Tratava-se, então, de proceder como?
O senhor X tinha uma hora de absoluta solidão para agir: levantaria a tampa da caixa infernal em que o fechavam e, mesmo em cuecas (porque ninguém o veria nessa figura: o bairro era praticamente um deserto àquela hora, e a única pessoa que, às vezes, por ali passava, era um cego), ou em cuecas e, quando muito, uma camisola de lã que enfiasse num instantinho, para não adoecer com a brusca mudança de temperatura, saltaria pela janela que a secretária do Henriques deixava entreaberta, correria até sua casa, entraria, aproximar-se-ia de sua mulher, pegando, de caminho, numa faca de cozinha e, apanhando dona X desprevenida, talvez até de costas (sonhara tantas vezes com a cena), esfaqueá-la-ia até à morte. Simples. Básico. Perfeito. Partiria vasos, desarrumaria um pouco, roubaria dinheiro de gavetas de modo a que as culpas pudessem recair num intruso qualquer, um ladrão. Depois, sairia de casa em corrida, subiria pela janela do Henriques, reentraria na sala da sauna, por fim na caixa do inferno, certamente suado - o que não fazia a menor diferença porque, na sauna, era justamente suado que esperavam vê-lo quando o fossem desligar.
Na décima sessão, quando o tempo urgia porque só faltavam mais duas para concluir o tratamento, tomou a decisão.
Havia riscos no seu plano. Mas os riscos resumiam-se à possibilidade de alguma coisa não suceder como sucedia habitualmente.
Por exemplo: a secretária chinesa, até por causa das suas artrozes, nunca aparecia a não ser que ele gritasse por ela. Mas não poderia, por qualquer razão, naquele dia, aparecer e não o ver na sauna?
As ruas estavam sempre vazias. E, se passava alguém, era, como sabia, um senhor cego. Mas não poderia nesse dia, por azar, passar outra pessoa, um rapaz, uma senhora...?
Tinha de avançar. Não podia preocupar-se agora com os riscos. Era pegar ou largar a única oportunidade de uma vida horrível. Abriu a tampa. Correu, nas suas cuecas de ursinhos, até à cadeira onde pousara a roupa. Tentou vestir uma camisola. Mas os braços daquela espécie de embrulho de lã estavam como que amarrados um no outro. Desistiu da camisola. Enervava-se com o tempo a passar. Calçou uns sapatos de borracha. E, em cuecas, tronco nu e sapatos, sentou-se à janela, com as pernas voltadas para o exterior, prontas para o salto.
Para o salto, escrevi bem. Porque, repentinamente, apercebeu-se de que a altura era enorme. Foi deslizando como uma serpente, os dedos enclavinhados no parapeito, o corpo descendo pelo lado de fora, desenrolando-se, encostado à parede...! Mas, mesmo assim, todo esticado, os seus pés não tocavam no passeio. Longe disso. Estava pendurado, com os dedos a tremer pelo esforço para o manterem preso à janela. Considerou tornar a subir: impossível. Não tinha forças nos braços para puxar por si até lá acima de novo. Estava arrependido de toda aquela loucura. Ele não era um assassino. Era um cobarde. Por que razão um homem que não tem sequer coragem para se divorciar da mulher que odeia, haveria de ter coragem para matá-la?
Temia largar-se, saltar, aterrar no chão. Não podia gritar por socorro. Não podia, em suma, fazer coisa alguma. Estava perdido.
Nesse momento, quando a situação parecia tão complicada que nada seria capaz de a tornar pior para si, o joelho, o seu joelho, o seu joelho mau, principiou a doer. Mas a doer tanto, tão inimaginavelmente como já quase não lhe voltara a doer desde que iniciara a série de massagens...
E sob efeito da dor atroz, os dedos abriram-se-lhe todos, como cabelos eriçados.
E o seu corpo tombou.
O senhor X caía, pesada e dolorosamente, sobre um cão: era o cão do cego que costumava passar por ali àquela hora, rente à parede, ligando-se ao muro pela bengala branca.
O cão não ganiu, uivou de susto e dor.
O cego, em pânico, sentindo-se assaltado, percebendo vagamente que lhe roubavam o cão, seu único amigo nesta vida, espadeirou com a bengala em todas as direcções. E acertou regularmente em quase todo o corpo do senhor X.
Quando a secretária chinesa ouviu tocar a campainha e veio abrir a porta da rua, deu de caras, com um pequeno grito de surpresa, com o mesmo homem, o mesmo senhor X que, ainda não havia meia hora, tinha deixado a marinar no caixote.
O senhor X estava de tronco nu.
Vestia as suas cuecas de ursinhos, mas muito rasgadas.
Num dos pés, um sapato de borracha. O outro, descalço, era um pé de esqueleto, era um conjunto de ossos arrastando-se.
Respirava com dificuldade. Encurvava-se ligeiramente, só ligeiramente, como se quisesse manter um último e improvável resto ou rasto de dignidade.
Havia sangue em toda a parte. No peito, no rosto, no joelho.
Disse:
- Caí da janela!
A secretária do Henriques, Henriques esse que também aparecia lá ao fundo, a mastigar como de costume, não podia crer.
- Como? - perguntou ela.
- O que foi? - mastigou o Henriques.
- A sauna estava muito quente - explicou o senhor X, ensaiando um sorriso. Mas era o sorriso mais dorido da sua vida. - Tive de ir respirar à janela. E caí.
Imaginou a sua chegada a casa, onde a mulher também lhe perguntaria, com a sua voz ríspida:
- Que é que te aconteceu?
E desatou a chorar.
Domingo, Fevereiro 05, 2012
UM CRIMINOSO COM O JOELHO MAU [II]
Para quem quer que olhasse para o crime de fora, se realmente o viesse a cometer, dificilmente o senhor X cairia na lista dos suspeitos. De que móbil o acusariam?
Dona X não possuía nenhum pecúlio à parte, de que ele pudesse apropriar-se; o senhor X não era beneficiário de nenhum testamento dela, nem de nenhum seguro.
Todos os motivos que tinha para a eliminar eram invisíveis para os outros. Motivos psicológicos. E estéticos.
Nem sequer a odiava por ela ser tão feia por dentro e por fora. Odiava-a por ter sido tão bela. Odiava-se a si mesmo porque se deixara enganar. Como se o casamento fosse uma fraude; como se, logo no momento em que saíam da igreja, ainda os convidados lhes lançavam arroz e já ela tivesse começado a mudar.
Primeiro, fora a voz. Nas mulheres que mudam com o casamento, pensava o senhor X, a voz é sempre o primeiro indício. Como sucede com os adolescentes na idade do caixote.
Depois, as formas. Todas as formas, aliás: as do corpo e as da personalidade.
O senhor X continha-se no dia-a-dia. Raramente gritava ou reagia ameaçadoramente. Aprendia a conviver com esta mulher que não escolhera.
Mas tudo quanto ela fazia o enervava: a sua maneira ríspida de falar, como se também o não suportasse, as expressões que empregava, o bater dos saltos secos dos sapatos no chão, o nariz pontiagudo, aquele último suspiro que ela dava ao entrar para a cama (ele não conseguia acalmar-se e preparar-se para dormir enquanto o raio do suspiro não fosse solto, noite após noite), um certo modo, que considerava repelente, de ela coçar a cabeça, introduzindo a unha grande e pintada por entre os cabelos, a sua total incompreensão de todos os desejos dele, os seus interesses, os seus gostos...
Passava vinte e quatro horas de cada dia planeando matá-la. Era uma obsessão que acabaria por matá-lo a ele. Sabia que nunca ousaria fazê-lo. Limitava-se a compor esquemas, hipóteses, como quem escreve romances.
Mas ali, fechado na caixa quente do Henriques, tinha a possibilidade única.
Era pegar ou largar.
CONTINUA
Dona X não possuía nenhum pecúlio à parte, de que ele pudesse apropriar-se; o senhor X não era beneficiário de nenhum testamento dela, nem de nenhum seguro.
Todos os motivos que tinha para a eliminar eram invisíveis para os outros. Motivos psicológicos. E estéticos.
Nem sequer a odiava por ela ser tão feia por dentro e por fora. Odiava-a por ter sido tão bela. Odiava-se a si mesmo porque se deixara enganar. Como se o casamento fosse uma fraude; como se, logo no momento em que saíam da igreja, ainda os convidados lhes lançavam arroz e já ela tivesse começado a mudar.
Primeiro, fora a voz. Nas mulheres que mudam com o casamento, pensava o senhor X, a voz é sempre o primeiro indício. Como sucede com os adolescentes na idade do caixote.
Depois, as formas. Todas as formas, aliás: as do corpo e as da personalidade.
O senhor X continha-se no dia-a-dia. Raramente gritava ou reagia ameaçadoramente. Aprendia a conviver com esta mulher que não escolhera.
Mas tudo quanto ela fazia o enervava: a sua maneira ríspida de falar, como se também o não suportasse, as expressões que empregava, o bater dos saltos secos dos sapatos no chão, o nariz pontiagudo, aquele último suspiro que ela dava ao entrar para a cama (ele não conseguia acalmar-se e preparar-se para dormir enquanto o raio do suspiro não fosse solto, noite após noite), um certo modo, que considerava repelente, de ela coçar a cabeça, introduzindo a unha grande e pintada por entre os cabelos, a sua total incompreensão de todos os desejos dele, os seus interesses, os seus gostos...
Passava vinte e quatro horas de cada dia planeando matá-la. Era uma obsessão que acabaria por matá-lo a ele. Sabia que nunca ousaria fazê-lo. Limitava-se a compor esquemas, hipóteses, como quem escreve romances.
Mas ali, fechado na caixa quente do Henriques, tinha a possibilidade única.
Era pegar ou largar.
CONTINUA
UM CRIMINOSO COMO O JOELHO MAU [I]
Porque acho este conto em três partes um dos textos mais conseguidos do meu blogue, aqui o recupero. Gostei de o reler.
Como, no Inverno, as dores no joelho se tornavam lancinantes, pôs-se duas ou três vezes por semana nas mãos do Henriques, que era um massagista particular e morava muito próximo dele.
O Henriques encontrava-se no indefinido limiar entre o autêntico e competente mecânico de ossos e o mero aldrabão. Onde passava de um a outro, era difícil de perceber.
Recebia o nosso homem a secretária do Henriques, uma chinesa magra e franzina, que também sofria dos ossos (o que não seria a melhor das propagandas) e o encaminhava para uma marquise.
O senhor X punha-se em cuecas.
Henriques aparecia por fim, ainda a mastigar o almoço e a limpar os dentes com deslocações da língua no interior da boca, e atirava-se-lhe ao joelho.
Massajava-o com uma minúcia paciente; aos olhos de X, o que, precisamente, traía o seu carácter de «aldrabão» era o imoderado gosto por uns aparelhómetros incredíveis, umas cintas almofadadas que lhe envolviam o joelho e eram ligadas à corrente ou, então, uma trapalhada com um polo positivo e um polo negativo que era posta a vibrar sobre a sua dor, sob efeito de um interruptor que o Henriques manipulava um pouco empiricamente: «E agora, dói muito? Assim está melhor...?»
Havia pomadas, mais uma meia hora de massagens e o «Grand Finale», a derradeira tortura: a sauna.
Ficava numa sala sozinho, dentro de uma caixa, com a cabeça de fora.
A senhora chinesa ligava os botões, deixava-lhe uma toalha turca à volta do queixo, para que não escapasse o mínimo calor pelo orifício por onde lhe passava o pescoço para fora da caixa, e ali se deixava derreter. Estava no inferno. Suava abundantemente. Quase desmaiava.
Pensava, ao fim de uns minutos: «Vou pedir que me tirem daqui. Já não aguento mais!», mas, logo após, «Vá, só mais um minuto», e depois, «Vou gritar, já chega disto», e a seguir «Só mais um pouco», até que os dois pensares contrários, «Não aguento nem mais um pouco» e «Vou aguentar só um pouco mais» acabavam por se confundir, tornando-se num mesmo e único estranhíssimo pensamento.
Com o tempo, semana atrás de semana, o senhor X conseguia acalmar-se e apreciar aquela hora a sós consigo. Aproveitava a rara oportunidade para passar em revista os seus dias e os seus problemas.
Olhava pela janela que a secretária do Henriques, lamentando-se muito por causa das suas artrozes e artrites, deixava entreaberta para que ele se distraísse.
Um dia, perguntou-se se não veria dali a própria casa. E esforçando-se, deslocando o seu pescoço tanto quanto lhe era possível naquela prisão, compreendeu que podia, dali mesmo, fixar uma janela de sua casa e, àquela hora, assistir à chegada da sua mulher, a única mulher que odiava no mundo inteiro.
E, meio drogado pelo calor que lhe derretia o corpo mas, aparentemente, lhe vivificava o espírito, concebeu o plano perfeito para eliminá-la sem deixar qualquer vestígio.
A melhor das formas.
A forma que a sorte, a sorte de estar na sauna precisamente àquela hora, naquelas condições, lhe concedia - e que talvez nunca mais se lhe oferecesse com tanta simplicidade.
CONTINUA
Como, no Inverno, as dores no joelho se tornavam lancinantes, pôs-se duas ou três vezes por semana nas mãos do Henriques, que era um massagista particular e morava muito próximo dele.
O Henriques encontrava-se no indefinido limiar entre o autêntico e competente mecânico de ossos e o mero aldrabão. Onde passava de um a outro, era difícil de perceber.
Recebia o nosso homem a secretária do Henriques, uma chinesa magra e franzina, que também sofria dos ossos (o que não seria a melhor das propagandas) e o encaminhava para uma marquise.
O senhor X punha-se em cuecas.
Henriques aparecia por fim, ainda a mastigar o almoço e a limpar os dentes com deslocações da língua no interior da boca, e atirava-se-lhe ao joelho.
Massajava-o com uma minúcia paciente; aos olhos de X, o que, precisamente, traía o seu carácter de «aldrabão» era o imoderado gosto por uns aparelhómetros incredíveis, umas cintas almofadadas que lhe envolviam o joelho e eram ligadas à corrente ou, então, uma trapalhada com um polo positivo e um polo negativo que era posta a vibrar sobre a sua dor, sob efeito de um interruptor que o Henriques manipulava um pouco empiricamente: «E agora, dói muito? Assim está melhor...?»
Havia pomadas, mais uma meia hora de massagens e o «Grand Finale», a derradeira tortura: a sauna.
Ficava numa sala sozinho, dentro de uma caixa, com a cabeça de fora.
A senhora chinesa ligava os botões, deixava-lhe uma toalha turca à volta do queixo, para que não escapasse o mínimo calor pelo orifício por onde lhe passava o pescoço para fora da caixa, e ali se deixava derreter. Estava no inferno. Suava abundantemente. Quase desmaiava.
Pensava, ao fim de uns minutos: «Vou pedir que me tirem daqui. Já não aguento mais!», mas, logo após, «Vá, só mais um minuto», e depois, «Vou gritar, já chega disto», e a seguir «Só mais um pouco», até que os dois pensares contrários, «Não aguento nem mais um pouco» e «Vou aguentar só um pouco mais» acabavam por se confundir, tornando-se num mesmo e único estranhíssimo pensamento.
Com o tempo, semana atrás de semana, o senhor X conseguia acalmar-se e apreciar aquela hora a sós consigo. Aproveitava a rara oportunidade para passar em revista os seus dias e os seus problemas.
Olhava pela janela que a secretária do Henriques, lamentando-se muito por causa das suas artrozes e artrites, deixava entreaberta para que ele se distraísse.
Um dia, perguntou-se se não veria dali a própria casa. E esforçando-se, deslocando o seu pescoço tanto quanto lhe era possível naquela prisão, compreendeu que podia, dali mesmo, fixar uma janela de sua casa e, àquela hora, assistir à chegada da sua mulher, a única mulher que odiava no mundo inteiro.
E, meio drogado pelo calor que lhe derretia o corpo mas, aparentemente, lhe vivificava o espírito, concebeu o plano perfeito para eliminá-la sem deixar qualquer vestígio.
A melhor das formas.
A forma que a sorte, a sorte de estar na sauna precisamente àquela hora, naquelas condições, lhe concedia - e que talvez nunca mais se lhe oferecesse com tanta simplicidade.
CONTINUA
Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012
O FRIO PORTUGUÊS
Está frio, está inegavelmente frio.
Mas, apesar de tudo, nada do que por aí se anunciava, gerando o pânico e a corrida aos agasalhos. Este frio parece-me trivial. Se é tudo o que o "clima" consegue, devo dizer que já senti pior.
Em Portugal, pelos vistos, nem o frio é a sério.
Mas, apesar de tudo, nada do que por aí se anunciava, gerando o pânico e a corrida aos agasalhos. Este frio parece-me trivial. Se é tudo o que o "clima" consegue, devo dizer que já senti pior.
Em Portugal, pelos vistos, nem o frio é a sério.
Quarta-feira, Novembro 30, 2011
MORAL
Desde pelo menos Nietzsche que aquilo que se segue não é novo.
Mas formulo-o à minha maneira:
O "dever" manda sempre que tente manter em vigor as condições da minha infelicidade.
Por alguma razão, a simples ideia de romper com a infelicidade soa-me imoral.
Mas formulo-o à minha maneira:
O "dever" manda sempre que tente manter em vigor as condições da minha infelicidade.
Por alguma razão, a simples ideia de romper com a infelicidade soa-me imoral.
Quinta-feira, Novembro 24, 2011
EGOISMO
Detesto com todas as minhas forças aquelas pessoas que me contam a vida toda mal as conheço.
Deixam-me tão pouco espaço para falar de mim...!
Deixam-me tão pouco espaço para falar de mim...!
EU SEI QUE PERGUNTAR OFENDE
Do ponto de vista do Novo Acordo Ortográfico, se eu quiser ser um "Objector de Consciência do Acordo", deverei escrever que sou um "objector de consciência", ou passarei a ser, para todos os efeitos, um "objetor de consciência"?
Segunda-feira, Novembro 21, 2011
Primo António, do longínquo Kwait, vai seguindo os meus blogues e queixa-se, no telefonema (diário? semanal?) à sua mãe, de que eu mergulhei num silêncio que o entristece. Deixo os blogues como pasto de ervas ruins e teias de aranha.
Em outro blogue, enuncio 3 ou 4 razões para o silêncio.
A não-enunciada é que o meu romance tinha uma editora interessada, e deixou de tê-la. Sou um homem de azar: no momento em que, por uma vez na vida, estou quase, quase, quase a ser publicado, percebe-se que estamos em crise e os amantes desatam a fazer contas. Não há lugar para o amor - nem sequer o amor aos livros. Editar um tipo desconhecido? Sem garantias nenhumas de sucesso? Não dá, não dá.
Há, por detrás disto, uma história rocambolesca: seria, inicialmente, publicado por uma senhora que, tendo-se divorciado, criou a sua própria chancela, levemente à parte da editora-mãe, que fundara com o ex-marido. Mas mesmo assim, cansou-se - e ofereceu a chancela ao dito.
O sobre-dito dito é, parece, um grande editor. Leu o meu livro e adorou. Fala-me em como o agarrou e emocionou; fala-me da minha "escrita elegante"; e, para que não pensem que se trata só de uma resposta delicada, acrescenta que o fim o desiludiu. Mas que é uma grande obra. Conclusão: gostava de a publicar mas não sabe se pode. (A crise. Os cortes).
Eu pus-me a milhas. Orgulhoso e arrogante como sou, prefiro tornar a vestir o traje de mendigo, pôr o livrinho sob o braço e partir a bater a novas portas. Esperar pela decisão ulterior de um senhor que "gostava mas não sabe se pode", isso não.
O meu irmão já me disse que fiz muito mal. É a vida.
Em outro blogue, enuncio 3 ou 4 razões para o silêncio.
A não-enunciada é que o meu romance tinha uma editora interessada, e deixou de tê-la. Sou um homem de azar: no momento em que, por uma vez na vida, estou quase, quase, quase a ser publicado, percebe-se que estamos em crise e os amantes desatam a fazer contas. Não há lugar para o amor - nem sequer o amor aos livros. Editar um tipo desconhecido? Sem garantias nenhumas de sucesso? Não dá, não dá.
Há, por detrás disto, uma história rocambolesca: seria, inicialmente, publicado por uma senhora que, tendo-se divorciado, criou a sua própria chancela, levemente à parte da editora-mãe, que fundara com o ex-marido. Mas mesmo assim, cansou-se - e ofereceu a chancela ao dito.
O sobre-dito dito é, parece, um grande editor. Leu o meu livro e adorou. Fala-me em como o agarrou e emocionou; fala-me da minha "escrita elegante"; e, para que não pensem que se trata só de uma resposta delicada, acrescenta que o fim o desiludiu. Mas que é uma grande obra. Conclusão: gostava de a publicar mas não sabe se pode. (A crise. Os cortes).
Eu pus-me a milhas. Orgulhoso e arrogante como sou, prefiro tornar a vestir o traje de mendigo, pôr o livrinho sob o braço e partir a bater a novas portas. Esperar pela decisão ulterior de um senhor que "gostava mas não sabe se pode", isso não.
O meu irmão já me disse que fiz muito mal. É a vida.
Quarta-feira, Outubro 26, 2011
UM HOMEM E UMA MULHER OU O SIMPLES PRAZER DE CRIAR UMA SINOPSE
Lisboa, anos 50.
Lopes era um homem sem metafísica [poderia ter-lhe até chamado Esteves, se não fosse o desacerto da época] nem, aparentemente, sonhos de espécie alguma. A sua opacidade é notória: veste sempre o mesmo fato escuro e gravata e entra todas as manhãs, muito franzino e adunco, num café onde pequeno-almoça ao balcão. A sua mulher, a quem nada pede e de quem nada espera para além dos gestos habituais e de uma relação de rotina, chega ao café uns minutos depois dele. Ela passara entretanto pela papelaria, onde tinha ido buscar um jornal desportivo, que lhe estende e ele lê, sem emoção. Manhã após manhã vemo-los pois entrar, primeiro ele - magro, igual a si ao longo dos anos - e a seguir ela, engordando e tornando-se mais feia e desarranjada.
Uma tarde, Lopes não regressa a casa após um dia de trabalho burocrático. E a aflição da mulher não resolve esta ausência. Procura-se o homem por toda a parte. Ninguém tem ideia de investigar em prisões. [A que propósito estaria o Lopes numa prisão?] Nem o Lopes tinha propriamente «amigos» que pudessem acolhê-lo: apenas colegas. Em contrapartida, da única vizinha que tem telefone, a senhora Lopes faz, muito chorosa, inúmeros telefonemas para hospitais. Teria sofrido um acidente? Tido algum ataque maléfico? Para onde pode desaparecer um homem assim? [Assaltado? Em pleno dia? Na Lisboa dos 50?] Dão-no como morto, ao fim de meses de buscas infrutíferas.
Cinco anos mais tarde, uma outra vizinha, de visita a uns filhos em Moçambique, garante ter encontrado o Lopes. Mas, de certa forma, um "outro" Lopes: marido de uma mulata, pai de três filhos (dois rapazes gémeos, com dois anos, e um bebé de meses); joga [conta-se que perdeu e refez fortunas, em poucos dias], caça feras, em aventuras que narra em grupos de senhoras, entre gargalhadas, sempre de uísque na mão; conta anedotas apimentadas, veste-se de caçador (ou de smoking), como numa perpétua mascarada. Chamam-lhe Dias. A vizinha muda várias vezes de opinião. Será, este Dias, o Lopes que ela conheceu? Poderá tratar-se realmente do mesmo homem?
Lopes era um homem sem metafísica [poderia ter-lhe até chamado Esteves, se não fosse o desacerto da época] nem, aparentemente, sonhos de espécie alguma. A sua opacidade é notória: veste sempre o mesmo fato escuro e gravata e entra todas as manhãs, muito franzino e adunco, num café onde pequeno-almoça ao balcão. A sua mulher, a quem nada pede e de quem nada espera para além dos gestos habituais e de uma relação de rotina, chega ao café uns minutos depois dele. Ela passara entretanto pela papelaria, onde tinha ido buscar um jornal desportivo, que lhe estende e ele lê, sem emoção. Manhã após manhã vemo-los pois entrar, primeiro ele - magro, igual a si ao longo dos anos - e a seguir ela, engordando e tornando-se mais feia e desarranjada.
Uma tarde, Lopes não regressa a casa após um dia de trabalho burocrático. E a aflição da mulher não resolve esta ausência. Procura-se o homem por toda a parte. Ninguém tem ideia de investigar em prisões. [A que propósito estaria o Lopes numa prisão?] Nem o Lopes tinha propriamente «amigos» que pudessem acolhê-lo: apenas colegas. Em contrapartida, da única vizinha que tem telefone, a senhora Lopes faz, muito chorosa, inúmeros telefonemas para hospitais. Teria sofrido um acidente? Tido algum ataque maléfico? Para onde pode desaparecer um homem assim? [Assaltado? Em pleno dia? Na Lisboa dos 50?] Dão-no como morto, ao fim de meses de buscas infrutíferas.
Cinco anos mais tarde, uma outra vizinha, de visita a uns filhos em Moçambique, garante ter encontrado o Lopes. Mas, de certa forma, um "outro" Lopes: marido de uma mulata, pai de três filhos (dois rapazes gémeos, com dois anos, e um bebé de meses); joga [conta-se que perdeu e refez fortunas, em poucos dias], caça feras, em aventuras que narra em grupos de senhoras, entre gargalhadas, sempre de uísque na mão; conta anedotas apimentadas, veste-se de caçador (ou de smoking), como numa perpétua mascarada. Chamam-lhe Dias. A vizinha muda várias vezes de opinião. Será, este Dias, o Lopes que ela conheceu? Poderá tratar-se realmente do mesmo homem?
Sábado, Outubro 15, 2011
A DIFICULDADE INESPERADA DAS DISCIPLINAS FÁCEIS
Há um equívoco de que alguns Encarregados de Educação podem ser vítimas. Previno-os, embora para mim seja já demasiado tarde: fui um dos Encarregados de Educação que se deixaram enganar.
A questão é sempre a mesma. Pensa-se que ao escolher certas disciplinas, aparentemente mais fáceis, se ajuda o respectivo encarregando a ter uma nota razoável e, portanto, a melhorar a média. O problema é que, geralmente, as disciplinas "fáceis" são as que são leccionadas por professores complexados. Os quais levaram anos odiando, primeiramente, o facto de as suas disciplinas serem consideradas "fáceis"; e que se dedicam, quando conseguem, a torná-las mais "rigorosas", "exigentes" e "difíceis" do que as demais.
Isso já acontecia com Educação Física. [Ginástica, no meu tempo]. Cansados de serem professores menores, aqueles a que ninguém ligava nas salas de professores, com os seus fatos de treino e os apitos ao peito, aproveitaram conscienciosamente o facto de a Educação Física ter passado a ser levada a sério, contando para reprovação. Desde aí, alunos de óculos, autênticos ratos de biblioteca, cromos completos, com laboratórios de Física e Química montados no quarto, onde, secretamente, podem ter inventado o meio de viajar no tempo, vêem, apesar de 20 em tudo o mais, a sua média comprometida pelo professor de Educação Física. Um tipo, nos tempos que correm, com doutoramento na Universidade do Mourinho. Que abre calhamaços cheios de gráficos que indicam precisamente por que o brilhante aluno de Ciências não pode ter mais do que 10 a Educação Física...
Sucede o mesmo com o Espanhol. Dios! Não poderia ter optado por Francês, uma língua culta (apesar de já não ser bem o que era...?) Não podia ter optado por Literatura Portuguesa? Por que raio me passou pela cabeça de que todos os portugueses são bons em Espanhol? Que se o meu filho aprendesse a dizer correctamente «Los caramelos de Badajoz son muy buenos» fazia a disciplina com uma classificação elevada?
Apanhou pela frente um professor arrogante e intransigente, que se deliciava a ouvir os alunos [para treinarem a pronúncia castelhana], lendo, em voz alta, páginas da sua dissertação de doutoramento [não sei em quê]; que se ofendia com desvios na acentuação e lhes exigia respostas sem erros em testes que eu próprio não entendia.
Não quero desmerecer a Educação Física (até porque tenho pânico de que um professor de EF leia este post) nem a língua do país onde foi criado o sublime D. Quijote. Mas caramba - têm de ser mais rigorosos e mais sérios do que todos os outros - a Matemática, a Física e Química, a Literatura...?
A questão é sempre a mesma. Pensa-se que ao escolher certas disciplinas, aparentemente mais fáceis, se ajuda o respectivo encarregando a ter uma nota razoável e, portanto, a melhorar a média. O problema é que, geralmente, as disciplinas "fáceis" são as que são leccionadas por professores complexados. Os quais levaram anos odiando, primeiramente, o facto de as suas disciplinas serem consideradas "fáceis"; e que se dedicam, quando conseguem, a torná-las mais "rigorosas", "exigentes" e "difíceis" do que as demais.
Isso já acontecia com Educação Física. [Ginástica, no meu tempo]. Cansados de serem professores menores, aqueles a que ninguém ligava nas salas de professores, com os seus fatos de treino e os apitos ao peito, aproveitaram conscienciosamente o facto de a Educação Física ter passado a ser levada a sério, contando para reprovação. Desde aí, alunos de óculos, autênticos ratos de biblioteca, cromos completos, com laboratórios de Física e Química montados no quarto, onde, secretamente, podem ter inventado o meio de viajar no tempo, vêem, apesar de 20 em tudo o mais, a sua média comprometida pelo professor de Educação Física. Um tipo, nos tempos que correm, com doutoramento na Universidade do Mourinho. Que abre calhamaços cheios de gráficos que indicam precisamente por que o brilhante aluno de Ciências não pode ter mais do que 10 a Educação Física...
Sucede o mesmo com o Espanhol. Dios! Não poderia ter optado por Francês, uma língua culta (apesar de já não ser bem o que era...?) Não podia ter optado por Literatura Portuguesa? Por que raio me passou pela cabeça de que todos os portugueses são bons em Espanhol? Que se o meu filho aprendesse a dizer correctamente «Los caramelos de Badajoz son muy buenos» fazia a disciplina com uma classificação elevada?
Apanhou pela frente um professor arrogante e intransigente, que se deliciava a ouvir os alunos [para treinarem a pronúncia castelhana], lendo, em voz alta, páginas da sua dissertação de doutoramento [não sei em quê]; que se ofendia com desvios na acentuação e lhes exigia respostas sem erros em testes que eu próprio não entendia.
Não quero desmerecer a Educação Física (até porque tenho pânico de que um professor de EF leia este post) nem a língua do país onde foi criado o sublime D. Quijote. Mas caramba - têm de ser mais rigorosos e mais sérios do que todos os outros - a Matemática, a Física e Química, a Literatura...?
Quinta-feira, Setembro 29, 2011
aforismos kaosticos
Faz tanto sentido dizer que a saúde é um direito, como dizer que a morte é um dever.
MANUAL DE INSTRUÇÃO DAS FADINHAS
1. Muitas meninas pequeninas são fadas e não sabem. As suas asas permanecem invisíveis: só conseguem vê-las pessoas boas - e nem todas as pessoas boas, mas as que crêem em fadas.
2. É-se uma pequenina fada até aos dez anos de idade.
3. Certas meninas poderão continuar fadas, mesmo depois dos dez anos: é necessário que a lua as escolha.
4. As meninas que queiram continuar fadas para sempre deverão aprender a prestar atenção à lua. E dizer-lhe, todas as noites: «Lua, eu gostava de ser uma fada para sempre. Não te posso obrigar, mas por favor, repara em mim, por favor, escolhe-me».
5. As meninas-fada têm de ter muito cuidado com as asas, à noite, quando se deitam. Para isso, bebam três golos de água antes de entrarem para a cama: magicamente, as asas desaparecem durante o sono.
6. As meninas-fada nunca poderão usar os seus poderes para fazer mal. O bem é o seu caminho.
7. Fadas não se dão bem com abelhas - ninguém sabe a razão, mas uma lenda afirma que as abelhas invejam as asas das meninas, mais bonitas e mais brilhantes.
2. É-se uma pequenina fada até aos dez anos de idade.
3. Certas meninas poderão continuar fadas, mesmo depois dos dez anos: é necessário que a lua as escolha.
4. As meninas que queiram continuar fadas para sempre deverão aprender a prestar atenção à lua. E dizer-lhe, todas as noites: «Lua, eu gostava de ser uma fada para sempre. Não te posso obrigar, mas por favor, repara em mim, por favor, escolhe-me».
5. As meninas-fada têm de ter muito cuidado com as asas, à noite, quando se deitam. Para isso, bebam três golos de água antes de entrarem para a cama: magicamente, as asas desaparecem durante o sono.
6. As meninas-fada nunca poderão usar os seus poderes para fazer mal. O bem é o seu caminho.
7. Fadas não se dão bem com abelhas - ninguém sabe a razão, mas uma lenda afirma que as abelhas invejam as asas das meninas, mais bonitas e mais brilhantes.
Domingo, Setembro 04, 2011
10 MANDAMENTOS DO ASPIRANTE A ESCRITOR
1. Não esperes demasiado dos amigos de que seria lógico esperar algo. [A colega que conhece «demi-monde» e divulgará a tua obra, a parente de um próximo, que se dá com escritores famosos, e promete mostrar-lhes o teu trabalho, o jovem que te fará uma entrevista decisiva: verás que, no momento em que precisas, têm mais em que pensar].
2. Mantém-te atento a todos os de que nada esperarias: subitamente, um deles poderá ser, para a tua obra, a mão eficaz do destino.
3. Nunca te sentes aguardando que uma editora acabe dando por ti: acredita, as editoras têm gente muito estúpida à sua frente. Em geral.
4. Junta dinheiro. Faz um pé-de-meia. Publica à tua custa: esse deve ser o início.
5. Aprende a usar as novas tecnologias: blogues, facebook, sites: gratuitos e chegando longe e a muitos.
6. Persiste. Não consegues ao fim de dez anos? E que são dez anos? Ou vinte? Ou trinta? Um dia, hás-de conseguir.
7. Ou não. Quem sabe? Mas confia em que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
8. Quando espreitar uma ligeira oportunidade, crava nela os dentes. As ligeiras oportunidades - seja uma editora marginal, seja uma proposta modesta - serão, a prazo, porventura, a maior das oportunidades.
9. Não reajas mal às sugestões de quem te leu. À opinião de um amigo ou à de uma editora. Afinal, não é para ti próprio que escreves. Ouve, sonda, aprende com as primeiras leituras.
10. Mas descobre e estabelece a tua fronteira. Afinal, és tu o escritor. Decide qual é, no que escreves, o teu ponto de absoluta não-cedência. E mantém-te fiel a ele.
2. Mantém-te atento a todos os de que nada esperarias: subitamente, um deles poderá ser, para a tua obra, a mão eficaz do destino.
3. Nunca te sentes aguardando que uma editora acabe dando por ti: acredita, as editoras têm gente muito estúpida à sua frente. Em geral.
4. Junta dinheiro. Faz um pé-de-meia. Publica à tua custa: esse deve ser o início.
5. Aprende a usar as novas tecnologias: blogues, facebook, sites: gratuitos e chegando longe e a muitos.
6. Persiste. Não consegues ao fim de dez anos? E que são dez anos? Ou vinte? Ou trinta? Um dia, hás-de conseguir.
7. Ou não. Quem sabe? Mas confia em que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
8. Quando espreitar uma ligeira oportunidade, crava nela os dentes. As ligeiras oportunidades - seja uma editora marginal, seja uma proposta modesta - serão, a prazo, porventura, a maior das oportunidades.
9. Não reajas mal às sugestões de quem te leu. À opinião de um amigo ou à de uma editora. Afinal, não é para ti próprio que escreves. Ouve, sonda, aprende com as primeiras leituras.
10. Mas descobre e estabelece a tua fronteira. Afinal, és tu o escritor. Decide qual é, no que escreves, o teu ponto de absoluta não-cedência. E mantém-te fiel a ele.
Quarta-feira, Agosto 24, 2011
Pergunta ao Lado
Duda, meu filho já de dezasseis anos [como o tempo passa..!] pergunta-me se acho que ele está preparado para a sua primeira experiência sexual.
Meu filho errou totalmente a questão.
Haveria que me perguntar mas era isto:
«Pai, achas que tu estás preparado para que eu tenha a minha primeira experiência sexual?!»
Meu filho errou totalmente a questão.
Haveria que me perguntar mas era isto:
«Pai, achas que tu estás preparado para que eu tenha a minha primeira experiência sexual?!»
após contar 3 míseros "gosto" num texto absolutamente genial
o parco número de "gostos" que merecem os meus textos mais brilhantes no facebook ilustra bem a frase de cristo: «muitos são os chamados, mas poucos os eleitos»
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