terça-feira, março 24, 2009

QUASE ALGUÉM MAIS

Ardekura Saikaro estava sentado, com a cabeça tombando, sonolenta, sobre uma pilha de testes por corrigir.
Era, portanto, um professor.
Mas, nos insterstícios da sua estranha, pesada e anormal sonolência vinha-lhe, por vezes, uma espécie de intuição; talvez nem fosse bem uma intuição: uma vaga vaga de sensações - não me enganei: era uma vaga, sim, só que não se tratava de uma nítida vaga e sim de uma vaga um tanto vaga -, um rápido, difuso e minúsculo advir de impressões, «impressões» que não tinham a força de «memórias», não chegava a ser um conjunto de memórias, mas que o remetiam para uma outra identidade, um heterónimo, um outro eu que as tivesse experimentado. Não percebia se era já um deslizar para o sono. Sonhava que era outro? Mas não lhe parecia. Sentia-se quase acordado. Sensações de um sonho incompleto que lhe povoavam a quase vigília, a meia vigília?
Ardekura Saikaro sentiu, portanto, que era outro. Que havia, nele, um outro. E estava quase a apropriar-se do seu heterónimo, quando, como se acordasse, o perdeu de vez.
«O cérebro prega-nos partidas», pensou.

O certo, é que nunca mais tornou a ser tão definitiva e completamente Adekura Saikaro.
Como se houvesse a possibilidade de o não ser.
E dizia a si mesmo:
«Sou Ardekura Saikaro ferido da suspeição de que poderei não ser Ardekura Saikaro...»

1 comentário:

Unknown disse...

Lindo!!!!!!!