Eu, que não recebia comentários há vários meses e me conformei ou quase, ou que, pelo menos, me desabituei de clamar chorosamente por eles, tinha, ontem ou anteontem, umas linhas em inglês: um tal Unjava ou qualquer coisa assim - não sei, não me lembro (espero que se não tratasse do jovem e promissor escritor angolano Ondjaaki) -, exprimia, tratando-me por «Gil», o seu apreço pelos artigos do meu site, com o qual aprendia muito. Tudo aquilo - o nome, o inglês, o elogio sem mais... - me soaram tão pouco credíveis, tão a «vírus» ou a «vendas», que optei por eliminar esse primeiro comentário - ainda para mais apologético - de há vários meses. Agora, claro, arrependo-me. E choramingo um pouco. E se...?
Não deixo, contudo, de me interrogar; sobretudo porque o referido comentário me era deixado a propósito do post «Leis Kaosticas». Preocupo-me, pois: será que alguém que, em referência directa a uma explicação estúpida para as buzinadelas diante dos semáforos, diz que «aprende muito com o meu blogue», me terá levado a sério? Isto é: mais a sério do que se pretendia? Será que poderá dar-se o caso - imaginemos que é um estudante -, de ele vir a apresentar, num trabalho académico, a teoria de que a mudança do vermelho para o verde é percebida mais rapidamente pelos condutores que se encontram, na bicha, mais longe do lugar imediatamente diante do semáforo? Diacho!
Porque há duas hipóteses: ou este leitor é uma fera do sarcasmo, ou tem estado de facto a «aprender» com os meus textos. E isso faz-me pensar quão maléfico poderá ter sido, por um absurdo efeito perverso, senão por um efeito perverso absurdo, o impacto do kaostico entre leitores mais jovens e particularmente fechados à ironia: não acabarei como Sócrates ou, vá lá, para salvaguardar as distâncias devidas, um Sócrates de trazer por casa?
Ó Undjave, ou lá como te assinas: olha que, no kaostico, raramente se tenta ensinar. O meu negócio é mais o de desensinar. And a good day to you too, my friend.
sábado, novembro 25, 2006
quarta-feira, novembro 15, 2006
LEIS KAÓSTICAS
Quando se forma uma bicha diante de um semáforo vermelho e, após uma longa espera, a luz muda para verde, esta transição é sempre apercebida, pelos condutores na bicha, tanto mais rapidamente quanto mais longe se encontram do primeiro lugar, mesmo em frente do semáforo.
O primeiro da bicha é sempre o último a perceber que já pode arrancar.
O último da bicha é sempre o primeiro a perceber que o primeiro já deveria ter arrancado há vários segundos.
E assim sucessivamente, numa compreensão cuja rapidez é sempre inversamente proporcional ao lugar que se ocupa na bicha.
Daí, as buzinadelas.
O primeiro da bicha é sempre o último a perceber que já pode arrancar.
O último da bicha é sempre o primeiro a perceber que o primeiro já deveria ter arrancado há vários segundos.
E assim sucessivamente, numa compreensão cuja rapidez é sempre inversamente proporcional ao lugar que se ocupa na bicha.
Daí, as buzinadelas.
segunda-feira, novembro 13, 2006
A ESCOLA E OS MAUS ALUNOS
Sabemos, por pouco marxistas que sejamos, em que medida a «escola pública» é uma instituição de cariz ideológico, que visa formar os jovens, desde cedo, como cidadãos, isto é, de acordo com a visão e as regras que convêm ao poder instituído.
A escola democrática assenta num princípio que é, quanto a mim, o principal equívoco da democracia. A igualdade. Deixem-me dizê-lo: querendo conciliar a ideia da «igualdade» com a necessidade de avaliar e classificar, que se lhe opõe inteiramente, que resultado se obtém? Bom: obtém-se a ideia perniciosa e pateta de que todos os «objectivos» são, por igual, alcançáveis pelos alunos. Como a prática se encarrega de mostrar sistematicamente que isso não sucede, tendem a abrir-se duas hipóteses para explicar por que diabo tais objectivos, teoricamente alcançáveis, raramente são, de facto, alcançados por todos: segundo uma delas, a culpa é dos alunos. A maioria dos professores, como é evidente, prefere esta explicação. Há alunos que não querem, não se esforçam, não se aplicam, não se interessam - ou, na sua formulação mais benigna, menos chocante, politicamente correcta, alguns alunos vivem em condições socio-culturais que os colocam em má posição na corrida: não têm pais formados, ou empenhados em ajudá-los, não têm computador, ou são oriundos de uma cultura que não valoriza a leitura, por exemplo...; segundo a outra hipótese, que é a preferida pelos alunos, pelos pais, pelos sucessivos ministros da Educação, pela sociedade em geral, a culpa é dos professores. De acordo com esta ideia, só há negativas e insucesso porque há maus professores. Que não motivam. Que não usam as estratégias adequadas - qualquer turma e qualquer aluno poderá corresponder desde que tenha o professor capaz de.
Do meu ponto de vista, ambas as hipóteses estão erradas. É o princípio em que assenta a escola democrática, que não pode ser levado a sério. O mito da «igualdade» nunca fez grande sentido: as competências, as capacidades, os talentos, as inteligências até, são muito diferentes nos diversos adolescentes. Pensar sempre que um aluno com «capacidades» que não as «aproveita» o não faz porque «não quer», porque «não trabalha mais», é laborar num erro: as pessoas são formáveis e «transformáveis», sim, mas o tipo de «transformação» que a escola exige, sem levar em consideração a singularidade de cada aluno, sem tentar fazer brilhar aquilo em que cada um é excelente ao mesmo tempo que o faz conviver e familiarizar-se, sem medo nem traumas, com aquilo em que é menos bom, é um funil castrante e esmagador.
Olho para alunos cheios de «capacidades», cujos resultados são, porém, sofríveis, e penso: Ele poderia. Se «estudasse mais», se tivesse «método», se criasse «hábitos de trabalho». (são sempre estes os termos que repetimos nas actas). Raios, por que é que ele não se esforça? Está na mão dele, é esperto, escreve bem...! Mas - e se a sua ausência de método for simplesmente a presença de um outro tipo de método, invisível do ponto de vista dos critérios e dos padrões de eficácia da escola? E se a sua desadequação, a sua inaptidão, a sua, às vezes quase me apetece dizer: estupidez!, não fosse senão a expressão de talentos e aptidões com que a escola não trabalha, nunca trabalhou, não saberia trabalhar?
Podem dizer-me: Pobre homem, ficou-se na mensagem dos Pink Floyd! Que anos setenta! Eu não me importo. E não, não, não penso que a solução fosse a escola relativista, sem regras (para não traumatizar), sem classificações nem exigência. Não, não, não penso que a solução fosse o reino da pura singularidade. Mas não tenho dúvidas de que o aliciante para mim, como professor, será sempre, sem cair na relatividade e na anarquia do indivíduo, sem prescindir de critérios universais nem de uma predominância do colectivo, ter sempre presente que o colectivo não é a soma nem a média de elementos idênticos, que a forma e o talento próprios de cada um são um enriquecimento do grupo, não uma excrecência, nunca um lixo que se deva eliminar.
A ministra, sempre tão preocupada com o insucesso, não seria capaz de entender a minha linguagem. Suspeito que os Pink Floyd, no fundo, também não.
Mas, muitos séculos atrás, Aristóteles abria esta senda.
A escola democrática assenta num princípio que é, quanto a mim, o principal equívoco da democracia. A igualdade. Deixem-me dizê-lo: querendo conciliar a ideia da «igualdade» com a necessidade de avaliar e classificar, que se lhe opõe inteiramente, que resultado se obtém? Bom: obtém-se a ideia perniciosa e pateta de que todos os «objectivos» são, por igual, alcançáveis pelos alunos. Como a prática se encarrega de mostrar sistematicamente que isso não sucede, tendem a abrir-se duas hipóteses para explicar por que diabo tais objectivos, teoricamente alcançáveis, raramente são, de facto, alcançados por todos: segundo uma delas, a culpa é dos alunos. A maioria dos professores, como é evidente, prefere esta explicação. Há alunos que não querem, não se esforçam, não se aplicam, não se interessam - ou, na sua formulação mais benigna, menos chocante, politicamente correcta, alguns alunos vivem em condições socio-culturais que os colocam em má posição na corrida: não têm pais formados, ou empenhados em ajudá-los, não têm computador, ou são oriundos de uma cultura que não valoriza a leitura, por exemplo...; segundo a outra hipótese, que é a preferida pelos alunos, pelos pais, pelos sucessivos ministros da Educação, pela sociedade em geral, a culpa é dos professores. De acordo com esta ideia, só há negativas e insucesso porque há maus professores. Que não motivam. Que não usam as estratégias adequadas - qualquer turma e qualquer aluno poderá corresponder desde que tenha o professor capaz de.
Do meu ponto de vista, ambas as hipóteses estão erradas. É o princípio em que assenta a escola democrática, que não pode ser levado a sério. O mito da «igualdade» nunca fez grande sentido: as competências, as capacidades, os talentos, as inteligências até, são muito diferentes nos diversos adolescentes. Pensar sempre que um aluno com «capacidades» que não as «aproveita» o não faz porque «não quer», porque «não trabalha mais», é laborar num erro: as pessoas são formáveis e «transformáveis», sim, mas o tipo de «transformação» que a escola exige, sem levar em consideração a singularidade de cada aluno, sem tentar fazer brilhar aquilo em que cada um é excelente ao mesmo tempo que o faz conviver e familiarizar-se, sem medo nem traumas, com aquilo em que é menos bom, é um funil castrante e esmagador.
Olho para alunos cheios de «capacidades», cujos resultados são, porém, sofríveis, e penso: Ele poderia. Se «estudasse mais», se tivesse «método», se criasse «hábitos de trabalho». (são sempre estes os termos que repetimos nas actas). Raios, por que é que ele não se esforça? Está na mão dele, é esperto, escreve bem...! Mas - e se a sua ausência de método for simplesmente a presença de um outro tipo de método, invisível do ponto de vista dos critérios e dos padrões de eficácia da escola? E se a sua desadequação, a sua inaptidão, a sua, às vezes quase me apetece dizer: estupidez!, não fosse senão a expressão de talentos e aptidões com que a escola não trabalha, nunca trabalhou, não saberia trabalhar?
Podem dizer-me: Pobre homem, ficou-se na mensagem dos Pink Floyd! Que anos setenta! Eu não me importo. E não, não, não penso que a solução fosse a escola relativista, sem regras (para não traumatizar), sem classificações nem exigência. Não, não, não penso que a solução fosse o reino da pura singularidade. Mas não tenho dúvidas de que o aliciante para mim, como professor, será sempre, sem cair na relatividade e na anarquia do indivíduo, sem prescindir de critérios universais nem de uma predominância do colectivo, ter sempre presente que o colectivo não é a soma nem a média de elementos idênticos, que a forma e o talento próprios de cada um são um enriquecimento do grupo, não uma excrecência, nunca um lixo que se deva eliminar.
A ministra, sempre tão preocupada com o insucesso, não seria capaz de entender a minha linguagem. Suspeito que os Pink Floyd, no fundo, também não.
Mas, muitos séculos atrás, Aristóteles abria esta senda.
quinta-feira, novembro 02, 2006
COMO EMENDAR CLIENTES DE QUE SE NÃO GOSTA
Não é que eu não aprecie comer um bife pouco saudável no «Portugália» - com molho de mostarda, batatas fritas, etc. Aprecio. O que, de facto, não me agrada no «Portugália», é um certo género de empregados que faz questão de mostrar que sabe mais do que o cliente - e nunca se coibe de o educar.
Um exemplo: há precisamente uma semana, estávamos eu e o meu filho sentados a uma mesa do restaurante, e fazíamos o nosso pedido a um senhor muito alto, muito hirto, demasiado sério, pouco dado a brincadeiras. O meu filho, criança irrequieta, activa, quase no limiar da hiperactividade, ia rodando, entretanto, a faca sobre a mesa. Até que o tal empregado hirto, neurótico, não podendo resistir mais, lhe arrancou a faca e a acertou no lugar devido, junto ao prato.
O miudo, espantado mas ainda com uma réstea de energia para esgotar, iniciou, então, uma rotação com o garfo sobre a mesa, rotação essa imediatamente interrompida pelo senhor. Mas como parecesse que o Duarte não se dera ainda por satisfeito, o homem teve, de repente, uma espécie de iluminação; sussurrou, na sua entoação brasileira, «Cê quer hambúrger no pão, né mesmo? Então não vai precisar disso aí»; pegou nos talheres, e levou-os para longe...
O que me irrita é este tipo de superioridade dos empregados de certos restaurantes, não só, aliás, do «Portugália» (embora, aí, pareçam ter frequentado todos uma Acção de Formação sobre como pôr os clientes na linha).
O que me faz reviver uma outra situação, de uma vez em que eu e a minha mulher almoçávamos num lugar aprazível, com uma vista soberba sobre a Baía de Cascais, e a Adelaide achou que o que lhe apetecia, naquele momento, era precisamente um menu infantil.
Ao que a empregada, uma de óculos grossos e rictus de permanente zanga com o mundo, contestou, friamente:
- Peço desculpa, mas não vejo aqui nenhuma criança.
A Adelaide ainda pensou que se tratasse de uma brincadeira. Ainda pensou, coitada, que poderia responder com uma outra brincadeira. E atirou:
- Há uma criança dentro e cada um de nós, não é verdade?
- Ah, pois é - fechou a mulher, sem a sombra de um sorriso -, mas essa criança que há dentro da senhora não tem direito a menu infantil.
Um exemplo: há precisamente uma semana, estávamos eu e o meu filho sentados a uma mesa do restaurante, e fazíamos o nosso pedido a um senhor muito alto, muito hirto, demasiado sério, pouco dado a brincadeiras. O meu filho, criança irrequieta, activa, quase no limiar da hiperactividade, ia rodando, entretanto, a faca sobre a mesa. Até que o tal empregado hirto, neurótico, não podendo resistir mais, lhe arrancou a faca e a acertou no lugar devido, junto ao prato.
O miudo, espantado mas ainda com uma réstea de energia para esgotar, iniciou, então, uma rotação com o garfo sobre a mesa, rotação essa imediatamente interrompida pelo senhor. Mas como parecesse que o Duarte não se dera ainda por satisfeito, o homem teve, de repente, uma espécie de iluminação; sussurrou, na sua entoação brasileira, «Cê quer hambúrger no pão, né mesmo? Então não vai precisar disso aí»; pegou nos talheres, e levou-os para longe...
O que me irrita é este tipo de superioridade dos empregados de certos restaurantes, não só, aliás, do «Portugália» (embora, aí, pareçam ter frequentado todos uma Acção de Formação sobre como pôr os clientes na linha).
O que me faz reviver uma outra situação, de uma vez em que eu e a minha mulher almoçávamos num lugar aprazível, com uma vista soberba sobre a Baía de Cascais, e a Adelaide achou que o que lhe apetecia, naquele momento, era precisamente um menu infantil.
Ao que a empregada, uma de óculos grossos e rictus de permanente zanga com o mundo, contestou, friamente:
- Peço desculpa, mas não vejo aqui nenhuma criança.
A Adelaide ainda pensou que se tratasse de uma brincadeira. Ainda pensou, coitada, que poderia responder com uma outra brincadeira. E atirou:
- Há uma criança dentro e cada um de nós, não é verdade?
- Ah, pois é - fechou a mulher, sem a sombra de um sorriso -, mas essa criança que há dentro da senhora não tem direito a menu infantil.
sábado, outubro 28, 2006
AINDA SOBRE AS AULAS DE SUBSTITUIÇÃO
Não deixa de me espantar que a Ministra de Educação insista tão firmemente em braços-de-ferro em relação a medidas que, ainda que fossem acertadas, nunca iriam longe deste modo, sem a compreensão e a aceitação por parte dos seus alvos.
Sucede que, para mais, a maioria das medidas é errada. O problema não é só o de os professores não gostarem delas, ou se sentirem agredidos por elas - o que não seria um pormenor despiciendo -, mas de estarmos ante graves perversões pedagógicas.
Estou a pensar, concretamente, nas «aulas de substituição» (que afinal, não o são necessariamente mas, apenas, «actividades de acompanhamento»).
A ideia de que os alunos não podem estar fora de uma sala de aula quando falta um professor, que devem ter uma «actividade» qualquer, em que serão «acompanhados» por um outro professor, não satisfaz ninguém. Não satisfaz os alunos, que não aceitam o docente-substituto de bom-grado, nem percebem a lógica dessa substituição e, portanto, o hostilizam. Não satisfaz o professor chamado a passar noventa minutos com uma turma que não conhece, num território que não é o seu, num encontro que só pode ser episódico, que dificilmente terá qualquer tipo de continuidade...
Satisfará os pais dos alunos? Algum pai irá suspirar de alívio por saber que o seu filho fica guardado, leia-se, enjaulado e convenientemente vigiado durante a ausência do professor que faltou? Talvez, talvez. Sabe-se lá.
Mas se eu quiser retornar à minha adolescência e à minha juventude, poderei lembrar que as «borlas», isto é, não haver aulas por falta de um professor, preenchiam uma indispensável função de socialização: correspondiam ao momento privilegiado em que os alunos se juntavam para explorar a escola ou o espaço próximo, jogando à bola, uns, reunindo-se num café, outros, conversando, conhecendo-se, interagindo de um modo mais completo, que os dez ou quinze minutos dos intervalos não permitiam. Havia uma liberdade essencial, tão importante para a nossa formação como os curricula das disciplinas.
Conheço as objecções: os professores faltam muito; deixar os alunos à solta durante demasiado tempo pode ser pernicioso e, sobretudo, não parece «rendível»: seria deixá--los brincar durante um tempo em que deveriam estar aprendendo. (Seria habituá-los a tirar partido do desleixo, em vez de o corrigirem).
Sejamos sérios: esta última objecção é a mais absurda de todas. A mais ridícula. Numa aula de substituição, ou numa actividade de acompanhamento, ou como lhe queiram chamar, não se trata de aprendizagem: trata-se de manter meninos ocupados - ou, quanto mais não seja, fechados. Não se trata de rigor, nem de promover a disciplina e o gosto pelo trabalho - mas de fomentar o azedume, a frustração, o mal-estar. Não se trata de prevenir os perigos da liberdade - mas de gerar os perigos da falta da liberdade, da atrofia, típicos da escola vista como uma grande fábrica. Entra-se por aqui, sai-se por ali. Não há tempos mortos. Existem sempre uma porca ou um parafuso sendo apertados. Tudo rende, tudo rende, tudo rende. Não há «borlas». Não se respira. A ida à casa de banho é cronometrada.
Sucede que, para mais, a maioria das medidas é errada. O problema não é só o de os professores não gostarem delas, ou se sentirem agredidos por elas - o que não seria um pormenor despiciendo -, mas de estarmos ante graves perversões pedagógicas.
Estou a pensar, concretamente, nas «aulas de substituição» (que afinal, não o são necessariamente mas, apenas, «actividades de acompanhamento»).
A ideia de que os alunos não podem estar fora de uma sala de aula quando falta um professor, que devem ter uma «actividade» qualquer, em que serão «acompanhados» por um outro professor, não satisfaz ninguém. Não satisfaz os alunos, que não aceitam o docente-substituto de bom-grado, nem percebem a lógica dessa substituição e, portanto, o hostilizam. Não satisfaz o professor chamado a passar noventa minutos com uma turma que não conhece, num território que não é o seu, num encontro que só pode ser episódico, que dificilmente terá qualquer tipo de continuidade...
Satisfará os pais dos alunos? Algum pai irá suspirar de alívio por saber que o seu filho fica guardado, leia-se, enjaulado e convenientemente vigiado durante a ausência do professor que faltou? Talvez, talvez. Sabe-se lá.
Mas se eu quiser retornar à minha adolescência e à minha juventude, poderei lembrar que as «borlas», isto é, não haver aulas por falta de um professor, preenchiam uma indispensável função de socialização: correspondiam ao momento privilegiado em que os alunos se juntavam para explorar a escola ou o espaço próximo, jogando à bola, uns, reunindo-se num café, outros, conversando, conhecendo-se, interagindo de um modo mais completo, que os dez ou quinze minutos dos intervalos não permitiam. Havia uma liberdade essencial, tão importante para a nossa formação como os curricula das disciplinas.
Conheço as objecções: os professores faltam muito; deixar os alunos à solta durante demasiado tempo pode ser pernicioso e, sobretudo, não parece «rendível»: seria deixá--los brincar durante um tempo em que deveriam estar aprendendo. (Seria habituá-los a tirar partido do desleixo, em vez de o corrigirem).
Sejamos sérios: esta última objecção é a mais absurda de todas. A mais ridícula. Numa aula de substituição, ou numa actividade de acompanhamento, ou como lhe queiram chamar, não se trata de aprendizagem: trata-se de manter meninos ocupados - ou, quanto mais não seja, fechados. Não se trata de rigor, nem de promover a disciplina e o gosto pelo trabalho - mas de fomentar o azedume, a frustração, o mal-estar. Não se trata de prevenir os perigos da liberdade - mas de gerar os perigos da falta da liberdade, da atrofia, típicos da escola vista como uma grande fábrica. Entra-se por aqui, sai-se por ali. Não há tempos mortos. Existem sempre uma porca ou um parafuso sendo apertados. Tudo rende, tudo rende, tudo rende. Não há «borlas». Não se respira. A ida à casa de banho é cronometrada.
segunda-feira, outubro 09, 2006
AFORISMOS OCIOSOS
A beleza nunca se cumpre. É, no melhor dos casos, uma promessa. No pior, uma ameaça.
Há problemas evitáveis: infelizmente, nunca é possível evitá-los.
A fazer alguma coisa, é sempre mais fácil destruir do que construir: eis uma lição sobre a natureza humana que me é dada pela minha filha bebé, que desmonta, sistemática e minuciosamente, as torres da «Lego» que eu vou continuando a montar...
Há problemas evitáveis: infelizmente, nunca é possível evitá-los.
A fazer alguma coisa, é sempre mais fácil destruir do que construir: eis uma lição sobre a natureza humana que me é dada pela minha filha bebé, que desmonta, sistemática e minuciosamente, as torres da «Lego» que eu vou continuando a montar...
quinta-feira, setembro 28, 2006
UMAS FÉRIAS NA PRAIA
Embora eu esteja muito, muito mas muito longe de consentir que me confundam com um fanático da praia, lembro-me de que me deixara convencer (arrastar, enfim) para uma semana de férias numa terreola de pescadores. Por causa, obviamente, da... praia!
Tinham-se unido vários grupos nessa grotesca excursão: a) eu e a minha esposa, casados de fresco e que insistíamos, vá-se lá perceber porquê, em fazer daquela semana uma segunda lua-de-mel; b) os Fonsecas, pais e filha - uma daquelas meninas irritantes, demasiado sérias e sábias, que, quando discutem com os adultos, o fazem esgrimindo argumentos imbatíveis, e que escrevem poesia - e, c) os Guimarães, um pai e uma mãe mais duas crianças - um menino gordo que era uma fonte permanente de agitação e ruído e um menino enfezado e triste, como se o primeiro se alimentasse da energia do outro...
Estvámos todos na mesma pensão, a «Pensão Alegria», repartidos por três quartos. Por que me deixara eu convencer (ou arrastar, enfim) para uma férias desta natureza surrealista, já não recordo (ou fiz por esquecer, para não me odiar). Devia estar apaixonado: tão apaixonado que, se calhar, nem ouvira bem o projecto quando a minha fresca esposa mo expusera. Aceitara sem perceber todos os pormenores ou todas as implicações!
O primeiro dia de praia, começou por ser um dia de chuva imensa. Imparável. Africana.
Tínhamos acordado cedíssimo (porventura para escapar aos Fonseca e aos Guimarães) e arrancado animadamente, ou quase animadamente, em direcção à praia - eu carregando guarda-sol, toalhas, cestos, chapéus e uma espécie de frigorífico portátil, de que, aliás, sempre troçara como o cúmulo da saloíce, quando o via à responsabilidade de outras pessoas... - mas, a meio caminho, a chuvada desabara, inclemente, pérfida, implacável. Africana.
Regressámos precipitadamente à pensão, evitando fazer barulho para não atrairmos a atenção dos Fonseca e dos Guimarães - apesar de os meus chinelos de praia, encharcadíssimos, emitirem um enervante «fuenc, fuenc» -, pousámos a tralha no quarto e preparámo-nos para o almoço, como uma espécie de compensação que nos oferecíamos, apesar de nem ainda onze horas serem...
Na pensão, porém, nesse dia o almoço resumia-se a um prato único: cozido!
Eu não sei se a minha leitora (ou as minhas duas leitoras, ao que parece!) nutrem pelo chamado cozido à portuguesa o mesmo asco que eu. Sim, na altura eu estaria completamente apaixonado - ou não iria passar uma semana na praia numa pensão com a família Fonseca e a família Guimarães em quartos próximos - mas, se podemos dizer que até as mais desenfreadas paixões têm um limite, o meu limite era o cozido à portuguesa.
Fomos, pois, enfrentando mais um pedaço de chuva, até ao restaurante manhoso ali da frente.
Mas ali à frente não era bem tão «ali à frente» como eu julgara. E, sobretudo à chuva, ainda de chinelos e de camiseta florida, o «ali à frente» tornara-se num caminho horrendo, imenso, desabrigado...
Para o restaurante, entrava-se, por um portão verde, para uma espécie de quintal com um alpendre confortável. Era engraçado! Romântico. Delicioso.
Ali estávamos, portanto, já no quintal, protegidos sob o abençoado alpendre, quando, que susto!, reparámos numa figurinha que transpunha, por sua vez, o portão da entrada.
Era a menina Fonseca. A sábia-junior. Lá vinha a chatinha, carregando duas enciclopédias, já muito molhadas, com o cartão das capas a desfazer-se. Vinha compenetrada, sem esboçar um sorriso de cumprimento como, aliás, nunca fazia.
- Os meus pais viram-vos vir em direcção ao restaurante. Querem que eu almoce convosco porque têm de fazer não sei quê...
Eu sei o que os Fonseca queriam fazer - no quarto, num dia de chuva, a sós, sem a menina sábia e chata a atrapalhar.
Conformava-me. Fiz-lhe até uma espécie de vaga e breve carícia nos cabelos molhados.
Nessa altura, do outro lado do portão, a senhora Guimarães, sem chegar a abri-lo, passava o menino gordo por cima e dava-lhe instruções no sentido de se dirigir a nós. O enfezadinho vinha depois.
- Mas quem é que esta gente pensa que nós somos? - sussurrei eu à minha mulher. - Os baby-sitters? Uma agência de dar almoços à criançada?
A Guimarães gritava-nos de lá qualquer coisa que não entendíamos. E ia-se embora.
- Estou pior que estragado! - vociferei.
- Deixa lá - sossegou-me a minha mulher. - O Paulinho e o Frederico (o gordo e o enfezado) já almoçaram, com certeza, comem sempre muito cedo. Vêm só para brincar com a Mariana. Ficam aqui a brincar enquanto nós vamos lá para dentro, não fiques assim...
- Não, não - intrometeu-se rapidamente o Paulinho gordo -, nós não almoçámos não, eu tou cheio de fome...!
Tinham-se unido vários grupos nessa grotesca excursão: a) eu e a minha esposa, casados de fresco e que insistíamos, vá-se lá perceber porquê, em fazer daquela semana uma segunda lua-de-mel; b) os Fonsecas, pais e filha - uma daquelas meninas irritantes, demasiado sérias e sábias, que, quando discutem com os adultos, o fazem esgrimindo argumentos imbatíveis, e que escrevem poesia - e, c) os Guimarães, um pai e uma mãe mais duas crianças - um menino gordo que era uma fonte permanente de agitação e ruído e um menino enfezado e triste, como se o primeiro se alimentasse da energia do outro...
Estvámos todos na mesma pensão, a «Pensão Alegria», repartidos por três quartos. Por que me deixara eu convencer (ou arrastar, enfim) para uma férias desta natureza surrealista, já não recordo (ou fiz por esquecer, para não me odiar). Devia estar apaixonado: tão apaixonado que, se calhar, nem ouvira bem o projecto quando a minha fresca esposa mo expusera. Aceitara sem perceber todos os pormenores ou todas as implicações!
O primeiro dia de praia, começou por ser um dia de chuva imensa. Imparável. Africana.
Tínhamos acordado cedíssimo (porventura para escapar aos Fonseca e aos Guimarães) e arrancado animadamente, ou quase animadamente, em direcção à praia - eu carregando guarda-sol, toalhas, cestos, chapéus e uma espécie de frigorífico portátil, de que, aliás, sempre troçara como o cúmulo da saloíce, quando o via à responsabilidade de outras pessoas... - mas, a meio caminho, a chuvada desabara, inclemente, pérfida, implacável. Africana.
Regressámos precipitadamente à pensão, evitando fazer barulho para não atrairmos a atenção dos Fonseca e dos Guimarães - apesar de os meus chinelos de praia, encharcadíssimos, emitirem um enervante «fuenc, fuenc» -, pousámos a tralha no quarto e preparámo-nos para o almoço, como uma espécie de compensação que nos oferecíamos, apesar de nem ainda onze horas serem...
Na pensão, porém, nesse dia o almoço resumia-se a um prato único: cozido!
Eu não sei se a minha leitora (ou as minhas duas leitoras, ao que parece!) nutrem pelo chamado cozido à portuguesa o mesmo asco que eu. Sim, na altura eu estaria completamente apaixonado - ou não iria passar uma semana na praia numa pensão com a família Fonseca e a família Guimarães em quartos próximos - mas, se podemos dizer que até as mais desenfreadas paixões têm um limite, o meu limite era o cozido à portuguesa.
Fomos, pois, enfrentando mais um pedaço de chuva, até ao restaurante manhoso ali da frente.
Mas ali à frente não era bem tão «ali à frente» como eu julgara. E, sobretudo à chuva, ainda de chinelos e de camiseta florida, o «ali à frente» tornara-se num caminho horrendo, imenso, desabrigado...
Para o restaurante, entrava-se, por um portão verde, para uma espécie de quintal com um alpendre confortável. Era engraçado! Romântico. Delicioso.
Ali estávamos, portanto, já no quintal, protegidos sob o abençoado alpendre, quando, que susto!, reparámos numa figurinha que transpunha, por sua vez, o portão da entrada.
Era a menina Fonseca. A sábia-junior. Lá vinha a chatinha, carregando duas enciclopédias, já muito molhadas, com o cartão das capas a desfazer-se. Vinha compenetrada, sem esboçar um sorriso de cumprimento como, aliás, nunca fazia.
- Os meus pais viram-vos vir em direcção ao restaurante. Querem que eu almoce convosco porque têm de fazer não sei quê...
Eu sei o que os Fonseca queriam fazer - no quarto, num dia de chuva, a sós, sem a menina sábia e chata a atrapalhar.
Conformava-me. Fiz-lhe até uma espécie de vaga e breve carícia nos cabelos molhados.
Nessa altura, do outro lado do portão, a senhora Guimarães, sem chegar a abri-lo, passava o menino gordo por cima e dava-lhe instruções no sentido de se dirigir a nós. O enfezadinho vinha depois.
- Mas quem é que esta gente pensa que nós somos? - sussurrei eu à minha mulher. - Os baby-sitters? Uma agência de dar almoços à criançada?
A Guimarães gritava-nos de lá qualquer coisa que não entendíamos. E ia-se embora.
- Estou pior que estragado! - vociferei.
- Deixa lá - sossegou-me a minha mulher. - O Paulinho e o Frederico (o gordo e o enfezado) já almoçaram, com certeza, comem sempre muito cedo. Vêm só para brincar com a Mariana. Ficam aqui a brincar enquanto nós vamos lá para dentro, não fiques assim...
- Não, não - intrometeu-se rapidamente o Paulinho gordo -, nós não almoçámos não, eu tou cheio de fome...!
sexta-feira, setembro 01, 2006
ANJO GORDO
Azael sentia-se infeliz - o que é um sentimento humano.
E com um princípio de ressentimento azul, que tenderia a provocar chispas de raiva avermelhada e, mais tarde, poderia abrir janelas a um ódio púrpura - tudo sentimentos humanos que, quando penentram em almas angélicas, as alimentam de uma força que nem os homens terão alguma vez experimentado.
Azael, o anjo, não podia compreender por que Deus o teria concebido como um «anjo gordo». Os anjos são puro espírito. Não têm carne. Os seus corpos espirituais, etéreos, são de uma elegância perfeita, luminosa, leve, no limiar da translucidez. Que sentido faz um anjo gordo!? Um anjo gordo para quê??? Que diabo pensava Deus - passe a expressão -, que tinha Deus na sua mente omnisciente quando o concebera e criara assim?
Por um estranho e perverso efeito, apesar de ser todo espírito, como os demais, essa sua espiritualidade gorda assumia algumas das características da gordura física: lentidão, cansaço, vergonha de si.
Sentou-se sobre uma pedra.
Gostaria de ver Deus. Não de o enfrentar - não teria coragem para se rebelar, bastava a trágica história de Lúcifer para o dissuadir. Mas perguntar-lhe. Porquê, Meu Deus? Que querias tu provar? Para que te sirvo assim?
Viu passar um menino gordo. E, por um instante, pareceu-lhe que compreendia a sua missão, a sua qualquer coisa. Não? Por um instante pensou que talvez se tratasse de o aproximar de um certo grupo de seres humanos - complexados, doentes, tristes - e de lhes mostrar que até entre os anjos pode haver gordos, que o aspecto não tem qualquer importância, que...
Em suma, talvez Deus o tivesse criado por uma intenção «politicamente correcta».
E pôs-se de pé. Diante do menino atónito. Em toda a extensão das suas asas e da sua gordura descomunal.
E sorriu ao menino. Luminosamente.
E a tristeza passava-lhe, agora que se imbuía da sua missão.
Afinal.
Até que o menino, o próprio menino, ele próprio gordo, exclamou, de dedo humilhantemente apontado:
- Ena pá! Um gordo com asas!
E, então, a irremediável tristeza de Azael regressou por inteiro.
E o anjo gordo sentou-se de novo sobre a pedra.
E suspirou.
E com um princípio de ressentimento azul, que tenderia a provocar chispas de raiva avermelhada e, mais tarde, poderia abrir janelas a um ódio púrpura - tudo sentimentos humanos que, quando penentram em almas angélicas, as alimentam de uma força que nem os homens terão alguma vez experimentado.
Azael, o anjo, não podia compreender por que Deus o teria concebido como um «anjo gordo». Os anjos são puro espírito. Não têm carne. Os seus corpos espirituais, etéreos, são de uma elegância perfeita, luminosa, leve, no limiar da translucidez. Que sentido faz um anjo gordo!? Um anjo gordo para quê??? Que diabo pensava Deus - passe a expressão -, que tinha Deus na sua mente omnisciente quando o concebera e criara assim?
Por um estranho e perverso efeito, apesar de ser todo espírito, como os demais, essa sua espiritualidade gorda assumia algumas das características da gordura física: lentidão, cansaço, vergonha de si.
Sentou-se sobre uma pedra.
Gostaria de ver Deus. Não de o enfrentar - não teria coragem para se rebelar, bastava a trágica história de Lúcifer para o dissuadir. Mas perguntar-lhe. Porquê, Meu Deus? Que querias tu provar? Para que te sirvo assim?
Viu passar um menino gordo. E, por um instante, pareceu-lhe que compreendia a sua missão, a sua qualquer coisa. Não? Por um instante pensou que talvez se tratasse de o aproximar de um certo grupo de seres humanos - complexados, doentes, tristes - e de lhes mostrar que até entre os anjos pode haver gordos, que o aspecto não tem qualquer importância, que...
Em suma, talvez Deus o tivesse criado por uma intenção «politicamente correcta».
E pôs-se de pé. Diante do menino atónito. Em toda a extensão das suas asas e da sua gordura descomunal.
E sorriu ao menino. Luminosamente.
E a tristeza passava-lhe, agora que se imbuía da sua missão.
Afinal.
Até que o menino, o próprio menino, ele próprio gordo, exclamou, de dedo humilhantemente apontado:
- Ena pá! Um gordo com asas!
E, então, a irremediável tristeza de Azael regressou por inteiro.
E o anjo gordo sentou-se de novo sobre a pedra.
E suspirou.
quarta-feira, agosto 30, 2006
HISTÓRIA BREVE DOS VÍCIOS DE SIMÕES
O Simões, coitado, era, aos trinta anos de idade, o que se chama um virgem: mas virgem de corpo e alma, e virgem em relação a praticamente tudo o que prenuncie prazer. O Simões não tinha vícios: não fumava, não bebia, não praticava sexo; não tomava café, porque temia as palpitações e as insónias; não sabia conduzir nem sabia nadar; nunca andara de bicileta; de moto, muito menos; não amava, nunca se apaixonara; é certo que trabalhava muito: o trabalho equivalia, no Simões, a quase um vício. Era, talvez, o que disso mais se aproximava.
O ponto é que nem aos trinta, nem aos quarenta, talvez em idade nenhuma se tem a vida completamente fechada, inteiramente imune a surpresas.
E, como a prová-lo, um dia, o Simões apaixonou-se.
Ou seja: dera-lhe uma espécie de explosão epilética em face de uma mulher de cinquenta e três anos mas com aspecto de menina, aspecto esse mantido, aliás, pelo aparelho «teen-ager» que usava nos dentes e pelas camisolinhas que lhe revelavam um belo umbigo num estômago que ela se esforçava por encolher.
A mulher, Alda Bobone, tinha rugas no rosto - que o Simões, de resto, adorava: eram as rugas mais belas que ele já vira, em todos os pontos certos, num subtil jogo de ramificações, numa maravilhosa teia que lhe fazia lembrar relâmpagos riscando o céu numa noite de trovoada.
Como o Simões nunca estivera antes apaixonado, tornou-se demasiado óbvio: suspirava, revirava os olhos, palidejava quando a via. Punha um ar de sofrimento, como se estivesse com os sapatos apertados ou dor de dentes. Não dormia. O rosto ia-se-lhe escavando até se fixar nos contornos dramáticos da caveira. Não comia. As calças principiavam a cair-lhe, apertava o cinto, tornava-se de uma magreza neo-Gótica.
Alda Bobone percebeu rapidamente que aquele jovem com ar vagamente de poeta começara a desfazer-se por causa dela. E comportou-se como se lhe tivesse saído a taluda, e com razão: aos cinquenta e três anos, ainda despertava paixões...!
Nunca os seus requebros foram tão ostensivos, os seus decotes tão profundos, o aparelho nos dentes tão faiscante, nunca o seu modo de se sentar, cruzando a perna, destapando a coxa, fora tão sensual.
Ao fim de umas curtas semanas durante as quais ensaiou todos os passos da sua dança de sedução, e não querendo prolongar essa fase, não fosse o jovem, cada dia mais aflito, agonizar de vez, dona Alda passou ao ataque. Num só dia apanhou-o a sós, beijou-o como se lhe sugasse a alma, desencadeando-lhe um dos seus piores ataques de asma, e levou-o dali para a cama, ainda com a respiração descontrolada.
Nesse único dia, Simões somou, ao tenebroso vício da paixão, dois novos vícios: em primeiro lugar, o sexo. Não precisou de se esforçar, porque dona Alda fazia tudo praticamente sozinha: ela tratou dos preliminares, pôs-se-lhe debaixo, pôs-se-lhe por cima, comprimindo-o na sua celulite, gemeu, arfou, gritou. Ora bem. Em segundo lugar, o tabaco. Porque, inexperiente como era, virgem como fora sempre, não tendo do sexo senão as imagens e os clichês dos filmes, Simões julgava que fazia parte do próprio acto concluí-lo com umas passas num cigarro, o corpo nu enrolado num lençol, enquanto lançava, para o ar, sopros de fumo e algumas reflexões vagamente filosóficas.
Dona Alda era incansável. Queria mais, queria sempre, todos os dias, se não a todas as horas. E o Simões, que no início da paixão parecera rejubilar, ganhar novas cores e uma nova vitalidade, depressa retomou a marcha para a decadência física, para a magreza, para o ar tenebroso e neo-Gótico.
E, principalmente, fumava muito. Fumava de todas as vezes que fazia sexo. Entretanto, descobriu que dona Alda era casada com um certo engenheiro Bobone, que o procurava agora por todo o lado e lhe fazia esperas, com uma machadinha escondida no bolso. Simões deu, pois, em fugir. E em fumar cada vez mais. Fugia do marido dela, obviamente, mas também da mulher do marido. Já não fumava meramente como um ritual pós-coito, fumava, agora, para relembrar o sexo de que fugia, mas também para tentar esquecê-lo, ou simplesmente para se acalmar, ou fosse pelo que fosse.
A sua asma não melhorou. Pelo contrário. Quando não estava com um cigarro nos lábios, estava com uma bomba enfiada na boca, aspirando com um estertor moribundo.
Com trinta e dois anos, Simões morreu de complicações que eu, que não sou médico, não saberia descrever.
Várias hipóteses de moral seriam retiráveis deste conto, algumas talhadas para as campanhas anti-tabagistas.
A única que me apetece extrair, com a dor e a melancolia de quem tem de extrair um dente, é esta: Mais vale uma vida breve por causa de um vício, do que uma vida demorada sem vício nenhum.
O ponto é que nem aos trinta, nem aos quarenta, talvez em idade nenhuma se tem a vida completamente fechada, inteiramente imune a surpresas.
E, como a prová-lo, um dia, o Simões apaixonou-se.
Ou seja: dera-lhe uma espécie de explosão epilética em face de uma mulher de cinquenta e três anos mas com aspecto de menina, aspecto esse mantido, aliás, pelo aparelho «teen-ager» que usava nos dentes e pelas camisolinhas que lhe revelavam um belo umbigo num estômago que ela se esforçava por encolher.
A mulher, Alda Bobone, tinha rugas no rosto - que o Simões, de resto, adorava: eram as rugas mais belas que ele já vira, em todos os pontos certos, num subtil jogo de ramificações, numa maravilhosa teia que lhe fazia lembrar relâmpagos riscando o céu numa noite de trovoada.
Como o Simões nunca estivera antes apaixonado, tornou-se demasiado óbvio: suspirava, revirava os olhos, palidejava quando a via. Punha um ar de sofrimento, como se estivesse com os sapatos apertados ou dor de dentes. Não dormia. O rosto ia-se-lhe escavando até se fixar nos contornos dramáticos da caveira. Não comia. As calças principiavam a cair-lhe, apertava o cinto, tornava-se de uma magreza neo-Gótica.
Alda Bobone percebeu rapidamente que aquele jovem com ar vagamente de poeta começara a desfazer-se por causa dela. E comportou-se como se lhe tivesse saído a taluda, e com razão: aos cinquenta e três anos, ainda despertava paixões...!
Nunca os seus requebros foram tão ostensivos, os seus decotes tão profundos, o aparelho nos dentes tão faiscante, nunca o seu modo de se sentar, cruzando a perna, destapando a coxa, fora tão sensual.
Ao fim de umas curtas semanas durante as quais ensaiou todos os passos da sua dança de sedução, e não querendo prolongar essa fase, não fosse o jovem, cada dia mais aflito, agonizar de vez, dona Alda passou ao ataque. Num só dia apanhou-o a sós, beijou-o como se lhe sugasse a alma, desencadeando-lhe um dos seus piores ataques de asma, e levou-o dali para a cama, ainda com a respiração descontrolada.
Nesse único dia, Simões somou, ao tenebroso vício da paixão, dois novos vícios: em primeiro lugar, o sexo. Não precisou de se esforçar, porque dona Alda fazia tudo praticamente sozinha: ela tratou dos preliminares, pôs-se-lhe debaixo, pôs-se-lhe por cima, comprimindo-o na sua celulite, gemeu, arfou, gritou. Ora bem. Em segundo lugar, o tabaco. Porque, inexperiente como era, virgem como fora sempre, não tendo do sexo senão as imagens e os clichês dos filmes, Simões julgava que fazia parte do próprio acto concluí-lo com umas passas num cigarro, o corpo nu enrolado num lençol, enquanto lançava, para o ar, sopros de fumo e algumas reflexões vagamente filosóficas.
Dona Alda era incansável. Queria mais, queria sempre, todos os dias, se não a todas as horas. E o Simões, que no início da paixão parecera rejubilar, ganhar novas cores e uma nova vitalidade, depressa retomou a marcha para a decadência física, para a magreza, para o ar tenebroso e neo-Gótico.
E, principalmente, fumava muito. Fumava de todas as vezes que fazia sexo. Entretanto, descobriu que dona Alda era casada com um certo engenheiro Bobone, que o procurava agora por todo o lado e lhe fazia esperas, com uma machadinha escondida no bolso. Simões deu, pois, em fugir. E em fumar cada vez mais. Fugia do marido dela, obviamente, mas também da mulher do marido. Já não fumava meramente como um ritual pós-coito, fumava, agora, para relembrar o sexo de que fugia, mas também para tentar esquecê-lo, ou simplesmente para se acalmar, ou fosse pelo que fosse.
A sua asma não melhorou. Pelo contrário. Quando não estava com um cigarro nos lábios, estava com uma bomba enfiada na boca, aspirando com um estertor moribundo.
Com trinta e dois anos, Simões morreu de complicações que eu, que não sou médico, não saberia descrever.
Várias hipóteses de moral seriam retiráveis deste conto, algumas talhadas para as campanhas anti-tabagistas.
A única que me apetece extrair, com a dor e a melancolia de quem tem de extrair um dente, é esta: Mais vale uma vida breve por causa de um vício, do que uma vida demorada sem vício nenhum.
terça-feira, agosto 22, 2006
O MITO DO OBSERVADOR INVISÍVEL
Nós, que nos ufanamos de ser do género «observador», gente perspicaz a quem nada falha, meticulosos sugadoiros do mundo em todos os seus aspectos, temos um pouco a noção (ou a mania) de que nunca somos observados: estamos do outro lado, como se fossemos de cristal; a nossa condição de pessoas que tudo vêem torna-nos, de certo modo, invisíveis.
Gosto de observar. Como aspirante a romancista (eterno e eternamente impublicado aspirante a romancista) tomo nota mental dos gestos e dos actos dos outros, sento-me numa mesa de café, meio encoberto por um jornal, oiço as conversas que me não dizem respeito, atento nas discussões, imagino histórias com que visto as pessoas que me passam ao lado, tornando-as personagens de futuros romances.
Observo, no comboio, os meninos prepotentes que fazem o que querem dos avós impotentes e indefesos: «Quero ir à janela! Com a janela aberta!», «Não, Quinzinho, não, não, é muito perigoso, olha lá, e se passa um comboio em sentido contrário...?», «Mas eu quero, eu quero, eu quero!!!», «Pronto, vá lá, só um bocadinho...»
Sei histórias dos carteiros, da porteira, da mulher-a-dias, do senhor que vende jornais no quiosque, dos vizinhos, dos bombeiros. De tentativas de suicídio ou de murros imprevistos, de cenas de ciúme e ódio; assisti por um triz à zanga da Elsa Raposo, à sua saída da casa do ex-namorado, cheia de malas, provocando um ajuntamento.
Tenho, na minha varanda, um posto privilegiado. Ao mínimo ruído de altercação, à noite, ao mínimo sinal de briga entre bêbedos, ao travar de uma ambulância que vem buscar alguém ao prédio da frente, assomo logo ao meu posto, seguro da minha invisibilidade, a coberto da escuridão.
Uma destas noites, precisamente, assomei atraído pelos gritos de uma velha prostituta que batia desapiedadamente num velho; partiu-lhe os óculos, partia-o todo, aos gritos de «Posso ser puta, mas pelo menos não sou tua mãe, que era pior!»
Na manhã seguinte, quando, por acaso, me cruzei com a mulher - eu a entrar para um café de onde ela saía -, rosnou-me, com uma agressividade que nunca lhe vira.
E já ela ia a dobrar a esquina, ainda lhe ouvi, obviamente para mim:
«E tu vais espreitar a tua prima lá da tua varanda, ó cabrão!»
Nunca me tinha falado antes. Fala-me, agora, sempre: e sempre com os mesmos modos desabridos, de quem me odeia, de quem me não perdoa o que eu vi nessa noite. Ela é que não perdoa o que eu vi, percebem? Porque ela sabe que a vi. Ela viu que eu vira tudo...
Foi, também, o fim de um mito: o do homem de cristal - o do observador invisível.
Gosto de observar. Como aspirante a romancista (eterno e eternamente impublicado aspirante a romancista) tomo nota mental dos gestos e dos actos dos outros, sento-me numa mesa de café, meio encoberto por um jornal, oiço as conversas que me não dizem respeito, atento nas discussões, imagino histórias com que visto as pessoas que me passam ao lado, tornando-as personagens de futuros romances.
Observo, no comboio, os meninos prepotentes que fazem o que querem dos avós impotentes e indefesos: «Quero ir à janela! Com a janela aberta!», «Não, Quinzinho, não, não, é muito perigoso, olha lá, e se passa um comboio em sentido contrário...?», «Mas eu quero, eu quero, eu quero!!!», «Pronto, vá lá, só um bocadinho...»
Sei histórias dos carteiros, da porteira, da mulher-a-dias, do senhor que vende jornais no quiosque, dos vizinhos, dos bombeiros. De tentativas de suicídio ou de murros imprevistos, de cenas de ciúme e ódio; assisti por um triz à zanga da Elsa Raposo, à sua saída da casa do ex-namorado, cheia de malas, provocando um ajuntamento.
Tenho, na minha varanda, um posto privilegiado. Ao mínimo ruído de altercação, à noite, ao mínimo sinal de briga entre bêbedos, ao travar de uma ambulância que vem buscar alguém ao prédio da frente, assomo logo ao meu posto, seguro da minha invisibilidade, a coberto da escuridão.
Uma destas noites, precisamente, assomei atraído pelos gritos de uma velha prostituta que batia desapiedadamente num velho; partiu-lhe os óculos, partia-o todo, aos gritos de «Posso ser puta, mas pelo menos não sou tua mãe, que era pior!»
Na manhã seguinte, quando, por acaso, me cruzei com a mulher - eu a entrar para um café de onde ela saía -, rosnou-me, com uma agressividade que nunca lhe vira.
E já ela ia a dobrar a esquina, ainda lhe ouvi, obviamente para mim:
«E tu vais espreitar a tua prima lá da tua varanda, ó cabrão!»
Nunca me tinha falado antes. Fala-me, agora, sempre: e sempre com os mesmos modos desabridos, de quem me odeia, de quem me não perdoa o que eu vi nessa noite. Ela é que não perdoa o que eu vi, percebem? Porque ela sabe que a vi. Ela viu que eu vira tudo...
Foi, também, o fim de um mito: o do homem de cristal - o do observador invisível.
domingo, agosto 20, 2006
LITERATURA E MARKETING
Não me digam que a literatura não está tão sujeita ao marketing como todos os outros objectos compráveis. E não me digam que, no caso da literatura, não é isso que conta, não é isso o que mais importa...
E é realmente de literatura que falo, não simplesmente de livros, nem de escrita pimba, nem de escrita pop, nem de escrita light.
Se, por exemplo, não tivesse começado a ler «Em Busca do Tempo Perdido» já completamente rendido ao efeito mítico dessa obra imensa, escrita por um homossexual histérico e asmático (pode parecer insultuoso mas, se relerem, vão perceber que nenhum dos termos empregues tem necessariamente uma carga pejorativa), tocada por um halo que me impregnara antecipadamente, isto é, antes de o ter principiado a ler, se não me tivessem já criado essa espécie de fantasia em torno do autor, da personagem, da obra, da memória e do papel da memória, se o meu avô não me tivesse já descrito, abundante e deliciosamente, o célebre episódio da «madalena», eu teria ido ao encontro da obra, tê-la-ia deixado vir ao meu encontro, tê-la-ia deixado tornar-se, paulatinamente (e já tarde) a obra da minha vida?
Faço estas considerações a propósito de um conto longo (uma novela, no fundo) que Vasco Graça Moura escreveu propositadamente para ser comprado em conjunto com um certo número da revista «Visão» (por mais três euros e tal).
Pensam que se não se tratasse de Vasco Graça Moura, para já, esse intelectual encartado do nosso país, esse tradutor reconhecido e premiado, esse poeta cantado e recantado (e requintado... e, já agora, requentado...!), de quem apreciei anteriores escritos, o livro me teria sorrido?
Pensam que se não fosse aquela capa - em que, numa fotografia, Vasco Graça Moura, com um polo Lacoste azul celeste, nos sorri, diante da sua magnífica biblioteca, repousando o cotovelo sobre o degrau superior de um escadote para alcançar os livros das prateleiras superiores - eu me teria detido sobre o objecto? Pensam que uma fotografia do Vasco Graça Moura a lamber um sorvete, ou a acenar-nos, ou a passear um cão, ou a correr para um autocarro, teriam surtido o mesmo efeito, esse efeito quase sagrado da proximidade dos livros, do seu escritório (que imaginamos mais do que realmente vemos), do seu trabalho intelectual (que invejamos mais do que realmente admiramos)?
Finalmente, pensam que se o título não fosse «Duas mulheres em Novembro», evocando de imediato um romance do narrador com duas senhoras, em pleno Inverno, um pouco à maneira de David Mourão-Ferreira, eu teria tido tanta pressa de o comprar?
Mas o marketing é sempre ilusório.
Para que conste, não há qualquer triângulo amoroso: as «duas mulheres» do título são, simplesmente, duas mulheres que se encontram (em Novembro, obviamente) no consultório de um médico que não há modo de as atender, e conversam ao longo das páginas mais chatas que já li em dias de minha vida.
O Graça Moura é uma seca. É um pim pam pum.
E a biblioteca da fotografia, se calhar, é um logro. Como este livro. Pft!
E é realmente de literatura que falo, não simplesmente de livros, nem de escrita pimba, nem de escrita pop, nem de escrita light.
Se, por exemplo, não tivesse começado a ler «Em Busca do Tempo Perdido» já completamente rendido ao efeito mítico dessa obra imensa, escrita por um homossexual histérico e asmático (pode parecer insultuoso mas, se relerem, vão perceber que nenhum dos termos empregues tem necessariamente uma carga pejorativa), tocada por um halo que me impregnara antecipadamente, isto é, antes de o ter principiado a ler, se não me tivessem já criado essa espécie de fantasia em torno do autor, da personagem, da obra, da memória e do papel da memória, se o meu avô não me tivesse já descrito, abundante e deliciosamente, o célebre episódio da «madalena», eu teria ido ao encontro da obra, tê-la-ia deixado vir ao meu encontro, tê-la-ia deixado tornar-se, paulatinamente (e já tarde) a obra da minha vida?
Faço estas considerações a propósito de um conto longo (uma novela, no fundo) que Vasco Graça Moura escreveu propositadamente para ser comprado em conjunto com um certo número da revista «Visão» (por mais três euros e tal).
Pensam que se não se tratasse de Vasco Graça Moura, para já, esse intelectual encartado do nosso país, esse tradutor reconhecido e premiado, esse poeta cantado e recantado (e requintado... e, já agora, requentado...!), de quem apreciei anteriores escritos, o livro me teria sorrido?
Pensam que se não fosse aquela capa - em que, numa fotografia, Vasco Graça Moura, com um polo Lacoste azul celeste, nos sorri, diante da sua magnífica biblioteca, repousando o cotovelo sobre o degrau superior de um escadote para alcançar os livros das prateleiras superiores - eu me teria detido sobre o objecto? Pensam que uma fotografia do Vasco Graça Moura a lamber um sorvete, ou a acenar-nos, ou a passear um cão, ou a correr para um autocarro, teriam surtido o mesmo efeito, esse efeito quase sagrado da proximidade dos livros, do seu escritório (que imaginamos mais do que realmente vemos), do seu trabalho intelectual (que invejamos mais do que realmente admiramos)?
Finalmente, pensam que se o título não fosse «Duas mulheres em Novembro», evocando de imediato um romance do narrador com duas senhoras, em pleno Inverno, um pouco à maneira de David Mourão-Ferreira, eu teria tido tanta pressa de o comprar?
Mas o marketing é sempre ilusório.
Para que conste, não há qualquer triângulo amoroso: as «duas mulheres» do título são, simplesmente, duas mulheres que se encontram (em Novembro, obviamente) no consultório de um médico que não há modo de as atender, e conversam ao longo das páginas mais chatas que já li em dias de minha vida.
O Graça Moura é uma seca. É um pim pam pum.
E a biblioteca da fotografia, se calhar, é um logro. Como este livro. Pft!
sábado, agosto 19, 2006
DIÁLOGOS IMPRESSIONANTES
MINHA MÃE - Estás maluco? Já estou arrependida de te ter contado esta história.
EU (amuado) - E porquê?
MINHA MÃE - Porque dizes que vais pôr isso no teu blogue! Com nomes e tudo!
EU (digníssimo) - E vou! E vou mesmo! O meu blogue é um lugar de denúncia das falsas virtudes, etc. etc. Ninguém me cala...
MINHA MÃE - Pelo amor de Deus, não faças isso, ao menos generaliza, diz que «há pessoas que fazem isto e fazem aquilo...» Não digas que «Fulano faz»...
EU (cada vez mais emocionado com o poder do meu blogue) - Ná, ná, ná! Não estou à venda. Vai tudo escarrapachado para lá. E é já. O meu blogue é um lugar livre e independente... (Depois de uma hesitação)... até porque ninguém o lê...!
EU (amuado) - E porquê?
MINHA MÃE - Porque dizes que vais pôr isso no teu blogue! Com nomes e tudo!
EU (digníssimo) - E vou! E vou mesmo! O meu blogue é um lugar de denúncia das falsas virtudes, etc. etc. Ninguém me cala...
MINHA MÃE - Pelo amor de Deus, não faças isso, ao menos generaliza, diz que «há pessoas que fazem isto e fazem aquilo...» Não digas que «Fulano faz»...
EU (cada vez mais emocionado com o poder do meu blogue) - Ná, ná, ná! Não estou à venda. Vai tudo escarrapachado para lá. E é já. O meu blogue é um lugar livre e independente... (Depois de uma hesitação)... até porque ninguém o lê...!
sexta-feira, agosto 11, 2006
PAIS, FILHOS & PSICÓLOGOS
Educar uma criança é difícil, mas mais fácil do que parece.
A primeira coisa a fazer, é não ligar aos psicólogos. Sobretudo, em Portugal, a pessoas como o Daniel Sampaio ou o Eduardo Sá. Ou o Pedro Strecht - em suma, aqueles que pontificam um pouco por toda a parte. Não é que nos enganem, coitados: eles não enganam ninguém. Basta ouvi-los durante cinco pacientes minutos para se perceber de imediato que não percebem nada destas coisas, que estão para ali a alinhar os mesmos chavões em que se revelam os perigos de uma teoria sem prática.
O que a prática me tem revelado, a mim que não sou psicólogo, é que não existem pais nem famílias que não sejam neuróticos; mais: que, na maior parte dos casos, quanto mais «politicamente correctos», quanto mais «consciencializados», quanto mais atentos e preocupados em agir by the book, isto é, de acordo com os manuais que ensinam os pais a ser pais, mais neuróticos são. (É preciso ser-se valentemente neurótico para se achar, por exemplo, que é possível viver a paternidade segundo os conselhos do senhor Daniel Sampaio).
Não quero que pensem que tenho a mania, ou que julgo saber do assunto mais do quem quer que seja; não quero que pensem que não cometo erros, nem sequer que penso que os não cometo. Cometo inúmeros. Alguns, incorrigíveis: estão-me na massa, na estrutura, no ADN, no que quiserem. Não tenho teorias, ou melhor, vou tentando compreender o que faço, tirando as minhas lições, procurando melhorar. É possível que esteja deformando e estragando o meu filho, que o esteja traumatizando, que lhe vá criando complexos e vícios vários. (Mas também não me preocupo mais do que a minha análise me convide a fazê-lo, porque verifiquei que a maioria dos «complexos» e dos «vícios» são uma invenção que tem rendido a uma certa psicologia...)
A minha aposta consiste simplesmente em confiar que tenho algumas coisas boas, que identifico e tento transmitir, tentando multiplicar as situações que o permitam; em reconhecer que tenho diversos e graves defeitos, cujo impacto menorizo quando posso; e, sobretudo, em esperar que a nossa relação viva e cresça, com bens e males, capaz de cuidar de si mesma, de constituir um rumo e um ritmo próprios, de acreditar em si. Isto não é uma receita. Não creio em receitas. É uma maneira de dizer que os filhos são resistentes: na maior parte dos casos, aprendem a superar o mal que lhes possamos fazer. Não é que isto me de-responsabilize. Nos de-responsabilize. É que se não acreditar nisto, mais vale não ter filhos - ou, então, pedir ao senhor Daniel Sampaio que os eduque por mim.
A primeira coisa a fazer, é não ligar aos psicólogos. Sobretudo, em Portugal, a pessoas como o Daniel Sampaio ou o Eduardo Sá. Ou o Pedro Strecht - em suma, aqueles que pontificam um pouco por toda a parte. Não é que nos enganem, coitados: eles não enganam ninguém. Basta ouvi-los durante cinco pacientes minutos para se perceber de imediato que não percebem nada destas coisas, que estão para ali a alinhar os mesmos chavões em que se revelam os perigos de uma teoria sem prática.
O que a prática me tem revelado, a mim que não sou psicólogo, é que não existem pais nem famílias que não sejam neuróticos; mais: que, na maior parte dos casos, quanto mais «politicamente correctos», quanto mais «consciencializados», quanto mais atentos e preocupados em agir by the book, isto é, de acordo com os manuais que ensinam os pais a ser pais, mais neuróticos são. (É preciso ser-se valentemente neurótico para se achar, por exemplo, que é possível viver a paternidade segundo os conselhos do senhor Daniel Sampaio).
Não quero que pensem que tenho a mania, ou que julgo saber do assunto mais do quem quer que seja; não quero que pensem que não cometo erros, nem sequer que penso que os não cometo. Cometo inúmeros. Alguns, incorrigíveis: estão-me na massa, na estrutura, no ADN, no que quiserem. Não tenho teorias, ou melhor, vou tentando compreender o que faço, tirando as minhas lições, procurando melhorar. É possível que esteja deformando e estragando o meu filho, que o esteja traumatizando, que lhe vá criando complexos e vícios vários. (Mas também não me preocupo mais do que a minha análise me convide a fazê-lo, porque verifiquei que a maioria dos «complexos» e dos «vícios» são uma invenção que tem rendido a uma certa psicologia...)
A minha aposta consiste simplesmente em confiar que tenho algumas coisas boas, que identifico e tento transmitir, tentando multiplicar as situações que o permitam; em reconhecer que tenho diversos e graves defeitos, cujo impacto menorizo quando posso; e, sobretudo, em esperar que a nossa relação viva e cresça, com bens e males, capaz de cuidar de si mesma, de constituir um rumo e um ritmo próprios, de acreditar em si. Isto não é uma receita. Não creio em receitas. É uma maneira de dizer que os filhos são resistentes: na maior parte dos casos, aprendem a superar o mal que lhes possamos fazer. Não é que isto me de-responsabilize. Nos de-responsabilize. É que se não acreditar nisto, mais vale não ter filhos - ou, então, pedir ao senhor Daniel Sampaio que os eduque por mim.
segunda-feira, agosto 07, 2006
FALAS DE AZUL
Devo ter induzido pessoas em erro com um velho «post» em que elogiava o hip-hop que se fazia em Portugal: pus uns quantos leitores (não muitos, mas isso porque não tenho muitos leitores) a pensar que eu seria um grande apreciador do género. Na verdade, não sou: tenho o hip-hop por uma música preguiçosa, mais cantada do que falada, e falada, ainda por cima, sempre quase da mesma forma (embora não com o mesmo conteúdo), com tiques e vícios de estilo por todo o lado. No entanto, surpreendiam-me algumas letras - algumas das tais «falas». Pelo arrojo, pelo português seguro que as sustentava, por uma capacidade admirável de tornar poético um quotidiano suburbano, pela, pasmem!, criatividade!
Mesmo em grupos desconhecidos parecia-me detectar essa estranha criatividade, esse inesperado domínio das palavras, essa expressiva familiaridade com o surrealismo.
Havia, por exemplo, nos «Morangos com Açúcar», uma música cujo nome desconheço, cantada ou falada por um desses grupos, que me obrigava a deter-me diante destas palavras:
«Falas de azul/ Esquece azul... etc, etc.»
Era bonito. Não sabíamos bem o que significava, nem o meu filho nem eu, mas gostávamos da estranha magia daquele «azul», e procurávamos interpretá-lo. Para o meu filho, tratava-se de alguém que «falava (vestida) de azul»: «Falas de azul». E, acrescentava ele, «alguém» que esquecia (o quê, que esquecia ela? - qualquer coisa), mas esquecia-se ainda e sempre vestida de azul: «Esqueces (de) azul»... (Admito que esta segunda parte me parece menos plausível, sobretudo porque eu não ouvia «esqueces» mas «esquece», no imperativo. Mas paciência: o meu filho tem onze anos).
Para mim, era antes com a metáfora que havia que se jogar. Alguém falava acerca de azul, porventura de um ideal, ou de amor, ou de um mundo perfeito, ou seja, de tudo aquilo a que aspiramos e que podemos representar sob essa cor que evoca o céu, o mar....! E, ironicamente, o cantor respondia-lhe, «Esquece azul», como quem diz, deixa-te disso, não vale a pena, não te incomodes, eu já não acredito nos teus sonhos nem nas tuas palavras...
As discussões que esta letra desencadeou, o que ela exigiu do nosso poder de argumentação, do nosso espírito, a dialéctica hermenêutica a que nos obrigou.
Tornámos a ouvir a música, numa destas noites, no rádio do carro; ouvimo-la com uma esforçadíssima atenção. Pois bem: não há ali azul nenhum. Nenhum. O que se diz é simplesmente «Falas disso» (soando como: «Falas dissú!»), «Esquece isso!» («Esquece issú!»).
O meu filho e eu rimo-nos do nosso equívoco. Mas pouco. Era um riso levemente amargo.
Ora bolas!
Mesmo em grupos desconhecidos parecia-me detectar essa estranha criatividade, esse inesperado domínio das palavras, essa expressiva familiaridade com o surrealismo.
Havia, por exemplo, nos «Morangos com Açúcar», uma música cujo nome desconheço, cantada ou falada por um desses grupos, que me obrigava a deter-me diante destas palavras:
«Falas de azul/ Esquece azul... etc, etc.»
Era bonito. Não sabíamos bem o que significava, nem o meu filho nem eu, mas gostávamos da estranha magia daquele «azul», e procurávamos interpretá-lo. Para o meu filho, tratava-se de alguém que «falava (vestida) de azul»: «Falas de azul». E, acrescentava ele, «alguém» que esquecia (o quê, que esquecia ela? - qualquer coisa), mas esquecia-se ainda e sempre vestida de azul: «Esqueces (de) azul»... (Admito que esta segunda parte me parece menos plausível, sobretudo porque eu não ouvia «esqueces» mas «esquece», no imperativo. Mas paciência: o meu filho tem onze anos).
Para mim, era antes com a metáfora que havia que se jogar. Alguém falava acerca de azul, porventura de um ideal, ou de amor, ou de um mundo perfeito, ou seja, de tudo aquilo a que aspiramos e que podemos representar sob essa cor que evoca o céu, o mar....! E, ironicamente, o cantor respondia-lhe, «Esquece azul», como quem diz, deixa-te disso, não vale a pena, não te incomodes, eu já não acredito nos teus sonhos nem nas tuas palavras...
As discussões que esta letra desencadeou, o que ela exigiu do nosso poder de argumentação, do nosso espírito, a dialéctica hermenêutica a que nos obrigou.
Tornámos a ouvir a música, numa destas noites, no rádio do carro; ouvimo-la com uma esforçadíssima atenção. Pois bem: não há ali azul nenhum. Nenhum. O que se diz é simplesmente «Falas disso» (soando como: «Falas dissú!»), «Esquece isso!» («Esquece issú!»).
O meu filho e eu rimo-nos do nosso equívoco. Mas pouco. Era um riso levemente amargo.
Ora bolas!
sábado, julho 29, 2006
TUDO O QUE É MAU FAZ BEM
Num livro que tem sido apresentado como «revolucionário», um autor norte-americano - penso eu, mas talvez erre; será, porventura, um preconceito, mas estas «revoluções» parecem-me tipicamente americanas - sustenta que tudo aquilo praticamente que sempre se pensou ser prejudicial aos adolescentes é, afinal, benéfico para o seu desenvolvimento. O excesso de televisão. Os videogames. Os telemóveis. You name it. Nós, até agora, preocupados com os nossos filhos, evitando parvamente que eles se alienassem com os jogos de computador e outros vícios da cultura de massas e, pelo contrário, os jogos e os vícios a despertar-lhes as mentes, rasgando-lhes fronteiras à inteligência, adestrando-os e aperfeiçoando-os...! O tempo que desperdiçámos a mandá-los estudar aos invés de os deixarmos colados ao ecrã, movendo ruidosamente os polegares sobre os botões da consola para disparar rajadas contra as naves invasoras.
Sei que não há, nesse livro, nada de científico. O registo é o da argumentação. E desconfio muito dessa retórica de que se tecem teorias cómodas. Fujo delas como o diabo da cruz: sofro de um leve enjoo quando oiço um psicólogo pedir «tempo de qualidade» por oposição à «quantidade», querendo convencer-me de que os pais geralmente muito ocupados podem ser melhores do que os outros se forem capazes de fazer do quarto de hora em que estão com os filhos um quarto de hora a sério, de «qualidade», cheio de histórias e brincadeira.
Haverá sempre um psicólogo para entoar loas às virtudes do macDonald's, da coca-cola, das pipocas no cinema. Há-de haver um psicólogo pronto a justificar - pior, a tomar como exemplo salutar - o comportamento desses pais negligentes que atafulham as crianças, as mimam em excesso, lhes não negam nada, lhes oferecem jogos em vez de atenção.
Compensa-se a irresponsabilidade dessas teorias com o tom revolucionário e provocatório que elas ostentam, o irresistível cunho de novidade e, sobretudo, o efeito de desculpabilização para consciências atormentadas de alguns pais.
Para muitos, é um óptimo negócio.
Sei que não há, nesse livro, nada de científico. O registo é o da argumentação. E desconfio muito dessa retórica de que se tecem teorias cómodas. Fujo delas como o diabo da cruz: sofro de um leve enjoo quando oiço um psicólogo pedir «tempo de qualidade» por oposição à «quantidade», querendo convencer-me de que os pais geralmente muito ocupados podem ser melhores do que os outros se forem capazes de fazer do quarto de hora em que estão com os filhos um quarto de hora a sério, de «qualidade», cheio de histórias e brincadeira.
Haverá sempre um psicólogo para entoar loas às virtudes do macDonald's, da coca-cola, das pipocas no cinema. Há-de haver um psicólogo pronto a justificar - pior, a tomar como exemplo salutar - o comportamento desses pais negligentes que atafulham as crianças, as mimam em excesso, lhes não negam nada, lhes oferecem jogos em vez de atenção.
Compensa-se a irresponsabilidade dessas teorias com o tom revolucionário e provocatório que elas ostentam, o irresistível cunho de novidade e, sobretudo, o efeito de desculpabilização para consciências atormentadas de alguns pais.
Para muitos, é um óptimo negócio.
sábado, julho 08, 2006
A HISTERIA
Quando perguntei a uma amiga se tinha sofrido muito com o jogo em que, na noite anterior, a França destruira as lusas ilusões, ela respondeu-me: «Na verdade, fiquei aliviada. Temia que viesse aí uma nova vaga de histeria!»
Eu compreendo que este patriotismo de trazer por casa pareça tão mal, se não chocante, a alguns intelectuais. E não emprego o termo depreciativamente: é, obviamente, entre os intelectuais, como o Barroso, o Pulido Valente ou o Pacheco Pereira, que esta onda de bandeiras invandindo varandas e automóveis soa pindérico, estúpido, misturando valores respeitáveis com ludismos de pacotilha.
Do meu ponto de vista, porém, a questão que aqui se põe não é a do patriotismo foleiro, a do patriotismo fácil, a do patriotismo histérico. Não é, de todo, a questão do patriotismo.
Tenho dificuldade em aceitar que, no interior de um país que se despreza há muitos séculos, que talvez tenha nascido já de um desprezo por si mesmo - com a incompreensível interrupção dos Descobrimentos -, no interior de um país que se viu sempre diminuído em face do resto da Europa, a começar pela enorme e potente Espanha com a qual faz fronteira, no interior de um país que foi vivendo, em grande parte, de emigração, lançando pelo mundo porteiras, trabalhadores das obras e varredores, famílias chutadas para bairros degradados, olhadas de cima, desintegradas, sempre a braços com uma língua que não dominavam, que no interior deste país haja quem não entenda a adesão à selecção nacional, a euforia futebolística, como uma espécie de vingança pequenina contra a nossa condição de portugueses e contra um destino rasca que nos cabe. Que não se veja aqui, que diabo, uma questão de - odiosa palavra, perdoem-ma - «auto-estima».
Resolvemos os nossos problemas? Não. Teríamos solucionado algo do nosso fado, mesmo que o Zinedine Zidane não tivesse jogado ou o árbitro não mandasse marcar a porcaria do penalty? Não. Teria alguma coisa essencial mudado se, no fim, vencêssemos a Itália e fossemos os campeões do mundo?
Não. Andaríamos nas nuvens umas semanas, um mês, uns meses e, depois, tudo voltaria fatalmente ao ramerrão português.
Mas, caramba, que mal faz uma interrupção da tristeza? Um breve período de intensidade e comunhão? Um carnaval em que nos unimos, por uma vez positivamente, neste drama de sermos portugueses?
Histeria? Sem dúvida. Mas eu sempre achei que havia qualquer coisa de profundamente saudável na histeria. Doentes, doentes, eram os psiquiatras e os psicólogos que se debruçavam sobre ela.
Eu compreendo que este patriotismo de trazer por casa pareça tão mal, se não chocante, a alguns intelectuais. E não emprego o termo depreciativamente: é, obviamente, entre os intelectuais, como o Barroso, o Pulido Valente ou o Pacheco Pereira, que esta onda de bandeiras invandindo varandas e automóveis soa pindérico, estúpido, misturando valores respeitáveis com ludismos de pacotilha.
Do meu ponto de vista, porém, a questão que aqui se põe não é a do patriotismo foleiro, a do patriotismo fácil, a do patriotismo histérico. Não é, de todo, a questão do patriotismo.
Tenho dificuldade em aceitar que, no interior de um país que se despreza há muitos séculos, que talvez tenha nascido já de um desprezo por si mesmo - com a incompreensível interrupção dos Descobrimentos -, no interior de um país que se viu sempre diminuído em face do resto da Europa, a começar pela enorme e potente Espanha com a qual faz fronteira, no interior de um país que foi vivendo, em grande parte, de emigração, lançando pelo mundo porteiras, trabalhadores das obras e varredores, famílias chutadas para bairros degradados, olhadas de cima, desintegradas, sempre a braços com uma língua que não dominavam, que no interior deste país haja quem não entenda a adesão à selecção nacional, a euforia futebolística, como uma espécie de vingança pequenina contra a nossa condição de portugueses e contra um destino rasca que nos cabe. Que não se veja aqui, que diabo, uma questão de - odiosa palavra, perdoem-ma - «auto-estima».
Resolvemos os nossos problemas? Não. Teríamos solucionado algo do nosso fado, mesmo que o Zinedine Zidane não tivesse jogado ou o árbitro não mandasse marcar a porcaria do penalty? Não. Teria alguma coisa essencial mudado se, no fim, vencêssemos a Itália e fossemos os campeões do mundo?
Não. Andaríamos nas nuvens umas semanas, um mês, uns meses e, depois, tudo voltaria fatalmente ao ramerrão português.
Mas, caramba, que mal faz uma interrupção da tristeza? Um breve período de intensidade e comunhão? Um carnaval em que nos unimos, por uma vez positivamente, neste drama de sermos portugueses?
Histeria? Sem dúvida. Mas eu sempre achei que havia qualquer coisa de profundamente saudável na histeria. Doentes, doentes, eram os psiquiatras e os psicólogos que se debruçavam sobre ela.
quinta-feira, julho 06, 2006
A FRUSTRAÇÃO DOS D'ZRT
Os D'zrt não são propriamente uns garotos. Embora finjam um pouco que sim: por exemplo, um deles, já quase nos seus gastos trinta anos, fazia, nos MORANGOS COM AÇÚCAR, o papel desadequado de um jovem adolescente apaixonado pela professora de Inglês; o outro, o inefável Zé Milho dos mesmos MORANGOS, também deve ter-se atrasado alguns anos na sua qualidade de miúdo, qualidade que não foi capaz de largar a tempo. E portanto, crescidotes como são, suspeito que, ao formarem uma banda, o sonho deles era serem uns tipos irreverentes, parasitando o hip-hop, com um público de jovens um pouco embriagados fazendo gestos obscenos e sacudindo-se a compasso nos seus concertos.
Observo, na televisão, o verdadeiro público dos D'Zrt: meninas de trancinhas e aparelho nos dentes, às cavalitas dos pais, bebés adormecidos no carrinho ou ao colo da mãe, miúdos de chucha, sardentos, alguns rapazolas com albuns de cromos debaixo do braço. E, aí, atenção: nem todos os rapazes! O meu filho olha com alguma indignação para o CD dos D'zrt que lhe ofereceram nos anos. Detesta-os. Tenho nisso algum orgulho, mas pouca influência. Os meninos que, em quase tudo o mais evoluem mais lentamente do que as meninas, nisto, parecem muito mais lúcidos. Os colegas do Duarte deformam-lhes as letras das músicas, ridicularizando-as divertida e gostosamente. Chego a ter pena do Topé e do Zé Milho!
Não acredito que o sonho dos D'zrt fosse esta multidão de crianças a pedirem-lhes autógrafos, com a caneta numa mão e a Barbie na outra.
Observo, na televisão, o verdadeiro público dos D'Zrt: meninas de trancinhas e aparelho nos dentes, às cavalitas dos pais, bebés adormecidos no carrinho ou ao colo da mãe, miúdos de chucha, sardentos, alguns rapazolas com albuns de cromos debaixo do braço. E, aí, atenção: nem todos os rapazes! O meu filho olha com alguma indignação para o CD dos D'zrt que lhe ofereceram nos anos. Detesta-os. Tenho nisso algum orgulho, mas pouca influência. Os meninos que, em quase tudo o mais evoluem mais lentamente do que as meninas, nisto, parecem muito mais lúcidos. Os colegas do Duarte deformam-lhes as letras das músicas, ridicularizando-as divertida e gostosamente. Chego a ter pena do Topé e do Zé Milho!
Não acredito que o sonho dos D'zrt fosse esta multidão de crianças a pedirem-lhes autógrafos, com a caneta numa mão e a Barbie na outra.
terça-feira, junho 13, 2006
A SAÍDA
Hans não conseguia deixar de olhar pela janela.
Passara os últimos dias olhando fixamente, cheio de fé, de uma fé irrealista que o tornava inapto para as tarefas da casa.
Os outros irritavam-se. Ada, sobretudo, enervava-se muito com a sua atitude:
- Tu não podes esperar que sejamos nós a fazer tudo. É injusto. Estamos juntos nesta situação, precisamos uns dos outros, precisamos de todos.
Clark, que, tacitamente, era visto pelo grupo como o líder, procurava acalmá-la:
- Ele está mal, Ada. Dá-lhe tempo. Deixa-o recompor-se. Foi o que sofreu mais de todos nós. Perdeu os pais, os filhos...
Ada chorava. Não de pena, mas de raiva, de uma raiva mesquinha contra Hans, e do orgulho ferido por Clark, que ela continuava amando secretamente.
- Quanto tempo lhe queres dar, Clark?
- Dá-lhe tempo, Ada, dá-lhe algum tempo. É só do que ele precisa...
Hans via claramente que, no exterior, tudo se recompunha. Não o dizia a ninguém. Mantinha segredo. Os outros ainda lhe agradeceriam, quando ele anunciasse: «Podemos sair, o mundo renasceu lá fora!»
Hans percebia perfeitamente que o cinzento começara a dar lentamente lugar a cores, que algumas flores brotavam do chão; pensava, comovido: «Há flores prontas a regressar à menor oportunidade, mesmo num mundo estragado. E que força! A força com que rompem o alcatrão, com que fendem as estradas...»
Um dia, Hans gritou.
Os outros aproximaram-se, a medo.
Mas o jovem ria-se. Apontava com o dedo pela janela. O mundo regenerara. Por completo. Estava pronto a recebê-los, reanimado, animado da sua eterna pujança.
- Que achas? -, perguntou Lake.
- Acho que ele enlouqueceu -, respondeu Ada.
- Também acho, infelizmente -, confirmou Clark. - A sua fé criou uma espécie de alucinação que, sob efeito das recordações, o faz ver o mundo lá fora como era antes.
- Ele quer sair. Podemos prendê-lo? -, interrogava-se Eva.
- Temos de o convencer -, experimentava Clark.
- Convencê-lo? -, troçava Ada. - Como se convence um louco?
- Temos de admitir outra hipótese -, arriscou Lap. Corou muito perante o silêncio atento que se fez em torno das suas palavras. Depois, nervosamente, com excesso de gestos, prosseguiu. - Temos de admitir a hipótese de que ele tenha razão. De que ele esteja a ver as coisas como elas de facto são, e nós não.
- Todos nós enganados? Loucos? E ele a percepcionar adequadamente? Mas porquê?
- Bem, o facto de ele ter passado tanto tempo à janela pode tê-lo tornado mais sensível para pequenas variações que nos escapam. Estamos demasiado habituados a esta falsa luz, que não sabemos até que ponto altera a nossa visão.
- Lap tem razão.
- Vais deixá-lo sair? A porta terá de se fechar imediatamente. E uma vez fechada, não a conseguiremos abrir senão ao fim de uma hora. E se nada mudou, como resistirá ele lá fora, sob a nuvem tóxica, durante uma hora? Queres usá-lo como cobaia, é isso?
Discutiram durante muito tempo. Com Hans e sem Hans. Para este, não havia dúvidas. Espantava-se de que não vissem tão claramente como ele o mundo renascido, mas o certo é que esse mundo o esperava. Não havia hesitação. Da sua parte, não havia a menor hesitação. E parecia lúcido: argumentava inteligentemente, um pouco excitado mas sem qualquer vestígio de delírio.
Estava à porta. Olhou para os seus companheiros um por um.
Tinha a certeza. Estava seguro. Sabia o que eles pensavam, lia-o nos rostos tensos, dramáticos. «E se o Hans não volta? E se o Hans morre?»
Uma vez saindo, não havia volta. A porta teria de ser imediatamente fechada nas suas costas, e não poderiam abri-la senão ao fim de uma hora. Se não tivesse razão, ao fim de uma hora iriam recolher o seu cadáver.
Tremeu. Não chegou a ser hesitação. Nem frio. Fora uma tremura nervosa.
A porta abriu-se. Hans saiu. A porta fechou-se nas suas costas.
Passara os últimos dias olhando fixamente, cheio de fé, de uma fé irrealista que o tornava inapto para as tarefas da casa.
Os outros irritavam-se. Ada, sobretudo, enervava-se muito com a sua atitude:
- Tu não podes esperar que sejamos nós a fazer tudo. É injusto. Estamos juntos nesta situação, precisamos uns dos outros, precisamos de todos.
Clark, que, tacitamente, era visto pelo grupo como o líder, procurava acalmá-la:
- Ele está mal, Ada. Dá-lhe tempo. Deixa-o recompor-se. Foi o que sofreu mais de todos nós. Perdeu os pais, os filhos...
Ada chorava. Não de pena, mas de raiva, de uma raiva mesquinha contra Hans, e do orgulho ferido por Clark, que ela continuava amando secretamente.
- Quanto tempo lhe queres dar, Clark?
- Dá-lhe tempo, Ada, dá-lhe algum tempo. É só do que ele precisa...
Hans via claramente que, no exterior, tudo se recompunha. Não o dizia a ninguém. Mantinha segredo. Os outros ainda lhe agradeceriam, quando ele anunciasse: «Podemos sair, o mundo renasceu lá fora!»
Hans percebia perfeitamente que o cinzento começara a dar lentamente lugar a cores, que algumas flores brotavam do chão; pensava, comovido: «Há flores prontas a regressar à menor oportunidade, mesmo num mundo estragado. E que força! A força com que rompem o alcatrão, com que fendem as estradas...»
Um dia, Hans gritou.
Os outros aproximaram-se, a medo.
Mas o jovem ria-se. Apontava com o dedo pela janela. O mundo regenerara. Por completo. Estava pronto a recebê-los, reanimado, animado da sua eterna pujança.
- Que achas? -, perguntou Lake.
- Acho que ele enlouqueceu -, respondeu Ada.
- Também acho, infelizmente -, confirmou Clark. - A sua fé criou uma espécie de alucinação que, sob efeito das recordações, o faz ver o mundo lá fora como era antes.
- Ele quer sair. Podemos prendê-lo? -, interrogava-se Eva.
- Temos de o convencer -, experimentava Clark.
- Convencê-lo? -, troçava Ada. - Como se convence um louco?
- Temos de admitir outra hipótese -, arriscou Lap. Corou muito perante o silêncio atento que se fez em torno das suas palavras. Depois, nervosamente, com excesso de gestos, prosseguiu. - Temos de admitir a hipótese de que ele tenha razão. De que ele esteja a ver as coisas como elas de facto são, e nós não.
- Todos nós enganados? Loucos? E ele a percepcionar adequadamente? Mas porquê?
- Bem, o facto de ele ter passado tanto tempo à janela pode tê-lo tornado mais sensível para pequenas variações que nos escapam. Estamos demasiado habituados a esta falsa luz, que não sabemos até que ponto altera a nossa visão.
- Lap tem razão.
- Vais deixá-lo sair? A porta terá de se fechar imediatamente. E uma vez fechada, não a conseguiremos abrir senão ao fim de uma hora. E se nada mudou, como resistirá ele lá fora, sob a nuvem tóxica, durante uma hora? Queres usá-lo como cobaia, é isso?
Discutiram durante muito tempo. Com Hans e sem Hans. Para este, não havia dúvidas. Espantava-se de que não vissem tão claramente como ele o mundo renascido, mas o certo é que esse mundo o esperava. Não havia hesitação. Da sua parte, não havia a menor hesitação. E parecia lúcido: argumentava inteligentemente, um pouco excitado mas sem qualquer vestígio de delírio.
Estava à porta. Olhou para os seus companheiros um por um.
Tinha a certeza. Estava seguro. Sabia o que eles pensavam, lia-o nos rostos tensos, dramáticos. «E se o Hans não volta? E se o Hans morre?»
Uma vez saindo, não havia volta. A porta teria de ser imediatamente fechada nas suas costas, e não poderiam abri-la senão ao fim de uma hora. Se não tivesse razão, ao fim de uma hora iriam recolher o seu cadáver.
Tremeu. Não chegou a ser hesitação. Nem frio. Fora uma tremura nervosa.
A porta abriu-se. Hans saiu. A porta fechou-se nas suas costas.
terça-feira, junho 06, 2006
INCONSCIENTE E MÁ-FÉ
Sartre nunca gostou muito de Freud. À ideia de «inconsciente», respondia com a noção de uma consciência sem zonas obscuras. Não, argumentava ele, o sujeito é pura consciência, uma consciência total e completa, sem estrutura nem qualquer mecanismo ou forma «a priori»; é, afinal, um nada - aquele nada no sentido sartreano (néant), que a língua portuguesa nunca conseguiu traduzir satisfatoriamente.
Mas - perguntava-se-lhe -, se o sujeito é consciência, como pode ignorar tanto de si, dos seus impulsos mais recônditos, como pode haver actos que não é capaz de explicar, cujas razões desconhece ou deturpa?
Ah!, dizia ele, isso é por causa da má-fé.
A má-fé ganhou, com Sartre, foros de conceito filosófico. Tratava-se de pensar uma espécie de truque da consciência, uma capacidade de se enganar a si própria, sem realmente se enganar uma vez que, em última análise, não podia deixar de perceber o jogo com que se mascarava de si para si.
O sujeito conhece os seus impulsos, as suas intenções, as suas motivações: nada lhe é verdadeiramente inconsciente. Mas, eis o segredo, pode actuar como se não soubesse, ou como se não tivesse a certeza, ou como se aceitasse outra explicação ou outra hipótese, levando esse «como se», por vezes, ao extremo ponto de, não acreditando, quase acreditar ou, por momentos, acreditar de facto na sua ignorância.
O exemplo mais conhecido desta atitude da consciência, é-nos oferecido pelo próprio Sartre: a jovem que conversa, à mesa de um café ou de um restaurante, com alguém que intenta seduzi-la. O homem, num determinado momento, pousa a sua mão sobre a mão dela. E ela, que poderia retirar imediatamente a sua, chocada, ou recuar de algum modo, pelo contrário deixa-a estar abandonada sob o suave toque, o peso daqueles dedos, continuando porém a falar acerca de filosofia, ou de religião, ou de temas excelsos, como se não tivesse notado, ou como se não tivesse compreendido, ou não desse nenhuma significação especial ao gesto, ou como se acreditasse na inocência deste...! Como se o tema e a conversa o impregnassem de leveza, de inocência, o esvaziassem de toda a intenção amorosa e de toda a sensualidade.
Há muitos anos, um amigo meu, casado e bom rapaz, tinha sido convidado por uma colega, com quem, obviamente se dava muito bem, para jantar em casa dela. A sós. O pretexto era que se tratava de uma casa nova, para onde ela mudara recentemente e que lhe queria mostrar.
Quando hoje ele se lembra desta situação, tenta sempre acreditar que aceitou inocentemente, sem ler nada nas entrelinhas e achando normal que uma colega, uma quase-amiga, com quem se dava muito bem, o convidasse para jantar em casa dela. Tenta acreditar que era possível, e lhe foi possível, não achar estranho, nem ler no convite para jantar nenhum segundo convite.
Respondemos-lhe: «Não é possível tamanha inocência!»
Do ponto de vista de Sartre, toda a inocência é uma forma de má-fé.
Não garanto que isto supere Freud, que explique os actos mais ou melhor do que o inconsciente explicaria.
Não sei se, aliás, o «inconsciente» e a «má-fé» são contraditórios e, como tal, se excluem mutuamente.
Ambos me parecem fazer todo o sentido.
Mas - perguntava-se-lhe -, se o sujeito é consciência, como pode ignorar tanto de si, dos seus impulsos mais recônditos, como pode haver actos que não é capaz de explicar, cujas razões desconhece ou deturpa?
Ah!, dizia ele, isso é por causa da má-fé.
A má-fé ganhou, com Sartre, foros de conceito filosófico. Tratava-se de pensar uma espécie de truque da consciência, uma capacidade de se enganar a si própria, sem realmente se enganar uma vez que, em última análise, não podia deixar de perceber o jogo com que se mascarava de si para si.
O sujeito conhece os seus impulsos, as suas intenções, as suas motivações: nada lhe é verdadeiramente inconsciente. Mas, eis o segredo, pode actuar como se não soubesse, ou como se não tivesse a certeza, ou como se aceitasse outra explicação ou outra hipótese, levando esse «como se», por vezes, ao extremo ponto de, não acreditando, quase acreditar ou, por momentos, acreditar de facto na sua ignorância.
O exemplo mais conhecido desta atitude da consciência, é-nos oferecido pelo próprio Sartre: a jovem que conversa, à mesa de um café ou de um restaurante, com alguém que intenta seduzi-la. O homem, num determinado momento, pousa a sua mão sobre a mão dela. E ela, que poderia retirar imediatamente a sua, chocada, ou recuar de algum modo, pelo contrário deixa-a estar abandonada sob o suave toque, o peso daqueles dedos, continuando porém a falar acerca de filosofia, ou de religião, ou de temas excelsos, como se não tivesse notado, ou como se não tivesse compreendido, ou não desse nenhuma significação especial ao gesto, ou como se acreditasse na inocência deste...! Como se o tema e a conversa o impregnassem de leveza, de inocência, o esvaziassem de toda a intenção amorosa e de toda a sensualidade.
Há muitos anos, um amigo meu, casado e bom rapaz, tinha sido convidado por uma colega, com quem, obviamente se dava muito bem, para jantar em casa dela. A sós. O pretexto era que se tratava de uma casa nova, para onde ela mudara recentemente e que lhe queria mostrar.
Quando hoje ele se lembra desta situação, tenta sempre acreditar que aceitou inocentemente, sem ler nada nas entrelinhas e achando normal que uma colega, uma quase-amiga, com quem se dava muito bem, o convidasse para jantar em casa dela. Tenta acreditar que era possível, e lhe foi possível, não achar estranho, nem ler no convite para jantar nenhum segundo convite.
Respondemos-lhe: «Não é possível tamanha inocência!»
Do ponto de vista de Sartre, toda a inocência é uma forma de má-fé.
Não garanto que isto supere Freud, que explique os actos mais ou melhor do que o inconsciente explicaria.
Não sei se, aliás, o «inconsciente» e a «má-fé» são contraditórios e, como tal, se excluem mutuamente.
Ambos me parecem fazer todo o sentido.
quarta-feira, maio 31, 2006
A EDUCAÇÃO DA MINISTRA
Por alguma inescrutável razão, associada, certamente, a uma persistente candura da minha parte, tudo isto ainda me espanta. Não deveria: a maturidade tem que ver com um conhecimento tão profundo dos seres humanos, que se não deixe surpreender com o que eles possam fazer. Mas espanto-me.
Que a educação pública (Pulido Valente propunha que se lhe chamasse «instrução», nunca mais do que isso) esteja, em Portugal, nas mãos de uma equipa chefiada - e simbolizada - por uma mulher que não gosta dos professores, os considera privilegiados e preguiçosos, irresponsáveis e desleixados; que entende que há uma reforma a fazer e que essa reforma se esgota em ensinar os professores a ensinar, em discipliná-los e em acusá-los dos males; que o insucesso deve ser abolido - o qual não existe, na sua perspectiva, senão porque os professores o provocam, sendo a solução, portanto... forçá-los a não atribuir negativas, ou penalizá-los quando o fazem; que, finalmente, como se o achincalhamento não fosse já suficiente, como se a quebra sistemática da autoridade, da última réstia de autoridade perante os meninos, não fosse grave e carregada de consequências, se deixe agora adivinhar a possibilidade de que os pais dos alunos avaliem os professores - é tudo de uma tamanha perversão ética e pedagógica, exprime uma tal inversão de valores, uma tão grande capacidade de errar no geral e no particular, uma tão grande capacidade de se enganar nos princípios e no concreto, que se torna praticamente insultuoso.
Não interessa perguntar quais as razões psicológicas - que as haverá - desta política suicida. O que alimenta um tal ódio e uma visão tão desfocada, tão, poderíamos dizer, poderosa e sublime no disparate, é-nos aqui indiferente.
Interessa reconhecer que os professores estão frustrados, que se sentem desprezados e desvalorizados; que este seu desvalor, que era já a parte principal da imagem que a sociedade fabricara da «escola» e dos «docentes», se agrava, nas mãos de uma ministra limitada e teimosa, até ao impossível; que não há alternativas - ou que os professores não têm alternativas que não sejam as sindicais, sendo que os sindicatos, por outro lado, primam pelo envelhecimento, pela falta de imaginação, pela incapacidade de analisar e pensar séria e profundamente.
Interessa perceber que os docentes não estão abatidos (no sentido de deprimidos ou cabisbaixos): abateram-nos (no sentido que a palavra adquire nos matadouros). Os professores foram sistematicamente abatidos.
Tão cedo, a cultura não se recomporá deste ataque.
O que está por detrás da seriedade e da inflexibilidade da ministra é, curiosamente, uma cultura do desleixo e da permissividade. Uma cultura de quebra de exigência no ensino. Porque a essa exigência, onde e quando existe, a ministra chama «produção de insucesso».
Hoje, os meninos agradecem.
Os pais dos meninos, obviamente, também.
Amanhã, ver-se-á!
Que a educação pública (Pulido Valente propunha que se lhe chamasse «instrução», nunca mais do que isso) esteja, em Portugal, nas mãos de uma equipa chefiada - e simbolizada - por uma mulher que não gosta dos professores, os considera privilegiados e preguiçosos, irresponsáveis e desleixados; que entende que há uma reforma a fazer e que essa reforma se esgota em ensinar os professores a ensinar, em discipliná-los e em acusá-los dos males; que o insucesso deve ser abolido - o qual não existe, na sua perspectiva, senão porque os professores o provocam, sendo a solução, portanto... forçá-los a não atribuir negativas, ou penalizá-los quando o fazem; que, finalmente, como se o achincalhamento não fosse já suficiente, como se a quebra sistemática da autoridade, da última réstia de autoridade perante os meninos, não fosse grave e carregada de consequências, se deixe agora adivinhar a possibilidade de que os pais dos alunos avaliem os professores - é tudo de uma tamanha perversão ética e pedagógica, exprime uma tal inversão de valores, uma tão grande capacidade de errar no geral e no particular, uma tão grande capacidade de se enganar nos princípios e no concreto, que se torna praticamente insultuoso.
Não interessa perguntar quais as razões psicológicas - que as haverá - desta política suicida. O que alimenta um tal ódio e uma visão tão desfocada, tão, poderíamos dizer, poderosa e sublime no disparate, é-nos aqui indiferente.
Interessa reconhecer que os professores estão frustrados, que se sentem desprezados e desvalorizados; que este seu desvalor, que era já a parte principal da imagem que a sociedade fabricara da «escola» e dos «docentes», se agrava, nas mãos de uma ministra limitada e teimosa, até ao impossível; que não há alternativas - ou que os professores não têm alternativas que não sejam as sindicais, sendo que os sindicatos, por outro lado, primam pelo envelhecimento, pela falta de imaginação, pela incapacidade de analisar e pensar séria e profundamente.
Interessa perceber que os docentes não estão abatidos (no sentido de deprimidos ou cabisbaixos): abateram-nos (no sentido que a palavra adquire nos matadouros). Os professores foram sistematicamente abatidos.
Tão cedo, a cultura não se recomporá deste ataque.
O que está por detrás da seriedade e da inflexibilidade da ministra é, curiosamente, uma cultura do desleixo e da permissividade. Uma cultura de quebra de exigência no ensino. Porque a essa exigência, onde e quando existe, a ministra chama «produção de insucesso».
Hoje, os meninos agradecem.
Os pais dos meninos, obviamente, também.
Amanhã, ver-se-á!
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