. E, pelos vistos, cada vez mais pobre!
A vida está cinzenta; é fantástico como principio a ver a aura das pessoas: parece uma neblina triste que as acompanha. Uma neblina portátil.
Habituei-os a que, no meu blogue, neste meu blogue, preferia fazer rir do que fazer chorar. Eu não sei fazer chorar, nunca tive jeito para isso. Mesmo quando encenava a minha tristeza, tentando ganhar qualquer coisa com ela (por exemplo: o perdão dos pais perante um grande disparate meu...), havia sempre um pormenor esquecido que tornava a tristeza cómica.
Ora a minha tristeza é cada vez menos cómica. A tristeza do país não tem graça. A senhora que, no café, almoça um galão e um pastel de bacalhau, não tem a menor piada. O ministro quer rir à minha custa? À nossa custa? Ai ele é isso?! O Teixeira quer rir? Suas excelências apreciam uma ou duas boas gargalhadas??? Vão ao circo. Eu estou farto de ser o palhaço pobre.
Ainda por cima, mais pobre do que palhaço. E, pelos vistos, cada vez mais pobre!
terça-feira, outubro 05, 2010
O SENHOR QUE SE SEGUE
Não é segredo para ninguém que, porque português, porque professor do Ensino Secundário e porque homem trabalhador, odeio, com a energia máxima das minhas entranhas ideológicas, essa mediocridad
e política, o monstro da falsidade boçal e arrogante, que dá pelo nome de senhor engenheiro Sócrates. (Puah!).
Algo, porém, me atormenta a alma e me torna infeliz perante a possibilidade de que ele se vá embora.
E o que me deixa atormentado e infeliz em face da possibilidade de que um dia ele se vá embora é a hipótese de que o faça para ser substituído por... por...
Pelo senhor que foi marido de uma das Doce.
Poderia o país descer mais? Não há um fundo final para este descalabro? Um chão abaixo do qual já se não possa continuar a cair?
e política, o monstro da falsidade boçal e arrogante, que dá pelo nome de senhor engenheiro Sócrates. (Puah!).Algo, porém, me atormenta a alma e me torna infeliz perante a possibilidade de que ele se vá embora.
E o que me deixa atormentado e infeliz em face da possibilidade de que um dia ele se vá embora é a hipótese de que o faça para ser substituído por... por...
Pelo senhor que foi marido de uma das Doce.
Poderia o país descer mais? Não há um fundo final para este descalabro? Um chão abaixo do qual já se não possa continuar a cair?
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