quinta-feira, julho 23, 2009

LUA-DE-MEL A SÓS

O padrinho do meu quase casamento era um homem de posses. Oferecera-nos, para a lua-de-mel, uma viagem de sonho a Kashbarrah, onde possuía o único hotel, um hotel de cinco estrelas.
Como não chegou a haver casamento, com aquela vergonha da noiva ter fugido para se casar com outro, o quase-padrinho, condoído, disse-me:
- Ficas na mesma com o meu presente. Não será lua-de-mel, pode ser uma viagem para te esqueceres da vergonha. Formas lá um harém e não pensas mais nessa traidora!

Fiz, portanto, a viagem e, no barco que se destinava a Bagdechd (porto de onde, seguidamente, apanharíamos uma raríssima camioneta para Kashbarrah), primeiro com um sobressalto de irritação e inveja, depois com uma distensão de alívio e regozijo por não ser eu naquela situação, conheci um casal que viajava em lua-de-mel.
Ele era um tipo muito jovem, profundamente antipático, com um cabelo gorduroso, dentes grandes e óculos grossos. Ela, uma rapariga de ar tresloucado, com um princípio de calvície demasiado evidente e brincos de plástico. Mas deste casal fazia ainda parte uma mulher que cedo identifiquei como sendo a mãe dele. A cumplicidade da velha em relação ao rapaz, com quem confereciava constantemente, em surdina, não dava lugar a dúvidas. Eu assistia, intruso miserável e despudorado, a uma enorme discussão entre o recém-marido e a recém-esposa, com gritos de uma agressividade extrema, como berros de gaivota e, depois, quando ela se retirava, humilhada, via o rapaz a queixar-se à mãe, começando sempre da mesma maneira a sua lamúria:
- Já viste isto? «Ela» diz que...
E a velha a acalmá-lo.

Quando chegámos a Bagdeschd, devo confessá-lo, atrelei-me ao casal tridimensional. Não só por curiosidade e por poder banhar-me na permanente alegria de me ter, afinal de contas, libertado de um casamento que não acabaria muito melhor, mas porque o capitão do barco nos pusera de sobreaviso contra os ladrões. Por outro lado, tornava-se importante não perdermos a camioneta: a solução aconselhada passava por não nos perdermos uns dos outros.

Na paragem, iniciou-se outra discussão. À minha frente, como se eu tivesse já passado a fazer parte do casal e, portanto, nada houvesse a esconder-me, notei como passavam a pente fino tópicos de há semanas atrás, frases ditas há muito tempo e que não tinham tido resposta na altura, esquecimentos, faltas, falhas. Ele estava quase à beira de uma apoplexia, mas ela não se calava, com a sua calvície, parecia-me, a ganhar terreno, umas sandálias horrorosas que lhe deixavam marcas e feridas nos calcanhares.

E, nisto, apareceu a camioneta.
Entraram.
Reparei, contudo, que a recém-casada se esquecera, atrás, de um saco de carcaças.
Preocupado, temendo que pudesse ser um tópico mais para acirrar a discussão, desci do degrau em que já me encontrava na camioneta e fui apanhar o saco.
De saco na mão, vi a porta fechar-se. Apressei-me, mas a camioneta arrancava, diante dos meus olhos, fazendo uma poeira na qual me perdia e dissolvia.
Corri, gritando. Iam ouvir-me. O casal ia dar pela minha falta. Alguém me veria, acenando com um saco de carcaças. Não era possível. Não era possível.

Foi possível. Foi assim.

Perguntei a um árabe, que me queria vender um «timex», quando haveria outra camioneta.
Riu, mostrando-me exasperantes dentes de ouro. A próxima, só no mês seguinte.

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